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sábado, 10 de setembro de 2011

Fóssil de plesiossauro

Assista ao vídeo do Museu de História Natural de Los Angeles com imagens da exposição do plesiossauro

 

 

 

A gravidez de um gigante

Fóssil de plesiossauro contendo um feto foi descoberto nos Estados Unidos e apresenta novos dados sobre a reprodução desse grupo extinto de répteis marinhos. O inusitado achado, publicado na ‘Science’, é abordado por Alexander Kellner em sua coluna de setembro.
Por: Alexander Kellner
Publicado em 09/09/2011 | Atualizado em 09/09/2011
A gravidez de um gigante
Reconstrução do ‘P. latippinus’ dando à luz um filhote único de grande porte. Descoberta no Kansas mostrou que esse plesiossauro era vivíparo e que possuía estratégia reprodutiva distinta de outros répteis marinhos extintos. (imagem: S. Abramowicz/ NHM)
Questões envolvendo a reprodução de animais extintos sempre mexem com o imaginário dos pesquisadores. Particularmente quando o assunto são os vertebrados que não deixaram descendentes. Nessa categoria se encaixam os plesiossauros – grupo de répteis plenamente adaptados à vida aquática, com os braços e pernas modificados em nadadeiras e cujos restos já foram escavados em diversos continentes, inclusive na Antártica.
Alguns anos atrás, o Museu de História Natural de Los Angeles (LACM), nos Estados Unidos, obteve um exemplar de um desses animais pensando em sua exposição. O que parecia ser mais um plesiossauro encontrado no estado do Kansas (EUA) revelou ser um grande achado, que permitiu solucionar a questão sobre se esses animais postavam ovos ou se eram vivíparos. O estudo, publicado na Science (12/8), foi realizado pelos paleontólogos F. Robin O'Keefe, do Departamento de Ciências Biológicas da Universidade Marshall (EUA), e Luis Chiappe, do LACM.

O mar interior

O estado do Kansas é conhecido por seus fósseis. Talvez um dos principais seja os do Pteranodon – um réptil voador que podia chegar a mais de sete metros de uma ponta a outra das asas e que invariavelmente aparece em filmes ou desenhos animados envolvendo dinossauros e outros animais extintos.
Apesar de hoje o mar estar longe, no passado, o Kansas e outras regiões centrais da América do Norte eram banhadas pelo que se chama de ‘mar interior’
Apesar de hoje o mar estar bem longe, no passado, o Kansas e outras regiões da parte central do continente norte-americano eram banhadas pelo que se chama de um ‘mar interior’ – uma extensa área alagada unindo o Golfo do México ao Oceano Ártico. Também chamado de Mar de Niobrara, o seu eixo principal (norte-sul) dividia, durante o Cretáceo (100-68 milhões de anos), as regiões oeste e leste dos Estados Unidos. Chegou a atingir mais de 600 metros de profundidade.
Nessas rochas, além de fósseis de pterossauros, são comumente encontrados vestígios de peixes gigantes – alguns passando de cinco metros de comprimento – e restos de répteis marinhos, tais como mosassauros (que estão relacionados aos lagartos) e plesiossauros.

Algo mais entre os ossos

Quando em 1987 Charles Bonner localizou alguns ossos perto de Logan, no Kansas, ele sabia que havia algo importante enterrado ali. A idade das camadas de sedimentos nessa região é de 78 milhões de anos e evidenciam bem o ‘mar interior’ do passado. Após algum tempo, o material foi coletado em 12 jaquetas de gesso pesando algumas centenas de quilos, revelando ser um plesiossauro de médio porte – ‘apenas’ 4,7 metros de comprimento.
Passaram-se alguns anos até que o exemplar começou a ser preparado como parte da renovação da exposição de fósseis do Museu de História Natural de Los Angeles. Peças grandes sempre chamam a atenção do público e aquele réptil marinho não passou desapercebido pelos responsáveis da mostra. Mas a surpresa mesmo veio durante a preparação...
Seria algum outro vertebrado que teria acidentalmente caído sobre o grande plesiossauro antes de ambos serem fossilizados?
Na delicada – e penosa – atividade de retirar a rocha que envolve o fóssil, os preparadores descobriram que, em algumas das jaquetas, havia ossos pequenos que contrastavam com o tamanho do animal em si. Intrigados, os cientistas passaram a monitorar melhor a preparação: seria algum outro vertebrado que teria acidentalmente caído sobre o grande plesiossauro antes de ambos serem fossilizados? Não seria a primeira vez que isso aconteceria.
No entanto, uma nova evidência complicou a interpretação: aqueles pequenos ossos não estavam ‘sobre’ o animal maior, mas sim ‘dentro’ dele!

Comida ou filhote?

Mesmo sem ter conversado com os pesquisadores, consigo imaginar uma mistura de sentimentos antagônicos na equipe. Por um lado, eles fizeram uma descoberta sensacional – restos de um vertebrado dentro da cavidade torácica de um plesiossauro, um fato inédito.
Por outro, eles não tinham dados da coleta de campo daquele exemplar. Como mencionado, o réptil marinho tinha quase cinco metros e fora coletado em 12 jaquetas distintas, cujos encaixes não haviam sido documentados! E os ossos do animal pequeno não estavam articulados, mas sim misturados em três jaquetas distintas. Era necessário determinar a relação desses fósseis entre si e com o animal maior.
Depois de um verdadeiro trabalho de detetive, eles conseguiram concluir a exata posição de todos os ossos do pequeno indivíduo, como também estabelecer a sua identidade: um representante da espécie Polycotylus latippinus – um plesiossauro de pescoço curto. Um detalhe: era da mesma espécie do animal maior.
Então veio a pergunta: o que um exemplar menor de uma mesma espécie estaria fazendo dentro da ‘barriga’ de um maior? Havia somente duas possibilidades: era parte da dieta do animal grande ou então um embrião.
Uma nova e mais intensa atividade, digna de um Sherlock Holmes, se seguiu. Se o pequeno Polycotylus latippinus tivesse servido de presa para o maior – algo inusitado, porém possível, já que os plesiossauros são animais predadores –, então deveriam existir sinais no esqueleto menor. Os principais seriam orifícios na superfície dos ossos indicando que eles foram submetidos à ação de sucos gástricos.
Fósseis reconstituídos de 'Polycotylus latippinus'
Fóssil montado da mãe 'Polycotylus latippinus' com o filhote. Para chegar às descobertas feitas e à reconstituição, foi preciso uma investigação digna de Sherlock Holmes e muito trabalho braçal. (foto: LACM)
Não era o caso do nosso pequeno plesiossauro. Essa informação, aliada a outras, não deixava dúvida: a descoberta era uma evidência direta de que, pelo menos essa espécie, dava à luz e não postava ovos, como ocorre na maioria dos répteis.
Mas ainda não acabou...


Nova estratégia reprodutiva

A descoberta também revelou outro aspecto muito importante sobre os plesiossauros: eles possuíam uma estratégia reprodutiva distinta de outros répteis marinhos extintos.
Já existiram casos em que foram encontrados embriões dentro de ictiossauros e mosassauros. Porém, neles havia geralmente muitos fetos, sempre pequenos, que não chegavam a atingir 30% do tamanho do adulto. No caso desse plesiossauro, o embrião é único e tinha perto de um terço do comprimento do indivíduo maior. Os ossos, no entanto, ainda estavam na fase de ossificação. Segundo os pesquisadores, estimativas indicam que, ao nascer, o filhote deveria medir mais de 40% do comprimento da mãe.
Comparando com animais de hoje, esse padrão de dar à luz um filhote único de tamanho comparativamente grande é observado em alguns cetáceos (baleias e golfinhos), particularmente na orca (Orcinus orca). Estes têm um comportamento social intenso – vivem em grupos e cuidam de sua prole –, característica que poderia ser compartilhada pelo Polycotylus latippinus.
Naturalmente, analogias entre grupos tão díspares em termos de anatomia como os plesiossauros e os mamíferos aquáticos são sempre complicadas, mas os pesquisadores, à luz do novo achado, acreditam na possibilidade de os plesiossauros terem exibido comportamentos semelhantes.

Alexander KellnerMuseu Nacional/UFRJ
Academia Brasileira de Ciências

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