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sábado, 10 de janeiro de 2015

Tafonomia

Tafonomia (do grego: tafos = soterramento; nomos = leis) refere-se ao estudo dos processos de preservação e como eles afetam a informação no registro fossilífero, compreendendo duas amplas subdivisões:

a) Bioestratinomia: engloba a história sedimentar dos restos esqueléticos até o soterramento, incluindo causa de morte de um determinado organismo, sua decomposição, transporte e soterramento;

b) Diagênese dos fósseis: reúne processos químicos e físicos que alteram os restos esqueléticos após o soterramento.

Nesta seção, vamos analisar os processos de morte, necrólise e desarticulação, transporte, intemperismo, soterramento e a fossildiagênese. Essa análise nos dará pistas do que ocorreu com o animal desde o momento da sua morte até ser encontrado como um fóssil.

TIPOS DE MORTE

Basicamente são conhecidos dois tipos básicos de morte na natureza: a seletiva e a não-seletiva (catastrófica). A morte seletiva afeta determinadas faixas de idade da população e é causada por fatores como envelhecimento, doença e predação. Já a morte não-seletiva ou catastrófica ocorre quando um evento de grande magnitude (enchentes descomunais, tempestades, secas, marés vermelhas, erupções vulcônicas) atinge grande parte da população indistintamente.
As principais causas de morte do indivíduo podem ser: doença (observar patologias nos ossos), predação (observar marcas de dentes) e acidentes (quedas em fendas, em poços de piche ou outras armadilhas naturais, além de enchentes gigantescas e secas prolongadas).
NECRÓLISE E DESARTICULAÇÃO
Assim que o organismo morre, dá-se início ao processo de necrólise onde os tecidos moles do corpo do animal são decompostos. Existe algumas exceções, como em casos dos restos serem soterrados em locais muito frios e  corpo preserva-se por inteiro  (ex: mamutes encontrados nas geleiras)
Congelamento fossil
Congelamento fossil

<http://www.cbpf.br/~eduhq/html/tirinhas/tirinhas_assunto/paleontologia/paleontologia.php?pageNum_Recordset1Paleontologia=12&totalRows_Recordset1Paleontologia=22&gt;
Ou quando são encontrados em ambientes muito quentes e secos, onde os restos acabam se transformando em múmias. O tipo de morte influencia na história tafonômica de um resto orgânico, por isso é importante conhecer as alterações pós-morte que ocorrem nos primeiros dias ou semanas após a morte do indivíduo. A desarticulação da carcaça ocorre de forma fácil, pois o tempo entre a morte e soterramento do animal é suficiente para que o tecido mole seja perdido. Por isso é difícil encontrar fóssil de organismos articulados.
A relação entre a necrólise e a desarticulação tem a ver com o fato de que os ossos só se mantem articulados pela existência dos tecidos moles (músculos, tendões e cartilagem) que os unem. Quando os tecidos moles são decompostos, os ossos ficam soltos e a partir daí o processo de desarticulação, que consiste na separação dos elementos de um esqueleto, entra em ação. A anatomia básica do organismo que irá determinar a desarticulação, com também outros fatores externos como transporte, pisoteio e/ou a necrofagia. De uma perspectiva tafonômica, o estudo da desarticulação é bastante importante porque fornece subsídios para o entendimento dos eventos ocorridos no período pós-morte/pré-soterramento, já que os elementos que, em vida, estavam articulados, desarticulam-se e podem ser espacialmente dissociados ou ainda espalhados. A sequência de desarticulação vai depender da anatomia corporal, do clima (pode ocorrer mumificação) e do tempo decorrido entre a morte e o soterramento.
A sequência de desarticulação é um fator importante na análise da história tafonômica de um vertebrado e esta é determinada pelo tipo de articulação do elemento ósseo no esqueleto. Em vertebrados, a sequência normal de desarticulação, segundo Toots (1965) é a seguinte:

1) desconexão do crânio;
2) desencaixe da mandíbula;
3) desconexão das cinturas pélvica e escapular;
4) desconexão dos membros em ossos isolados;
5) desencaixe das costelas;
6) desarticulação da coluna vertebral.

TRANSPORTE
Nem sempre o local onde o fóssil foi encontrado reflete o verdadeiro lugar de origem daquele organismo, daí a importânica de estudar o transporte dos fósseis. Em 1969, um paleontólogo chamado Voorhies estudou a transportabilidade dos ossos fósseis. Com sua pesquisa, ele chegou em alguns resultados e criou três grupos. Grupo I – reúne todos os elementos quase que imediatamente removidos da carcaça por uma corrente aquosa (tarsaia, carpais, falanges, etc.), formando acúmulos altamente selecionados; Grupo II – engloba os elementos removidos gradualmente por rolamento e saltação; e o Grupo III – inclui os elementos pesados e pouco transportados, como crânio e mandíbula.
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Restos esqueletais de um cinodonte, parente dos mamíferos, que viveu no período Triássico (245 a 208 Ma). (A) dentes (A), vértebras (B), fêmur (C) e crânio (D) encontrados juntos, indicando que não houve seleção por transporte hidráulico (Grupos de Voorhies).
fonte: http://www.ufrgs.br/paleodigital/images/tafonomia3_1.jpg

INTEMPERISMO

O intemperismo é o conjunto de processos físico-químicos pelos quais os ossos expostos passam quando estão na superfície. Existem poucos trabalhos referentes ao intemperismo nos ossos. Behrensmeyer (1978) apresenta um trabalho clássico no qual propôs algusn estágios do intemperismo:

estágio 0:

A superfície do osso não apresenta sinais de rachaduras nem de lascas. Geralmente os ossos estão frescos, com restos de tecidos moles nas cavidades e pele ou restos de ligamentos e músculos recobrindo a superfície do osso;

estágio 1:

Ossos começam a apresentar rachaduras. Gordura, pele e outros tecidos podem não estar presentes;

estágio 2:

As camadas mais superficiais dos ossos começam a soltar lascas, associadas a rachaduras; pequenas lascas de ossos podem se soltar. Lascas mais profundas começam a se formar até a parte mais superficial dos ossos estar toda rachada. Pequenos pedaços remanescentes de ligamentos, cartilagem e pele podem estar presentes;

estágio 3:

A superfície óssea é caracterizada por pedaços ásperos de osso compacto, resultando numa superfície fibrosa; nestes fragmentos todas as camadas externas e concêntricas de osso foram removidas e, gradualmente, toda a superfície do osso assume esta característica. O intemperismo não ultrapassa os primeiros 1-1,5 mm da superfície do osso e as fibras ósseas ainda se encontram firmemente ligadas umas as outras. Tecidos moles são raros neste estágio.

estágio 4:

A superfície do osso se apresenta com uma textura fibrosa, ocorrem grandes e pequenas lascas que podem se soltar quando o osso é movido e até as cavidades mais internas já se encontram intemperizadas.

estágio 5:

O osso está se desintegrando no lugar, com grandes lascas se soltando e sendo facilmente quebrado quando movido. A forma original do osso pode ser difícil de identificar.
Segundo Behrensmeyer (1978), o intemperismo tende a atuar na parte mais exposta do osso do que na parte que se encontra em contato com o solo.

DIAGÊNESE

A fossildiagênese (ou diagênese fóssil) estuda o conjunto de alterações químicas e físicas (incluindo as ações mecânicas de deformação) sofridas pelos restos dos organismos desde o momento em que são enterrados até ao momento da sua recolha, como fósseis. Após o enterramento, o acúmulo gradual e contínuo de sedimentos desencadeia todo um conjunto de ações (perda da porosidade primária e expulsão de fluídos intersticiais) que levam à sua progressiva consolidação numa rocha sedimentar. Os restos orgânicos associados ao sedimento irão sofrer estas mesmas ações. Esses processos, genericamente chamados de fossilização, podem ser agrupados em três categorias básicas:

Preservação total: todo o organismo é preservado, inclusiva os tecidos moles. Os mamutes congelados encontrados na Sibéria são exemplos de vertebrados com preservação total. Outro exemplo de preservação total é a preservação em âmbar.
Preservação em ambar
Preservação em ambar
http://www.cbpf.br/~eduhq/html/tirinhas/tirinhas_assunto/paleontologia/paleontologia.php?pageNum_Recordset1Paleontologia=3&totalRows_Recordset1Paleontologia=22

Preservação sem alteração do resto esquelético: Não modifica a estrutura original do resto orgânico. Temos como exemplos a incrustação (crosta de algum minério ao redor de um osso) ou a permineralização (preenchimento dos poros dos ossos por algum tipo de mineral).

Preservação com alteração do resto esquelético: Ocorre quando há adição, substituição ou ainda dissolução do material original, gerando moldes do osso original.

Esses processos diagênicos ocorrem logo depois do soterramento. O acúmulo de sedimentos irá desencadear um conjunto de ações que levarão a sua consolidação numa rocha sedimentar. Os restos orgânicos que se encontram associados a estes sedimentos irão sofrer estas mesmas ações e se transformarão em fósseis.

Fontes:
CARVALHO, I. S. Paleontologia. 2. ed. Rio de Janeiro: Interciências, 2004. Volumes 1 e 2
http://www.ufrgs.br/paleodigital/Tafonomia.html

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