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domingo, 17 de julho de 2011

Colisão de asteróides selou destino de dinossauros

Objeto que causou extinção em massa teria sido gerado por choque ocorrido há 160 milhões de anos
Por: Bernardo Esteves
Publicado em 05/09/2007 | Atualizado em 05/10/2009
Representação artística da colisão de dois asteróides há 160 milhões de anos. O maior tinha 170 km de diâmetro, e o menor, 60 km (arte: Don Davis / Southwest Research Institute).
O destino dos dinossauros foi selado há cerca de 160 milhões de anos, antes mesmo do surgimento de muitas das espécies que reinaram sobre o planeta. O choque entre dois grandes asteróides ocorrido nessa época é a provável origem do objeto que caiu na Terra cem milhões de anos depois, motivando o episódio de extinção em massa que dizimou inúmeras espécies de plantas e animais. A descoberta foi feita por geólogos que usaram simulações de computador para reconstituir a origem de uma família de asteróides do Sistema Solar.

O estudo ajuda a entender o chamado episódio de extinção K/T, ocorrido entre o final do período Cretáceo e o início do Terciário, por volta de 65 milhões de anos atrás. A teoria mais aceita para explicar esse evento defende que ele foi causado pelo impacto de um grande asteróide com a Terra, que teria levantado uma imensa nuvem de poeira, bloqueando a luz do Sol e afetando profundamente o equilíbrio ecológico do planeta. A cratera de Chicxulub, no México, com 180 km de diâmetro, é apontada como o local mais provável da queda desse asteróide.

A equipe do geólogo William Bottke, do Instituto de Pesquisa do Sudoeste, em Boulder (EUA), afirma ter mais de 90% de certeza de que esse objeto se originou em uma colisão ocorrida há 160 milhões de anos no cinturão de asteróides, situado entre as órbitas de Marte e Júpiter. A conclusão foi tirada após o grupo usar um modelo computacional para rastrear a origem dos asteróides da chamada família Baptistina, formada por objetos de órbita e composição similares. O trabalho foi publicado esta semana na Nature .

O grupo analisou a órbita desses asteróides e pôde retraçar sua trajetória desde o evento que levou à sua formação. Os cálculos da equipe mostraram que a família Baptistina surgiu provavelmente da colisão de dois asteróides, um com 170 km de diâmetro e outro com 60 km. O choque teria acontecido a uma velocidade aproximada de 11 mil km/h, gerando algumas centenas de corpos com mais de 10 km de diâmetro e milhares de fragmentos com mais de 1 km cada.
Fragmentos gerados pelo choque de asteróides descrito pelos geólogos seriam responsáveis pela formação das crateras Tycho, na Lua, e Chicxulub, no México (arte: Don Davis / Southwest Research Institute).
A simulação da trajetória dos fragmentos mostrou ainda que alguns deles tiveram sua órbita desviada do cinturão de asteróides, entrando em rota de colisão com a Terra e a Lua. O grupo afirma que é muito provável que um desses fragmentos tenha sido responsável pela formação, há 109 milhões de anos, da cratera Tycho, na Lua, com 85 km de diâmetro.

Composição incomum
O mais forte indício de que um desses fragmentos foi o responsável pela formação da cratera de Chicxulub, no México, é a composição incomum dos asteróides da família Baptistina: eles têm um teor de água e compostos orgânicos acima da média, configurando o que os geólogos chamam de condritos carbonáceos. E o tipo de asteróide que, acredita-se, gerou o impacto K/T é justamente um condrito carbonáceo com 10 km de diâmetro.

Para que se tenha mais certeza sobre a origem desse asteróide, Bottke afirma que é preciso investigar mais crateras formadas por volta de 100 milhões de anos atrás, no auge da chuva de asteróides causada pela colisão descrita por sua equipe. "Esperamos que a composição dos asteróides que fizeram essas crateras seja similar à do objeto que gerou o impacto K/T", disse ele à CH On-line . "Caso contrário, nossa hipótese pode não estar correta."

O trabalho de Bottke é importante ao mostrar como colisões ocorridas há dezenas de milhões de anos no cinturão de asteróides podem afetar de forma prolongada o sistema Terra-Lua. "Se estivermos certos, cerca de 20% dos objetos nas proximidades da Terra vieram dessa colisão particular", afirma o geólogo. "E isso nos diz algo importante sobre sua composição." 


Bernardo Esteves

Ciência Hoje On-line
05/09/2007

Um momento de crise no planeta

Rochas e fósseis brasileiros ajudam a entender o evento de extinção em massa que dizimou os dinossauros no limite Cretáceo-Paleógeno
Por: Alexander Kellner
Publicado em 05/01/2007 | Atualizado em 04/01/2010
 
Poucos assuntos na paleontologia são tão polêmicos como o limite K/Pg, que demarca a passagem do Cretáceo (K) para o Paleógeno (Pg), há cerca de 65 milhões de anos. Essa transição é importante porque ocorreu naquele momento um evento de extinção em massa que dizimou grande parte dos animais e plantas que viviam na Terra até então, inclusive algumas das formas de vida mais instigantes que já existiram no planeta: os dinossauros.

A duração desse episódio foi de algumas dezenas ou centenas de anos – um piscar de olhos quando se leva em conta a idade da Terra (4,6 bilhões de anos). Até pouco tempo, o limite K/Pg era conhecido como a passagem Cretáceo-Terciário ou K/T, mas mudou de nome após a revogação do termo Terciário em prol da denominação Paleógeno.

A história é mais ou menos assim: um corpo extraterrestre (um grande meteoro, asteróide ou cometa) teria atingido o planeta há aproximadamente 65 milhões de anos, causando grandes mudanças ambientais e a conseqüente destruição dos ecossistemas de então.

Essa idéia surgiu da pesquisa coordenada pelo norte-americano Luis Alvarez (1911-1988), ganhador do prêmio Nobel de física em 1968. Em 1980, sua equipe descobriu a existência de uma grande concentração de irídio nas rochas datadas no limite K/Pg. Como esse elemento – um metal semelhante à platina – é bem raro na Terra, mas encontrado em grandes concentrações em meteoritos, a explicação mais plausível apontava para o impacto de um grande corpo vindo do espaço. Outras hipóteses que procuraram explicar esse evento de extinção foram mudanças do nível dos oceanos ou um vulcanismo intenso.

A hipótese do impacto, no entanto, é a que predomina no meio científico diante de uma série de outras evidências que a sustentam. Entre elas, estão os depósitos de tsunamitos, gerados por ondas gigantes (tsunamis) originadas logo após a caída do corpo extraterrestre, e a presença nas camadas relativas ao limite K/Pg de alguns minerais (grãos de quartzo fraturados, microdiamantes) formados devido a um aumento de pressão que poderiam ter sido resultantes de um choque. Até mesmo a possível cratera resultante desse impacto, denominada de Chicxulub, foi encontrada no Golfo do México.

O limite K/Pg no Brasil
Há pouco mais de 10 anos, pesquisadores da Petrobras encontraram uma região onde o limite K/Pg pode ser observado. Trata-se da mina Poty, situada 30 km ao norte de Recife, em Pernambuco. Nessa mina, explorada para obtenção de cimento, existe uma seqüência de rochas calcíferas cujas camadas foram datadas com base em microfósseis e mostraram claramente a passagem do Cretáceo ao Paleoceno (a época mais basal do Paleógeno). Do ponto de vista geológico, esses depósitos correspondem às formações Gramame e Maria Farinha e o limite K/Pg se situa basicamente no contato entre elas.

Alguns fósseis encontrados nessa região também corroboram a idéia de um evento de extinção em massa. Na Formação Gramame, a mais antiga, são encontrados restos (sobretudo dentes) de lagartos marinhos conhecidos como mosassauros. Após o limite K/Pg, não se tem mais nenhum registro desses animais.

Outros fósseis, no entanto, mostram que alguns grupos foram pouco afetados. Entre estes, estão os restos de tubarões, também representados por dentes isolados, encontrados tanto na Formação Gramame quanto na Formação Maria Farinha. Apesar de existir alguma variação das espécies encontradas nos dois depósitos, parece que, pelo menos nesta parte do planeta, o impacto não afetou em demasia esse grupo de peixes.

Entre outros fósseis muito comuns na região da Mina Poty, encontrados predominantemente nos depósitos da Formação Maria Farinha, há restos de invertebrados, com uma grande quantidade de espécies com conchas (bivalves, gastrópodes). Há ainda resquícios de artrópodes e icnofósseis produzidos por eles – galerias onde esses animais se enterravam no fundo lodoso que existia ali há milhões de anos. Também foram encontrados vértebras e outros restos de crocodilomorfos marinhos do grupo Dyrosauridae, um dos poucos grupos que sobreviveram.

Uma pesquisa recente do limite K/Pg na região da mina Poty indica que houve um segundo impacto, ocorrido pouco depois do choque que originou a cratera de Chicxulub. Caso confirmado, esse impacto registrado em terreno brasileiro corroboraria a idéia apresentada por alguns pesquisadores segundo a qual o limite entre o Cretáceo e o Paleógeno foi marcado por uma sucessão de choques de corpos extraterrestres durante algumas centenas de anos – um curto intervalo do ponto de vista geológico.

De qualquer forma, a mina Poty é um dos principais locais no Brasil onde pode ser estudada a passagem do limite K/Pg, e pesquisas em andamento poderão ajudar ainda mais a entender este que foi um dos maiores períodos de crise na vida do nosso planeta. 


Alexander Kellner
Museu Nacional / UFRJ
Academia Brasileira de Ciências
05/01/2007