terça-feira, 17 de outubro de 2017

E se tudo o que sabemos sobre os gatos estiver errado?

A fama de bichos antissociais e indomáveis pode ser um grande equívoco. Terça-feira, 3 Outubro

Por Nina Strochlic
Esta reportagem está na edição de setembro de 2017 da revista National Geographic.
Para aqueles que se perguntam se os seus gatos os consideram apenas como uma fonte de comida, a notícia é reconfortante. Um estudo que expôs os gatos a quatro categorias de estímulo – alimento, brinquedo, aroma e interação – revelou que a maior parte dos bichanos, por mais que adore comer e brincar, prefere mesmo é interagir com as pessoas.

Em muitos países, há o estereótipo de que os gatos são pouco sociais e que não podem ser treinados, aponta uma das autoras do inédito estudo, Kristyn Vitale Shreve. “Na verdade, eles podem ser ensinados de acordo com os mesmos princípios aplicados aos cães – desde que os incentivos sejam certos”, diz ela.

Não há como negar que é difícil decifrar as emoções felinas. Por exemplo, o filhote que aparece nesta foto está assustado ou brincando? (Resposta: está saltando para agarrar um brinquedo pendurado acima da câmera.) Um estudo na Itália constatou que a maioria dos donos não reconhece toda a amplitude de sinais que os gatos usam para indicar estresse. “Os donos de cães conhecem melhor o comportamento dos seus animais”, diz a pesquisadora Chiara Mariti. Em contraste, os donos de gatos muitas vezes interpretam o comportamento dos seus animais como sendo algo peculiar da espécie, e não como um sinal específico de algo que estejam comunicando.

Em 2016, uma universidade sueca iniciou um estudo de cinco anos da comunicação entre gatos e seres humanos. O objetivo é ver como os felinos reagem ao modo pelo qual as pessoas se dirigem a eles – e aí saberemos se é possível traduzir os miados em emoções e desejos.

Ciência dos gatos

Propensão à independência: diante de um problema a ser resolvido, os cães se voltam para os seres humanos, em busca de ajuda, ao passo que os gatos continuam a procurar sozinhos uma solução.

Circulação global: na análise do DNA mitocondrial em resquícios de 200 gatos da Antiguidade, pesquisadores franceses descobriram que os felinos se dispersaram primeiro, com os agricultores, a partir do Crescente Fértil, e, depois, com os marinheiros que percorreram o mundo.

Quem foram as misteriosas múmias do pântano?

Jogados em brejos do norte da Europa, os corpos foram preservados por milênios graças à acidez e falta de oxigênio da vegetação pantanosa.

Por Christine Dell'Amore
O Homem de Tollund, que foi enforcado com um cordão de couro e lançado em um pântano dinamarquês, está alojado no Museu Silkeborg, na Dinamarca.
 
 
 
 
 
Lançados em brejos do norte da Europa, os corpos mumificados em pântanos de turfa são tão sombrios para os arqueólogos quanto suas próprias sepulturas. Mas novas evidências têm clareado a misteriosa origem desses seres.


Mais de 500 corpos e esqueletos da Idade do Ferro, datados de 800 a.C. a 200 d.C., foram descobertos apenas em pântanos na Dinamarca. Outros restos também foram encontrados na Alemanha, nos Países Baixos, no Reino Unido e na Irlanda.
Em grande parte, a pele, os cabelos, as roupas e o conteúdo estomacal dos corpos estão notavelmente bem preservados. A acidez e o baixo nível de oxigênio das turfeiras – compostas de camadas acumuladas de musgo morto – contribuem para a mumificação dos corpos.
O Homem de Tollund, por exemplo, encontrado em 1950 na península de Jutland, na Dinamarca – e talvez a mais famosa múmia do pântano do mundo – ainda "tem uma barba de três dias – você sente que ele abrirá os olhos e conversará. É algo que nem mesmo Tutankhamon poderia fazer você sentir", disse Karin Margarita Frei, uma cientista que estuda múmias do pântano no Museu Nacional da Dinamarca.


Na Dinamarca, cerca de 30 desses corpos naturalmente mumificados estão alojados em museus, onde pesquisadores trabalham há décadas para descobrir quem eram e como morreram essas pessoas.
Pelos ferimentos horríveis –como gargantas cortadas – encontrados em alguns dos corpos e por terem sido enterrados em vez de cremados – como normalmente acontecia na comunidade – cientistas sugerem que as múmias foram sacrificadas como criminosos, escravos ou simplesmente plebeus. O historiador romano Tácito lançou essa ideia ainda no século 1, afirmando que se tratava de desertores e criminosos.

No entanto, pesquisas em andamento estão descobrindo uma dimensão inteiramente nova. É possível que essas pessoas do pântano foram membros especiais das aldeias que começavam a se espalhar pela Dinamarca no início da Idade Média.

Novas análises químicas aplicadas a dois dos corpos dinamarqueses, a Mulher de Huldremose e a Mulher de Haraldskær, revelam que elas viajaram longas distâncias antes de morrer. Além do mais, algumas de suas peças de roupas teriam sido feitas em terras estrangeiras e eram mais elaboradas do que se pensava.
"Você só sacrifica algo que é significativo e tem muito valor. Então, talvez, as pessoas que viajavam tinham muito valor", disse Karin.
Análise do casaco de couro e lenço de lã e saia da Mulher de Huldremose mostra que as roupas tinham sido feitas fora da Dinamarca.

Portal sobrenatural?

Para os europeus que viveram durante o período neolítico – há 6 mil anos – os pântanos eram recursos e, possivelmente, portais sobrenaturais sinistros – de acordo com Ulla Mannering, especialista em tecidos antigos no Museu Nacional da Dinamarca.
A turfa dos pântanos, que poderia ser queimada para o aquecimento de casas, era valiosa na Dinamarca, smpre escassa de árvores. E o minério de ferro do pântano era transformado em ferramentas e armas.
Para as pessoas pré-históricas, "quando você pega as coisas, você também oferece coisas", disse Ulla.
Talvez por isso, os moradores dinamarqueses depositavam oferendas de roupas, sapatos velhos, animais abatidos, armas maltratadas e, por um período de 500 anos, pessoas no abismo negro dos pântanos.
As culturas dinamarquesas da Idade do Ferro não deixaram registros escritos, de modo que suas crenças religiosas são desconhecidas, observou Ulla.

Senhora muito fina

Quando os colhedores de turfa começaram acidentalmente a desenterrar os corpos dos pântanos em meados dos anos 1800, muitos foram descobertos sem roupa, consolidando a ideia de que eles eram pessoas simples, disse Frei.
O Homem de Tullund, por exemplo, foi encontrado com um cinto, mas sem roupas. "Não faz sentido estar nu com um cinto", apontou Frei.
Karin se perguntou, então, se algumas das roupas haviam se dissolvido nos pântanos ao longo dos séculos. Ela decidiu examinar a Mulher de Huldremose, uma múmia descoberta em 1879 vestindo saia xadrez e lenço – feitos de lã de ovelha – e duas capas de couro.
Usando microscópios, ela encontrou fibras de plantas minúsculas presas aos restos da pele da mulher de 2,3 mil. Análises posteriores revelaram que as fibras eram, provavelmente, de linho.
Em seguida, Karin realizou uma análise inédita dos isótopos de estrôncio contidos no linho e na lã da saia e do cachecol.

Os pesquisadores analisaram os isótopos, ou diferentes variedades, de átomos do estrôncio preservados nas fibras de linho e de lã. Esses átomos fornecem uma visão química da geologia da região onde as plantas e as ovelhas viviam.
Os resultados mostram que as fibras vegetais retiradas dos fios da roupa de baixo cresceram em terrenos geologicamente mais antigos do que os da Dinamarca – típicos do norte da Escandinávia, como a Noruega ou a Suécia – sugerindo que a Mulher Huldremose veio de outro lugar, de acordo com uma pesquisa publicada em 2009 no Journal of Archaeological Science.
Karin também analisou os isótopos de estrôncio na pele da Mulher de Huldremose. Seres humanos absorvem estrôncio através de alimentos e água – o elemento é mais comum nos nossos dentes e ossos, embora muitas múmias do pântano são encontradas sem dentes e sem ossos por causa da acidez do ambiente.
Acreditava-se que a mulher de Haraldskær, mantida no museu de Vejle da Dinamarca, foi uma rainha norueguesa.
A pesquisa revelou que o corpo da Mulher de Huldremose também continha átomos de estrôncio de locais fora da Dinamarca – evidência de que ela viajara para o exterior antes de acabar no pântano.
Outro estudo publicado em 2009 por Ulla Mannering mostrou que a roupa de lã da mulher de Huldremose ficou marrom por causa da lama. A vestimenta era originalmente tingida – um sinal de riqueza – de azul e vermelho. Ulla e colegas também encontraram uma marca no dedo da Mulher de Huldremose, um possível indício de que ela usava um anel de ouro, deteriorado no pântano.
"No começo, pensamos que ela devia ser uma bruxa – mas agora achamos que ela foi uma senhora muito fina, dona de jóias e roupas caras," disse Karin.
"A riqueza e os recursos utilizados nesses tecidos estavam sendo negligenciados", acrescentou Ulla.
Além disso, a pesquisa mostra que as primeiras culturas da Idade do Ferro nos séculos logo antes e logo depois de Cristo estavam mais interligadas do que se pensava, disse Karin.
Por exemplo, fibras de lã e de plantas eram trazidas como matéria-prima para tecidos com mais frequência do que antes se acreditava, de acordo com a pesquisa de Karin.
"Nesse período, a sociedade era vista como muito fechada e trocava muito pouco com o mundo exterior", disse ela. "De repente, podemos ver que sim, havia muita troca."
Lotte Hedeager, especialista em arqueologia da Idade do Ferro na Universidade de Oslo, na Noruega, concordou, observando que "esses resultados exigem um novo pensamento" sobre as redes de comunicação e comércio entre as culturas do norte da Europa no início da Idade do Ferro.

Está no cabelo 

Com base nas descobertas promovidas pela Mulher de Huldremose, Karin e colegas queriam ver se outros corpos também eram estrangeiros.
Eles se voltaram para a Mulher de Haraldskær – uma múmia do pântano alojada no Museu Vejle, na Dinamarca. O corpo foi encontrado em 1835 e era tratado como se fosse o da rainha norueguesa Gunhild.
Novas tecnologias de rastreamento de isótopos de estrôncio tornaram possível a detecção de isótopos de estrôncio no cabelo humano – permitindo que se revele onde uma pessoa viveu nos últimos anos de vida. Como o cabelo cresce devagar, a análise de átomos de estrôncio na raiz do cabelo comparados aos das pontas, podem revelar movimentos geográficos.
Quanto mais longo o cabelo, mais longo o período registrado – o que faz da Mulher de Haraldskær, com suas madeixas de quase 50 centímetros, a cobaia perfeita.
Os resultados preliminares da análise, ainda inéditos, são empolgantes: a Mulher de Huldremose possivelmente viveu uma vida semelhante à da Mulher de Haraldskær – ambas teriam morado em um lugar diferente de onde morreram. Os cientistas também estão examinando a roupa, possivelmente produzida em outro local.
"O DNA não pode te dizer isso – ele pode te dizer sua constituição genética, mas não onde você nasceu, onde passou a infância e os últimos anos de vida", disse Karin.
O Homem de Tullund também terá seus isótopos de estrôncio analisados pela equipe de Karin Frei para determinar onde ele morou.
Uma parte pequena do pântano permanece onde o homem de Tollund foi encontrado na península de Jutland, na Dinamarca.

Forasteiros geográficos

Outros especialistas concordam que a pesquisa indica que as múmias do pântano eram pessoas especiais em suas aldeias.
Para Heather Gill-Frerking, pesquisadora de múmias da American Exhibitions, as novas descobertas são "ótimas evidências" para sua teoria de que as múmias dos pântanos eram o que ela chama de "forasteiros geográficos" – pessoas que teriam se casado com indivíduos de comunidades dinamarquesas ou que viajavam a trabalho ou estudo.
Heather sugere há anos que as múmias do pântano não foram vítimas de algum ritual religioso, mas estrangeiros jogados no pântano.
Essas pessoas podem não ter sido cremadas como os outros porque ainda não tinham sido assimiladas em suas comunidades, ou, talvez, porque as comunidades não estavam cientes dos costumes funerários da pessoa morta. Ela diz que é provável que alguns dos corpos foram enterrados depois de terem morrido por causas naturais.
"Eu acredito em várias interpretações sobre as múmias do pântano, não apenas [que foram vítimas de] rituais", disse ela.
Se novas descobertas continuarem a revelar que os corpos enterrados no pântano viajaram antes de morrer, "vamos precisar reconsiderar com seriedade a teoria do ritual e enxergar os corpos como indivíduos".

"Segredo dos pântanos"

Niels Lynnerup, antropólogo forense da Universidade de Copenhague, que também estudou as múmias, acredita que elas foram sacrificados – mas o enigma, segundo ele, gira em torno do porquê.
A descoberta de que pelo menos um dos corpos pode ter sido o de um estrangeiro "certamente acrescenta à discussão de 'quem foram as pessoas sacrificadas?'"
Por exemplo, Neils sugeriu que talvez elas tinham um estatuto especial por virem do exterior ou porque eram reféns capturados em invasões a outras regiões.
Também é possível que, como acontecia entre os incas, ser sacrificado era uma honra e as pessoas se voluntariavam para morrer no pântano.
"A informação de que pelo menos um deles não era local é incrivelmente importante e será muito interessante se o fato se confirmar como um padrão."
No geral, arqueólogos reconhecem que possivelmente sempre haverá mais perguntas do que respostas sobre as misteriosas múmias do pântano.
Lotte Hedeager, da Universidade de Oslo, acrescenta: "nunca seremos capazes de descobrir a percepção de vida e morte desses indivíduos há 2 mil anos."
"Isso permanece um verdadeiro segredo dos pântanos."
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segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Mosca que viveu há mais de 15 milhões de anos é descrita

16 de outubro de 2017

Por Peter Moon  |   Agência FAPESP – A mais antiga espécie de mosca conhecida para a superfamília Oestroidea, que congrega cerca de 15 mil espécies viventes – entre as quais a mosca-do-berne (Dermatobia hominis –, acaba de ser descrita em um estudo internacional com participação brasileira.

 Mosca que viveu há mais de 15 milhões de anos é descrita 

  Muito bem conservado em âmbar, exemplar da nova espécie, Mesembrinella caenozoica, ajuda a entender a evolução desses insetos (foto: divulgação)

A nova espécie, Mesembrinella caenozoica, foi descoberta a partir de um macho fossilizado de 8,5 milímetros que viveu nas matas da atual República Dominicana entre 20 milhões e 15 milhões de anos atrás, na época do Mioceno.


“O exemplar estava em uma gota de resina que escorreu no tronco de uma árvore, preservando a mosca de forma magnífica”, disse um dos autores do artigo, Marco Antonio Tonus Marinho, professor no Instituto de Biologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).
A descrição da nova mosca foi publicada na revista PLOS ONE, em trabalho liderado por David Grimaldi, do Museu de História Natural de Nova York, nos Estados Unidos.
Grimaldi é um dos especialistas mais renomados no estudo de animais preservados em âmbar, autor de dezenas de descrições de espécies, entre insetos, aranhas, flores e animais.

Marinho se envolveu no trabalho de descrição da nova mosca em 2014, quando participou em Potsdam, na Alemanha, do Congresso de Dipterologia, o ramo da entomologia dedicado à ordem das moscas e mosquitos.

“Trabalho principalmente com moscas da família dos mesembrinelídeos, com 38 espécies viventes conhecidas e, agora, uma fóssil. Grimaldi e os demais autores souberam que eu trabalhava com mesembrinelídeos, comentaram da descoberta do fóssil e me convidaram para o trabalho”, disse Marinho, que naquele momento fazia pós-doutorado no Laboratório de Morfologia e Evolução de Diptera da Universidade de São Paulo (USP).
A pesquisa contou com apoio da FAPESP.

Isolar DNA de seres presos em âmbar há tanto tempo ainda não é possível, como explicou o pesquisador. “O DNA se degrada após a morte do animal. Praticamente nada é preservado, mesmo no caso do âmbar. Aliás, um estudo mais detalhado do fóssil de Mesembrinella caenozoica, realizado de modo bastante cuidadoso por Pierfilippo Cerretti, da Sapienza Università di Roma, na Itália, só foi possível por meio de imagens obtidas por tomografia computadorizada”, disse.

No estudo, Marinho colaborou principalmente com a parte de filogenética molecular. Ele investigou o DNA de moscas viventes da superfamília Oestroidea, de modo a construir uma árvore filogenética na qual o fóssil de M. caenozoica entrou como um marcador temporal para melhor aferir os resultados do relógio molecular – importante ferramenta usada por geneticistas para estimar os tempos de divergência entre os ancestrais de duas ou mais espécies.

Marinho comparou as sequências do DNA ribossômico e de outros genes das 38 espécies viventes de mesembrinelídeos com sequências moleculares já publicadas de outras 61 espécies de moscas caliptradas.

A superfamília Oestroidea pertence ao grupo dos Caliptrados, com 22 mil espécies de moscas, entre elas a mosca doméstica (Musca domestica) e a tsé-tsé (do gênero Glossina), o vetor da doença do sono na África. Os Caliptrados perfazem uma pequena parte (14%) do universo das moscas e mosquitos, que reúne cerca de 160 mil espécies.

Com base na nova filogenia de Caliptrados, Marinho e os demais autores conseguiram estimar que o ancestral comum das moscas caliptradas viveu há 67,5 milhões de anos, antes da grande extinção do final do período Cretáceo, a mesma que dizimou os dinossauros.

Foi também possível estimar que a radiação das Oestroidea pelo mundo teve início na época do Eoceno, há cerca de 48 milhões de anos, e que a família dos mesembrinelídeos evoluiu entre 43 milhões e 39 milhões de anos atrás, o dobro da idade da mosca no âmbar.

Muitas novas espécies

Os resultados do estudo sugerem que, assim como ocorreu com a radiação das aves e dos mamíferos no início da era Cenozoica (os últimos 66 milhões de anos), a extinção em massa que encerrou o Cretáceo pode ter desempenhado um papel fundamental na aceleração da diversificação das moscas caliptradas.

As 38 espécies de mesembrinelídeos existentes são restritas a florestas neotropicais, do sul do México ao norte da Argentina. A ecologia dessas moscas é pouco conhecida, mas se sabe que os adultos preferem viver na sombra e ocorrem quase exclusivamente em florestas com um dossel fechado.
Talvez esteja aí uma explicação para o tamanho diminuto da família. “Há muitas outras espécies desconhecidas de mesembrinelídeos ainda por descobrir. Como são insetos que vivem dentro das florestas, na sombra das árvores, eles são eliminados nas áreas desmatadas, o que reduz as chances de coleta”, disse Marinho.

O artigo First fossil of an oestroid fly (Diptera: Calyptratae: Oestroidea) and the dating of oestroid divergences, de Pierfilippo Cerretti, John O. Stireman III, Thomas Pape, James E. O’Hara, Marco A. T. Marinho, Knut Rognes e David A. Grimaldi, pode ser lido em https://doi.org/10.1371/journal.pone.0182101.

Novo modelo físico explica de onde veio a água da Terra

16 de outubro de 2017

Por José Tadeu Arantes  |  Agência FAPESP – Munidos da lei da gravitação universal de Newton (cuja publicação completou 330 anos em 2017) e de pesados recursos computacionais (para poder aplicar a lei a mais de 10 mil corpos em interação), um jovem pesquisador brasileiro e seu antigo supervisor de pós-doutorado acabam de propor um novo modelo físico para explicar a origem da água na Terra e nos demais objetos de tipo terrestre do Sistema Solar.


Novo modelo físico explica de onde veio a água da Terra Objetos deslocados para o interior do Sistema Solar devido ao crescimento de Júpiter teriam levado à região a maior parte do acervo hídrico atualmente existente (imagem: Nasa)

 

O artigo assinado por ambos, Origin of water in the inner Solar System: Planetesimals scattered inward during Jupiter and Saturn's rapid gas accretion, foi publicado na revista Icarus.
Os autores são André Izidoro, da Faculdade de Engenharia de Guaratinguetá da Universidade Estadual Paulista (Unesp) – bolsista FAPESP na modalidade Apoio a Jovens Pesquisadores –, e o astrofísico norte-americano Sean Raymond, do Laboratoire d'Astrophysique de Bordeaux, na França.

“A ideia de que a água da Terra veio predominantemente por meio de asteroides não é nova. Ela é praticamente consensual entre os pesquisadores. Nosso trabalho não é pioneiro em relação a isso. O que conseguimos foi associar esse aporte de asteroides ao processo de formação de Júpiter. E, com base no modelo resultante, ‘entregar à Terra’ quantidades de água consistentes com os valores estimados atualmente”, disse Izidoro à Agência FAPESP.

O valor de água existente na Terra varia muito de uma estimativa a outra. Usando como unidade de medida o “oceano terrestre”, o que corresponde a toda a água dos oceanos da Terra, alguns falam em três a quatro “oceanos terrestres”. Outros, em dezenas. A variação decorre do fato de não se saber quanta água existe no manto do planeta. E nem mesmo na crosta, aprisionada no interior das rochas. De qualquer forma, o modelo proposto dá conta do amplo leque de estimativas.

“Convém afastar logo a ideia de uma Terra que recebeu toda a sua água por meio do impacto de cometas oriundos de regiões muito distantes. Tais ‘entregas’ também ocorreram, mas sua contribuição foi posterior e percentualmente muito menos importante. A maior parte da água chegou à região atualmente ocupada pela órbita da Terra antes que o planeta tivesse se constituído”, disse Izidoro.

Para entender “como”, vale recapitular o cenário definido pelo modelo convencional de formação do Sistema Solar, acrescentando o novo modelo relativo ao aporte de água. A condição inicial é uma gigantesca nuvem de gás e poeira cósmica. Devido a algum tipo de perturbação gravitacional ou turbulência local, essa nuvem entra em colapso e passa a ser atraída por uma determinada região de seu interior, que configura um centro.

Com o aporte de matéria, o centro torna-se tão massivo e aquecido que, cerca de 4,5 bilhões de anos atrás, entra em processo de fusão nuclear, transformando-se em estrela. Enquanto isso, a nuvem remanescente continua a orbitar o centro e seu material se aglutina, formando um disco, que posteriormente se fragmenta, definindo os nichos protoplanetários.

“Estima-se que, nesse disco, a região rica em água se localizava a partir de algumas unidades astronômicas de distância do Sol. Na região interior, mais próxima da estrela, a temperatura era alta demais para que a água pudesse se acumular, exceto talvez em muito pequena quantidade, na forma de vapor”, explicou Izidoro.

Por definição, a unidade astronômica (AU) é a distância média da Terra ao Sol. Entre 1,8 AU e 3,2 AU localiza-se atualmente o Cinturão de Asteroides, com centenas de milhares de objetos. Nessa faixa, os asteroides que ocupam a região entre 1,8 AU e 2,5 AU são predominantemente pobres em água, enquanto a maioria daqueles situados além de 2,5 AU são ricos. O processo de formação de Júpiter pode explicar a origem dessa divisão, de acordo com o pesquisador.

“O tempo transcorrido entre a formação do Sol e a completa dissipação do disco gasoso foi bastante curto, na escala cosmogônica: de apenas 5 milhões a no máximo 10 milhões de anos.

E a formação de planetas gasosos tão massivos quanto Júpiter e Saturno só pode ter ocorrido durante essa fase de juventude do Sistema Solar. Então, foi durante essa fase que o rápido crescimento de Júpiter perturbou gravitacionalmente milhares de planetesimais ricos em água, deslocando-os de suas órbitas originais”, disse Izidoro.

Estima-se que Júpiter possua um núcleo sólido, com massa equivalente a algumas vezes a massa da Terra. Esse núcleo sólido é recoberto por um extenso e massivo envoltório gasoso. Júpiter só pode ter adquirido tal envoltório durante a fase da nebulosa solar, quando o sistema estava em formação e havia enorme quantidade de material gasoso disponível.

Devido à vultosa massa do embrião de Júpiter, o processo de aquisição do gás, por atração gravitacional, foi muito rápido. Nas vizinhanças do planeta gigante em formação, situados além da “linha de gelo”, milhares de planetesimais [corpos rochosos semelhantes a asteroides] orbitavam o centro do disco, atraindo-se, simultaneamente, uns aos outros.
O rápido aumento da massa de Júpiter rompeu o precário equilíbrio gravitacional desse sistema de muitos corpos. Vários planetesimais foram engolidos pelo Proto-Júpiter. Outros, enviados para os confins do Sistema Solar. E uma pequena fração, arremessada para a região interior do disco, entregando água para o material que, mais tarde, formaria os planetas terrestres e constituiria o Cinturão de Asteroides.

“O período de formação da Terra é datado entre 30 milhões e 150 milhões de anos após a formação do Sol. Quando isso ocorreu, a região do disco onde nosso planeta se constituiu já dispunha de bastante água, entregue pelos planetesimais deslocados por Júpiter e também por Saturno. Admite-se que uma pequena fração da água existente na Terra tenha chegado mais tarde, mediante o choque de cometas e asteroides. E que uma fração ainda menor possa ter-se formado localmente, por meio de processos físico-químicos endógenos. Mas a maior parte da água veio com os planetesimais”, disse Izidoro.

A afirmação sustenta-se no modelo construído por ele e seu antigo supervisor. “Com o emprego de supercomputadores, simulamos a interação gravitacional entre os múltiplos corpos por meio de integradores numéricos, em linguagem Fortran. E introduzimos uma modificação para incluir os efeitos do gás presente no meio durante a época de formação dos planetas. Isso porque, além de todas as interações gravitacionais em cena, os planetesimais sofreram também a ação do chamado ‘arrasto gasoso’, que é, basicamente, um ‘vento’ em sentido contrário ao do movimento – o mesmo tipo de efeito que um ciclista percebe ao se deslocar, decorrente da colisão das moléculas do ar com seu corpo”, descreveu o pesquisador.

O “arrasto gasoso” fez com que as órbitas dos planetesimais deslocados por Júpiter, inicialmente muito alongadas, fossem, pouco a pouco, “circularizadas”. Foi tal efeito que implantou esses objetos na zona que corresponde atualmente ao Cinturão de Asteroides.

Um parâmetro fundamental para esse tipo de simulação é a massa total da nebulosa solar no início do processo. Para chegar a esse número, Izidoro e Raymond utilizaram um modelo proposto no início da década de 1970. Ele parte do levantamento da massa de todos os objetos atualmente observados no Sistema Solar.

Para compensar as perdas decorrentes da ejeção de matéria durante a fase de formação do sistema, o modelo corrige as massas atuais dos diferentes objetos, fazendo com que suas proporções de elementos pesados (oxigênio, carbono etc.) e de elementos leves (hidrogênio, hélio etc.) fiquem iguais às do Sol. Isso com base na hipótese de que o disco de gás e o Sol tinham a mesma composição. Feitas as alterações, obtém-se a massa presumível da nuvem primitiva.
“Além disso, nosso novo modelo considerou também os diferentes tamanhos dos atuais asteroides, que vão de quilômetros a centenas de quilômetros de extensão, porque o gás tende a afetar mais os asteroides menores”, disse Izidoro.
A simulação feita a partir destas considerações pode ser vista no vídeo a seguir:
O veneno que vem do céu
 
Pulverização aérea de agrotóxicos, monocultivos, UCs e assentamentos da Reforma Agrária
Silvia Beatriz Adoue leciona na Escola Nacional Florestan Fernandes, é professora doutora na UNESP/Araraquara, parecerista da Revista Acadêmica Multidisciplinar Urutágua (UEM) e da Revista Eletrônica Espaço Acadêmico.
14/10/2017
Imagem de GPS para ver a distribuição da fazenda, a estação ecológica e o assentamento
 
Em 11 de outubro, das 10 h às 13 h, houve pulverização no monocultivo de mandioca na fazenda "Brinco de Ouro", no município de Ubirajara-SP, na divisa com o município de Gália-SP. A operação afeta o assentamento da reforma agrária "Luiz Beltrame" e a estação agroecológica Caetetus "Olavo Amaral Ferraz". O assentamento e a estação agroecológica, em Gália, lindam com o campo pulverizado. O fato alarmou duplamente os assentados, já que aconteceu no momento em que as crianças da comunidade se deslocavam para as escolas que frequentam em Ubirajara, e o avião fazia manobras acima do assentamento. .

Com 1.273 ha, o assentamento "Luiz Beltrame" é composto por 77 famílias. Há nele 27 unidades que produzem com sistema agroflorestal (SAF) e 100 ha já estão destinadas à produção agroecológica e orgânica.  Parte da área pertencia antigamente à fazenda "Portal do Paraíso", que foi declarada improdutiva e, em 2012, e foi arrecadada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA)[1]. Outra parte era a antiga fazenda "Santa Fé". Então, famílias que durante 4 anos vinham ocupando e sendo despejadas para a beira da estrada, entraram na sede da fazenda.

Na época, a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB), agência do estado para monitoramento ambiental, resistia a outorgar o licenciamento para instalação de assentamento da reforma agrária na área, por lindar com a estação ecológica. O fazendeiro e candidato a deputado federal pelo Partido Ecológico Nacional (PEN) Ivan Cassaro chegou a iniciar um processo judicial para impedir a constituição do assentamento, também com o argumento da proximidade com a estação ecológica[2].

A área da estação ecológica é é de 2.178 ha, localizada entre nos municípios de Gália e Alvilândia-SP, e também foi parte da fazenda "Paraíso", pertencente a Olavo Amaral Ferraz, foi desapropriada em 1976 para constituir a Reserva Estadual de Gália. Em 1987, a reserva florestal foi transformada numa modalidade específica de  Unidade de Conservação (UC) que exige vigilância ambiental severa, sob proteção integral: a estação ecológica[3]. O seu gestor é o Instituto Florestal. A unidade possui 83% de cerrado e 17% de mata atlântica[4]. Com riqueza em espécies ameaçadas, como o mico-leão-dourado[5].

A pulverização aconteceu sobre um plantio de mandioca. A empresa que controla a fazenda possui também terras em Goiás e Mato Grosso. Dedicados ao gado em condições de terra improdutiva, os empresários sentiram-se ameaçados pelas ocupações de sem terra que disputam a área, e então retiraram o gado e plantaram 100 alqueires de mandioca. A fazenda já vai pelo segundo ciclo de plantio.

A situação é paradigmática. São os assentados os que dão a voz de alarme frente a agressão à área que precisa ser preservada. O esforço da comunidade de "Luiz Beltrame" combina a produção de alimentos livres de veneno com a preservação e expansão do bioma, por meio dos SAFs. Isto é, a reforma agrária, contrariando os prognósticos, tornou-se garantia não só de proteção, mas também de ampliação da abundância no território. Enquanto isso, e lançando mão de uma espécie nativa e que em princípio não teria impacto negativo no ambiente, o agronegócio age com efeito destrutivo da natureza e coloca em risco os habitantes da região.

Destruída a mata para formar pastagem, com terra compactada, mesmo o plantio de mandioca, por ser realizado em grande escala, exige a utilização de veneno para se tornar rentável. Os povos da floresta, que habitaram esse território por pelo menos 2.500 anos, disseminaram a espécie em toda a região. A mandioca e outros tubérculos foram de grande importância para preservar e expandir a abundância no território. Mas o seu modo de plantio em nada parece com o do agronegócio. Em primeiro lugar, porque os povos plantam mandioca no que modernamente se chama de cultivos consorciados e não como monocultivo. Em segundo lugar, porque a rotação de cultivos não permite o esgotamento de uma área. Essas práticas, próprias dos povos da floresta da região, aprendida na caboclagem, hoje também está sendo aprendida pelos assentados da reforma agrária.

O povo encurralado e empobrecido pela colonização, agora na forma do agronegócio, exige passagem. Para defender o território da escassez e a morte.

Por que o caranguejo anda de lado?

 Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Tauana Marin
DIário do Grande ABC




Os caranguejos andam, principalmente, de lado, porque é desta forma que conseguem se movimentar mais rápido, gastando menos energia. No entanto, o que muitos não sabem é que eles também podem se deslocar para frente e para trás, caso seja necessário.

Eles possuem dez patas, duas delas com finalidade de agarrar o alimento e, as demais, utilizadas para locomoção. Cada uma possui sete partes menores (artículos), que se conectam entre si por articulações. A que une corpo-coxa é mais complexa, permitindo um deslocamento lateral, mas também para a frente e para trás. No entanto, as outras seis articulações se movem em única direção, que é a lateral.

Esses crustáceos pertencem ao filo Arthropoda, a exemplo do que ocorre com os insetos, lacraias, aranhas e escorpiões. A característica de todos é apresentar esqueleto externo (exoesqueleto) que recobre seu corpo, sendo duro pela presença de substância chamada quitina. Detalhe para o fato de que necessitam trocar essa espécie de armadura durante alguns momentos da vida. Quando deixa o exoesqueleto, o animal – ainda com corpo ‘mole’ – consegue ingerir água (se for aquático) ou ar (se terrestre) para aumentar de tamanho, seguindo-se ao enrijecimento da nova cutícula.

Atualmente existem 6.600 espécies de caranguejos em todo o mundo, exceto nos desertos. Eles precisam da água para viver e é nela onde se hidratam, reproduzem e respiram. Os que conseguem ficar mais tempo na terra, como o caranguejo guaiamú, podem viver mais longe das fontes de água pelo fato de possuírem câmaras branquiais bem amplas nas laterais de sua carapaça, permitindo que ‘guardem’ ar na parte superior.

O tipo de alimentação desses animais também varia conforme a espécie. Alguns são herbívoros (se alimentando dos brotos e folhas verdes de algumas árvores de manguezal) e outros são carnívoros (comem mexilhões, caramujos e até mesmo peixes). Há também os onívoros (comem de tudo um pouco, como animais, vegetais e organismos mortos) e as espécies comensais (que se nutrem de restos de alimento de outras espécies).

O tempo de vida dos caranguejos também varia, podendo ser de dois anos. No caso de alguns siris, a exemplo do caranguejo-uçá, chegam a viver até dez anos.

MULTIPLICAÇÃO - Os caranguejos nascem de ovos, que desenvolvem por cerca de 15 dias em temperatura de 25°C e que se abrem, gerando descendentes, que podem emergir como larvas. Os machos têm dois pênis localizados nas coxas do último par de patas, servindo para a transferência de espermatozoides para o interior dos dois poros genitais que as fêmeas possuem. Após o desenvolvimento dos ovários das fêmeas, seus óvulos passam por pequenos sacos internos, onde os espermatozoides são guardados e, como ovos, deixam o corpo da fêmea. Dependendo da família de caranguejo a que pertence, a espécie pode ter de dois a até oito estágios larvais. Já os caranguejos de água doce não possuem fase larval, saindo dos ovos como jovens.

O maior caranguejo do mundo é o japonês. Ele vive a 600 metros de profundidades no Oceano Pacífico e pode chegar a 20 quilos. Se suas pinças forem distanciadas uma da outra, podem medir cerca de quatro metros

Consultoria de Marcelo Antonio Amaro Pinheiro, biólogo marinho e professor doutor do Instituto de Biociências da Unesp – Campus do Litoral paulista.

Encontrado o túmulo mais antigo de um governante Maia

Encontrado o túmulo mais antigo de um governante Maia
Restos mortais têm pelo menos 1.700 anos !

Uma descoberta arqueológica recente conseguiu determinar que o túmulo de um governante maia, escavado na cidade de Perú-Waka e conhecido como “Enterro 80”, corresponde aos primeiros anos da dinastia Wak.
Guatemala - El Perú Waka
Perú-Waka fica no norte da Guatemala, a 40 quilômetros de Tikal, um dos maiores sítios arqueológicos da civilização Wak, no Parque Nacional Laguna del Tigre.
Durante o período clássico, essa cidade real dominou as rotas comerciais mais importantes da região e acredita-se que uma das primeiras dinastias conhecidas, a Wak, tenha se assentado lá durante o segundo século da Era Cristã.
De acordo com os resultados preliminares do estudo, o Enterro 80 abrigaria supostamente os restos do rei Te ‘Chan Ahk, um monarca Wak que governou no século IV. Trata-se do túmulo real mais antigo jamais descoberto nessa região, com, pelo menos, 1.700 anos de história.
Na tumba, também foram encontrados recipientes de cerâmica, enfeites de jade, conchas de Spondylus e um pingente talhado em forma de crocodilo. Além disso, um levantamento topográfico com Laser Scanning 3D permitiu a descoberta de uma rede antiquíssima de passagens que interligavam as pirâmides maias do local.
Fonte: NODAL CULTURA

sábado, 14 de outubro de 2017

Introdução a Espeleologia: O Carste e o Patrimônio Espeleológico

Mariana Barbosa Timo
As rochas carbonáticas se destacam na superfície da Terra devido às suas espetaculares paisagens, onde desenvolve-se um tipo especial de relevo denominado “carste”. Este relevo apresenta uma morfologia específica, caracterizada pela presença de feições características como dolinas, afloramentos, vales cegos, surgências e sumidouros, cavernas, lapas e abrigos, entre outras.

O relevo cárstico é associado, principalmente, às rochas carbonáticas, que são rochas cujos minerais predominantes são os carbonatos (dolomita, aragonita e, principalmente, a calcita). A origem destas rochas pode ser sedimentar (Calcários), metamórfica (Mármores) ou ígnea (Carbonatitos).
Afloramento calcário na região de Corumbá, Pains (MG). Foto: Mariana Barbosa Timo, 2007.
Neste tipo de relevo duas ciências são amplamente estudadas: a carstologia e a espeleologia. A carstologia abrange aspectos envolvendo as feições cársticas e suas relações com os processos superficiais e subterrâneos da gênese do relevo, enquanto a espeleologia é totalmente restrita ao ambiente subterrâneo.

O Patrimônio Espeleológico é constituído pelo conjunto de ocorrências geológicas que criam formações especiais, tais como vales fechados, dolinas, paredões verticais, cânions, sumidouros, drenagens subterrâneas, cavernas, abismos, furnas, tocas, grutas, lapas e abrigos sob rochas, que são considerados bens da União.
 Este patrimônio estrutura ecossistemas de intensa complexidade e de grande fragilidade ambiental. Apresenta significativo endemismo faunístico, beleza cênica, multiplicidade de feições morfológicas, deposições minerais e estratégicos reservatórios de água, fundamentais para a recarga de aquíferos. As cavernas apresentam contato reduzido com o ambiente externo, pouca variação de temperatura e umidade, fauna específica, além de escuridão e silêncio absoluto.
Santuário em Bom Jesus da Lapa (BA). Foto: Mariana Barbosa Timo, 2015.

No interior das cavernas podem ser observadas feições que possibilitam o entendimento do processo de formação geológica regional e vestígios arqueológicos e paleontológicos importantes para o entendimento da nossa pré-história. Trata-se de um ambiente frágil de recarga de aquífero que também é comumente utilizado para manifestações culturais e religiosas. Além disso, a biodiversidade deste ecossistema é importante e pouco estudada, principalmente no tocante às espécies troglóbias (específicas do ambiente cavernícola).

As intervenções no Patrimônio Espeleológico afetam significativamente todo o ecossistema subterrâneo. 
Os principais impactos antrópicos neste ambiente são desencadeados pelas atividades minerárias, ocupação urbana e/ou rural, disposição de resíduos sólidos inadequada, redes de esgoto, cemitérios, postos de combustíveis, abertura de estradas/obras de engenharia, agricultura, pecuária, desmatamento, captação de água sem planejamento, turismo, vandalismo, entre outros. Estas atividades desenvolvidas de forma desorganizada e predatória, sem critérios técnicos adequados e sem planejamento, acabam deflagrando processos que induzem a acidentes geológicos, como subsidências e colapsos de solo e rocha, e a degradação ambiental, podendo inclusive, causar a poluição de aquiferos. 
O entendimento da importância deste ambiente durante o processo de licenciamento ambiental é fundamental e pode minimizar consideravelmente os impactos ambientais negativos previstos em cada fase dos empreendimentos sobre o carste e as cavernas. Além disso, permitirá o prognóstico da qualidade ambiental na área de influência direta e indireta do empreendimento, sendo estratégico para a preservação do Patrimônio Espeleológico Brasileiro.
Lapa do Caboclo, Januária (MG). Foto: Mariana Barbosa Timo, 2012.
 Isopoda troglomórfico encontrado em cavernas. Foto: Arquivo Spelayon Consultoria, 2016.
Autora:
 
Possui mestrado em Geografia pelo Programa de Geografia e Tratamento da Informação Espacial da PUC-Minas (2014) e graduação em Engenharia Ambiental pela Universidade Federal de Ouro Preto (2005). 

Atualmente é doutoranda em Geografia pelo Programa de Geografia e Tratamento da Informação Espacial da PUC-Minas e em Carstologia pela Universidade de Nova Gorica, Eslovênia.
É diretora da Spelayon Consultoria – EPP desde de 2007, atuando em gestão de projetos envolvendo a espeleologia. Tem experiência na área de Geociências com ênfase em Espeleologia, incluindo principalmente os seguintes temas: Prospecção Espeleológica, Espeleotopografia, Geomorfologia Cárstica, Análise de Relevância de Cavidades e Monitoramento Espeleológico.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Região de origem do tripanossoma é identificada

10 de outubro de 2017

Peter Moon  |  Agência FAPESP – Um estudo realizado na África, liderado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), encontrou uma maior diversidade genética em Trypanosoma vivax – um parasita patogênico para bovinos, ovinos e caprinos – no leste da África, provavelmente a região de origem e diversificação desse parasita.

Região de origem do tripanossoma é identificada Leste da África pode ter sido a área a partir da qual o protozoário foi introduzido nas Américas. Estudo internacional foi liderado por pesquisadores da USP (foto: Erney Camargo / ICB-USP)


O trabalho, que tem como objetivo mapear a diversidade e rotas de dispersão desse parasita, vem sendo conduzido nos últimos 10 anos por pesquisadores do Departamento de Parasitologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP.

Sob a supervisão da professora Marta Maria Geraldes Teixeira e do professor Erney Plessmann de Camargo, o estudo conta com um grande grupo de pesquisadores de universidades brasileiras, sul-americanas, africanas e inglesas que investigam a filogenia e a evolução dos tripanossomas em geral.
Resultados recentes da pesquisa, apoiada pela FAPESP, foram publicados nas revistas Parasites & Vectors e Infection, Genetics and Evolution. Os dois primeiros autores são respectivamente Herakles Antonio Garcia Perez, professor da Universidade Central de Caracas (Venezuela) e bolsista de pós-doutorado da FAPESP, e Carla Monadeli Filgueira Rodrigues, bolsista de pós-doutorado do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

As duas espécies mais conhecidas de Trypanosoma são Trypanosoma brucei – responsável pela doença do sono transmitida pela mosca tsé-tsé na África – e Trypanosoma cruzi – causador da doença de Chagas na América Latina e transmitido pelo inseto conhecido como barbeiro (Triatominae).
Camargo conta que, em geral, os tripanossomas patogênicos para ungulados são transmitidos exclusivamente por moscas tsé-tsé (Glossina) e, portanto, restritos à África. “Porém, T. vivax pode ser também transmitido mecanicamente por outras moscas hematófagas nas regiões áridas da África – no Sahel, extensa região árida ao sul do deserto do Saara – e da América Central e do Sul”, disse.
Segundo Teixeira, a variabilidade genética encontrada no leste africano aponta para a possibilidade de ser aquela a região de origem e diversificação de T. vivax.

“Quando começamos a comparar isolados brasileiros e africanos de T. vivax, conseguimos uma única amostra do leste da África. Esse isolado era muito diferente das nossas e da cepa de referência de T. vivax da Nigéria, no oeste da África, a única bem estudada até então”, disse.
A coleta de amostras na África ocorreu com a participação do grupo brasileiro, no âmbito do projeto ProÁfrica do CNPq, que reuniu pesquisadores do Brasil e de países africanos.

No primeiro trabalho realizado em Moçambique, os pesquisadores encontraram um novo genótipo ao sequenciar DNA de amostras de sangue de antílopes. Essa descoberta foi seguida de novos genótipos de T. vivax identificados na Tanzânia com a colaboração de cientistas ingleses.
“Nossos resultados iniciais indicavam que no leste da África havia uma grande diversidade de T. vivax. Decidimos aprofundar os estudos. Para complicar, os novos genótipos estavam sendo encontrados em ungulados silvestres – búfalos, antílopes, zebras e girafas – que não desenvolvem a doença – e moscas tsé-tsé de áreas protegidas. Só foi possível fazer esse estudo porque conseguimos autorização para trabalhar nos Parques Nacionais da Gorongosa e do Niassa em Moçambique”, disse Teixeira.
Análises moleculares de tripanossomas de um número elevado de moscas tsé-tsé e sangue de ungulados revelou dois grupos de genótipos de T. vivax. Um com poucos genótipos, geneticamente similares aos encontrados na África Ocidental e América do Sul; outro com mais de 11 genótipos muito divergentes, sugerindo a existência de outras espécies, até agora exclusivo do leste africano.
A evidência de uma diversidade muito maior de T. vivax no leste africano sugere que essa seja a região de origem e diversificação desse parasita, há milhões de anos. “Mas pode indicar também a existência de recombinações (ainda não comprovadas em T. vivax), na mosca tsé-tsé, de diferentes genótipos que circulam entre os animais silvestres. Essa hipótese precisa ser testada”, disse Camargo.

Viagem de caravela

Ao contrário do leste africano, estudos de T. vivax na América do Sul, realizados por Garcia Perez e Filgueira Rodrigues e outros, revelaram grande homogeneidade genética entre populações de áreas endêmicas e surtos e entre isolados de animais doentes ou assintomáticos.
Esses estudos demonstraram que parasitas da África Ocidental e América do Sul são muito semelhantes, embora não idênticos. “Estudos recentes têm revelado diferenças significativas nos genomas de isolados da América do Sul e África”, disse Teixeira.

Os resultados de análises de polimorfismo genético (microssatélites) sugerem que o parasita possa ter sido introduzido nas Américas a partir da África Ocidental, provavelmente em vários momentos nos últimos 500 anos. Os resultados dessa análise foram publicados em 2014 na revista Parasites & Vectors.

“Animais infectados com T. vivax podem ter sido trazidos nas caravelas dos colonizadores espanhóis e franceses a partir de suas colônias na África Ocidental”, disse Camargo.
Os primeiros casos de doença só foram descritos a partir de 1830, na Guiana Francesa, Caribe, Venezuela e Norte do Brasil.
“Os historiadores acreditam que o T. vivax encontrado no Brasil tenha vindo do Senegal, via Guiana Francesa. É possível, uma vez que há muita semelhança entre o nosso semiárido, o Senegal e o Sahel, em geral. Nessas regiões, o rebanho de jumentos é enorme e esses animais são altamente tripanotolerantes (infecção assintomática), servindo como reservatórios de T. vivax”, disse Camargo.
O pesquisador conta que foi pensando nisso que Carla Rodrigues começou a estudar a patologia dos surtos de T. vivax no semiárido e resolveu procurar T. vivax em jumentos abandonados nas estradas do Rio Grande do Norte, estado onde nasceu. Os resultados da pesquisa foram publicados em 2016 na Parasites & Vectors.

“Isso também ocorre na Etiópia, onde T. vivax é altamente prevalente. Analisando a diversidade genética dos tripanossomas. encontramos diferenças importantes em moscas tsé-tsé que capturamos lá recentemente. Aparentemente, seguindo rotas históricas de migrações humanas e seus rebanhos, T. vivax saiu do leste africano, chegou à África ocidental e daí foi trazido ao Novo Mundo. É uma longa viagem, mais uma das que começaram no Vale do Rift [complexo de falhas tectônicas criado há cerca de 35 milhões de anos com a separação das placas africana e arábica]. Ainda precisamos conhecer as rotas da viagem”, disse Camargo.

Surtos de alta mortalidade em bovinos no Brasil

A Amazônia e o Pantanal, assim como os Llanos venezuelanos são regiões endêmicas para T. vivax, de onde bois e búfalos assintomáticos são introduzidos em áreas livres desse parasita, desencadeando surtos de doença aguda: grande número de parasitas no sangue e graves distúrbios hematológicos e neurológicos, como observaram os pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da USP.
“Nosso grupo acompanhou diversos surtos de T. vivax.

Quando começamos, uma grande dificuldade era o diagnóstico do tripanossoma. Desenvolvemos um método de PCR [reação em cadeia da polimerase], que tem sido utilizado na América do Sul e na África, e padronizamos novos marcadores e métodos moleculares para análises de diversidade e as relações filogenéticas”, disse Marta Teixeira.
“O primeiro surto de infecção aguda, com alta mortalidade, foi descrito em 2007 em gado leiteiro no Nordeste do Brasil (Paraíba), com a participação de nosso grupo. Desde então, surtos de infecção por T. vivax foram descritos no Ceará, Pernambuco, Minas Gerais, Tocantins, Rio Grande do Sul, Goiás e São Paulo”, disse.
A mortalidade pode ser grande se os animais não forem tratados rapidamente. Os animais que desenvolvem doença crônica apresentam alterações reprodutivas, abortos e redução da produção de leite.
“A situação atual é séria no Brasil, mas o número de animais doentes é subestimado porque os fazendeiros não notificam a doença. Porém, como observado por Herakles Garcia, muito pior é a situação na Venezuela onde búfalos, que são supertripanotolerantes, estão morrendo de infecção por T. vivax”, disse Teixeira.

Ela conta que foi para perseguir a história de T. vivax que o grupo de pesquisadores foi à África. “Mas lá encontramos muito mais, diversas descobertas importantes para estudos evolutivos de tripanossomas de crocodilos, lagartos, sapos, aves e morcegos. Descrevemos tripanossomas de morcegos africanos filogeneticamente relacionados com Trypanosoma cruzi. Mas essa é outra história, muito mais antiga e complicada, porque os morcegos voam”, disse Teixeira.

O artigo Remarkable richness of trypanosomes in tsetse flies (Glossina morsitans morsitans and Glossina pallidipes) from the Gorongosa National Park and Niassa National Reserve of Mozambique revealed by fluorescent fragment length barcoding (FFLB), de Herakles A. Garcia, Carla M. F. Rodrigues, Adriana C. Rodrigues, Dagmar L. Pereira, Carlos L. Pereira, Erney P. Camargo, P.B. Hamilton e Marta M. G. Teixeira, publicado na Infection, Genetics and Evolution, está disponível em https://doi.org/10.1016/j.meegid.2017.07.005.

O artigo New insights from Gorongosa National Park and Niassa National Reserve of Mozambique increasing the genetic diversity of Trypanosoma vivax and Trypanosoma vivax-like in tsetse flies, wild ungulates and livestock from East Africa (doi: https://doi.org/10.1186/s13071-017-2241-2), de Carla M.F. Rodrigues, Herakles A. Garcia, Adriana C. Rodrigues, André G. Costa-Martins, Carlos L. Pereira, Dagmar L. Pereira, Zakaria Bengaly, Luis Neves, Erney P. Camargo, Patrick B. Hamilton e Marta M.G. Teixeira, está publicado em: https://parasitesandvectors.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13071-017-2241-2.
Os efeitos da extinção da megafauna
 
Pesquisa da Unesp de Rio Claro chama a atenção para o tema
 
Assessoria de Comunicação e Imprensa
10/10/2017
 
Docente do Instituto de Biociências da Unesp de Rio Claro, Mauro Galetti lidera um grupo de pesquisadores do Brasil, Dinamarca, Espanha, Suíca, Estados Unidos, África do Sul e Austrália, que aponta os impactos da extinção da megafauna em todos o planeta. A publicação acaba de sair da revista Biological Reviews. Os autores compilaram informações sobre quais as consequências da extinção extinção de mamutes, preguiças-gigantes, tigres-dente-de-sabres entre outros nas interações ecológicas.
                                                                 Megafauna do Pleistoceno

Interações tróficas e indiretas entre a megafauna e seu ambiente, aqui exemplificado pelo elefante (Loxodonta africana) africano, e outros dois animais de megafauna já extintos: a preguiça gigante (Megatherium americanum) da América do Sul e o marsupial gigante Diprotodon optatum da Austrália.
Todos os anos diversos grupos de pesquisa tentam solucionar quais fatores levaram a megafauna a extinção? – Bom, achamos que seria mais interessante perguntar, “Quais as consequências da extinção da megafauna?” comenta Galetti.

Neste trabalho os pesquisadores focaram como a extinção da megafauna afetou parasitas, predadores, ecossistemas e outros processos ecológicos. – Se você fosse um parasita dentro de uma preguiça-gigante, você teve duas alterantivas antes da extinção da preguiça, ou você buscou outro hospedeiro, e muitas vezes foi o próprio homem, ou você se extinguiu junto com a preguiça, complementa Galetti.

Com a extinção de mais de 177 espécies de megafauna da América do Sul, muitas interações e espécies associadas a megafauna foram extintas. Um exemplo é uma espécies de morcegos-vampiro-gigante que provavelmente foram extintas depois da extinção da megafauna. – Sem esses gigantes para chupar o sangue, o vampiro-gigante deve ter morrido de fome, diz Galetti. O trabalho aponta que muitos parasitas que tem o homem, cachorro e gado como hospedeiro provavelmente evoluíram em grandes mamíferos. A berne e a bicheira por exemplo, devem ter “saltado” da megafauna para os homens e seus animais domésticos.

O trabalho de Galetti e colaboradores tem grandes implicações para a atual onda de extinção que nosso planeta passa, a chamada Sexta Extinção.

Este estudo também incluiu: Marcos Moléon, Pedro Jordano, Mathias M. Pires, Paulo R. Guimarães Jr., Thomas Pape, Elizabeth Nichols, Dennis Hansen, Jens M. Olesen, Michael Munk, Jacqueline S. de Mattos, Andreas H. Schweiger, Norman Owen-Smith, Christopher N. Johnson, Robert J. Marquis and Jens-Christian Svenning.

Contato:
Mauro Galetti
mgaletti@rc.unesp.br
Departamento de Ecologia
Instituto de Biociências
Unesp de Rio Claro

Link para o artigo: http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/brv.12374/full

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Nova espécie de serpente sobrevive a incêndio

06 de outubro de 2017

Agência FAPESP – A revista alemã Salamandra publicou em agosto artigo em que o pesquisador Francisco Luis Franco, do Laboratório Especial de Coleções Zoológicas do Instituto Butantan, descreve uma nova espécie de serpente, a Thamnodynaste Phoenix.
O gênero Thamnodynaste é composto atualmente por 19 espécies de cobras vivíparas (que colocam ovos) e opistóglifas (cujos dentes inoculadores de peçonha se encontram na parte posterior do maxilar superior).




 Exemplar de Thamnodynaste Phoenix, descrita em artigo na revista Salamandra, foi recuperada após incêndio que destruiu maior parte da coleção herpetológica do ´ (foto: Cemafauna Caatinga)

A serpente estudada foi doada pelo Centro de Conservação e Manejo de Fauna da Caatinga (Cemafauna Caatinga) ao Instituto Butantan. Em março de 2010, o Instituto sofreu um grave incêndio que destruiu 90% da Coleção Herpetológica “Alphonse Richard Hoge”, atingindo grande parte de seu material biológico.

Foram resgatados somente alguns espécimes, incluindo dois espécimes em depósito da Thamnodynaste Phoenix. Daí o nome da espécie, uma alusão à ave mitológica que morre em combustão e renasce das próprias cinzas.

Segundo o Cemafauna Caatinga, a nova espécie hemipeniana se distingue de todos os seus congêneres por uma combinação única de caracteres, incluindo 19 linhas dorsais de escamas lisas no meio do corpo, o menor número de linhas sob a cauda no gênero e uma morfologia e padrão de coloração distintos.

A Thamnodynaste Phoenix tem ampla ocorrência nas áreas abertas do semiárido nordestino. O município de Petrolina, interior de Pernambuco, especificamente o Campus de Ciências Agrárias da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) ficou designado como a localidade da espécie.

O artigo A new species of Thamnodynastes from the open áreas of central and northeastern Brazil (Serpentes: Dipsadidae: Tachymenini), de Francisco L. Franco, Vivian C. Trevine, Giovanna G. Montingelli e Hussam Zaher, pode ser lido em https://goo.gl/1fP1vr.
Maior inventário sobre mamíferos terrestres da Mata Atlântica
Material foi produzido com armadilhas fotográficas
 
Assessoria de Comunicação e Imprensa
 
06/10/2017
 
As fotos capturadas por meio de câmeras escondidas na floresta muitas vezes rendem cenas interessantes como o aparecimento de um animal raro ou ainda nascimento de uma espécie nunca antes registrado, situações que dificilmente seriam capturadas com a presença de um ser humano na cena. Consideradas um grande avanço no monitoramento de mamíferos terrestres em ecossistemas ricos em biodiversidade, as armadilhas fotográficas (camera trap) surgiram para facilitar os estudos científicos em áreas florestais mais fechadas, ajudando pesquisadores na compreensão sobre o comportamento da fauna e no levantamento sobre a presença de espécies em determinadas áreas. Por essa razão, têm sido largamente utilizadas por vários projetos de pesquisa para conservação.

Inspirados na capacidade das câmeras em revelar dados importantes para a ciência, um grupo de pesquisadores decidiu organizar as informações resultantes de 170 pesquisas com mamíferos terrestres de médio a grande porte. O resultado: o maior inventário de mamíferos terrestres da Mata Atlântica com base em cameras trap. O estudo foi publicado dia 31 de agosto no formato de datapaper artigo na renomada revista Ecology, com a participação de 56 autores, entre eles, o pesquisador do IPÊ e doutorando do Departamento de Ecologia da Unesp – Rio Claro Fernando Lima, que liderou o levantamento.

"Esse estudo é um compilado dos esforços de pesquisa de dezenas de profissionais que se dedicam à conservação desses mamíferos na Mata Atlântica. Não fazia sentido informações tão ricas e de tanta qualidade ficarem espalhadas e desorganizadas. Em conjunto, elas podem representar informações mais robustas, que darão suporte a estratégias de conservação de diversas espécies", afirma Fernando. 

O trabalho é parte de uma grande iniciativa elaborada pelo Prof. Dr. Mauro Galetti (LABIC-Unesp) e Prof. Dr. Milton Ribeiro (LEEC-Unesp): o ATLANTIC-DATASETS. Esta iniciativa visa sistematizar e disponibilizar grandes bancos de dados sobre a biodiversidade na Floresta Atlântica para que possam ser utilizados pela comunidade acadêmica, políticas públicas e esforços conservacionistas.

Para o levantamento, foram utilizadas informações de armadilhas fotográficas espalhadas por 144 áreas, abrangendo seis tipos de vegetação de Mata Atlântica (Brasil e Argentina) e sobre a composição e riqueza das espécies. O conjunto de dados completo compreende 53.438 registros independentes de 83 espécies de mamíferos, e também inclui 10 espécies de marsupiais, 15 de roedores, 20 de carnívoros, 8 de ungulados e 6 de tatus. De acordo com o levantamento, apenas seis espécies ocorreram em mais de 50% das áreas: o cão doméstico (Canis familiaris), o cachorro do mato (Cerdocyon thous), a irara (Eira barbara), o quati (Nasua nasua), o mão-pelada (Procyon cancrivorus) e o tatu-galinha (Dasypus novemcinctus). A informação contida neste conjunto de dados pode ser usada para entender padrões macroecológicos da biodiversidade, comunidade e estrutura populacional, mas também para avaliar as consequências ecológicas da fragmentação, defaunação e interações tróficas.

Assista aqui ao video de divulgação do trabalho.

Clique aqui e veja um mapa interativo com registros de câmeras trap no interior de São Paulo.

Clique aqui e entenda a história e como funcionam as armadilhas fotográficas



Contato do pesquisador
Fernando Lima
pardalismitis@gmail.com(19) 97121-8907

(19) 3557-5350

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Hominídeo da África do Sul é muito mais novo do que se pensava

Cientistas se surpreendem com datação de 'Homo naledi', descoberto em 2013; fósseis têm cerca de 280 mil anos, dez vezes menos que o estimado com base em seus traços primitivos

 
SÃO PAULO - Depois de muita dificuldade, um grupo de cientistas finalmente realizou a datação de fósseis do Homo naledi, uma espécie extinta do gênero Homo, linhagem que culminou com o aparecimento dos humanos modernos. O resultado foi surpreendente: os fósseis têm entre 335 mil e 236 mil anos e, portanto, são pelo menos 2 milhões de anos mais novos do que indicavam as estimativas anteriores dos pesquisadores.
Em 2013, os fósseis do Homo naledi - mais de 1550 fragmentos de 15 indivíduos - foram descobertos na caverna Rising Star, na África do Sul. Em agosto de 2015, cientistas os descreveram pela primeira vez. 
Obter a datação dos espécimes era uma tarefa extremamente difícil, mas, por conta de diveras características primitivas, os pesquisadores acreditavam que eles haviam vivido há cerca de 2,5 milhões de anos - um período intermediário entre os últimos Australopithecus e os mais antigos membros do gênero Homo, como o Homo habilis.

Agora, em um novo estudo publicado nesta terça-feira, 9, na revista científica eLife, os pesquisadores finalmente revelaram que os espécimes de Homo naledi descobertos na caverna viveram há no máximo 335 mil anos atrás.
Segundo os autores, isso coloca o hominídeo - que pode ter sido extinto bem mais tarde - como provável contemporâneo do Homo sapiens, que surgiu há cerca de 200 mil anos. 
De acordo com os pesquisadores, é a primeira vez que se tem evidências de que uma outra espécie de hominídeo conviveu lado a lado com os humanos na África, onde surgiu o gênero. O Homo neanderthalensis chegou a conviver com o Homo sapiens, mas bem mais tarde, na Europa e na Ásia ocidental.
Neo
Crânio de Neo, um dos três esqueletos de 'Homo naledi' encontrados na Câmara Lesedi, uma nova galeria descoberta  na caverna Rising Star, na África do Sul Foto: Wits University/John Hawks
Além de descrever a difícil tarefa de datação dos fósseis, o estudo revela que a caverna Rising Star é na realidade um sistema de cavernas maior do que se pensava - e que ali foi descoberta uma nova galeria com mais os fósseis de três novos indivíduos da espécie Homo naledi - um deles de uma criança.
Um dos fósseis de adultos encontrados na nova câmara da caverna - batizado de Neo - está excepcionalmente completo, de acordo com os autores do estudo, que foram liderados pelo antropólogo John Hawks, da Universidade de Wisconsin-Madison (Estados Unidos) e pelo paleoantropólogo Lee Berger, da Univesidade Witwatersrand (África do Sul).
A nova galeria foi batizada de Câmara Lesedi e fica a cerca de 100 metros da Câmara Dinaledi, onde haviam sido encontrados os fósseis de 15 indivíduos em 2013. O acesso à nova câmara é extremamente difícil: para escavá-la, os paleontólogos precisaram rastejar, escalar e se espremer em túneis claustrofóbicos e escuros.

Segundo Hawks, o fato de ter encontrado mais indivíduos em uma câmara de difícil acesso leva a crer que o Homo naledi tenha escondido seus mortos - um comportamento surpreendente que sugere grande inteligência e, possivelmente, indica as primeiras centelhas de uma cultura.
"Isso provavelmente dá mais peso à hipótese de que o Homo naledi usava locais escuros e remotos para esconder seus mortos. As chances de algo semelhante ter ocorrido mais de uma vez por acaso são mínimas", disse Hawks.
De acordo com o estudo, estima-se que a criança encontrada entre os três novos espécimes de Homo naledi tenha morrido com menos de cinco anos de idade. Ela é representada por ossos da cabeça e do corpo. Um dos adultos foi identificado apenas por uma mandíbula e pelos ossos das pernas.
O esqueleto do terceiro indivíduo, apelidado de Neo ("dádiva", no idioma Sesotho), é notavelmente completo. O crânio foi totalmente reconstruído, fornecendo um retrato muito mais completo da espécie, segundo os pesquisadores.

"O esqueleto de Neo é um dos mais completos descobertos até hoje. Tecnicamente, é mais completo que a famosa Lucy (fóssil de Australopithecus afarensis, que viveu há 3,1 milhões de anos e foi desenterrada na Etiópia em 1974), considerando a preservação do crânio e da mandíbula", disse Berger.

O crânio do novo esqueleto contém a maior parte da face, incluindo os delicados ossos da região interna dos olhos e do nariz, segundo Hawks, que é especialista em hominídeos primitivos.
"Alguns dos novos ossos adicionam detalhes novos em relação a tudo o que já vimos antes. O esqueleto de Neo tem uma clavícula completa e um fêmur quase completo. Isso ajuda a confirmar o que sabíamos sobre o tamanho e a estatura do Homo naledi: que ele caminhava de forma tão eficiente como subia em árvores. As vértebras estão maravilhosamente preservadas e são singulares - elas têm um formato que só havíamos encontrado em Neanderthais", explicou Hawks.
Combinados, os esqueletos do Homo naledi dão à ciência o registro mais completo até hoje de uma espécie de hominídeo, excetuando-se o Homo sapiens e o Homo neanderthalensis.
"Com os novos fósseis da Câmara Lesedi, agora temos cerca de 2 mil fragmentos do Homo naledi, representando os esqueletos de pelo menos 18 indivíduos, no total. Há mais espécimes de Homo naledi do que de qualquer outra espécie extinta de hominídeos, exceto os Neanderthais", afirmou Hawks.
A ideia de que o Homo naledi escondia os cadáveres de seus mortos em câmaras subterrâneas de difícil acesso só tem paralelo entre os Neanderthais, segundo o cientista. Em uma caverna profunda da Espanha, conhecida como Sima de los Huesos, há evidências de que, há 400 mil anos, os Neanderthais escondiam os corpos de seus companheiros mortos.
"O que há de mais provocativo em relação ao Homo naledi é que os cérebros dessas criaturas tinham um terço do tamanho dos nossos. Eles claramente não são humanos, embora pareçam compartilhar um aspecto muito profundo do nosso comportamento, que é um cuidado com outros indivíduos, que continua a após a morte deles. Parece-me que estamos começando a ver as raízes mais profundas das práticas culturais humanas", afirmou Hawks.
Acesso complicado. Membro da equipe que descobriu os primeiros fósseis do Homo naledi na caverna Rising Star, a paleoantropóloga canadanse Marina Elliott, da Univesidade Witwatersrand,  fez parte também da equipe de exploradores que descobriu a Câmara Lesedi.
"Acessar a Câmara Lesedi é ainda ligeiramente mais fácil que chegar à Câmara Dinaledi. Depois de se espremer por uma passagem de cerca de 25 centímetros, você tem que subir e descer por passagens verticais antes de chegar à câmara. Embora o acesso seja um pouco mais fácil, trabalhar na Câmara Lesedi é mais difícil, por causa dos apertados espaços ali dentro", contou Marina.
Para Hawks, dizer que entrar na Câmara Lesedi é "um pouco mais fácil" que penetrar na Câmara Dinaledi é algo muito relativo. Segundo ele, Lee Berger ficou preso na Câmara Lesedi em 2014 e precisou ser puxado para fora com cordas atadas a seus pulsos. 
"Eu nunca entrei em nenhuma das duas câmaras - e nem vou entrar. Eu assisti quando Lee ficou entalado na passagem por quase uma hora, tentando sair de um estreito gargalo subterrâneo na Câmara Lesedi", contou Hawks. 
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Reconstrução de hominídeos

Datação difícil. Além da dificuldade para trabalhar nas cavernas, os cientistas tiveram que superar grandes desafios para fazer a datação dos espécimes ali encontrados. A equipe utilizou uma combinação de técnicas de datação por luminescência opticamente estimulada com Urânio e Tório, com técnicas de análise paleomagnética para estabelecer como os sedimentos se relacionam à escala temporal geológica na Câmara Dinaledi.
Para conseguir uma avaliação final, eles realizaram a datação direta dos dentes do Homo naledi, utilizando uma combinação de datação por séries radioativas de urânio (U-series) e datação por ressonância de spin eletrônico (ESR).
"É claro que ficamos surpresos com uma datação tão recente, mas nós percebemos que todas as formações geológicas na câmara eram novas. Os resultados de U-series e de ESR acabaram sendo menos surpreendentes no fim do trabalho", contou Eric Roberts, da Universidade James Cook (Austrália) e da Universidade Witwatersrand, um dos poucos geólogos que já entraram na Câmara Dinaledi - a rampa de entrada tem uma passagem de apenas 18 centímetros de largura.