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sábado, 23 de junho de 2012

Peste: uma doença do passado?

Conhecida há milênios e uma das doenças mais temidas pelo homem, a peste ainda oferece perigo: sua incidência vem crescendo em vários países. No Brasil, novos sistemas de vigilância e controle estão em estudo para evitar que a bactéria infecte humanos, como mostra artigo de capa da CH de junho. 
 
Por: Camila T. França, Maria Paloma S. de Barros, Tereza Cristina L. Balbino, Alzira Maria P. de Almeida, Maria Betânea M. de Oliveira
 
Publicado em 21/06/2012 | Atualizado em 21/06/2012
Peste: uma doença do passado?
Detalhe do quadro do francês Michel Serre (1658-1733) que mostra Marselha, na França, durante epidemia de peste negra em 1721. (foto: reprodução) 
 
Nenhuma outra doença teve tanto impacto na vida das populações humanas quanto a peste. Responsável pela morte de mais de 200 milhões de pessoas, ao longo dos últimos milênios, alterou tragicamente – em diferentes épocas – a ordem social e econômica e o próprio curso da história. Considerada por muitos um castigo divino, ela atingiu indiscriminadamente campos, cidades, pobres, ricos, homens, mulheres, adultos e crianças, deixando marcas no imaginário humano que se refletem em vários aspectos das artes, como na pintura, literatura, poesia, teatro e cinema.

A peste causou, apenas durante a era cristã, três pandemias. A ‘Peste de Justiniano’, a ‘Peste Negra’, e uma ‘Pandemia Contemporânea’, que teve início em 1855 e, para alguns, ainda está em curso
Originária do planalto central da Ásia, a enfermidade causou, apenas durante a era cristã, três pandemias. A primeira, denominada ‘Peste de Justiniano’, afligiu o norte da África, a Europa e o centrosul da Ásia entre os anos 542 e 602, causando elevada mortalidade e contribuindo para o declínio do Império Romano. A segunda, conhecida como ‘Peste Negra’, surgiu na forma pneumônica (a mais letal) e estendeu-se do século 14 ao 16, exterminando um terço da população europeia apenas entre os anos 1347 a 1353.

A terceira, chamada de ‘Pandemia Contemporânea’, teve início na China, em 1855, e pode ser considerada a única de fato pandêmica: graças ao desenvolvimento do transporte marítimo, com a substituição de embarcações a vela pelos navios a vapor, em menos de 50 anos a epidemia se espalhou, atingindo locais até então livres da doença, criando focos naturais em todos os continentes habitados, exceto a Oceania.
Embora alguns considerem que essa terceira pandemia ainda está em curso, sua expansão diminuiu bastante após a Segunda Guerra Mundial, quando os antigos navios, infestados de roedores e pulgas, foram afundados e substituídos por modelos modernos, em geral à prova de ratos. A adoção de medidas eficazes de saúde pública (graças aos conhecimentos científicos adquiridos sobre a bactéria, seus hospedeiros e vetores), o desenvolvimento de medicamentos antimicrobianos, o uso de inseticidas e o controle mais eficiente das populações de roedores possibilitaram que o número de vítimas dessa pandemia fosse significativamente menor que o das anteriores.

A bactéria e a doença

Foi durante a terceira pandemia que, em junho de 1894, o pesquisador suíço naturalizado francês Alexander Yersin (1863-1943) isolou pela primeira vez a bactéria causadora da peste, em cadáveres e em ratos comuns (Rattus rattus). O microorganismo recebeu o nome Yersinia pestis em sua homenagem. Essa bactéria tem a forma de bacilo, curto e ovoide.

A peste, em essência uma doença de roedores, é transmitida principalmente por meio da picada de pulgas infectadas com a bactéria. Das quase 2 mil espécies de roedores identificados, cerca de 230 – dos gêneros Rattus, Cerradomys (Oryzomys), Galea, Trychomys, Olgoryzomys, Calomys e outros – abrigam naturalmente a Y. pestis, que já foi encontrada em mais de 200 das mais de 3 mil espécies de pulgas. Nos focos ainda existentes no Nordeste brasileiro, destaca-se um roedor nativo, o pixuna ou ratinho-do-cerrado (Necromys lasiurus), por viver perto de habitações humanas a apresentar grande densidade populacional e suscetibilidade à doença. Entre as pulgas, as espécies Xenopsylla cheopis, Polygenis bohlsi jordani e Polygenis trypus (que parasitam ratos) são as principais transmissoras da doença.
Rattus rattus
O isolamento pioneiro da bactéria causadora da peste foi realizado pelo suíço naturalizado francês Alexander Yersin (1863-1943) em 1894, a partir de cadáveres e de ratos comuns. (foto: Flickr/ piglicker – CC BY-NC-ND 2.0)
Cães, gatos, coelhos, caprinos e camelos também podem ser hospedeiros da Y. pestis. Apesar da sobrevivência da bactéria em populações animais de muitos locais do mundo, a ocorrência, hoje, de casos humanos é considerada acidental e deve-se principalmente a atividades – como agricultura ou lazer (acampar, caçar, pescar e outras) – que levam pessoas a ecossistemas rurais e campestres, onde vivem roedores que podem estar infectados. Outra possibilidade é a introdução de roedores e pulgas infectadas em ambientes habitados por humanos. A transmissão de pessoa a pessoa é mais rara, mas também pode ocorrer, em geral por via aérea (por gotículas com a bactéria expelidas na tosse ou no espirro).

Clinicamente, a peste humana apresenta três formas principais. A bubônica, mais comum, tem como principal característica a formação de um bubão (inchaço do nódulo linfático) próximo ao local da picada da pulga. Já a peste septicêmica, mais rara, é caracterizada pela presença da bactéria no sangue e por manchas na pele e hemorragias nas extremidades dos membros. A forma pneumônica, considerada a mais grave, tem desenvolvimento rápido, grande letalidade e alto potencial de contágio, e pode causar epidemias por ser mais facilmente transmitida entre as pessoas, na tosse ou no espirro. Em qualquer das três formas, a doença é fatal sem pronto tratamento.

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