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domingo, 5 de outubro de 2014

Novos mamíferos jurássicos

Encontradas na China três novas espécies desses animais, apresentadas por Alexander Kellner em sua coluna. Estudo publicado na ‘Nature’ sugere que houve grande diversificação do grupo há 160 milhões de anos.
Por: Alexander Kellner
Publicado em 03/10/2014 | Atualizado em 03/10/2014
Novos mamíferos jurássicos
Reconstrução de ‘Xianshou songae’, uma das novas espécies de mamíferos jurássicos descobertas na China. Essa forma vivia na copa das árvores das florestas da China 160 milhões de anos atrás. (imagem: Zhao Chuang) 
 
A origem dos mamíferos ainda é bastante discutida no meio acadêmico. O maior problema tem sido encontrar fósseis que permitam estabelecer os primeiros estágios da evolução do grupo, que inclui os primatas e, dentro destes, a nossa própria espécie.

Com a colaboração de colegas chineses, o paleontólogo Jin Meng, do Museu Americano de História Natural, em Nova Iorque, acaba de realizar descobertas que permitem um novo olhar para a evolução dos mamíferos e suas primeiras fases de diversificação. O estudo foi publicado recentemente na revista Nature.
Sem entrar em muitos detalhes, as espécies do grupo Mammalia podem ser separadas em diversos subgrupos. O mais basal de todos são os monotremados, os únicos que põem ovos.

Há também os Allotheria, que reúnem os multituberculados – grupo extinto de aspecto semelhante ao dos roedores, mas com dentição bastante específica – e os haramiyidos, formas bizarras com características dos multituberculados e de animais mais modernos. Por último, o grupo dos Theria, que reúne espécies modernas representadas pelos placentários e marsupiais.
Novos mamíferos
Reconstrução das novas formas de mamíferos jurássicos descobertos por Jin Meng e colegas. A descrição foi feita com base em seis indivíduos encontrados na Formação Tiaojishan, na província chinesa de Liaoning. (imagem: Zhao Chuang)
Nos últimos anos, a principal discussão tem sido sobre onde, no quadro evolutivo dos mamíferos, devem estar inseridos os Haramiyida. Uma corrente de pesquisadores acredita que devam estar dentro de Mammalia. Nesse caso, a diversificação dos mamíferos basais teria sido muito rápida e teria ocorrido já no final do Triássico, há cerca de 208 milhões de anos.

Uma segunda corrente advoga que os haramiyidos não seriam mamíferos, mas ocupariam uma posição mais basal, fora do grupo Mammalia. Essa segunda hipótese indica que o processo de diversificação dos mamíferos teria acontecido mais tarde, apenas no período Jurássico.

Formação Tiaojishan

Jin Meng e colegas apresentaram três novas espécies de mamíferos com base em seis indivíduos encontrados na China. Todos procedem de depósitos da Formação Tiaojishan, mais especificamente da região de Linglongta, na província de Liaoning. Embora não haja unanimidade, a maioria dos pesquisadores atribui a essas rochas idade jurássica, tendo se formado há aproximadamente 160 milhões de anos.
As novas espécies foram batizadas Shenshou lui, Xianshou linglong e Xianshou songae. Elas fazem parte dos haramiyidos e formam um novo agrupamento, denominado Euharamiyida.
O estudo corrobora a hipótese de que a diversificação dos primeiros mamíferos se intensificou no Jurássico e não antes
Basicamente, as novas espécies se diferenciam entre si e dos demais mamíferos por detalhes tanto na dentição como em distintas partes do esqueleto. Entre as feições que mais se destacam, estão a região posterior da cabeça, bastante larga, um focinho comprimido lateralmente, além do enorme dente incisivo que sobressai na arcada inferior.
O estudo de Jin Meng e colegas sugere que os euharamiyidos (e, assim, os haramiyidos) devem ser considerados mamíferos e classificados dentro de Mammalia. Desse modo, corrobora a hipótese de que a diversificação dos primeiros mamíferos se intensificou no Jurássico e não antes.
Holótipos
Holótipo (espécime utilizado para descrever uma espécie) de ‘Shenshou lui’ (a), ‘Xianshou linglong’ (b) e ‘Xianshou songae’ (c). Essas espécies fazem parte dos haramiyidos e formam um grupo novo, denominado Euharamiyida. (fotos: Jin Meng)
Algumas das primeiras espécies viviam exclusivamente em árvores (formas arborícolas), enquanto outras ocupavam tanto as árvores quanto a terra firme (formas escansoriais).
Esse estudo é de grande interesse e mostra novamente a importância da China para o desenvolvimento da paleontologia. Como já dito em colunas anteriores, com investimento contínuo e suporte adequado, a descoberta de fósseis importantes acaba se tornando quase um processo natural.
E vem em seguida a pergunta inevitável: será que um dia os pesquisadores brasileiros chegarão a ter condições de financiamento e infraestrutura semelhantes às dos colegas chineses e norte-americanos?

Alexander KellnerMuseu Nacional/UFRJ
Academia Brasileira de Ciências

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