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domingo, 6 de outubro de 2013

O terremoto que veio do céu

Alberto Veloso

Na manhã de 27 de agosto de 1887 moradores das cidades de Cananéia (SP) e Paranaguá (PR) separadas por cerca de 80 km, sentiram a terra tremer. Considerando a raridade do evento e a proximidade geográfica das cidades era de se esperar que, cedo ou tarde, os dois fatos fossem conectados. Mas isso não aconteceu, pois os jornais da época e a documentação encontrada trataram os episódios isoladamente.
Mesmo o catálogo sísmico brasileiro, que reúne toda a informação conhecida de terremotos ocorridos no país, apenas menciona o evento sísmico de Paranaguá. Somente agora, fundamentado em documentos históricos é que os dois episódios foram explicados pela provável queda/explosão de um meteoro, possivelmente no mar, mas em um ponto não distante daqueles dois municípios.
Pessoas que transitavam pelas ruas de Paranaguá perceberam um nítido estremecimento do chão e a mesma sensação foi notada por soldados e detentos da guarnição da Fortaleza da Barra, na ilha do Mel, 17 km a leste da cidade. Um canoeiro ouviu um grande estrondo e notou a elevação do mar no interior da baía de Paranaguá. Nessa cidade e em Antonina, o sistema telegráfico sofreu perturbações na "recepção e transmissão de correntes".

A Gazeta Paranaense (1/9/1887) informou que tripulantes de duas embarcações que adentraram ao porto, dois e três dias após o tremor, haviam ouvido "um surdo e prolongado rumor, semelhante ao tiro colossal de peça de artilharia" e sentido um "pronunciado chero de enxofre". Ao observar tal fato, um daqueles navios se encontrava entre as costas do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. A Figura 1 indica os locais dessas ocorrências.

Surpreendentemente, em Cananéia, ademais das vibrações do chão e da percepção de um grande estrondo, vários de seus moradores testemunharam "a queda de um bólido" em terreno próximo à cidade e, posteriormente, encontraram "o ponto exato em que se dera a queda, pela abertura de um grande fosso no chão".

Diante da coincidência das datas, inclusive da precisão da hora e dos minutos e da relativa proximidade das cidades afetadas fica difícil não considerar uma só origem para o fenômeno. Pelos diversos depoimentos percebe-se que o forte som, semelhante a uma grande explosão no ar, foi o elemento preponderante observado por todos e, nesse contexto, o tremor de terra aparece como um elemento secundário. Assim, pareceria razoável supor que o fenômeno foi provocado pela explosão de um meteoro ao penetrar na atmosfera em um ponto do espaço sobre o oceano, na altura da divisa da região sul/sudeste do Brasil. Mesmo ocorrendo a quilômetros de altura o impacto de uma explosão dessa natureza, entre outras coisas, produz ondas acústicas com energia suficiente para fazer vibrar o solo à semelhança de um tremor de terra.
Ao lado do registro de milhares de tremores brasileiros de origem tectônica estão uns poucos que aconteceram por causas diferentes, como os induzidos por grandes reservatórios hidrelétricos, ou pela exploração de minas subterrâneas. Agora, a esta seleta listagem de tremores incomuns poderia ser agregado o singular abalo de 27 de agosto de 1887.
O artigo também menciona a queda de outros corpos celestes no Brasil e explica como as estações de infrassom, utilizando sensores denominados microbarômetros podem registrar ondas de baixa frequência, imperceptíveis ao ouvido humano. A origem dessas ondas pode estar ligada a fenômenos naturais, como eventos meteorológicos, atividades vulcânicas e terremotos, ou serem produzidas artificialmente quando do lançamento de naves espaciais, de voos supersônicos, ou de explosões nucleares.
O exemplo dado foi o registro infrassônico da recente explosão de um meteoro sobre a cidade russa de Chelyabinsk, situada na região dos montes Urais, em 15 de fevereiro de 2013. Curiosamente, poucas horas após essa explosão, um asteroide com cerca de 45m de diâmetro, batizado de 2012 DA 14, cruzou o espaço a 27 mil km da superfície terrestre, um recorde de aproximação de nosso planeta. A trajetória de ambos os corpos celestes era diferente, mas os astrônomos consideraram os dois acontecimentos como uma formidável coincidência cósmica.
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Figura 1. Locais de percepção do tremor de terra e de outros efeitos provocados pelo evento de 27 de agosto de 1887.
Alberto Veloso - Geólogo e professor aposentado da UnB é autor do livro 'O terremoto que mexeu com o Brasil'.

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