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quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Biólogo descreve oito novas espécies de microssapos do Sul do país


Zig Koch
Pesquisadora segura espécie de microssapo Brachycephalus pernix, de 10 mm, que vem de Morretes (PR)
Pesquisadora segura microssapo Brachycephalus pernix, de 10 mm, que é encontrado em Morretes (PR).  

Uma nova pesquisa descreveu oito novas espécies de sapo no Sul do país. Os bichos do gênero Brachycephalus surpreendem pelo tamanho: chegam a medir menos de um centímetro.
Eles disputam com outras duas espécies de sapos, de Cuba e da Papua Nova Guiné, que têm entre 8 mm e 10 mm, o título de menores sapos do mundo. Há ainda um sapo fluminense que pode chegar a 7 mm.

Os bichos de Santa Catarina e do Paraná foram descobertos pelo biólogo Luiz Fernando Ribeiro, 42, um especialista em caçar sapo. As novas espécies foram encontradas em montanhas com altitudes entre 800 metros e 1800 metros.
"Desde que eu era moleque no Paraná eu tinha esse fascínio pela Serra do Mar. Existe mata bem perto de Curitiba, onde nasci."
Catar os "sapinhos da montanha", como eles são chamados, não é fácil, porém.
Para capturá-los, os biólogos dependem essencialmente do canto, realizados pelos machos entre outubro e janeiro, durante o verão –quando os bichos se reproduzem. Fora desse período eles praticamente desaparecem. "Especialmente os mais amarronzados –são quase impossíveis de se ver", conta Ribeiro.

Ao avistar e ouvir o bicho, o primeiro cuidado é se aproximar devagarinho, ligar o gravador, apontar o microfone e registrar os coaxos. "Para quem não conhece o barulho, parece um grilo", afirma o biólogo.

Depois, é a hora da caça propriamente dita: "Temos de vasculhar o chão, buscando onde o som é mais forte". Os sapos tem de ser capturados e sacrificados. Os espécimes, por fim, são depositados em um museu de história natural.
Infográfico: Onde estão os sapinhos da Montanha.

Com uma amostra de DNA, o "código de barras genético" é comparado ao de outras espécies já catalogadas. A classificação genética, o canto dos bichos, a localização, o comportamento e a morfologia (o jeitão do bicho) vão ajudar na hora do "batismo oficial", quando os dados são publicados em uma revista científica de alcance internacional, para que outros pesquisadores saibam da descoberta.

Ao contrário da expectativa comum de sapinhos saltitantes, os microssapos preferem caminhar e raramente pulam. Quando o fazem, são extremamente desajeitados e usam como último recurso para fuga, descreve Ribeiro.

As fêmeas põem poucos ovos por vez (de três a quatro) e o desenvolvimento acontece em terra e é direto –os bichos não passam pela fase de girino.
Todas as espécies têm um ancestral em comum. Como os sapinhos vivem em topos de montanhas separados, em áreas muito reduzidas, as populações acabaram se tornando espécies diferentes.

Os bichos são perigosos, pelo menos para quem os ingere. A pele possui glândulas de veneno que atuam no sistema nervoso de quem os ataca. Um indicativo disso é a coloração forte de algumas espécies puxando para o amarelo ou até mesmo vermelho.
"O que chama a atenção é que todos os Brachycephalus são pequenos. Mais ainda, todas as espécies da família Brachycephalidae, da qual o gênero faz parte são diminutas", explica Ribeiro.

CONCORRÊNCIA
 
Um estudo relatando sete das novas espécies foi publicado na revista científica "PeerJ" –uma estava faltando. "Como tudo na vida, na descrição de sapos também há concorrência", diz Ribeiro.
"Um professor da Unesp de Rio Claro tentou descrever as espécies antes de nós, sendo que eu trabalho com este sapinhos aqui no Paraná e em Santa Catarina desde 2000. Isso nos obrigou a agilizar o trabalho, e não deu tempo de incluir a oitava espécie", afirma o pesquisador.
Depois da publicação do artigo científico, aí sim Ribeiro e seu colega Márcio Pie passaram a se dedicar à última espécie, o Brachycephalus quiririensis. Isso fez com que esse animal fosse descrito em um estudo científico posterior, publicado separadamente.

Deve haver mais espécies de sapinhos. Existem pelo menos outras duas espécies em que Ribeiro está trabalhando. Ele conta que deve ir a campo a partir de outubro, novamente à caça dos bichos.
O projeto foi desenvolvido pelo Mater Natura - Instituto de Estudos Ambientais, fomentado pela Fundação Grupo Boticário. A UFPR e a PUC-PR também são parceiras do da iniciativa.
Os animais, afirma Ribeiro, estão ameaçados por causa da degradação da mata atlântica nativa pela invasão de pinus (espécies de pinheiros) e pela criação de gado. Algumas espécies foram incluídas no plano nacional de conservação de anfíbios e répteis do Sul do Brasil.

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