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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Tigres em perigo

Temos os meios para salvar o mais estupendo felino da Terra. Mas temos vontade?

por Caroline Alexander Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL
Amanhece, e a neblina envolve a floresta. Só uma lasca da trilha de terra se deixa entrever. De repente, emerge da névoa de poeira e luz rubrodourada uma tigresa. Vem em um andar tranquilo, para e roça os bigodes direitos em uma árvore à margem do caminho. Atravessa a trilha e roça os bigodes esquerdos. Depois se vira para nós com um olhar de profunda indiferença e tédio. Então, como que compadecida, ela se espicha de patas para cima e arranha a árvore, voltando para nós seu perfil magnífico, os iconográficos e poderosos flancos atestando com impacto máximo sua deslumbrante condição.
Eis o tigre. O Panthera tigris, o maior dos felinos, o qual até a terminologia biológica reverencia com expressões de respeito, como “predador alfa” ou “espécie guarda-chuva”. É um dos mais formidáveis carnívoros do planeta e também, com sua pelagem âmbar riscada de chamas negras, uma das mais belas criaturas.
Considere a sua constituição. Tem garras de 10 centímetros de comprimento, retráteis como as do gato doméstico, dentes carniceiros que trituram ossos. Mesmo capaz de correr a mais de 55 quilômetros por hora, o tigre tem o físico desenvolvido para a força, e não para a velocidade prolongada. Pernas curtas e possantes impelem seu característico bote letal e seus fabulosos saltos. Há pouco tempo, um deles foi filmado em um voo de 3,5 metros, quando atacava um guarda florestal que estava montado em um elefante.
O olho do tigre possui ao fundo uma membrana que reflete a luz através da retina: o segredo de sua famosa visão noturna e do fulgor de seu olhar no escuro. Seu rugido – Oooouuuummmm – pode se propagar por mais de 1,5 quilômetro.

Há semanas viajo por alguns dos melhores hábitats asiáticos da espécie: remotas florestas, matas tropicais e, em uma viagem anterior, manguezais. Mas ainda não havia visto nenhum deles. A causa, em parte, é sua famosa natureza reservada. O tigre tem força para matar e carregar presas cinco vezes mais pesadas que ele, mas ainda assim sabe se deslocar com delicadeza pelo mato e até na água em enervante silêncio. O refrão de quem já testemunhou um ataque ou sobreviveu a algum é: “O bicho surgiu do nada”.
Mas a outra razão de serem pouco avistados é que a paisagem ideal para um tigre contém pouquíssimos desses felinos. Desde que me conheço por gente, eles têm sido uma espécie ameaçada, e sua raridade passou a ser encarada sem maiores preocupações como um atributo tão intrínseco e definidor quanto sua chamativa coloração. A acomodada ideia de que a espécie continuará a ser “rara” ou “ameaçada” no futuro previsível não é mais defensável. Neste começo do século 21, os tigres na natureza estão à beira do abismo negro da aniquilação. “Temos de tomar decisões com a prontidão de uma sala de emergência”, diz Tom Kaplan, cofundador da Panthera, uma organização dedicada aos felinos. “Não há outro jeito.”
Os inimigos do tigre são bem conhecidos: a perda de hábitat exacerbada pelo aumento das populações humanas; a pobreza, que induz à caça ilegal de suas presas; e, pairando sobre todo o resto, a sinistra ameaça do brutal mercado negro chinês de partes do corpo do felino. Temos também, menos alardeadas, as desleixadas estratégias de conservação que por décadas vêm falhando. A população estimada desses felinos, dispersa por 13 países asiáticos, é inferior a 4 mil espécimes, e muitos conservacionistas acreditam que sejam centenas a menos.

Analisando esses números em perspectiva: o alarme global para a espécie soou pela primeira vez em 1969, e, no início dos anos 1980, calculou-se que por volta de 8 mil tigres permaneciam na natureza. Ou seja, as décadas de vociferante preocupação com a espécie, sem falar nos milhões de dólares doados por bem-intencionados, alcançaram o extermínio de talvez metade da já irrisória população.
Minha resolução de ver um espécime selvagem antes de morrer me trouxe à Reserva de Tigres Ranthambore, uma das 40 na Índia. Avistei meu primeiro felino em dez minutos e, em uma excursão de quatro dias, deslumbrei-me com nove avistamentos, incluindo uma nova aparição daquela primeira tigresa, uma fêmea de 3 anos. No capim alto, ela rasteja com imensa paciência e concentração, erguendo e baixando cada pata em câmera lenta tão deliberadamente que é possível ver sua astúcia furtiva.


                Tigre fita a câmera
Um tigre fita a câmera-armadilha que ele acionou enquanto caçava na floresta do norte de Sumatra, na Indonésia. Esses felinos podem viver bem em diversos hábitats, do gélido Himalaia aos mangues tropicais da Índia e de Bangladesh.

Não importa se na maioria dos casos minha experiência é compartilhada com uma fila de outros veículos. Ver esses felinos na natureza hoje é, sobretudo, uma aventura turística: o tigre-debengala é o animal nacional da Índia, uma das principais atrações no país. Em outros lugares, minhas jornadas haviam sido por estradas rústicas, rios, trilhas na floresta e até em lombo de elefante, mas, em Ranthambore, parto ao amanhecer em um jipe que me aguarda à porta da hospedaria Oberoi. Vêm no veículo um guardaflorestal, um guia e, indispensável onde a observação de tigres é uma disputa encarniçada, um motorista experiente, que abre caminho sem dó até o começo da fila e me assegura aquele primeiro, místico avistamento da tigresa.
A Índia abriga cerca de 50% de todos os tigres que vivem na natureza. A estimativa máxima, segundo um recenseamento realizado em 2010, é de que existem 1 909 deles no país, um aumento de 20% desde o levantamento anterior.

A maioria das autoridades aplaudiu a notícia, mas acha que esse novo número apenas reflete melhores métodos de recenseamento – e não o crescimento da população dos animais. Na Índia, como em outros lugares, a contagem ainda é, na melhor das hipóteses, apenas uma estimativa.
Apenas 41 desses tigres enumerados vivem em Ranthambore. Conduzindo-me pelo parque uma manhã, o pesquisador Raghuvir Singh Shekhawat mostra a variedade de animais que prospera onde há proteção: langures, chitais, javalis, corujas Ottus letia, martins-pescadores, periquitos. E me oferece um vislumbre íntimo dos esforços de preservação parando o jipe à porta de uma barraca de lona em uma clareira. “Quer ver que vida dura leva o pessoal em campo?”, pergunta erguendo uma aba da barraca. Vejo três catres estreitos. “Aqui é a cozinha deles”, diz apontando uma pilha de enlatados e vasilhas. “Em 30 anos de serviço, no mínimo cinco são na barraca.” Os guardas-florestais caminham 15 quilômetros toda manhã, em patrulha. Fazem moldes em gesso de todas as pegadas que veem e anotam os indícios de animais que são presas do felino.

A história de Ranthambore condensa a do tigre em toda a Índia. Sua reserva original de 282 quilômetros quadrados, outrora área de caça privativa dos marajás de Jaipur, é cercada por uma muralha e, lá dentro, a floresta ondulante cinge românticas ruínas da era dos marajás. Uma noite, conheço Fateh Singh Rathore, nomeado diretor de campo assistente depois que Ranthambore se tornou uma das primeiras reservas do Projeto Tigre em 1973. Caçar os felinos foi legal na Índia até o começo dos anos 1970, e, quando moço, na época em que Ranthambore era área de caça, ele fora guarda. “Abater um tigre custava 100 rúpias”, recorda-se. Alguns dólares.
Sempre frágeis, as populações de tigres oscilaram em anos recentes. Entre 2002 e 2004, a caça ilegal de 20 animais em Ranthambore reduziu à metade a população desses felinos. Ainda assim, melhor do que aconteceu na vizinha Reserva de Tigres Sariska, de 850 quilômetros quadrados, onde se descobriu que não havia mais tigre nenhum: todos foram mortos por quadrilhas profissionais, e isso em uma reserva a apenas 110 quilômetros da capital indiana, Nova Délhi.
Ranthambore é o eixo de nova e polêmica estratégia de conservação, que realoca os felinos “excedentes” a lugares como Sariska. Apenas alguns dias antes, em uma conferência sobre vida selvagem em Nova Délhi, ouvi questionamentos e críticas a essa estratégia vindos das numerosas organizações de vigilância e proteção: como se define um tigre excedente? Os problemas em Sariska e outros lugares já foram resolvidos, antes que recebam novos bichos? Há estudos para avaliar o potencial trauma do realocado e da população da qual ele foi removido? E que efeito esse trauma poderá ter sobre a reprodução?
Até agora, a realocação produziu resultados ambíguos. Descobriu-se que três tigres levados a Sariska são irmãos, o que não convém à reprodução. Mais eloquente que as preocupações científicas foi uma notícia veiculada na imprensa nacional: a resoluta jornada de 400 quilômetros de volta para casa empreendida por um macho solitário que fora removido da Reserva de Tigres Pench para o Parque Nacional Panna.
A epopeia desse animal destaca outra crise. Muitas reservas são ilhas de frágil hábitat em um vasto mar de homens, e, apesar disso, tigres percorrem mais de 150 quilômetros em busca de presas, parceiros e territórios.

O novo censo trouxe a lamentável revelação de que quase um terço dos tigres da Índia vive fora das reservas, em uma situação perigosa para seres humanos e felinos. Suas presas só podem se dispersar se existirem corredores de terra reconhecidos ligando as áreas protegidas para que possam transitar a salvo. E esses corredores também têm a função crucial de servir como corredores genéticos, essenciais à sobrevivência da espécie no futuro.


É empolgante ver um mapa idealístico dos ambientes na Ásia ligados às artérias desses corredores ainda inexistentes. Uma esplêndida e inatingível teia de fios verdes perpassa as populações nucleares e forma uma rede que abrange deslumbrantes extremos de hábitat, atestando a admirável adaptabilidade dos felinos: os contrafortes do Himalaia, as selvas, os pântanos, as florestas decíduas, as pradarias. Mas, a um exame atento, o encanto se desfaz. Os lugares que têm tigres de verdade, bichos de carne e osso em vez de hipotéticos, são representados por um mísero punhado de pontinhos cor de mostarda. O plano mestre representa um empreendimento visionário, mas será viável? Para a próxima década, a Ásia tem projetos de infraestrutura – o tipo de desenvolvimento que costuma destruir hábitats – no valor de 750 bilhões de dólares anuais.
“Nunca encontrei nenhum chefe de Estado que dissesse: ‘Olha, somos um país pobre, e, se a escolha for entre os tigres e as pessoas, não vai dar para ser os tigres’”, diz Alan Rabinowitz, renomado especialista e diretor da Panthera. “Os governos não querem perder seu animal mais majestoso. Consideram-no parte do que faz seu país ser o que é, parte da herança cultural. Não farão sacrifícios descomunais para salvá-lo, mas, se puderem enxergar algum caminho para a salvação, em geral eles o seguirão.”

Enxergar caminhos é difícil em meio à profusão de estratégias, programas e iniciativas de proteção que competem em atenção e verbas. Fundo Salve o Tigre, da ONG americana National Fish and Wildlife Foundation (agora em parceria com a Panthera); Global Tiger Patrol; Saving Wild Tigers; All for Tigers!; WWF, Wildlife Conservation Society (WCS); Panthera; Iniciativa Grandes Felinos, da National Geographic Society – a lista é enorme. “Por ano, as organizações filantrópicas gastam com os tigres um total de 5 milhões a 6 milhões de dólares”, conta Mahendra Shrestha, ex-diretor do Fundo Salve o Tigre, que concedeu mais de 17 milhões de dólares em subvenções entre 1995 e 2009. “Em muitos casos, as ONGs e os governos dos países que abrigam tigres apenas lutam uns com os outros.”
A conservação de longo prazo precisa abarcar muitos aspectos: populações reprodutoras, santuários invioláveis, corredores de vida selvagem e as comunidades humanas circundantes. Em um mundo ideal, haveria verba para tudo; como é hoje, diferentes entidades adotam estratégias distintas para componentes distintos. O tempo se esgota, e é preciso estabelecer prioridades.“Desde os anos 1990, vem acontecendo o que eu resumiria como um desvio dos objetivos”, diz um dos mais respeitados biólogos especializados no tema, Ullas Karanth, da WCS. O desvio dos esforços para atividades de conservação dos grandes felinos, como o ecodesenvolvimento e programas sociais cujo apelo aos doadores possivelmente é maior que o das patrulhas anticaça, drena verbas e energia da tarefa mais vital: defender as populações reprodutoras nucleares dos felinos. “Se elas forem perdidas”, diz Karanth, “teremos paisagens de tigre sem tigre.”
Décadas de experiências e fracassos produziram uma estratégia conservacionista que, segundo Rabinowitz, “se for seguida com eficiência, permitirá que qualquer local ou paisagem expanda seus tigres”. Nesse protocolo, o essencial são as patrulhas e a monitoração incessantes e sistemáticas tanto dos felinos como de suas presas nos locais avaliados como possuidores de populações nucleares defensíveis. Sob o protocolo, uma população com apenas meia dúzia de fêmeas reprodutoras pode se recuperar. Pelo menos é isso o que se espera na maior reserva isolada de tigres do planeta, um vale remoto no norte de Mianmar.

Vale Hukawng, Mianmar

Meu primeiro contato com o Santuário de Vida Selvagem Vale Hukawng não é alentador. Chego ao povoado de Tanaing, no norte de Mianmar, e fito, perplexa, o enorme e alegre mercado, os pontos de ônibus, geradores e postes telefônicos, os quiosques e restaurantes, tudo isso dentro das fronteiras do santuário.
Nacos visíveis foram mordidos na generosa zona de amortecimento que abrange os 6,5 mil quilômetros quadrados da reserva original. Terras para uma plantação de mandioca de 80 mil hectares foram desmatadas e queimadas tão depressa que a diminuição da floresta pôde ser constatada não em semanas, mas em dias. Shingbwiyang, uma povoação mineradora de ouro no oeste, onde a terra foi arrasada e os rios nas montanhas se transformaram em lama, abriga 50 mil migrantes, e estruturas permanentes de concreto e linhas de força brotaram em meio às rudimentares cabanas de sapê e madeira. Rebeldes do Exército para a Independência de Kachin controlam a orla oriental do santuário.

Mas a área de 17 373 hectares protegida pode acomodar até essas intrusões. O vale Hukawng, embutido em meio a três cordilheiras, é definido por uma selva densa e escura. Nos anos 1970, os moradores de Hukawng ainda topavam com os animais durante seus afazeres diários e ouviam seus rugidos à noite. Era raro um tigre atacar um ser humano; suas vítimas mais comuns eram animais domésticos ou gado. Mesmo assim, o temível potencial do maior felino do mundo inspirou no povo local respeito suficiente para cultuá-lo em sua mitologia. Na tribo Naga, no noroeste de Hukawng, ainda correm histórias de feiticeiros tigres. O bicho é Rum Hoi Khan, o Rei da Floresta, e, com ele, o homem tem um thitsar, um pacto ou laço natural. “Os nagas chamavam os tigres machos de Avô, e as fêmeas, de Avó”, conta-me um ancião naga. “Acreditam que são seus ancestrais.”


                filhote é usado como isca

Na Indonésia, caçadores usam um filhote de cachorro como isca para atrair os tigres até armadilhas.
Essas crenças estão desaparecendo com os tigres, lembradas apenas pelos idosos. Não é mais a vida, mas as histórias educativas de conservação que apresentam o animal aos jovens birmaneses. O Departamento Florestal de Mianmar, por exemplo, financia uma equipe de educação itinerante que encena nos vilarejos um esquete sobre um felino morto por um caçador malvado. Dizem que o sofrimento da “viúva” tigresa arranca lágrimas de todas as mulheres da plateia.

Dois dias depois de chegar a Tanaing, sigo pelo rio Tawang em companhia de guardas e membros da equipe Tigre Voador do Departamento Florestal até o posto avançado da guarda. O sol já dissipou a neblina matinal, e o rio corre azul glacial contra um límpido céu azul-celeste. Próximo à margem, plantações de banana lançam sombras verdes na água. Bandos de mergansos nadam a nossa frente e esperam quando alguma garça cruza seu caminho. O vale Hukawng tem elefantes e panteras-das-nuvens, gauros (uma espécie de bisão) e sambares (veado asiático), as presas favoritas do tigre. E tem um punhado esparso e ainda mal recenseado dos felinos.

Rio acima, no posto avançado da patrulha florestal – uma construção de ratã e madeira sobre palafitas em uma clareira à beira d’água –, o chefe dos guardas, Zaw Win Khaing, resume para a equipe o trabalho a ser feito na temporada. O grupo passa um terço de cada mês em ronda na mata, à procura de rastros ou excrementos de tigre, assim como de indícios de presas. Os guardas buscam ainda evidências de atividades humanas. No mês anterior, desmontaram um acampamento de caçadores e dispersaram ou detiveram 34 pessoas envolvidas em desmatamento e cultivo, sobretudo de papoula.
Saw Htoo Tha Po, experiente veterano dessa difícil profissão e detentor do atraente título de coordenador de tigres, descreve as patrulhas. “Às vezes, em dias ensolarados, dá para ver o céu”, diz ele para dar a ideia do que é trabalhar por até seis semanas debaixo de um triplo dossel de floresta. Os piores dias são os de chuva, quando a água espirra das folhas côncavas das árvores e a névoa úmida enregela os ossos. É quando as sanguessugas ficam maiores e “fazem mais sangue”. A variedade local da malária é maligna e mata membros da equipe. Ao todo, 74 guardas da vida selvagem e funcionários do Departamento Florestal são responsáveis pelo patrulhamento de uma área estratégica de 1,8 mil quilômetros quadrados de selva cerrada.
Zaw Win Khaing uma vez viu um tigre. Era 2002, e ele estava sentado, medindo rastros de urso em um lamaçal, quando percebeu que alguma coisa se movia à sua direita. Quando se levantou, a cabeça do tigre emergiu do capim. “Ele estava tão perto quanto aquele pé de pimenta”, diz o guarda apontando uma horta a uns 5 metros de nós. “Não sei por quanto tempo olhei para ele, pois eu estava tremendo.” Por fim, o bicho lhe deu as costas e penetrou na floresta. Segundo uma autoridade, a estimativa é de que existam 25 tigres no vale Hukawng. A autoridade, diga-se, é um ancião da tribo Lisu que se aposentou não faz muito tempo da caça ilegal e de vez em quando cede informações às equipes de patrulheiros. Na realidade, dados oficiais, científicos, sobre a presença dos felinos são difíceis de obter. Em 2006-07, o único indício foram várias pegadas de um tigre, e, na temporada 2007-08, testes de DNA de excrementos coletados indicaram a presença de três deles.
Nessa época, uma nítida linha de pegadas à margem do rio foi causa de celebração e de minuciosa investigação policial: a notícia da descoberta foi transmitida por rádio às 8 da manhã e às 6 da tarde os guardas já tinham chegado de Tanaing. Ao longo de cinco dias fizeram medições e moldes de gesso das pegadas e instalaram na área três câmeras-armadilha – que até agora, todavia, só renderam uma foto de um calau-deface-branca. Mais ou menos na mesma época, foram descobertos rastros recentes 15 quilômetros rio acima, e se constatou que eram de um mesmo animal. E esse foi todo o resultado de mais uma árdua temporada em campo: uma linha de pegadas na areia pardacenta.
Converso depois com Alan Rabinowitz, cuja década de trabalho no Departamento Florestal de Mianmar contribuiu para a criação do santuário Hukawng. Tanto esforço é justificado por tão poucos espécimes? Como parte da resposta, ele mostra em um mapa a posição crucial de Hukawng na teia setentrional das paisagens de tigres. “O potencial de Hukawng é imenso”, argumenta. E ele já viu hábitats que se recuperaram. “Huai Kha Khaeng estava em péssimas condições quando ali cheguei, nos anos 1990, e hoje é uma das melhores reservas de tigres da Ásia.”

Huai Kha Khaeng, Tailândia

“Quando comecei a trabalhar aqui, toda noite ouvia tiros, todo dia havia animais mortos”, conta Alan Rabinowitz ao grupo de 40 guardasflorestais, os chefes de equipe que representam os 170 patrulheiros do parque, reunidos na sede do Santuário de Vida Selvagem Huai Kha Khaeng, uma área de 2 780 quilômetros quadrados no oeste da Tailândia. A devastada paisagem descrita por Rabinowitz de Huai Kha Khaeng como foi há meros 25 anos não poderia mais ser reconhecida por seus ouvintes. Estão orgulhosos. “O que vocês fizeram aqui”, diz Rabinowitz, “foi transformar um local de futuro incerto em um dos melhores territórios de tigres do mundo.”

Duas décadas atrás, talvez 20 tigres andassem por Huai Kha Khaeng. Hoje a estimativa é de que existem 60 deles só no santuário e uns 100 no resto do Complexo Florestal do Oeste, cuja área é seis vezes maior. As melhores condições da floresta e o aumento das presas (uns 50 animais, ou 3 mil quilos de presas vivas por ano para cada tigre, é a regra geral) indicam que a população dos felinos poderá continuar a crescer.
A viabilidade de resgatar os felinos do fio da navalha da sobrevivência apoia-se não só nas ações humanas no futuro imediato mas também na natureza resiliente dos tigres. Eles não são melindrosos com a dieta ou o ambiente como o panda, que depende de um ecossistema específico. Foram encontrados rastros de tigres no Butão a mais de 4 mil metros, uma altitude que invade os domínios do leopardo-das-neves, e os felinos dos mangues salgados do Sundarbans bengalês e indiano são exímios nadadores e aprenderam a suplementar sua dieta com animais marinhos. Além disso, esses felinos se reproduzem bem se tiverem chance. Uma fêmea média pode criar de seis a oito filhotes ao longo de seus 10 a 12 anos de vida – o que ajudou uma população como a de Huai Kha Khaeng a triplicar em 20 anos.
A monitoração metódica e dedicada em Huai Kha Khaeng deu aos tigres uma chance justa, e os animais reagiram bem. Na reunião dos patrulheiros, vejo cada um dos 20 chefes de patrulha fazer em dez minutos um relatório do trabalho de sua equipe. Apresentações multimídia mostram mapas da área percorrida, caminhos específicos seguidos e localização de pontos problemáticos. Não menos reveladoras são as imagens que indicam um interesse além do dever: fotos que os patrulheiros tiraram de flores no solo margoso da floresta, um vídeo de uma formiga arrastando sozinha o corpo de uma lagartixa estatelada como um guerreiro caído. Um filme raro de uma anta-malaia conduzindo seu filhote na travessia de um rio provoca murmúrios de apreciação na plateia. Interesse intenso e investimento pessoal, orgulho profissional, motivação, moral elevado, tudo isso se manifesta naquela sala. Em muitos lugares, os patrulheiros trajam roupas surradas e equipamento de terceira geração, mas os de Huai Kha Khaeng usam um elegante uniforme camuflado que anuncia seu status de membros de uma profissão respeitada.

“O maior trunfo da Tailândia é a garantia nacional dos salários, o empenho do governo federal”, aponta um conservacionista. O orçamento operacional de Huai Kha Khaeng para dois terços pagos pelo governo tailandês e o restante pelo governo americano, pela WCS e por outras ONGs internacionais. Essa quantia custeou a administração, a fiscalização das espécies, o treinamento, a monitoração do tráfico de animais silvestres, as câmeras-armadilha e, mais importante, os 30,6 mil homens/dia de patrulha.
Depois da reunião faço uma caminhada pela floresta com Anak Pattanavibool, diretor do Programa da WCS para a Tailândia, Rabinowitz e um rastreador chamado Kwanchai Waitanyakan. Bem abaixo do dossel florestal, enveredamos por um alto bambuzal. Paramos por duas vezes para ouvir o chamado grave e rouco de um elefante. Depois de alguns quilômetros, emergimos no cristalino riacho Huai Tab Salao. Na outra margem encontramos uma longa linha de rastros de tigre, com 10 centímetros de largura, em meio a rabiscos e folhas de ninfeia – pegadas de aves e de elefantes. “Apoie seu peso nas mãos”, me pede Rabinowitz, e mede a profundidade da marca que minha mão deixa na areia. “Um centímetro e meio”, diz. A pegada do tigre tem quase 4 centímetros de profundidade. “É um macho de mais de 180 quilos”, calcula Pattanavibool.
Em lugares fora da Índia, a maioria dos patrulheiros vê caçadores clandestinos, mas não tigres, e todas as agruras que eles enfrentam na floresta são por algo que talvez nunca verão. Mesmo em Huai Kha Khaeng, é menos provável que os felinos sejam avistados por patrulheiros a pé do que fotografados pelas cerca de 180 câmeras-armadilha que mantêm áreas escolhidas da floresta sob fantasmagórica e permanente vigilância. Na estação de pesquisa do santuário de vida selvagem, há imagens de tigres surpreendidos em sua vida secreta: olhos azuis coruscando na escuridão, descansando majestosamente em um leito de folhas sob feixes de luz solar, um bigodudo close frontal ou apenas a ponta de uma cauda.
O objetivo em Huai Kha Khaeng é aumentar em 50% a população, chegando a 90 animais e, por fim, a 720 em todo o Complexo Florestal do Oeste. O que suscita mais especulações inebriantes: se a população de tigres de um parque bem administrado puder ser triplicada em 20 anos… “O hábitat que resta a eles tem 1,1 milhão de quilômetros quadrados”, avalia Eric Dinerstein, cientista-chefe da organização WWF. “Supondo dois tigres a cada 100 quilômetros quadrados, temos um potencial para 22 mil tigres.”
Por enquanto, a tarefa inegociável é salvar os poucos tigres que ainda existem. E a história do destino deles avança em velocidade constante. O Ano do Tigre, celebração que em 2010 foi o objetivo número 1 de um elogiado workshop em Katmandu, chegou e passou sem nenhum benefício discernível para os grandes felinos do planeta. Em novembro de 2010, os 13 países com tigres que compareceram ao encontro de cúpula Global Tiger, realizado em São Petersburgo, na Rússia, prometeram empenhar-se “para duplicar o número de animais na natureza em todos os seus territórios até 2022”. Em março de 2010, uma mãe e dois filhotes foram envenenados em Huai Kha Khaeng: as primeiras baixas por caça ilegal em quatro anos. Essas mortes levaram o governo tailandês a oferecer um prêmio de 3 000 dólares pela captura dos caçadores. No mesmo mês, dois espécimes jovens foram envenenados em Ranthambore, aparentemente por moradores que perderam cabras em ataques. Mais tarde, nasceram dois filhotes. E, em Hukawng, um novo macho foi fotografa o por uma câmera-armadilha – um lembrete solitário do que essa vastidão selvagem pode conter.
A maioria das autoridades concorda que a luta para salvar o tigre pode ser vencida – mas tem de ser travada com extremo profissionalismo e baseada em uma estratégia eficaz. Exigirá que a espécie humana mostre não apenas determinação mas empenho apaixonado. “Quero deixar escrito em meu testamento”, me revela Fateh Singh Rathore em Ranthambore, de olhos faiscando através dos óculos. “Quando eu morrer, espalhem nestas terras minhas cinzas para que o tigre possa caminhar sobre elas.”

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