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terça-feira, 4 de novembro de 2014

Archaeopteryx e o elo perdido entre aves e dinossauros


Archaeopteryx - Ilustração: NobuTamura (http://paleoexhibit.blogspot.com) (http://spinops.blogspot.com/)/ Creative Commons
Archaeopteryx – Ilustração: NobuTamura (http://paleoexhibit.blogspot.com) (http://spinops.blogspot.com/)/ Creative Commons
Solnhofen, Alemanha, 1861. Em uma pedreira, trabalhadores acham a impressão de uma pena em uma placa de calcário . Ela aparenta ser comum e não possui nenhuma característica extraordinária, exceto sua idade: 145 milhões de anos. O local havia sido um lago superficial de água quente e salgada, onde poucas formas de vida conseguiam sobreviver. Mas, eventualmente, alguns animais acabavam aprisionados ali. Crustáceos, insetos, dinossauros e pterodáctilos ficaram imortalizados após se transformarem em fósseis no fundo da lagoa. Assim como aquela pena. Mas de onde ela veio? Somente aves possuem penas. Que tipo de animal conviveu com dinossauros e dividiu os céus com pterodáctilos? As respostas viriam alguns meses depois.

O fóssil de um animal estranho foi encontrado próximo a cidade de Langenaltheim, Alemanha. Ele poderia ser tanto uma ave quanto um réptil. Tinha membros adornados com penas, como acontece com as aves atuais. Certamente poderiam ser descritos como asas, mas essas asas tinham dedos separados, cada um dotado de uma garra. A cauda era longa e com ossos densos, como a de um lagarto – exceto pelas penas que brotavam por todos os lados. O crânio estava danificado, mas um pedaço da mandíbula inferior deixava claro que o animal possuía dentes. A espécie foi colocada no grupo dos terópodes (que inclui o Tyrannosaurus rex e o Velociraptor) e recebeu o nome de Archaeopteryx (asa antiga). Será que o elo perdido entre aves e dinossauros havia sido encontrado?
Fósseis de Archaeopteryx - Fotos: H. Raab - Crative Commons
Fósseis de Archaeopteryx – Fotos: H. Raab – Creative Commons
A descoberta causou barulho na comunidade científica. Charles Darwin tinha publicado A Origem das Espécies havia dois anos. Em seu livro, diz que todos os organismos são descendentes de seres que viveram anteriormente. Mas grande parte da comunidade científica da época aceitava a ideia de que Deus havia criado cada espécie individualmente. O novo fóssil sugeria que os répteis poderiam ter dado origem às aves e começava a mudar a opinião de muita gente.
A questão agora era entender porque esses animais desenvolveram essas estruturas. Será que o surgimento das penas estaria ligado ao surgimento do voo?

Essa pergunta começou a ser respondida em 1996, quando paleontólogos chineses descobriram o fóssil de outro terópode: Sinosauropteryx. Uma fileira de filamentos finos e ocos, que ia da cabeça até a cauda do animal, era visível na rocha calcária. Porém, a analise do esqueleto era clara: esses bichos se locomoviam no solo e não podiam voar. Então, por que essas criaturas tinham penas?
Fóssil de Sinosauropteryx mostra uma camada de penas que vai da cabeça até o final da cauda do animal - Foto: Sam /Olai Ose/Skjaervoy/ Creative Commons
Fóssil de Sinosauropteryx mostra uma camada de penas que vai da cabeça até o final da cauda do animal – Foto: Sam /Olai Ose/Skjaervoy/ Creative Commons
Sinosauropteryx - Ilustração: Nobu Tamura (http://spinops.blogspot.com)/Creative Commons
Sinosauropteryx – Ilustração: Nobu Tamura (http://spinops.blogspot.com)/Creative Commons
Talvez o Sinosauropteryx pudesse gerar calor e as penas funcionariam como um isolante térmico. Assim ele conseguiria manter a temperatura durante a noite. Na manhã seguinte, o animal poderia sair para caçar antes do sol aquecer os corpos de seus competidores de sangue frio.

Existe outra possibilidade: as penas poderiam ser a diferença entre o sucesso e o fracasso na hora do acasalamento. Elas teriam surgido com a função de atrair um parceiro para a reprodução (como no caso do pavão). Os fósseis que começaram a surgir a partir de 1996 começaram a dar sustentação para essa hipótese e mostram uma transição gradual entre os terópodes e as aves. Uma das descobertas mais promissoras foi o fóssil de Anchiornis, um animal do tamanho de uma galinha com penas pretas e brancas que cobriam o corpo e uma crista vermelha que adornava a cabeça. As penas do animal eram quase idênticas às usadas pelas aves para voar, mas eram simétricas e frágeis demais para o voo. É possível que a evolução dessa plumagem extravagante seja fruto da seleção sexual, assim como a cauda do pavão.
Bolsas microscópicas, denominadas melanossomos, foram descobertas no interior das penas de alguns fósseis. Dependendo do estado de conservação dessas bolsas os cientistas conseguem saber as cores das penas dos animais. O Anchiornis tinha penas pretas e brancas que cobriam o corpo e uma crista vermelha que adornava a cabeça - Ilustração: Nobu Tamura (http://spinops.blogspot.com)/Creative Commons
Bolsas microscópicas, denominadas melanossomos, foram descobertas no interior das penas de alguns fósseis. Dependendo do estado de conservação dessas bolsas os cientistas conseguem saber as cores das penas dos animais. O Anchiornis tinha penas pretas e brancas que cobriam o corpo e uma crista vermelha que adornava a cabeça – Ilustração: Nobu Tamura (http://spinops.blogspot.com)/Creative Commons
Faltava ainda responder uma questão crucial: Como e quando surgiu a habilidade de voar? A transição final de um animal terrestre com penas para uma espécie capaz de conquistar o espaço aéreo ainda gera debate. Alguns pesquisadores dizem que os dinossauros emplumados desenvolveram o voo a partir do solo, batendo as asas enquanto corriam. Outros afirmam que os animais usavam as penas para sustentar o corpo ao saltar da copa das árvores, depois começaram a planar até que desenvolveram a capacidade de bater as asas. Talvez ambas as teorias estejam certas. Talvez a habilidade de voar tenha surgido em diferentes espécies de dinossauros. Talvez, ao olhar para as aves de hoje, vemos o resultado de apenas uma dessas transições.
De uma forma ou de outra o Archaeopteryx continua sendo uma das descobertas científicas mais revolucionárias da história e permanece como a maior prova da evolução que pode ser encontrada no fundo de um lago superficial de água quente e salgada.

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