quarta-feira, 21 de junho de 2017

Hidden morphological diversity among early tetrapods


Phylogenetic analysis of early tetrapod evolution has resulted in a consensus across diverse data sets1, 2, 3 in which the tetrapod stem group is a relatively homogenous collection of medium- to large-sized animals showing a progressive loss of ‘fish’ characters as they become increasingly terrestrial4, 5, whereas the crown group demonstrates marked morphological diversity and disparity6. The oldest fossil attributed to the tetrapod crown group is the highly specialized aïstopod Lethiscus stocki7, 8, which shows a small size, extreme axial elongation, loss of limbs, spool-shaped vertebral centra, and a skull with reduced centres of ossification, in common with an otherwise disparate group of small animals known as lepospondyls. Here we use micro-computed tomography of the only known specimen of Lethiscus to provide new information that strongly challenges this consensus.

Digital dissection reveals extremely primitive cranial morphology, including a spiracular notch, a large remnant of the notochord within the braincase, an open ventral cranial fissure, an anteriorly restricted parasphenoid element, and Meckelian ossifications. The braincase is elongate and lies atop a dorsally projecting septum of the parasphenoid bone, similar to stem tetrapods such as embolomeres. This morphology is consistent in a second aïstopod, Coloraderpeton, although the details differ. Phylogenetic analysis, including critical new braincase data, places aïstopods deep on the tetrapod stem, whereas another major lepospondyl lineage is displaced into the amniotes. These results show that stem group tetrapods were much more diverse in their body plans than previously thought. Our study requires a change in commonly used calibration dates for molecular analyses, and emphasizes the importance of character sampling for early tetrapod evolutionary relationships.

Tradução


Diversidade morfológica escondida entre os tetrápodes iniciais
 A análise filogenética da evolução precoce do tetrapodo resultou em um consenso em diversos conjuntos de dados1, 2, 3 em que o grupo do tetrápodo é uma coleção relativamente homogênea de animais de tamanho médio a grande que mostram uma perda progressiva de personagens de "peixe" à medida que se tornam Cada vez mais terrestre4, 5, enquanto o grupo da coroa demonstra uma marcada diversidade morfológica e disparidade6.

O fóssil mais antigo atribuído ao grupo da coroa tetrapod é o altamente especializado aïstopod Lethiscus stocki7, 8, que mostra um tamanho pequeno, alongamento axial extremo, perda de membros, centra vertebral em forma de bobina e um crânio com centros reduzidos de ossificação, em comum com um grupo diferente de animais pequenos, conhecido como lepospondyls. Aqui, usamos a tomografia computadorizada micro do único espécime conhecido de Lethiscus para fornecer novas informações que desafiam fortemente esse consenso. A dissecção digital revela uma morfologia craniana extremamente primitiva, incluindo um entalhe espiracular, um grande remanescente da notocórdia dentro da cicatrização, uma fissura craniana ventral aberta, um elemento parasfenoide anteriormente restringido e ossificações Meckelianas.

A cicatrização é alongada e situa-se sobre um septo dorsalmente projetado do osso parasfenoide, semelhante aos tetrápodes de caule, como os embolomeres. Esta morfologia é consistente em um segundo aïstopod, Coloraderpeton, embora os detalhes sejam diferentes. A análise filogenética, incluindo os novos dados críticos sobre a cicatrização, coloca os aïstopods profundamente no tetrax, enquanto que outra linhagem lepospondyl principal é deslocada para os amniotes. Esses resultados mostram que os tetrápodes do grupo do caule eram muito mais diversos nos planos corporais do que se pensava anteriormente. Nosso estudo requer uma mudança nas datas de calibração comumente utilizadas para análises moleculares e enfatiza a importância da amostragem de caracteres para o relacionamento evolutivo do tetrapod precoce

Como alguns animais dormem em pé e outros em pleno voo?


  • Getty Images
    Fragatas dormem enquanto voam, seus cochilos são de cerca de cinco segundos a cada vez
    Fragatas dormem enquanto voam, seus cochilos são de cerca de cinco segundos a cada vez
Dormir por longos períodos, em uma posição confortável e em um lugar quentinho é privilégio de poucos bichos. Muitos dormem em pé ou voando, com um olho aberto e outro fechado, passam longos períodos acordados ou apenas tiram pequenos cochilos durante o dia.

Esse tipo de sono, pouco tranquilo para os padrões humanos, acontece porque tais animais, na maioria das vezes, vivem em ambientes cercados de predadores (o que requer atenção redobrada) ou precisam voar por milhares de quilômetros, como é o caso de algumas aves, como as fragatas. O jeito, então, é se adaptar.


Paul Ellis/AFP
Girafa dorme cerca de duas horas por dia

Dormindo em pé

As girafas, por exemplo, estão no time dos animais que dormem em pé. Seu período de sono não passa de duas horas por dia, divididos em cochilos de 20 minutos em média. A "relaxadinha", na maioria das vezes, acontece em pé justamente para facilitar a fuga caso algum predador apareça.
Os cavalos e zebras também têm o costume de dormir em pé na maior parte do tempo. Isso é possível por causa de ligamentos especiais nas pernas que fixam as articulações, impedindo de dobrá-las durante o sono, garantindo um baixo gasto de energia.

Daniel Fucs / Flickr / CC BY-SA 2.0

Meio acordado, meio dormindo

Alguns animais conseguem dormir em pé por ter um comportamento de sono diferente, conhecido como "descanso unilateral do cérebro". Como o próprio nome já diz, enquanto o corpo descansa, uma parte do cérebro continua ativa. É isso que mantém, por exemplo, as aves equilibradas em galhos ou fios enquanto dormem.

O descanso unilateral do cérebro é observado em outras espécies, como golfinhos e leões marinhos e outros répteis, como o crocodilo, que são capazes de dormir com os olhos abertos para fugir de predadores e também para não se perderem do grupo.

Não param nem para dormir

Agora, como alguns pássaros com comportamento migratório, como os albatrozes e fragatas, conseguem dormir se passam tanto tempo voando? No caso dos albatrozes, as viagens duram até seis meses.

Uma pesquisa feita por cientistas alemães do Instituto Max Planck de Ornitologia na Baviera, Alemanha, em 2016, concluiu que as fragatas conseguem dormir mesmo durante o voo. Os cochilos não passam de cinco segundos por vez e totalizam pouco mais de 40 minutos por dia.
Em alguns momentos, elas dormem com um hemisfério cerebral acordado e em outros dormem nos dois hemisférios. Além do sono unilateral, as fragatas se beneficiam das correntes de ar para planar, o que garante um voo com um gasto pequeno de energia e a possibilidade de tirar tais cochilos.

Marcelo Krause/Mares Tropicais

E como os peixes dormem?

Sem pálpebras, esses bichos não têm como fechar os olhos. Assim, ao descansar, os peixes permanecem aparentemente imóveis com movimentos muito lentos das nadadeiras.
Inclusive os tubarões, que antes eram conhecidos como animais que nunca dormiam, agora já se sabe que eles têm períodos de descanso.

Mas todos os animais dormem?

Até agora, os cientistas sabem que o sono é responsável não só por reparar o cansaço do corpo, mas também para ajudar na organização das atividades neuronais, entre elas o rearranjo da memória. A partir daí, deduzem que todos os animais passam por períodos de descanso.

Em insetos e crustáceos, os métodos de sono são pouco conhecidos, mas sabe-se que eles apresentam momentos de baixo ou nulo movimento, normalmente associados ao comportamento de reclusão. As moscas, por exemplo, passam por ciclos de sono de 3 horas, em média.
Especialistas consultados: Sérgio N. Stampar, professor do Laboratório de Evolução e Diversidade Aquática da Unesp; Carlos Alberts, professor de zoologia e comportamento animal da Unesp
Como alguns animais dormem em pé e outros em pleno voo? 15 ... - Veja mais em https://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/redacao/2017/06/20/clique-ciencia-como-alguns-animais-dormem-em-pe-e-outros-em-pleno-voo.htm?cmpid=copiaecola
Como alguns animais dormem em pé e outros em pleno voo? 15 Cintia Baio Colaboração para o UOL 20/06/201704h00 Ouvir texto 0:00 Imprimir Comunicar erro Getty Images Fragatas dormem enquanto voam, seus cochilo... - Veja mais em https://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/redacao/2017/06/20/clique-ciencia-como-alguns-animais-dormem-em-pe-e-outros-em-pleno-voo.htm?cmpid=copiaecola
Como alguns animais dormem em pé e outros em pleno voo? 15 Cintia Baio Colaboração para o UOL 20/06/201704h00 Ouvir texto 0:00 Imprimir Comunicar erro Getty Images Fragatas dormem enquanto voam, seus cochilo... - Veja mais em https://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/redacao/2017/06/20/clique-ciencia-como-alguns-animais-dormem-em-pe-e-outros-em-pleno-voo.htm?cmpid=copiaecola

terça-feira, 20 de junho de 2017

O fungo que ameaça acabar com os sapos
Pesquisa é desenvolvida na Unesp
Millena Grigoleti - Diário da Região
19/06/2017
Pesquisadora Alba Navarro, da Unesp, com girinos

Um fungo está ameaçando a sobrevivência de sapos, rãs, pererecas e todos os outros anfíbios brasileiros. O Batrachochytrium dendrobatidis (Bd) se alimenta das células queratinizadas do animal e causa uma infecção, conhecida mundialmente como quitridiomicose

As células são as epiteliais, da pele, que guardam a queratina, uma proteína. Detectado pela primeira vez no Brasil em 2004, o fungo ainda é um desconhecido até mesmo para biólogos e herpetologistas (estudiosos que se dedicam a anfíbios e répteis). Isso motivou a pesquisadora espanhola Alba Navarro, que é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Biologia Animal do Ibilce, Câmpus da Unesp em Rio Preto.

Ela criou o projeto Quitri Brasil (www.quitribrasil.com), que fornece recurso para gestores, voluntários ambientais, pesquisadores e cidadãos, com a intenção de facilitar a divulgação de conhecimento sobre o fungo. “Um dia pensei: se para pesquisadores da própria área o fungo não é conhecido, imagina para o resto da sociedade. Além disso, sinto que a divulgação científica é essencial para que os projetos sobre conservação atinjam seus objetivos”, conta. O site é atualizado com base em informações científicas sobre o fungo. Dentre outros dados, ele mostra os locais em que o Bd foi encontrado e a temperatura média de cada lugar.

Segundo Alba, a quitridiomicose tem se tornado uma das ameaças de maior impacto nas populações de anfíbios. “Ela está envolvida no declínio de muitas populações e na extinção de espécies em várias regiões do planeta”, afirma. O fungo não tem preferência por um grupo de anfíbios específico. Já foram encontradas mais de 700 diferentes espécies de salamandras, sapos, pererecas, rãs e cecílias infectadas pelo fungo em várias regiões do planeta. Somente no Brasil, são pelo menos 160 espécies de anfíbios contaminados. “É esperável que esse número aumente com futuros estudos”, alerta Alba.

Embora a região de Rio Preto não tenha sido impactada, pois é muito quente para que o fungo consiga viver, o Bd foi encontrado em 21 estados brasileiros, incluindo São Paulo, e em todos os biomas: Mata Atlântica, Amazônia, Pampa, Pantanal, Caatinga e Cerrado. Segundo a pesquisadora, é difícil prever se o fungo vai impactar no futuro os bichos da região. “São vários os fatores (abióticos e bióticos) que afetam na presença do fungo, por isso não é fácil saber o que poderia acontecer a longo prazo.”



Arte - Sapos - 18062017

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Riscos

Os anfíbios ocupam diferentes posições na cadeia alimentar, desde consumidores de matéria orgânica até predadores. “Se começam a desaparecer do meio a uma velocidade tão rápida como está sendo evidenciado nos últimos estudos iríamos chegar ao ponto que toda a cadeia cairia”, afirma Alba. Ela destaca que todas as espécies são parte de um grande sistema. “Dentro do qual existe uma dependência grande entre elas. Se um grupo de organismos desaparece, o resto será afetado.” Os humanos têm uma temperatura corporal de aproximadamente 36 graus, o que impede o fungo de se desenvolver, portanto ele não é perigoso para a espécie.

Comércio da carne dificulta controle

Os anfíbios são contaminados pela chegada do fungo através da água ou pelo contato direto entre os indivíduos. Para evitar a contaminação, seriam necessárias algumas ações. A primeira é evitar a dispersão do fungo para outras regiões. “Mas o grande comércio de anfíbios para consumo, inclusive mundial, não está tornando isso fácil. Os controles alfandegários não estão conseguindo detectar o fungo nos anfíbios vivos que são transportados de um país para outro, principalmente porque as espécies mais comercializadas não apresentam sintomas”, fala a doutoranda Alba Navarro.

Uma das formas usadas para mitigação do fungo é o tratamento dos animais infectados. O Bd, segundo a pesquisadora, é suscetível a altas temperaturas, sal e uma ampla gama de antibióticos e fungicidas. Por outro lado, testes apontam que os anfíbios podem sofrer danos quando submetidos a antibióticos. Outra estratégia é a bioterapia. É adicionada uma cepa bacteriana ou um grupo delas ao habitat ou diretamente na pele do anfíbio, com o objetivo de diminuir sua suscetibilidade à doença. “São vários os estudos que tentam explicar como o fungo chega a causar a morte. 

Alguns trabalhos concluíram que a hiperplasia epidérmica (aumento do número de células epidérmicas) pode prejudicar seriamente o equilíbrio de eletrólitos e a troca gasosa do anfíbio”, comenta a doutoranda. Ela aponta que um outro estudo mostrou que o fungo produz micotoxinas, que são metabólitos (substâncias) secundários tóxicos produzidos por determinados fungos. “Que bloqueiam a resposta imune do anfíbio, inibindo a proliferação de linfócitos e podendo causar morte celular, causando assim aumento de infecções no anfíbio.”

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Ambientes marinhos e de água doce no Brasil sofrem com poluição por microplásticos

07 de junho de 2017


 Elton Alisson | Agência FAPESP – Além de garrafas PET, sacolas e embalagens de alimentos, entre outros objetos, os ambientes marinhos e de água doce em todo o mundo têm sido contaminados com minúsculos detritos, conhecidos como microplásticos, com tamanho menor que 5 milímetros, como fibras e pequenos resíduos gerados pela fragmentação de grandes pedaços de plástico.
Ambientes marinhos e de água doce no Brasil sofrem com poluição por microplásticos Minúsculos detritos de plástico estão presentes em larga escala em praias e rios no país, têm sido ingeridos por peixes e pequenos organismos e causado efeitos tóxicos em moluscos, apontam estudos (foto: Pryscilla Resaffe) 
 

Um grupo de pesquisadores do Departamento de Ciências do Mar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), campus da Baixada Santista, em colaboração com colegas de outras universidades e instituições de pesquisa do Brasil e do exterior, constatou que esses microplásticos também estão presentes em larga escala em praias e rios no Brasil.
Os pesquisadores também observaram que algumas espécies de peixes de água doce e de pequenos organismos marinhos ingerem frequentemente esses microplásticos, e que os contaminantes liberados por esses poluentes causam efeitos tóxicos para espécies de moluscos, como os mexilhões marrons (Perna perna).
Os resultados dos estudos, coordenados por Luiz Felipe Mendes de Gusmão com apoio da FAPESP, foram publicados nas revistas Environmental Pollution e Water Research.

“Temos observado a poluição generalizada por microplásticos tanto de ecossistemas marinhos como de ambientes de água doce”, disse  Gusmão, professor da Unifesp da Baixada Santista e coordenador das pesquisas, à Agência FAPESP.

De acordo com o pesquisador, enquanto resíduos de plástico grandes, como sacolas, tampinhas e garrafas PET, são relativamente fáceis de serem vistos e retirados da areia de uma praia, os microplásticos são quase impossíveis de serem removidos por serem muito pequenos e praticamente imperceptíveis a olho nu. Por isso, tem se observado um aumento do acúmulo desse tipo de poluente em praias de todo o mundo, apontou

“Os microplásticos que entram em um ambiente de água doce são transportados, via os rios, até os oceanos. E quando chegam aos oceanos esses fragmentos de plástico são transportados por correntes marinhas e tendem a ficar em suspensão na coluna d’água ou encalharem em praias”, explicou.
Uma vez que essas partículas de plástico têm sido encontradas de forma generalizada em ambientes marinhos e de água doce em todo o mundo, o pesquisador, em colaboração com colegas no Brasil e no exterior, começou a monitorar nos últimos anos a presença desses poluentes em ambientes aquáticos no país.

Os primeiros locais escolhidos foram as praias de Itaquidantuva e de Paranapuã, situadas na reserva ambiental de Xixová-Japuí, localizada entre os municípios da Praia Grande e São Vicente, na baixada santista, em São Paulo.

Durante um ano os pesquisadores coletaram semanalmente nas áreas das duas praias pellets de plástico – grânulos de plástico, com diâmetro inferior a 10 milímetros, utilizados na fabricação de produtos plásticos.
Os resultados das análises indicaram uma altíssima concentração desse tipo de microplástico. “Observamos pellets de plástico, de diferentes cores e tamanhos, se acumulando na praia de Paranapuã o ano inteiro. Em alguns momentos, as praias ficavam cheias desses microplásticos, e em outros momentos eles sumiam temporariamente em razão de fatores como a circulação oceânica, as ondas e o regime de ventos”, afirmou.

Efeitos tóxicos

De acordo com o pesquisador, algumas características que potencializam o efeito nocivo do plástico em ambientes marinhos e de água doce são que a maioria dos polímeros comuns – como o polipropileno e o poliestireno – degradam muito lentamente e são leves – o que permite serem transportados com facilidade pelas correntes oceânicas e permanecerem por muito tempo no ambiente marinho

Ao permanecerem por longo tempo no ambiente, as moléculas de contaminantes presentes em um meio aquático, como metais pesados e pesticidas, começam a aderir à superfície dos plásticos e podem atingir concentrações extremamente altas. Além disso, esses resíduos de plástico também possuem aditivos presentes na composição do material, como corantes, dispersantes e protetores contra raios ultravioleta.

Com o passar do tempo, os fragmentos de plástico tendem a liberar esses contaminantes no ambiente aquático, explicou Gusmão.

“Se os microplásticos forem ingeridos pela fauna marinha, os poluentes aderidos na sua superfície podem ser liberados no tubo digestivo do animal, o que pode causar efeitos tóxicos”, ressaltou.
A fim de avaliar a potencial toxicidade para organismos marinhos dos contaminantes liberados por microplásticos, os pesquisadores da Unifesp, em colaboração com colegas da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Santa Cecília, realizaram experimentos em que expuseram larvas de mexilhões marrons a amostras de pellets de plástico que recolheram nas praias de Itaquidantuva e de Paranapuã e também a pellets virgens.
Os resultados das análises indicaram que os contaminantes liberados pelos pellets de plástico afetaram o desenvolvimento embrionário dos moluscos.

As larvas expostas aos pellets de plástico virgens apresentaram alta taxa de mortalidade, enquanto nenhuma das larvas expostas aos pellets de plástico recolhidos das duas praias conseguiu se desenvolver.

As observações sugeriram que os contaminantes aderidos à superfície dos pellets de plástico recolhidos das praias foram os responsáveis pelos efeitos tóxicos no desenvolvimento das larvas expostas aos microplásticos, enquanto a morte das larvas expostas aos pellets virgens foi devido provavelmente aos aditivos químicos do próprio material.
“Somente a exposição aos microplásticos, sem que ingerissem, fez com que as larvas morressem”, disse Gusmão.

A poluição marítima também mobiliza a ONU Meio Ambiente que lança nesta quarta-feira (07/06), no Brasil, a campanha “Mares Limpos”, que durante cinco anos terá ações para conter a maré de plásticos que invade os oceanos. O evento acontece no AquaRio, no Rio de Janeiro, como parte das comemorações do Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado no dia 5 de junho.

No Brasil, a campanha trabalhará na mobilização de governos, parlamentares, sociedade civil e setor privado para fortalecer ações que reduzam a contribuição do país ao problema global dos plásticos que acabam nos mares. Os esforços da campanha se concentrarão em buscar uma drástica redução no uso de plásticos descartáveis e o banimento de microesferas de plástico em cosméticos e produtos de higiene, além de apoiar a elaboração do Plano Nacional de Combate ao Lixo no Mar, capitaneado pelo Ministério do Meio Ambiente.

Ingestão

Os pesquisadores da Unifesp também avaliaram se pequenos organismos marinhos são capazes de ingerir microplásticos encontrados em seus habitats.

Em um estudo realizado em colaboração com colegas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), das Universidades Federais do Rio Grande (FURG) e do Paraná (UFPR), além da University of Copenhagen, da Dinamarca, e do Instituto de Estudos Ecossistêmicos, da Itália, eles examinaram o conteúdo intestinal da meiofauna (animais que medem menos de 1 milímetro e vivem enterrados entre grãos de areia das praias) de seis praias situadas no Brasil, na Itália e nas Ilhas Canárias, na Espanha.

As análises laboratoriais revelaram que três espécies comuns de anelídeos, do gênero Saccocirrus, tinham microfibras (fibras provenientes de cordas e fios de pesca e de tecidos de roupas, entre outras) em seus intestinos, mas sem apresentar lesões físicas aparentes.
“Constatamos que mesmo organismos marinhos desse porte podem interagir com microplásticos”, disse Gusmão.
Em outro estudo, os pesquisadores da Unifesp, em colaboração com colegas das Universidades Federais do Rio Grande do Norte (UFRN) e Rural de Pernambuco (UFRPE), avaliaram a ingestão de microplásticos por um peixe de água doce comum e muito consumido em regiões semiáridas na América do Sul: o caborja (Hoplosternum littorale).

Para realizar o estudo, eles analisaram o intestino de espécimes do peixe de um rio intermitente que passa pela cidade de Serra Talhada, no interior de Pernambuco, capturadas por pescadores da região.
Os resultados das análises indicaram que 83% dos peixes tinham detritos plásticos em seus intestinos – a maior proporção relatada para uma espécie de peixe de água doce no mundo até o momento.
A maioria dos detritos plásticos (88,6%) extraídos do estômago dos peixes era microplásticos com tamanho de até 5 milímetros, e as fibras foram o tipo de microplástico mais frequente (46,6%) ingerido pelos animais.
Os pesquisadores também observaram que os peixes consumiam mais microplásticos nas regiões mais urbanizadas do rio.

“Hoje tem sido muito discutido como diminuir os impactos causados por resíduos de plásticos grandes em ambientes e organismos marinhos e de água doce, mas a poluição por microplásticos também representa um problema muito sério”, disse Gusmão.
“É preciso repensar a cadeia de produção do plástico, que é um produto importante para a sociedade, de modo a reduzir a chance dele chegar ao ambiente”, avaliou.
O artigo “Leachate from microplastics impairs larval development in brown mussels’ (doi:10.1016/j.watres.2016.10.016), de Gusmão e outros, pode ser lido por assinantes da Water Research em www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0043135416307667.

O artigo “In situ ingestion of microfibres by meiofauna from sandy beaches” (doi: 10.1016/j.envpol.2016.06.015) pode ser lido por assinantes da revista Environmental Pollution em www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0269749116305036.

E o artigo “Microplastics ingestion by a common tropical freshwater fishing resource” (doi: 10.1016/j.envpol.2016.11.068) pode ser lido por assinantes da mesma revista em www.sciencedirect.com/science/article/pii/S026974911632396X.

Novo vírus em ave migratória é descoberto no Rio Grande do Sul

19 de junho de 2017

Maria Fernanda Ziegler  |  Agência FAPESP – Pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) descobriram um novo vírus em ave migratória. O achado é tão raro que pode até ser considerado um golpe de sorte. Sobretudo quando o vírus em questão é o assim nomeado paramixovírus aviário 15, da mesma família do paramixovírus aviário 1 causador da doença de Newcastle, que não representa riscos para humanos, mas pode ser letal em aves.












Paramixovírus aviário do tipo 15 provavelmente não representa riscos a humanos e aves. Análise genética preliminar mostra que ele está mais próximo de vírus encontrados na América Latina (foto: maçarico-de-sobre-branco [Calidris fuscicollis] / divulgação)

“Fazemos monitoramento ativo de vírus em aves migratórias. Eu buscava encontrar o vírus da doença de Newcastle, um paramixovírus aviário 1, e meu colega Jansen de Araújo procurava detectar o vírus da influenza aviária para o seu projeto de pesquisa. Por fim, encontramos uma coinfecção: dois vírus, sendo que um deles era completamente desconhecido até então”, disse Luciano Matsumiya Thomazelli, pesquisador do Laboratório de Virologia Clínica e Molecular do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB-USP), à Agência FAPESP.

Desde 2005, o laboratório conta com uma equipe que vai a campo para fazer pesquisa de vigilância epidemiológica em diferentes regiões do Brasil, como parte da Rede de Diversidade Genética de Vírus (VGDN), financiada pela FAPESP, sob a coordenação do professor Edison Luiz Durigon.
O objetivo dos pesquisadores é detectar a presença de vírus da influenza aviária e da doença de Newcastle, entre outros, em aves e animais silvestres. Com isso, é feito o monitoramento e avaliação do risco de que novas cepas entrem no Brasil. As amostras coletadas pela equipe ficam estocadas em freezers com temperaturas de -80 ºC e são utilizadas para pesquisas científicas.

A nova espécie de vírus aviário foi encontrada em amostra coletada de um maçarico (Calidris fuscicollis), ave migratória capturada em abril de 2012, no Parque Nacional da Lagoa do Peixe, no Rio Grande do Sul. Ainda será preciso fazer mais estudos para saber qual o grau de ameaça do novo vírus aviário, mas pelo que se sabe até agora ele não representa risco a humanos. “ Geneticamente ele está mais próximo de vírus primeiramente descritos na América do Sul, o que nos leva a acreditar que ele possa ter se originado de nossa região mesmo”, disse Thomazelli.

Os pesquisadores seguiram o método padrão de análise das amostras. O resultado deu positivo para influenza no teste de PCR em tempo real – técnica de biologia molecular que detecta a presença do DNA/RNA procurado. Porém, quando os pesquisadores isolaram o vírus em ovos embrionados de galinhas, o resultado deu negativo para o vírus da doença de Newcastle, mas uma reação de aglutinação de hemácias indicava que se tratava de outro vírus, diferente do procurado.
“Mandamos a amostra para colaboradores no St. Jude Children’s Research Hospital, em Memphis, nos Estados Unidos, onde foi feito o sequenciamento do genoma completo do que havia em grande quantidade na amostra. Para nossa surpresa, a amostra continha coinfecção de influenza aviária e algo totalmente novo. Focamos em influenza e acabamos achando também outro vírus”, disse Thomazelli.
A descoberta foi publicada na PLOS ONE.

Novas tecnologias de identificação

Com os resultados, os pesquisadores fizeram testes biológicos de patogenicidade e confirmação dos dados. Por ser uma questão de biossegurança, eles também enviaram uma alíquota do vírus isolado para o Laboratório Nacional Agropecuário, do Ministério da Agricultura, que também realizou testes biológicos e sorológicos, confirmando que se tratava de uma nova espécie de vírus e que não representava risco.

“É um alívio, principalmente se levarmos em conta que o Brasil é o maior exportador de frango do mundo. Qualquer vírus patogênico para aves, em especial as galinhas, geraria extrema preocupação, mas não é o caso”, disse Thomazelli.

A descoberta de novos vírus continua sendo um fato raro, mas que está se tornando menos incomum por causa do sequenciamento de nova geração.

“ O vírus que descobrimos é o número 15 de paramixovírus aviário. Acabei de receber a informação de que foram encontrados mais três novos tipos, o 16, 17 e 18, que ainda nem foram publicados. Até dois anos atrás só existiam 10 paramixovírus. Isso tem aumentado bastante o conhecimento nessa área”, disse Thomazelli.

O artigo Novel avian paramyxovirus (APMV-15) isolated from a migratory bird in South America (doi: https://doi.org/10.1371/journal.pone.0177214), de Luciano Matsumiya Thomazelli, Jansen de Araújo, Thomas Fabrizio, David Walker, Dilmara Reischak, Tatiana Ometto, Carla Meneguin Barbosa, Maria Virginia Petry, Richard J. Webby e Edison Luiz Durigon, pode ser lido em: http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0177214.  

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Floresta urbana revela riqueza de aves
Pesquisa da Unesp é publicada em revista internacional
Assessoria de Comunicação e Imprensa
12/06/2017
Serra da Cantareira
 
Vinicius Tonetti, atualmente aluno de doutorado do Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências da Unesp de Rio Claro, realizou uma pesquisa inédita que revelou uma riqueza de aves surpreendente na Serra da Cantareira, região metropolitana de São Paulo.
 
Vinicius é biólogo e ornitólogo (isto é, cientista que estuda aves), e frequenta a Serra da Cantareira desde o início de sua graduação. O estudo foi desenvolvido paralelamente ao mestrado de Vinicius (Veja em: http://www.unespciencia.com.br/2017/01/ecologia-82/) e contou com a colaboração de outros cinco pesquisadores de universidades e centros de pesquisa no Brasil e exterior.

O estudo foi aceito para a publicação no periódico científico internacional Zoologia: an international journal for zoology.Foi publicado em junho. Acesse em: https://zoologia.pensoft.net/articles.php?id=13728
A pesquisa visou realizar um levantamento histórico de todas as espécies de aves com ocorrência confirmada na Serra da Cantareira. Para isso foram feitas buscas por exemplares depositados nas coleções científicas mais importantes do Brasil, Estados Unidos e Europa. Essas buscas foram somadas a um extenso levantamento bibliográfico de outros trabalhos científicos já publicados. Além disso, as espécies registradas em campo por Vinicius e colaboradores durante a última década também foram contabilizadas. Os resultados apontam que ao menos 326 espécies de aves ocorrem na região.
A Serra da Cantareira está situada principalmente em partes dos municípios de São Paulo, Guarulhos, Mairiporã e Caieiras e apresenta uma área florestal extensa (cerca de 10.000 hectares). Apesar de estar em uma das regiões mais urbanizadas do planeta, o número de espécies de aves encontrado na Serra da Cantareira é similar ao de locais situados na Serra do Mar, onde se encontra o maior remanescente contínuo de Mata Atlântica, com mais de um milhão de hectares e em bom estado de preservação. A Serra da Cantareira é considerada importante para a conservação das aves da Mata Atlântica de acordo com a BirdLife International, a maior ONG de conservação de aves no mundo, e a pesquisa desenvolvida reforça a importância da região para a conservação da biodiversidade.
Sete espécies registradas na Cantareira, como a araponga (Procnias nudicollis) e o pixoxó (Sporophila frontalis), estão ameaçadas de extinção em nível global e outras, como o macuco (Tinamus solitarius), são bastante raras em muitas regiões da Mata Atlântica devido à caça ilegal. Além disso, aves de rapina de grande porte que se alimentam de mamíferos médios, como o gavião-pega-macaco (Spizaetus tyrannus), podem ser encontradas com certa frequência na Serra da Cantareira, mesmo em áreas de floresta que fazem limite com a cidade de São Paulo. Das 326 espécies, 80 são endêmicas da Mata Atlântica, ou seja, só existem neste bioma.
A Mata Atlântica é uma das florestas tropicais mais devastadas do mundo e apresenta apenas cerca de 12% de sua cobertura de vegetação nativa. Além de ter sido severamente reduzido, os remanescentes florestais de Mata Atlântica estão bastante fragmentados e isolados uns dos outros, o que é extremamente prejudicial à biodiversidade. Grandes blocos de floresta como os presentes na Serra da Cantareira são atualmente raros na Mata Atlântica, e, além da sua importância para a conservação das aves, vale ressaltar a importância dessas florestas para os próprios seres-humanos. O sistema Cantareira abastece cerca de 9 milhões de pessoas, e suas florestas são as principais responsáveis pelo armazenamento e qualidade da água nos reservatórios. Além disso, as florestas da Cantareira contribuem para manter o clima ameno em alguns bairros da zona norte do município de São Paulo e para o bem estar geral da população.
O estudo foi aceito para a publicação no periódico científico internacional Zoologia: an international journal for zoology e estará disponível na íntegra em breve.
Sobre o pesquisador:
Vinicius Tonetti é bacharel em Ciências Biológicas (2012) pela Universidade de São Paulo e mestre (2015) em Ciências Biológicas (Zoologia) pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”; Campus de Rio Claro. Trabalhou com conservação na Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil (SAVE Brasil; BirdLife International Affiliate) e em projetos de pesquisa ornitológica em diversas regiões do país pela Seção de Aves do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZUSP). Suas áreas de interesse são ecologia e conservação de aves neotropicais. 
Fonte: http://unan.unesp.br/destaques/27579/floresta-urbana-revela-riqueza-de-aves

Projeto auxilia a conservar barbudinho, ave ameaçada de extinção
Pesquisa é publicada em periódico internacional
Assessoria de Comunicação de Imprensa
09/06/2017
Barbudinho (Phylloscartes eximius)
 
Vinicius Tonetti, orientado pelo professor Marco Pizo, do Departamento de Zoologia do Instituto de Biociências da Unesp de Rio Claro, apresentou dissertação de mestrado em que desenvolveu projeto com uma ave rara, endêmica da Mata Atlântica e ameaçada de extinção - o barbudinho (Phylloscartes eximius). Contato do pesquisador: vrtonetti@gmail.com


O trabalho visou levantar informações que pudessem auxiliar a conservação da espécie e foi desenvolvido no Parque Estadual da Cantareira. Situado na Região Metropolitana de São Paulo, o Parque protege a maior floresta urbana tropical no mundo.

Parte do estudo foi recentemente publicada em um periódico científico internacional que publica artigos de ornitologia (estudo das aves) e pode ser lido em http://www.bioone.org/doi/pdf/10.1650/CONDOR-16-89.1 


Uma das principais conclusões dessa parte da pesquisa é que para conservar o barbudinho é necessário proteger as florestas ripárias da Serra da Cantareira, o que tem consequências positivas no abastecimento de água de milhões de pessoas que dependem do sistema Cantareira.

Além disso, o pesquisador sugere algumas mudanças no código florestal vigente que potencialmente aumentariam as suas chances de conservação em longo prazo. Tendo em vista a crise hídrica na Cantareira nos últimos anos, somada às alterações relativamente recentes no código florestal, acredito que esse tema seja atual e bastante relevante. 


Além dessa parte que já está publicada, o mestrado analisa a distribuição da espécie por meio de uma técnica conhecida como "modelagem de nicho".

"No estudo da distribuição, avaliei os efeitos da fragmentação da Mata Atlântica e do aquecimento global na conservação da ave. Os resultados indicam que esses dois efeitos em conjunto (fragmentação + mudanças climáticas) poderão ter consequências drásticas na conservação do barbudinho. Além disso, foi constatado que a rede atual de Unidades de Conservação no Brasil é insuficiente para garantir a proteção da espécie", afirma Tonetti.


Sobre o pesquisador

Vinicius Rodrigues Tonetti
 
Bacharel em Ciências Biológicas (2012) pela Universidade de São Paulo e mestre em Zoologia (2015) pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho", Campus de Rio Claro. Trabalhou com conservação na Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil (SAVE Brasil, BirdLife International Affiliate) e em projetos de pesquisa ornitológica em diversas regiões do país pela Seção de Aves do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZUSP). Suas áreas de interesse são ecologia e conservação de aves neotropicais. ResearchGate: https://www.researchgate.net/profile/Vinicius_Tonetti E-mail: vrtonetti@gmail.com. Telefone: (11) 9-7170-5992

Sobre o orientador

Marco Aurelio Pizo Ferreira

Possui graduação em Ciências Biológicas (1991), mestrado (1994) e doutorado em Ecologia (1998) pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Entre 1999 e 2000 realizou seu pós-doutorado no Departamento de Botânica da Universidade Estadual Paulista (UNESP) em Rio Claro - SP onde atuou como professor visitante até 2004. Entre 2005 e 2009 foi professor Adjunto II e pesquisador do Programa de Pós-graduação em Biologia (área de Diversidade e Manejo da Vida Silvestre) da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) em São Leopoldo - RS. Atualmente é Professor Assistente Doutor no Departamento de Zoologia da UNESP em Rio Claro. Tem experiência na área de ecologia, com ênfase em (i) interação animal-planta envolvendo frugivoria, dispersão e predação de sementes e (ii) ecologia e comportamento de aves. Contato: (19) 3526 4294 e pizo@rc.unesp.br
 
Fonte: http://unan.unesp.br/destaques/27576/projeto-auxilia-a-conservar-barbudinho-ave-ameacada-de-extincao
 EXTINÇÃO DO TAMANADUÁ...TRISTE NOTÍCIA
 
Perda do habitat causa extinção do Tamanduá-bandeira
Pesquisa foi desenvolvida por aluna da Unesp Rio Preto
Assessoria de Comunicação e Imprensa
09/06/2017

Gisele Lamberti Zanirato defendeu a Dissertação de mestrado intitulada "O impacto da perda e fragmentação do habitat sobre a ocupação e o padrão de atividade do tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla)". A pesquisa foi desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Biologia Animal do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas (Ibilce), Câmpus da Unesp em São José do Rio Preto.  

Resumo
A expansão das áreas urbanas e das atividades agrícolas tem reduzido o domínio do Cerrado no estado de São Paulo resultando em paisagens altamente fragmentadas constituídas em grande parte por fragmentos pequenos. A perda e a fragmentação do habitat tem sido um dos principais fatores responsáveis pelo declínio populacional e pela extinção local de espécies com baixa densidade populacional, baixa taxa de reprodução, alta demanda por espaço e especialista alimentar como o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla). 

É conhecido que algumas espécies de mamíferos modificam seus padrões de atividade frente às perturbações antrópicas e até em relação aos efeitos da perda de habitat. Considerando o status de conservação da biodiversidade no estado de São Paulo e a classificação do tamanduá-bandeira como vulnerável à extinção, estudos em um dos poucos remanescentes de Cerrado no nordeste do estado tornam-se prioritários à conservação da espécie. 

Esse trabalho é constituído por dois capítulos, no primeiro capítulo foi feita uma revisão bibliográfica sobre os efeitos da perda e fragmentação do habitat na ocorrência de mamíferos realçando os efeitos sobre as espécies de grande porte e/ou com dieta especializada, além de abordar mudanças no padrão de atividade de mamíferos frente aos efeitos da perda do habitat. No segundo capítulo, os objetivos do presente estudo foram apresentados sendo que o primeiro consistiu em avaliar se a área do fragmento, o isolamento e as porcentagens de água e vegetação nativa na paisagem são importantes para explicar a ocupação dos fragmentos de vegetação nativa pelo tamanduá-bandeira. O segundo objetivo consistiu em verificar se há diferenças no padrão de atividade entre as populações de tamanduás que ocupam os fragmentos menores (< 2.015 ha) e a população que ocupa o fragmento maior (10.285 ha).

Os dados de presença e ausência dos tamanduás-bandeira em cada um dos vinte fragmentos de vegetação nativa localizados no nordeste do estado de São Paulo foram coletados através de armadilhas fotográficas. A influência da temperatura e da pluviosidade na probabilidade de detecção dos tamanduás e a importância das covariáveis de fragmento e de paisagem na probabilidade de ocupação dos fragmentos pela espécie foram avaliadas através de modelos de ocupação de estação única (Single-season Occupancy Models). O 
Critério de Informação de Akaike corrigido (AICc) foi utilizado para a seleção dos melhores modelos e o teste de Mardia Watson Wheeler foi usado para verificar possíveis diferenças no padrão de atividade entre as populações que ocupam os fragmentos menores e a população presente no fragmento maior. A probabilidade de ocupação dos fragmentos pelos tamanduás-bandeira foi maior nos fragmentos com áreas maiores e em fragmentos com maior porcentagem de vegetação nativa ao redor. No entanto, o padrão de atividade dos tamanduás não foi influenciado pela área do fragmento. Apesar da área do fragmento não influenciar o padrão de atividade dos tamanduás, a conservação de fragmentos maiores e com maior porcentagem de vegetação nativa ao redor é de grande importância para a sobrevivência de tamanduás-bandeira no nordeste do estado de São Paulo.

Comissão Examinadora

Prof.(a). Dr.(a). Rita de Cassia Bianchi (Orientadora) – Unesp / Câmpus de Jaboticabal
Prof.(a). Dr.(a). Natália Mundim Torres – Universidade Federal de Uberlândia
Prof.(a). Dr.(a). Guilherme De Miranda Mourão – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA)

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Fósseis em Marrocos apontam que Homo sapiens surgiu 100 mil anos antes


Reuters
Novos dados revelam que o _Homo sapiens_ estava presente em todo o continente africano há 300 mil anos
Dados revelam que o Homo sapiens estava presente em todo o continente africano há 300 mil anos

Fósseis descobertos nas montanhas do interior de Marrocos sugerem que o primata bípede hoje conhecido como Homo sapiens, o ser humano anatomicamente moderno, já habitava o continente africano há mais de 300 mil anos. Se as datações e a análise dos ossos estiverem corretas, nossa espécie ganha uma "certidão de nascimento" cerca de 100 mil anos mais antiga do que se imaginava até agora.

"Costumávamos achar que havia um berço da humanidade há 200 mil anos na África Oriental [Etiópia], mas nossos novos dados revelam que o Homo sapiens estava presente em todo o continente africano há cerca de 300 mil anos. Antes que nos espalhássemos para fora da África, houve um processo de colonização dentro da África", declarou o paleoantropólogo Jean-Jacques Hublin, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, na Alemanha, em comunicado oficial.
Hublin, ao lado de seu colega Abdelouahed Bem-Ncer, do Instituto Nacional de Ciências da Arqueologia e do Patrimônio, em Marrocos, coordenaram o trabalho que desencavou novos fósseis e reanalisou achados antigos do sítio de Jebel Irhoud, caverna conhecida como lar de parentes primitivos do homem desde os anos 1960.

Os restos humanos antigos achados na caverna nessa época tiveram idade originalmente estimada em 40 mil anos e foram atribuídos a uma população africana de neandertais, espécie muito próxima da nossa que dominou a Europa durante boa parte da Era do Gelo. As novas escavações em Marrocos aumentaram de seis para 22 o número de fósseis humanos descobertos lá e trouxeram novas e preciosas informações sobre o formato do crânio dessas pessoas - detalhes que são fundamentais para estimar seu grau de parentesco com os seres humanos do presente.
Além disso, os pesquisadores conseguiram usar um método conhecido como termoluminescência para datar artefatos de pedra achados nas mesmas camadas que as fósseis. Foi essa datação que permitiu propor uma idade entre 350 mil e 300 mil anos para a presença dos ancestrais do homem na caverna.

CARA E CABEÇA
 
Essa idade muito recuada parece se encaixar de forma lógica com a aparência dos crânios, mandíbulas e dentes dos habitantes de Jebel Irhoud (até agora, os restos encontrados correspondem a cinco pessoas, entre adultos, adolescentes e crianças).

Os pesquisadores enxergam uma espécie de mosaico de características "modernas" e "arcaicas" nesses fósseis. De um lado, o rosto dos indivíduos lembra o que ainda vemos nos seres humanos de hoje. A região do nariz e da boca não se projeta para a frente, como acontecia com os neandertais e outros membros mais antigos do nosso gênero, o Homo. O formato da mandíbula e dos dentes também se aproxima do que se vê no Homo sapiens atual, apesar da chamada robustez –os dentes, por exemplo, são muito grandes.

As diferenças ficam mais marcantes na parte de trás do crânio, onde se aloja o cérebro. Seres humanos modernos possuem essa parte da anatomia bem arredondada, enquanto a dos Homo sapiens de Jebel Irhoud é mais alongada.

Para o paleoantropólogo Walter Neves, da USP, esses detalhes indicam que seria correto pensar nesses hominídeos marroquinos como uma forma intermediária. "Sabemos que o Homo heidelbergensis [espécie mais antiga] deu origem aos neandertais na Europa, ao passo que, na África, deu origem ao homem moderno. Com essa datação nova, Jebel Irhoud ocupa exatamente o espaço entre H. heidelbergensis e H. sapiens na África", pondera. 

Outros fósseis achados no local indicam que os moradores da caverna caçavam animais como zebras e gazelas e dominavam o fogo, já que os artefatos de pedra foram alterados pelo calor de fogueiras. A descrição completa das descobertas está na revista científica "Nature".

Encontrado no Marrocos, o mais antigo fóssil humano tem 300 mil anos

Com novos métodos, cientistas fizeram datação mais precisa de pelo menos cinco esqueletos de Homo sapiens; descoberta antecipa história da espécie em pelo menos 100 mil anos


Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo
07 Junho 2017 | 14h00

Um grupo internacional de cientistas descobriu no Marrocos pelo menos cinco fósseis humanos de pelo menos 300 mil anos, cercados de ferramentas de pedra e restos de animais. A descoberta, revelada em dois artigos publicados na edição de hoje da revista Nature, antecipa em pelo menos 100 mil anos a mais antiga evidência fóssil já registrada da espécie Homo sapiens.

De acordo com os autores dos estudos, a descoberta revela que a espécie humana tem uma história evolutiva muito mais complexa do que se imaginava, envolvendo provavelmente todo o continente africano. O fóssil humano mais antigo encontrado já registrado até agora tinha 195 mil anos e havia sido desenterrado no leste da África, em Omo Kibish, na Etiópia.

Homo sapiens de 300 mil anos
Reconstrução de um fóssil de Homo sapiens encontrado em Jebel Irhoud, no Marrocos, com base em múltiplas imagens de microtomografia computadorizada do fóssil original; com 300 mil anos, o fóssil já mostra um rosto semelhante ao dos humanos modernos, mas a caixa craniana alongada indica que as funções cerebrais do Homo sapiens só evoluíram mais tarde. Foto: Philipp Gunz, MPI EVA Leipzig
 
 
 
"Acreditávamos que o berço da humanidade havia sido o leste da África, há 200 mil anos, mas nossos novos dados revelam que o Homo sapiens já havia se espalhado por todo o continente africano há cerca de 300 mil anos", disse o autor principal da pesquisa, o paleoantropólogo Jean-Jacques Hublin, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig (Alemanha).
A descoberta foi feita em Jebel Irhoud, no oeste do Marrocos. Desde a década de 1960 haviam sido encontrados seis fósseis humanos e diversos artefatos da Idade da Pedra no local, mas a idade dos fósseis era até permanecia incerta. 
Homo sapiens de 300 mil anos

Um novo projeto de escavação em Jebel Irhoud, iniciado em 2004, revelou 16 novos fósseis de Homo sapiens, envolvendo crânios, dentes e ossos longos de pelo menos cinco indivíduos. As escavações foram lideradas por Hublin e por Abdelouahed Ben-Ncer, do  Instituto Nacional de Arqueologia e Patrimônio do Marrocos, sediado em Rabat.

Os cientistas conseguiram precisar a cronologia dos fósseis graças à tecnologia. Eles utilizaram um método de datação por termoluminscência em pedras de sílex encontradas nos mesmos depósitos. 
"Sítios bem datados dessa época são excepcionalmente raros na África, mas nós tivemos sorte, já que vários dos artefatos de sílex de Jebel Irhoud foram aquecidos no passado. Isso nos permitiu aplicar os métodos de datação por termoluminescência nesses artefatos, para estabelecer uma cronologia conssitente para os hovos fósseis e para as camadas de solo que os cobriam", explicou o especialista em geocronologia Daniel Richter, do Instituto Max Planck.

Além da datação por meio dos artefatos de pedra, os cientistas conseguiram refazer o cálculo direto da idade de três mandíbulas encontradas em Jebel Irhoud na década de 1960. Essas mandíbulas haviam sido anteriormente datadas em 160 mil anos, com um método por ressonância paramagnética eletrônica.


No novo estudo, porém, os cientistas aprimoraram o método e recalcularam a idade dos fósseis, encontrando um resultado coerente com as datações por termoluminescência: eles tinham quase o dobro da idade estimada inicialmente. "Utilizamos métodos de datação de última geração e adotamos as abordagens mais conservadoras para determinar a idade com precisão", disse Richter.
Participaram do estudo cientistas do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva (Alemanha), do Instituto Nacional de Arqueologia e Patrimônio de Rabat (Marrocos), do Collège de France, em Paris (França), das universidades de Nova York, de Califórnia Davis (Estados Unidos), de Bolonha (Itália), de Tuebingen (Alemanha), de Canberra, de Griffith, de Southern Cross (Austrália) e da Sorbonne (França).

Cardápio. Além de revelarem que o Homo sapiens é 100 mil anos mais antigo do que se pensava, os novos estudos revelaram também o cardápio dos humanos há 300 mil anos: muita carne de gazela, alguma carne de gnu e de zebra, eventualmente ovos de avestruzes, além de antílopes, búfalos, porcos-espinho, lebres, tartarugas, moluscos de água doce e serpentes.
Homo sapiens de 300 mil anos

De acordo com a paleoantropóloga Teresa Steele, da Universidade de Califórnia Davis, foram encontrados em Jebel Irhoud centenas de ossos de animais fossilizados e as espécies de 472 deles foram identificadas. Foram também observadas marcas de cortes nos ossos, indicando que suas medulas haviam sido utilizadas como alimento por humanos. 
"Realmente parece que essas pessoas gostavam de caçar. A dispersão do Homo sapiens por toda a África há 300 mil anos é provavelmente resultado de mudanças na biologia e no comportamento da espécie", disse Teresa.



As ferramentas de pedra encontradas em Jebel Irhoud eram feitas de sílex de alta qualidade, "importadas" para o sítio, de acordo com o paleoantropólogo Shannon McPherron, do Instituto Max Planck. Segundo ele, os machados, ferramentas frequentemente encontradas em outros sítios antigos, não estavam presentes em Jebel Irhoud. Mas a maior parte dos utensílios encontrados ali também existiram por toda a África na metade da Idade da Pedra.

"Os artefatos de pedra de Jebel Irhoud parecem muito semelhantes aos encontrados no leste e no sul da África. É provável que as inovações tecnológicas da metade da Idade da Pedra estejam ligadas ao surgimento do Homo sapiens", afirmou McPherron.
Arcaico e moderno. Segundo os cientistas, o crânio dos humanos modernos é caracterizado por uma combinação de características que os distinguem dos hominídeos de espécies aparentadas e de ancestrais extintos, como, por exemplo, a caixa craniana globular (arredondada), a face pequena, com osso nasal projetado, mandíbulas curtas, testa alta e arcada supraciliar limitada.
Utilizando tecnologia de ponta em micro-tomografias computadorizadas e análises estatísticas morfológicas com base em centenas de medições 3D, os cientistas mostraram que os fósseis de Jebel Irhoud apresentam rosto e dentes semelhantes aos do homem moderno. A caixa craniana, porém, tem formato mais arcaico, mais alongado que o do homem atual.

Homo sapiens de 300 mil anos

Homo sapiens de 300 mil anos
Diferenças estruturais podem ajudar a entender a evolução: A) um crânio Neanderthal de 430 mil anos encontrado na Espanha, com traços mais recentes, como o formato da arcada supra ciliar, e mais ancestrais, como o rosto maior e cérebro menor. B) Crânio Neanderthal de 50 mil anos, encontrado na França, é um exemplo dos traços mais recentes da espécie. C) Fósseis de Jebel Irhoud, no Marrocos, com 300 mil anos, mostra semelhanças com os humanos modernos - como as maçãs do rosto delicadas -, mas o formato alongado da caixa craniana é arcaico. D) Fóssil de Homo sapiens de 20 mil anos, encontrado na França, já apresenta a a caixa craniana globular dos humanos atuais. Foto: Nature

"O formato interno da caixa craniana reflete o formato do cérebro. Nossa descoberta sugere que a morfologia do rosto do humano moderno se estabeleceu muito cedo na história da nossa espécie, enquanto o formato do cérebro - e provavelmente suas funções - evoluiu ao longo das linhagens sucessivas de Homo sapiens", afirmou o paleoantropólogo Philipp Gunz, do Instituto Max Planck.
Segundo os cientistas, comparações feitas recentemente entre o DNA extraído de Neanderthais e de humanos modernos revelam diferenças genéticas que afetam o cérebro e o sistema nervoso. As mudanças evolutivas do formato da caixa craniana teriam, portanto, uma provável ligação com uma série de transformações genéticas que afetaram a conectividade, organização e desenvolvimento do cérebro, que distingue o Homo sapiens de seus ancestrais e parentes extintos.
Homo sapiens de 300 mil anos

Dois dos novos fósseis de Jebel Irhoud, no Marrocos, exatamente como foram descobertos durante a escavação; no centro da imagem, em tom amarelado, há o topo de um crânio humano es magado e, logo acima, há um pedaço de fêmur encostado na pedra vertical. Foto: Steffen Schatz, MPI EVA Leipzig.

A morfologia e a idade dos fósseis de Jebel Irhoud também corroboram, segundo os pesquisadores, a interpretação de que um enigmático pedaço de crânio encontrado em Florisbad, na África do Sul, pertenceria a um representante precoce da espécie Homo sapiens. Nesse caso, já haveria fósseis muito antigos da espécie por todo o continente africano: no Marrocos, com 300 mil anos, na África do Sul, com 260 mil anos e na Etiópia, com 195 mil anos.

"O norte da África há muito tempo é negligenciado nos debates sobre a origem da nossa espécie. As descobertas espetaculares de Jebel Irhoud demonstram estreitas conexões entre o Magreb e o resto da África na época em que emergiu o Homo sapiens", disse Ben-Ncer.

Traços sobrepostos. Em um comentário aos dois artigos, publicado na mesma edição da Nature, os paleoantropólogos Chris Stringer e Julia Galway-Witham, do Museu de História Natural de Londres (Reino Unido) afirmam que a descoberta no Marrocos "poderá iluminar a evolução da nossa espécie de uma maneira equivalente à que o fóssil de Neanderthal encontrado em Sima de los Uesos, na Espanha, fizeram com o nosso conhecimento sobre o desenvolvimento dos Neanderthais".
Segundo eles, as análises de DNA sugerem que a linhagem dos humanos modernos se diferenciou dos parentes mais próximos - os Neanderthais e os Denisovans - há mais de 500 mil anos, portanto muito antes do primeiro espécime reconhecível de Homo sapiens. "Isso pode significar que existiram membros mais recentes da linhagem Homo sapiens que tinham características preponderantemente arcaicas, em vez dos traços modernos. Até agora, tem sido difícil identificar esses fósseis", escreveram.

De acordo com Stringer e Julia, os autores dos novos estudos sugerem que uma separação clara entre fases da evolução do Homo sapiens - como as que descrevem os fósseis como "arcaicos" e "anatomicamente modernos" - provavelmente deixarão de existir à medida que o registro de fósseis aumenta. "Eles provavelmente estão certos, embora as evidências que encontraram adicionem a esse quadro uma sobreposição de formas que pareciam mais arcaicas ou mais modernas", disseram.
Mais uma pista dessa sobreposição de características "arcaicas" e "modernas", segundo eles, é a descoberta - reportada pelo Estado no dia 9 de maio - de que um espécime do primitivo Homo naledi, encontrado na África do Sul, tinha apenas 300 mil anos e não 2,5 milhões de anos, como se pensava. "Talvez mais estudos de datação possam esclarecer a extensão dessa sobreposição e os processos que podem ter levado à evolução dos humanos modernos", escreveram.
Planta aquática atrapalha pesca e geração de energia
Professor da Unesp é entrevistado pelo G1
Por G1 Rio Preto e Araçatuba
06/06/2017
Uma espécie de planta aquática nos rios Paraná e Tietê tem atrapalhado pescadores e até a geração de energia em hidrelétricas de Ilha Solteira (SP) e Castilho (SP). As plantas crescem de forma desenfreada nesses locais, às margens e no meio dos rios.
As plantas são chamadas de macrófitas ou elódeas e são encontradas, geralmente, em rios de água transparente. Elas precisam de luz, nitrogênio e fósforo para se desenvolverem. Essas condições são encontradas no rio Tietê, que recebe matéria orgânica de uma grande região do Estado, mas as plantas passaram a serem encontradas com frequência no rio Paraná, perto da usina de Ilha Solteira.
Aparecido dos Santos é pescador há quase 30 anos e diz que a infestação da planta nas águas chama a atenção e atrapalha quem precisa viver da pesca. “De motor ninguém consegue atravessar o rio, as plantas sempre enroscam. Conforme o lugar, é preciso levantar o motor e esperar passar a alga”, comenta.

Na usina hidrelétrica Jupiá, em Castilho, o problema é antigo. Na época em que a hidrelétrica era administrada pela Companhia Energética de São Paulo (Cesp), antes de ser privatizada, as plantas aquáticas já existiam e a empresa precisou investir dinheiro para tentar controlar e evitar que elas atrapalhassem o funcionamento das turbinas.

O professor de agronomia da Unesp de Ilha Solteira, Fernando Tadeu, especialista em plantas aquáticas há 17 anos, diz que o aumento dessas espécies pode causar impactos graves nos rios. “Essas plantas prejudicam o fluxo de água, a água chega com uma força menor para gerar energia elétrica. Isso é um prejuízo muito grande para a produção de energia nas usinas”.

Em nota, a CTG Brasil, empresa que assumiu a operação das usinas de Jupiá e Ilha Solteira, afirmou que não tem responsabilidade de fazer o controle dessas plantas nos reservatórios. A empresa disse ainda que para evitar que as espécies prejudiquem a operação das usinas, monitora e recolhe essas plantas aquáticas nas barragens com o auxílio de grades.

Leia reportagem completa

Ambientes marinhos e de água doce no Brasil sofrem com poluição por microplásticos

07 de junho de 2017



Ambientes marinhos e de água doce no Brasil sofrem com poluição por microplásticos Minúsculos detritos de plástico estão presentes em larga escala em praias e rios no país, têm sido ingeridos por peixes e pequenos organismos e causado efeitos tóxicos em moluscos, apontam estudos (foto: Pryscilla Resaffe)

 Elton Alisson | Agência FAPESP – Além de garrafas PET, sacolas e embalagens de alimentos, entre outros objetos, os ambientes marinhos e de água doce em todo o mundo têm sido contaminados com minúsculos detritos, conhecidos como microplásticos, com tamanho menor que 5 milímetros, como fibras e pequenos resíduos gerados pela fragmentação de grandes pedaços de plástico.

Um grupo de pesquisadores do Departamento de Ciências do Mar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), campus da Baixada Santista, em colaboração com colegas de outras universidades e instituições de pesquisa do Brasil e do exterior, constatou que esses microplásticos também estão presentes em larga escala em praias e rios no Brasil.

Os pesquisadores também observaram que algumas espécies de peixes de água doce e de pequenos organismos marinhos ingerem frequentemente esses microplásticos, e que os contaminantes liberados por esses poluentes causam efeitos tóxicos para espécies de moluscos, como os mexilhões marrons (Perna perna).

Os resultados dos estudos, coordenados por Luiz Felipe Mendes de Gusmão com apoio da FAPESP, foram publicados nas revistas Environmental Pollution e Water Research.
“Temos observado a poluição generalizada por microplásticos tanto de ecossistemas marinhos como de ambientes de água doce”, disse  Gusmão, professor da Unifesp da Baixada Santista e coordenador das pesquisas, à Agência FAPESP.

De acordo com o pesquisador, enquanto resíduos de plástico grandes, como sacolas, tampinhas e garrafas PET, são relativamente fáceis de serem vistos e retirados da areia de uma praia, os microplásticos são quase impossíveis de serem removidos por serem muito pequenos e praticamente imperceptíveis a olho nu. Por isso, tem se observado um aumento do acúmulo desse tipo de poluente em praias de todo o mundo, apontou.

“Os microplásticos que entram em um ambiente de água doce são transportados, via os rios, até os oceanos. E quando chegam aos oceanos esses fragmentos de plástico são transportados por correntes marinhas e tendem a ficar em suspensão na coluna d’água ou encalharem em praias”, explicou.
Uma vez que essas partículas de plástico têm sido encontradas de forma generalizada em ambientes marinhos e de água doce em todo o mundo, o pesquisador, em colaboração com colegas no Brasil e no exterior, começou a monitorar nos últimos anos a presença desses poluentes em ambientes aquáticos no país.

Os primeiros locais escolhidos foram as praias de Itaquidantuva e de Paranapuã, situadas na reserva ambiental de Xixová-Japuí, localizada entre os municípios da Praia Grande e São Vicente, na baixada santista, em São Paulo.

Durante um ano os pesquisadores coletaram semanalmente nas áreas das duas praias pellets de plástico – grânulos de plástico, com diâmetro inferior a 10 milímetros, utilizados na fabricação de produtos plásticos.
Os resultados das análises indicaram uma altíssima concentração desse tipo de microplástico. “Observamos pellets de plástico, de diferentes cores e tamanhos, se acumulando na praia de Paranapuã o ano inteiro. Em alguns momentos, as praias ficavam cheias desses microplásticos, e em outros momentos eles sumiam temporariamente em razão de fatores como a circulação oceânica, as ondas e o regime de ventos”, afirmou.

Efeitos tóxicos

De acordo com o pesquisador, algumas características que potencializam o efeito nocivo do plástico em ambientes marinhos e de água doce são que a maioria dos polímeros comuns – como o polipropileno e o poliestireno – degradam muito lentamente e são leves – o que permite serem transportados com facilidade pelas correntes oceânicas e permanecerem por muito tempo no ambiente marinho

Ao permanecerem por longo tempo no ambiente, as moléculas de contaminantes presentes em um meio aquático, como metais pesados e pesticidas, começam a aderir à superfície dos plásticos e podem atingir concentrações extremamente altas. Além disso, esses resíduos de plástico também possuem aditivos presentes na composição do material, como corantes, dispersantes e protetores contra raios ultravioleta.
Com o passar do tempo, os fragmentos de plástico tendem a liberar esses contaminantes no ambiente aquático, explicou Gusmão.

“Se os microplásticos forem ingeridos pela fauna marinha, os poluentes aderidos na sua superfície podem ser liberados no tubo digestivo do animal, o que pode causar efeitos tóxicos”, ressaltou.
A fim de avaliar a potencial toxicidade para organismos marinhos dos contaminantes liberados por microplásticos, os pesquisadores da Unifesp, em colaboração com colegas da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Santa Cecília, realizaram experimentos em que expuseram larvas de mexilhões marrons a amostras de pellets de plástico que recolheram nas praias de Itaquidantuva e de Paranapuã e também a pellets virgens.
Os resultados das análises indicaram que os contaminantes liberados pelos pellets de plástico afetaram o desenvolvimento embrionário dos moluscos.

As larvas expostas aos pellets de plástico virgens apresentaram alta taxa de mortalidade, enquanto nenhuma das larvas expostas aos pellets de plástico recolhidos das duas praias conseguiu se desenvolver.

As observações sugeriram que os contaminantes aderidos à superfície dos pellets de plástico recolhidos das praias foram os responsáveis pelos efeitos tóxicos no desenvolvimento das larvas expostas aos microplásticos, enquanto a morte das larvas expostas aos pellets virgens foi devido provavelmente aos aditivos químicos do próprio material.
“Somente a exposição aos microplásticos, sem que ingerissem, fez com que as larvas morressem”, disse Gusmão.

A poluição marítima também mobiliza a ONU Meio Ambiente que lança nesta quarta-feira (07/06), no Brasil, a campanha “Mares Limpos”, que durante cinco anos terá ações para conter a maré de plásticos que invade os oceanos. O evento acontece no AquaRio, no Rio de Janeiro, como parte das comemorações do Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado no dia 5 de junho.

No Brasil, a campanha trabalhará na mobilização de governos, parlamentares, sociedade civil e setor privado para fortalecer ações que reduzam a contribuição do país ao problema global dos plásticos que acabam nos mares. Os esforços da campanha se concentrarão em buscar uma drástica redução no uso de plásticos descartáveis e o banimento de microesferas de plástico em cosméticos e produtos de higiene, além de apoiar a elaboração do Plano Nacional de Combate ao Lixo no Mar, capitaneado pelo Ministério do Meio Ambiente.

Ingestão

Os pesquisadores da Unifesp também avaliaram se pequenos organismos marinhos são capazes de ingerir microplásticos encontrados em seus habitats.
Em um estudo realizado em colaboração com colegas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), das Universidades Federais do Rio Grande (FURG) e do Paraná (UFPR), além da University of Copenhagen, da Dinamarca, e do Instituto de Estudos Ecossistêmicos, da Itália, eles examinaram o conteúdo intestinal da meiofauna (animais que medem menos de 1 milímetro e vivem enterrados entre grãos de areia das praias) de seis praias situadas no Brasil, na Itália e nas Ilhas Canárias, na Espanha.

As análises laboratoriais revelaram que três espécies comuns de anelídeos, do gênero Saccocirrus, tinham microfibras (fibras provenientes de cordas e fios de pesca e de tecidos de roupas, entre outras) em seus intestinos, mas sem apresentar lesões físicas aparentes.
“Constatamos que mesmo organismos marinhos desse porte podem interagir com microplásticos”, disse Gusmão.

Em outro estudo, os pesquisadores da Unifesp, em colaboração com colegas das Universidades Federais do Rio Grande do Norte (UFRN) e Rural de Pernambuco (UFRPE), avaliaram a ingestão de microplásticos por um peixe de água doce comum e muito consumido em regiões semiáridas na América do Sul: o caborja (Hoplosternum littorale).

Para realizar o estudo, eles analisaram o intestino de espécimes do peixe de um rio intermitente que passa pela cidade de Serra Talhada, no interior de Pernambuco, capturadas por pescadores da região.
Os resultados das análises indicaram que 83% dos peixes tinham detritos plásticos em seus intestinos – a maior proporção relatada para uma espécie de peixe de água doce no mundo até o momento.
A maioria dos detritos plásticos (88,6%) extraídos do estômago dos peixes era microplásticos com tamanho de até 5 milímetros, e as fibras foram o tipo de microplástico mais frequente (46,6%) ingerido pelos animais.

Os pesquisadores também observaram que os peixes consumiam mais microplásticos nas regiões mais urbanizadas do rio.

“Hoje tem sido muito discutido como diminuir os impactos causados por resíduos de plásticos grandes em ambientes e organismos marinhos e de água doce, mas a poluição por microplásticos também representa um problema muito sério”, disse Gusmão.
“É preciso repensar a cadeia de produção do plástico, que é um produto importante para a sociedade, de modo a reduzir a chance dele chegar ao ambiente”, avaliou.

O artigo “Leachate from microplastics impairs larval development in brown mussels’ (doi:10.1016/j.watres.2016.10.016), de Gusmão e outros, pode ser lido por assinantes da Water Research em www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0043135416307667.

O artigo “In situ ingestion of microfibres by meiofauna from sandy beaches” (doi: 10.1016/j.envpol.2016.06.015) pode ser lido por assinantes da revista Environmental Pollution em www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0269749116305036.

E o artigo “Microplastics ingestion by a common tropical freshwater fishing resource” (doi: 10.1016/j.envpol.2016.11.068) pode ser lido por assinantes da mesma revista em www.sciencedirect.com/science/article/pii/S026974911632396X.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Biodiversidade marinha aumenta em áreas protegidas

01 de junho de 2017


Biodiversidade marinha aumenta em áreas protegidas Pesquisa feita em Fiji indica que quantidade de corais dentro de áreas protegidas é até três vezes maior do que nas porções não protegidas do recife (recifes de coral na área marinha protegida da vila Namada, Fiji / foto: João Paulo Krajewski)

Peter Moon  |  Agência FAPESP – Viti Levu é a maior ilha da República de Fiji, na Oceania. Na costa sudoeste de Viti Levu há uma extensa plataforma de recifes de coral que acompanha o desenho do litoral. Os corais começam a surgir a poucos metros da praia e se estendem até cerca de um quilômetro em direção do oceano.

Nas últimas décadas, em função do aumento do turismo e do crescimento populacional da ilha (hoje com 600 mil habitantes), diversas áreas da costa de coral foram se deteriorando, a partir da pesca de subsistência ou predatória, da coleta de material dos recifes e da destruição direta dos recifes.
Mas há exceções. Ao longo da costa de corais existem áreas marinhas protegidas, dentro das quais são proibidas qualquer forma de pesca ou coleta. O resultado é que a quantidade de corais dentro das áreas protegidas é até três vezes maior do que nas porções não protegidas do recife. Em outras palavras, a existência das áreas protegidas – mesmo que em áreas muito pequenas, como é o caso – é vital para a manutenção da biodiversidade do recife como um todo.

O sucesso da estratégia de conservação só foi possível graças à adesão de comunidades locais. Essas são algumas das conclusões da pesquisa que a bióloga Roberta Martini Bonaldo realizou na costa de corais de Viti Levu.

Bonaldo elegeu os corais de Fiji para seu trabalho de campo em dois programas de pós-doutorado, o primeiro no Departamento de Biologia do Georgia Institute of Technology, nos Estados Unidos, e o segundo no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), este com Bolsa da FAPESP.

No primeiro pós-doutorado, entre 2010 e 2012, ela foi responsável pelo gerenciamento de uma estação de pesquisa na ilha de Votua em Viti Levu. O objetivo foi estudar a composição da vida marinha no interior das áreas marinhas protegidas da costa de corais da ilha, para poder comparar com a situação do habitat nas porções não protegidas. O resultado de seu trabalho acaba de ser publicado na PLOS ONE.

Além do gerenciamento da estação, Bonaldo desenvolveu estudos comparativos da estrutura de comunidades bentônicas e de peixes e de interações ecológicas (competição coral-alga, herbivoria, formação de cardumes) entre áreas marinhas protegidas e não protegidas em Fiji, para analisar os efeitos da pesca e degradação marinha sobre os sistemas estudados.
“Fiji foi escolhida porque a maioria das áreas protegidas locais, senão todas, é gerida por comunidades que vivem em vilas junto às reservas”, disse a atualmente pesquisadora associada ao Grupo de História Natural de Vertebrados da Universidade Estadual de Campinas, à Agência FAPESP.

As áreas marinhas protegidas de Viti Levu foram criadas entre 2002 e 2003. Quando da sua criação, a cobertura de coral era muito baixa (7% da área protegida) e a cobertura de macroalgas era alta (de 35% a 45% da área protegida).

Nas áreas protegidas, a pesca e o uso de qualquer forma de coleta são proibidos. As restrições são observadas pelas populações locais, que também fiscalizam para se certificarem de que outras pessoas, como turistas, não entrem nas áreas proibidas.
“O fato de a população local ser empenhada em preservar o recife é fundamental na estratégia de conservação dos recifes em Viti Levu”, disse Bonaldo.

A bióloga estudou três áreas protegidas que ficam diante de três pequenas comunidades, as vilas de Votua, Vatu-o-lalai e Namada. Ela se lembra muito bem das impressões que teve durante o primeiro contato com os corais de Viti Levu.

“Só uma pequena parte dos recifes fica dentro dos limites de áreas marinhas protegidas. Quando entrei na água, ainda na área não protegida, fiquei chocada com as más condições do recife. Tinha muito coral morto e o recife estava tomado por algas”, disse a pesquisadora, que tem experiência como mergulhadora, fotógrafa submarina e cinegrafista.

Além da menor quantidade de corais, havia menos peixes dentro das áreas não protegidas. Na ausência de peixes herbívoros, a população de algas explodiu fora de controle. Os recifes estudados são bastante raros, e algumas porções do recife ficam quase descobertas durante a maré baixa.
“As pessoas andam sobre as poças na maré baixa para pegar peixes e polvos e, conforme pisam sobre os corais, podem quebrar as colônias, principalmente as mais delicadas. Já na maré alta, os recifes ficam a uns dois metros de profundidade da água. É quando é possível nadar sobre o recife”, disse.
Prosseguindo em seu mergulho, Bonaldo cruzou uma linha de boias que delimita a área protegida do recife. “Na hora em que cruzei as boias, foi como se tivesse saído do caos para entrar no paraíso. Conforme fomos entrando na área protegida, surgiram peixes cada vez maiores. Fiquei surpresa com a grande diversidade de vida submarina e a densidade de corais dentro de uma área tão pequena, de menos de um quilômetro quadrado”, disse.

Bonaldo realizou um censo dos peixes que vivem nos recifes. Dividiu-os em dois grandes grupos, dos peixes herbívoros e dos não herbívoros. Os peixes herbívoros foram classificados por sua vez em quatro categorias: podadores, pastadores, peixes-papagaios raspadores e peixes-papagaios escavadores.

Os podadores removem macroalgas maduras e os pastores comem a parte superior de comunidades de algas pequenas (com menos de 1 centímetro de comprimento) presas ao recife, deixando as porções da base da alga intactas. Há ainda os peixes-papagaios raspadores, que se alimentam de comunidades de algas pequenas raspando seus “bicos” no recife, e os peixes-papagaio escavadores, que removem toda a alga e porções do substrato consolidado ao se alimentarem.

Os dados coletados por Bonaldo permitiram chegar às seguintes conclusões: a remoção de algas pelos peixes-papagaio é de três a seis vezes maior nas áreas marinhas protegidas do que nas não protegidas. As análises contaram com a ajuda de outro pesquisador brasileiro, Mathias M. Pires, com pós-doutorado apoiado pela FAPESP.

As áreas marinhas protegidas tinham em média até três vezes (de 260% a 280%) mais cobertura de coral do que as não protegidas. Nessas últimas, a quantidade de macroalgas era entre quatro e 20 vezes maior do que nas áreas marinhas protegidas.

Recifes no Brasil

Mesmo sendo as áreas marinhas protegidas de Fiji muito pequenas, Bonaldo pôde verificar o sucesso da estratégia conservacionista para a preservação da diversidade do recife de corais como um todo.
“Uma questão central para a conservação da biodiversidade – não só biodiversidade marinha – é o quão grande uma reserva deve ser para realmente gerar benefícios”, disse Paulo Roberto Guimarães Junior, professor no Departamento de Ecologia do IB-USP e orientador do pós-doutorado de Bonaldo.
“A questão é relevante, pois fatores sociais, econômicos e logísticos impõem limites para o tamanho da reserva. O que Roberta conseguiu demonstrar foi que há evidência para efeitos positivos em reservas marinhas mesmo quando essas são muito pequenas, como é o caso das áreas marinhas protegidas em Fiji”, disse.
“No Brasil há alguns recifes de corais, sobretudo na região de Abrolhos. Porém, mesmo os recifes de corais brasileiros são bem diferentes dos que estudei em Fiji, cuja base são espécies de corais do gênero Acropora, principalmente colônias muito ramificadas e de crescimento rápido, em alguns casos mais de 10 centímetros por ano”, disse Bonaldo.

No Brasil, não há espécies de Acropora. Os principais corais formadores de recife de corais são do gênero Mussismilia. Os Mussismilia têm forma massiva, semelhante a rochas, e geralmente seu crescimento é mais lento que os Acropora, porém são mais resistentes às altas taxas de sedimentação e a maior turbidez da água.

Segundo Bonaldo, a costa brasileira é bem menos biodiversa em espécies recifais do que a região de Fiji, mas ambas compartilham famílias de peixes, como Acanthuridae (do peixe-cirurgião e do peixe-unicórnio), Labridae (do bodião) e Serraidae (das garoupas, chernes e meros), entre outras.
“Penso que há potencial para aplicar experiências similares (às pequenas áreas marinhas protegidas de Fiji) não só em ecossistemas marinhos, mas em qualquer tipo de ecossistema. Por exemplo, seria interessante usar sistemas pareados de microrreservas para estudar se essas microrreservas mantêm processos ecossistêmicos na Mata Atlântica ou na Caatinga”, disse Guimarães, também autor do artigo na PLOS One.

“Acrescento que nosso estudo mostra a importância das áreas protegidas, em terra ou em mar, serem, de fato, bem geridas. No caso de Fiji, a participação dos habitantes locais no cuidado das áreas foi fundamental para que as reservas, mesmo que pequenas, dessem bons resultados”, disse Bonaldo.
O artigo Small Marine Protected Areas in Fiji Provide Refuge for Reef Fish Assemblages, Feeding Groups, and Corals (doi:10.1371/journal.pone.0170638), de Roberta M. Bonaldo , Mathias M. Pires, Paulo Roberto Guimarães Junior, Andrew S. Hoey, Mark E. Hay, pode ser lido em: http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0170638.