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terça-feira, 7 de julho de 2015

Ainda a pesquisa com animais

Ética não é a única questão envolvida. Uso de animais em laboratório deve levar em consideração também as diferenças entre as espécies. 
 
Por: Franklin David Rumjanek
Publicado em 06/07/2015 | Atualizado em 06/07/2015
Ainda a pesquisa com animais
Além de levar em consideração as questões éticas, o uso de animais em laboratório deve ponderar as diferenças bioquímicas e fisiológicas entre os diversos organismos estudados. (foto: Peter Ilicciev / Fiocruz Imagens / CC BY-NC)
A polêmica sobre o uso de animais na investigação científica vai além das questões éticas. Há, na verdade, uma intensa discussão entre os próprios pesquisadores sobre a aplicabilidade dos achados oriundos dos modelos animais em humanos – o que é especialmente visível quando se trata de introduzir drogas para o tratamento de várias doenças. Argumentos recentes com base na observação do processo da inflamação revelam pontos de vista diametralmente opostos e mostram que esse problema parece estar longe de ser resolvido.
O debate é alimentado principalmente pela variabilidade dos dados comparativos, o que dificulta sobremaneira a sua interpretação. A consequência é a divisão da comunidade em céticos e crentes. Quais os principais fatores que contribuem para tal dilema? Em primeiro lugar, as várias espécies que tradicionalmente constituem o contingente dos animais de experimentação apresentam fisiologias e bioquímicas próprias. Mesmo que essas não sejam tão diferentes da humana, podem divergir suficientemente a ponto de introduzir comportamentos e reações distintas.
Não deve surpreender que os modelos experimentais que lancem mão de animais exibam divergências intrínsecas
 
Ratos de laboratório, por exemplo, não possuem a vesícula biliar, o que por si só já introduz uma característica individual quando levamos em conta a digestão de alimentos e – por que não? – a absorção e metabolização de certas drogas pesquisadas. A própria taxa de metabolismo basal medida pelo consumo de oxigênio em função da massa corporal dos animais é também muitas ordens de grandeza diferente quando se compara humanos e camundongos. Tais características certamente influenciam de que maneira certos compostos são processados e não deve surpreender que os modelos experimentais que lancem mão de animais exibam divergências intrínsecas.

Assim, fica claro que, a despeito da proximidade genômica que existe entre certas espécies, esse parâmetro considerado isoladamente não permite generalizar certas observações obtidas no âmbito da experimentação laboratorial. Por exemplo, as diferenças entre os genomas de camundongos – modelos experimentais mais comuns no laboratório – e humanos é de somente 2,5%. No entanto, esse diferencial é bastante para introduzir um mundo de diferenças conforme mencionado acima. Levando a comparação ao extremo, até entre populações compostas por humanos encontramos diferentes respostas a fármacos, apesar de a identidade genômica ser de quase 100%.
Experimentação animal
Camundongos estão entre os modelos experimentais mais comuns em laboratório. Embora esses animais dividam 97,5% do genoma com os seres humanos, os 2,5% de distinção podem introduzir um mundo de diferenças. (foto: Peter Ilicciev / Fiocruz Imagens / CC BY-NC)
Os advogados da farmacogenômica são loquazes defensores da necessidade de se considerar que, mesmo em populações de uma mesma espécie, é importante levar em conta a singularidade dos indivíduos, isto é, cada pessoa é bioquimicamente única e as diferenças são expressas de vários modos como resultado da ação de redes metabólicas complexas.

Por resultados mais precisos

Em segundo lugar, deve-se levar em conta que a expressão genômica, tão propalada atualmente, não pode ser aceita como um previsor de função. Explica-se: quando um gene é transcrito, isto é, se expressa produzindo um RNA mensageiro, nem sempre ao final da sequência de eventos ocorrerá a tradução, ou seja, a síntese de uma determinada proteína. São as proteínas que, em última análise, determinam funções específicas.  Resumidamente, isso significa que padrões semelhantes de expressão genômica entre espécies diferentes não necessariamente produzirão ao final um perfil de funções equivalente. Isso acontece porque há níveis de regulação da tradução que variam, dependendo da espécie que está sendo investigada.
Os processos patológicos são diferentes entre as espécies. Isso inclui a inflamação, a resistência a microrganismos e a sensibilidade a diversos compostos.
 
Em terceiro lugar, os próprios processos patológicos são diferentes entre as espécies. Isso inclui a inflamação já mencionada, a resistência a microrganismos e a sensibilidade a diversos compostos. Tais propriedades decorrem de sistemas imunológicos próprios, da existência de diferenças quantitativas e qualitativas de fatores diversos, diferentes isoformas de enzimas e assim por diante.
Finalmente, é fundamental destacar que uma das ferramentas mais usadas para descrever este ou aquele processo por vezes introduz vieses que podem traduzir equivocadamente o significado de um conjunto de experimentos. Essa ferramenta é a estatística. Há muitos algoritmos disponíveis atualmente e que compõem dispositivos usados para o tratamento de dados.

É comum lançar mão da estatística quando as diferenças observadas nos estudos não são óbvias, ou decorrem de um grande volume de dados. Os estudos populacionais ilustram bem essa situação e somente se tornam informativos após serem “digeridos” estatisticamente. Embora as premissas que compõem o arsenal da estatística tenham sido muito bem fundamentadas, nem todos os pesquisadores as conhecem, ou as entendem em sua essência. Nesses casos, a ferramenta é usada como uma caixa preta, e não raro ocorre o emprego de algoritmos inadequados à investigação em curso. Por isso, muitos autores de trabalhos publicados selecionam, às vezes, abordagens que podem induzir propostas antagônicas.
Ainda no âmbito da estatística, é muito frequente a introdução inicial de erro em razão de coletas de dados malfeitas. Classicamente, pode ocorrer o chamado viés da amostragem, ou da amostragem não aleatória, na qual nem todos os membros de uma população ou conjunto de dados têm a mesma chance de ser incluídos no estudo. Um exemplo clássico é o do homem da caverna descrito por estudos arqueológicos. A conclusão de que as populações humanas do homem das cavernas existiram se origina do fato de que os únicos artefatos e pinturas rupestres que sobreviveram foram aqueles encontrados nas cavernas. Outros, que podem ter sido gravados em árvores e materiais que não resistiram ao tempo, foram perdidos, embora pudessem ter contribuído com dados antropológicos valiosos que potencialmente alterariam as interpretações vigentes.

O viés da amostragem tem várias subdivisões, como o viés do financiamento (os dados que apoiam a premissa das agências de financiamento são escolhidos preferencialmente), viés de relatório, de exclusão sistemática de certos indivíduos (os chamados outliers, ou resultados que se encontram fora do padrão) e até o viés de observação, no qual o experimentador exerce julgamentos inconscientes sobre a seleção e registro de dados e sobre as conclusões de uma pesquisa.

Limites da pesquisa com animais

Assim, voltando à questão dos animais de experimentação, podemos apenas afirmar que os resultados obtidos com estes se aproximam da verdade. É por essa razão que, ao pesquisar processos fisiológicos ou bioquímicos, os cientistas devem estar sempre cientes de que os experimentos revelam fatos que valem somente para aquele nível de experimentação.
Primata em laboratório
Em pesquisas para o desenvolvimento de novos fármacos, os testes devem ser realizados em animais progressivamente mais semelhantes aos humanos. (foto: Vinícius Marinho / Fiocruz Imagens / CC BY-NC)
Se a pesquisa envolver o desenvolvimento de um fármaco que oportunamente será usado em humanos, é mandatório que, ao longo da investigação, os efeitos do composto sejam avaliados em animais que progressivamente se assemelham aos humanos. Finalmente, após essas etapas iniciais, a droga será estudada nos próprios humanos, selecionando para tal populações que sejam representadas por indivíduos de etnias variadas, de ambos os sexos e também classificadas por idade, obedecendo a protocolos já estabelecidos pelos órgãos ligados à saúde.

Em conclusão, é inegável que experimentos realizados em animais são reveladores. Historicamente, a ciência biomédica e a medicina devem muito a essas abordagens e, se hoje temos à nossa disposição um grande acervo de conhecimento, os animais foram parceiros fundamentais nesse processo. Por outro lado, também graças à experimentação com animais, foi possível detectar que a biodiversidade é acompanhada de peculiaridades típicas das várias espécies. Tendo isso em mente, o próprio método científico se encarregará de instilar a cautela quando for necessário extrapolar dados de animais para os humanos.

Franklin David Rumjanek
Instituto de Bioquímica Médica
Universidade Federal do Rio de Janeiro

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