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sábado, 23 de julho de 2016

Estrelando: araras-azuis-de-lear

Biólogos planejam documentário sobre a espécie, típica da caatinga brasileira e ameaçada pela perda de hábitat e pelo tráfico ilegal.

As araras-azuis-de-lear estão entre as aves mais ameaçadas do mundo. (foto: João Marcos Rosa)
Erica Pacífico é uma bióloga brasileira que, há quase dez anos, dedica-se ao estudo e conservação da arara-azul-de-lear, espécie criticamente ameaçada de extinção. Foi a primeira a conseguir chegar aos ninhos dessas aves – uma tarefa difícil, considerando que eles ficam a até 80 metros de altura, em paredões de arenito de difícil acesso. Sua história será contada no documentário To Catch a Macaw (“Pegar uma arara”, em tradução livre), no momento em busca de fundos para ser executado.

A ideia é acompanhar o trabalho de campo de Erica, que está realizando um trabalho de captura de filhotes em rochedos de arenito da Estação Biológica de Canudos, na Bahia, mantida pela Fundação Biodiversitas. O objetivo é prender nos animais pequenos microchips capazes de monitorar seu deslocamento. Trabalhar nas alturas, com animais delicados e tempo apertado – a missão deve ser concluída antes de os filhotes deixarem os ninhos: não é sempre que o público tem a oportunidade de acompanhar uma aventura científica desse porte.

Uma vez posicionados os microchips, começa a coleta de dados, que vai ajudar a esclarecer detalhes da biologia, do comportamento e do ambiente natural da espécie
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Mas esta será apenas a primeira parte do trabalho. Uma vez posicionados os microchips, começa a coleta de dados, que vai ajudar a esclarecer detalhes da biologia, do comportamento e do ambiente natural da espécie. O conhecimento adquirido, apostam os produtores do documentário, será valioso para subsidiar estratégias de conservação não só da arara-azul-de-lear, mas também de toda a região.
Descrita pela primeira vez em 1858 a partir de uma ilustração do poeta britânico Edward Lear, a arara-azul-de-lear foi, por muitas décadas, um daqueles animais curiosos que se compra em feiras de espécimes contrabandeados. Sua verdadeira origem só foi esclarecida em 1978, quando o naturalista e ornitólogo Helmut Sick percorreu o Nordeste brasileiro e encontrou a primeira população selvagem do animal – o que rendeu, enfim, o reconhecimento como nova espécie, Anodorhynchus leari.

Simpatia em campanha

Hoja, as araras-azuis-de-lear vivem em uma região muito restrita da caatinga. Carismáticas por natureza, são bons personagens para atrair a atenção do público para a importância da preservação do ambiente onde vivem.
A situação da espécie, é bem verdade, já foi pior: na década de 1980, estimava-se a existência de apenas 70 animais na natureza. De lá para cá, graças aos esforços de pesquisadores como Erica e diversas instituições de pesquisa e conservação ambiental, o número cresceu – são, atualmente, cerca de 1300 indivíduos conhecidos –, mas ainda podem ficar melhores: é esse o objetivo do documentário.
À frente da produção estará a bióloga e fotógrafa Angela Prochilo, que procurava um tema para o trabalho de final de seu curso de mestrado em Produção de Filmes de Natureza na Universidade do Oeste da Inglaterra em Bristol, em parceria com a BBC. Depois de avaliar várias espécies, escolheu a arara-azul-de-lear por sua beleza, raridade e, por que não, brasilidade. “A caatinga é um bioma pouco conhecido fora do Brasil”, disse à CH Online. “E a arara-azul-de-lear é uma espécie raríssima, que sofre ameaças como perda de habitat e tráfico ilegal, entre outras”.

Chegar aos ninhos da espécie, em paredões de até 80 metros de altura é uma tarefa desafiadora. Você não adoraria dar uma espiada? (foto: João Marcos Rosa)
Para ajudar, entrou em cena o também biólogo Cesar Leite, ex-aluno do mesmo programa de pós-graduação e autor de um documentário sobre o tatu-bola, outra espécie brasileira ameaçada. O contato com Erica Pacífico arrematou os planos de Angela. “Erica foi muito receptiva, e logo seu carisma e sua paixão pelo trabalho ficaram muito claros para mim também”, conta a bióloga.

A empolgação inicial sofreu alguns baques com as dificuldades logísticas para a realização do documentário – coloquem na conta indisponibilidade de energia elétrica no acampamento e a falta de um veículo preparado para encarar trilhas esburacadas, por exemplo. Para vencer esses desafios, surgiu a ideia de uma campanha de crowdfunding para complementar o orçamento – até agora, o projeto contava apenas com investimentos particulares de seus autores e apoio da universidade para empréstimo de equipamentos.
Pesquisa, planejamento, roteiro e cronograma já estão prontos. Com o dinheiro arrecadado na campanha – ainda aberta, confira – as filmagens finalmente começarão, e prometem novos desafios. “Faremos trilhas pesadas, íngremes, sob o calor forte, carregando por volta de dez quilos de equipamento cada um. Teremos também que carregar pelo menos três litros de água conosco, para nos hidratarmos durante as filmagens”, planeja Angela.

Quando o documentário estiver completo, em outubro deste ano, a ideia é fazê-lo rodar o mundo em festivais de filmes do gênero. Para o futuro, os produtores já têm planos: filmar um novo documentário, desta vez em Canudos, para mostrar como as comunidades locais convivem com o belo e ameaçado animal.

Catarina Chagas
Instituto Ciência Hoje/ RJ

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