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terça-feira, 21 de maio de 2013

O gigante do Acre

Pesquisadores reúnem fósseis e reconstituem jabuti gigante que viveu há 8 milhões de anos na atual região do Acre. O animal pode ser ancestral direto dos exemplares de grande porte encontrados nas ilhas Galápagos. 
 
Por: Mariana Rocha
Publicado em 20/05/2013 | Atualizado em 20/05/2013
O gigante do Acre
Reconstituição do jabuti gigante. Quase duas vezes maior do que os jabutis das Ilhas Galápagos, o exemplar do Acre é um possível ancestral das espécies que habitam o arquipélago equatoriano. (foto: Glauco Capper/ Ascom/Ufac) 
 
Quem já ouviu falar dos grandes jabutis que habitam as ilhas Galápagos, no Equador, talvez não saiba que eles podem descender de um espécime que viveu no Brasil há 8 milhões de anos. Possível prova do parentesco está nos fósseis de um jabuti gigante encontrado em Assis Brasil, no Acre, que acaba de ser reconstituído por pesquisadores da Universidade Federal do Acre (Ufac).

Com 1,65 metros de comprimento, um metro de altura e 90 centímetros de largura da carapaça, os fósseis do animal foram encontrados em 1995 e guardados na coleção do Laboratório de Pesquisas Paleontológicas da Ufac. A iniciativa de reconstituir o animal partiu, 15 anos depois, de Edson Guilherme, zoólogo da instituição. “Eu sabia que tínhamos em nossa coleção partes fragmentadas de um jabuti que poderia ser o maior do mundo”, explica o pesquisador.

“Eu sabia que tínhamos em nossa coleção partes fragmentadas de um jabuti que poderia ser o maior do mundo”
Os fósseis encontrados compõem a estrutura quase completa do animal. “Temos o plastrão – parte de baixo do casco – quase completo e cerca de 60% da carapaça”, diz o zoólogo. Não é possível saber qual era o peso do animal, mas Guilherme acredita que poderia chegar a 200 quilos. “Esse jabuti provavelmente se alimentava de tudo o que estivesse ao seu alcance, como folhas, raízes, frutos e até carniça”, completa.
O local onde o jabuti viveu era, na época, coberto por grandes lagos e rodeado de florestas. Hoje, a área específica em que os fósseis foram descobertos abriga o rio Acre.

Parentes em Galápagos

Segundo Guilherme, a possível relação entre o jabuti gigante do Acre e os que vivem nas ilhas Galápagos tem base em um questionamento feito pelo evolucionista Charles Darwin durante visita ao arquipélago. “Quando esteve lá, Darwin notou que em cada ilha do arquipélago havia espécies diferentes de jabutis gigantes, que são animais terrestres. Logo, surgiu a pergunta: como estes jabutis chegaram nessas ilhas remotas?”

“No passado, os jabutis gigantes que chegaram a Galápagos conseguiram se estabelecer, mas os que ficaram na América do Sul foram extintos, possivelmente por mudanças climáticas”
Na época, o próprio Darwin supôs que os jabutis chegaram a Galápagos vindos da América do Sul agarrados a troncos isolados ou em balsas formadas por árvores e galhos mortos. Hoje, jabutis de grande porte habitam apenas esse arquipélago. “No passado, os jabutis gigantes que chegaram a Galápagos conseguiram se estabelecer, mas os que ficaram na América do Sul foram extintos, possivelmente por mudanças climáticas”, acrescenta.

O pesquisador explica que fósseis de jabutis gigantes já foram encontrados em outros locais da América Latina, mas o exemplar descoberto no Acre compõe o maior e o mais completo já descrito. “No futuro, pretendemos apresentar um estudo detalhado da anatomia desse fóssil e estamos avaliando se ele pertence a uma nova espécie”, completa o zoólogo.

Terra de gigantes

Além do imenso jabuti, o Acre abriga fósseis de diversos animais gigantes. “Um deles é o fóssil do Purussarus brasiliensis, o maior jacaré do mundo, além de preguiças gigantes, mastodontes, que são animais semelhantes aos elefantes, e toxodontes, que parecem hipopótamos”, diz Guilherme. Nos últimos 30 anos, os pesquisadores já catalogaram mais de 15 sítios fossilíferos em diversas partes do estado.

Guilherme destaca que, apesar da riqueza de fósseis, a região apresenta grandes desafios para quem decide explorá-la. “Durante seis meses do ano, a quantidade de chuvas não permite que escavemos as margens dos rios, que são áreas com maior quantidade de fósseis”, explica. “Além disso, as estradas não são pavimentadas e, com a chuva, não conseguimos acesso aos sítios fossilíferos localizados em terra firme.”

No período de estiagem, entre junho e setembro, a equipe da Ufac aproveita a trégua das chuvas para escavar. “Nessa época, conseguimos acesso aos sítios que ficam na beira do rio. Por conta dos bancos de areia, não conseguimos usar barco a motor e passamos a maior parte da viagem empurrando canoas cheias de equipamentos”, relata o pesquisador.
Escavação no Alto Rio Acre
Na foto, o zoólogo Edson Guilherme (boné amarelo) puxa uma canoa contendo o material para escavação no Alto Rio Acre, fronteira do Brasil com o Peru. (foto: Acervo do Laboratório de Pesquisas Paleontológicas)
Atualmente, o grupo, sob coordenação do geógrafo Jonas Pereira de Souza Filho, trabalha na descrição de uma nova espécie de jacaré ancestral do jacaré-açu que vive hoje na Amazônia. Quem quiser conhecer o acervo do Laboratório de Pesquisas Paleontológicas deve agendar uma visita pelo telefone (68) 3901-2500, no ramal 2531.

Mariana RochaCiência Hoje On-line

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