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domingo, 7 de agosto de 2011

Uma anta pré-histórica
Oeste da Amazônia pode ter abrigado espécie extinta do herbívoro há 40 mil anos
 

Fóssil de Tapirus rondoniensis 
O território nacional abriga atualmente apenas uma das quatro espécies vivas de anta, a Tapirus terrestris, considerada o maior mamífero terrestre da América do Sul com seus dois metros de comprimento e até 300 quilos. Mas há 40 mil anos, durante a época geológica denominada Pleistoceno Superior, pode ter existido uma forma distinta desse grande herbívoro na porção ocidental da Região Norte, perto da divisa com a Bolívia, onde hoje se situa o estado de Rondônia. Um fóssil de uma nova espécie extinta desse mamífero foi descrito por pesquisadores brasileiros em artigo publicado na edição de fevereiro da revista científica norte-americana Journal of Mammalogy. Oriunda de uma antiga zona de garimpo às margens do rio Madeira, a anta amazônica foi batizada de Tapirus rondoniensis em homenagem à unidade da federação em que seu único exemplar foi encontrado.

Em linhas gerais, a provável nova espécie guardava muitas semelhanças anatômicas com a T. terrestris, comumente denominada anta brasileira, que hoje está presente em quase todo o território nacional e em países vizinhos da América do Sul. “Ela deve ter sido bem parecida com a nossa anta atual”, afirma a paleontóloga Ana Maria Ribeiro, da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul, uma das autoras do artigo. Mas a sua dentição e o crânio exibem traços primitivos em comum com a T. pinchaque, a menor das espécies vivas de anta e a única a habitar fora de áreas de floresta, mais precisamente na região dos Andes entre a Colômbia, o Equador e o Peru. A T. rondoniensis tinha uma testa mais larga e uma crista menor do que a da anta brasileira e seu segundo dente pré-molar superior apresentava uma cúspide reduzida. “No passado, a anta brasileira e essa nova espécie fóssil devem ter coexistido em certas partes da Amazônia”, diz Elizete Holanda, professora do Departamento de Geologia da Universidade Federal de Roraima (UFRR), outra responsável pelo trabalho científico.

Compostos por um crânio quase completo e bem preservado do mamífero, os vestígios da nova espécie extinta de anta fazem parte do acervo paleontológico da Universidade Federal de Rondônia (Unir). Os restos do antigo herbívoro foram resgatados por garimpeiros nos anos 1970. Os mineiros estavam à procura de ouro na localidade de Araras, pertencente ao município de Nova Mamoré, na margem direita do rio Madeira. Essa região possui ricos depósitos fósseis de animais vertebrados e também de plantas, que ocorrem em geral numa camada de rochas sedimentares ricas em areia e calcário situada 10 metros abaixo da superfície. Nesse nível também está o ouro que os garimpeiros tanto procuram. Segundo Elizete, que concluiu a graduação na Unir no início da década passada, quando teve o primeiro contato com o crânio da T. rondoniensis, os fósseis que não foram destruídos pelo processo de extração do minério acabaram nas mãos de colecionadores particulares ou na coleção da universidade. Por sorte, o crânio da anta amazônica teve o segundo destino.
O biólogo Mário de Vivo, curador da seção de mamíferos do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), não está convencido de que o fóssil de anta oriundo de Rondônia pertença a uma nova espécie, ainda que extinta, desse herbívoro. Embora as diferenças entre a T. rondoniensis e a T. terrestris sejam reais e possam indicar que se trata de duas formas de anta realmente distintas, o pesquisador pondera que a descrição de apenas um único exemplar da suposta nova espécie não permite uma boa avaliação da variação morfológica presente no crânio da anta rondoniense. Para ele, as diferenças na dentição e no tamanho da crista do antigo herbívoro resgatado nos arredores do rio Madeira podem se dever a variações anatômicas intrínsecas à própria população de T. terrestris. “Não é impossível que o fóssil de Rondônia represente uma nova espécie de anta, mas eu gostaria de ver mais esqueletos com essas características”, pondera De Vivo. Segundo o paleontólogo Jorge Ferigolo, da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul e também autor do artigo no Journal of Mammalogy, a antiga anta da Amazônia é suficientemente distinta da brasileira. “Pequenos detalhes podem distinguir uma espécie de outra”, afirma Ferigolo.
A classificação taxonômica de seres vivos em famílias, gêneros e espécies é uma atividade sempre sujeita a debates. Consensos demoram a se formar e revisões são frequentes. Além da proposta de que houve uma anta particular da região amazônica num momento da Pré-história nacional, Elizete também defende a ideia de que outra possível espécie extinta desse herbívoro, a T. cristatellus, habitava uma zona de transição entre o Sudeste e o Nordeste mais ou menos nesse mesmo período. Novos exemplares dessa forma de anta, que possuía uma crista sagital muito baixa, foram recentemente encontrados em cavernas da Bahia. Até então, crânios de T. cristatellus – ainda hoje não reconhecida como uma espécie válida por muitos especialistas, que preferem considerá-la como uma variante da anta brasileira – tinham sido achados apenas na região mineira de Lagoa Santa, perto de Belo Horizonte. Se essa hipótese estiver correta, o território nacional pode ter abrigado concomitantemente três espécies diferentes de anta há 40 mil anos: a brasileira, ainda viva, a da Amazônia e a do Sudeste-Nordeste, ambas extintas.


Artigo científicoHolanda, E.C. et al. New Tapirus species (Mammalia: Perissodactyla: Tapiridae) from the upper Pleistocene of Amazonia, Brazil. Journal of Mammalogy. v. 92, n. 10, p. 111-20. fev. 2011

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