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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Parque Nacional Yasuní: floresta tropical à venda

O autor Scott Wallace e uma equipe de fotógrafos viajam ao coração da Amazônia equatoriana, onde a indústria do petróleo assedia uma das últimas fronteiras selvagens da Terra

por Scott Wallace Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL
 
NG - Parque Nacional Yasuni, Equador
Das bromélias, samambaias e orquídeas abrigadas nos galhos da sumaúma a 50 metros do solo até a onça-pintada que caça lá embaixo, o Parque Nacional Yasuní, no Equador, é o lar de incontáveis espécies. Todas estão ameaçadas pela prospecção petrolífera,

As folhas ainda gotejam da chuvarada noturna quando Andrés Link põe a mochila nas costas e sai no frio úmido do amanhecer. A floresta já é uma algazarra de grasnados e chilreios – o rugido gutural de um bugio, o repique seco de um pica-pau, guinchos de micos-de-cheiro que se perseguem de galho em galho. Ao longe, um estranho cântico começa, vai sumindo, depois torna a ganhar força. “Escute!”, diz Link, agarrando meu braço. “Sauás. Dois, cantando em dueto. Está ouvindo?”
Essa celebração é a trilha sonora que Link ouve toda manhã em seu percurso para o local que talvez abrigue a maior biodiversidade do planeta. Link, primatologista da Universidade de Los Andes, estuda o macaco-aranha, e está indo até um saleiro, a meia hora de caminhada, onde esses primatas costumam se congregar.
Gigantescas sumaúmas e árvores do gênero Ficus escoradas em raízes tabulares erguem-se como colunas romanas direto para o dossel florestal. Nas fecundas bifurcações de seus galhos, orquídeas e bromélias sustentam comunidades de insetos, anfíbios, aves e mamíferos. Matapaus enroscam-se em seus troncos em um abraço sufocante. Há tanta vida aqui que até uma poça rasa abriga um vaivém de peixinhos.
Descemos uma encosta e deparamos com uma floresta cravejada de paxiúbas, conhecidas como palmeiras andantes porque suas raízesescoras de 1 metro de altura lhes permitem mudar de lugar em busca de luz e nutrientes. Essa é uma dos milhões de adaptações evolucionárias em curso na Estação de Biodiversidade Tiputini (EBT), administrada pela Universidade San Francisco de Quito em 650 hectares de mata virgem na orla do Parque Nacional Yasuní, que engloba quase 9 800 quilômetros quadrados de hábitat primordial de floresta pluvial no leste do Equador. “Você poderia passar a vida inteira aqui e se surpreender com alguma coisa todo dia”, diz Link. Existem dez espécies de primata na floresta ao redor da EBT, e uma variedade de aves, morcegos e rãs maior que em quase qualquer outra parte da América do Sul.
A localização de Yasuní nutre essa abundância. O parque está encravado na intersecção dos Andes com a linha do equador e a Floresta Amazônica, um cerne ecológico em que convergem riquíssimas comunidades de plantas, anfíbios, aves e mamíferos. Ali chove quase todo o dia, o ano inteiro, e mal se notam as mudanças de estação. Luz solar, calor e umidade são constantes.
Essa parte da Amazônia também é o lar de duas nações indígenas, Quíchua e Waorani, que vivem em aldeias ao longo das estradas e dos rios. O primeiro contato pacífico entre os waoranis e missionários protestantes aconteceu em fins dos anos 1950. Hoje, a maioria das aldeias ocupa-se do comércio e do turismo com o mundo exterior, e o mesmo fazem seus antigos inimigos tribais, os quíchuas. Mas dois grupos waoranis deram as costas a esses contatos, e preferem vaguear pelas terras altas da floresta, na chamada Zona Intocável, criada para protegê-los. Infelizmente, a zona que coincide, em parte, com o setor sul de Yasuní não inclui toda a área de uso tradicional dos dois grupos, e até 2009 houve ataques desses guerreiros nômades contra colonos e madeireiros.
Bem abaixo da superfície, Yasuní guarda outro tesouro que representa uma ameaça urgente à preciosa rede vital da superfície: o petróleo bruto da Amazônia, centenas de milhões de barris intactos. Já há anos que petroleiras exploram concessões no território do parque, pois interesses econômicos levaram a melhor sobre a conservação na luta pelo destino de Yasuní. Cinco concessões ativas, no mínimo, cobrem o setor norte, e, para um país pobre como o Equador, é quase impossível resistir às pressões na exploração dessa riqueza. Metade das receitas de exportação do país já provém do petróleo, quase tudo extraído das províncias orientais da Amazônia.

Em uma proposta apresentada em 2007, o presidente Rafael Correa sugeriu deixar intocados os 850 milhões de barris de petróleo que, segundo estimativas, existem no extremo nordeste de Yasuní, em uma área conhecida como Bloco ITT (as iniciais dos três campos petrolíferos do local: Ishpingo, Tambococha e Tiputini). Em pagamento por preservar a vida selvagem e impedir que estimados 410 milhões de toneladas métricas de emissões de carbono geradas por combustível fóssil entrem na atmosfera, Correa pediu ao mundo que intensifique a luta contra o aquecimento global. E requer uma compensação de 3,6 bilhões de dólares, cerca de metade do que o Equador faturaria explorando os recursos aos preços de 2007. O dinheiro seria usado para financiar energia alternativa e o desenvolvimento de comunidades.
Aclamada como um marco no debate sobre a mudança climática, a chamada Iniciativa Yasuní- ITT ganhou enorme aceitação no Equador. Pesquisas de opinião no país mostram que cada vez mais Yasuní vem sendo considerado um tesouro ecológico a ser protegido. Mas a resposta internacional à iniciativa tem sido morna. Em meados de 2012, apenas 200 milhões de dólares haviam sido prometidos. Correa protestou com ultimatos irritados. Com a iniciativa empacada e Correa alertando que o tempo se esgota, a atividade na fronteira petrolífera continua a avançar pelo leste do Equador, dentro dos limites de Yasuní.
Meia hora depois de partir do laboratório da EBT, Andrés Link chega à entrada de uma caverna baixa no fundo de uma ravina. Naquela manhã, os macacos não vieram. “Têm medo de predadores”, conclui ele, olhando o céu cor de leite. “Quando o dia está encoberto, eles não gostam de descer.” Os macacos podem temer as onças-pintadas ou os gaviões-reais, mas Link pensa em uma ameaça mais duradoura aos animais: o avanço da fronteira petrolífera. “Você vê que é grande o interesse em encontrar petróleo”, diz. “Meu medo é que basta pouca coisa para se começar, e depois…” Sua voz some, como se a ideia fosse dolorosa demais para ser enunciada.
No laboratório da EBT nessa mesma noite, sento-me na varanda com o diretor-fundador da reserva, Kelly Swing. “Sentimos a pressão”, diz Swing. “Está tão perto que nos enerva.”
As instalações mais próximas se encontram apenas 13 quilômetros a nordeste, em uma concessão operada pela estatal Petroamazonas. Cientistas dizem a Swing que sempre ouvem a zoada dos geradores quando estão na floresta, e que helicópteros voam baixo e espantam os animais que eles estudam. Swing receia que o colapso da iniciativa possa ser um golpe nos esforços de conservação, desencadeando uma onda de exploração petrolífera que se espalhe na metade sul de Yasuní e talvez até invada a Zona Intocável.

Autoridades equatorianas garantem que a extração do petróleo pode ser feita com responsabilidade, inclusive em hábitats sensíveis. Afirmam que as práticas atuais são bem superiores aos métodos muito poluentes usados nos anos 1970 e 1980; naquela época, a gigante americana Texaco teria deixado áreas contaminadas que enredaram a Chevron, a companhia controladora, em uma ação de bilhões de dólares movida por comunidades indígenas. Mas o desenvolvimento tem consequências bem mais abrangentes para ambientes ricos em espécies, diz Swing, a começar pelos milhões de insetos, muitos, sem dúvida, desconhecidos da ciência, que são incinerados toda noite nas ondulantes chaminés petrolíferas. “Em florestas afetadas pela exploração de petróleo, talvez morram 90% das espécies no entorno dos trechos desmatados”, diz ele.

Alguns dias depois, sigo para o leste sob a garoa noturna com um grupo de biólogos da Wildlife Conservation Society (WCS), a bordo de um barco que desce o rio Tiputini, que coleia parte da fronteira norte do parque nacional. Exceto pelo ronco do motor de nosso barco, o rio parece livre da presença humana. Isto é, até que fazemos uma curva e damos de cara com uma longa barcaça motorizada parada na margem. O lugar fervilha de operários de capacete e botas de cano alto, e a terra vermelha exposta está toda escalavrada por pneus de tratores. Um talho na margem oposta, largo, vermelho-sangue, dá a impressão de que a estrada pulou o rio por mágica e entrou no parque por vontade própria. Empunho a câmera para uma foto, mas dois soldados berram da barcaça: “É proibido fotografar!”


Os funcionários de macacão azul e capacete não abrem a boca quando atravessamos o lamaçal sugador de botas e entramos na barcaça. Mas um homem alto e troncudo me estende a manzorra e me recebe com cordialidade. “Sou um dos homens maus”, adianta-se ele em inglês, rindo, antes mesmo de eu saber seu nome. Robin Draper, de 56 anos, parece tão surpreso com nosso aparecimento súbito quanto nós com toda a operação. “Estamos aqui há semanas, e seu barco é o primeiro que desce o rio”, diz.
Draper, natural de Sacramento, na Califórnia, e veterano dos campos petrolíferos de Prudhoe Bay, no Alasca, é o proprietário-operador da barcaça, chamada Alicia. Ele trabalha sob contrato para a Petroamazonas. A estatal, em boa parte fora das vistas do público, está adentrando o Bloco 31 com entusiasmo. Alguns anos atrás, ambientalistas comemoraram quando impediram a Petrobras de construir aquela mesma estrada. Mas, depois disso, a concessão foi entregue à Petroamazonas, e agora a estrada de 14,5 quilômetros que envereda para o sul a partir do rio Napo até o Tiputini está concluída, diz Draper. E tem mais: os tratores já adentraram bastante a floresta do outro lado do rio Tiputini.
Esse avanço, sem dúvida, irá gerar polêmica, pois representa nova intrusão no parque. Críticos argumentam, também, que as reservas conhecidas do Bloco 31, de 45 milhões de barris, são pequenas demais para justificar um investimento vultoso nessa concessão. A verdadeira razão para a ocupação do Bloco 31, segundo eles, seria preparar a infraestrutura para uma futura entrada no vizinho Bloco ITT, ameaçando assim a vida selvagem e os grupos indígenas isolados que vagueiam pelas partes altas da floresta. Draper não tem opinião própria sobre o assunto, mas diz que a companhia está procurando perturbar o menos possível a área. “As intenções da companhia são boas”, diz. “Mas, em minha opinião, nem deveríamos estar aqui.”
De volta ao rio, pergunto a Galo Zapata, um dos biólogos da WCS em nosso barco, como a nova estrada afetará a região. “Sei que a companhia fará de tudo para controlar o acesso à estrada”, conta. “Mas nada impedirá que quíchuas e waoranis venham morar às margens dela.”
Tudo isso já aconteceu antes, explica ele. Nos anos 1990, quando companhias petroleiras construíram em Yasuní a estrada Maxus, houve medidas para bloquear o acesso a forasteiros. Só que os moradores nativos do parque mudaram suas aldeias para a beira da estrada, e começaram a caçar animais para vender no mercado negro. “Vai chegar muita gente, e haverá grande demanda por carne de animais silvestres. Os impactos sociais serão negativos. A história se repetirá.”
Rio abaixo, a paisagem nivela-se até parecer uma vasta planície alagada espetada de açaís. Nosso GPS indica que entramos no Bloco ITT, o marco zero da polêmica. Atracamos em uma margem baixa, onde uma placa pintada à mão indica a comunidade quíchua de Yana Yaku.
O líder comunitário César Alvarado emerge do telhado baixo de colmo de sua casa, e nos fala sobre seu tempo de menino, quando as companhias petrolíferas chegaram. Os primeiros homens, descreve ele, vieram em helicópteros que, antes de aterrissar, quase rasparam nas altas palmeiras próximas à aldeia. Depois vieram barcaças carregadas de alojamentos para os trabalhadores. E, por fim, tratores que derrubaram a floresta e trouxeram os equipamentos de perfuração.
Alvarado, de 49 anos, descalço e vestindo um agasalho esportivo folgado, nos conduz por uma trilha lamacenta atrás das choças de Yana Yaku. Ele quer nos mostrar o que todos aqueles trabalhadores vieram fazer ali, tanto tempo atrás, e o solitário monumento que deixaram. Entramos em uma clareira sombreada e deparamos com uma espécie de escultura, montada com canos, válvulas e junções hidráulicas. A coisa, de quase 5 metros de altura, está coberta de musgo, como um ídolo perdido de um filme de Indiana Jones. Mas esquecida ela não está. Esse é o eixo em torno do qual gira a questão da Yasuní-ITT: um poço exploratório tampado para o campo petrolífero de Tiputini. Assim como outros semelhantes, é a razão de as autoridades saberem que o Bloco ITT contém mais de 20% das reservas do Equador, 850 milhões de barris de petróleo bruto da Amazônia. Difícil imaginar um testemunho mais gritante da riqueza petrolífera do país.

O que acontecerá se os trabalhadores voltarem? Alvarado é a favor de que explorem o subsolo de sua aldeia? “Queremos saúde e educação para a comunidade”, diz ele. “Se tomarem cuidado com o ambiente, nós os apoiaremos.”
Para a maioria dos waoranis, em contraste, um futuro assim não parece nada convidativo. Em uma manhã nublada, parto de caminhão da cidade de Coca com guias nativos, rumo ao sul pela chamada estrada Auca. Construída pela Texaco nos anos 1970, a estrada dividiu ao meio um território onde viviam waoranis. Para piorar, o nome que a companhia deu à estrada, Auca, é como os inimigos designam os waoranis. Significa “selvagem”. Nosso destino é a ponte sobre o rio Shiripuno, que dá acesso à Zona Intocável. Ali no mínimo dois grupos waoranis, Taromenane e Tagaeri, vivem isolados do resto do mundo.
O caminhão desce veloz pelo asfalto coleante, e vemos uma paisagem de ranchos e encostas desnudas: testemunhos do afluxo irrefreado de colonos famintos por terra depois da construção da estrada, 40 anos atrás. Várias comunidades empobrecidas de quíchuas e mestiços ladeiam os caminhos secundários que partem da Auca.
No lugar em que a estrada desaparece no meio da folhagem, viramos à esquerda e seguimos rastros de pneus que sobem uma encosta íngreme. Disseram-me que índios que nunca tiveram contato com o mundo exterior apareceram fora da zona de exclusão, em uma área na qual a prospecção de petróleo é acelerada. Logo nos vemos em um labirinto de estradas secundárias que levam a uma crescente malha de poços e estações de bombeamento. Fazemos uma curva fechada e topamos com um paredão de mata. Fim da estrada. À nossa direita, uma nova sonda de perfuração ergue-se atrás de uma cerca de tela de arame. Uma placa no portão identifica o local como o poço de petróleo de Nantu E. À esquerda, um aglomerado de choças de colmo encostase à mata: a aldeia Yawepare, dos waoranis.
Vira-latas nos cercam latindo quando descemos. Um sujeito musculoso, de calção e camiseta justa, pergunta-me o que vim fazer. Convencido de que não sou da empresa petroleira, sugere conversarmos ali perto, na choça comunitária sem telhado. Seu nome é Nenquimo Nihua, diz em espanhol fluente, e está no cargo de chefe da comunidade por um mandato de dois anos.

“Esta é uma área perigosa”, avisa. As tensões agravaram-se desde que operários chegaram alguns meses antes, para trabalhar no poço ao lado. Os moradores receiam que o barulho dos veículos e das máquinas provoque uma reação violenta dos grupos não contatados. “Eles estão sendo empurrados para fora da floresta”, prossegue Nihua. “Não queremos conflito com eles. Queremos que se sintam tranquilos.”
Nihua confidencia que alguns dos nômades são seus parentes. “Minha sogra tem um irmão no grupo isolado.” Duas dúzias deles estiveram nesse local há três semanas. O pai de Nihua os viu. Acordou de madrugada com os latidos dos cães, acendeu uma lanterna na choça comunitária e assustou-se ao ver os guerreiros nus – todos homens, brandindo lanças e zarabatanas. Tinham acabado de entrar e, pelo visto, pretendiam pernoitar ali. Com o coração saindo pela boca, o pai de Nihua voltou para casa mudo. “Eles queriam descansar”, acrescenta Nihua. Na manhã seguinte, os guerreiros haviam partido.
Apesar do parentesco, muitos waoranis civilizados temem ser atacados pelos taromenanes e tagaeris. Mas os clãs nômades também lhes despertam orgulho, são um poderoso símbolo de resistência tribal e um lembrete de suas tradições ancestrais. Nihua diz que ele e sua família deixam machados e machetes na mata para seus parentes. Cultivam hortas para alimentá-los e fazem patrulhas armadas para protegê-los de intrusos que poderiam lhes fazer mal. “Eis nossa posição”, diz Nihua, enchendo o peito. “Chega de exploração de petróleo. Chega de entrada de colonos. Chega de madeireiras.”


Depois de partir, perto do fim da estrada Auca, chegamos a uma ponte periclitante e transferimos nossa carga para um barco a fim de prosseguir pelo rio Shiripuno até o rio Cononaco, rumo à Zona Intocável. Como os forasteiros só têm permissão para entrar se convidados pelos waoranis, essa parte de minha jornada será feita com um guia waorani, Otobo Baihua.
Baixo e robusto, de ombros largos e sorriso fácil, Otobo, de 36 anos, diz que já trabalhou para companhias petroleiras, mas pediu demissão, e foi procurar um modo de vida mais ecológico. “Muita contaminação”, explica em um espanhol hesitante. “Vi muitos animais morrerem. Ficava arrasado.” Hoje, ele trabalha com ecoturismo, guiando viajantes aventureiros em visitas a seu povo, no coração da zona de exclusão.
Nas noites seguintes, ao pé da fogueira nas aldeias ribeirinhas, os waoranis nos contam histórias sobre sua turbulenta trajetória e sua desconfiança contra as companhias. Descrevem o paraíso que perderam para a indústria petrolífera e aquele que ainda compartilham com seus reclusos parentes. Dois dias depois, chegamos a nosso destino, a aldeia de Bameno. Construções de concreto e cabanas de madeira ladeiam uma pista de pouso gramada de 560 metros. Perto da pista, encontramos o líder Penti Baihua, primo de Otobo, em acirrada discussão com um grupo de moradores. Descalço e sem camisa, ele afasta-se do grupo e vem nos receber.
“O Bloco ITT é apenas uma pequena parte de Yasuní”, diz Penti quando lhe pergunto sobre a iniciativa. Ele se preocupa porque os waoranis não têm direitos de propriedade específicos, reconhecidos pelo governo, sobre as terras dentro da Zona Intocável. “Conquistarão este espaço, um poço de petróleo por vez, se não possuirmos esse documento”, argumenta.
Penti nos leva a uma choça comunitária no extremo da aldeia. Quer que eu conheça seu tio, um homem grisalho chamado Kemperi. Um dos últimos xamãs-jaguar dos waoranis, Kemperi é reverenciado por sua habilidade de se comunicar com os espíritos da floresta. Não sabe sua idade, diz, mas já era adulto quando se juntou a um grupo de guerreiros que emboscou e matou trabalhadores da Shell nos anos 1940.
Doze, no total, morreram nas mãos de guerreiros indígenas. A companhia abandonou, depois, as operações no leste do Equador, e só quando os missionários amansaram os “aucas” a exploração de petróleo foi retomada nessas terras.
Quantos homens Kemperi e seus companheiros mataram naquele dia? Ele conta nos dedos. Cinco, talvez seis. “Nós os matamos para que nunca voltassem.” Mas, e hoje se os homens de capacete e uniforme retornarem? “Se voltarem, nós os mataremos”, fala com naturalidade. “Faremos como nossos pais e avós nos ensinaram.”
Depois de quase três semanas viajando de caminhão, barco e avião anfíbio por Yasuní, sigo para a capital do país, Quito, no alto dos Andes. Oferecem-me a oportunidade de conversar com o presidente Rafael Correa sobre a Iniciativa Yasuní-ITT. Guardas perfilam-se quando entro no Palácio Carondelet, construído na era colonial.
Carismático e inteligente, Correa, de 49 anos, vai direto ao assunto. A iniciativa, adianta-se ele, ainda está na mesa de negociações. “Sempre dissemos que, se não recebermos o apoio necessário, teremos de explorar petróleo, com a máxima responsabilidade ambiental e social.”
A iniciativa contém um dilema real, continua ele. “O Equador é um país pobre. Ainda temos crianças sem escola. Precisamos de assistência médica, moradia adequada. Carecemos de muitas coisas. O mais conveniente para o país seria explorar esse recurso. Mas também entendemos nossa responsabilidade na luta contra o aquecimento global, cuja principal causa é a queima de combustíveis fósseis. Esse é o dilema.”

No fim da entrevista, Correa parece estar decidido. “Afirmo que iremos explorar nossos recursos naturais, como todos os países”, diz. “Não podemos ser mendigos sentados em um saco de ouro.” No entanto, conclui dizendo que está disposto a pensar em submeter a um plebiscito a exploração de petróleo do Bloco ITT, decisão que muitos equatorianos chamam de plano B.
Descendo os degraus do palácio presidencial, reflito sobre a estrada que vi em obras no Bloco 31, e a violação da natureza que ela representa. Seja qual for o resultado da Iniciativa Yasuní-ITT, porções significativas de Yasuní continuarão sob cerco. “Se a iniciativa fracassar, descobriremos como salvar parte dela”, havia dito Kelly Swing quando conversamos na varanda da estação. Foi como se também ele já estivesse enxergando além da decisão. “A cada concessão feita ao desenvolvimento, a natureza sai perdendo.” Uma brisa farfalhou a copa das árvores. Uma arara gritou ao longe. “Devemos usar nossa capacidade de domar a natureza, nos apoderar de todos os recursos e levá-la ao limite?”, perguntou-me Swing. “Saberemos qual é esse limite?”
 

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