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sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Atendendo aos pedidos!

A Biologia histórica do Café

A breve história do café e sua influência

Nativo do nordeste africano, o café começou a despontar na Idade Média como sendo um grão apreciado pelos árabes, os quais foram responsáveis por levá-lo a Ásia e a Europa, e popularizar seu consumo e a criação de cafeterias, mesmo antes de que o café caísse no gosto dos europeus. Todavia, foi a partir do século XVII que o café se popularizou como bebida na Europa, levando algumas nações como a Holanda a investirem em cafezais e na sua produção em larga escala. Colônias foram fundadas, florestas foram desmatadas, escravos foram capturados e levados a essas fazendas de café. 

No século XIX, o café se tornou a bebida do trabalhador, embora fosse apreciado desde o mais pobre ao mais rico. O Brasil enriqueceu com o café no século XIX e começo do XX, tornando-se um dos maiores produtores do mundo. 

O café esteve associado a burguesia e as elites; foi iguaria cobiçada, luxuosa e cara. Foi empregado como medicamento e até mesmo usado para se adivinhar o futuro. As cafeterias tornaram-se centros para a difusão de ideias, passando a serem locais de sociabilidade e requinte. O café foi associado a problemas de saúde, e também preocupou os vendedores de cerveja e vinho, devido a sua popularidade crescer rapidamente, ameaçando o consumo de tais bebidas alcoólicas. O café também foi considerado a bebida dos intelectuais no século XVIII. 


Assim como a história do açúcar, a história do café foi marcada por descobertas, inovações, aventuras, alegrias e tragédias, as quais unidas moldaram a história de uma das bebidas mais consumidas e apreciadas hoje em dia. Da próxima vez que você beber café seja em casa ou na rua, pense nisso: o café foi uma das bebidas que moldou a História. 

O cafeeiro: 

A planta do cafeeiro originalmente cultivada pelos árabes era a Coffea arabica, sendo uma planta nativa do sudoeste da Etiópia, da região de Kaffa. Não se sabe quando ao certo os homens descobriram os efeitos da cafeína, mesmo que fosse ingerindo os grãos crus. Uma popular lenda datada entre os séculos VIII e IX conta que um pastor etíope chamado Kaldi, observou que suas cabras ficavam mais enérgicas após comerem alguns grãos de um pequeno arbusto, e essas ficavam saltitando de um lado para o outro (CIVITELO, 2008, p. 64-66). Ele continuou a perceber isso por mais algum tempo, até que teria ingerido um daqueles grãos e sentido os efeitos da cafeína. 


Gravura retratando o lendário pastor Kaldi e suas cabras. 
A coffea arabica hoje é a principal espécie de cafeeiro, e a mais cultivada no mundo, embora existam outras  como a coffea canephora (ou coffea robusta) e a coffea liberica. A c. arabica é uma planta de folhas bem verdes, crescendo a uma altura de 1 a 1,5 metros. Algumas variações chegam a ser mais altas. Quando madura ela dá várias flores brancas, que exalam uma boa fragrância. Suas frutas quando ainda estão em amadurecimento passam pelas cores verde ou amarelo, até ficarem vermelhos. 


Foto de um cafeeiro pronto para ser colhido. 
A c.arabica é uma planta acostumada a um clima quente, embora consiga se adaptar a temperaturas mais baixas, pois originalmente ela crescia em terrenos montanhosos na Etiópia. Por tal aspecto, o clima mais frio de São Paulo no Brasil, não foi um empecilho para o cultivo dessa árvore, pois até então a maioria dos cafeeiros eram cultivados em climas quentes. São Paulo tornou-se e ainda é o principal produtor de café no Brasil. 

Todavia, embora seja nativa da Etiópia, sua produção começou a aumentar propriamente com a chegada dos árabes os quais levaram algumas mudas para a península arábica, mais especificamente o que hoje é o norte do Iêmen. A Etiópia na Idade Média começou a se islamizar, pois antes disso, ela era cristã (ainda hoje há cristãos etíopes e até uma igreja própria de lá). Todavia, existe uma lenda árabe que diz que o mestre sufista Abul Hasan ash-Shadhili (1196-1258), conhecido por suas peregrinações para difundir os ensinamentos do sufismo (corrente mística e esotérica do islão), teria sido o responsável por levar o café ao Iêmen, após se interessar por aquela planta que concedia energia e supostas virtudes. 



Os árabes acabaram tomando conhecimento do café e se interessaram em cultivá-lo. 
Não se sabe ao certo se o mestre Abul Hasan realmente levou algumas mudas de café, mas registros históricos apontam que por essa época, já havia cafezais no Iêmen. E foram com os árabes que o seu cultivo foi melhor trabalhado e desenvolvido, pois na Etiópia a população inicialmente colhia o café ainda em seu estado selvagem, apenas depois que os etíopes passaram a domesticar aquela planta. 

O café conseguiu se difundir entre os árabes principalmente devido ao fato de que no Alcorão, o profeta Mohammed recomendou que as pessoas deveriam evitar tomar bebidas alcoólicas (CIVITELLO, 2008, p. 64). Em alguns países islâmicos ainda hoje o consumo de álcool é bem restrito e liberado apenas aos estrangeiros. Logo, desde a Idade Média, a principal bebida que os árabes apreciavam eram o chá, com a introdução do café, essa bebida se tornou tão importante quanto o chá, ao ponto de haverem antigas lendas que diziam que o profeta Mohammed, teria descoberto o cafeeiro e teria sido o primeiro a inventar aquela bebida (TOPIK, 1999, p. 648). 


Além dessa importância dada pelos árabes para a difusão do cultivo do café, a palavra café também é de origem árabe. Embora a coffea arabica seja originária da região de Kaffa, a palavra café vem de qah'wa, antiga palavra árabe usada como sinônimo para vinho. Logo, o qah'wa era o "vinho dos muçulmanos". No século XVII, os holandeses tornaram-se os principais cultivadores de café, tendo plantado latifúndios escravocratas na Indonésia, a partir da língua holandesa passou-se a se chamar coffie, que virou coffee em inglês, até virar café em português. 



Mercadores árabes de café. 
Os usos do café: 

Diferente do açúcar o qual é elemento para a produção de vários tipos de alimentos doces e algumas bebidas, o café em geral tem seu principal uso como bebida, no entanto, ao longo da História ele já foi recitado como medicamento, já foi usado para fazer chá, doces e até mesmo magia. Hoje o café ainda é usado em alguns doces como balas de cafés e torta de café; no caso da farmácia ele não é usado propriamente como medicamento, mas utiliza-se a cafeína em alguns remédios, pois hoje sabe-se que o café pode causar problemas estomacais ou agravar outros como úlceras e gastrite. 

De qualquer forma, inicialmente o café não era bebido, mas consumido puro ao se comer as frutas ainda maduras. No caso dos árabes no Iêmen, entre os séculos XII e XIII era costume usar as folhas do cafeeiro e a casca do café para se fazer chá (TOPIK, 1999, p. 641). Apenas tempos depois ainda em data não precisada é que os árabes começaram a triturar o café e assim misturá-lo com água, para preparar a bebida que hoje conhecemos. Por volta do século XVI começou a se torrar o café, o que proporcionava novos sabores.




A história da difusão do café será contada no tópico seguinte, mas prosseguiremos com seus usos os quais não eram tantos assim. O café no século XVI já era uma bebida amplamente apreciada nas nações islâmicas na Ásia e na África. Até na Índia já se bebia com regularidade café devido a Dinastia Mogol (não confundir com os mongóis) ser muçulmana. No caso da Europa, os europeus tiveram contato com o café ainda na Idade Média, mas foi a partir do XVII que a bebida começou a se espalhar pelo continente. Somado ao açúcar que abundava naquele tempo, começou-se a criar distintas formas de como se beber café e até alguns doces feitos com café, surgiram. 

No âmbito da medicina, o café devido a suas qualidades energéticas por causa da cafeína, era recomendado para se tratar distintos males relacionados ao estômago, intestino, fígado, fadiga, cansaço, dores musculares, dor de cabeça, enemas, fisemas, tosses, escorbuto, hidropisia, gota, etc (CIVITELLO, 2008, p. 65). Curiosamente ainda no século XVII, médicos franceses recomendavam o consumo de café para vários tipos de doenças (MONTANARI, 2004, p. 112), que hoje na prática, o consumo dessa bebida em nada favorece a melhoria do doente.


Todavia, o café nem sempre foi visto como possível medicamento, houve casos de que tentou-se proibir o café fosse por causas religiosas ou supostamente médicas. Em 1574, o sultão turco Murad III, ordenou a suspensão da lei que proibia o consumo de café e tinha fechado as cafeterias em seu império, lei essa imposta em algumas das províncias, pois alegava-se que o café consistia entre as bebidas proibidas pelo Profeta Mohammed. Pelo fato do sultão ser um apreciador da bebida e julgando que isso não passava de interesse da classe religiosa, aboliu tal proibição (AMARAL, 1958, p. 181). 


No caso europeu, houve em Veneza, Roma e em outras cidades italianas e em Marselha na França, teorias que diziam que o café incentivaria a luxúria, ou causaria impotência e paralisia (AMARAL, 1958, p. 181). Por outro lado, na Itália houve religiosos que defenderam que o café era uma "bebida de árabe", e não deveria ser consumida pelos cristãos. 


Quanto ao quesito mágico, o café possuía menos empregos do que o açúcar, mas uma prática mágica ainda hoje em uso, é a cafeomancia, ou seja, ter visões sobre o futuro a partir da interpretação da borra do café (neste caso o pó de café não pode ser coado), a qual era deixada após tomá-lo numa xícara. Tal prática é bastante antiga e surgiu entre os árabes, sendo difundida pela Ásia, África e Europa. Nos séculos XVII e XVIII, entre a nobreza da França e da Rússia, a cafeomancia foi bem popular. 



Uma mulher predizendo o futuro para outra, através da técnica da cafeomancia.
Mas para além do âmbito culinário, farmacêutico e mágico, o café também contribuiu para mudar hábitos sociais e culturais, assim como foi no caso do açúcar e de outras bebidas. No século XV, já haviam cafeterias (al-maqhah-maqhah) em nações árabes, e no século XVI elas começaram a proliferar, surgindo na Pérsia, Ásia Menor, Egito e no norte da África (CIVITELLO, 2008, p. 66). 

As cafeterias:

A expansão do consumo de café alavancou-se entre as nações árabes a partir do século XVI, algo visível não apenas no crescimento do consumo dessa bebida, mas visto também na quantidade de cafés que foram abertos pela Ásia e pela África. Os cafés daquele tempo não eram tão diferentes de hoje em dia em alguns aspectos: as pessoas iam aos cafés para se alimentar, conversar e relaxar. 



Pintura de um café em Istambul, Turquia, no século XIX. 
Mas devido a popularização dessa bebida, os dos de cafés começaram a propor outros serviços para atrair a clientela. Logo, cafeterias tornaram-se locais para marcar encontros, marcar reuniões, ir fumar, jogar xadrez, gamão, damas; ler livros (pois algumas possuíam bibliotecas ou livrarias), ouvir histórias ou música, ver dançarinas e em alguns casos, havia a disponibilidade de prostitutas. Em 1511, Chair Bey, governador de Meca, ordenou que muitas cafeterias fossem fechadas, pois a população estava se tornando ociosa, a medida que preferiam passar horas nestes locais (CIVITELLO, 2008, p. 66/AMARAL, 1958, p. 181). 


Pintura de uma cafeteria árabe. 
Na Europa do século XVII, as cafeterias ainda eram poucas: em 1645 foi inaugurada a primeira cafeteria na Itália, em 1652 foi a vez da Inglaterra, e em 1672, inaugurava-se a primeira cafeteria na França (BENDINER, 2004, p. 171). Enquanto os cafés ainda estavam se formalizando nas nações europeias, nestes locais apenas a burguesia, a aristocracia e a nobreza os frequentavam. Tal fato mostrava-se como um diferenciador social, pois o restante da população não tinha dinheiro para frequentar estes locais requintados, tendo que se contentar em comprar o café, moê-lo, torrá-lo e consumir em casa. 

“Touted as the beverage of bourgeois intelligence and efficiency, coffee was expected to undo the laziness and obtuseness of the traditional aristocracy. Running parallel with that idea was the opposition of the thin to the fat, and it is certainly not coincidental that this subversive drink was categorized by doctors as “dry” (with reference to Galienus’s classification), and therefore “dehydrating.” As a replacement for wine and beer (“warm” drinks and rich, we would say, in calories), use of coffee also implied an overturning of the most widely held aesthetic canons”. (MONTANARI, 2004, p. 119).

Pintura do café Sadullah Pashah em Viena, Áustria. Fundado por um comandante turco em 1683. 
O café era uma bebida tão popular entre as elites europeias quanto o vinho e a cerveja (MONTANARI, 2004, p. 111-112), ao ponto de que em alguns países houveram restrições para seu consumo, pois o café foi visto como forma subversiva, fosse pelo fato de ameaçar outras indústrias de bebida ou por ser um vetor para reunir pessoas e ideias, que foram consideradas em alguns casos subversivas. 

“The seventeenth century marked the opening of the first coffeehouse in Paris in 1686 by an Italian named Procope. Almost everywhere coffee was introduced it met with two responses. The first was overwhelming enthusiasm from the people who drank it. The second was repression by the government. In Mecca, the governor ordered the coffeehouses closed when he heard the patrons were making fun of him. King George II did the same in England for the same reason. The French were going to ban coffee because they were afraid it would replace wine as the national beverage; the Germans feared for their beer. In all these places, people kept drinking coffee and eventually the bans were lifted. An exception was Italy, where coffee was never banned even though Catholic priests appealed to the pope to ban the Muslim beverage. Instead, the pope tried it and gave it his blessing”. (CIVITELLO, 2008, p. 169).

Assim como os cafés no mundo islâmico eram locais para se trocar ideias e tomar conhecimento delas também, na Europa, isso não foi diferente. O mesmo foi visto na Itália, Áustria, Alemanha, Inglaterra, Portugal, Espanha, etc. No caso francês mais especificamente, os cafés no século XVIII em Paris, tiveram um papel importante para difundir as ideias iluministas e revolucionárias (BURKE, 2003, p. 50). 


"Os donos dos cafés frequentemente exibiam jornais e revistas como modo de atrair clientes, encorajando assim a discussão das notícias e o surgimento do que muitas vezes é chamado de "opinião pública" ou "esfera pública". Essas instituições facilitavam encontros entre ideias e indivíduos". (BURKE, 2003, p. 50-51).

No caso de Paris entre suas centenas de cafeterias, um dos mais famosos era e ainda é o Le Procope, fundado em 1686 pelo siciliano Francesco Procopio dei Coltelli. No século XVIII o café Le Procope se tornou local de encontro de importantes pensadores e nomes do iluminismo como TurgotBarão de MontesquieuVoltaireRousseauDiderotd’AlembertCondorcetLa Harpe e até de revolucionários como Robespierre e Danton, e o futuro imperador da França, Napoleão Bonaparte (AMARAL, 1958, p. 182).
Gravura representando os filósofos Voltaire e Diderot reunidos a outros homens no café Le Procope no século XVIII.
“The Café Heinrichhof in Vienna inspired Johannes Brahms and other great composers, as well as merchants who preferred the sound of money. Other coffeehouses (such as this author’s grandmother’s Café Mozart in Vienna) hosted cards and billiards and other such less-inspired diversions.The leisure of the coffeehouse was serious business”. (TOPIK, 1999, p. 643). 

Até mesmo ideias e ações para a futura Revolução Francesa (1789-1799) foram debatidas no Café Procope e em outros cafés da cidade, como o Café Foy, onde no dia 13 de julho de 1789, Casmille Desmoulins planejou o ataque a prisão da Bastilha, algo que ocorreu no dia seguinte, tornando-se marco para o início da revolução em França (TOPIK, 1999, p. 643). 

Enquanto o açúcar esteve associado a gula, chegando a ser motivo de queixas por parte de religiosos, que consideravam tal alimento como incitador desse pecado, e em outros casos, os doces foram vistos como forma de ostentação, principalmente no século XVI e começo do XVII, o café, mais especificamente as cafeterias, tornaram-se locais associados a conversa e trocas de ideias. O café nos séculos XVII e XVIII, foi considerado uma bebida associada a intelectualidade e a civilidade, e por sua vez, a cerveja passou a ser depreciada, sendo considerada a bebida das "classes baixas", da bagunça e da ignorância, pois o café inspirava e a cerveja embriagava (TOPIK, 1999, p. 643). Pessoas se reuniam nas cafeterias para debater sobre artes, filosofia, história, política e ciências (BENDINER, 2004, p. 146). 

Por tais aspectos, as cafeterias foram locais mal vistos em determinadas épocas como mencionado, por serem difusores de ideias que nem sempre agradavam alas do governo, da sociedade e das igrejas (HIGMAN, 2012, p. 152). 


“Em 1671, já seriam aproximadamente três mil os cafés londrinos; e no ano seguinte o rei levantava perante os magistrados a questão da moralidade dessas casas, pontos de concentração de gente pouco recomendável. Depois de três anos de gestões, surgiu a proibição. Contrária ao espírito da Constituição britânica, escreveria Disraeli, muito depois: "Afirmava o rei que, em tais estabelecimentos, se abandonava enorme quantidade de ociosos, ajuntamento o mais pernicioso. E também que ali se reuniam muitos negociantes e outra gente do comércio a perder enorme tempo em conversas inúteis, esquecidos de obrigações e deveres. Também em tais casas correm falsos, maliciosos e escandalosos ditérios que se espalham por fora difamando o governo de Sua Majestade, produzindo assim a quebra da paz e perturbando o sossego da monarquia." O clamor público fez o rei voltar atrás, o que demonstra a popularidade do café em Londres, e faz imaginar exata, sem exagero, a cifra linhas acima dada para exprimir o número de casas onde ele era servido”. (AMARAL, 1958, p. 183). 


Essa visão negativa sobre as cafeterias como locais para a circulação de ideias ousadas e de ideais políticos, também se manteve no século XIX. Por exemplo, nas vésperas das Revoluções de 1848 ocorridas em distintos países da Europa, algo que ficou conhecido como Primavera dos Povos, houve reuniões em cafeterias em Paris, Londres, Berlim, Viena, Veneza e Budapeste (TOPIK, 1999, p. 643). 


Por essa época, as cafeterias já não eram mais locais exclusivos para as elites, as classes baixas em geral formada pelo proletariado que crescia na esteira da Revolução Industrial, passou a frequentar com mais frequência tais locais. Não obstante, nos Estados Unidos, o café no século XIX já era uma das bebidas mais consumidas do país, tendo suplantado o gosto pelo chá, legado esse que os americanos consideravam uma lembrança de seu vínculo como colônia da Inglaterra. Nos EUA, as cafeterias não estavam associadas a locais de ideias subversivas como ocorria na Europa, norte da África e no Oriente Médio (TOPIK, 1999, p. 644). 


No século XX as cafeterias continuariam a se expandir pelo mundo, mas o café não estaria mais presa a estas, passando a ser vendido em lanchonetes, restaurantes, bares e em outros estabelecimentos de alimentos e comerciais. O café tornou-se no século XX o que ele já vinha sendo desenvolvido desde o final do XVIII, a bebida do dia a dia. Durante a Grande Depressão nos EUA, café e um sanduíche de pasta de amendoim com geleia, era a refeição diária de muitos trabalhadores americanos. Devido ao seu baixo custo, tais alimentos impediram que o número de mortos pela fome tivesse sido maior. 


Logo, nos dias de hoje, milhões de pessoas bebem café diariamente, seja apenas na primeira refeição a qual devido a influência dessa bebida passou a ser chamada na língua portuguesa de café da manhã (breakfast). Todavia, o café não é apenas saboreado na primeira refeição do dia, ele também inclui lanches, o popular intervalo para um café ou como se diz na expressão brasileira "vou ali, tomar um cafezinho", algo que equivale ao coffee break dos americanos.



Hoje em dia para muitas pessoas, não ter café durante a primeira refeição do dia, é algo de estranho, pois tal bebida tornou-se tão familiar que muitos sentem sua ausência. 
“The combination of coffee and wake-up time reveals how closely coffee and the first meal of the day are connected in the modern American mind. Whether breakfast is ‘Continental’, consisting of coffee and a roll with butter and jam, or a full American affair, evolved from nineteenth-century English practice, with eggs, bacon, sausage, toast, cereal, juice, potatoes and other heavy items, coffee remains the liquid accompaniment”. (BENDINER, 2004, p. 178). 

Com o advento das cafeteiras e do café espresso isso facilitou a difusão do café seja nos lares, no trabalho e em outros ambientes urbanos. Você chega numa recepção, dependendo do país, há uma garrafa de café ou uma cafeteira; seja esperando numa clínica, hospital, num escritório, numa escola, numa loja de móveis, num banco, etc., quase todos estes locais haverá café o qual seja apenas de consumo dos funcionários ou possa a ser oferecido aos clientes. 
O café se expande pelo mundo:

Como visto anteriormente neste texto, foi por volta do século XII que o cultivo do café teve início entre os árabes no norte do Iêmen. Do século XII até o século XVI, o Iêmen seria o principal produtor de café para o mundo islâmico, tal fato era tão significativo que um dos principais portos da região, chamado de Mocha ou Mocca, tornou-se sinônimo para café, daí encontrar-se referências da época falando acerca do café de Mocha ou café mocha. Embora que ainda hoje, café mocha é sinônimo de café de boa qualidade. 



Localização da cidade de Mocha no Iêmen. Durante séculos foi um dos principais produtores de café no mundo. 
No caso da Europa, ainda na Idade Média, alguns viajantes europeus que frequentavam as terras islâmicas tomaram conhecimento do café, embora não tiveram interesse em levá-lo para suas terras, apenas levaram consigo as histórias que ouviram. Ainda no século XV e XVI, o café era pouco conhecido na Europa, sendo principalmente conhecido em Veneza, Roma, Gênova, Florença, Viena, Paris, Atenas e Constantinopla, devido a proximidade desses lugares com mercadores árabes e turcos. 

Alguns burgueses e nobres que tinham conhecimento dessa bebida, chegavam a comprar alguns grãos com vendedores árabes ou turcos, mas o consumo era caseiro e modesto. Apenas na segunda metade do século XVII é que o café começaria a despontar na Europa, quando cafeterias foram fundadas na Áustria, Itália, França, Inglaterra e Holanda. Por essa época o café já era conhecido na Índia e até mesmo ali era cultivado. 



Mapa mostrando as palavras usadas para se referir ao café em distintos países europeus. 
No final do século XVII, os europeus já vinham tentando cultivar café em estufas, mas a produção era pequena e em alguns casos a qualidade do solo e o clima não contribuiram para o desenvolvimento da planta. Neste caso apenas dois países possuíam mudas de café, a Holanda e a França, sendo que as mudas de café dadas de presente para o rei francês Luís XIV em 1713, havia sido presente de um mercador holandês chamado Nicolau Witsen (AMARAL, 1958, p. 183). Por volta de 1699 os holandeses decidiram entrar no mercado de produção de café e passarem a concorrer com os árabes. 

Assim, eles aproveitaram suas colônias fundadas através da Companhia das Índias Orientais (Vereenigde Oost-Indische Compagnie), e começaram a plantar cafezais na ilha de Java (hoje parte da Indonésia), fundando grandes latifúndios monocultores e escravocratas. No século XVIII, parte do café consumido pelos europeus era de produção holandesa e advinha da distante ilha de Java, a qual por sua vez tornou-se sinônimo de café, chamando-se café de Java ou café java (CIVITELLO, 2008, p. 66). Até meados do século XIX, o café java era um dos mais requisitados, mesmo que em outras partes do mundo já se produzisse café em larga escala. 



Gravura retratando escravos indonésios colhendo café, numa fazenda holandesa em Java. 
No século XVIII, o café era ao lado do chocolate e do chá, as três principais "drogas das Índias", mais consumidas pelos europeus (BENDINER, 2004, p. 172). Entenda-se que o conceito de droga não tem haver com a noção de hoje em dia propriamente, mas referia-se a plantas cobiçadas pelos europeus e que poderiam gerar vício, pois de fato, o café e o chocolate, mas nem tanto o chá, são alimentos viciantes. Logo, o café, o chocolate, o chá se uniam ao açúcar e outras especiarias asiáticas, africanas e americanas, genericamente chamadas "das Índias". 

Por volta de 1710 os franceses que se tornaram ao lado dos ingleses, vieneses e venezianos, grandes apreciadores de café, desenvolveram um novo método de preparar o café, fazendo uso do coador, para coar o pó por meio da infusão na água quente. Por outro lado, é creditado aos franceses o hábito de tomar café com leite (café au lait) (CIVITELLO, 2008, p. 169). algo que até hoje é comum para muita gente, além do fato de que há pessoas que preferem beber café apenas misturado com leite. 


Assim, com o rápido crescimento da popularização do consumo de café nos principais países europeus, os holandeses o passaram a cultivar na Guiana holandesa (atual Suriname), em data ainda incerta, mas foi na década de 1710. Há também relatos de cafezais na Ilha Bourbon (a leste de Madagáscar), tendo sido plantado pelos franceses, e de cafezais na Jamaica, também plantado pelos franceses (AMARAL, 1958, 184). No entanto, data de 1723, ano no qual o francês Gabriel Mathieu de Cleau, levou algumas mudas de café para a ilha de  Martinica. Posteriormente o café dos francês foi levado para outras como o Haiti. Posteriormente, os ingleses e os franceses também plantariam seus cafezais no continente, nas regiões chamadas de Guianas


Gravura retratando o capitão Gabriel Mathieu de Cleau protegendo uma pequena muda de café, a qual estava sendo levada para a ilha de Martinica. 
No caso do Brasil, conta-se que por volta de 1727, o militar Francisco de Melo Palheta teria conseguido alguns grãos de café na Guiana francesa, e os trazido para a Capitania do Grão-Pará e Maranhão, tendo plantado os primeiros cafeeiros no Brasil. Todavia essa história hoje é considerada como semilendária por alguns historiadores. 

"E, pois, de todo inaceitável a versão, segundo a qual prestimosa senhora da Guiana francesa houvesse enchido de grãos de café os bolsos de Francisco de Melo Palheta. Primeiramente, porque a muda conduzida, penosa e lentamente, em 1723, não poderia ainda haver frutificado em maio de 1727. A seguir, porque, mesmo que isso já houvesse acontecido, não se poderia conceber que os frutos, transportados para a Guiana, também aí já houvessem gerado outros cafeeiros e estes, por sua vez, já dessem safra em 1727". (AMARAL, 1958, p. 184). 

Embora não se saiba quando o café chegou propriamente ao Brasil, em carta datada de 1731, escrita por Alexandre de Sousa Freire, governador e capitão-general do Estado do Maranhão, ao rei D. João V, o governador solicitava de Sua Majestade a isenção de impostos pelo prazo de doze anos, para desenvolver o cultivo da canela e do café. De fato naquele mesmo ano, chegou um carregamento de café ao porto de Lisboa, carga essa advinda do Brasil (AMARAL, 1958, p. 187). De qualquer forma, o café só passaria a ter influência na economia brasileira, mais de um século depois.

Ainda pelo século XVIII, os holandeses, árabes e os franceses seriam os principais produtores de café no mundo; disputando mercados internacionais com os turcos, ingleses e indianos. No século XIX, novas ilhas e regiões do continente americano passaram a cultivar café: Colômbia, México, Equador, VenezuelaGuatemala, Nicarágua, Honduras, Bolívia, Cuba, El Salvador, Jamaica, etc., no entanto, principalmente a partir da sua segunda metade do XIX, o Brasil estaria a frente dessa produção, pois embora os americanos estivessem entre os maiores consumidores de café, eles ainda naquele século não haviam conseguido estabelecer uma produção apropriada para seu cultivo, dependendo da importação. Em compensação, os americanos disputavam com os ingleses a maior produção de algodão no mundo. 

“Se começarmos pelo continente negro, pátria do café, passando daí à Ásia, como ele mesmo e de onde se divulgou, e depois à América central, descendo, enfim, à do Sul, onde chegou por último e estabeleceu quartel-general, faremos a seguinte distribuição perfunctória da cultura cafeeira: Etiópia e Somália, Uganda, Quênia, Tanganica, Congo-Belga, Madagáscar, Angola — na África; Áden, Índia inglesa, Malásia, Índias holandesas — na Ásia; Suriname (Guiana Holandesa), onde provavelmente se cultivou primeiro nas Américas; Porto Rico, São Domingos, Haiti, Cuba, Jamaica, Guatemala, El Salvador, Nicarágua, Costa Rica — na América Central; México — na América do Norte; Equador, Colômbia, Bolívia, Venezuela e Brasil — na do Sul”. (AMARAL, 1958, p. 189). 

Mapa atual com os produtores de café no mundo. As variações de cores indicam o tipo de café cultivado. Verde escuro = c. cenaphora; verde claro = c. cenaphora e arabica; amarelo = c. arabica
A partir de 1820, a produção de café no Brasil tornou-se significativa, pois já constam em registros nacionais e internacionais uma boa quantidade desse produto sendo exportado, tendo como um dos principais clientes, os Estados Unidos.

"O café só começou a aparecer, como valor nacional apreciável, em 1820. Em 1850 a sua exportação estava representada por cerca de 1.500.000 sacas, menos de seis milhões de arrobas. A exportação total, no período em que havia tráfico africano, não atingiu a 150 milhões de arrobas". (SIMONSEN, 1937, p. 204). 

Café sendo posto para a secagem. Fotografia tirada em 1902 em Dumont, São Paulo, Brasil.
Da segunda metade do século XIX ao presente século XXI, o Brasil figura como um dos maiores produtores da café do mundo, tendo assumido o primeiro lugar por vários anos consecutivos (AMARAL, 1958, p. 213). Graças a riqueza do café, a Província de São Paulo pôde se modernizar, e a Vila de São Paulo do Piratininga pôde tornar-se uma cidade. A riqueza do café incentivou os "barões do café" a investirem em ferroviais, aumentar o porto de Santos e trazer indústrias para São Paulo e o Rio de Janeiro. 

No século XX, após a crise de 1929 com a "quebra" da Bolsa de Valores de Nova York, muitos cafeicultores no Brasil e no mundo chegaram a falência ou bem próximo disso. No entanto, nas décadas seguintes, outros países da África e da Ásia passaram a cultivar café também, e o Brasil foi recobrando seu posto como principal produtor de café no mundo. Até 1940, dos 28.318.200 sacas de 60 quilos de café produzidas no mundo, desse total, 19.343.000 sacas foram produzidas no Brasil, representando para aquele ano, a parcela de 68,31% da produção mundial de café (AMARAL, 1958, p. 213). 

Considerações finais:

Embora sua "descoberta" ainda seja envolta em lendas sobre um pastor etíope e suas "cabras dançantes", o café de fato ganhou o mundo em cinco séculos. Um percurso longo, mas devemos nos lembrar que bebidas como a cerveja, o vinho e o chá, são consumidos a milhares de anos. A avassaladora guinada do café como bebida diária ocorreu entre os séculos XVIII e XIX, consolidando-se no século XX, tornando-se uma das bebidas mais diárias da humanidade, inclusive em países nos quais se oferecem alimentos tidos básicos, o café figura entre esses alimentos. 

Fotografia de uma etíope ao lado de uma cesta com grãos de café. Partindo da Etiópia, o café ganhou o mundo. 
No entanto, não podemos negar o papel fundamental dos árabes em se difundir o cultivo do café, em se elaborar as primeiras técnicas de seu preparo como bebida, além de criarem as cafeterias, as quais tiveram aspectos sociais e culturais que contribuíram para moldar a sociedade Ocidental, e até mesmo estiveram relacionadas a grandes mudanças na História, como debates filosóficos, artísticos, científicos e políticos, dos quais alguns repercutiram em planejamento de importantes revoluções.

O café como o açúcar foi considerado uma "droga do Oriente" por seus fatores viciantes. Foi visto por alguns como um medicamento para os mais diversos males, mas para outros, foi considerado algo perigoso, por supostamente criar alguns males, além de levar a ociosidade e a vadiagem. 

Símbolo de lazer, sociabilidade, requinte, luxo, civilidade, inteligência, subversão, revolução, trabalho e do cotidiano, o café nos últimos quatrocentos anos veio moldando o mundo em distintos aspectos, da economia, agricultura, comércio, alimentação, lazer, sociabilidade, política, costumes e até artísticos, de forma direta ou indireta. 

Cup of Coffee. Pablo Picasso, 1913. 
Assim como foi o caso do açúcar, o café em parte só conseguiu ser amplamente produzido antes da Revolução Industrial, mediante a escravidão de asiáticos, africanos e ameríndios. Fossem dos cafezais árabes, aos indianos, holandeses, franceses e brasileiros, o escravos foram responsáveis por séculos para cultivar e colher o café, embora que no século XIX em muitos países que já haviam abolido a escravidão, trabalhadores assalariados assumiram tal posto.

Embora eu não goste de café, fato esse no qual faz mais de dez anos que eu não consumo essa bebida, mas como historiador, não posso negar o papel dessa árvore, alimento, bebida e mercadoria que mobilizaram a vida de milhões de pessoas pelos quatro cantos do país. 

NOTA: Em 2009 de acordo com a Organização Nacional do Café, o Brasil naquele ano produziu 39,4 milhões de sacas de café, estando em primeiro lugar no ranking mundial de produção de café. Em 2014 de acordo com a Expocafé, o Brasil produziu 50,2 milhões de sacas. Atualmente o país é o maior produtor de café do mundo, responsável por 1/3 do café produzido no planeta. 
NOTA 2: Embora a palavra cappucino seja de origem italiana e date pelo menos do século XVI, a bebida cappucino é uma invenção do século XX. 
NOTA 3: Sobre o problema da história da introdução do café no Brasil, em 1727, entre algumas obras que abordam o tema, recomendo ler a explicação e análise de Luís Amaral em seu livro História geral da agricultura brasileira no tríplice aspecto: político-social-econômico, volume 2. 
NOTA 4: Acerca da expansão do café pelo mundo, Luís Amaral no livro mencionado acima, traz bastantes dados interessantes sobre esse processo. Acabei não usando boa parte deles, pois estenderia demasiadamente esse texto. 

Referências Bibliográficas:

 

AMARAL, Luís. História geral da agricultura brasileira no tríplice aspecto: político-social-econômico - vol. 2. 2a ed, São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1958. 
  BURKE, Peter. Uma história social do conhecimento: De Gutenberg a Diderot. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2003. 
  BENDINER, Kenneth. Food in painting: from renaissence to the present. Hong Kong, Reaktion Booksm Ltd., 2004. 
  CIVITELLO, Linda. Cuisine and Culture: a history of food and people. 2a ed. Hoboken, John Wiley & Sons, Inc., 2008. 
 
HIGMAN, B. W. How Food Made History. West Essex, Wiley-Blackwell, 2012. 
 
MONTANARI, Massimo. Food is Culture. Translated from the italian by Albert Sonnenfeld. New York, Columbia University Press, 2004. 
 
SCHAMA, Simon. O desconforto da riqueza: a cultura holandesa na época do ouro. Tradução Hildegard Feist. São Paulo, Companhia das Letras, 1992.  
 
SIMONSEN, Roberto C. História econômica do Brasil: 1500-1820. São Paulo, Companhia da Editora Nacional, 1937. (Série 5, vol. 100).
 
TOPIK, Steven C. Coffee. In: KIPLE, Kenneth F; ORNELAS, Kriemhild Coneè (editors). The Cambridge World History of Food - vol. 1. Cambridge, Cambridge University Press, 2000. 2v. p. 641-653.

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