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quinta-feira, 13 de outubro de 2016

África: Lago Nyos, o assasino


Parece um filme de terror, mas é um fato. No dia 21 de agosto de 1986, às 19h30, a comunidade que habitava a região próxima ao lago Nyos, no noroeste dos Camarões, África, teve seu sossego perturbado por uma série de ruídos estranhos. Aproximadamente no mesmo horário uma nuvem branca se formou sobre a superfície do lago, permanecendo ali. Pouco depois, e sem aviso, uma bolha gigantesca emergiu violentamente das profundezas do lago, lançando suas águas a mais de 50 metros de altura. Em questão de segundos toda a população das redondezas, em um raio de 25 km a partir do lago, estava inconsciente. Algum tempo depois, algumas pessoas ainda estavam inconscientes, mas outras 1700 pessoas, bem como a maioria do gado que era criado ali, morreram. O Monstro do lago Nyos? Não. Uma substância química. Conheça esta história cientificamente alucinante!

O Lago Nyos é um lago formado no interior de um "maar" (designação utilizada em geomorfologia e vulcanologia para descrever uma cratera vulcânica alargada e pouco profunda criada por uma erupção freatomagmática, ou seja uma explosão de vapor causada pelo contacto da água subterrânea com lava ou magma), situado no noroeste de Camarões, África.


O Lago Nyos é profundo e situa-se a média altitude no flanco do Monte Oku, um vulcão inativo pertencente à Linha vulcânica dos Camarões. Uma barragem natural, formada por rocha vulcânica, mantém o lago. A desgasificação dos materiais vulcânicos subjacentes faz com que as águas do lago sejam extremamente ricas em dióxido e monóxido de carbono, o qual, quando libertado subitamente para a atmosfera pode causar a asfixia nas zonas vizinhas. Esse fenômeno ocorreu em 1986, causando mais de 1800 mortes.

Para um lago vulcânico armazenar CO2 (Gás Carbônico) como o Nyos, deve haver pelo menos duas condições:

  • O lago deve ter pelo menos 50 metros de profundidade (porque a água que está nas profundezas do lago fica densa, impedindo o escapamento do CO2).
  • O clima predominante deve ser quente (equatorial).

Hoje em dia, para impedir que o CO2 se acumule novamente, as autoridades responsáveis pelo Nyos instalaram dispersores de CO2 pela superfície do lago, para que não ocorra uma tragédia como aquela que aconteceu em 1986.

(01) A Tragédia


Na manhã de 22 de Agosto de 1986, um homem saiu com sua bicicleta da vila de Wum, na República dos Camarões, indo em direção ao lago Nyos. No caminho, ele notou um antílope morto ao lado da estrada e uns metros adiante, dois ratos, um cachorro e outros animais, todos também mortos. Decidiu ir a aldeia de Nyos para saber se alguém sabia o que tinha acontecido com os animais. A medida que se aproximava das cabanas feitas de barro e palha da aldeia, via as pessoas, cachorros, vacas, todos mortos caídos por toda parte, e então aterrorizado, procurou por alguém vivo nas choupanas, mas não encontrou ninguém e assustado, voltou para sua aldeia, para informar o ocorrido na aldeia de Nyos.

Assim que chegou em Wum, percebeu que não era o único, que outras pessoas de aldeias próximas também haviam chegado assustados, relatando terem ouvido uma explosão ou um estrondoso ruído a distância na noite anterior, em seguida, cheiros estranhos como se fossem ovos podres pairando no ar. As autoridades locais informaram o governador sobre a estranha ocorrência e esse solicitou ajuda a capital, mas Nyos se localizava numa região remota de Camarões, e demorou dois dias para uma equipe médica chegar ao local.

Os médicos encontraram uma catástrofe muito maior do que eles poderiam ter imaginado: Durante a noite, algo havia matado quase 1.800 pessoas. Além disso, mais de 3.000 bovinos e inúmeros animais selvagens e pássaros tinham sido mortos. O número oficial de mortos foi registrado como 1746 pessoas, mas isso era apenas uma estimativa, pois já se tinha passado 36 horas desde aquela noite fatídica, e os sobreviventes começaram a enterrar as vítimas em valas comuns, e muitos outros haviam fugido aterrorizados das aldeias cheias de cadáveres e se escondidos na floresta. Fosse o que fosse que matou aquelas pessoas e animais parecia ter desaparecido sem deixar vestígios tão rapidamente como havia chegado.

(02) Entendendo o que Aconteceu


Monica Lom Ngong, sobrevivente da tragédia, relata à BBC o cenário, cuja causa até aquele momento era desconhecida: "Fiquei rodeada de gente morta, alguns dentro de casa, outros fora, outros detrás das casas.... e os animais por toda a parte: vacas, cachorros, todos jaziam no solo, me deixando confusa. Na minha família, éramos 56, mas morreram 53", conta. Aquela noite havia sido macabra. Aldeias inteiras amanheceram sem vida, apenas com os corpos espalhados pelo chão. Não havia sinal de pânico.

A morte daquelas pessoas fora tão súbita que logo correram rumores de uma possível arma biológica. E se alguém estava fazendo testes secretos, os Estados Unidos queriam saber. Tanto que meses depois enviou ao local o cientista Haraldur Sigurdsson, para investigar os estranhos acontecimentos. A guerra biológica foi descartada totalmente. As vítimas pareciam ter sido sufocadas. Mas com que? Sigurdsson decidiu falar com as testemunhas e descobriu que houve quem tivesse visto o assassino. "Vimos uma nuvem branca e espessa a poucos metros da gente. Mas desapareceu em um instante", contou Motapon Oumarou.

O que tinha acontecido para causar tantas mortes em tão curto espaço de tempo, ninguém sabia, mas a notícia do desastre correu o mundo e pesquisadores da França (Camarões é uma ex-colônia francesa), Estados Unidos e de outros países chegaram para ajudar a descobrir. Os restos mortais das vítimas oferecia poucas pistas. Não havia evidência de hemorragia, trauma físico ou doença. Também estava descartado a teoria de teste com armas químicas, radiação ou gás venenoso e as vitimas não apresentavam sinais de sofrimento ou agonia. Elas simplesmente apagaram e caíram, morrendo enquanto dormiam ou cozinhavam na noite de 21 de agosto, sendo às 21 horas, a hora provável das mortes.

Vulcões são bem conhecidos como produtores de gases venenosos e asfixiantes e, em alguns casos, esses gases matam pessoas presas nas plumas vulcânicas: como foi o caso em Dieng Plateau em Java Central, Indonésia, onde 149 pessoas morreram em 1979, na esteira de uma comparativamente menor erupção freática - uma erupção impulsionado pela evaporação da água subterrânea, sem qualquer ejecção de material magmático. A possibilidade de que uma erupção freática ocorreu através dos lagos camaroneses não pode ser completamente descartada.
Um dos primeiros sinais importantes foi a distribuição das vítimas pela região, que tinham ocorrido um raio de 25 quilômetros ao redor do Lago Nyos. A quantidade de vítimas aumentava à medida que os pesquisadores se aproximavam do lago: nas aldeias periféricas muitas pessoas, especialmente aqueles que tinham permanecido dentro de suas casas, tinham sobrevivido, enquanto que em Nyos, que ficava a menos de três quilômetros de distância e era a aldeia mais próxima do lago, apenas 6 dos mais de 800 moradores ainda estavam vivos, e não importava se estavam dentro ou fora de suas casas, quando ocorreu as mortes. Antigas lendas locais chamavam o lago de “lago mau“, e diziam que de tempos em tempos, espíritos malignos saiam das águas e matavam às pessoas que viviam na região.

Mas foi a cor da água do lago Nyos que deu a maior pista: suas águas que normalmente eram de um azul profundo, estavam com uma coloração avermelhada e então, os pesquisadores começaram a se perguntar se havia algo mais no “lago mau” do que lendas. O lago tem aproximadamente dois quilômetros quadrado e uma profundidade de 230 metros e foi formado dentro da cratera extinta de um vulcão.


Os pesquisadores começaram a se questionar se o vulcão sob o lago tinha voltado a ativa e no processo lançado algum gás desconhecido suficiente para matar todos os seres vivos ao seu redor. A teoria era convincente, mas levantava duvidas: Uma erupção capaz de libertar gases suficiente para matar todos os seres vivos numa área tão grande, não passaria despercebido e teria sido violenta e acompanhado de muita atividade sísmica. Mas nenhuma das testemunhas relatou tremores e relatórios de uma estação sísmica distante 250 quilômetros, negava atividade incomum na região. Outro fato que descartava tremores de terra, era que objetos nas prateleiras das casas onde haviam sido encontrados vítimas, permaneciam intactos nos seus respectivos lugares e um fato curioso, às lamparinas a óleo nas casas, estavam todas apagadas, mesmo as que tinham bastante óleo em seus recipientes, portanto, alguma coisa havia apagado as lamparinas.

O material que dava a cor avermelhada na superfície da água, eram partículas de ferro dissolvido, normalmente encontradas no fundo de lagos e os pesquisadores começaram a testar amostras de água retiradas de várias profundidades no lago. De alguma forma o sedimento no fundo do lago Nyos tinha sido mexido e trazidos para a superfície, onde ele virou a cor de ferrugem depois de entrar em contato com o oxigênio. Os cientistas também descobriram níveis elevados e anormais de dióxido de carbono (CO2) dissolvidos ou “em solução” na água. Amostras de água retiradas a 15 metros de profundidade continha tanto dióxido de carbono que, quando foram puxados para a superfície, onde a pressão da água era menor, o CO2 dissolvido veio borbulhando, exatamente como se alguém agitasse uma garrafa de refrigerante quente e, em seguida, tirasse a tampa.


"Era algo difícil de entender, até que topamos com documentos de pilotos de guerra narrando que o uso de altas concentrações de CO2 funciona como um alucinógeno sensorial. Uma das alucinações mais citadas foi o odor de ovos podres e pólvora", diz George Kling, Universidade de Michigan.

O vulcão de que se formou o Lago Nyos pode estar extinto há muito tempo, mas o magma ainda estava ativo embaixo da superfície da Terra e liberando dióxido de carbono, não apenas no lago Nyos, mas por toda a região. Na verdade, não é incomum em Camarões, encontrar sapos e outros pequenos animais sufocados em poças com alta concentração de CO2, que se formam no chão. O dióxido de carbono é inodoro, incolor e não tóxico e é mais pesado que o ar e podem ficar concentrados em pontos baixos até que o vento sopre-os para longe, dissipando-os.

Lagos com dióxido de carbono podem sem encontrados em qualquer parte pelo mundo afora, mas o CO2 se dissipa num processo chamado de “convecção” que com a ajuda da chuva, frio e vento, faz a água da superfície ficar mais densa do que as camadas mais abaixo, e assim o dióxido de carbono é empurrado para cima, se dissolvendo no ar, já no lago Nyos, o dióxido de carbono não se dissipava, e foi se acumulando no fundo do lago, devido a uma série de fatores, como o lago ser cercado por montes altos, que bloqueavam os ventos e o clima tropical do país, permanecendo quente durante o ano todo, fazendo a temperatura da água ficar constante e não variando muito nas estações climáticas. Por último, o lago era profundo, mesmo quando a superfície era agitada, muito pouco desta agitação chegava ao fundo do lago.

Há um limite para a quantidade de CO2 na água e a medida que as camadas inferiores tornam-se saturadas, o dióxido de carbono é empurrado para cima para onde a pressão é suficientemente baixa e ele começa a sair da solução. Neste ponto qualquer perturbação, um deslizamento de terra, tempestade, ou mesmo ventos fortes pode desencadear e fazer o CO2 borbulhar para a superfície. E quando as bolhas começam a subir, elas podem causar um sifão ou efeito “chaminé”, desencadeando uma reação em cadeia que, em uma reviravolta gigantesca pode fazer com que o lago vomite CO2 que vinha acumulando por décadas. Até nossos corpos produzem dióxido de carbono e o ar que respiramos consiste de cerca de 0,05% de CO2. O que o torna um assassino em certas circunstâncias é o fato dele ser mais pesado do que o ar. Se escapar uma quantidade suficiente para o ambiente de uma só vez, ele desloca o ar no chão, tornando a respiração impossível. Uma mistura de 10% de CO2 no ar pode ser fatal: até 5% pode apagar uma chama, o que explica por que as lamparinas estavam apagadas.

Nos meses seguintes ao desastre no lago Nyos, os pesquisadores continuaram a monitorar os níveis de dióxido de carbono nas águas do lago. Quando os níveis começaram a aumentar novamente, eles concluíram que sua teoria estava correta. Relatos de testemunhas que estavam em lugares altos nas colinas acima do lago, e assim sobrevivendo a tragédia, descreveram que o lago começou a borbulhar estranhamente no dia 17 de agosto, provocando uma nuvem nebulosa branca que se formou acima da superfície da água. Então, sem aviso em 22 de agosto, o lago de repente explodiu. O dióxido de carbono tinha tomado tanto espaço no lago que 1,2 quilômetros cúbicos de CO2 foi finalmente lançado para fora, o suficiente para encher 10 estádios de futebol em menos de 20 segundos.


O termo "erupção limnic" foi cunhado pela primeira vez por JC Sabroux na Conferência da UNESCO, em março de 1987 em Yaounde, sobre o desastre no Lago Nyos, a fim de ter em conta a analogia com a erupção vulcânica, também alimentado por bolhas de gás ascendente e expandir em um líquido (o magma). A erupção limnic, o mecanismo de que foi aperfeiçoada por K. Tietze, explica satisfatoriamente a sequência de acontecimentos e consequências dos desastres Monoun e Nyos, e sugere uma possível mitigação deste novo risco geológico.

(03) A Nuvem Assassina


Essa nuvem de CO2 ultrapassou os montes ao redor do lago e avançou vale abaixo a uma velocidade de 72 quilômetros por hora e matando tudo pelo caminho. Para as pessoas que viviam na aldeia mais próxima do lago, a morte era quase inevitável. Algumas pessoas nas encostas mais altas, tiveram a presença de espírito de subir mais ainda e sobreviveram. Um sobrevivente que viu seus vizinhos caindo como moscas, um atrás do outro, relatou posteriormente que só não morreu, porque pressentiu o perigo e saltou em sua motocicleta e conseguiu se manter à frente do gás, acelerando como podia. Poucos foram os sortudos, a maioria das pessoas não percebeu o perigo, até que foram sendo superados pelo gás. Mesmo que tivessem pressentido, teria sido impossível de superar a velocidade da nuvem mortal.

Ninguém no caminho da nuvem conseguiu escapar seus efeitos letais. A descoloração da pele encontrados em algumas vítimas foram tentativamente interpretadas como queimaduras, mas esse diagnóstico ainda é controverso. Estas mesmas testemunhas que sobreviveram em lugares mais altos relataram um barulho proveniente do lago Nyos, e flashes de luz visível sobre o lago (que ainda não foram explicadas. "Fogo fátuo"?!). Somado aos desastres que ocorreram durante a noite, a escuridão adicionou mistério a esta catástrofe natural terrível.

Martin Kiné vem de uma aldeia perto de Nyos. Perdeu o seu pai na catástrofe de 21 de agosto de 1986 e não esquece esses momentos. "Nesse dia, como de costume, o meu pai foi controlar o seu rebanho", conta Martin. "Entretanto fez-se tarde, pelo que decidiu dormir ali e voltar para casa no dia seguinte. Pagou com a vida essa decisão".


Nas aldeias mais distantes do lago, as pessoas tinham uma melhor chance de sobrevivência, especialmente se ignorassem o barulho estranho que vinha de fora. Alguns sobreviventes disseram que soava como um tiro ou uma explosão; outros descreveram como um estrondo. Mas as pessoas curiosas, que saíram de suas casas para ver de onde o barulho vinha, ou para ver o que estava causado o cheiro de ovo podre, rapidamente desmaiaram e morriam na porta e seus familiares vendo a pessoa caída, morriam também ao se aproximarem. As pessoas que estavam no interior das choupanas, com suas janelas e portas fechadas tiveram uma chance melhor de sobreviver. Houve até casos em que havia suficiente quantidade de CO2  que se infiltrou nas casas e sufocou as pessoas que estavam deitadas dormindo, mas não o suficiente para matar as pessoas no mesmo cômodo, mas em pé com suas cabeças acima do gás. Alguns destes sobreviventes nem sequer perceberam nada incomum, até verificar depois seus entes queridos e descobrirem que estavam mortos.

Mas o desastre no Lago Nyos não foi o primeiro incidente da história, mas o segundo registrado oficialmente e estudado. Dois anos antes, em uma manhã de 1984 no Lago Monoun, também em Camarões, houve um evento parecido. Ahadji Abdou estava a caminho de sua granja quando viu uma cena que nunca iria esquecer, nas proximidades do lago Moroun. "Pensei que fosse um acidente de trânsito. Desci da bicicleta e fiquei paralisado. Havia muita gente morta em todas as partes da estrada. Algo terrível havia acontecido", diz. Em questão de horas foram encontrados 37 corpos. "Escutamos que haviam sido massacrados. Nos contaram que 12 pessoas estavam em um caminhão e que 10 morreram. O motorista foi o primeiro a sair e ver se estava acontecendo alguma coisa com o motor, que parou. O resto dos homens decidiram sair do veículo e morreram", disse à BBC Motapon Oumarou. O pânico tomou conta do lugar, conta o médico Pierre Zambou, o primeiro a chegar ao local. "Nunca havíamos visto algo assim. Parecia que tinham sido vítimas de uma doença altamente contagiosa. Não tínhamos máscaras nem ataduras. Colocamos todos em um jipe militar e os levamos dali", conta. Levou cerca de um ano para descobrir o que tinha acontecido em Nyos. Então, quando se percebeu que o lago estava se enchendo de dióxido de carbono novamente, o governo de Camarões evacuou todas as aldeias dentro do raio de 30 quilômetros ao redor dos lagos Nyos e Monoun. Em ambos os casos, sem aviso prévio, uma nuvem de gás denso irrompeu o lago, cobrindo a área circundante com um manto mortal com várias dezenas de metros de espessura, por uma quantidade de tempo desconhecida.

Lago Monoun
Dez anos mais tarde, graças à dedicação de cientistas - como H. Sigurdsson, K. Tietze, G. Kling, W. Evans, M. Kusakabe e G. Tanyileke, para citar apenas alguns - que colocou ambos os lagos sob quase contínua escrutínio, as causas e os mecanismos dessas tragédias são muito melhor compreendido, embora ainda não totalmente elucidado. Porém, o Lago Nyos continua sendo potencialmente letal. Geólogos estimam que o lago contenha de 300 a 400 milhões de metros cúbicos de dióxido de carbono. Esse total é cerca de 16 mil vezes a quantidade média encontrada em um lago deste tamanho. Em 2001, os cientistas instalaram no lago um tubo com cerca de 200 metros de comprimento.


Agora, a pressão da liberação do CO2 faz com que um jato de água atinja uma altura aproximadamente 54 metros no ar. Ao longo de um ano, cerca de 20 milhões de de metros cúbicos de ar foram liberados. Embora tenha sido um primeiro passo bem sucedido, é preciso remover mais gás para que o lago se torne totalmente seguro.


(04) Perspectivas e Reconstrução

Lago Kivu
Há três lagos do mundo que contêm uma elevada proporção de gás dissolvido: Lagos Nyos e Monoun, nos Camarões e Lago Kivu, na fronteira entre o Ruanda e a República Democrática do Congo. Este último contém mil vezes mais gás do que o Lago Nyos. Aproximadamente um quinto deste gás é metano. Isso não é nada menos do que um tesouro inexplorado adormecidos nas profundezas do lago. A extração e utilização deste metano poderia revolucionar totalmente a economia da região. O ambiente de dados de várias empresas levou a cabo um ambicioso programa destinado a explorar este recurso milagroso.

O desastre de Nyos fez com que todos os lagos profundos da África e da Indonésia fossem examinados. A conclusão a que se chegou foi a de que todos eram seguros, exceto um: o lago Kivu, em Ruanda. O lago, na fronteira com a República Democrática do Congo, é um dos maiores e mais profundos do continente – e milhares de pessoas vivem no seu entorno. No entanto, a única coisa que poderia detonar uma liberação mortífera de gás seria um incidente geológico em grandes proporções. O problema é que o lago Kivu está localizado justamente em uma zona de terremotos e rodeado de vulcões, incluindo o monte Nyiragongo.

A localidade de Nyos continua sendo considerada uma zona de risco pelas autoridades, mas as medidas adotadas tranquilizaram muitas centenas de pessoas deslocadas, que, tal como Martin Kiné, começam a regressar para ali se instalarem de novo. "Voltei para Nyos no ano passado porque percebi que o Governo e os seus parceiros estão tomando muitas medidas para que uma catástrofe deste tipo não se volte a repetir", garante.



Entre 2010 e 2014, a intervenção da União Européia na região cifrou-se em 14,5 milhões de euros, possibilitando a realização de obras para reforçar a barragem do lago, a construção de vias de acesso e o acompanhamento da reinstalação das populações. Estima-se que o número de beneficiários indiretos das ações da UE chegue aos 10 mil.

"Já decidimos onde vai ser construída a nova escola. Os responsáveis da Emida, uma organização que beneficia das ajudas da UE, aguardam agora a luz verde das autoridades públicas", explica Olivier Tang Kuma, o príncipe herdeiro da aldeia. O seu olhar ilumina-se quando refere o que qualifica de "Renascimento da aldeia de Nyos". Na sua opinião, as iniciativas que se multiplicam para fazer reviver esta zona sinistrada constituem "uma dádiva divina".

Aboubakar Soulemane Maoko, dignitário da comunidade muçulmana partilha deste otimismo: "Recebemos de braços abertos a ajuda da União Europeia. Graças a esta ajuda e à Emida, foi, por exemplo, possível construir escolas, pontos de abastecimento em água potável, e moinhos e preparar zonas de cultivo, que são essenciais para os habitantes das aldeias". "Procuramos melhorar as condições de vida das populações, mas também incentivar as que vivem ainda nos campos de refugiados criados após a catástrofe a regressar às suas aldeias de origem onde hoje abundam as pastagens naturais", afirma Claude Olivier Bagneken, secretário executivo da Emida. Lançado na metade do ano de 2014, o projeto deverá durar dois anos. Para além da construção de infraestruturas de base, atualmente em curso, o projeto facilitou o reforço das capacidades das associações locais e permitiu formar mais de 200 pessoas na prevenção da violência no meio educativo e na gestão de conflitos sociais.

Em 2012, graças aos recursos do Fundo Europeu para o Desenvolvimento, a UE lançou a primeira fase das obras de reforço da barragem do lago. Trata-se de eliminar os riscos ligados a uma possível ruptura da barragem natural que retém as águas do lago. Grégory Tanyileke, geólogo e chefe da missão encarregada do projeto, recorda-se destes momentos como um marco importante das intervenções europeias naquela zona. "O sucesso desta primeira fase, assim como os estudos científicos que permitiram perceber o que esteve na origem da catástrofe de 1986, constituem motivos reais de otimismo", afirma. Os habitantes da região parecem ter ouvido a sua mensagem e. pouco a pouco, vêm instalar-se nas imediações do lago, apesar das recordações dolorosas que guardam da catástrofe de 1986.

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