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sábado, 8 de agosto de 2015

Homem é inocente na extinção de grandes mamíferos, diz estudo

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Muitos cientistas costumam culpar o ser humano pela extinção dos mamíferos gigantes da Era do Gelo, mas um grupo de pesquisadores da Austrália e dos EUA resolveu pedir um novo julgamento, por assim dizer. Eles afirmam que o júri deveria ter condenado o clima, e não o homem, como principal causador da catástrofe.

A equipe liderada por Alan Cooper, da Universidade de Adelaide, publicou suas conclusões na revista "Science". Para o grupo, o fim da megafauna (termo que designa os mamíferos grandalhões) foi acontecendo aos pouquinhos, durante os vários períodos curtos de aquecimento brusco que pontuaram a fase final do Pleistoceno, ou Era Glacial.

Embora a ideia de que o clima tenha desempenhado um papel importante no sumiço dos gigantes pleistocênicos já circule há tempos, muita gente tinha dificuldade de aceitar essa hipótese.
Havia dados arqueológicos mostrando que alguns dos primeiros americanos caçavam espécies da megafauna. Tais dados sugeriam um efeito devastador da ação humana sobre essas espécies, que nunca tinham visto um caçador da nossa espécie na vida e que, portanto, não tinham evoluído para ter medo do ser humano.
Clique na infografia: Era uma vez um mamute

DNA E CARBONO-14
O novo estudo, porém, compilou uma enorme massa de dados para tentar mostrar que o cenário real é muito mais complexo. Suas principais ferramentas foram o carbono-14 (variante instável do elemento químico carbono, usada para datar matéria orgânica com até dezenas de milhares de anos) e o DNA obtido a partir do esqueleto de animais extintos.
Cooper conseguiu correlacionar a idade dos esqueletos com um registro da bacia de Cariaco, no litoral da Venezuela. Essa bacia contém sedimentos marinhos resultantes da morte de micro-organismos do oceano, formando uma espécie de "cebola" temporal bastante precisa –cada camada da "cebola" corresponde a um ano.
A composição dessas camadas de sedimentos registra as oscilações do clima ao longo dos anos em sua composição química. Em tese, isso significa que, se um osso de mamute e uma camada de sedimentos possuem a mesma datação de carbono-14, é possível saber se o bicho morreu numa fase de clima mais quente ou mais frio.
A segunda metade do quebra-cabeça são as análises de DNA. Os cientistas não usam mais só ossos para saber quais espécies viveram no passado. E eles verificaram que havia uma diversidade consideravelmente maior de megamamíferos do que se imaginava.

Com as datações precisas e o DNA, é possível ver que extinções de linhagens da megafauna aconteceram o tempo todo ao longo das últimas dezenas de milhares de anos da Era do Gelo. Aliás, não exatamente o tempo todo: elas se concentram nos períodos relativamente curtos de aquecimento brusco.
"Não sabemos exatamente como essas extinções aconteceram, mas elas podem ter surgido a partir das mudanças na vegetação trazidas pelo aquecimento", propõe ele.
A ação humana teria sido o "golpe de misericórdia", abalando ainda mais populações já fragilizadas pelas alterações climáticas.

O principal ponto fraco do trabalho na "Science" é a falta de dados sobre a América do Sul. "Sabemos que, na América do Sul, já havia extinções locais de populações de gonfotéridos [parentes extintos dos elefantes] há pelo menos 66 mil anos", destaca a paleontóloga Dimila Mothé Cordeiro dos Santos.
"O ajuste dos dados não parece ser tão bom quanto eles afirmam", ressalva Mario Cozzuol, paleontólogo da UFMG. Outra crítica do pesquisador é que o artigo da "Science" ignora trabalhos que já vinham mostrado a correlação entre períodos quentes do Pleistoceno e reduções da megafauna.
"Períodos quentes, com expansão da vegetação densa, tipo florestas, teriam reduzido a população, visto que animais de grande porte preferem ambientes abertos."
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ERA UMA VEZ UM MAMUTE
Picos de aquecimento na Era do Gelo teriam exterminado megamamíferos
A megafauna do pleistoceno
Esse termo costuma ser usado para designar os mamíferos de grande porte que sumiram do planeta no fim do Pleistoceno (a Era do Gelo)
O "overkill"
Durante décadas, descobertas como a presença de lanças de pedra (ao lado) em meio aos esqueletos de mamutes nos EUA levou os cientistas a postular a tese do "overkill", segundo a qual caçadores humanos teriam exterminado rapidamente a megafauna. Os animais, por terem evoluído longe dosseres humanos, seriam incapazes de sentir medo instintivo de nossa espécie

Convivência
Não há um padrão único de extinção –as espécies vão desaparecendo de forma lenta e individualizada, em alguns casos após longa convivência com humanos,o que invalida ideia do "overkill"

Aquecimento
Há uma correlação forteentre períodos de aquecimento súbito do clima e extinções. Em regiões como o Brasil, por exemplo, mais calor significou mais chuva, levando ao surgimento de florestas fechadas, enquanto os grandes mamíferos estavam adaptados a ambientes abertos

O novo estudo
Pesquisadores da Austrália e dos EUA mapearam o vaivém das alterações do clima e as datas de desaparecimento das diferentes espécies da megafauna nos últimos 56 mil anos

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