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sábado, 13 de fevereiro de 2021

 

Águia, gavião ou falcão? Saiba identificar as espécies

Cerca de 70 espécies de aves de rapina estão distribuídas pelo Brasil; Gavião-real é a mais poderosa.


Harpia é uma das aves de rapina mais imponentes do mundo  — Foto: Carlos Alberto Coutinho / TG

Harpia é uma das aves de rapina mais imponentes do mundo — Foto: Carlos Alberto Coutinho / TG

No mundo das aves existem aquelas espécies que literalmente reinam no céu: os rapinantes.

E, convenhamos, não é preciso ser admirador da natureza para se impressionar com a imponência desses seres alados. O tamanho do corpo, as garras, o bico e a habilidade em atacar as presas são algumas das características que marcam a força dos gaviões, falcões e águias.

No Brasil, as aves de rapina são dividas em três famílias a Falconidae, Pandionidae e Accipitridae. O primeiro grupo corresponde aos falcões, o segundo é restrito a uma única espécie - a águia-pescadora - e o terceiro engloba tanto gaviões como águias.

Pelo menos 70 espécies diferentes de rapinantes se distribuem pelo País, mas como identificá-los? Distinguir uma ave da outra não é tão fácil quanto parece, ainda mais quando elas possuem características físicas em comum.

Mas com um pouco de atenção é possível diferenciar e ainda saber se a ave avistada em campo trata-se de uma águia ou um falcão, por exemplo.

Tamanho, comportamento e voo podem ajudar na identificação — Foto: Arte TG

Tamanho, comportamento e voo podem ajudar na identificação — Foto: Arte TG

A primeira diferença pode ser notada pelo tamanho. As águias são os rapinantes mais imponentes, sendo consideradas de médio a grande porte. Já os gaviões e os falcões são menores, sendo de pequeno a médio porte.

As águias possuem asas largas e compridas e as garras são fortes e desenvolvidas. Apresentam uma proeminência óssea acima dos olhos, o que torna a ave com um olhar impactante.

Os gaviões são muito semelhante às águias, assim como elas, também caçam e perfuram as presas com as garras e planam em voo. A principal diferença é que são aves menores. O que pode ser notado também no tamanho diminuto da cauda.

Gavião-asa-de-telha tem face semelhante às águias e apresenta comportamento estratégico — Foto:  Kleber Tadeu Jeronimo / Acervo Pessoal

Gavião-asa-de-telha tem face semelhante às águias e apresenta comportamento estratégico — Foto: Kleber Tadeu Jeronimo / Acervo Pessoal

Já os falcões se diferem dos outros pelo porte - que pode ser pequeno ou médio - e principalmente pelo formato da asas estreitas e pontiagudas. Além disso, esses rapinantes não planam no ar e não usam as garras para matar as presas, e sim o bico.

Diferente de muitas crenças que são pregadas a respeito da diferença destas aves, não é possível distingui-las pela coloração do bico, olhos e pés, mas sim pelo comportamento e características físicas.

Características da harpia sobressaem entre as aves de rapina do mundo — Foto: Arte TG

Características da harpia sobressaem entre as aves de rapina do mundo — Foto: Arte TG

De acordo com o ornitólogo, Willian Menq, especialista em estudos sobre aves de rapina, a principal diferença entre as espécies se dá pelo porte e também captura das presas, mas é importante lembrar que sempre há exceção quando falamos em vida selvagem.

Uma curiosidade é que nem sempre o nome da espécie faz referência ao grupo que ela pertence, como é o caso do gavião-real, também conhecido como harpia. Apesar de ser chamada de "gavião" a espécie é uma águia, aliás, uma das mais imponentes do mundo.

"Na realidade não existe um critério taxonômico para diferenciar esses grupos de aves. Os critérios são morfológicos e ecológicos", explica Menq.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Diversificação das aves amazônicas dependeu dos rios e do clima

Região oeste da floresta é mais estável e pode ter servido como refúgio, enquanto instabilidade da porção sudeste teria impulsionado a formação de espécies
Hylophylax naevius, uma das espécies de aves que vivem em florestas úmidas de terra firme na Amazônia
Adriano Gambarini
Os cursos variáveis dos rios e as flutuações climáticas ao longo dos milhares de anos, agindo em parceria, são responsáveis pela grande diversidade de aves na Amazônia, que abriga a maior floresta tropical do mundo. “O clima toca a música, mas quem dá os passos são as aves às margens dos rios”, resume o biólogo Alexandre Aleixo, atualmente professor na Universidade de Helsinque, na Finlândia. É uma mudança de visão em relação ao foco dado aos caudalosos rios como responsáveis por isolar espécies habitantes de margens opostas. Os resultados do trabalho liderado por ele foram publicados na quarta-feira, 3 de julho, na revista científica Science Advances.

Entrevista: Alexandre Aleixo
     
Entender a diversidade de animais e plantas que compõem a floresta amazônica tem sido, há décadas, o foco de muitos pesquisadores de áreas biológicas e, mais recentemente, geológicas (ver Pesquisa FAPESP nº 242). Com o recente avanço na capacidade de obter sequências genéticas, os pesquisadores construíram genealogias usando sequências de DNA de mais de mil espécimes de 23 espécies de aves dependentes de áreas de matas úmidas, com ampla distribuição pela Amazônia. 

De posse dessa genealogia, e dos dados geográficos de onde foram coletadas, além de cerca de 6.500 outros registros de localidades, foi possível fazer o que os especialistas chamam de modelagem de nicho: delinear as condições climáticas nas quais vivem e extrapolar esse mapeamento para o que se conhece do clima amazônico nos últimos 20 mil anos. “Ninguém tinha analisado tantas amostras com uma distribuição tão ampla na Amazônia”, afirma Aleixo.
Rio Roosevelt, um dos afluentes do Madeira, passou por fortes modificações no passadoAlexandre Aleixo/Universidade de Helsinque

“Os rios são extremamente importantes, mas não contam toda a história evolutiva da biodiversidade.” Eles só se tornam barreiras, de acordo com o pesquisador, depois que as espécies chegam às suas margens. Nesse trajeto, há espaço e tempo para uma enorme variação de trajetórias. “Caso contrário, todas as espécies teriam reagido ao mesmo tempo quando o rio surgiu, e não encontramos essa sincronia cronológica.” Algumas espécies têm uma história de 5 milhões de anos, outras de 500 mil. E aí entram os fatores climáticos, que delimitam a extensão da floresta e a composição da flora e da fauna.

O trabalho também reforça a ideia de que a Amazônia está longe de se comportar como unidade. A região sudeste da floresta, delimitada pelos rios Tapajós e Amazonas, assim como um corredor marcado pelo rio Negro, são instáveis e mais recentes. 

Aleixo explica que a floresta só existe ali nos momentos em que o clima é ideal – com intensa umidade e um regime de chuvas previsível – como atualmente. No passado a vegetação era diferente naquela área, assim como deve acontecer no futuro, caso se mantenham as projeções de mudanças climáticas. “Nossos dados se encaixam no que dizem os modelos do grupo do [climatologista] Carlos Nobre, do Inpe [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais], que preveem alterações na floresta quando ultrapassarmos 40% de desmatamento e atingirmos determinados padrões de temperatura e pluviosidade.”
Alexandre Aleixo em 2009 durante trabalho de campoAdriano Gambarini

Refúgios
 
O curioso é que o artigo de Aleixo está sendo publicado quase exatamente 50 anos depois do trabalho do biogeógrafo alemão Jürgen Haffer (1932-2010), na edição de 11 de julho de 1969 da revista Science, que lançou as bases da compreensão da biodiversidade amazônica. Era a teoria dos refúgios, em seguida também proposta pelo herpetólogo brasileiro Paulo Vanzolini (1924-2013), que postulava que algumas áreas de estabilidade serviram como repositórios de espécies, em momentos no qual a floresta se retraiu. 

Os resultados recentes mostram que Haffer tinha razão em muitos aspectos e até hoje continua a ser a referência principal para quem estuda diversificação de espécies na região. “A lógica de refúgios existe, mas encontramos algumas diferenças”, explica Aleixo. Em vez de pequenas áreas de manutenção da floresta, os pesquisadores perceberam que o noroeste da Amazônia, uma meia-lua delimitada pelos rios Negro e Madeira, é muito importante do ponto de vista da ancestralidade das espécies. “Foi um grande refúgio, e as aves acompanharam.” 

O horizonte de tempo que ele enxerga, tendo aberto uma janela para 2 milhões de anos atrás, também é mais distante do que o de Haffer. “A história das espécies é mais antiga do que os 20 mil anos que ele pensava, desde o Último Máximo Glacial: detectamos que as espécies mais jovens têm de 400 a 100 mil anos de idade, aproximadamente.”

Aleixo também vê de modo mais complexo a ação dos rios. As enormes extensões de água que se vê hoje são certamente barreiras, inclusive para as aves. Ocorre que os rios amazônicos mudam, são dinâmicos. Ao longo dos milênios eles serpenteiam, estreitam, alargam, formam alças, mudam de leito. Nesse processo dinâmico, surgem híbridos que depois, quando voltam a ser isolados, podem dar origem a novas espécies. “Em vez de a instabilidade dos rios homogeneizar as variações entre linhagens, como se achava, acreditamos que ela pode potencializar o surgimento de variabilidade.” Isso, segundo ele, é uma importante quebra de paradigma.
Depois da floresta, sequenciamento: pesquisadores trabalham no laboratório do Museu GoeldiAlexandre Aleixo / Universidade de Helsinque

“Eles mostram que a história desses animais de terra firme estudados aconteceu no curto espaço de tempo de cerca de 6 milhões de anos, semelhante ao que permitiu a separação entre o ser humano e o chimpanzé”, comenta o biólogo Fábio Raposo do Amaral, do campus de Diadema da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). 

Ele não participou do trabalho, mas estuda processos evolutivos em aves da Mata Atlântica: apesar de ser um ambiente muito distinto, as conclusões para a Amazônia podem ser inspiradoras. Para ele, o ponto crucial do trabalho liderado por Aleixo é mostrar como processos distintos podem agir em conjunto, acrescentando uma pitada de complexidade. “Na Mata Atlântica é importante como a complexidade do relevo oferece, em sinergia com o clima, oportunidades de isolamento”, compara. E brinca: “Talvez os padrões sejam muito menos comportados do que gostaríamos”.

Além dos resultados em si, o trabalho liderado por Aleixo é uma ode às coleções zoológicas armazenadas em museus. Entre as amostras examinadas, 90% estavam em coleções brasileiras – principalmente do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), onde ele estava até se mudar para a Finlândia, e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), além de outras como do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZ-USP). “Outro país não poderia ter reunido essa história, já que a Amazônia brasileira é a única a conter todas as nove províncias biogeográficas da bacia”, conclui.

Projeto
 
Estruturação e evolução da biota amazônica e seu ambiente: Uma abordagem integrativa (nº 12/50260-6); Modalidade Programa Biota/Dimensions-NSF; Pesquisadores responsáveis Lúcia Lohmann (IB-USP) e Joel Cracraft (AMNH); Investimento R$ 6.297.928,48.

Artigo científico
 
SILVA, S. M. et al. A dynamic continental moisture gradient drove Amazonian bird diversification. Science Advances. v. 5, n. 7, eaat5752. 3 jul. 2019.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

De volta para a Mata Atlântica

Extinto na natureza há 40 anos, mutum-de-alagoas é reintroduzido em seu hábitat
Fêmea de mutum solta em trecho de floresta em Rio Largo, município próximo a Maceió
Larissa Fernandes
No dia 25 de setembro, três machos e três fêmeas do mutum-de-alagoas, ave considerada extinta na natureza há 40 anos, foram reintroduzidos em seu hábitat, a Mata Atlântica alagoana. Os três jovens casais são descendentes de animais criados em cativeiro, em um programa de pesquisa e conservação que, a partir de apenas três exemplares da espécie Pauxi mitu, evitou o desaparecimento completo desse galináceo. Eles foram soltos dentro de uma reserva privada com quase mil hectares de mata contínua em Rio Largo, município distante pouco mais de 20 quilômetros de Maceió. A reserva tem um viveiro de 400 metros quadrados, mas as aves, todas com idade entre 1 e 2 anos, não ficam presas. Podem se locomover por toda a propriedade, que se conecta às áreas vizinhas, tomadas por canaviais. Os machos são monitorados por meio de um transmissor de VHF acoplado em seu dorso, que permite saber a posição em tempo real e registra os deslocamentos ao longo do dia. As fêmeas não carregam o dispositivo. Devido a sua localização no corpo do animal, o transmissor seria um empecilho para o ritual de acasalamento.

Uma semana depois da soltura das aves, a Polícia Ambiental encontrou um dos machos sem vida durante uma de suas rotineiras rondas pela região. 

O biólogo Thiago Dias, que se mudou para um alojamento construído dentro da reserva para monitorar de perto os mutuns como parte de seu trabalho de doutorado em curso no Programa de Pós-graduação em Ecologia e Recursos Naturais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), recebeu a notícia da perda. Embora triste, a morte não chega a ser muito preocupante devido às circunstâncias em que ocorreu. 


Não há indícios de que o macho tenha sido alvo de caçadores, cuja ação no passado levou a espécie a desaparecer das matas alagoanas. “A morte está relacionada a causas naturais”, explica Dias. “As condições da ave indicam que foi alvo de algum predador, provavelmente um cachorro selvagem.” Uma das funções do biólogo é entrar na mata periodicamente para, com o auxílio de um receptor, receber os dados que indicam a posição das aves.

“Faz parte do trabalho de reintrodução de uma espécie na natureza a ocorrência de perdas”, diz Luís Fábio Silveira, curador da Seção de Ornitologia do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZ-USP), um dos pesquisadores envolvidos nos trabalhos que levaram ao renascimento do mutum, primeiro em cativeiro e agora na natureza. “Se houver mais mortes por causas naturais, podemos antecipar a soltura de novos exemplares em Alagoas.” O plano inicial prevê a reintrodução de 15 casais de mutum até 2021. Atualmente, existem cerca de uma centena de exemplares puros da espécie mantidos pela Crax Brasil – Sociedade de Pesquisa da Fauna Silvestre, um criadouro de Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. As aves reintroduzidas em Alagoas saíram de lá.
Antes de iniciar a soltura dos mutuns em Alagoas, os pesquisadores montaram um protocolo científico para nortear o processo de reintrodução da espécie na natureza. 

O primeiro passo foi escolher um bom local para ser a casa dos jovens mutuns. Bem preservada e com farta comida para as aves, a reserva privada de Mata Atlântica da Usina Utinga, em Rio Largo, foi selecionada. Segundo cálculos dos pesquisadores, a área tem capacidade para abrigar até 20 casais da espécie. Em média, cada par de mutuns, ave que mede quase 90 centímetros e pesa 3 quilos, ocupa cerca de 50 hectares de mata. 

Em 2017, um casal de mutuns foi levado para essa área e mantido dentro de um viveiro para testar a viabilidade da região. Em seguida, foi determinada a melhor época para a reintrodução da ave. Como o período de acasalamento da espécie é entre junho e agosto, os biólogos optaram por fazer a soltura em setembro. Assim, os animais levados para Alagoas teriam quase um ano para se adaptar à área da reserva antes de entrarem no período de reprodução. Por fim, foi feita a escolha dos exemplares a serem transferidos para a reserva.

A idade e as características genéticas das aves criadas em cativeiro foram determinantes para a escolha dos três casais reintroduzidos em Rio Largo. Como descendem de uma população de apenas três aves, todos os mutuns-de-alagoas atuais apresentam algum grau de parentesco. 

Por isso, os pesquisadores deram preferência para animais com perfil genético diferente, mas não raro. Se alguma ave não se adaptasse à região ou morresse (essa segunda hipótese já ocorreu), não seria perdida para sempre uma linhagem genética única. “Era importante selecionarmos aves jovens, com perfis genéticos distintos na medida do possível, que tivessem pouco tempo de cativeiro e grande potencial reprodutivo”, comenta o biólogo Mercival Roberto Francisco, da UFSCar, campus de Sorocaba, que coordena a parte genética dos estudos. “Nenhuma das aves reintroduzidas é irmã de outra.” Tudo isso ajudaria, em tese, no processo de reintrodução da espécie e sobretudo em sua sobrevivência na reserva. Mutuns das linhagens genéticas mais raras só deverão ser soltos na reserva quando a adaptação ao ambiente natural for considerada um sucesso.

Nos estágios iniciais do processo de reintrodução, o biólogo Thiago Dias também tem a incumbência de, a cada dois dias, colocar água e alimentos, como ração e frutas, em uma área próxima ao viveiro da reserva. Caso algum mutum esteja com dificuldade de encontrar comida na mata, não há risco de morrer de fome. “Tenho de tomar cuidado para não entrar em contato com os animais”, conta Dias. “Eles devem temer o homem, e não criar afeição.” Se tudo correr como esperado, será possível saber se os mutuns levados para a reserva terão cruzado no segundo semestre de 2020. Nos próximos meses, também está prevista a soltura de outras aves, como macucos, papagaios e jacus, na área da reserva a fim de aumentar a biodiversidade local.

Projeto
 
Avaliação, recuperação e conservação da fauna ameaçada de extinção do Centro de Endemismo Pernambuco (CEP) (nº 17/23548-2); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Luís Fábio Silveira (USP); Investimento R$2.051.344,52.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Legado para ornitologia brasileira
Obra de docente da Unesp é publicada na Alemanha
Assessoria de Comunicação e Imprensa
 
15/02/2018
Dr. Edwin O. Willis,  o Prof. Willis, como era conhecido no Câmpus da Unesp de Rio Claro, foi ornitólogo e professor no Departamento de Zoologia. Era um ávido estudante de aves desde sua infância, e direcionou sua carreira profissional para o estudo das aves, mesmo que sua família almejava outros horizontes para ele.

Assim, percorria a fazenda de seu pai, observando as aves, procurando seus ninhos, e tentando conhecer as colorações de sua plumagem para aprender a reconhecê-las na natureza pelo seu nome popular e científico. Aos 14 anos já estava publicando seus achados, mas conheceu as matas tropicais do México, nos anos 50. 

Encantou-se com a mata luxuriante e a beleza das aves que nela se escondia. Especializou-se em aves seguidoras de formigas de correição, e fez do assunto sua tese de doutorado, em Berkeley, na Universidade de Califórnia, EUA. Depois disso, expandiu as áreas para o sul da América Central, almejando determinar quais as espécies de aves estavam seguindo as formigas de correição.

Em 1967, foi convidado para orientar uma aluna que iniciava os estudos sobre esse mesmo tópico: aves seguidoras de correição em Belém, no Pará.  Com essa visita para ajudar a aluna, conheceu aquela que se tornaria sua esposa em 1970. Essa convivência e contínuo trabalho nas matas tropicais, os tornaram mais conhecidos por serem os únicos pesquisadores a estudar a fundo as aves seguidoras de correição. Prof. Willis esteve também, na África, para estudar o mesmo tópico em vários países.

Em 2005, depois de 28 anos de trabalhos como professor de zoologia na Unesp, Câmpus de Rio Claro, foi aposentado compulsoriamente, sendo na ocasião figura conhecida por suas caminhadas à procura de aves, tanto no campus, como no Lago Azul, na Fazenda São José ou no Horto Florestal de Rio Claro ou Itirapina.

Tendo sua saúde comprometida pela artrite que o incomodava desde cedo em sua vida, caminhava com dificuldade, mas era persistente e aplicado em seus estudos. Nos anos 2010, depois de 2 quedas em 2 anos consecutivos. Ficou impossibilitado de andar, mas continuou suas observações de sua cadeira e auxiliado por sua esposa, Yoshika.

Com as complicações decorrentes desta condição, veio a falecer em abril de 2015. Na ocasião, era mundialmente famoso, juntamente com sua esposa, pelos seus estudos ímpares pela dificuldade e o desafio que era estudar as aves seguidoras de correição. Até hoje, não se encontrou alguém a aceitar tal desafio, tal a dificuldade e a dedicação que é necessária para tal estudo.

Seus relatos, suas monografias acerca da história natural das aves de matas tropicais são ímpares. Mais importante se tornam quando vemos a todo dia, a mata sendo devastada por donos de serraria, de propriedades enormes com matas luxuriantes devastadas por cobiça ao dinheiro, posição ou status.  Hoje em dia, poucos no Estado de São Paulo conhecem as formigas de correição, porque elas desapareceram das matas aqui; o estado tendo menos de 3 % de sua área coberta por vegetação natural.

Prof. Willis, como resultado de seus estudos, publicou e batalhou para a preservação das matas do Brasil, tendo uma certa ocasião, ido até Brasília, solicitar ao então Secretário do Meio Ambiente, Dr. Paulo Nogueira Neto, a preservação de um trecho de mata na região de Santo Amaro, na Bahia para proteção de várias espécies de aves, em especial dois thamnofilídeos, o papa-taóca-da-bahia, Pyriglena atra e o gravatazeiro, Rhopornis ardesiacus.

Presentemente, Yoshika Oniki-Willis , sua esposa e companheira de pesquisa por quase 45 anos, em sua homenagem, esta tentando terminar e tornar público os manuscritos e os rascunhos deixados  por ele. Desde 2015 ela publicou 7 de seus trabalhos (um deles de co-autoria com ela) e um livro na Alemanha com uma coleção de 6 trabalhos dele, mais duas traduções para o inglês (ambos de co-autoria com ela).

O livro publicado na Alemanha  em 2017, está em inglês, é denominado “Collection of Papers by Edwin O. Willis and Yoshika Oniki-Willis” e consta dos seguintes trabalhos:

- On the shady origins of bipedalism and endothermy in birds.

- Birds last: Avoiding zoological zigzags.

- Statistics, gringos and woodpecker toes.

- Birds at two human used parks on the Itirapina Chapada, São Paulo State, Brazil.

- A second look at the birds of the Fazenda São José Forest, 1982-2005.

- Could natural corridors slow down “bandit transit?”.

- Dust-bathing in sparrows: still a mystery (YO-Willis – EOWillis)

- Bird bathing in a natural tree cavity (YO-Willis - EOWillis)

Acesse: https://www.lap-publishing.com/catalog/details/store/tr/book/978-620-2-01355-0/collection-of-papers-by-edwin-o-willis-and-yoshika-oniki-willis?locale=gb

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Floresta urbana revela riqueza de aves
Pesquisa da Unesp é publicada em revista internacional
Assessoria de Comunicação e Imprensa
12/06/2017
Serra da Cantareira
 
Vinicius Tonetti, atualmente aluno de doutorado do Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências da Unesp de Rio Claro, realizou uma pesquisa inédita que revelou uma riqueza de aves surpreendente na Serra da Cantareira, região metropolitana de São Paulo.
 
Vinicius é biólogo e ornitólogo (isto é, cientista que estuda aves), e frequenta a Serra da Cantareira desde o início de sua graduação. O estudo foi desenvolvido paralelamente ao mestrado de Vinicius (Veja em: http://www.unespciencia.com.br/2017/01/ecologia-82/) e contou com a colaboração de outros cinco pesquisadores de universidades e centros de pesquisa no Brasil e exterior.

O estudo foi aceito para a publicação no periódico científico internacional Zoologia: an international journal for zoology.Foi publicado em junho. Acesse em: https://zoologia.pensoft.net/articles.php?id=13728
A pesquisa visou realizar um levantamento histórico de todas as espécies de aves com ocorrência confirmada na Serra da Cantareira. Para isso foram feitas buscas por exemplares depositados nas coleções científicas mais importantes do Brasil, Estados Unidos e Europa. Essas buscas foram somadas a um extenso levantamento bibliográfico de outros trabalhos científicos já publicados. Além disso, as espécies registradas em campo por Vinicius e colaboradores durante a última década também foram contabilizadas. Os resultados apontam que ao menos 326 espécies de aves ocorrem na região.
A Serra da Cantareira está situada principalmente em partes dos municípios de São Paulo, Guarulhos, Mairiporã e Caieiras e apresenta uma área florestal extensa (cerca de 10.000 hectares). Apesar de estar em uma das regiões mais urbanizadas do planeta, o número de espécies de aves encontrado na Serra da Cantareira é similar ao de locais situados na Serra do Mar, onde se encontra o maior remanescente contínuo de Mata Atlântica, com mais de um milhão de hectares e em bom estado de preservação. A Serra da Cantareira é considerada importante para a conservação das aves da Mata Atlântica de acordo com a BirdLife International, a maior ONG de conservação de aves no mundo, e a pesquisa desenvolvida reforça a importância da região para a conservação da biodiversidade.
Sete espécies registradas na Cantareira, como a araponga (Procnias nudicollis) e o pixoxó (Sporophila frontalis), estão ameaçadas de extinção em nível global e outras, como o macuco (Tinamus solitarius), são bastante raras em muitas regiões da Mata Atlântica devido à caça ilegal. Além disso, aves de rapina de grande porte que se alimentam de mamíferos médios, como o gavião-pega-macaco (Spizaetus tyrannus), podem ser encontradas com certa frequência na Serra da Cantareira, mesmo em áreas de floresta que fazem limite com a cidade de São Paulo. Das 326 espécies, 80 são endêmicas da Mata Atlântica, ou seja, só existem neste bioma.
A Mata Atlântica é uma das florestas tropicais mais devastadas do mundo e apresenta apenas cerca de 12% de sua cobertura de vegetação nativa. Além de ter sido severamente reduzido, os remanescentes florestais de Mata Atlântica estão bastante fragmentados e isolados uns dos outros, o que é extremamente prejudicial à biodiversidade. Grandes blocos de floresta como os presentes na Serra da Cantareira são atualmente raros na Mata Atlântica, e, além da sua importância para a conservação das aves, vale ressaltar a importância dessas florestas para os próprios seres-humanos. O sistema Cantareira abastece cerca de 9 milhões de pessoas, e suas florestas são as principais responsáveis pelo armazenamento e qualidade da água nos reservatórios. Além disso, as florestas da Cantareira contribuem para manter o clima ameno em alguns bairros da zona norte do município de São Paulo e para o bem estar geral da população.
O estudo foi aceito para a publicação no periódico científico internacional Zoologia: an international journal for zoology e estará disponível na íntegra em breve.
Sobre o pesquisador:
Vinicius Tonetti é bacharel em Ciências Biológicas (2012) pela Universidade de São Paulo e mestre (2015) em Ciências Biológicas (Zoologia) pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”; Campus de Rio Claro. Trabalhou com conservação na Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil (SAVE Brasil; BirdLife International Affiliate) e em projetos de pesquisa ornitológica em diversas regiões do país pela Seção de Aves do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZUSP). Suas áreas de interesse são ecologia e conservação de aves neotropicais. 
Fonte: http://unan.unesp.br/destaques/27579/floresta-urbana-revela-riqueza-de-aves

sábado, 17 de dezembro de 2016

Ornitologia: Cantadas constantes

Mecanismos neuronais explicam a estabilidade vocal de passarinhos 

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Revista Pesquisa FAPESP
Podcast: Tarciso Velho
00:00 / 08:18
Quem já ouviu o insistente canto do sabiá-laranjeira durante os dias, ou em horas inusitadas das madrugadas de primavera nas cidades brasileiras, há de ter percebido as notas repetidas incansavelmente. Uma possível explicação para os aspectos repetitivos desse canto acaba de surgir do estudo do cérebro de outro passarinho: o mandarim (Taeniopygia guttata), uma espécie muito usada em experimentos comportamentais em laboratório. Um dos tipos de células da complexa e adaptável rede neuronal responsável pelas manifestações vocais em pássaros canoros se mantém estável nos mandarins, de acordo com artigo publicado em outubro na Nature Neuroscience.

“O canto dos adultos tem repetições praticamente idênticas umas às outras”, explica o neurocientista Tarciso Velho, professor no Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e um dos autores do estudo. “Isso faz desses animais um modelo ideal para o estudo da relação entre a atividade neuronal e o comportamento.” O grupo, coordenado pelo físico norte-americano Timothy Gardner, da Universidade de Boston, nos Estados Unidos, analisou a ação de dois grupos de neurônios em uma área específica do cérebro responsável pelo controle do canto, conhecida como HVC. Os neurônios inibitórios têm uma ação intensa local, dentro do HVC. A hipótese vigente é de que quando a atividade deles diminui, outro tipo de célula neuronal, os neurônios excitatórios, entra em ação e ativa uma cadeia de neurônios que controla a musculatura ligada à produção do canto.

O mistério quanto à estabilidade vocal vem da plasticidade que caracteriza o núcleo cerebral que controla o canto. No cérebro do pássaro, e em algumas áreas do de mamíferos, há um processo constante em que algumas células morrem enquanto novas são geradas. Além disso, mesmo em uma população estável de células, as conexões entre elas podem passar por rearranjos. Essas alterações na conectividade neuronal são interpretadas como as bases neurais do aprendizado, um processo no qual o sono parece exercer um papel importante. “Quando registramos imagens durante o canto, observamos que a atividade dos neurônios excitatórios variava de um dia para o outro, com células entrando e saindo do conjunto que participava da produção do canto, de maneira que os participantes da atividade neural não eram sempre os mesmos”, explica Velho. Mas apesar desse cenário dinâmico, o canto permanece estável. O segredo parece estar nas células inibitórias: nos experimentos feitos em Boston, sua atividade variou pouco (ver infográfico). Isso parece ser responsável pela constância de um atributo central ao reconhecimento dentro da espécie, sem o qual as fêmeas teriam mais dificuldade de encontrar seus pares reprodutivos.

A cabeça por dentro
 
Esses resultados foram possíveis graças a minúsculos equipamentos desenvolvidos por Gardner. “Se o pássaro fica preso, ele não canta”, explica Velho. “Precisamos deixá-lo solto na gaiola, com aparelhos que não atrapalhem a sua movimentação.” Atendendo a essa necessidade, os pesquisadores implantaram eletrodos no cérebro dos passarinhos para monitorar as células inibitórias por vários meses. Ainda mais impressionantes são microscópios miniaturizados pesando menos de 2 gramas. Produzidos com o auxílio de uma impressora 3D, esses microscópios foram implantados no cérebro dos pássaros e permitiram detectar a fluorescência emitida pela atividade das células excitatórias graças a uma proteína inserida por meio de vírus para funcionar como sensor de cálcio – elemento central à atividade elétrica dos neurônios. “Ambos os métodos permitiram fazer registros do cérebro em aves que estavam acordadas, se comportando e movimentando livremente”, afirma Gardner.

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Para o físico norte-americano, o comportamento distinto que essas técnicas detectaram nos dois tipos de células é o que está por trás da estabilidade do canto. Mesmo que a atividade de cada neurônio excitatório varie, eventuais falhas são compensadas pela ação de células vizinhas, que tendem a disparar simultaneamente. “Essa redundância sugere que, se uma célula deixa de funcionar, outra poderá desempenhar um papel semelhante e manter a estabilidade da rede e, consequentemente, o resultado motor”, analisa. O estudo mostrou também que a ação local das células inibitórias é o que modula o funcionamento dessa rede. “Neurônios individuais poderiam otimizar sua atividade dentro de uma estrutura maior que permanece imutável por anos.”

Com seus comportamentos previsíveis e inalterados na vida em gaiola imposta pela condição de cobaia de laboratório, os mandarins são os queridinhos de pesquisadores concentrados em compreender o desenvolvimento vocal – um comportamento aprendido, repetitivo e estereotipado. Gardner defende que eles podem contribuir ainda para a elucidação de aspectos da fala humana. “Redes neurais no cérebro de mamíferos precisam resolver problemas semelhantes”, diz. “Seria interessante investigar se esses programas motores são controlados e mantidos de maneira parecida.” Dizem que uma vez que se aprende a andar de bicicleta, nunca mais se esquece. Resta saber se mecanismos envolvendo neurônios inibitórios e excitatórios podem estar por trás desse tipo de capacidade motora de longa duração.

Artigo científico
 
LIBERTI III, W. A. et al. Unstable neurons underlie a stable learned behavior. Nature Neuroscience. On-line. 10 out. 2016.

domingo, 13 de março de 2016

BIOLOGIA DAS AVES

 
Introdução
Bicos das aves e a alimentação
Asas e pés das aves
Como são e para que servem as penas das aves?
Como as aves voam?
Como se reproduzem e como são os ninhos?
Como as aves cantam?
 
 
As aves pertencem ao grande grupo dos animais vertebrados que evoluíram a partir dos répteis e reúnem as seguintes características:
 
- são dotados de bicos (não possuem dentes)
- o corpo é coberto por penas que são adaptações para o vôo
- Apóiam-se em duas patas (são bípedes)
- Possuem ossos e sacos pneumáticos (corpo leve)
- Possuem metabolismo elevado e geram calor (endotérmicas)
- Regulam a temperatura do corpo (homeotérmicas)
- Os filhotes nascem de ovos com casca dura (ovíparos).

Veja ao lado as partes do corpo de uma ave, tendo como exemplo, o quero-quero.
Apesar de todas as aves compartilharem características comuns entre si são muito variadas quanto ao tamanho, forma, comportamento e locais onde vivem.
Assim temos aves minúsculas como os beija-flores e enormes como as avestruzes. Aves que voam e não voam. Aves que cantam e não cantam.
 
Quantas espécies de aves existem?
 
Ao todo, já foram identificadas em torno de 9.000 espécies diferentes. A diversidade das aves está intimamente relacionada com o ambiente onde vivem. Há espécies amplamente distribuídas no planeta assim como as que vivem restritas em determinados ambientes. A classificação das aves varia conforme os autores. Segundo a classificação cientificamente mais aceita (a de Sibley-Ahlquist) há 146 famílias e 23 ordens de aves conhecidas. 
 
A lista de aves brasileiras corresponde a 1.825 espécies, segundo o Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos.
 
No Jardim Botânico do Instituto de Biociências registramos 125 espécies diferentes desde as que são observadas durante o ano todo e as que ocorrem temporariamente. Clique aqui e veja o nosso Guia de Aves do JB.   

Como são e para que servem as penas das aves?
Como as aves voam?
Como se reproduzem e como são os ninhos?
Como as aves cantam?
 

As partes e os tipos de penas

Sem as penas, a ave não pode voar. As penas são consideradas obras-primas de engenharia: resistente, flexível, reparável e belo. A quantidade total de penas das diferentes aves varia bastante. Ainda que reparáveis estão sujeitas a desgastes e as aves trocam as penas uma vez por ano.
 
Uma pena possui as seguintes estruturas:
Câlamo: é a parte do tubo transparente que fica mergulhado dentro da pele.
Raque: é a continuação do câlamo que fica para fora da pele
Barbas: ramificações que saem da raque dos dois lados formando o vexilo
Barbelas: ramificação da barba.
 
As penas cobrem o corpo variam e possuem um nome e função próprias:
Tetrizes (penas de contorno): são pequenas e cobrem o corpo da ave, fazendo com que fique mais fácil de voar.
Plúmulas: ficam por baixo das penas de contorno. Formam uma camada de ar que funciona como se fosse um agasalho conservando o calor do corpo.
Penas de vôo: são longas e muito resistentes. As da cauda são chamadas de rectrizes e da asa, rêmiges.
Filoplumas e cerdas: são penas modificadas. As cerdas são comuns ao redor dos olhos e da boca e funcionam como se fossem órgãos do tato.
 

Clique aqui e veja a bela ilustração sobre a variedade de penas.
 
Você sabia que as penas das aves equivalem às escamas dos répteis e dos peixes e os pelos dos mamíferos? É isso mesmo: escamas, penas e pelos são estruturas da pele formadas de proteínas fibrosas chamadas queratina. Podemos dizer que são as roupagens naturais.
 

Propriedades das penas


As aves já nascem com penas, quase pelados ou poucas penas. Aos poucos as penas vão cobrindo o corpo e quando deixam o ninho, ficam totalmente empenados. Note as diferentes etapas do crescimento e mudança de plumagem de uma gaivota. Depois de adultos as aves fazem mudas para substituir penas desgastadas por novas.
Depois de adquirirem as penas de adulto, na época de reprodução, os machos de muitas espécies ficam muito diferentes das fêmeas. Por outro lado, em outras espécies, a plumagem de ambos os sexos são tão parecidas que é difícil saber quem é macho e quem é fêmea.Veja:

Casal de choca-barrada (a esquerda a fêmea)                                         Casal de periquitão-maracanã
  http://www.wikiaves.com.br/fotos/m0009/9761g.jpg                                     http://www.wikiaves.com.br/fotos/m0038/38090g.jpg 


As penas não servem apenas para cobrir o corpo e facilitar o vôo. As penas retém ar e proporciona um acolchoado que conserva o calor do corpo da ave. Além disso, proporcionam a defesa anti-predatória: quando a ave está em repouso e imóvel, as cores das penas confundem-se com o meio ambiente, ficando o corpo camuflado e invisível aos predadores. Você consegue identificar o urutau oculto, na fotografia ao lado?


As penas são importantes elementos da comunicação entre os indivíduos da mesma espécie. Quando a época de acasalamento chega, os machos de várias espécies trocam as penas adquirindo penas nupciais que os tornam exuberantes. Quando a muda se completa, o macho toma as iniciativas, exibindo-se para as fêmeas, dançando, vocalizando e mostrando todos os atributos para elas, na esperança de ser escolhido para o acasalamento. E as fêmeas? Elas não ficam chamativas como os machos; apenas observam e escolhem o macho que será o pai de sua prole.

Assista ao cortejo de espécies de ave-do-paraíso. Note como a forma e a cor das penas proporcionam efeitos impressionantes.
 


Assista a um vídeo sobre o ritual de acasalamento da ave-do-paraiso-de-doze-fios da Nova Guine. O exagero da sua plumagem e o modo como ele corteja a fêmea torna-o inconfundível, ou seja, assegura que ela tenha certeza que é o parceiro sexual da mesma espécie.

Note a diferença entre os sexos quanto ao padrão das penas.

Os seres humanos também ficam fascinados pela exuberância das penas. Tradicionalmente são utilizados por várias culturas como adornos estéticos ou indicação de posição social (várias culturas aborígenes).

 
Como as penas das aves ficam coloridas?


São basicamente devido a dois processos.

a) Por causa de pigmentos com propriedades de interagir com a luz.
As galinhas de uma granja são branquinhas e os urubus, totalmente negros. As penas brancas são por causa da falta de uma substância chamadas melanina e no caso das penas negras é devido à uma grande quantidade. Conforme a quantidade de melanina, as cores ficam intermediárias como cinza e marrom. Mas e as penas coloridas e brilhantes? Nesse caso, há outros tipos de pigmentos que refletem parte da luz incidente: a cor amarela, abóbora e vermelha é por causa de pigmentos chamados carotenóides. Essas substâncias são obtidas pelas aves através da alimentação. Outras cores como marrom e vermelho, se deve a um outro grupo de substâncias chamadas porfirinas que são naturalmente de cor púrpura. 
b) Por causa de propriedades estruturais das penas
As cores brilhantes e iridescentes dos beija-flores e do pavão resultam de como a luz reflete sobre penas especiais. Nessas penas, há cristais muitíssimos pequenos (só dá para ver em microscópios especiais) que funcionam como se fossem milhares de prismas refletindo a luz. A bolha de sabão e as penas dos beija flores produzem efeitos de reflexão de luz semelhantes e que tanto admiramos. O efeito estrutural pode ser combinado com a presença de pigmentos específicos.
Bom, o que você acha se um beija-flor for observado à sombra, com pouca luz? Será que observamos o mesmo efeito??
Experimente: faça bolhas de sabão ao sol e à sombra.


Bicos das aves e a alimentação
 
 
 
Como é o bico ?
 
O bico das aves é formado de duas partes: a mandíbula superior e mandíbula inferior. A forma do bico varia muito em função do hábito alimentar ou seja, depende do que uma ave se alimenta.
Também no bico situa-se o par de narinas por onde o ar entra e sai durante a respiração.


Diversidade e adaptação dos Bicos

 
Todo mundo sabe que os mamíferos possuem dentes e usam-nos para triturarem o alimento antes de engolir, não é verdade? A sua mãe já deve ter recomendado várias vezes: filho, mastigue bem a comida antes de engolir! Mas as aves são banguelas, ou seja, não possuem dentes e engolem o alimento sem mastigar!
 
E como as aves que comem grãos e sementes resolvem o problema? É fácil: possuem uma solução alternativa aos dentes, ou seja, um órgão muscular triturador chamado moela que fica antes do estômago. Na moela, os grãos são quebrados em pedacinhos menores para facilitar a digestão química. Já as aves que comem alimentos macios como carne, polpas de frutas, néctar, etc., não precisam de moela.

As aves são carnívoras (comedoras de outros animais), herbívoras (comedoras de plantas) ou onívoras (comem as duas coisas). E para cada tipo de alimento, um tipo de bico. Os bicos são práticos: desgastam com o uso mas são renovadas durante toda a vida! Veja a diversidade de bicos de diferentes aves.
 
 
 
Tipo de bico
O que come?
O bico longo funciona como uma pinça para capturar pequenas presas e furar frutas maduras. É assim que o bem-te-vi alimenta-se de uma dieta onívora.
As aves que se alimentam de sementes ou grãos duros, usam a força do bico na sua base, como faz esse colerinho para quebrar a casca. As aves que se alimentam de sementes possuem bicos cônicos.

A viuvinha é uma ave tipicamente insetívora. Ela fica empoleirada num ponto bem alto de uma árvore, espera e observa a aproximação dos insetos e captura-os em pleno vôo.
 
As aves que se alimentam de carne possuem bicos fortes e em forma de gancho para cortar e rasgar como o gavião carijó que se alimenta-se de pequenos verterados.



O urubú-de-cabeça-preta   possui o mesmo padrão de bico porém mais longo. Ele não caça mas se alimenta da carcaça de outros animais.
As aves que se alimentam do néctar das flores como o beija-flor possuem bicos longos e língua compridos. O bico longo permite alcançar os nectários, locais de armazenamento do néctar das flores.
O pica-pau-de-topete-vermelho está sempre bicando os troncos  de árvores à procura de  larvas de insetos. Além de um bico forte, possui uma língua excepcionalmente longa para capturar as larvas que ficam escondidas dentro da árvore.
As aves que se alimentam de frutos maduros e partes macias das plantas não possuem bicos duros. É o caso da jacupemba.
O talha-mar, ave do Pantanal, possui o bico inferior mais longo do que superior. Em vôo rasante sobre superfície da água com o bico inferior aberto e dentro da água, captura os peixes que encontra no caminho!
O periquito-de-encontro-amarelo possui um bico curto para obter força na base para quebrar nozes e a ponta curva para  para remover a amêndoa. Um detalhe:  veja o uso da pata para segurar enquanto o bico trabalha.
 
No JB flagramos várias aves se alimentando durante as nossas observações. A utilização de recursos alimentares pelas aves varia ao longo do ano em função das estações e do hábito alimentar e do habitat. 

Assim, há aves que descem até o chão para procurar alimento (sabiás, tico-tico, rolinhas, maria-faceira, etc.) e outras que jamais são vistos no solo (beija-flores, bem-te-vi, ferreirinho-relógio, tucano, etc.). Na região do lago observamos a jaçanã caminhando entre a vegetação e capturando pequenos insetos e até peixes. É fascinante observar o vôo rasante do bentevizinho-de-penacho-vermelho capturando peixes na superfície da água ou a andorinha-serradora bebendo água. Por outro lado, outras aves nunca são vistas próximos a região do lago.

A riqueza da avifauna local está intimamente associada à ocorrência de recursos alimentares e reprodutivos, bem como a ausência de predação humana.
 
Exemplo de ave Comportamento alimentar
  Flagramos o sovi capturando uma pequena ave em pleno vôo com uma das patas e, em seguida, alimentando-se no alto de um eucalipto. Com um pé prendia a presa sobre o galho e com o bico rasgava a carne. 
Ouvimos o som ritmado de tamborilar e identificamos o pica-pau-banda-branca, dando voltas em torno do galho na posição vertical e alimentando-se de larvas.
A viuvinha fica pousada bem no alto da copa das árvores, aguardando o momento certo para capturar insetos em pleno vôo.
O sabiá desce ao chão para procurar alimento. Quando forrageia entre as folhas caídas é muito difícil localizá-lo pois confunde-se facilmente com o ambiente.
O tiziu alimenta-se de sementes de gramíneas mas os filhotes são alimentados com larvas de insetos.
Em torno do lago vimos a maria-faceira capturando precisamente um verme com o seu bico em forma de pinça.
Outra ave pernalta que vimos forrageando o JB foi um casal de seriema, porém em local mais seco, distante do lago.
 
 

Outras funções dos Bicos

 
As aves usam os bicos não só para se alimentarem como também para transportarem materiais, construir ninhos e pentear as penas.

Veja o ninho construído pelo casal de caneleiro-de-chapeu-preto, no alto do pé de eucalipto. Não é admirável o fato dele usar apenas o bico para trançar as fibras? O interessante é que todo ano o casal volta ao mesmo sitio e recicla o material do ninho antigo.
Aqui está o suiriri ajeitando as penas das asas com o bico. Além de pentear as penas que devem estar sempre alinhadas para o vôo, o bico serve para fazer a higiene pessoal e dos filhotes.
Durante os rituais de acasalamento o bico pode ser usado para fazer um cafuné como observamos entre o casal de pombão.