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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Entrevista com o Prof. Dieter Muehe

O geógrafo comenta sobre o recente “Panorama da Erosão Costeira no Brasil”, publicado no fim do ano pelo Programa de Geologia e Geofísica Marinha, no qual estuda o processo de erosão na faixa costeira do Brasil

A erosão afeta 60% do litoral brasileiro e deforma centenas de quilômetros de praia. (Foto: Getty Images / BBC News Brasil)

Comunitexto: O objetivo do seu estudo, elaborado junto a outros colegas, é atentar para a ordem na ocupação do litoral para evitar piorar a situação. De acordo com sua experiência e com aquilo que está vendo no país, é possível reverter essa situação?

Dieter Muehe: Reverter, creio que quase impossível. Reduzir a emissão de gases de efeito estufa vem sendo tentado, mas não tem sido suficiente. Há ainda muitas dúvidas sobre como as diversas forçantes interagem. Até a função das florestas, onde há consenso em relação à sua importância de absorver o CO2, é questionado devido a outros efeitos de emissões lançados na atmosfera, pelas mesmas, ainda pouco conhecidos. Um aspecto importante é a substituição da queima de petróleo por energia limpa, principalmente no uso do automóvel, um processo em andamento acelerado.

No caso da ocupação do litoral o importante é a informação, ou seja, a educação já como parte da educação em nível médio e superior, a realização de estudos de vulnerabilidade à erosão e inundação para todos os empreendimentos novos com espaço de ajustamento da linha a um cenário pessimista de elevação do nível do mar. Para isso as prefeituras necessitam de quadros técnicos para auxiliar na implantação desses estudos e medidas junto com a administração estadual e federal.

CT: O último Panorama da Erosão Costeira no Brasil mostrou que a erosão já tomou posse de 60% do litoral do País. Para que o público entenda melhor, quão grave é isso?

DM: Este não é um número fixo. O percentual varia ao longo da costa. Nesse percentual está incluído todo tipo de erosão independentemente da sua magnitude. Para isso teríamos que definir quantos metros por ano, em média, a linha de costa recuo. Para ter uma média precisamos de observação de várias décadas. Isto só está começando a ficar viável mais recentemente. As imagens de satélite com precisão suficiente são muito caras de modo que apenas em algumas áreas foi possível utilizar esta ferramenta.

No próximo levantamento já teremos um conjunto de ferramentas mais precisas. No momento o importante é termos uma ideia do que está acontecendo para que possamos identificar os segmentos sob maior risco, os chamados hot spots, e ter uma visão de conjunto de todo o litoral, ao mesmo tempo em que chama a atenção da sociedade para o problema.

CT: Existe alguma temporada específica onde os processos erosivos agem com mais rapidez?

DM: Sim. Principalmente no Sul, Sudeste e parte do Nordeste estão muito associados à penetrações de frentes frias com ondas de tempestade que provocam erosão. Esta erosão é muitas vezes revertida com o retorno dos sedimentos da zona submarina para a praia após a tempestade. A maior intensidade desses eventos tende a ocorrer na primavera e no outono. Já em parte do Norte e Nordeste tem ocorrido eventos de ressaca devido à penetração de ondas geradas no hemisfério norte.

CT: As instalações hoteleiras e particulares próximas a costa tomaram conta do litoral nos últimos anos, e um crescimento está sempre na pauta, levando em consideração a superlotação de algumas regiões durante o verão. Como estabelecer um diálogo num país pouco preocupado com seus bens naturais e ditado por gente rica?

DM: Este é justamente o problema já apontado acima. Essas instalações, muitas vezes tem vida curta quando construídas em segmentos com processo de erosão ativo. É para identificar esses segmentos que é necessário realizar os estudos como os do Panorama da Erosão Costeira.

CT: Muros ou barreiras de contenção estão sob risco?

DM: Qualquer barreia sólida pode resolver temporariamente um problema local, mas tende a transferir o mesmo para outros pontos. Para sua implantação é fundamental a realização de estudos geomorfológicos, sedimentológicos, oceanográficos e de engenharia costeira para buscar a melhor solução. A tendência atual é priorizar a recuperação de praias por meio de aterros com areia compatível.

Tudo a ver

 

Processos erosivos e recuperação de áreas degradadas aborda aspectos relacionados à erosão acelerada dos solos e aos movimentos de massa, dando subsídios para seu estudo, controle e prevenção. Amplamente ilustrada e com exemplos práticos nacionais e internacionais, a obra discute temas como Bioengenharia, geotecnologias, erosão costeira e fatores antrópicos e climáticos nos processos geomórficos.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Ecos da separação


Não, não foi engano. Em 2011, geólogos colheram amostras de granito, um tipo de rocha continental, da Elevação do Rio Grande, uma cadeia de montanhas submersas a cerca de 1.300 quilômetros do litoral do Rio Grande do Sul.

Pensava-se que essas montanhas seriam resultado da formação do assoalho oceânico e de erupções vulcânicas, portanto, formadas por outro tipo de rocha. Dois anos depois, por meio de um submarino, colheram outras amostras de rochas continentais, cuja análise reforçou a hipótese de que essa região do Atlântico Sul poderia de fato ser um pedaço de continente que teria submergido durante a separação da América do Sul e da África, iniciada há 120 milhões de anos.

A conclusão deu valor econômico à Elevação do Rio Grande. Em julho, o governo federal recebeu a autorização para levar adiante o plano de exploração de jazidas de cobalto dessa região, situada em águas internacionais, e a possibilidade de ali haver reservas de outros minerais, como níquel, manganês e terras-raras tornou-se mais concreta. Cresceu também seu valor científico, por servir de argumento adicional para a hipótese de que a separação da América do Sul da África foi mais complicada e fascinante do que se pensava.
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A Elevação do Rio Grande: agora, fragmentos de um continente © JAMSTEC
Geólogos do Brasil, dos Estados Unidos, da Alemanha e da França reunidos no Rio de Janeiro em abril concluíram que os grandes blocos de rochas – ou microplacas – que formam os dois continentes e o assoalho oceânico não se afastaram como duas partes de uma folha rasgada, mas esticaram, se quebraram e se posicionaram caoticamente. Algumas partes podem ter ficado no meio do caminho e afundado, enquanto outras se afastavam e se misturavam, formando um imenso mosaico que agora se torna um pouco mais claro.
As rochas coletadas da Elevação do Rio Grande – granitos, granulitos, gnaises e pegmatitos – devem ter de 500 milhões a 2,2 bilhões de anos, de acordo com as análises de equipes da Universidade de Brasília e da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais e Serviço Geológico do Brasil (CPRM). "As idades não estão fora do que encontramos na América do Sul e na África", diz Roberto Ventura Santos, diretor de geologia da CPRM. Segundo ele, os levantamentos sísmicos indicaram que a espessura da crosta, ali, é de cerca de 30 km, "típica de crosta continental e não oceânica", reiterando a conclusão de que se trata de um resquício de continente.
fapesp-rochas-de-muitas-idadesEssa descoberta, uma das mais espetaculares da geologia brasileira dos últimos tempos, trouxe algumas dúvidas. Pensava-se que as duas cadeias montanhosas do Atlântico Sul, a Rio Grande e a Dorsal Atlântica, tivessem se formado na mesma época, mas agora se cogita que pode não ter sido assim. E quais são os efeitos da Elevação do Rio Grande? Uma cadeia com montanhas de 3.200 metros de altura no fundo do Atlântico Sul, cujo topo está a apenas 800 metros de profundidade, deve formar barreiras para a circulação oceânica, mas ainda não se sabe ao certo como. Ventura acredita que algumas respostas podem vir à tona com a análise de uma coluna com 70 metros de sedimentos do fundo do mar, que, espera-se,
 permitirá a reconstituição de fenômenos climáticos e geológicos dos últimos 7 milhões de anos.
"A identificação de rochas continentais na Elevação do Rio Grande muda o quadro da evolução do Atlântico Sul, que se formou com a separação dos dois continentes", comenta o geólogo Peter Christian Hackspacher, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Rio Claro. Há quase 20 anos, por meio de pesquisas de campo no Sudeste e Sul do Brasil, na Namíbia e em Angola, ele examina os sinais das possíveis forças que levaram à separação da América do Sul e da África. Suas conclusões reforçam a contestação do modelo tradicional, segundo o qual as linhas de costa dos dois continentes, representando os blocos de rochas que os formaram, poderiam se encaixar. Há um encaixe na costa do Nordeste com o Oeste da África, mas em outras regiões, como o litoral do Rio de Janeiro, parecem faltar partes do quebra-cabeça de rochas.

Serra do Mar Rejuvenescida

Os blocos de rochas que antes formavam um só continente se fragmentaram e se alinharam com outros, mais antigos ou mais novos, formando a região montanhosa do Sudeste brasileiro e do Oeste africano, conclui Hackspacher, em colaboração com as equipes de Ulrich Glasmacher, da Alemanha, Antonio Olímpio Gonçalves, de Angola, e de Ana Olívia Magalhães, da Universidade Federal de Alfenas, Minas Gerais. Contrariando as expectativas, blocos mais antigos, como as serras da Mantiqueira e da Bocaina, que soergueram há 120 milhões de anos, estão no interior do continente, e nas bordas, como no litoral entre os estados do Paraná e do Rio Grande do Sul, estão blocos mais recentes, com 35 milhões a 20 milhões de anos (ver mapa).
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Efeitos do soerguimento depois da abertura do Atlântico: vale de um rio no Centro-Oeste de Angola com rochas formadas a 2 bilhões de anos... © PETER C. HACKS PACHER/UNESP
"Não estou descobrindo a roda, estou apenas medindo por outras técnicas", diz ele, reconhecendo as bases conceituais oferecidas por professores da Universidade de São Paulo como Fernando Almeida, Umberto Cordani e Benjamim Bley Brito Neves, que já haviam reconhecido que a América do Sul era formada por microplacas de rochas com idades e origens variadas (verPesquisa Fapesp nº 188). Claudio Ricommini, também da USP, questionou um pouco mais a visão habitual da formação dos continentes ao verificar que a idade das rochas da bacia sedimentar de Taubaté variava de 33 milhões a 55 milhões de anos, bem longe dos supostos 120 milhões que deveriam ter por estarem próximas do litoral.
Há quase 10 anos, tendo à mão equipamentos para medir a idade e a variação da temperatura das rochas de acordo com a profundidade – quanto menor a temperatura, mais superficial e recente é a rocha –, Ana Olívia propôs a Hackspacher, então seu orientador de doutorado, que examinassem a idade das rochas de regiões do Sul e Sudeste do Brasil distantes da costa. Eles partiam do pressuposto de que blocos de rochas mais antigas e mais recentes sobem e afundam, expondo-se de modo alternado na superfície. A partir daí, "resultados muito bons, coerentes geologicamente e com razoável grau de confiabilidade estatística acerca dos processos responsáveis pelo soerguimento crustal das serras do Mar e da Mantiqueira, puderam ser delineados", diz ela. Em uma série de "descobertas espetaculares", definiu Hackspacher, encontraram blocos de rochas com soerguimento entre 60 milhões e 90 milhões de anos, que não se encaixavam no modelo clássico de formação da América do Sul a partir da separação da África.
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... e estrada Florianópolis-São Joaquim, que cruza a serra do Rio do Rastro em Santa Catarina com rochas vulcânicas formadas há 134 milhões de anos. © PETER C. HACKS PACHER/UNESP
Centenas de medições levaram a conclusões que ajudam a desfazer conceitos antigos. Um exemplo é a provável idade da serra do Mar, a cadeia montanhosa que se estende por quase 1.500 km ao longo do litoral, do Espírito Santo a Santa Catarina. "Até 10 anos atrás, quando se começou a pôr o dedo na ferida e a se questionar alguns pressupostos da evolução geológica do Atlântico Sul", diz Hackspacher, "todos entendiam que a serra do Mar teria se formado há 120 milhões de anos. No entanto, estamos vendo que a serra tem apenas 35 milhões anos e não é um rescaldo da separação dos continentes".
O fato de o rio Tietê correr para oeste é uma indicação de fenômenos geológicos mais recentes. Segundo Hackspacher, se a serra tivesse se formado há 120 milhões de anos, o rio provavelmente correria para o mar, não para o interior do continente. Hoje a hipótese mais examinada é que essa cadeia de montanhas poderia ser um efeito da formação dos Andes, iniciada há cerca de 60 milhões de anos, que poderia ter gerado grandes ondulações, afetando o relevo, com baixos, como a região do Pantanal mato-grossense, e altos, como as serras da Mantiqueira e do Mar. "Não acho difícil aceitar essa possibilidade, mas as provas ainda não são suficientes", diz ele.
Hackspacher e seus colegas estão vendo fenômenos semelhantes na Namíbia e em Angola. Em junho, complementando os levantamentos em terra, um navio oceanográfico alemão registrou sinais de placas de rochas, aparentemente com idade similar à da Elevação do Rio Grande, próximas ao litoral da Namíbia.

Projeto

História de exumação da plataforma sul-americana, a exemplo da região Sudeste brasileira: termocronologia por traços de fissão e sistemáticas Ar/Ar e Sm/Nd (nº 2000/03960-5); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Peter C. Hackspacher (Unesp); Investimento R$ 1.282.335,65 (FAPESP).

Artigos científicos

Revista Pesquisa Fapesp -