Autoplay

sexta-feira, 22 de julho de 2016

O pequeno do Araripe

Espécie de crocodilo anão encontrada no Ceará é a menor registrada até hoje.

Perto de espécies atuais, Susisuchus anatoceps parece um filhotinho.
Nas pedreiras de calcário laminado nas proximidades da cidade de Nova Olinda (CE), foi encontrado um fóssil de crocodilo anão, com a coluna vertebral quase completa, cintura escapular (escápula e coracoide), ossos da perna (tíbia, fíbula, fêmur, tarsais e pé) e placas que revestem o corpo do animal (osteodermas) preservados. Trata-se da menor espécie de crocodilo registrada até hoje. A descoberta foi publicada no periódico PLOS One de 5 de maio.

Susisuchus anatoceps viveu há cerca de 120 milhões de anos na chamada Formação Crato, acumulação sedimentar da chapada cearense do Araripe. O hábitat do animal era composto por um sistema de lagos costeiros alimentado por rios, podendo apresentar algum grau de salinidade, decorrente de ingressões marinhas. Em torno dos lagos, o ambiente era quente e seco nas áreas mais baixas; já, nas mais altas, crescia uma vegetação de grande porte.

O estudo, coordenado pela paleontóloga Juliana Sayão, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), contou ainda com pesquisadores das universidades federais do Espírito Santo (Ufes) e do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Regional do Cariri (Urca).

Em A, fóssil utilizado na pesquisa: as setas mostram onde foi retirada a amostra para lâmina. Em B, estruturas microscópicas do osso do braço do crocodilo. Em C, estruturas microscópicas da costela do crocodilo. (Crédito: Montagem elaborada pelo projeto de divulgação paleontológica da UFRPE)
Sayão lembra que as rochas da Formação Crato, onde foi encontrado o crocodilo anão, estão repletas de fósseis de diversos invertebrados (libélulas, grilos, baratas, besouros e escorpiões), vertebrados (peixes, anuros, pterossauros, crocodilos e aves) e vegetais, como pteridófitas, gimnospermas e angiospermas (plantas com flor). A bacia do Araripe como um todo corresponde a uma das principais regiões fossilíferas do Brasil e, portanto, é extremamente rica para a pesquisa paleontológica.

Menor do que os atuais crocodilos anões conhecidos – dos gêneros Paleosuchus e Osteolaemus, com tamanho entre 1 e 1,5 m de comprimento e que habitam áreas pantanosas do cerrado e pequenas lagoas da floresta amazônica – o Susisuchus anatoceps teria morrido aos 17 anos, com 60 cm.
Mas como saber que se tratava de uma espécie anã e não de um exemplar pequeno? “Ao analisarmos os ossos do Susisuchus, como os da mão, do crânio e de algumas osteodermas, vimos que a maioria deles não se fundiram formando um só osso. Essa característica é utilizada na paleozoologia para identificar animais que ainda não atingiram a fase adulta”, explica Sayão. “A análise histológica da microestrutura óssea, no entanto, nos mostrou algo diferente, já que os ossos do animal eram típicos de um adulto.”

Diversidade de crocodilos fósseis do Cretáceo do Brasil. Na comparação entre as espécies, é possível ver o tamanho diminuto de Susisuchus. (Crédito: Montagem elaborada pelo projeto de divulgação paleontológica da UFRPE)
 
Entre as características observadas que reforçam a idade do exemplar, destacam-se 17 ciclos de crescimento (anéis e linhas que se formam no osso similares ao que acontece em troncos de árvores, cada anel sinalizando em torno de um ano de vida) e a formação de ósteons secundários e lamelas internas, presentes em crocodilos adultos, tanto fósseis quanto atuais. “Ou seja, o animal já podia se reproduzir e estava bem próximo de completar sua maturidade esquelética total”, afirma a pesquisadora. “Juntando todos esses dados e o tamanho diminuto de Susisuchus anatoceps, foi possível concluir que a espécie não atingia grandes proporções.”

Crocodilos anões eram comuns no período Jurássico na Europa, que, nessa época, compunha um grande arquipélago. Há duas espécies de crocodilos anões conhecidas atualmente, o Osteolaemus tetraspis, encontrado em todas as regiões de terras baixas tropicais da África subsaariana Ocidental e da África Central Ocidental, e o Paleosuchus palpebrosus, que vive no norte e centro da América do Sul (além do Brasil, na Bolívia, Colômbia, Guiana Francesa, Guiana, no Equador, Paraguai, Peru, Suriname e na Venezuela).

“O Susisuchus anatoceps é uma espécie chave para entendermos a evolução do grupo dos modernos crocodilos, com representantes vivos hoje”, aponta a paleontóloga. “Sua anatomia mostra que o animal já tinha algumas das características que iriam ser importantes para a diversificação desse grupo após a extinção dos dinossauros. E nosso estudo mostrou que a retenção de algumas feições juvenis e o tamanho reduzido podem ocorrer mesmo em indivíduos adultos”, acrescenta.
Segundo Sayão, esse padrão de crescimento observado em Susisuchus pode ter ajudado a espécie a evitar a competição por nichos ecológicos com outras espécies de tamanho maior que viviam na região, como ocorre atualmente com os jacarés da Amazônia. No entanto, ela destaca que os efeitos em longo prazo para a evolução desses animais ainda não estão totalmente claros.
Alicia Ivanissevich
Ciência Hoje | RJ

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.