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sexta-feira, 20 de novembro de 2015

 A Biologia contando a história de um vegetal que mudou o mundo!

Breve história do chocolate e sua influência

De uma bebida ritualística consumida pelos sacerdotes em honra aos deuses, passando por moeda de troca; recomendado como remédio ou afrodisíaco, até finalmente se tornar um dos mais queridos doces do mundo, o chocolate influenciou a história moderna em termos econômicos, sociais e culturais. Embora o comércio de cacau e de chocolate não chegou a ser tão lucrativo como o comércio do açúcar e do café na Idade Moderna, ainda assim, o cacau por alguns séculos foi uma das principais mercadorias comercializadas pelos europeus.

Enquanto nos outros dois textos sobre a história dos alimentos, vimos a origem da cana de açúcar na Ásia, e a origem do café na África, agora passemos para o Novo mundo, o berço do cacau.

Neste texto procurei contar um pouco da história sobre o cacau e o chocolate, mostrando seus usos para além de um fator alimentício, pois assim como o açúcar e o café foram usados para a medicina, a magia, a religião, etc., e até mesmo atuaram para mudar hábitos e comportamentos, o chocolate de certa forma também fez isso. 

O cacaueiro:

Ainda hoje há uma disputa em se dizer de onde o cacau seria propriamente nativo, pois uns apontam que ele fosse originário da América Central, mas outros defendem que ele tenha se originado na região amazônica na América do Sul. O problema é que não se sabe quando o cacau surgiu, além do fato de haver outras espécies dessa árvore, logo, uma espécie pode ter sido levada de seu lugar de origem para outro e ali se difundido de tal forma, que se acredita que ela sempre foi nativa dali. Esse é o caso do açúcar, o qual as espécies da saccarum se espalharam pelo sudeste asiático, no entanto, pelo fato de que o Saccarum officinarum foi a principal espécie cultivada, conseguiu se determinar sua origem na ilha de Papua Nova-Guiné

No caso do cacaueiro, a principal espécie cultivada é o Theobroma cacao, que significa literalmente "bebida dos deuses" (MACLEOD, 1999, p. 635). O nome científico Theobroma cacao foi dado em 1753, com base no nome sugerido por Carlos Lineu em 1737, o qual chamou aquela árvore de Theobroma fructus (BATISTA, 2008, p. 5). Por sua vez, a palavra cacau vem do maia kakaw, e foi acrescentada em 1753, como forma de melhor adequar a origem daquela árvore.
Outra espécie de cacaueiro é a Theobroma bicolor, embora não seja muito usado para o cultivo com o intuito de produzir chocolate. Além dessas duas espécies, existem variações como o criollo, o forasteiro, o trinitário e o equatoriano. O tipo criollo possui sementes mais doces, mas é de frágil concepção física, embora fosse considerado um tipo raro e valioso na Idade Moderna, hoje é pouco cultivado. O tipo forasteiro originário da Amazônia, é mais robusto e produz maior quantidade de sementes que possuem uma coloração violeta. Os trinitários consistem num cruzamento entre os criollos e forasteiros, produzindo uma planta de boa qualidade. Tal nome se deve a ilha de Trinidad, local onde se desenvolveram. O tipo equatoriano e uma variação surgida no Equador e na época conhecido pelo forte aroma de suas flores (BATISTA, 2008, p. 19-22).
Fotografia de uma plantação de cacau. 
O cacaueiro pode variar de 5 a 10 metros de altura, quando atingido a maturidade que leva em média dez anos. Um cacaueiro caso não sofra com problemas de saúde, a partir dos cinco ou sete anos de idade passa a dar frutos (BATISTA, 2008, p. 17). A árvore é nativa dos trópicos, logo ambientada ao clima quente e com boa regularidade de chuvas, no entanto, não é uma planta resistente a insolação, necessitando de sombra para se desenvolver, pelo menos antes da criação de técnicas mais avançadas de cultivo. Pelo fato de se desenvolver em florestas tropicais, a sombra nunca foi um problema para o cacau, pois tal árvore crescia ao lado de várias outras árvores que lhe forneciam essa cobertura (MACLEOD, 1999, p. 635). 

O cacaueiro produz grandes frutos chamados de cacau, os quais variam de 15 a 30 cm de comprimento, e de 8 a 13 cm de largura, cuja coloração durante a fase de amadurecimento pode variar através das cores, verde, amarelo, laranja, vermelho até chegar ao marrom (BATISTA, 2008, p. 18 apud EKLON, 2004). O fruto consiste numa casca, a qual protege as sementes de cacau, as vezes chamadas de amêndoas de cacau, a quais podem variar de 20 a 40 por cada fruto. Tais sementes são naturalmente brancas e de gosto amargo, pois são envolvidas pela polpa da qual se pode fazer suco ou manteiga de cacau. As sementes consistem na matéria-prima para se fazer o chocolate

Foto de alguns cacaus, onde se pode ver as sementes brancas e as sementes secas. 
Um dos problemas que o cacaueiro enfrenta é a forma de reprodução, pois em geral apenas algumas espécies de macacos (como o macaco-aranha) consome os frutos de sabor amargo, e alguns insetos como moscas e mosquitos polinizam a planta através das flores (CHRISTOPHER, 2013, p. 48-49). Outro problema é o fato de que o cacaueiro não consiste numa planta bastante resistente a mudanças abruptas de clima e ao ataque de alguns fungos. Claro que hoje em dia com o advento das técnicas agrícolas, tais problemas em parte foram contornados, mas até o século XIX, não era incomum ver plantações inteiras serem perdidas por causa de pragas. 

Antes dos europeus chegarem as Américas, o cacaueiro já era cultivado por alguns povos indígenas, e já tinha se espalhado por áreas da Floresta Amazônica, pela América Central, e também era encontrado em algumas das ilhas caribenhas. Não se sabe quem foram os primeiros povos que passaram a cultivar o cacaueiro, mas os relatos mais antigos encontrados apontam que os Maias, Astecas e Olmecas já conheciam essa planta a bastante tempo. Além deles, outros povos da Mesomérica também faziam uso do cacau e até mesmo os Incas nos Andes cultivavam cacau (BATISTA, 2008, p. 6). 

“In any event, it is in Mesoamerica that the first recorded histories of cacao are to be found. The plant and its nibs were part of the most ancient mythologies there. The Olmecs knew cacao, possibly before 1000 B.C., and the word itself, or one like it, may belong to a proto–Mixe-Zoquean language probably spoken by the Olmecs. Cacao was also part of the material and cultural lives of the Maya and their predecessors, as well as the various other societies (including that of the so-called Aztecs) that were destroyed by the Spanish invaders of Mesoamerica”. (MACLEOD, 1999, p. 636). 

No século XVI, quando os europeus começaram a colonizar o Novo Mundo, alguns dentre os quais o próprio Cristóvão Colombo, demonstraram interesse pelo consumo e uso do cacau. Mas isso é uma história que será contada mais adiante. 

Os usos do cacau:

Como assinalado anteriormente, alguns povos indígenas da Mesomérica utilizavam as sementes e a polpa de cacau para produzirem uma bebida, a qual era usada em determinados ritos de sua religião. Neste caso, tal bebida chamada de kabkajualt ("bebida de cacau" ou "água de cacau") era consumida de forma quente ou fria, possuindo um gosto amargo, mas que normalmente era disfarçado com a adição de especiarias; os indígenas gostavam de sabor apimentado. Tal bebida era alcoólica e feita de chocolate.  


Desenho de uma garra ou pote usado para se consumir a bebida de cacau, datada entre 1400 a.C e 1100 a.C. O utensílio se encontra no Instituto Hondurenho de Antropologia e História. 
“One of the major Maya deities is the Maize God. Within the Popol Vuh, the Maya creation myth, the father of the Hero Twins, Hun Hunahpu is thought to be the Maize God (Taube 1985). The myth describes the decapitated head of Hun Hunahpu becoming a calabash or in one version, a cacao pod, and placed on a cacao tree. This Maya creation myth stresses the relationship between maize and cacao (Kufer et al. 2006; Martin 2006). Both foods are seen as reverent items that sustain life (maize is the staple food among the Maya, while cacao is socially and ritually binding). Thus the Maize God brings forth the two most important crops. Braakhuis (2009:3) discusses how the severed head of Hun Hunahpu as a cacao pod relates to Nicarao chiefs’, of southern Nahua in Central Mexico, power in the Classic. Maya kings publically displayed severed heads of their enemies. As Hun Hunahpu’s head was “equivalent” to a cacao pod, cacao pods could then be used in ritual rites that required a (representation of a) severed head. This transforms cacao from a mere food and highlights its critical role in Mesoamerican ritual and ideology”. (CHRISTOPHER, 2013, p. 55).

Aqui se percebe que o cacau estaria ligado ao mito de criação desse deus, como também simbolizaria uma parte do próprio, neste caso, sua cabeça. E o ato de ingerir bebidas feitas de cacau, era uma forma de ritualisticamente absorver as forças daquele deus as quais foram difundidas pelo cacau, de certa forma, lembra um pouco a eucaristia no cristianismo católico, no qual o pão e o vinho, simbolizam a carne e o sangue de Cristo; no caso dos maias, era o milho e o kabkajualt. 

A bebida de cacau poderia ser produzida basicamente de duas maneiras: uma era a partir da polpa, a qual fornecia mais matéria-prima e o sabor ser menos amargo do que as sementes. A polpa era amassada e misturada com água, o que formava um suco, que depois era depositado num vaso, para dar início a fermentação, a qual levava alguns dias (CHRISTOPHER, 2013, p. 50). Tal bebida poderia ser consumida quente ou fria, e também poderia receber a adição de especiarias como pimenta, mel, canela, milho, etc. 

A segunda forma, consistia em se deixar as sementes secarem ao sol por alguns dias, depois elas eram esmagadas ou moídas, e o pó de cacau era usado para se fazer a bebida, a qual normalmente era de teor alcoólico, a ponto de quem fale em uma espécie de "cerveja de chocolate". Tal pó de cacau era misturado com farinha de milho, baunilha, pimenta, mel, pimentão etc., para conceder um sabor mais forte, picante (CHRISTOPHER, 2013, p. 51)

Em outros casos, se preparava uma bebida espumante, parecida com uma cerveja de tonalidade marrom, a qual era bastante apreciada pela espuma, onde se concentrava o aroma e os sabores das especiarias. De acordo com Mcleod (1999, p. 637) o cacau em pó era usado como tempero e para se fazer alguns tipos de sopas, mas Sophie e Michael Coe negam tal opinião, apontando que o cacau era usado apenas para se fazer bebidas e não outros tipos de alimentos, sendo os europeus responsáveis por não apenas inventar o doce chocolate, mas usá-lo como molho e tempero (CIVITELLO, 2008, p. 115). 

Mas no caso da bebida, ela era apenas consumida pela classe sacerdotal, a nobreza, a aristocracia mercantil e a elite guerreira, pois o cacau assim como o milho, era considerado uma planta sagrada, mas enquanto o milho era visto como a base da vida para o povo maia, o cacau, era visto como um alimento exclusivo apenas das elites (GENDROP, 1987, p. 31/MACLEOD, 1999, p. 635). 

Mas além desse aspecto como bebida religiosa, sementes de cacau eram usadas como moeda de troca e até mesmo para se pagar tributos, algo visto tanto na sociedade asteca quanta na sociedade maia (GENDROP, 1987, p. 31/ SOUSTELLE, 2002, p. 22). E nesse ponto, o cacau não era apenas tratado como tributo, mas era visto como um produto de luxo.

Desenho maia retratando um homem cercado por cacaus e apontando para um vaso, que provavelmente teria kabkajualt.
“O cacau é cultivado nos confins da área maia: em Tabasco, a oeste; em Chiapas, na vertente do Pacífico; na Guatemala, a sudoeste; no vale de Ulúa (ou Honduras) e, talvez, na região do Cobá, a noroeste, além de alguns outros lugarejos das Terras Baixas”. (GENDROP, 1987, p. 31). 

"No México quantidade imensas de mercadorias raras e preciosas, como algodão, cacau, caucho, jade, turquesas e plumas de quetzal. Assim, formava-se uma fortuna "mobiliária", parte da qual os dignatários, redistribuíam em forma de presentes ou de remuneração, enquanto os comerciantes, vivendo modestamente e dissimulando as riquezas, as acumulavam em seus entrepostos". (SOUSTELLE, 2002, p. 36). 

Estátua de um asteca carregando um cacau. 
Percebe-se aqui diferentes usos para o cacau já praticados por tais povos: assim, o cacau era ingerido como bebida para rituais, embora necessariamente não fosse uma bebida sagrada, pois ela era consumida cotidianamente pelos ricos. Pela ausência de uvas, o cacau era o "vinho das elites". 

Os próprios espanhóis, principalmente da época de Hernán Cortés, quando este viajou ao México no intuito de fazer uma "aliança" com o imperador asteca Montezuma II, ele e seus soldados relataram que nas festas das quais participaram no palácio do imperador, os nobres bebiam a vontade kabkajualt, de gosto forte e picante e com teor alcoólico. Essa condição já nos revela outro uso para o kabkajualt, um uso ligado a costumes, neste caso, um uso no intuito de socialização e comemoração, embora que fosse algo reservado a elite. 

Daí o consumo de cacau ser considerado como uma forma de estratificação social, pois os pobres cultivavam e colhiam o cacau, além de produzir a bebida, mas não tinham direito de consumi-la, e nem de receber as sementes como pagamento, mas fornecer as sementes como tributo (CHRISTOPHER, 2013, p. 51). 

A origem do nome chocolate:

Alguns devem se indagar se seria mais correto falar primeiro da invenção do doce chamado chocolate, para depois falar do surgimento de seu nome, mas neste caso, o nome veio antes do doce. 

A palavra kabkajualt referia-se a uma das bebidas feitas a base de cacau, no entanto, o nome chocolate teria vindo da bebida chamada xocoalt ("água quente"), tendo sido essa bebida que supostamente Cristóvão Colombo teria provado em 1502. Caso ele não tenha tomado essa bebida, sabe-se que Hernán Cortéz e seu exército a consumiu em 1519, num banquete dado pelo imperador Montezuma II (BATISTA, 2008, p. 5-6). Mas teria sido essa bebida feita de cacau mesmo?

No entanto, o problema reside na questão de que há dúvidas se a palavra xocoalt era usada pelos maias e astecas. Há quem defenda que xocoalt originou tchocolalt ou tchocolath, que por sua vez se tornou chocolate. 

De acordo com o Diccionario de náhualt-español (2014) de Marc Thouvenota palavra xocoalt era usada para se referir a uma bebida feita de milho e não de cacau. Por sua vez a palavra tchocolalt, não existe em seu dicionário. Já a palavra kabkajualt foi "espanholizada" para cacahuaalt, a qual de fato se referia ao nome de uma bebida feita de cacau.   

Por sua vez no Vocabulario en lengua castellana y mexicana (1555) escrito pelo padre franciscano Alonso de Molina, cuja obra consistiu no primeiro dicionário de náhualt-espanhol, a língua falada pelos astecas; não existem as palavras tchocolath ou tchocolalt. No entanto, encontra-se a palavra xocoalt, mas essa significava o nome de uma bebida feita de milho, assim como apontado por Thouvenot (2014). 

Para alguns estudiosos, o nome chocolate foi uma variação espanhola da palavra cacahuaalt e não de xocoalt, tendo ocorrido um equívoco nesse ponto.

O fabrico do chocolate:

Fabricar chocolate não é algo tão complexo, de fato os europeus se basearam em alguns métodos dos astecas e maias como fermentar as sementes, por as sementes para secar, moê-las e até mesmo torrá-las. 

A forma de fazer chocolate varia de acordo com o tipo de chocolate que você pretenda fazer. Assim para se produzir chocolate em pó, chocolate em calda, chocolate para beber, chocolate colorido, chocolate diet, chocolate light, chocolate orgânico, etc., os métodos de preparo mudam, mas optei em mostrar os mais simples, que mesmo se passado séculos, ainda são usados. 

Por exemplo, o chocolate naturalmente é amargo, caso você pegue algumas sementes de cacau, coloque-as para fermentar, algo que durará alguns dias, pois caso não se fermente as sementes, elas não estarão aptas para consumo, pois a fermentação permite que as sementes se livrem do restante da polpa que as envolve, e evite que germinem. 

Após fermentarem por alguns dias, algo que varia de acordo com cada tipo de cacau, deve-se levá-las para secarem a luz do Sol, processo que levava alguns dias dependendo das condições climáticas. Mas é evidente que hoje possuímos técnicas que aceleram o processo de fermentação e secagem, mas caso não se disponha de tais máquinas, terá que se optar pelo método antigo. 


Native Americans Preparing and Cooking Cocoa.
Ogibe's "America," 1671.
Depois de secarem ao sol, as sementes devem ser lavadas e descascadas, então se opta em se triturá-las ou torrá-las para depois se triturá-las. No processo de torra do cacau, isso ajuda a melhorar o aroma e o sabor. Todavia, não se precisa necessariamente torrá-lo para se produzir chocolate. 

De qualquer forma, após triturá-lo, se formará uma massa ou pasta, e a partir dessa já se pode fazer chocolate. As receitas variam. Por exemplo, a massa pode ser posta em fôrmas e deixadas para descansar, assim, tem-se chocolate amargo, caso não se acrescente açúcar. Outro método, opta-se por a pasta de cacau numa panela com água e cozinhá-la, até que a pasta se torne espessa e cremosa, podendo ou não se acrescentar açúcar ou outros condimentos. Estando cremoso, o chocolate é posto em fôrmas ou num recipiente e deixado para esfriar. Caso se deixe mais tempo no fogo, a pasta torna-se chocolate líquido, podendo ser bebido ou usado como calda. 

Todavia, para se fazer chocolate meio-amargo, se acrescenta uma pequena quantidade de açúcar, para tirar parte da amargura. No entanto, ainda hoje o chocolate mais apreciado é o chocolate ao leite, neste caso, o processo muda um pouco. A massa ou pasta de cacau é colocada numa panela, e ao invés de usar água, usasse leite e acrescentasse açúcar. Basta apenas isso para se ter chocolate ao leite, todavia, a quem goste de misturar o chocolate com outros ingredientes, então se acrescentam canela, baunilha, creme, pimenta, mel, etc. No século XVII o chocolate ao leite era bastante apreciado como bebida, posteriormente, passou a ser apreciado como doce. 


Pintura de monges espanhóis produzindo chocolate.
Quanto maior a quantidade de cacau no chocolate, mais escuro ele será; daí se falar de chocolate preto e chocolate marrom. Não obstante, o chamado chocolate branco, na verdade não é chocolate, pois necessariamente não é feito das sementes de cacau, mas produzido da manteiga de cacau. 

Antes da industrialização no século XIX, o chocolate era feito de forma caseira ou artesanal, no caso da segunda forma, havia docerias e abadias que fabricavam seu chocolate para comércio. No século XVII no qual aumentou o consumo desse produto, nota-se em alguns locais "pequenas manufaturas" de chocolate

O chocolate como alimento luxuoso:

Como visto, o chocolate foi primeiramente usado como bebida entre alguns povos ameríndios da Mesomérica, para cunho religioso ou social; não obstante, o cacahuaalt era usado como alimento em forma de bebida e também para temperar alguns alimentos e se fazer sopas. Todavia, além dessa função religiosa, de socialização e de alimento, o cacahuaalt entre os maias e astecas era considerado também como uma bebida que supostamente concederia forças aos guerreiros e também seria uma bebida afrodisíaca (BATISTA, 2008, p. 7), (CIVITELLO, 2008, p. 32). 

Percebe-se que a ideia de que o chocolate seria afrodisíaco e fornecedor de energia, não é algo recente, mas já existe a mais de cinco séculos, no entanto, mais adiante retomarei a este uso do chocolate. Dando continuidade aos usos do chocolate, quando esse foi primeiramente introduzido em poucos locais na Europa, como a Espanha, o cacau era basicamente usado para se fazer chocolate quente e alguns doces. Posteriormente ele passou a ser usado para servir de tempero, calda, mas na Itália do final do século XVII, alguns usos alimentares para o chocolate eram um tanto estranhos: os italianos fizeram molhos de chocolate para comerem com macarrão, com polenta, com carnes e até usavam manteiga de cacau para fritar ovos (CIVITELLO, 2008, p. 115).

Foi no século XVII na Europa que o açúcar e o café passaram se tornar mais rotineiros no cardápio das elites (CIVITELLO, 2008, p. 122), embora já fossem conhecidos bastante tempo antes, mas foi nesse século que a produção de açúcar despontou e na segunda metade do século inauguraram-se as cafeterias. Todavia, pelo final do XVII, o chocolate já era apreciado nas cafeterias, docerias e pela população, embora que os pobres em geral tivessem dificuldade de comprar chocolate. 

Beber chocolate quente ou consumir algum doce feito a partir dele, era algo de prestígio social, pois era uma bebida e alimento requintado. De fato, por muito tempo na Europa, apenas os ricos conseguiam comprar açúcar e as cafeterias nos primeiros anos eram praticamente exclusivas para usufruto das elites, pois os pobres bebiam café em casa. 


Le petit déjeuner. pintura de Jean-Etienne Liotard, século XVIII. Nessa imagem, uma empregada doméstica serve chocolate quente para o desjejum de sua senhora. 
O fato do chocolate nos primeiros séculos ser algo de luxo é tão evidente que inicialmente apenas a nobreza espanhola o consumia, como no caso do rei Carlos V de Espanha, que gostava de tomar chocolate quente com açúcar (BATISTA, 2008, p. 9). O papa Clemente VIII o provou em 1594 e adorou a nova bebida (BENDINER, 2004, p. 171). 

"Aproximadamente três mil pessoas frequentavam a corte de Luís XIV, fazendo uso generoso do chocolate. O chocolate era servido quente, assim como o café, no grande bufê prateado em forma de concha que, nas recepções solenes resplandecia em Versailles". (BATISTA, 2008, p. 7 apud HERMÉ, 2001). 

Logo, tomar chocolate quente durante uma conversa, no café da manhã, após o almoço, ou no jantar ou no lanche, era algo chique, que entre os séculos XVI e XVIII apenas as elites tinham o hábito de fazer isso (BENDINER, 2004, p. 171). Assim, poder beber chocolate quente ou comer chocolate na presença de um rei, como no caso Luís XIV da França, era para os próprios nobres uma grande honra. 

"For example, in eighteenth-century Europe, coffee was considered the preeminent bourgeois drink, whereas chocolate was aristocratic. What was defined here was a clearly ideological antithesis: the former awoke and stimulated the mind to work and to be productive; whereas the latter was a drink for the torpid and lazy". (MONTANARI, 2004, p. 126).


A família do Duque de Penthièvre bebendo chocolate. Pintura de Jean-Baptiste Charpentier, óleo sobre tela, 1768. 
Bendiner (2004, p. 172, 180) salienta que ainda no século XIX, como visto nos séculos XVII e XVIII, beber chocolate, café e chá eram formas culturais de diferenciação social, pois tais bebidas estavam associadas a "sociedade educada e culta", enquanto consumir cerveja era algo visto estando associado aos pobres, pois os pobres se embriagavam, enquanto os burgueses, aristocratas e nobres bebiam café, chá e chocolate de forma socialmente educada e até mesmo para se debater assuntos sobre política, artes, ciências, etc., algo principalmente visto nas cafeterias. Mas isso não significa que os ricos não se embriagassem naquele tempo, eles o faziam, mas com vinho, champanhe e outras bebidas alcoólicas mais caras (de certa forma se percebe isso ainda hoje). 

Mas além desse uso alimentar e costume, no ato de se beber chocolate e de se comê-lo, o que conotava uma estratificação social, assim como, visto entre os astecas e maias, o chocolate também foi iguaria de luxo por tal motivo, mas ele também teve outros usos, um deles relacionado a saúde. 

O uso medicinal do chocolate: 

Assim como foi visto nos textos que escrevi sobre o açúcar e o café, ambos os alimentos em determinadas épocas da História eram prescritos por médicos e curandeiros como forma de medicamento, fosse em poções, emplastros, beberagens ou até mesmo consumidos em doces ou se bebendo café, onde se alegava que ingerir açúcar ou café seria uma forma de tratamento contra distintos tipos de doenças. Por outro lado, isso gerou controvérsias e debates médicos, pois alguns alegavam que tais alimentos não seriam saudáveis, mas viciantes e causariam problemas de saúde. Tais debates surgiram entre os séculos XVII e XIX, mas hoje se sabe que açúcar e café são alimentos viciantes e em excesso causam doenças. No caso do chocolate, houve também esse problema, pois ora se recitava seu consumo como forma de tratamento, mas ora dizia-se que ele fazia mal a saúde. 

O Manuscrito Badanius (1552), escrito pelo padre M. De la Cruz assinalava as aspectos da medicina asteca, falando acerca o uso de plantas medicinais para diferentes tipos de tratamento. Neste caso, o padre salientava que os indígenas usavam o cacau como ingrediente de alguns medicamentos para se tratar angina (inflação na garganta ou na faringe), constipação, disenteria, problemas dentários, indigestão, fadiga, gota e até hemorroidas (LIPPI, 2013). 



Percebe-se que o relato contido no Manuscrito Badanius apresentava distintos usos medicinais para o chocolate que hoje em dia, sabe-se que não possui nenhuma utilidade prática, para tratar de tais doenças e problemas de saúde. Outro estudo a respeito do uso medicinal do chocolate foi ainda realizado no século XVI. Por volta de 1570 o médico e botânico Francisco Hernández (1517-1578), sob patrocínio do rei Filipe II de Espanha, viajou para a colônia da Nova Espanha (atual México), a fim de realizar um levantamento botânico, catalogando as plantas que encontrassem naquelas terras. Na ocasião, Hernández estudo os usos medicinais atribuídos ao cacau. 

Francisco Hernández relatou em sua pesquisa que o cacau poderia ser usado para se criar poções ou pastas, que seriam usadas para se tratar de febres e problemas de digestão e até problemas hepáticos. Além disso, ele apontou que o cacahuaalt teria uma função afrodisíaca, mas deveria ser tomado com moderação, pois era embriagante. O cacau também seria usado como reforço alimentar, a fim de ajudar pessoas muito magras a ganharem peso (LIPPI, 2013). 

Em 1618, o médico Bartolomeo Marradon defendia que beber chocolate frio seria benéfico a saúde, pois enquanto os índios tomavam uma bebida alcoólica, o chocolate frio, que de preferência deveria receber adição de açúcar e de outras especiarias como canela, mel, baunilha, pimenta, etc., poderia ser recomendado para ajudar na recuperação dos doentes. O problema é que Marradon não explicava com clareza por qual motivo exatamente deveria-se beber chocolate. 

O médico Antônio Colmenero de Ledesma escreveu um dos primeiros livros que abordava especificamente os usos do chocolate para intuito medicinal. Ainda baseado na tradição médica de Hipócrates e Galeno, Colmenero de Ledesma entre outros vários médicos de seu tempo, ainda procuravam classificar os alimentos e medicamentos de acordo com a teoria dos quatro humores: sangue, fleuma, bílis amarela e bílis preta; quente, úmido, frio e seco. Neste caso havia quem dissesse que o chocolate seria um alimento frio e seco, e estaria associado ao humor da bílis amarela (proveniente do fígado). 

Todavia, o chocolate como bebida seria ideal para ser misturado com alimentos quentes e úmidos, e assim geraria uma bebida equilibrada entre esses humores, pois a ideia da teoria era que as doenças fossem causadas pelo desequilíbrio desses quatro humores, logo, o chocolate o qual juntava o frio e seco do cacau como o quente e úmido de outras especiarias como o açúcar, pimenta, canela, baunilha, etc., seria uma boa bebida para equilibrar os humores.

Hoje em dia essa teoria já foi abandonada há muito tempo, mas até o século XVIII ainda era comum encontrar médicos a embasando, logo, Colmenero de Ledesma dedicou várias páginas a abordá-la em seu livro Curioso tratado de la naturaleza y calidad del chocolate (1631), obra na qual descrevia acerca dos usos do cacau e do chocolate, defendendo que o chocolate possuía valor medicinal. 


Frontispício do livro Curioso tratado de la naturaleza y calidad del chocolate (1631). O livro foi digitalizado e pode ser baixado ou lido na internet.  
Neste livro ele dividia seu conteúdo em quatro pontos: o que é o chocolate, o cacau e os demais ingredientes; no segundo ponto, ele abordava suas qualidades; no terceiro ponto, ele relatava como era feito o chocolate, e como ele era consumido pelos indígenas de diferentes formas; por fim, ele faz uma espécie de prescrição dietética, recomendando como se deve consumir o chocolate, a que horas do dia deve se bebê-lo ou comê-lo.

Colmenero de Ledesma (1631, p. 7-8) argumentava que o chocolate por si só é frio, logo, ele seria utilizado para determinados tipos de problema de saúde, mas graças a sua versatilidade de ser bebido em misturado a outros ingredientes, isso aumentava sua eficácia e uso contra problemas de ordem estomacal, hepática, intestinal, etc. Todavia, ele assinala que o uso do chocolate como medicamento deveria ser levado a sério, e seu preparo deveria ser feito com cautela, sabendo-se misturar corretamente os ingredientes para gerar sua eficácia medicinal. 

O debate se o chocolate seria útil como remédio ainda se estendeu pelo século XVIII, tendo um acontecimento marcante as críticas de um médico italiano chamado Giovan Battista Felici, o qual em Florença, atacou veementemente o consumo de chocolate, alegando que ele faria mal ao invés de bem, pois alegava que o chocolate não seria "frio e seco", como outros médicos defendiam, mas ele seria "quente e úmido", e isso afetaria o estômago, o fígado, os intestinos, o sangue e geraria outros problemas de saúde (LIPPI, 2013). Beber chocolate era algo ilusório para a saúde, mas embora tenha feito essas críticas, isso não convenceu os florentinos deixarem de beber chocolate quente ou de comê-lo.

Ainda no século XVIII, o botânico, zoólogo e médico Carlos Lineu (1707-1778) defendia que o chocolate poderia ser usado para fins terapêuticos, sendo aplicado para ajudar a pessoa a ganhar peso, para tratar de hemorroidas, problemas pulmonares e musculares, e até mesmo para tratar a hipocondria. Além de ser também afrodisíaco (LIPPI, 2013). 

Mas o que a medicina fala hoje sobre o uso do chocolate? Ele faz realmente bem a saúde, ou é um alimento gorduroso, calórico e açucarado que como qualquer outro doce, gera problemas de saúde?

Com o avanço da medicina e da química, os elementos que compõem o cacau e o chocolate foram decifrados, e graças a isso descobriu-se realmente seu valor nutricional e o que ele pode proporcionar de bom e de ruim para a saúde. 

O chocolate que faz bem a saúde, é o chocolate amargo e meio-amargo, pois possuem mais quantidade de cacau, menos gorduras, calorias e não recebe a adição de açúcar ou de adoçantes químicos. Neste caso, esse dois tipos de chocolates possuem na sua composição química antioxidantes os quais combate o colesterol ruim (VDL) e ajudam a equilibrar as taxas do colesterol bom (HDL), além de diminuir os radicais livres (DYER, 2006). 


Desde que consumido em pequenas quantidades, o chocolate pode fazer bem à saúde, principalmente os que tiverem maior quantidade de cacau e não receberem adição de açúcar e outros condimentos. Mas em geral ele tende a ser um tentador convite para a gula. 
Além de antioxidantes, o chocolate também possui anti-inflamatórios, os quais ambos ajudam na circulação sanguínea e fazem bem ao coração, ao sistema cardiovascular e até ao cérebro, pois combatendo o colesterol ruim, isso evita que a gordura se acumule nos vasos sanguíneos, e dificulte as funções cardíacas e a circulação sanguínea, além de equilibrar um pouco a pressão arterial, o que pode auxiliar para se evitar derrames, pressão alta e outros problemas cardiovasculares. Claro que consumi-lo não é garantia de evitar tais problemas, pois o chocolate não é remédio, ele como outros alimentos saudáveis naturalmente agem para fortalecer a saúde. 

Não obstante, o chocolate possui elementos que favorecem a liberação de serotoninas, de endorfinas e de dopaminas, neste caso, tais substâncias proporcionam uma sensação de relaxamento, calma, bem-estar e até de alegria (DYER, 2006). 

"Para Brewer, científica del Queen Elisabeth Hospital de Norfolk (EE. UU), alimentos como el chocolate tienen tal textura, sabor y aroma que, al introducirlos en la boca, las numerosas terminaciones nerviosas des los labios, la nariz y la lengua reciben una informácion capaz de producir ciertas hormonas y otras sustancias como las endofrinas, que actuarán potenciando la euforia y el bienestar anímico de las personas". (VERA, 2011, p. 26).

Daí quando os médicos da Idade Moderna, diziam que o chocolate ajudava a "levantar o humor" eles não estavam errados, tal doce gera em nós não apenas um efeito químico, mas psicológico. Algumas pessoas dizem que quando estão tristes, tendem comer chocolate para aliviar a tensão, de fato isso pode acontecer, mas não é uma certeza. Há pessoas que comem chocolate mas não sentem isso, e há outras que nem ao menos gostam desse doce. 

Assim, esses são alguns dos benefícios que o consumo moderado de chocolate amargo ou meio-amargo pode proporcionar, todavia, o consumo exagerado desse alimento tende a causar uma série de problemas de saúde. Consumir muito chocolate pode causar cáries, caso não se escove os dentes, algo mais comum entre as crianças, pois elas tendem a preferir os chocolates doces e não amargos e meio-amargos. 

O chocolate ao leite, o "chocolate branco", e outros tipos de doces de chocolate, tendem a possuir grande quantidade de açúcar, calorias e gordura, que em exagero pode levar a aumentar os níveis de triglicerídeos, do colesterol ruim (VDL), de glicose, etc., o que pode acarretar em desenvolvimento de pressão alta, diabetes, problemas de circulação, problemas cardíacos, obesidade, etc. 


Os "quatro tipos de chocolates": branco, ao leite, meio-amargo e amargo. Os chocolates que fazem bem à saúde são o meio-amargo e o amargo, embora devam ser consumidos em pequenas quantidades para se obter tais benefícios. O chocolate branco e ao leite, possuem maior quantidade de calorias, gordura e açúcar, mas ingeridos em pequenas quantidades não causam tão mal.  
Assim, consumir chocolate em excesso apenas proporciona problemas de saúde, o mesmo é válido para o açúcar e o café, daí que na Idade Moderna, tais alimentos foram considerados como viciantes e geradores de doenças. De fato, hoje a medicina comprova que o chocolate, como o açúcar e o café são viciantes, no caso do chocolate a sensação de bem-estar e prazer em consumi-lo contribui para gerar chocólatras

O chocolate como afrodisíaco: 

Essa história de que chocolate seria afrodisíaco é bastante antiga como vimos neste texto, já sendo mencionada há mais de cinco séculos, e repetida várias vezes, mas realmente é uma história verídica ou um equívoco?

Os maias e astecas, alegavam que a sensação de bem-estar proporcionada pelo chocolate e somada ao álcool da bebida do cacahuaalt, supostamente forneceria energia, vitalidade e serviria de estimulante sexual. 


Pintura retratando o imperador asteca Montezuma II. Foi em sua corte no México, que os espanhóis passaram a conhecer o cacahuaalt e o chocolate. Algumas histórias da época, relatadas pelos espanhóis, conta que o imperador antes de ir ao seu harém, costumava beber cacahuaalt, para lhe despertar o apetite sexual. 
Os próprios espanhóis quando entraram em contato com os astecas no começo do século XVI relataram tais impressões, e quando o cacau foi levado a Europa e passou a ser consumido pelos europeus nos séculos seguintes, tal ideia ainda se manteve ao ponto de se gerar controvérsias nas quais defendiam o consumo de chocolate, ou tentavam proibir seu consumo. 

No século XVI, alguns monastérios espanhóis se especializaram na produção de chocolate, todavia, alguns abades e bispos chegaram ao ponto de frear o consumo de chocolate entre o clero regular, pois isso estaria lhe atiçando a cometer o pecado da gula. No século seguinte, alguns clérigos espanhóis, italianos e franceses tentaram proibir o consumo de chocolate, pois devido as histórias de que ele seria um alimento afrodisíaco, começou a correr o boato de que isso era realmente eficaz, ao ponto de que recomendou-se que as pessoas sensatas não tomassem chocolate quente para não atiçarem a líbido, e assim despertarem a luxúria. Até mesmo tentou-se proibir que os clérigos o consumissem. 

“Em 1624, Franciscus Rauch gastava todo um livro para atribuir ao cacau propriedades excitantes, iguais às das cantáridas, e reclamava fosse proibido seu uso pelos monges. Em 1636, León Pinelo publicava a Questión Moral Si el Chocolate quebranta al ayuno Eclesiástico e procurava esclarecer se os padres podiam, sem pecado mortal, tomá-lo antes da missa”. (AMARAL, 1958, p. 122). 

“As ricas damas de Chiapa tinham por costume, de longe estabelecido, fazerem servir, na catedral, o chocolate, que crioulas ricamente adereçadas lhes traziam em taças de lindos lavores. Certo bispo, lá por 1684, não se conformou com esse hábito e o proibiu; no dia seguinte, a catedral estava vazia. Suas diocesanas tinham ido assistir aos ofícios religiosos nos conventos, onde não lhes proibiam o chocolate. Pouco tempo depois, o bispo falecia (dizem que de morte natural), mas o certo é que, quando se queria dizer a alguém que tomasse cuidado, repetia-se: cuidado com o chocolate Chiapa!” (AMARAL, 1958, p. 122). 
No entanto, nunca houve uma pesquisa médica séria e efetiva para se comprovar a eficácia de que o chocolate seria realmente um alimento afrodisíaco, apenas no século XX e XXI, é que surgiram trabalhos que procuraram tirar tal fato a prova. 


O chocolate e a pimenta são considerados alimentos afrodisíacos. 
De acordo com o dr. Ruth Westheimer, o chocolate seria afrodisíaco pelo fato de possuir em sua química elementos que proporcionam a liberação de serotonina e endorfina, os quais proporcionam bem-estar, relaxamento e o prazer (DYER, 2006). Algo que a relação sexual proporciona desde que feita de forma saudável. Neste caso, a incitação sexual somada ao chocolate pode em alguns casos atuar como afrodisíaca, embora não seja algo necessário. Para o doutor Westheimer, a noção afrodisíaca do chocolate advém de um fator psicológico. 

Muitos alimentos ditos afrodisíacos, na verdade recebem tal característica, mais por uma questão psicológica embasada em crendices e lendas do que numa comprovação científica. De fato, alguns alimentos como o chocolate, a pimenta, o mel, o café liberam energia e produzem bem-estar, algo que poderia está associado ao desejo sexual. Pois é válido lembrar que durante os banquetes antigos, nos quais havia dançarinas e dançarinos, a gula e a luxúria se seduziam na ocasião, logo, associar a satisfação alimentar com o desejo sexual que surgia na ocasião, passou a ser considerado por alguns como algo proveniente do resultado ao se ingerir determinados alimentos. 

"Os cientistas Robert Zatorre (2002) e Anne Blood (2002) afirma que as substâncias que alegadamente produzem efeitos sexuais não trazem nenhuma prova científica para que o efeito ocorra e que, nesse aspecto, não são diferentes de qualquer outra substância e que não servem para tratar qualquer disfunção sexual que se manifeste em qualquer pessoa. Os cientistas afirmam que há mais de 500 anos que as culturas humanas buscam a melhoria do desempenho sexual através das plantas, drogas e mágica. E, mesmo que existam provas científicas de que os afrodisíacos não sejam efetivos e algumas vezes até perigosos, as pessoas ainda continuam a procurar estas substâncias para alcançar o sucesso sexual". (ALBUQUERQUE, 2004, p. 29). 

Logo, retomamos a pergunta: chocolate é afrodisíaco? A resposta ainda não é definitiva. A ciência não confirmou o chocolate como alimento afrodisíaco, embora haja até mesmo dúvidas quanto a existência de alimentos afrodisíacos que funcionem de fato, pois alega-se que trata-se mais de uma questão emocional e psicológica, somada as reações químicas produzidas pelo consumo de alguns alimentos, do que um estimulo proporcionado por tais alimentos. 

Sendo assim, façamos um simples teste de imaginação: ver uma bela mulher ou um belo homem, ambos comendo chocolate, mas estando nus ou seminus, possa incitar a líbido, mas essa sensação provavelmente virá da aparência dessa bela mulher ou desse belo homem. Caso coloquemos uma pessoa feia, nas mesmas condições, provavelmente não haverá o mesmo desejo sexual, pois o desejo sexual em parte advém da visão, do tato e do olfato, e também do fetiche, neste ponto entra a imaginação. Um cheiro convidativo, a sensação de tocar, somada ao visual e a imaginação são as principais formas de atração e estimulo sexual.  


A modelo brasileira Cacau Colucci num ensaio para a Revista Playboy no Brasil. Nesse ensaio, vemos o uso da simbologia do chocolate com o erotismo e e a ideia de ser um alimento afrodisíaco. Na prática, a excitação promovida pelo chocolate, advém mais de um fator visual, psicológico e até de fetiche, do que alimentar. 
Caso o chocolate fosse afrodisíaco, então toda vez que comêssemos um bombom, uma barra, um biscoito, deveríamos ficar excitados, e isso não acontece. Todavia, não significa que o chocolate deva ser dispensado do romance ou das preliminares, ele pode ser usado, mas dependerá mais do emocional e do psicológico do que dele propriamente para proporcionar algum estimulo, para que possa ter algum resultado. 

O chocolate se expande pelo mundo: 

Não se sabe ao certo em que ano as primeiras sementes de cacau chegaram a Europa. Normalmente se diz que em 1526, Hernán Cortés em retorno a Espanha, levou entre os vários presentes que seriam entregues ao rei e a rainha, algumas sementes desse precioso fruto, e a partir destas sementes, Cortés teria ensinado aos cozinheiros reais como produzir chocolate para beber, receita essa que foi mantida em segredo (CIVITELLO, 2008, p. 130). 

Todavia, não se sabe ao certo se esse teria sido o primeiro contato da nobreza espanhola com o cacau e o chocolate, no entanto, os espanhóis tinham ciência do cacahuaalt pelo menos desde 1502, quando Cristóvão Colombo bebeu uma estranha bebida apimentada. Mas foi entre 1520 e 1521, no processo de conquista da Confederação Asteca, é que os espanhóis se familiarizaram com tal planta e bebida.

De qualquer forma, o chocolate consumido pela nobreza espanhola advinha do Novo Mundo, pois as tentativas de cultivá-lo na Espanha fracassaram. Em 1585, data a primeira remessa oficial de um carregamento de cacau saído de Vera Cruz na colônia da Nova Espanha (atual México) para a metrópole (BATISTA, 2008, p. 9). Percebe-se aqui que a produção de cacau e o consumo de chocolate se manteve monopolizado pelos espanhóis, pois ao conquistarem as terras dos povos indígenas na Mesomérica, passaram a controlar as plantações de cacau. Por quase um século, os espanhóis mantiveram tal monopólio.

Foi com os espanhóis que o gosto pelo chocolate doce começou a se difundir, pois como dito, os indígenas apreciavam o chocolate apimentado, mas muitos espanhóis não se familiarizam com isso, então passaram a acrescentar açúcar, leite e baunilha (AMARAL, 1958, p. 122). Logo, quando o chocolate passou ao conhecimento de outros países europeus, o hábito de se consumir chocolate doce, já estava enraizado. 

No final do século XVI, alguns embaixadores levaram de presente ao papa Clemente VIII, algumas sementes de cacau, com as quais lhe fizeram chocolate quente, na ocasião o papa apreciou a bebida. Todavia, foi apenas no século XVII que o cacau começou a chegar com mais recorrência na Itália, depois na França, Inglaterra, Holanda e no Sacro Império Romano-Germânico (a grosso modo, a Alemanha) e até mesmo em Portugal. De qualquer forma, se os espanhóis haviam perdido o monopólio no que dizia respeito a receita de como se fazer chocolate, eles ainda passaram a deter sua produção, pois os demais países importavam o cacau deles. 

Na segunda metade do século XVII, as cafeterias e chocolatarias começaram a se difundir pela Espanha, Itália, França e Inglaterra (MCLEOD, 1999, p. 638). Assim como, o café e o chá, o chocolate passou a ser iguaria bastante apreciada, requisitada e consumida pelas elites destes países ao ponto de ter mais que dobrado sua procura nos últimos anos. Devido a tal aumento no consumo, os espanhóis decidiram ampliar as plantações de cacau, passando a cultivá-las em terras que hoje são a Venezuela, Colômbia e Equador. 


Uma White's Chocolate House, Londres no século XVIII. Normalmente os londrinos tomavam chocolate quente em cafeterias, mas no final do XVII e no XVIII surgiram chocolatarias ou casas de chocolate, especializadas nesse produto. 
A importância econômica do chocolate havia chegado a um nível de destaque internacional, pelo menos no Ocidente, ao ponto de que os franceses, holandeses e ingleses, ainda no século XVII passaram a negociar com os espanhóis diretamente em suas colônias, evitando o aumento do preço pelo transporte; em alguns casos, corsários destes países roubaram carregamentos de cacau. Não obstante, ainda no final do XVII, mas a partir do XVIII, os franceses e os ingleses já haviam dado início a plantações de cacau em suas ilhas nas Antilhas. Posteriormente, os holandeses também passariam a cultivar cacau, os plantando na Guiana holandesa (atual Suriname) e até mesmo em Java (hoje ilha capital da Indonésia). 

No caso dos portugueses, foi no século XVIII que se iniciou o cultivo de cacau no Brasil. Não se sabe ao certo em que ano começou a se cultivar cacau na colônia brasileira, mas o local escolhido, foi a Capitania da Bahia, devido as suas dimensões territoriais que permitiam o cultivo de diferentes gêneros. Posteriormente os portugueses passaram a cultivar cacau no Estado do Grã-Pará e Maranhão.

Ainda no século XVIII, o cultivo de cacau no Brasil foi modesto, apenas no XIX é que ele começou a crescer: até 1838, o Brasil exportava mil toneladas de cacau, de 1839 a 1849 as exportações triplicaram, e no final do século já se exportava mais de quatro mil toneladas (AMARAL, 1958, p. 121-122). Todavia, foi apenas na primeira metade do século XX que o cacau brasileiro esteve entre as maiores exportações do mundo. O sul da Bahia ainda é o polo cacaueiro do Brasil, e cidades como Ilhéus e Itabuna, estão no centro desse mercado agrícola. 

Na segunda metade do século XVIII com o advento da Revolução Industrial, começaram a surgir as primeira fábricas de chocolate na Inglaterra, França, Holanda e nos Estados Unidos, no século seguinte, fábricas de chocolate surgiram na Alemanha e na Suíça. Antes disso já haviam sido desenvolvidos moedores e torradores mecânicos, os quais facilitavam na manufatura do chocolate. 


Desenho retratando uma fábrica de chocolate em 1900. Em algumas fábricas apenas homens trabalhavam, e em outras eram apenas mulheres que trabalhavam, mas havia algumas que o trabalho era misto. 
Em 1828, o holandês Johannes Von Houten, o qual há alguns anos já vinha trabalhando na fabricação de chocolate, desenvolveu uma prensa de parafuso, a qual permitiu extrair a manteiga de cacau de forma mais eficiente, pois antes, ainda usava-se o método de fervura (MCLEOD, 1999, p. 639). Com esse advento mecânico, Houten passou a produzir chocolate em pó em grande quantidade, o que facilitou a venda de chocolate para se fazer bebida e no preparo de doces. O chocolate em pó tinha maior durabilidade e era mais fácil de se transportar. 

Graças a inovação de Houten, o chocolate como bebida voltou a ter destaque na Europa, pois por essa época havia sido suplantado pelo café, e o chá no caso da Inglaterra. Além disso, os preços de produção haviam aumentado desde que a Espanha vinha perdendo suas colônias ou estava em guerra com essas, o que levou países como Portugal, Holanda, França, Inglaterra, Bélgica e Alemanha a buscarem novas terras para se cultivar cacau, a África ocidental e o Sudeste Asiático foram os principais locais procurados. 

"Com o aumento do consumo de chocolate cresceu também o número de países que produziam cacau. Brasil, Equador, Gana, Nigéria, Camarões, Costa do Marfim, tornaram-se os novos produtores". (BATISTA, 2008, p. 12 apud EKLON, 2004). 


Mapa com os principais produtores de cacau no mundo. 
Em 1847, o empresário inglês Joseph Fry, dono da J. S. Fry & Sons (empresa fundada em 1761) comprou a patente de Von Hounten, permitindo assim dispor de seu processo de produzir chocolate, para que dessa forma criasse uma nova receita, com a qual fez surgir o chocolate em barra ou tablete de chocolate (MCLEOD, 1999, p. 639). Na época o chocolate em barra era um tanto duro, todavia, as pessoas as vezes o compravam para derretê-lo com água ou leite, para depois consumi-lo quente. Embora fosse duro, o chocolate em barra contribuiu para alavancar as vendas desse doce, pois não era um alimento caro, e como novidade, começou a cair no gosto das crianças. 


Propaganda do Fry's Chocolate. Nessa propaganda percebe-se o direcionamento do produto para o público infantil. O menino na imagem exibe diferentes expressões, as quais estavam relacionadas com o chocolate. Na primeira imagem ele está em desespero por não possuir um Fry's Chocolate, mas a medida que ele recebe a notícia que irá ganhar uma barra de chocolate Fry, seu humor vai melhorando até ele ficar contente com isso. 
Na segunda metade do século XIX, a indústria do chocolate continuou a crescer, tendo nestes cinquenta anos ganhado uma aceleração com os novos adventos e os surgimento de novos produtos. Os chocolates suíços, chocolates belgas e os chocolates dinamarqueses começaram a se tornarem populares, não no preço, mas no gosto requintado. Por outro lado, os suíços, franceses e alemãs se tornaram especialistas na produção de chocolate. Com a Guerra Civil (1861-1865) nos Estados Unidos, o país deixou de ser um grande produtor de chocolate, algo que só retomou no começo do século XX. 

Em 1866, o farmacêutico e empresário suíço Henri Nestlé (1815-1890), era dono de uma empresa de alimentos, chamada Nestlé, hoje uma gigante multinacional. Naquele ano ele criou a farinha láctea, composto alimentar voltado para as crianças, pois naquela época muitas crianças suíças passavam fome e eram subnutridas. O seu composto foi criado no intuito de ajudar as crianças a se nutrir e ganharem peso. Por ser um produto de baixo custo, ele acabou rapidamente se espalhando, e dez anos depois, sua empresa já era famosa por tal invento. 

Em 1875, Henri Nestlé decidiu criar um novo produto feito a base de chocolate, como forma de ajudar também na alimentação das crianças, assim ele inventou o achocolatado. O achocolatado poderia ser misturado ao leite e consumido, ou misturado com a sua farinha láctea. O sabor do chocolate, tornava-se mais atrativo ao paladar das crianças que não gostavam da farinha láctea. 


O achocolatado foi inventado por Henri Nestlé e lançado em 1875. Diferente do chocolate em pó, o achocolatado recebe a adição de vitaminas, minerais e outros nutrientes, o que o enriquecem em termos nutricionais como alimento.  
A partir da invenção de Nestlé com a farinha láctea e o achocolatado, seu amigo, o chocolateiro suíço Daniel Peter (1836-1919) inventou o chocolate ao leite em barra, em 1875 (MCLEOD, 1999, p. 639), o qual contribuiu para popularizar ainda mais o consumo de chocolates em barra pelo sabor diferente, já que o chocolate em barra inventado por Joseph Fry, não levava leite, apenas açúcar. 

Em 1879, o chocolateiro suíço Rodolph Lindt (1855-1909), fundador da Lindt & Sons, foi o inventor do chocolate que derrete na boca. Segundo um relato, a descoberta foi feita por um acidente, pois Lindt havia saído para caçar, e acabou esquecendo a máquina de chocolate ligada. Ao retornar, deparou-se com um chocolate bastante cremoso. Ele pegou aquele lote da máquina e o pôs em fôrmas e deixou descansar. Quando foi provar, percebeu que o chocolate derretia ao contato da saliva, produzindo uma sensação bastante agradável e saborosa (BATISTA, 2008, p. 13). A partir dessa descoberta por acaso, Lindt tentou reproduzir o procedimento e obteve êxito, passando a produzir um produto único, o qual se tornou bastante apreciado.


Pintura da fábrica de chocolate Lindt & Sons, em 1899. 
No restante do século XIX e começo do XX, a indústria do chocolate continuou massivamente crescendo. Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), o consumo de chocolate era tão habitual no Ocidente, que os soldados americanos passaram a receber barras de chocolate para complementar sua ração . Tal prática se manteve até mesmo durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), na qual podia-se encontrar entre os alimentos que compunham a ração do soldado, uma barra de chocolate (BATISTA, 2008, p. 13 apud Thakerar, 2007). 


Propaganda da Nestlé em 1940, promovendo o consumo de chocolate entre o exército americano. 
Durante o período entre guerras (1919-1938) a produção de chocolate caiu bastante, embora o exército americano requisitasse muitas barras, isso não foi o suficiente para manter a indústria em âmbito global ativa. A crise gerada na Europa devido a Primeira Guerra e depois a Grande Depressão Americana, contribuíram para afetar os maios consumidores de chocolate no mundo. Todavia, a partir da segunda metade do século XX, a indústria do chocolate voltou a crescer e assim conseguiu se espalhar definitivamente pelo mundo, alcançando mercados na África e Ásia, locais onde o chocolate era uma alimento escasso. 

Considerações finais: 

Se no passado o chocolate foi um presente de luxo em dados momentos, hoje ele também mantém esse caráter de ser dado como presente, desde o chocolate barato até os gourmet que são bastante caros. Por exemplo, a Páscoa cristã tornou-se um data para se vender muito chocolate através dos Ovos de Páscoa. Os ovos de chocolate que hoje conhecemos, começaram a serem produzidos no século XIX, mas antes disso, na França, já havia casos de cozinheiros que recheavam ovos de galinha com calda de chocolate. 


A Páscoa cristã é o período no qual mais se vende chocolate no Ocidente, através dos Ovos de Páscoa. 
Por outro lado, os comerciantes americanos popularizaram no Valentine's Day (Dia dos Namorados), presentear o namorado ou namorada com caixas de bombons de chocolate. No Brasil é comum realizar algumas celebrações chamadas de "amigo doce" "amigo secreto ou amigo oculto", na quais normalmente se faz um sorteio entre um grupo, e cada participante presenteia a pessoa sorteada; em geral, se dão caixas de chocolate. 

Não obstante, é comum também se dar caixas de chocolate como presente de aniversário, além do fato de que no Brasil, é costume que quase toda festa de aniversário de criança tem que ter bolo de chocolate e brigadeiro, o qual consiste num doce de origem brasileira. 


O brigadeiro é um doce de chocolate de origem brasileira, bastante comum nas festas de aniversário de crianças e nas docerias brasileiras. 

Se tais exemplos não convenceram o leitor de que o chocolate se expandiu pelo mundo, vejamos outros exemplos: o sabor de sorvete mais consumido no mundo, é o sorvete de chocolate; o sabor de biscoito recheado mais consumido, é de chocolate; praticamente toda loja de conveniência vende algum tipo de chocolate. Os doces mais vendidos numa doceria normalmente levam chocolate na composição, claro que há algumas exceções. 

Assim, nota-se que o chocolate no século XX se consolidou como alimento, no entanto, não foi apenas esse uso que ele conseguiu difundir neste último século. Embora hoje se saiba que chocolate não é medicamento, ele está sendo usado na área de cosméticos; nos últimos anos se desenvolveram vários tratamentos de beleza que usam máscaras faciais de chocolate, banhos de chocolate; cremes de chocolate para os cabelos; manteiga de cacau para os lábios, etc. Não obstante, o chocolate também se tornou um tipo de cor de produtos de beleza: encontra-se esmaltes de unha cor de chocolate, e até tinturas para cabelo em tonalidade marrom chocolate. 


O chocolate possui ação hidratante e antioxidante, o qual pode ser produzido especificamente para uso estético. 
Com estes comentários, podemos encerrar essa breve história do chocolate, pois existem livros que abordam tal assunto bem mais detalhado, mas de qualquer forma, acredito que consegui apresentar as principais características dessa história, desde o plantio e o uso do cacau pelos astecas e maias, para se fazerem o cacahuaalt o qual servia de bebida sagrada e de uso social apenas pelas elites; passando-se pela difusão do consumo de chocolate na Europa, e seu dilema no caso de que ele seria um remédio e/ou afrodisíaco; comentei acerca da sua produção e por fim, apresentei um breve panorama da expansão do chocolate para o restante do mundo, principalmente no Ocidente, onde ainda continua a ser mais consumido. 

Definitivamente o chocolate afetou a economia de vários países, gerou mudanças culinárias, sociais e culturais: foi bebida sagrada, moeda, artigo de luxo, presente, remédio, afrodisíaco, produto de beleza e inspiração para as artes. O chocolate é provavelmente o doce que mais influenciou a história humana nestes últimos quinhentos anos. 

NOTA: Ainda hoje na América Central e na região do Caribe, é costume se derreter o chocolate usando água e não leite. Não obstante, as populações desses países ainda mantêm o hábito secular de gostar de chocolate apimentado. 
NOTA 2: As tentativas de se cultivar chocolate na Europa ao longo da Idade Moderna, nunca conseguiram obter êxito ao ponto de se conseguir fazer uma fazenda de cacau. O clima temperado e frio do continente, barrou a adaptação do cacaueiro. Até mesmo cafeeiro não conseguiu ali se adaptar, e no caso da cana de açúcar, ela foi cultivada na região do Mediterrâneo, principalmente em Portugal, Espanha e na ilha de Creta. 
NOTA 3: Em 1964, o escritor britânico Roald Dahl publicou A Fantástica Fábrica de Chocolate (Charlie's and the Chocolate Factory), obra que originou duas populares adaptações para o cinema, uma em 1971 e a outra em 2005. O livro conta a história de um menino pobre chamado Charlie o qual é um dos sorteados, para se conhecer a mirabolante fábrica de chocolate de Willy Wonka
NOTA 4: Enquanto a obra de Dahl é voltada para o público infantil, outros livros que abordam o chocolate são: Chocolat (1999), escrito por Joanne Harris; Como Água para Chocolate (1989), escrito por Laura Esquivel. Ambos os livros viraram filmes. 
NOTA 5: A novela brasileira Chocolate com Pimenta (2003-2004), escrita por Walcyr Carrasco e Thelma Guedes, sendo produzida pela Rede Globo, foi bastante popular na época, e mostrava uma fábrica de chocolate numa cidadezinha. A história começava em 1922 e depois saltava para alguns anos depois. 
NOTA 6: O escritor brasileiro Jorge Amado (1912-2001), nascido em Itabuna na Bahia, viveu em meio aquele contexto da produção de cacau. A convivência com as fazendas de cacau e seu comércio, o influenciaram a escrever alguns de seus romances, os quais foram chamados de "Ciclo do cacau", o qual é composto pelos livros: Cacau (1933), Terras do Sem-Fim (1943), São Jorge dos Ilhéus (1944), Gabriela Cravo e Canela (1959) e Tocaia Grande (1982). Nestas obras, Amado abordou temas políticos, sociais, econômicos e culturais envolvendo a realidade das pessoas que viviam em meio a produção cacaueira baiana. Os livros do "ciclo do cacau" foram adaptados como filmes, telenovelas e seriados. 
NOTA 7: Comer chocolate não causa acne, como se pensou por muito tempo. As causas da acne estão relacionadas a questões hormonais, superprodução de oleosidade natural da pele, excesso de alguns tipos de medicamentos e bactérias. Normalmente a acne é mais comum na adolescência e em adultos jovens, época na qual se consome muitos alimentos gordurosos, como o chocolate, daí ter surgido o mito de que chocolate causaria acne. 

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