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domingo, 14 de agosto de 2011

Barionix
Postedo em 14 Aug 2011 10:37 PM PDT
© Andrey Atuchin© Scott Hartman
Nome científico: Baryonyx walkeri.
Significado do Nome: Garra Pesada de Walker.
Tamanho: 9 metros de comprimento e cerca de 2,5 metros de altura.
Peso: 2 a 4 toneladas.
Alimentação: Carnívora.
Período: Cretáceo Infeior.
Local: Inglaterra, Portugal e Espanha.

© Mapa NASA/Visible Earth
Adaptado por Marcus Cabral
Quando viveu o Barionix
© Marcus Cabral


Imagine esta cena. Inglaterra, 1983. Um homem, William Walker, caçador de fósseis amador, anada pelo poço de argila de Smokejacks, em Wallis Wood. Este local em Ockley, perto de Dorking no condado de Surrey tem rochas datadas do Cretáceo Inferior. O homem observa o solo onde há pelo menos 120 milhões de anos houvera um enorme lago que cobria boa parte do norte da Europa, chamado Lago Wealden. Algo chama-lhe a atenção e ele aproxima-se, percebendo um osso projetando-se do solo. Ao examinar mais detalhadamente, para sua surpresa, William percebe ser uma enorme garra pontuda, de cerca de 25 centímetros o que indica um predador. William pede ajuda para remover a garra e outros fósseis e tendo isso em sua posse entra em contato com o Museu de História Natural de Londres, avisando que achara algo interessante onde antes era um delta do grande lago. Eu não sei se você leitor do Ikessauro consegue imaginar, mas eu gosto de criar mentalmente a cena da descoberta de um dinossauro importante quando leio sobre ela, imagino como deve ter sido para o descobridor, enfim, tudo mais. Claro que o que escrevi aqui, embora tenha me baseado nas informaçoes oficias da descoberta, é ficção, o modo como vejo a cena.
William J. Walker segurando a garra que encontrou
© Spinosauridae.fr.gd

Logo o museu manda especialistas, liderados por Alan J. Charig e Angela C. Milner, que começam a escavar o local em busca do resto do animal. O esqueleto estava lá, quase completo, cerca de 70% preservado e com a maioria dos ossos articulados, ou seja, na posição em que estavam em vida. Em 1986 o animal foi nomeado oficialmente como Baryonyx walkeri em homenagem a Walker. O esqueleto, que é o holótipo, foi reconstruído e uma réplica completa está em exposição no Museu de História Natural de Londres.
O fóssil original é etiquetado como BMNH R9951 na coleção do museu e consiste dos seguintes ossos:
  • Premaxila articulada;
  • Vomers articulados;
  • Parte anterior da maxila esquerda;
  • Ossos nasais também articulados;
  • Lacrimal esquerdo;
  • Prefrontral esquerdo;
  • Pós orbital esquerdo;
  • Parte final esquerda da caixa craniana;
  • Parte posterior da caixa craniana junto com occipício;
  • Jugal esquerdo;
  • Ambos os quadrados (quadrado é o nome do osso mesmo);
  • Ambas as partes da mandíbula onde ficavam os dentes;
  • Spleniais;
  • Surangular direita;
  • Angulares;
  • Coronóide direito;
  • Alguns dentes superiores e muitos dentes isolados de posições desconhecidas;
  • Axis;
  • 4 vértebras cervicais;
  • 12 vértebras dorsais;
  • 3 ou 4 vértebras caudais basais;
  • 3 vértebras caudais distais;
  • 1 costela axial;
  • 3 costelas cervicais;
  • Costelas dorsais;
  • Costelas abdominais;
  • Esterno;
  • Ambas as escápulas;
  • Os dois caracóides;
  • Dois húmeros;
  • Rádio esquerdo;
  • Ulna esquerda;
  • Polegar esquerdo com garra;
  • Digito esquerdo, possivelmente o 2º ou 3ºdígito;
  • Falanges isoladas de ambos os lados;
  • Ílio direito;
  • Osso púbico;
  • Ísquio esquerdo;
  • Final proximal (mais perto do corpo) do fêmur esquerdo;
  • Final distal (mais longe do corpo) do fêmur direito;
  • Fíbula direita;
  • Ossos do calcanhar direito;
  • Fragmentos do metatarso;
  • Garra do pé;

Apesar de ser apenas um indivíduo da espécie, o fóssil deu aos pesquisadores boas ideias de como o animal parecia e que tamanho tinha, pois a excelente preservação do material ajudou bastante, tendo inclusive os dentes e crânio preservados, partes importantes do corpo para se identificar hábitos alimentares e aparência do bicho. Apesar de por muito tempo este ter sido o único fóssil atribuído à espécie Baryonyx, alguns anos depois descobriu-se que fósseis há tempos atribuídos à um crocodilo eram extremamente semelhantes aos do Barionix.
Este crocodilo seria o Suchosaurus cultridens, que foi descrito por Sir Richard Owen em 1841 a partir de um único dente cônico gasto encontrado na Inglaterra. Outros dentes encontrados em Portugal foram identificados como outra espécie desse gênero, Suchosaurus girard por Sauvage, em 1897. Em 2007 no entanto Buffetaut redescreveu S. girard como Baryonyx walkeri e em 2011 Octavio Mateus e alguns colegas publicaram um artigo descrevendo um fósseis de Barionix encontrados em Portugal, estes mais completos incluindo partes do crânio.
Este exemplar foi descoberto por Carlos Natário, em 1999, na Formação Papo Seco, datada do Barremiano e entre 2004 e 2008 uma escavação foi realizada para recuperar mais ossos. O espécime contém muitos fragmentos e pedaços do crânio e dentes e está no Museu da Lourinhã, sob marcação ML1190.
Dente do espécime ML1190
© Mateus et al. (2011)

Foi descrito e atribuído a espécie Baryonyx walkeri. Por outro lado, no mesmo artigo (Mateus et al. 2011) os pesquisadores definem as espécies de Suchosaurus como Nomen dubium. Além desta confusão com o suposto crocodilo, há dúvidas se o Cristatussauro não é um espécime de Baryonyx. Em 2004, os paleontólogos Hutt e Newbery sugeriram que Suchomimus tenerensis deveria ser renomeado para Baryonyx tenerensis devido a novas descobertas que mostraram que as vértebras do Barionix eram mais parecidas com as de Suchomimus do que se pensava. Caso isso viesse a acontecer, automaticamente, ambos, Cristatussauro e Suchomimus passariam a ser Baryonyx e deixando os outros nomes de lado, pois Cristatussauro é às vezes tido como sinônimo de S. tenerensis. No entanto, como nada foi provado ainda e não se entrou em consenso sobre a classificação, Baryonyx, Suchomimus e Cristatussauro permanecem como gêneros diferentes.
Um crânio parcial foi achado em Burgos - Espanha, cidade de Sala de los Infantes e descrito em 2003, enquanto que pegadas na famosa trilha La Rioja foram sugeridas como pertencentes a Barionix ou algum parente próximo.
O Barionix anda na lama deixando suas pegadas
© TopGon

Garras foram recuperadas no Níger, mas sem um esqueleto é difícil associar a uma espécie e também a Ilha de Wight foi palco de um achado. Em 1997, uma loja de fósseis do Museu da Ilha de Wight vendeu um braço de Barionix, achados há muitos anos na costa sudoeste da ilha e armazenados até a data no castelo Carisbrooke.

O nome Baryonyx origina-se da sua grande garra da mão, usando o Grego antigo, barus/barys = pesado + onyx = garra/unha. Somente uma espécie é conhecida, Baryonyx walkeri, sendo datado do Barremiano, ou seja, cerca de 125 milhões de anos, Cretáceo Inferior.
Sua classificação é a seguinte: Animalia > Chordata > Sauropsida > Dinosauria > Saurischia > Theropoda > Tetanurae > Spinosauridae > Baryonychinae > Baryonyx
Seus dentes possuem leve curvatura com finas serrilhas e garras em forma de gancho. Media em torno de 8 a 9 metros de comprimento e pesava por volta de 1,700 quilos, no entanto, análises dos ossos sugerem que o esqueleto mais completo encontrado por Walker era um espécime que não cresceu totalmente, então poderia ter pesado mais e crescido mais que 9 metros, inclusive com algumas fontes sugerindo até 12 metros como medida.
Comparação do Barionix com humano
© Hyrotrioskjan
Possuía uma grande garra em cada polegar da mão, que media em torno de 25 centímetros se medida em linha reta da ponta para a base e que em vida, quando coberta de uma capa de queratina, poderia ser ainda mais longa o que na época de seu descobrimento lhe rendeu o apelido "Claws" (Garras, em inglês). Seu pescoço longo não tinha uma forma de S tão pronunciada como outros terópodes e era mais reto. O crânio era posicionado em um ângulo diferente dos demais terópodes. Enquanto a maioria mantém o crânio em posição de 90º em relação ao pescoço, o Barionix mantinha a cabeça quase alinhada com a coluna. As mandíbulas longas eram muito parecidas com a dos crocodilos e possuíam ao todo 96 dentes, duas vezes a quantia da maioria dos terópodes. Destes dentes, 64 localizavam-se na mandíbula inferior e 32 grandes na mandíbula superior. Os dentes tinham carenas serrilhadas na parte frontal e posterior, sendo que as serrilhas eram finíssimas, 7 por milímetro. Havia uma protuberância nos ossos nasais e uma crista na cabeça. A mandíbula superior tinha uma expansão perto do focinho para ajudar a prender as presas, provavelmente peixes e pequenos animais.
Cabeça do Barionix: observe o formato do crânio
© Gabriel Lio

Antes da descoberta do Barionix, não se conhecia prova de que algum dinossauro fosse piscívoro e mesmo as suspeitas sobre o Espinossauro eram apenas especulação a partir do formato de sua cabeça. Quando este dino inglês foi achado e dentro de seu fóssil, onde estaria o estômago, foi encontrado o resto do peixe Lepidotes parcialmente digerido por ácido gástrico, confirmou-se que houveram dinossauros piscívoros e a partir daí tem-se atribuído essa dieta principalmente aos espinossaurídeos devido ao formato de dentes e crânio. Ossos de um Iguanodonte juvenil foram também achados associados aos do Baryonyx, o que leva a supor que ele comia presas maiores, como dinossauros filhotes ou pterossauros ou era carniceiro também.
Barionix caminha na praia
©
Antonio de Mingo
Baryonyx pescam: Iguanodons ao fundo
© Davide Bonadonna
© H. Mussolini

Especula-se que o Barionix vivia nos bancos de rios, talvez aproveitando-se de seus braços fortes para apoiá-los no chão, o que hoje muitos consideram improvável. Usaria também os membros dianteiros para caçar e pescar no rio com sua garra enorme.
Barionix apoiando-se nas patas dianteiras © Isis Masshiro

Esse comportamento é similar ao do Urso Cinzento moderno. Inclusive sugiro que confira o livro "Dinossauros Entre Nós", uma recomendação que fiz há um tempo aqui no blog. A imagem abaixo foi retirada do livro.
Barionix e Ursos pescam juntos © Imagem do livro "Dinossauros Entre Nós"
O Cretáceo Inferior na região onde viveu o Barionix era marcado por terrenos alagadiços, lagos e pântanos, formando um habitat perfeito para animais aquáticos que constituíam uma importante fonte de alimento. O Barionix adaptou-se a este local e predava provavelmente em águas rasas, esperando imóvel até um peixe passar para agarrá-lo.
Barionix pescando
© Luis Rey© Raul Martin

O Barionix, apesar de grande, deveria ser um animal ágil para poder capturar peixes e com um corpo aparentemente leve, poderia correr se precisasse. Como a maioria dos terópodes, deveria cuidar de sua cria até quando estavam grandes o suficiente para se virar por si mesmos.
Barionix e sua cria
© Felipe Alves Elias
Graças à sua aparência bizarra e suas garras enormes, sem falar no seu fóssil bem preservado, o Barionix ficou muito famoso na mídia logo que foi descoberto e até hoje é um dos dinossauros mais populares, sendo facilmente reconhecido pelo focinho longo. É comum vê-lo retratado em livros e foi inclusive incluído na lista de espécies da InGen, empresa que recriou dinossauros via engenharia genética no livro de ficção "Jurassic Park". Não chegou a aparecer nos filmes mas aparece no mapa da Ilha Nublar e no terceiro filme o personagem Billy menciona o nome, tentando deduzir junto com Grant que espécie os havia atacado, que na verdade era o Espinossauro.
Muitas empresas de brinquedo que fabricam miniaturas de dinossauros já produziram um Barionix, incluindo as coleções Carnegie, Procon Colleta, Wild Republic, Invicta e Schleich. O famoso álbum Dinossauros, do Chocolate Surpresa, da Nestle, de 1993, lançado no Brasil trazia uma página dedicada ao terópode, com uma das figuras ou cards retratando-o comendo um peixe. Além disso, as coleções mais famosas sobre dinossauros, em forma de fascículos, lançadas no Brasil, Dinossauros: Descubra os Gigantes do Mundo Pré-Histórico e Descobrindo o Mundo dos Dinossauros, ambas tinham fascículos dedicados ao Barionix.
© Nestle

Fontes

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