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sábado, 12 de dezembro de 2015

Raridade capixaba

Gravemente ameaçada de extinção, saíra-apunhalada deverá ganhar uma área de proteção até 2016. Segundo especialistas, restam apenas 50 representantes da espécie, que só existe no Brasil.
Por: Everton Lopes
Publicado em 10/12/2015 | Atualizado em 10/12/2015
Raridade capixaba
‘Nemosia rourei’, ou, popularmente, saíra-apunhalada, corre sérios riscos de extinção. A criação de uma área de proteção ambiental é a esperança para a espécie. (foto: Gustavo Magnago).
 
Pequena e com a maior parte do corpo de cor branca, a saíra-apunhalada apresenta, logo abaixo do bico, uma mancha vermelha que se derrama como sangue pelo seu peito. A mancha – que lhe atribui o nome popular – é fruto de um golpe fictício; o perigo de extinção da espécie, no entanto, é uma pancada cada vez mais contundente. A estimativa dos especialistas é de que menos de 50 saíras-apunhaladas ainda existam. Para protegê-las, a da Associação para Conservação das Aves do Brasil (Save Brasil) e o Governo do Estado do Espírito Santo pretendem criar uma área de proteção, prevista para março de 2016.

A Nemosia rourei, cujo nome científico homenageia o explorador francês Jean Roure (primeiro a capturar um exemplar da ave, em 1870), é endêmica do Brasil – mais especificamente, de uma região pequena da Mata Atlântica nas montanhas do Espírito Santo, perto da divisa com Minas Gerais. O pássaro só vive em florestas bem conservadas, o que, nos tempos atuais, restringe bastante seu hábitat.
“O fato de a saíra ser uma espécie de hábitat restrito sem dúvida contribuiu para que se tornasse naturalmente mais vulnerável às alterações no ambiente. No entanto, a destruição secular da Mata Atlântica, alterando quase 90% do bioma, foi o grande fator para que restassem tão poucos indivíduos”, avalia Edson Ribeiro Luiz, biólogo e coordenador de projetos da Save Brasil.
Saíra-apunhalada
A saíra-apunhalada é endêmica do Brasil – mais especificamente, de uma região pequena da Mata Atlântica nas montanhas do Espírito Santo, perto da divisa com Minas Gerais. (foto: Gustavo Magnago)
Segundo o especialista, embora a área de proteção não possa assegurar a sobrevivência da espécie, a iniciativa é a melhor chance de lutar contra o seu desaparecimento. “A criação de uma área protegida será a mais importante garantia legal de que as florestas em que a saíra-apunhalada vive continuem de pé. Não sabemos se os poucos indivíduos restantes conseguirão tirar a espécie da ameaça de extinção, mas é uma corrida contra o tempo. É preciso proteger o que sobrou”, ressalta o biólogo.
"Não sabemos se os poucos indivíduos restantes conseguirão tirar a espécie da ameaça de extinção, mas é uma corrida contra o tempo. É preciso proteger o que sobrou".
 
A oficialização da área protegida não é uma esperança apenas para o pássaro ameaçado. A área escolhida, na região dos parques estaduais da Pedra Azul e Forno Grande, abriga uma rica biodiversidade, com mais de 300 outras espécies de aves, 52 espécies de anfíbios (três deles endêmicos da região) e 47 espécies de mamíferos (das quais sete estão ameaçadas de extinção). Além disso, a iniciativa também poderá trazer benefícios do ponto de vista social. “A área será categorizada como um Refúgio de Vida Silvestre, onde é possível a convivência harmoniosa entre pessoas e natureza, com potencial para se tornar um importante elemento de desenvolvimento regional”, destaca Luz. “A unidade poderá gerar renda por meio do turismo, incentivar a prática de uma produção agrícola sustentável e integrada com a floresta”.

Davi Castro Tavares, biólogo da Universidade Estadual do Norte Fluminense, ressalta que a criação de uma área protegida é apenas o primeiro passo para salvar a saíra-apunhalada. “Há diversos casos onde fiscais e a polícia ambiental combatem o desmatamento mesmo dentro de unidades de conservação no Brasil”, pontua, lembrando que são necessárias outras ações para envolver toda a comunidade no compromisso de lutar pela preservação do hábitat da ave. “É necessário educar e sensibilizar as populações locais sobre a importância dos remanescentes de florestas para as espécies que ali habitam e também para a própria humanidade. Isso requer um grande esforço de pesquisadores, professores e cidadãos das comunidades locais. É realmente uma tarefa desafiadora”, conclui.

Everton LopesInstituto Ciência Hoje/ RJ

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