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sexta-feira, 6 de junho de 2014

Cientista da UA em expedição internacional para desvendar um dos maiores segredos geológicos da Terra

Clara Sena será a responsável pelas análises
físico-químicas e microbiológicas dos fluidos

2014-05-30
Clara Sena em trabalho laboratorial
Clara Sena em trabalho laboratorial
 
A geóloga da Universidade de Aveiro (UA) Clara Sena vai participar nos meses de Junho e Julho numa expedição internacional no Oceano Pacífico, a sul do Japão, a bordo do navio Joides Resolution. No âmbito do International Ocean Discovery Program (IODP) uma equipa internacional de 30 cientistas de onze países vai perfurar os sedimentos e rochas do fundo oceânico.
Vão trazer para a superfície amostras que permitem entender como se iniciou o deslizamento da placa tectônica do Pacífico debaixo da placa tectônica das Filipinas e como evoluiu esta fronteira entre placas ao longo da história do planeta.

No final da missão os investigadores esperam desvendar um dos maiores enigmas da Geologia: o que despoleta o deslizamento e mergulho, para o interior do planeta, de uma placa tectônica debaixo de outra.

A formação e destruição de placas tectônicas é um processo fundamental do planeta com uma influência determinante na evolução física e química da Terra. Apesar de a ciência conhecer já bem o processo de formação e destruição das placas, poucas são ainda as evidências de como o processo de destruição de placas se inicia.

A geóloga Carla Sena numa outra expedição realizada recentemente ao Mar de Alborán, situado no extremo Oeste do Mar Mediterrâneo
A geóloga Carla Sena numa outra expedição realizada recentemente ao Mar de Alborán, situado no extremo Oeste do Mar Mediterrâneo
 
A partir do navio Joides Resolution, e em plena bacia sedimentar japonesa de Amami Sankaku, a expedição 351 do IODP, um programa internacional de pesquisa marinha apoiado por 26 países que visa investigar a história e a estrutura da Terra a partir do registro de sedimentos e rochas, vai fazer descer uma máquina de perfuração ao longo de 1450 metros abaixo do fundo oceânico, que naquela zona se situa a 4720 metros de profundidade.

Os trabalhos vão ser coordenados pelo australiano Richard Arculus e pelo japonês Osamu Ishizuka, dois dos mais reputados cientistas mundiais no estudo da formação e destruição de rochas em zonas de fronteira entre placas tectónicas.

Perfurar as entranhas da Terra

“Na zona de subducção [zona de convergência de placas tectônicas, na qual uma desliza debaixo da outra e mergulha para o interior da Terra] que vamos estudar, onde a placa do Pacífico se afunda debaixo da placa Filipina, há um arco de Ilhas vulcânicas que testemunha o aquecimento da placa do Pacífico e a ascensão de rocha quente e fundida que ao solidificar forma o Arco de Izu-Bonin-Mariana”, explica Clara Sena, investigadora do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) da UA.

Do navio Joides Resolution, a investigadora descreve-o como muito bem equipado
Do navio Joides Resolution, a investigadora descreve-o como muito bem equipado.
 
Durante a perfuração do fundo marinho, aponta a única cientista portuguesa que estará a bordo do Joides Resolution, “prevê-se recuperar amostras de rochas sedimentares e vulcânicas de períodos anteriores e posteriores à formação deste arco, oferecendo assim uma oportunidade única para entender como se terá iniciado esta zona de subducção”.

Entre a equipa científica, Clara Sena será a responsável pelas análises físico-químicas e microbiológicas dos fluidos que vão ser extraídos dos poros dos sedimentos e rochas que os investigadores vão trazer para a superfície.

O estudo desses fluídos, explica a investigadora, “permitirá identificar processos geológicos tais como o fluxo de elementos químicos provenientes da placa tectônica do Pacífico, que está atualmente a mergulhar e a aquecer até se fundir, debaixo da placa tectônica das Filipinas”.

Café português na bagagem

Clara Sena tem-se dedicado ao estudo de fluídos em bacias sedimentares e à interação entre água, minerais e bactérias e a respectiva influência no ciclo do carbono no planeta Terra.

A viagem aos mares do Japão é uma estreia ao serviço do IODP. No entanto, já não é a primeira vez que Clara Sena se ‘aventura’ em alto mar. Em 2012 a investigadora esteve embarcada dois meses no navio Sarmiento de Gamboa, numa expedição organizada pelo Conselho de Investigação Científica de Espanha para investigação geofísica das rochas do Mar de Alborán, situado no extremo Oeste do Mar Mediterrâneo.

“E, no Laboratório de Geologia e Geofísica Marinha da UA, onde trabalho, tenho feito muitas campanhas de mar de curta duração no âmbito das quais ganhei muita experiência no que toca às tarefas científicas e conduta necessária a bordo de um navio”
, lembra.

Instalada desde há dois dias na cidade de Yokohama, no Japão, onde o navio Joides Resolution a espera, os sentimentos e expectativas de Clara Sena resumem-se à “enorme vontade de enfrentar novos desafios, tanto a nível técnico-científico como humano, e partilhar os conhecimentos e experiência com uma equipa internacional de cientistas, para estudar uma área tão enigmática do planeta Terra como é esta zona de convergência de placas tectônicas”.

 Diz Clara Sena:“A questão humana e cultural é também muito importante, pois vamos estar confinados ao espaço do navio, durante dois meses, cientistas, técnicos e tripulação, com culturas muito diferentes e a trabalhar para um objetivo comum”.

Em 2012 Clara Sena já tinha embarcado no Sarmiento de Gamboa
Em 2012 Clara Sena já tinha embarcado no Sarmiento de Gamboa. Do navio Joides Resolution, a investigadora descreve-o como muito bem equipado. “Para além de todas as áreas dedicadas à ciência, como laboratórios, salas de reunião, salas de acolhimento e processamento de amostras de rochas, o navio tem também camarotes confortáveis, lavandaria, ginásio, entre outros espaços”, lembra.

Na bagagem, para além do essencial para desenvolver a missão que lhe está entregue, Clara Sena leva igualmente roupa para fazer as suas imprescindíveis sessões de yoga e, para matar saudades de Portugal, um quilo de café português. “A equipa do IODP avisou-nos que se gostamos de bom café é melhor levarmos algum conosco, sobretudo quando nos esperam turnos de 12 horas de trabalho”, diz.

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