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sexta-feira, 21 de agosto de 2015

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A controvérsia na recomposição da mata ciliar
Artigo de professor da Unesp publicado no Estadão Noite
[20/08/2015]
Uma prática, em geral, recomendada para proteger e, assim, assegurar a perenização dos mananciais hídricos, consiste na reposição da vegetação arbórea nas áreas de entorno dos mananciais, uma prática conhecida como “recomposição da mata ciliar”. A denominação “mata” implica na presença predominante de uma vegetação arbórea, constituída, preferencialmente, por espécies adaptadas ao habitat considerado. Assim, a recomposição incorpora todas as providências necessárias para repovoar aquele espaço reconhecidamente degradado.
Para assegurar a perenização dos mananciais, é indispensável promover a recarga hídrica no solo, através do processo de infiltração. Portanto, torna-se oportuno promover uma análise compar
ativa, entre o potencial de infiltração associado à vegetação que recobre o espaço a ser recomposto.
O processo de infiltração da água no solo manifesta-se em função da condição de umidade existente no solo, e da porosidade que favorece o caminhamento descendente da água no perfil. Quanto maior essa porosidade, maior a quantidade de água infiltrada. A forma como a vegetação afeta o processo de infiltração é decisiva sobre sua eficácia na reposição de água que deverá abastecer os mananciais.
Do ponto de vista exclusivo de infiltração, parece não haver dúvidas que a vegetação rasteira, tipicamente constituída por gramíneas, com o sistema radicular fasciculado, ativo ou decomposto, deve proporcionar caminhos muito mais numerosos e eficazes para a infiltração, que uma vegetação arbórea, com suas escassas e volumosas raízes axiais ou pivotantes. O crescimento dessas raízes exerce uma força de compressão, que deverá resultar em diferentes graus de compactação, reduzindo a porosidade natural existente no solo.

Outro aspecto, diretamente associado à quantidade de água infiltrada, refere-se ao tempo de oportunidade para infiltração.  Novamente, a presença da vegetação rasteira dificulta o escoamento superficial, aumentando a oportunidade para a água infiltrar-se. Certamente, este processo será menos significativo em povoamentos arbóreos, uma vez que as árvores encontram-se razoavelmente espaçadas, além de limitar o crescimento da vegetação rasteira.

Um sistema radicular axial ou pivotante pode aprofundar-se a consideráveis distâncias no perfil do solo, enquanto as raízes fasciculadas de uma vegetação rasteira, raramente ultrapassam 30 ou 40 cm de profundidade. Assim, as árvores conseguem extrair água a maiores profundidades, mantendo ativo o processo de transpiração, o que deve reduzir a água no subsolo. Por outro lado, quando ocorre uma redução sazonal no teor de umidade nas camadas superficiais do solo, a vegetação rasteira entra em repouso vegetativo até a próxima estação chuvosa, preservando, portanto, a água existente nas camadas mais profundas do perfil.

Por essas razões, talvez fosse mais sensato, em um processo de recomposição da “vegetação ciliar”, apenas isolar as áreas de entorno dos mananciais, para permitir a recomposição natural e espontânea das espécies vegetais, rasteiras, arbustivas e arbóreas, já adaptadas àquele habitat, sem interferência humana. Em locais extremamente degradados, onde a recuperação natural pode ser dificultada, poderá haver a necessidade de intervenção, para proporcionar as condições necessárias à sua desejável recomposição.

Edmar José Scaloppi é professor da Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp, Câmpus de Botucatu, SP.
Este artigo foi publicado originalmente no Estadão Noite de 19 de agosto de 2015.
Assessoria de Comunicação e Imprensa da Unesp

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