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segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Ainda a extinção dos dinossauros

Estudo apresenta datação mais precisa da sequência de lava basáltica 'Deccan Traps', na Índia. O vulcanismo teria se acelerado após o impacto de um corpo celeste, contribuindo para a extinção em massa ocorrida há 66 milhões de anos – confira os comentários de Alexander Kellner. 
 
Por: Alexander Kellner
Publicado em 05/10/2015 | Atualizado em 05/10/2015
Ainda a extinção dos dinossauros
A região conhecida como ‘Deccan Traps’, a leste de Mumbai, na Índia, apresenta extensos depósitos de lava basáltica. (foto: Mark Richards/UC Berkeley).
 
Não tem jeito: quando se fala em extinção em massa, a atenção do público – e da comunidade científica – é redobrada. Ainda mais quando essa extinção está ligada aos dinossauros. Como é de conhecimento geral, em torno de 66 milhões de anos atrás, uma crise mundial se instaurou no planeta e resultou em uma das maiores extinções em massa conhecidas: mais de 70% de toda a vida foi dizimada em um tempo bem curto do ponto de vista geológico. Isso ocorreu no limite entre os períodos Cretáceo e Paleógeno (limite K/Pg) e o evento marcou o fim de diversos grupos, inclusive o dos dinossauros não avianos (nunca é demais repetir que as aves são dinossauros modificados e sobreviveram até os dias de hoje).

Em 1980, pesquisadores (incluindo um ganhador do prêmio Nobel) postularam que o motivo dessa crise que levou à extinção em massa no limite K/Pg foi um impacto de um corpo celeste de grandes proporções, como um meteoro, cometa ou asteroide, do qual se encontrou a cratera – denominada Chicxulub – na península de Iucatã, no México. Não é difícil imaginar a controvérsia e os questionamentos levantados em torno desse trabalho.

Entre as alternativas à teoria do impacto como responsável por essa extinção em massa, a que mais se destaca é aquela que sublinha a existência de um extenso vulcanismo no planeta, despejando por centenas de anos toneladas de produtos tóxicos e partículas de rochas que teriam uma enorme influência no meio ambiente. Essa proposta não é apenas teórica, mas se baseia no vasto depósito de lava denominado Deccan Traps, na parte centro-oeste da Índia.
Deccan Traps
Em vermelho, a região vulcânica conhecida como Deccan Traps. O retângulo preto marca a área de coleta de amostras de lava usadas na pesquisa. (imagem: Paul Renne, Berkeley Geochronology Center & UC Berkeley)
O depósito de lavas basálticas atinge uma área de mais de 500 mil quilômetros quadrados e uma espessura de aproximadamente dois mil metros. Essas rochas são evidências de um vulcanismo intenso que teria ocorrido também em torno dos 66 milhões de anos atrás, e muitos colocam essa sequência de eventos vulcânicos – e não o meteoro caído na Terra – como principais responsáveis pela crise biótica no limite K/Pg. Havia uma dificuldade, no entanto, na datação das lavas, cujos resultados indicavam que esse vulcanismo já teria começado antes do limite K/Pg (sendo, assim anterior à grande extinção), perdurando tempos depois desse limite.

Outros especialistas levantaram a possibilidade de que esses dois eventos de grandes proporções – o impacto de um corpo celeste e o intenso vulcanismo que resultou nas lavas basálticas das Deccan Traps – poderiam estar relacionados. No entanto, não havia nenhum estudo mais específico que pudesse provar ou ao menos trazer dados confiáveis que pudessem ser utilizados como argumentos dessa relação. Bem, não havia até agora...

A idade dos depósitos basálticos

Paul Renne, da Universidade da Califórnia em Berkeley, Estados Unidos) e colegas acabam de publicar na Science um estudo detalhado sobre a idade dos derrames basálticos das Deccan Traps. Os autores coletaram amostras em diferentes pontos, procurando estabelecer quando os derrames aconteceram – vale ressaltar que não se trata de um evento único, mas sim de diversos eventos ou pulsos de lavas que ocorreram ao longo de aproximadamente 500.000 anos. A metodologia empregada foi a datação radiométrica, que possibilita, com a ajuda de isótopos radiativos, calcular a idade de formação de uma rocha.

O impacto representado pela cratera Chicxulub teria mais que dobrado o derramamento de lavas
Para sua surpresa, os autores descobriram que a intensidade do vulcanismo não foi uniforme em todo período. Antes do limite K/Pg, o sistema vulcânico predominante era de erupções curtas, resultando em derrames pouco volumosos. Por outro lado, aproximadamente 50 mil anos depois do impacto, os derrames teriam se tornado menos frequentes, mas muito mais intensos, despejando um volume bem maior de lava, com maior potencial para alterações ambientais mais profundas. Os autores estimam que algo em torno de 70% de volume das rochas das Deccan Traps teriam se formado após o limite K/Pg.
Por que teria ocorrido esse aumento do vulcanismo? Segundo Renne e colegas, a evidência está cada vez mais clara: o impacto representado pela cratera Chicxulub teria mais que dobrado o derramamento de lavas.

Controvérsia

Apesar de o estudo ser muito bem-vindo – a precisão de datação tem melhorado muito, com a margem de erro girando em torno dos 100 mil anos – posso imaginar que muitos cientistas vão torcer o nariz. Existem alguns problemas ainda a solucionar para que a ideia de que o impacto de um corpo celeste possa influenciar na atividade vulcânica seja melhor fundamentada. Os autores não apresentam, como eles mesmos admitem, um modelo consistente que possa explicar como um impacto de um corpo celeste (ainda que de grande porte, com um diâmetro estimado em torno de 10km) no México vai ocasionar, 50 mil anos mais tarde, um vulcanismo mais intenso do "outro lado do mundo", na Índia.
Estudo de solo vulcânico
Paul Renne inspeciona uma faixa de solo avermelhado entre fluxos de lava nas Deccan Traps. Apesar de trazer resultados importantes, o estudo ainda deixa algumas lacunas, como a relação entre o impacto de um corpo celeste no México e o aumento da atividade vulcânica do outro lado do planeta. (foto: Mark Richards/UC Berkeley)
Também não podemos esquecer que, apesar de bem melhores, as técnicas de datação ainda não são refinadas o suficiente. Afinal, muita coisa acontece em 100 mil anos! Ou seja, simplesmente não temos hoje uma tecnologia que nos possa fornecer precisão maior e possibilitar o entendimento seguro de questões como a influência do derrame basáltico das Deccan Traps na extinção em massa do K/Pg. Parece que este assunto ainda vai dar pano pra manga...

Alexander KellnerMuseu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro
Academia Brasileira de Ciências

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