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domingo, 8 de maio de 2016

'Marmota dos pampas', tuco-tuco vive no litoral e nos campos do RS

Roedor habita tocas nas dunas ou em terrenos arenosos do Pampa.  Ameaçada, espécie é de interesse para estudos sobre evolução.

Márcio Luiz - Do G1 RS
Tuco-tuco Nossa Terra RS  (Foto: Tatiane Noviski/Arquivo Pessoal) 
 
Das oitos espécies de tuco-tuco do Brasil, cinco ocorrem no RS 
(Foto: Tatiane Noviski/Arquivo Pessoal)
 
Na próxima vez que você fizer um passeio pelas dunas do litoral do Rio Grande do Sul ou pelos campos do pampa gaúcho, tente prestar mais atenção por onde pisa. Com um pouco de sorte, será possível avistar um simpático roedor que vive nessas regiões: o tuco-tuco.

Esse pequeno mamífero é assim conhecido popularmente por causa do som que os machos emitem quando sentem-se ameaçados. Para a ciência, eles são roedores pertencentes ao gênero Ctenomys. Vivem em galerias subterrâneas cavadas por eles mesmos rentes à superfície, que chegam a medir 15 metros de comprimento.

Os tuco-tucos lembram as marmotas do hemisfério Norte, mas na verdade são parentes das capivaras, ratões-do-banhado, preás e outros roedores encontrados só na América do Sul. Eles estão distribuídos do sul do Peru até a Terra do Fogo, ocorrendo no Paraguai, Bolívia, Argentina, Chile, Uruguai e Brasil.
Tuco-tuco Nossa Terra RS (Foto: Tatiane Noviski/Arquivo Pessoal) 
Tuco-tuco da espécie C. flamarioni é um rato de praia: vive nas dunas próximas do mar
(Foto: Tatiane Noviski/Arquivo Pessoal)
 
Das 60 espécies do gênero catalogadas, oito são encontradas no Brasil: três na região Centro-Oeste e cinco no Rio Grande do Sul e no sul de Santa Catarina. “Os tuco-tucos vivem na Planície Costeira do Rio Grande do Sul e no Pampa. Ocupam as dunas ou os campos arenosos em ambas as regiões”, diz o biólogo Thales de Freitas.

Pesquisador do Departamento de Genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Thales é o que se pode chamar de um “tucólogo”. Ele estuda esses roedores desde 1979 e há cerca de 13 anos coordena o Projeto Tuco-Tuco, vinculado à UFRGS. O objetivo do programa é estudar a evolução da espécie e ajudar na conservação dela.

A descoberta mais recente do grupo de pesquisadores foi feita no ano passado, quando foi descrita uma nova espécie de tuco-tuco, a Ctenomys ibiquensis, que habita uma área de cerca de 500 quilômetros quadrados no Oeste do estado. As outras espécies encontradas em solo gaúcho são a C. flamarioni, C. lami, C. minutus e C. torquatus.

De acordo com Thales, os tuco-tucos possuem hábitos curiosos. Além de serem animais solitários, passam a maior parte da vida no subsolo. Nascem, crescem, se alimentam e se reproduzem dentro das tocas. Daí a dificuldade de serem vistos. “Nos finais de tarde eles sempre aparecem limpando as tocas. Não são ariscos e nem agressivos, mas não devem ser manipulados, pois aí se defendem”, diz ele.

Outra característica peculiar dos tuco-tucos é de interesse para os estudos sobre evolução das espécies. Os pesquisadores da UFRGS descobriram que esses roedores apresentam variações no número de cromossomos, ao contrário de mamíferos como os humanos, que costumam ter um número definido de pares das estruturas responsáveis por armazenar o DNA.

De acordo com os pesquisadores, essa diferença no número de cromossomos pode ser resultado de um processo de especiação, que é a formação de uma nova espécie. Isso teria ocorrido em função do isolamento geográfico entre as diferentes populações do animal.

Ao mesmo tempo, os pesquisadores também constataram que diferentes espécies de tuco-tuco estão cruzando entre si, após anos de isolamento, o que resultou em uma espécie híbrida. Barreiras naturais que antes separavam esses animais já não existem mais. “Todas as variações encontradas estão relacionadas às mudanças que vêm ocorrendo na Planície Costeira do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina por mais de 20 mil anos”, diz Thales.

As alterações no habitat pela ação do homem, aliás, são as principais ameaças ao tuco-tuco. A construção de áreas de lazer ou de moradias nas dunas do litoral e as mudanças na vegetação nativa do Pampa, destruída para dar lugar a plantações de soja ou florestas de pinus e eucaliptos, são responsáveis por colocar a espécie na lista da fauna ameaçada no estado.
Tuco-tuco Nossa Terra RS (Foto: Tatiane Noviski/Arquivo Pessoal) 
Roedores passam quase a vida toda dentro das tocas feitas por eles (Foto: Tatiane Noviski/Arquivo Pessoal)

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