Autoplay

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Por: Gilson Tinen

INTRODUÇÃO


É bastante comum na espeleologia enfrentarmos caminhadas relativamente longas através de trilhas, seja para alcançarmos a boca de uma caverna mais afastada, seja em trabalhos de prospecção em campo. Neste contexto, consideraremos como “longa” qualquer trilha que exija mais de meia hora de caminhada. Trinta minutos de caminhada equivale a uma distância entre dois e três quilômetros, dependendo do peso da mochila e da dificuldade da trilha.
Embora esta distância não seja exatamente “longa”, devemos considerar que existe a possibilidade do tempo de percurso se estender para muito além do que gostaríamos em decorrência de fortes chuvas, inundação de condutos e rios, acidentes, desvios de rota e outras tantas ocorrências a que estamos sujeitos nas trilhas e cavernas.
E, para que tenhamos uma jornada tranqüila, sempre devemos estar adequadamente preparados. Claro que uma boa ou razoável forma física ajuda muito. Mas alguns itens na mochila e algumas poucas providências podem tornar muito confortáveis, prazerosas e, principalmente, bastante seguras estas travessias.
Desde já alerto que sempre é muito difícil conciliar orientação básica à brevidade e completude dos textos. E este não é exceção. Assim, ao final indico alguns livros para que você possa expandir seus conhecimentos a respeito de montanhismo, excursionismo e espeleologia e para que você forme sua própria convicção a respeito destes assuntos. Periodicamente este texto será atualizado com vistas a acrescentar ou corrigir informações.
Seguindo adiante, as primeiras providências a serem tomadas sempre que decidimos partir em direção a regiões mais afastadas, são:
01) Juntar o máximo de informações possíveis a respeito do que será enfrentado adiante, a fim de carregarmos em nossas mochilas apenas o que for necessário. É muito comum carregarmos equipamentos que não serão utilizados, e, ao mesmo tempo, sentirmos falta de itens que foram deixados em casa, no carro ou no acampamento base. Não carregue peso à toa nem se submeta à privações. Informe-se antes de partir para a aventura. Também, sempre observe o que as pessoas mais experientes estão carregando e questione-as caso tenha dúvidas.
02) De posse das informações, faça uma lista dos itens que deverão ser colocados na mochila. A cada saída deveremos revisar esta lista, fazendo ajustes de acordo com a experiência adquirida e com aquilo que nos aguarda na nova jornada (reforçando a providência 01 acima).
03) Avisar familiares, a administração dos parques ou pessoas que conheçam a região de destino. Caso tudo dê errado, esta poderá ser a única chance de retorno à civilização.
04) Espeleologia é uma atividade coletiva. E, com relação àquilo que será colocado na mochila, existirão os itens de utilização pessoal e os itens de utilização coletiva. De início, preocupe-se unicamente em carregar seus itens de utilização pessoal. Os itens de utilização coletiva sempre serão separados e distribuídos para transporte entre os membros da equipe pelo pessoal mais experiente. Em caso de dúvidas, questione-os.

MOCHILAS


Se você começou a praticar a atividade faz pouco tempo, saiba que não é imprescindível a aquisição de uma boa mochila. Pelo menos por enquanto. Em espéleo utilizamos o “saco de espéleo” ou “mochila de caverna”. Ela é normalmente confeccionada com um material bastante grosso e resistente à abrasão o que possibilita seu arraste sobre as rochas. Perceba que estas mochilas não possuem bolsos externos nem são equipadas com zíper. O fato é que bolsos só servem para enroscar dentro das cavernas e os zíperes emperram quando sujos de lama. Algumas mochilas possuem um dispositivo que as tornam impermeáveis. Mas com o passar do tempo esta vedação deixará de funcionar, pois é inevitável o surgimento de furos, cortes e rasgos quando as utilizamos em cavernas.
Sacos de Espéleo
sacos
Por outro lado, embora as mochilas de caverna sejam perfeitas para serem arrastadas nos tetos baixos e subidas de abismos, nas trilhas elas são bastante desconfortáveis vez que normalmente não possuem barrigueira, nem isolamento eficiente nas costas, nem alças acolchoadas.
Todas estas características estão presentes (ou deveriam estar) nas mochilas de trilha. A barrigueira permite que o peso da mochila seja transferido dos ombros para a cintura, baixando o ponto de equilíbrio e estabilizando as passadas. A proteção nas costas serve para que não sejamos “cutucados” nas costas pelas tralhas que carregamos dentro da mochila. As alças acolchoadas (inclusive da barrigueira) servem para distribuir o peso da carga numa área maior de nosso corpo, diminuindo a pressão em pontos específicos e aumentando o conforto durante as longas caminhadas.
Entretanto, como as mochilas de trilha não foram feitas para serem arrastadas dentro de cavernas não tardará o surgimento de rasgos, furos e emperramento de zíperes. Assim, você deverá optar entre o conforto das mochilas de trilha ou a durabilidade das mochilas de caverna.

Mochilas de Trilha
mochilas

Já para as incursões longas onde se pretenda passar vários dias em trabalhos de prospecção, exploração, etc., é inevitável a utilização de mochilas cargueiras. Estas mochilas são suficientemente grandes para que possamos transportar com absoluto conforto o saco de dormir, isolante térmico, panela, fogareiro, comida, agasalho, barraca, etc. Não é raro nossas mochilas cargueiras ficarem com 20-25 quilos de carga.
Em contraposição à mochila cargueira que podem passar dos 100 litros, as mochilas pequenas estudadas anteriormente são conhecidas como “mochilas de ataque” seja a de trilha, seja a de caverna.

Mochilas Cargueiras
cargueiras

OS DEZ ITENS A SEREM COLOCADOS NA MOCHILA


Adiante na montagem da mochila, relaciono a os itens por ordem de essencialidade. 01) Água e comida. Mais básico e essencial que isto, impossível. Como cantil, pode-se utilizar garrafas PET de refrigerante vez que são muito leves e resistentes, vedam complemente o bocal e podem ser amassadas quando vazias ou parcialmente vazias, para poupar espaço na mochila. E é o que basta. Quanto à comida, depende do gosto, apetite e do tempo de permanência na trilha. Quanto mais longínquo ou penoso for o local de trabalho, mais atenção deveremos dar a este item. Não é raro termos nossa volta retardada ou impedida durante um período relativamente longo devido a uma forte chuva, inundação de conduto ou acidente com um companheiro de trilha, a despeito de todo cuidado que tomemos.
02) Capacete. Não se adentra uma caverna sem um capacete sobre a cabeça. E é muito freqüente este item ser esquecido no carro ou no acampamento base. Neste caso, somente restará a este esquecido participante ficar na boca da caverna aguardando seus companheiros retornarem da aventura.
03) Fonte de luz primária. A fonte de luz primária deve estar presa ao capacete para permitir ambas as mãos livres. Também não se deve esquecer das pilhas ou baterias extras e carregadores. Até alguns anos atrás, utilizava-se como iluminação primária padrão a chama resultante da queima de acetileno gerado nos reatores ou carbureteiras. Em diversas localidades tal prática foi abolida. Informe-se antes de partir para a aventura.
Dica: ao caminhar pelas trilhas durante o dia, prefiro usar um boné. Protege do sol e impede que a água da chuva escorra nos olhos. O capacete vai dentro da mochila vez que é pesado e sempre enrosca na vegetação fechada. Ao escurecer troco o boné pelo capacete. Acendo a luz primária e sigo adiante. Caso a luminosidade atraia insetos em quantidade suficiente para encher a boca, nariz e olhos, coloque o capacete debaixo do braço, carregue-o nas mãos ou use a lanterna (luz secundária). Por fim, uso uma bandana sob o capacete. Isto protege a testa da fricção causada pelo suporte interno do capacete (também conhecido como “carneira”). Pior ainda quando temos terra ou areia grudada na testa por causa da transpiração.
04) Fonte de luz secundária. Uma pequena lanterna e, claro, pilhas extras fazem parte do “kit fundamental” de trilha e caverna e devem sempre estar à mão. Caso queira investir numa boa lanterna, prefira as que iluminam a partir de led (ao invés de lâmpadas incandescentes) vez que proporcionam boa luminosidade com baixíssimo consumo. Melhor ainda se cumulativamente esta lanterna for a prova d’água ou, mesmo, resistente à água. A diferença entre “a prova d’água” e “resistente à água” é que a primeira pode ser mergulhada, respeitada a profundidade máxima admitida pelo fabricante. “Resistente à água” que dizer que você pode usar este equipamento sob chuva ou eventualmente mantê-lo mergulhado por alguns minutos sob a água rasa.
05) Agasalho e roupa seca. Nas longas trilhas, ainda que sob um sol de rachar, carregar na mochila uma camiseta extra e um agasalho (blusa de lã) dentro de um pequeno saco estanque é uma prática altamente recomendável, seja para se aquecer num ponto abrigado, seja para enfrentar uma fria madrugada na qual se adentrou em decorrência de inesperados contratempos. Aliados à capa de chuva ou ao anorak, nada proporcionará mais conforto e alento do que estar seco e aquecido a despeito de qualquer tipo de problema. Para substituir o saco estanque, podemos usar três sacos plásticos de supermercado. Coloque as roupas dentro do primeiro saco, tire o ar e amarre a boca. Em seguida, coloque este saco dentro do outro saco, tire o ar e amarre a boca. Repita a operação com o terceiro saco. Seguinte... embora isto funcione, ainda que tenhamos que fazer pequenas travessias a nado, isto é uma tremenda gambiarra. Assim que possível adquira um pequeno saco estanque. É barato e seguro, além de permitir submergir completamente sua mochila sem correr nenhum risco de molhar suas roupas. Com relação à blusa de lã, este é um dos poucos materiais que aquecem mesmo estando molhado. E a razão disto é que a lã é capaz de reter ar em sua trama ainda que encharcada. É exatamente esta camada de ar que proporciona o isolamento do ambiente externo. O calor provém de seu próprio corpo e fica retido sob a blusa de lã. Duas blusas finas de lã reterão mais ar que uma única blusa de lã grossa.
06) Estojo de Medicamentos. Este item é fundamental, mas não exagere. Mais importante do que carregar uma filial da Drogaria do Povo nas costas, é sempre carregar consigo os medicamentos pessoais. Por exemplo, pessoas que possuem reação alérgica à picada de insetos, devem carregar anti-histamínico e repelente em sua mochila. Meninas que sofrem cólicas eventuais devem carregar anti-espasmódico em sua nécessaire. Pessoas que fazem algum tratamento médico devem carregar os medicamentos prescritos. Pessoalmente, sempre carrego descongestionante nasal e analgésico para minhas eventuais cefaléias. Fora isto, sempre tenho comigo spray anti-séptico, repelente de insetos spray, band-aid, esparadrapo à prova d’água e pastilhas de cloro para purificar água. Claro que nem todos estes itens referem-se a “medicamentos”, mas estão todos juntos e acompanham-me em todas as saídas. Percebeu que em nenhum momento eu citei “Primeiros Socorros” ? É que Primeiros Socorros são ações visando a preservação da vida e significa muito mais que um conjunto de equipamentos ou de medicamentos. Requer treinamento específico e reciclagem periódica. Fique atento aos treinamentos promovidos pelo GPME.
07) Capa de chuva ou anorak. Na Mata Atlântica não é raro um amanhecer ensolarado e um entardecer chuvoso. Assim, para manter o calor corporal sob a chuva enquanto andamos pela trilha, nada é mais fundamental do que uma capa de chuva ou um anorak. Para os iniciantes em trilhas, basta aquela capa plástica vendida em estádios de futebol. É muito leve, ocupa pouco espaço na mochila e é muito barato relativamente à sua utilidade. Com o tempo ou com disponibilidade financeira é melhor adquirir um anorak. Além de proteger da chuva, o anorak corta o vento, assim impedindo a perda de calor corpóreo mesmo em locais abertos como no alto de uma montanha. Alguns anoraks possuem aberturas sob os braços e nas costas com vistas a permitir a ventilação ainda que sob um temporal. Mas, sinceramente, nunca vi este recurso funcionar a contento. Protegidos pelo anorak, em trilhas chuvosas, é muito comum ficarmos complemente ensopados pela nossa própria transpiração. Entretanto, permanecemos aquecidos, pelo menos enquanto estivermos andando e assim gerando calor pela movimentação física. Assim, sob a chuva não devemos jamais prolongar as paradas para descanso além do necessário. Quando estamos parados a roupa molhada (pela chuva ou pela transpiração) rapidamente resfria o corpo e o risco de hipotermia é muito grande. A hipotermia é causada pela exposição prolongada ao frio. Quando se perde mais calor do que a quantidade que o organismo consegue gerar, temos o quadro de hipotermia e pode ocorrer ainda que em regiões de clima tropical como o Brasil. O contato com a água é a principal causa de hipotermia na espeleologia. Entretanto, estando adequadamente equipado podemos anular ou minimizar este problema.
08) Fonte de fogo. Basta um isqueiro guardado dentro do saco estanque (ou das três sacolas de supermercado...). Alerto que somente deverá ser utilizado em caso de emergência diante de um quadro de hipotermia. Veja que é terminantemente proibido fazer fogueiras em Parques Estaduais ou Nacionais, Áreas de Proteção Ambiental, Unidades de Conservação, etc. E se você foi suficientemente cuidadoso e colocou na mochila os itens anteriores, dificilmente terá que usar este recurso. Mas, de qualquer maneira, é bom tê-lo guardado dentro do saco estanque ou dentro de um tubo estanque para comprimidos efervescentes (Redoxon). Isqueiros molhados são absolutamente inúteis. Nas bocas das grutas e abrigos, a salvo da chuva, é quase sempre possível encontrar galhos secos para fazer uma fogueira e se manter aquecido até que as coisas melhorem. Mas em trilha aberta sob a chuva, talvez seja mais prudente manter-se em movimento em direção a um ponto seguro.
09) Canivete. Embora existam canivetes com dezenas de funções, as mais importantes são a lâmina grande e a lâmina serrilhada para cortar galhos. Numa situação de emergência talvez seja necessário cortar tiras da própria roupa para enfaixar um companheiro ou então cortar um galho para construir, por exemplo, um apoio para alguém que tenha torcido o tornozelo ou o joelho.
10) Apito. Este é um item básico de sobrevivência. Nossas cordas vocais não suportam mais do que alguns minutos gritando. Em pouco tempo ficamos roucos ou perdemos completamente a voz. Por outro lado, podemos passar vários dias soprando um apito. Este equipamento permite comunicações pré-convencionadas a uma distância relativamente longa, além de auxiliar equipes de resgate na sua localização. Carregue sempre. É leve, barato e, no limite, poderá ser a única esperança de retorno à civilização. Prenda-o no capacete, canivete ou na lanterna ou, ainda, um em cada um destes equipamentos.
Para se iniciar em cavernas e trilha, é o que basta. Roupas de banho sob a vestimenta permitirão curtir um rio, cachoeira ou um lago nas proximidades. Poderíamos acrescentar aos itens a serem carregados na mochila o protetor solar, óculos escuro, boné e repelente de insetos. Quem sabe, até um chinelo e uma toalha. Sim. Passeio e diversão fazem parte da coisa.

OS DEZ ITENS QUE AUMENTAM O CONFORTO E A SEGURANÇA


Ultrapassada a lista de itens essenciais a serem transportados em trilhas e cavernas, seguimos adiante com os equipamentos que requerem um pouco mais de investimento e equiparão aqueles que pretendem praticar a espeleologia com mais freqüência. Assim, a estes recomendo fortemente:
01) Bota de trilha. Botas de trilha são caras e pesadas. Mas são extremamente duráveis e resistentes. O cano ou gola alta protegem os tornozelos de pancadas e torções. Os cadarços permitem o perfeito ajuste aos pés. O solado, normalmente bastante rígido, proporciona estabilidade ao caminhar em pisos irregulares, ao invés de sofrerem torções, como num tênis. Sempre utilize a bota de trilha com dois pares de meias de algodão. Isto impedirá que areia e pedriscos que insistem em entrar dentro da bota causem qualquer incômodo. Para tanto, é necessário comprar a bota pelo menos um número maior para acomodar confortavelmente os pés e estes dois pares de meia. Dica importante, não se estréia uma bota nova em trilhas, cavernas e montanhas. Dê um jeito de usá-las na cidade antes de colocá-las para ralar. A melhor maneira de não ter bolhas nos pés é evitando-as a todo custo. Caso ainda assim surjam bolhas, a solução é aplicar diretamente sobre a pele um pedaço de silver tape. Esparadrapo a prova d’água também funciona, mas como tem baixo poder de adesão, fatalmente sairá do lugar, expondo doloridamente a área de tecido lesionado.
02) Luvas de raspa de couro. Quanto mais o terreno é irregular, escorregadio e inclinado (ou tudo isto simultaneamente) mais utilizamos as mãos como apoio às nossas passadas. E é bem freqüente, da pior maneira possível, descobrirmos espinhos e superfícies cortantes ou ásperas a cada metro do calvário. Assim, nada mais adequado do que um bom par de luvas. Poupe suas mãos.
03) Macacão. No sul e sudeste, devido ao clima mais frio e chuvoso e a presença de água fria nas cavernas, normalmente são utilizados macacões confeccionados em nylon e cordura. O nylon é razoavelmente resistente à abrasão e retém pouca água. Assim, seca rapidamente o que evita a perda excessiva de calor corpóreo. Já a cordura tem alta resistência à abrasão e é utilizada como reforço nas áreas de maior atrito do macacão. Sua trama impede que se abram rasgos no tecido. Assim como o nylon, retém pouca água o que acelera sua secagem. Embora quando utilizado em trilhas ensolaradas tenha um efeito de “cozimento a vapor” você evitará as escoriações provocadas pela vegetação, ainda mais se a trilha for fechada ou, pior, se não existir trilha a ser seguida. Já no nordeste é normal a utilização de macacões de algodão de mangas curtas devido ao clima quente e seco. No geral, macacões evitam a entrada de terra, areia e pedriscos dentro das roupas. Também evitam a exposição de partes do corpo quando nos arrastamos pelos tetos baixos. Em São Paulo os macacões de algodão são facilmente encontrados em lojas de equipamentos de segurança da Rua Florêncio de Abreu e da Avenida Prestes Maia. Dica importante, nas saídas para estas localidades compre pelo menos dois ou três macacões de algodão. Enquanto um está sendo lavado no acampamento base, o outro estará sendo utilizado na caverna ou trilha. De outro modo, com a forte transpiração, você poderá acabar sendo identificado apenas pelo cheiro. Evite este embaraço. Um reforço extra de cordura nos joelhos e na “traseira” prolongarão sua vida útil. Por outro lado, é difícil encontrar bons macacões confeccionados em nylon e cordura. Normalmente quem os fabrica são caverneiros que assumiram a árdua tarefa de correr atrás de costureiras ou, ainda, de pilotar uma máquina de costura. Se você tiver a sorte de conseguir encomendar ou comprar um destes macacões, não perca a oportunidade.

Em saídas de prospecção ou em direção às longínquas cavernas, sob mata fechada, recomendo jamais trajar bermuda, bem como calçados abertos (chinelo, papete, etc). Calças compridas (ou macacões) e calçados fechados são as vestimentas adequadas nestas incursões.
04) Demais peças de roupas de tecido sintético. O algodão é o material mais confortável que existe. O problema é que ele somente tem esta propriedade enquanto está seco. Depois de molhado demora muito tempo para secar vez que absorve grande quantidade de água. Esta característica é potencialmente mortal quando se anda em trilhas ou cavernas. Assim, na medida do possível, substitua todas as peças de roupa de algodão (ou que possua algodão em sua trama) utilizadas em trilhas e cavernas por peças de tecido sintético. Sob o macacão de nylon normalmente utilizo uma bermuda de lycra e uma camiseta de tecido sintético. Caso esteja frio, sobre a bermuda eu visto uma calça comprida e uma blusa de manga longa (segunda pele). Não bastando, visto por cima uma blusa de lã velha. Caso a caverna possua rios e lagos, sobre a segunda pele eu visto uma roupa de neoprene (vide item adiante). Isto permite enfrentar com absoluta tranqüilidade as cavernas paulistas que possuam caudalosos e frios cursos d’água.
05) Saco estanque. Embora já citado nos itens básicos individuais, repito a indicação. Dentro dele poderão ser guardados, além das roupas secas, os medicamentos, o isqueiro, os equipamentos eletrônicos (máquina fotográfica, GPS, etc.) e o lanche de caverna. Por possuir mil-e-uma utilidades este é um equipamento que vale a pena ser adquirido.
06) Fonte de luz terciária. Não é raro a luz primária pifar. E quando isto ocorre, recorremos à luz secundária. Entretanto, é bastante incômodo desenvolver atividades em cavernas segurando uma lanterna nas mãos. Logo, não seria excesso de zelo carregar na mochila uma terceira fonte de luz que possa ser presa no capacete, como, por exemplo, uma lanterna de corpo estreito com a ajuda de duas braçadeiras de nylon, ou, ainda melhor, uma head lamp extra.
07) Neoprene. Item indispensável quando iremos passar muito tempo em contato com a água fria de rios e lagos subterrâneos. O neoprene possui bolhas de ar que isolam a pele do contato direto com a água gelada. Um Short John de 3 mm de espessura é um ótimo investimento. Para os mais precavidos e friorentos, um Long John de 5 mm talvez seja uma melhor escolha. Mas tome muito cuidado ao utilizar estas roupas. Tão perigoso quanto a hipotermia é a hipertermia (excesso de calor). Assim que começar a sentir calor, para imediatamente, baixe a parte de cima do macacão de neoprene e enrole-o na cintura sob o macacão de nylon. Caso seja necessário, resfrie o corpo deitando no curso d’água. Pessoalmente, uso um Long John de 5 mm composto de duas peças. Trata-se de uma jardineira de 5 mm e sobre esta uma jaqueta de 5 mm de manga longa. No tronco, a espessura do neoprene alcança 10 mm de espessura. Mas, nos últimos tempos só tenho usado a jardineira devido ao excesso de calor verificado. Nos curtos trechos de natação a água gelada invade pela manga regata e pela ampla gola, mas rapidamente o calor corpóreo é restaurado ao sair da água. Perceba que estas vestimentas não têm o objetivo de vedar completamente o contato com a água. A água circulará pelo corpo, mas numa velocidade suficientemente baixa para não roubar calor corpóreo em demasia. Uma roupa de neoprene adequada deverá ser bem justa nas coxas e ante-braços, no caso do Short John ou nos tornozelos e punhos no caso do Long John. Dica importante, jamais enfrente trilhas ensolaradas de média ou longa distância trajando neoprene. De outro modo, a hipertermia será certeira. Carregue na mochila e vista o traje na boca da caverna. Lembrando, o neoprene é um material que tem baixa resistência à abrasão das rochas. Assim, vestir por cima dele um macacão de nylon e cordura prolongará sua vida útil.
08) Salva-vidas. Este equipamento proporciona uma tranqüila travessia de trechos de águas profundas. Caso esteja trajando neoprene, tal equipamento será dispensável, vez que o neoprene proporciona boa flutuabilidade. Um grupo pequeno pode compartilhar um colete salva-vidas, desde que se tenha à mão uma corda para puxá-lo de volta a cada travessia.
09) Manta térmica. Um bom planejamento, uma razoável forma física e uma mochila adequadamente montada quase sempre será suficiente para superar as situações normais de trilha e, inclusive, quase todos os imprevistos que possam surgir. Entretanto, quando tudo der errado e tivermos que parar na trilha por muito tempo sob a chuva ou com as roupas molhadas, é bom ter à mão uma manta térmica que é uma fina película plástica com superfície espelhada. Ao nos enrolarmos nela, como num cobertor, ela tem a propriedade de reter o calor corpóreo.
10) Perneira. Muito importante sua utilização em áreas com alta ocorrência de ofídios (cobras). Muitas serpentes possuem a capacidade de mimetização (imitação do meio circundante). Assim, elas podem ficar “invisíveis” até que estejamos suficientemente próximos do alcance de seu bote. Utilize sempre que tiver informações de alta incidência de ofídios na região que irá explorar e, independentemente de qualquer coisa, sempre preste atenção aonde coloca seus pés e suas mãos.

ITENS DE UTILIZAÇÃO COLETIVA


Daqui para frente, os equipamentos deixam de ser “individuais”, bastando que apenas um membro na equipe possua tal equipamento e, claro, que saiba como utilizá-lo corretamente. Com o passar do tempo, conforme a área de interesse seria bom pensar em adquirir alguns dos equipamentos a seguir listados.
01) GPS. Durante muito tempo a navegação através de mapas e bússola era a única forma de orientação do excursionista em regiões desconhecidas. Atualmente o GPS está sendo amplamente utilizado nesta função. Mas, por evidente, requer que seu operador saiba utilizar seus recursos. E não são poucos. Assim, ler o manual de operação é altamente enfadonho e necessário. Fique atento aos cursos promovidos pelo GPME.
02) Corda. É sempre útil nos trabalhos de prospecção termos á mão uma corda de, digamos, 15 a 30 metros. Ela permite superar pequenos desníveis com absoluta segurança. Mas sua correta utilização requer conhecimentos obtidos anteriormente a sua utilização. Fique atento aos cursos promovidos pelo GPME.
03) Escada de espéleo. Sempre deverá ser utilizada juntamente com uma corda de segurança. Este equipamento é útil para darmos uma rápida espiada em abismos, a fim de avaliarmos se vale a pena sua equipagem. Fique atento aos cursos promovidos pelo GPME.
04) Facão. Trilhas se fecham muito rapidamente caso não sejam utilizadas com freqüência ou caso não haja manutenção de tempos em tempos. Entretanto, seja para abrir ou reabrir trilhas, o facão é o equipamento correto ao intento. Quem vai à frente manipula o facão e os demais aguardam atrás em fila indiana a uma distância segura. Manipular o facão requer muita energia e cuidado. O maior risco é cortar-se com a lâmina. Assim, sempre devemos descer a lâmina fora da direção de nossas pernas. Os cortes devem ser feitos sempre de cima para baixo e da direita para esquerda ou da esquerda para a direita. Nas paradas para descanso jamais enterre sua ponta no solo. O risco de alguém desavisadamente chutar a lâmina ao caminhar é muito grande. Quando em desuso, mantenha-o na bainha ou deitado no chão com a lâmina voltada contra um tronco, monte de terra ou uma pedra. Sempre que você avistar um facão em descanso fora de uma posição segura, imediatamente corrija.
Os itens de utilização coletiva seguem ao infinito. Poderíamos acrescentar a esta lista rádios de comunicação, polias, totó (bóia inflável para transporte de mochila), bote inflável, barraca, máscara de mergulho, pá, picareta, macaco hidráulico, martelete à bateria, maca sked, mula para transporte de carga, fogareiro para preparar um chá quente ou uma sopa de envelope e outros tantos itens inusitados com vistas a superar alguma dificuldade específica na exploração proposta.

RECOMENDAÇÕES AOS EXPLORADORES


Embora os equipamentos proporcionem segurança e conforto nas trilhas e cavernas, a seguir passo a comentar as atitudes que devem ser observadas em trilha e cavernas.
01) Em subidas íngremes ou beiradas de abismo onde haja pedras soltas e pessoas na “linha de tiro”, tome cuidado ao se deslocar. Caso haja o desprendimento de rochas, grite imediatamente em alto e bom som, “PEDRA !!!!”. Sempre que você escutar este chamado desloque-se imediatamente para um local seguro. De outra maneira, mantenha-se afastado de locais onde possa haver a projeção de pedras, terra e cascalho.
02) Não jogue lixo nas trilhas e cavernas. Ao contrário, sempre que possível recolha todo o lixo que encontrar em seu caminho. 03) Não faça coleta de qualquer material que seja caso não esteja amparado por projeto de pesquisa ligada à entidade oficial de ensino.
04) Sempre carregue consigo os itens tidos como individuais e obrigatórios. Sua autonomia em relação ao grupo desonera todos os demais participantes. Nas trilhas e cavernas, não existem problemas individuais: todos os problemas serão problemas de todos. 05) Sempre preste atenção aonde coloca seus pés e suas mãos. Embora sejam muito raros os incidentes com animais peçonhentos, fique atento para não fazer partes das estatísticas.
06) Pela manhã sempre bata suas botas antes de calçá-la. Em locais afastados é bem freqüente aranhas, escorpiões e outros bichos procurarem abrigo durante a madrugada no interior de seu calçado, roupas e mochila. Por evidente, o mesmo procedimento deve ser adotado antes de entrar em seu saco de dormir. 07) Respeite seus limites. Se você não se sentir apto a fazer qualquer coisa que seja, não faça.
08) Sempre que tiver dúvidas, pergunte ou poste-as no grupo de discussão. 09) Em situações graves de perigo, tensão e acidentes, procure manter a calma e o cérebro funcionando.
10) Jamais use drogas nem ingira bebidas alcoólicas antes e durante as explorações.
BIBLIOGRAFIA
Beck, Sérgio. A Aventura de Caminhar. São Paulo: Editora Ágora Ltda, 1989
Beck, Sérgio. Ratos de Caverna. São Paulo: Cacá Artes Gráficas, 1999
Beck, Sérgio. Com Unhas e Dentes. São Paulo, 2002
Beck, Sérgio. Convite à Aventura. São Paulo, 2002
Requião, Cristiano. Manual do Montanhista. São Paulo: Livraria Nobel, 1992
Requião, Cristiano. Manual do Excursionista. São Paulo: Livraria Nobel, 1990

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.