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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

  Extinção da onça no Brasil...lamentável

Sumindo da floresta: menos de 250 espécimes

Onça-pintada pode desaparecer da mata atlântica. A perda de um predador que ocupa o topo da cadeia alimentar deverá, segundo pesquisadores, causar sérios impactos ao bioma. 
 
Por: Franciele Petry Schramm
Publicado em 07/02/2014 | Atualizado em 07/02/2014
Sumindo da floresta
Onça-pintada, maior felino das Américas. Ação humana pode comprometer o futuro da espécie na mata atlântica. (foto: Beatriz Beisiegel) 
 
Maior felino das Américas e terceiro maior do mundo (perde apenas para o tigre e o leão), a onça-pintada (Panthera onca) poderá, em breve, estar extinta na mata atlântica.

É o que estimam alguns especialistas brasileiros, segundo os quais todo o bioma não chega a ter 250 indivíduos

A mata atlântica se estende ao longo da costa nordeste, sudeste e sul do Brasil, e cobre partes da Argentina e do Paraguai.

Presente em boa parte do continente americano, do México ao norte da Argentina, a onça-pintada aparece em todos os biomas brasileiros, à exceção dos pampas, de onde teria desaparecido há pouco tempo devido à ação humana. No país, as maiores populações da espécie estão na Amazônia e no Pantanal.

Calcula-se que em todo o mundo o número de indivíduos não chegue a 10 mil.

Caso a onça-pintada desapareça da mata atlântica, será a primeira vez que um bioma tropical terá perdido um predador de topo da cadeia alimentar (que não é presa natural de nenhuma outra espécie). A situação do animal nesse ambiente foi descrita em carta redigida por 13 pesquisadores (12 deles brasileiros) e publicada recentemente na revista Science.

Dados que preocupam

Um dos signatários do documento, o biólogo Eduardo Eizirik, da Pontifica Universidade Católica do Rio Grande do Sul, afirma que o número estimado de onças-pintadas na mata atlântica é pequeno. Como esses indivíduos estão espalhados em oito populações (grupos de animais que vivem e se reproduzem entre si) isoladas, com poucos integrantes cada uma, a conservação de P. onca se torna ainda mais difícil.
Isso porque, segundo Eizirik, uma população pequena está mais vulnerável a acasos. O nascimento de animais do mesmo sexo ou a morte de um indivíduo, por exemplo, pode prejudicar a reprodução da espécie. “As mesmas eventualidades não teriam efeitos tão severos se as populações fossem maiores”, diz o biólogo.
onça à noite
Extinção da onça-pintada na mata atlântica pode produzir sérios impactos ambientais. Caso isso aconteça, será a primeira vez que um bioma tropical terá perdido um predador de topo da cadeia alimentar. (foto: Beatriz Beisiegel)
Ele acrescenta que grupos menores podem também ser afetados geneticamente. “As chances de endocruzamento [acasalamento entre parentes] são maiores, o que pode resultar em indivíduos com má formação ou com menor capacidade de adaptação ao ambiente”, explica.
Análises moleculares feitas pela equipe de Eizirik em alguns exemplares de onça-pintada revelaram um dado ainda mais preocupante: a população efetiva da espécie, que corresponde aproximadamente ao número de adultos reprodutores, não chega a 50 indivíduos em cada uma das populações isoladas da mata atlântica.

Diminuição perigosa

Como predador carnívoro de topo de cadeia, conhecido por sua mordida forte e fatal, a onça-pintada é responsável pelo controle populacional de diversas espécies que fazem parte de sua dieta.
A onça-pintada é responsável pelo controle populacional de diversas espécies que fazem parte de sua dieta
Seu eventual desaparecimento da mata atlântica poderá então, segundo o biólogo Ronaldo Morato, coordenador do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros, ocasionar, entre outros problemas ambientais, uma superpopulação de veados, antas, capivaras e porcos-do-mato. Morato é outro signatário da carta publicada na Science.
Em grande quantidade, esses animais – a maioria deles herbívoros – se tornariam prejudiciais a algumas plantas da floresta. Na falta do predador, o aumento do número de outros carnívoros, como sucuris e jacarés, pode também ocasionar a extinção de outras espécies, como pequenos roedores.


Sumiço explicado

Diversos fatores explicam a redução do número de onças-pintadas na mata atlântica. Um deles diz respeito à diminuição, nas últimas décadas, da área de floresta necessária à sobrevivência da espécie. O animal, habituado a viver de forma isolada, requer uma área de aproximadamente 100 km².
Mas a onça-pintada quase não encontra mais fragmentos florestais desse tamanho. Estima-se que a mata atlântica, hoje com pouco mais de 100 mil km², tenha apenas 8% de sua área original, e seus fragmentos vêm se tornando cada vez menores diante dos constantes desmatamentos.
paisagem onça
Baía de Antonina, no litoral paranaense, vista da serra do Mar, um dos trechos mais bem preservados da mata atlântica brasileira (foto: Wikimedia Commons/ Deyvid Setti e Eloy Olindo Setti – CC BY-SA 3.0)
Esse cenário, afirma Eduardo Eizirik, é agravado pela expansão das áreas de pastagem e de plantio no entorno dos fragmentos de mata, impedindo que animais de um fragmento interajam com os de outro. A caça do animal ou de suas presas pelo homem também é uma ameaça à conservação da espécie.
Segundo Ronaldo Morato, algumas ações estão sendo planejadas com a finalidade de proteger a espécie. “Analisamos a viabilidade de intercambiar indivíduos entre biomas ou fazer suplementação populacional por meio de inseminação artificial.”
Mas os pesquisadores adiantam que não é possível prever com rigor as consequências de tais medidas, já que é impossível controlar o comportamento do animal e seu instinto de voltar ao território original. “Ainda há chances de reversão do quadro”, afirma Eizirik. “Mas ações políticas e sociais de preservação devem ser tomadas imediatamente.”

Franciele Petry Schramm

Especial para a CH On-line/ PR

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