Professor no IGCE de Rio
Claro, Giancarlo Scardia foi responsável pela datação das amostras
encontradas nas expedições na Jordânia. Imagem: Divulgação.
A
já complicada e sempre polêmica história da evolução humana acaba de
ganhar uma nova versão, escrita por cientistas brasileiros.
A espécie
que teria saído da África pela primeira vez teria sido o Homo habilis, e não o Homo erectus;
e isso teria acontecido 500 mil anos antes do que se pensava — o que
permitiria explicar diversos mistérios relacionados à história dos
hominídeos no Cáucaso, na China e na Indonésia.
A nova
narrativa, apresentada no Instituto de Estudos Avançados da Universidade
de São Paulo (IEA-USP), é baseada em evidências arqueológicas
desenterradas pelos pesquisadores no vale do rio Zarqa, na Jordânia,
próximo à capital Amã.
Eles descobriram centenas de ferramentas de pedra
lascada com 1,9 milhão a 2,5 milhões de anos de idade, claramente
produzidas por mãos humanas.
O problema é que, segundo a teoria que predomina hoje sobre a evolução e dispersão do gênero homo (linhagem que deu origem aos seres humanos modernos), o primeiro hominídeo a deixar a África foi o Homo erectus,
entre 2 milhões e 1,8 milhão de anos atrás.
Então, quem teria produzido
aquelas ferramentas no Oriente Médio, meio milhão de anos antes? Fotos e desenhos de ferramentas líticas, de 2,45 milhões de anos (Crédito: Fabio Parenti) Pedras lascadas coletadas na Jordânia (Crédito: Cecília Bastos/USP Imagens)
O trabalho não chega a cravar um nome no papel, mas o pesquisador Walter Neves tem opinião convicta sobre o assunto: “Foi o Homo habilis”, profere ele.
A datação dos artefatos jordanianos foi confirmada por três técnicas diferentes, e o Homo habilis era a única espécie de hominídeo (do gênero homo)
que já vagava pela África naquela época, 2,5 milhões de anos atrás.
Sendo assim, é o principal e único suspeito. O nome “homem habilidoso”
refere-se justamente à sua associação pioneira com a produção de
utensílios de pedra lascada.
“Acho que geramos a data precisa de saída dos hominídeos da África”,
avalia Neves, professor aposentado do Instituto de Biociências da USP e
pesquisador do IEA.
O novo cronograma se encaixa perfeitamente — no
tempo e no espaço — com o de outra descoberta recente, feita por outros
estudiosos, que encontraram ferramentas líticas de 2,4 milhões de anos
na Argélia, no norte da África, próximo à “porta de saída” para o
Oriente Médio.
Segundo os pesquisadores, não há dúvidas sobre a idade dos artefatos
da Jordânia nem sobre o fato de que eles foram produzidos por hominídeos
(e não por processos naturais). “Há evidências muito claras de
lascamento intencional”, disse o arqueólogo Fabio Parenti, do
Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR),
um dos líderes da pesquisa, que escava na região desde a década de 1990.
As peças são principalmente núcleos e lascas de pedra, características
da chamada “indústria olduvaiensi”, que nossos ancestrais mais
primitivos do gênero homo usavam para quebrar objetos e cortar as carcaças de animais dos quais se alimentavam.
“Não encontramos fósseis porque essa região da Jordânia não conserva
bem fósseis, mas achamos as ferramentas desses hominídeos”, explica
Neves. “Os resultados não poderiam ser mais convergentes.”
Especialista em evolução humana, e popularmente conhecido como “pai
da Luzia” — por conta de seu trabalho com o fóssil mineiro que se tornou
símbolo do povoamento das Américas —, Neves é um dos seis autores do
trabalho que será publicado neste sábado, 6 de julho, na revista Quarternary Science Reviews.
Ele e Parenti assinam o estudo com o geólogo Giancarlo Scardia, da Universidade Estadual Paulista (Unesp – Rio Claro),
e o geoarqueólogo Astolfo Araújo, do Museu de Arqueologia e Etnologia
da USP, além de colaboradores nos Estados Unidos e na Alemanha, que
contribuíram com parte das análises. Equipe de pesquisadores durante exploração que encontrou ferramentas de pedra lascada no vale do rio Zarqa, na Jordânia (Crédito: Giancarlo Scardia)
Neves acredita que as ferramentas foram produzidas por uma população de Homo habilis recém-saída da África, em rota para a região do Cáucaso, onde mais tarde o Homo habilis daria origem ao Homo erectus — uma espécie maior, mais inteligente e mais moderna de hominídeo, considerada por muitos como a precursora do homem moderno (Homo sapiens).
Os famosos fósseis de Dmanisi, na República da Geórgia, segundo
Neves, seriam de uma forma transitória de hominídeo, com características
tanto de Homo habilis quanto de Homo erectus; o que
explicaria a grande variabilidade morfológica dos crânios encontrados
ali, com 1,8 milhão de anos de idade.
Essa diversidade já é discutida há
anos pela comunidade científica internacional, levando alguns
pesquisadores a propor que Homo erectus e Homo habilis não
eram espécies diferentes, mas, na verdade, variações de uma mesma
linhagem; com uma variabilidade anatômica equivalente à que existe,
ainda hoje, entre os chimpanzés.
“Acho que nossa pesquisa vai encerrar de vez essa discussão”, disse
Neves. A variabilidade dos crânios de Dmanisi, segundo ele, “é
exatamente o que se esperaria de uma espécie transitória”.
Nesse caso, então, o Homo erectus teria evoluído
primeiramente no Cáucaso, e só depois migrado para dentro da África,
onde seus fósseis mais antigos datam, também, e só começam a aparecer
por volta de 1,8 milhão de anos atrás.
“O grande desbravador”
Além da diversidade de Dmanisi, uma saída precoce do Homo habilis da
África também ajudaria a explicar a descoberta recente de artefatos de
pedra lascada em Shangchen, no leste da China, com 2,1 milhões de anos —
ou seja, anteriores ao Homo erectus. Neves acredita que elas, também, tenham sido produzidas pelo Homo habilis — o que significaria que o Homo habilis não só foi o primeiro a sair da África, como o primeiro a ocupar a Eurásia.
“O grande desbravador foi o habilis”, afirma Neves. O Homo habilis era bem menor do que o Homo erectus,
tanto em estatura (1,20 m x 1,75 m) quanto em volume cerebral (650 cm3 x
850 cm3), mas já era bípede e perfeitamente capaz de caminhar longas
distâncias, garante Neves.
Mais audacioso ainda, ele sugere que o Homo habilis — e não o Homo erectus — foi a espécie que deu origem ao Homo floresiensis,
um hominídeo pigmeu que viveu até bem recentemente (20 mil anos atrás)
na Ilha de Flores, na Indonésia. Apelidado de Hobbit, ele tinha pouco
mais de 1 metro de altura e um cérebro equivalente em tamanho ao de um
chimpanzé.
Pesquisadores debatem há anos, intensamente, se o Homo floresiensis era uma espécie portadora de microcefalia ou outra malformação genética, ou apenas uma versão reduzida de um Homo erectus —
encolhida pelo chamado “efeito ilha”, um processo evolutivo que tende a
reduzir o tamanho de espécies que vivem restritas a ambientes
insulares.
Para Neves, a hipótese do Homo habilis faz mais sentido, porque se tratava de uma espécie já naturalmente menor. “Seria muito mais fácil para a evolução espremer um Homo habilis no formato de um floresiensis do que um Homo erectus”, diz.
Reconstruir a história da evolução humana é como tentar reescrever o roteiro de um filme baseado apenas em um trailer,
ou narrar a história de um livro com base apenas em algumas folhas, sem
saber exatamente quem são os personagens, de onde eles vêm, como eles
se relacionam ou o que cada um faz. As evidências são poucas e difíceis
de serem encontradas, o que faz da paleoantropologia (o estudo da
evolução humana com base em fósseis) um do campos mais competitivos,
polêmicos e espetaculares da ciência.
Ceticismo
Os pesquisadores não têm dúvida que o trabalho e suas implicações
para o estudo da evolução humana serão recebidos com “muito ceticismo”
pela comunidade científica internacional. “Vamos ser destroçados”,
declarou Neves, com a tranquilidade de quem já está calejado nesse tipo
de coisa. “Com certeza vamos encontrar ceticismo, mas faz parte da
ciência”, disse Scardia, primeiro autor do trabalho e responsável pela
datação do material. “Temos muita confiança nos nossos resultados.”
O natural seria que uma descoberta desse porte fosse publicada numa revista de maior impacto, como Natureou Science.
Só não foi, segundo Neves, porque os editores dessas revistas “não
acreditam que possa haver vida inteligente abaixo do Equador”, pelo
menos no que diz respeito à paleoantropologia — uma área na qual o
Brasil não tem tradição de pesquisa internacional.
“Não queria me aposentar antes de botar o Brasil no mapa da
paleoantropologia mundial”, desabafa o sempre polêmico e aguerrido
Neves. “Engulam ou não, o Brasil está no mapa agora.”
“Acho que nossa pesquisa vai encerrar de vez essa discussão”, disse
Neves. A variabilidade dos crânios de Dmanisi, segundo ele, “é
exatamente o que se esperaria de uma espécie transitória”.
Nesse caso, então, o Homo erectus teria evoluído
primeiramente no Cáucaso, e só depois migrado para dentro da África,
onde seus fósseis mais antigos datam, também, e só começam a aparecer
por volta de 1,8 milhão de anos atrás. .
“O grande desbravador”
Além da diversidade de Dmanisi, uma saída precoce do Homo habilis
da África também ajudaria a explicar a descoberta recente de artefatos
de pedra lascada em Shangchen, no leste da China, com 2,1 milhões de
anos — ou seja, anteriores ao Homo erectus. Neves acredita que elas, também, tenham sido produzidas pelo Homo habilis — o que significaria que o Homo habilis não só foi o primeiro a sair da África, como o primeiro a ocupar a Eurásia.
“O grande desbravador foi o habilis”, afirma Neves. O Homo habilis era bem menor do que o Homo erectus,
tanto em estatura (1,20 m x 1,75 m) quanto em volume cerebral (650 cm3 x
850 cm3), mas já era bípede e perfeitamente capaz de caminhar longas
distâncias, garante Neves.
Mais audacioso ainda, ele sugere que o Homo habilis — e não o Homo erectus — foi a espécie que deu origem ao Homo floresiensis,
um hominídeo pigmeu que viveu até bem recentemente (20 mil anos atrás)
na Ilha de Flores, na Indonésia. Apelidado de Hobbit, ele tinha pouco
mais de 1 metro de altura e um cérebro equivalente em tamanho ao de um
chimpanzé.
Pesquisadores debatem há anos, intensamente, se o Homo floresiensis era uma espécie portadora de microcefalia ou outra malformação genética, ou apenas uma versão reduzida de um Homo erectus
— encolhida pelo chamado “efeito ilha”, um processo evolutivo que tende
a reduzir o tamanho de espécies que vivem restritas a ambientes
insulares.
Para Neves, a hipótese do Homo habilis faz mais sentido, porque se tratava de uma espécie já naturalmente menor. “Seria muito mais fácil para a evolução espremer um Homo habilis no formato de um floresiensis do que um Homo erectus”, diz.
Professor
Walter Neves fala sobre a descoberta de pedra lascada que indica
mudanças na história evolutiva dos humanos – Foto: Cecília Bastos/USP
Imagens. .
Reconstruir a história da evolução humana é como tentar reescrever o roteiro de um filme baseado apenas em um trailer,
ou narrar a história de um livro com base apenas em algumas folhas, sem
saber exatamente quem são os personagens, de onde eles vêm, como eles
se relacionam ou o que cada um faz. As evidências são poucas e difíceis
de serem encontradas, o que faz da paleoantropologia (o estudo da
evolução humana com base em fósseis) um do campos mais competitivos,
polêmicos e espetaculares da ciência. .
Afloramento no Vale do Zarqa, Jordânia, em 2014. A formação escavada é conhecida como Dawqara – Foto: cedida pelo pesquisador.
Ceticismo
Os pesquisadores não têm dúvida que o trabalho e suas implicações
para o estudo da evolução humana serão recebidos com “muito ceticismo”
pela comunidade científica internacional. “Vamos ser destroçados”,
declarou Neves, com a tranquilidade de quem já está calejado nesse tipo
de coisa. “Com certeza vamos encontrar ceticismo, mas faz parte da
ciência”, disse Scardia, primeiro autor do trabalho e responsável pela
datação do material. “Temos muita confiança nos nossos resultados.”
O natural seria que uma descoberta desse porte fosse publicada numa revista de maior impacto, como Nature ou Science.
Só não foi, segundo Neves, porque os editores dessas revistas “não
acreditam que possa haver vida inteligente abaixo do Equador”, pelo
menos no que diz respeito à paleoantropologia — uma área na qual o
Brasil não tem tradição de pesquisa internacional.
“Não queria me aposentar antes de botar o Brasil no mapa da
paleoantropologia mundial”, desabafa o sempre polêmico e aguerrido
Neves. “Engulam ou não, o Brasil está no mapa agora.”
A pesquisa foi financiada principalmente pela Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pela Wenner-Gren Foundation
for Anthropological Research, de Nova York. . .
Réplicas de crânios de hominídeos expostas em coletiva de imprensa no IEA – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
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estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP
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quinta-feira, 17 de outubro de 2019
Estudo investiga água líquida bem abaixo de 0ºC
Fase chamada de super-resfriada é tema de pesquisa científica de grupo da Unesp Rio Claro
15/10/2019por: José Tadeu Arantes | Agência Fapesp
Modelo teórico desenvolvido
na Unesp mostrou que, na água super-resfriada, existe um ponto crítico
no qual grandezas como a expansão e a compressibilidade térmicas
apresentam comportamento anômalo.
A
água pode manter-se líquida em temperaturas muito inferiores a 0 °C.
Essa fase, chamada de super-resfriada, é um tema atual da pesquisa
científica. Um modelo teórico desenvolvido na Universidade Estadual
Paulista (Unesp) mostrou que, na água super-resfriada, existe um ponto
crítico, no qual grandezas como a expansão e a compressibilidade
térmicas apresentam comportamento anômalo.
O estudo foi coordenado por Mariano de Souza,
professor do Departamento de Física do Instituto de Geociências e
Ciências Exatas da Unesp em Rio Claro, e contou com apoio da FAPESP.
Artigo a respeito foi publicado por Souza e colaboradores na revista
Scientific Reports.
“Nosso estudo evidenciou que esse segundo ponto crítico é um análogo
daquele que ocorre na faixa dos 374 ºC e sob pressão da ordem de 22
megapascais, quando a água transita entre os estados líquido e gasoso”,
disse Souza à Agência FAPESP.
Na faixa dos 374 ºC, coexistem na água duas fases, uma líquida e
outra gasosa. A gênese de tal comportamento exótico pode ser observada,
por exemplo, no interior de uma panela de pressão. Nesse ponto, as
propriedades termodinâmicas da água começam a apresentar um
comportamento anômalo. Por isso, o mesmo é classificado como “crítico”.
No caso da água super-resfriada, também coexistem duas fases, porém
ambas líquidas, uma mais densa e a outra menos densa. Se o sistema
continua sendo resfriado apropriadamente abaixo de 0 ºC, há um ponto no
diagrama de fases em que a estabilidade das duas fases se rompe. E a
água começa a cristalizar. Este é o segundo ponto crítico, determinado
teoricamente pelo estudo em pauta.
“O estudo mostrou que esse segundo ponto crítico ocorre na faixa de
temperatura de 180 kelvin [aproximadamente -93 °C]. Acima desse ponto, é
possível existir água líquida, a chamada água super-resfriada”, disse
Souza.
“O mais interessante é que o modelo teórico que desenvolvemos para a
água pode ser aplicado a todos os sistemas nos quais coexistam duas
escalas de energia. Por exemplo, um sistema supercondutor à base de
ferro que apresente também uma fase nemática [cujas moléculas se alinhem
em linhas paralelas soltas]. Esse modelo teórico teve origem em
diversos experimentos de expansão térmica em baixas temperaturas
realizados em nosso laboratório de pesquisa”, disse.
Esse modelo universal foi obtido a partir de um aprimoramento teórico
do chamado parâmetro de Grüneisen, assim denominado em referência ao
físico alemão Eduard Grüneisen (1877-1949). Dito de maneira
simplificada, esse parâmetro descreve os efeitos que a variação de
temperatura e pressão exerce sobre uma rede cristalina.
“Nossa análise dos parâmetros de Grüneisen e Pseudo-Grüneisen pode
ser aplicada para investigar o comportamento crítico em qualquer sistema
com duas escalas de energia. É necessário apenas ajustar adequadamente
os parâmetros críticos de acordo com o sistema de interesse”, disse
Souza.
Ostra exótica pode causar riscos para áreas do litoral paulista
Unesp Registro faz levantamento de dados biométricos para propor estratégias de controle
22/09/2019por: Jorge Marinho
A ostra exótica Saccostrea (acima) da região indo-pacífico e a ostra nativa Cassostera (abaixo) encontradas em Cananeia/SP.
Imagem: Divulgação Unesp Registro
A ostra Saccostrea, espécie de ostra de rocha encontrada
principalmente na área oceânica conhecida como indo-pacífico, que é a
região geográfica que compreende o Oceano Índico e a porção ocidental e
tropical do Oceano Pacífico, foi encontrada na região de Cananéia/SP,
onde ficam as áreas das Reservas Extrativista do Taquari e de
Desenvolvimento Sustentável de Itapinhapima, há dois anos, segundo a
Marília Cunha Lignon, professora do curso de Engenharia de Pesca do
Câmpus Experimental da Unesp, em Registro/SP.
A
região é reconhecida pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a
Educação, a Ciência e a Cultura) em função da alta diversidade
biológica, além de ter o reconhecimento também da Convenção
Internacional das Zonas Úmidas e ser parte do Mosaico de Áreas
Protegidas do Lagamar.
“A ostra Saccostrea começou a aparecer em pequenas
quantidades, em 2017, mas agora está se espalhando muito rápido porque
se reproduz por larva. Então, são milhares de larvas lançadas no
estuário de Cananéia/SP, a cada fase de reprodução da espécie. Controlar
essa expansão é bastante complicado”, analisa a pesquisadora que
informa ainda que não se sabe quais são as ameaças, tanto biológicas
quanto de biodiversidade, que essa espécie exótica de ostra pode trazer
para a região.
“Não
conseguimos ainda avaliar se ela pode colocar em risco as espécies
nativas, por isso, é muito importante avançarmos nos estudos para
conhecermos um pouco mais sobre a Saccostrea porque a presença
dela na região está aumentando. Em julho desse ano, quando fizemos o
monitoramento das parcelas permanentes em mangue, observamos que estava
muito espalhada nas áreas. Não podemos perder mais tempo! Precisamos
conhecer melhor a espécie e como é o comportamento dela em nossa zona
costeira”, destaca Marília Cunha Lignon.
O mapeamento da ocorrência dessa ostra exótica tem sido feito por
meio de visitas às áreas e entrevistando gestores de unidades de
conservação, pescadores tradicionais, monitores ambientais que estão
freqüentemente em contato com os manguezais e costões rochosos.
A última atividade dessa pesquisa, realizada durante "Semana de
Conservação dos Manguezais" de Cananéia/SP, envolveu os alunos do curso
de graduação em Engenharia de Pesca da Unesp, campus Registro,
matriculados na disciplina optativa "Ecossistema Manguezal e seus
Recursos Naturais", sob responsabilidade da professora Marília, a
Fundação Florestal, gestores das unidades de conservação, biólogos do
município e pescadores tradicionais que coletaram 50 quilos de ostras Saccostrea.
Cada indivíduo recolhido terá sua largura, comprimento e altura medidos
pelos estudantes da disciplina optativa da professora Marília.
“O
objetivo é conhecer a espécie e a dinâmica dela no ambiente. Um
conhecimento que será compartilhado com a Fundação Florestal e com os
gestores das unidades de conservação para que seja possível pensarmos
juntos estratégias de manejo e controle da espécie porque essa ostra
pode competir com a nativa Cassostrea, já que se fixa na raiz
do mangue vermelho, o lugar de desenvolvimento da ostra local”, explica
Marília Cunha Lignon, que também diz que serão realizados trabalhos para
apresentação em congressos científicos.
"Eu acho fundamental colocar o aluno de graduação de Engenharia
de Pesca em contato com os pescadores locais porque se valoriza o
trabalho e o conhecimento prático que os pescadores têm do ambiente. O
contato dos alunos com as equipes de gestão das unidades de conservação
costeira também faz com que percebam na prática a importância do apoio
de engenheiros de pesca para auxiliar no manejo de espécies costeiras. Quando
tiramos o aluno de sala de aula, das questões mais teóricas, e o
levamos para a prática, ele aprende muito mais rapidamente e de forma
muito mais estimulante”, conclui a pesquisadora.
“O trabalho de equipe, entre a Unesp, a Fundação Florestal, a
Prefeitura de Cananéia e monitores ambientais, na ação contra ostra
exótica só confirma a preocupação de todos com o bom funcionamento do
ecossistema manguezal. Cada aluno que participou da atividade pôde
observar as características dessa espécie exótica e os efeitos dela
dentro do estuário que serve berçário e abrigo para milhares de
espécies”, conta Wanilton Polachini Batista, aluno de Engenharia de
Pesca da Unesp, câmpus Registro.
“Foi uma experiência muito importante porque pude conhecer as pessoas
da comunidade local que extraem ostra, a equipe da Fundação Florestal.
Também pude saber essa ostra exótica está ocupando um habitat diferente
do original dela e quais os efeitos em nosso ambiente costeiro. Quanto
mais conhecimento o aluno de Engenharia de Pesca tiver sobre os vários ambientes aquáticos (água doce, estuarino e marinho), melhor será a nossa formação profissional”, revela Lucca Stocco, discente de Engenharia de Pesca da Unesp, câmpus Registro.
segunda-feira, 16 de setembro de 2019
Registros vivos do tempo
Novas espécies de invertebrados marinhos descobertas no litoral paulista ajudam a entender a evolução dos oceanos
MARCELLO GUIMARÃES SIMÕES / UNESP
Cada
vez que precisa coletar os pequenos animais marinhos invertebrados
usados em sua pesquisa, o paleontólogo Marcello Guimarães Simões sofre
com as viagens ao mar. Assim que o Progresso, um pesqueiro de
camarões adaptado para pesquisas, zarpa do cais de Ubatuba, no litoral
norte paulista, começam os enjôos, que só cessam na volta a terra firme.
Mas nem o mal-estar o faz desistir do seu objetivo: capturar pequenos
invertebrados conhecidos como braquiópodes – semelhantes a moluscos
encontrados nas praias, com os quais têm em comum apenas as conchas –
que estão ajudando a compreender as alterações que o ambiente marinho
sofreu nos últimos milhares de anos e, no futuro, devem permitir propor
formas de recuperação para essas áreas.
Vencendo o mal-estar e muitas vezes o mar revolto, Simões e Adilson
Fransozo, ambos do Instituto de Biociências (IB) da Universidade
Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu, conseguiram coletar entre 2001 e
este ano cerca de 5 mil exemplares de uma das espécies menos estudadas
de braquiópodes vivos, a Bouchardia rosea – tarefa da qual participou a equipe de Michal Kowalewski, do Instituto Politécnico da Virgínia, nos Estados Unidos.
Por serem morfologicamente muito semelhantes a representantes da mesma linhagem que viveram há 60 milhões de anos, as Bouchardia
são consideradas fósseis vivos. Com duas conchas quase simétricas e
articuladas, semelhantes àquelas que viram brinquedo nas mãos das
crianças nas praias, esses invertebrados são uma espécie de janela
aberta simultaneamente para o passado e para o futuro, pois estão
ajudando a reconstituir, com detalhes, o ambiente marinho em eras
remotas e a desenvolver a paleoecologia marinha aplicada, ciência
voltada para avaliar a deterioração ambiental e impedir seu progresso.
Desde o início dos trabalhos com os braquiópodes coletados no litoral
paulista, a equipe da Unesp, coordenada por Simões, derrubou alguns
dogmas. Os resultados mais recentes, publicados em julho na revista Palaios,
uma das mais importantes da área, e apresentados em outubro no encontro
anual da Sociedade Geológica dos Estados Unidos, em Denver, mostraram
que a atual fauna de braquiópodes articulados da plataforma continental
brasileira é mais diversificada do que se imaginava. Além de Bouchardia rosea,
invertebrado tipicamente brasileiro e o único braquiópode articulado
até então conhecido, os pesquisadores encontraram representantes de Platidia anomioides, Terebratulina sp e Argyrotheca cuneata,
espécies que apresentam afinidades com as da Antártica, do Caribe, do
Mediterrâneo e da porção sul-africana dos oceanos Atlântico e Índico.
Essa diversidade lança algumas questões sobre a distribuição dos
braquiópodes pelo planeta. Duas perguntas que os pesquisadores pretendem
responder, tão logo quanto possível, são por que a Bouchardia rosea só existe no Brasil e como as outras espécies chegaram até aqui. Já sabem que parentes remotos de Bouchardia rosea – como a B. conspicua, a B. antarctica e a B. transplatina
– possuem uma longa história geológica: algumas habitaram os oceanos há
cerca de 60 milhões de anos, após a extinção dos dinossauros.
Atualmente, fósseis de espécies de Bouchardia e outras formas aparentadas, como Bouchardiella , podem ser encontrados em rochas da Antártica, da Austrália, da Argentina e do Uruguai.
Com cerca de 15 milímetros de comprimento e revestido por conchas
róseas de carbonato de cálcio, às vezes com minúsculas listras brancas, a
B. rosea é a única espécie viva conhecida da família
Bouchardiidae que ainda habita os mares, espalhando-se pelo litoral dos
estados de São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Até o
momento, os pesquisadores não sabem exatamente quando a espécie surgiu.
“Por motivos ainda pouco entendidos, enquanto as populações de Bouchardia rosea
apresentam uma distribuição mais ao norte, ao longo da margem oriental
da América do Sul, outras espécies fósseis do mesmo gênero têm uma
distribuição mais ampla nos continentes do Hemisfério Sul e são
encontradas na Austrália, na Antártica e, no continente sul-americano,
na Argentina e no Uruguai”, ressalta Simões. “Outros estudos sugerem que
a distribuição das espécies decorra das modificações nas correntes
oceânicas ocorridas nos últimos milhões de anos, durante a evolução do
Atlântico.”
Outra novidade é a profundidade em que podem ser encontradas as populações de Bouchardia,
às vezes com milhares de indivíduos em apenas 1 metro quadrado.
Falava-se que viviam em águas rasas, com cerca de 20 metros de
profundidade, com raras ocorrências em águas com profundidade superior a
100 metros, mas as pesquisas do grupo da Unesp e as amostras coletadas
pelo Programa de Avaliação do Potencial Sustentável de Recursos Vivos na
Zona Econômica Exclusiva (Revizee) demonstraram que esses organismos
podem viver a até 550 metros. A descoberta amplia o alcance de futuros
estudos, ao mostrar que uma espécie antes encontrada apenas em águas
rasas pode ocupar hábitats mais profundos e pouco estudados.
Pode haver também algumas correções de rota nas pesquisas. Com base nos escassos dados sobre a biologia de Bouchardia rosea, os especialistas interpretavam o modo de vida das espécies fósseis do gênero como sendo similares à de Bouchardia rosea
. Dessa forma, viram muitas ocorrências fósseis como geradas em
condições deposicionais de águas rasas, já que, até então, a
distribuição da espécie vivente estava, em grande parte, restrita às
águas rasas. “Como agora sabemos que a espécie ocupa fundos a
profundidades em torno dos 500 metros, seria interessante reexaminar as
ocorrências fósseis à luz dos novos dados e comparar com os advindos de
outras ciências, como a estratigrafia, que estuda a origem e a
composição das camadas de rochas”, comenta o pesquisador da Unesp.
Os estudos de Simões sugerem também que as correntes oceânicas de
ressurgência (de águas muito frias) podem ser fundamentais para o
desenvolvimento de populações de braquiópodes.
Mais uma vez, as
evidências caminham na contramão do que se sabia: imaginava-se que essas
correntes, ricas em nutrientes, trariam prejuízos para esses
invertebrados, já que poderiam entupir o aparelho filtrador, chamado
lofóforo, que drena a água e seleciona a matéria nutritiva. Por fim,
verificou-se ainda a preferência dos braquiópodes por determinados tipos
de substratos – as Bouchardia crescem em áreas do fundo oceânico em que a concentração de carbonato de cálcio nos sedimentos varia de 40% a 70%.
As constatações sobre as correntes e o substrato em que crescem mais
facilmente são pistas importantes para o mapeamento global dessas
populações, indicando de maneira mais clara onde podem se manifestar e
as áreas que podem ajudar a recuperar. “As conchas oferecem registros
confiáveis sobre a história recente e as modificações ambientais e
biológicas vividas por aquela região da plataforma brasileira”, reafirma
Kowalewski. “A partir de dados do passado, conseguimos informações
sobre os estragos causados pela ação humana na natureza, redirecionando a
atuação de ecologistas, geólogos, paleontólogos, biólogos e de agências
ambientais.”
Kowalewski cita como exemplo um trabalho da Universidade do Arizona,
também nos Estados Unidos, que, em meados da década de 90, em
colaboração com a equipe de Virgínia, jogou luzes sobre o potencial da
chamada paleoecologia marinha aplicada, uma área de pesquisa em que
fósseis vivos como os braquiópodes e os registros de épocas passadas têm
servido como referência para projetos de recuperação de áreas
degradadas. Com esse tipo de informação, por exemplo, já foi possível
desenvolver um plano de recuperação da biodiversidade aquática do delta
do Rio Colorado, próximo à fronteira dos Estados Unidos com o México,
área que sofreu intensa transformação ambiental com a construção de
hidrelétricas.
As barragens erguidas desde 1930 reduziram bastante a quantidade de
água que chegava à foz do Rio Colorado. Em consequência, houve um
aumento da salinidade, o que colocou em risco de extinção espécies de
invertebrados como a Mulinia coloradoensis, um molusco que
servia de alimento para pequenos peixes, pássaros e para a população
local. Para complicar, havia poucos registros históricos dos parâmetros
ambientais do delta do rio, no período anterior às barragens.
Foi nesse ponto que a paleoecologia entrou em ação. Os pesquisadores
coletaram amostras de conchas dos invertebrados ameaçados, que formam
densas acumulações (depósitos superficiais) ao longo do delta. Depois,
em laboratório, determinaram a idade dessas conchas, que variavam de
recentes a até 7,3 mil anos. Esse dado é essencial porque, como os
animais secretam o carbonato de cálcio e formam as conchas em equilíbrio
químico com a água do mar, permite aos pesquisadores acessar as
informações geoquímicas de conchas formadas em épocas distintas.
Essa análise revela, por exemplo, como as condições ambientais –
temperatura e salinidade, entre outras – variaram de centenas a milhares
de anos atrás. Ficou claro, assim, qual deveria ser a quantidade de
água a ser descarregada no delta, a fim de manter as condições adequadas
para a sobrevivência da Mulinia.
A equipe da Unesp procura seguir caminho similar. Embora
embrionárias, as pesquisas são tão ambiciosas quanto os trabalhos feitos
pelos norte-americanos. “A paleoecologia marinha aplicada é uma área de
enorme relevância social que só recentemente passou a receber a atenção
merecida”, afirma Simões. “O estudo do Rio Colorado é um marco.” Seu
laboratório guarda amostras de acúmulos de conchas de Bouchardia rosea
mortas e moluscos bivalves encontradas em acumulações com milhares de
exemplares. Foram coletadas em 46 estações marítimas, com até 45 metros
de profundidade, localizadas a cerca de 40 quilômetros da costa de
Ubatuba, Caraguatatuba e São Sebastião, aonde chegavam somente após
quatro horas de viagem de barco.
De volta ao laboratório, os pesquisadores analisaram as conchas do
ponto de vista de uma área da ciência que estuda os padrões de
preservação dos restos orgânicos, como os graus de articulação das
conchas e de fragmentação, alterações na cor ou as taxas de incrustação
ocorridas durante a vida ou adquiridas após a morte desses invertebrados
– a chamada tafonomia. Conseguiram assim descobrir como se formaram
esses acúmulos e a procedência das conchas depositadas no fundo do mar.
Depois, as conchas seguiram para a equipe da Universidade de Virgínia,
que conferiu as características tafonômicas básicas.
De lá, foram enviadas para o Woods Hole Oceanographic Institution’s
National Ocean Sciences Accelerator Mass Spectrometry Facility (Nosams) e
datadas com a técnica de carbono 14, mais indicado para datações de
materiais com até 70 mil anos. Outra remessa foi de Virgínia para a
Universidade George Washington, onde os pesquisadores cuidaram das
datações com aminoácidos, que funcionam como relógios biológicos e
indicam o tempo transcorrido desde a morte do organismo. “Embora possua
limitações, a datação por aminoácidos é um método mais barato e mais
rápido que o do carbono 14”, comenta Simões. Conclusão: as idades das
conchas de Bouchardia encontradas na costa norte de São Paulo
variaram de zero (o organismo tinha acabado de morrer) a 20 mil anos,
com predomínio absoluto das que têm até 500 anos.
“Surpreendentemente, é possível estabelecer séries completas de
idades a cada 50 anos, até a faixa em torno dos 500 anos, e determinar
como os padrões ambientais variavam”, diz o pesquisador.
Na próxima etapa do trabalho, as equipes da Unesp e de Virgínia
pretendem investir no estudo geoquímico das conchas já datadas, dentro
das séries de idades até 500 anos ou mais – e os segredos que guardam
deverão ser revelados pela análise de isótopos estáveis. Os
especialistas vão comparar as proporções entre os elementos químicos –
como carbono 13 e 12 e oxigênio 18 e 16 – das águas oceânicas com os
registrados pelas conchas de Bouchardia de diferentes épocas (atuais, com 500, 3 mil e 20 mil anos, por exemplo).
O objetivo é construir uma linha histórica de parâmetros ambientais,
como salinidade e temperatura. Simões sabe que nesse caminho não haverá
apenas tempestades e enjôos. “Se estivéssemos falando de uma nova
espécie de dinossauro, o tema seria rapidamente reconhecido”, afirma.
“No caso de conchas tão pequenas, o processo é mais lento.”
O Projeto Tafonomia de Braquiópodes e Bivalves em Ambientes Siliciclásticos da
Costa Norte do Estado de São Paulo: Variação Ambiental nas Assinaturas
Tafonômicas, Estilo Bioestratinômico e Mistura Temporal entre
Tafocenoses
terça-feira, 27 de agosto de 2019
Revelando os segredos das propriedades físicas da água
Pesquisa da Unesp em Rio Claro é publicada na Scientific Reports, do grupo Nature
26/08/2019por: IGCE e ACI Unesp
Patos em lago parcialmente congelado na Johannes Kepler University Linz, na Áustria
A
água pode ser considerada a substância mais conhecida entre nós. Mesmo
os menos interessados em ciência têm conhecimento da sua fórmula
química: H2O. É responsável pela manutenção da vida na Terra e harmonia
do meio ambiente, utilizada tanto na nossa higiene pessoal quanto para
regar plantas, “matar” a sede, entre outras tantas aplicações.
Quando fervemos a água para preparar um café ou um chá estamos diante
de uma mudança de estado físico da água, chamada evaporação: passagem
de uma substância da fase líquida para a fase gasosa.
Analogamente,
quando colocamos a água na forma líquida no congelador e a mesma passa à
fase sólida, temos aqui a solidificação, a formação do gelo.
Este processo ocorre em temperaturas em torno de 0°C (zero grau
Celsius). No entanto, em condições apropriadas, é possível se resfriar a
água abaixo de 0°C e ainda manter a fase líquida. Ou seja, podemos ter a
água ainda na forma líquida abaixo de 0°C. Esta é a chamada fase
“super-resfriada” da água, cujo entendimento constitui tópico atual de
pesquisa científica.
Em trabalho recente, publicado no periódico científico internacional
Scientific Reports, do grupo Nature, pesquisa desenvolvida na Unesp
revelou através de um modelo teórico que existe um segundo ponto crítico
na fase super-resfriada da água.
O artigo completo publicado pela Scientific Reports, intitulado “Enhanced Grüneisen Parameter in Supercooled Water”, pode ser lido neste link.
Essencialmente, um ponto crítico pode ser entendido como uma condição
física em que várias grandezas físicas, como a chamada expansão térmica
e compressibilidade, possuem comportamento anômalo.
Um outro efeito interessante que pode ser observado com relação às
vizinhanças do ponto crítico da água é o fenômeno de opalescência
crítica. Neste caso, os “tamanhos relativos” da fase gasosa e da fase
líquida da água coexistem em diferentes percentuais que variam conforme
as condições de temperatura e pressão.
Este efeito é o responsável pela aparência transparente do gelo
quando água é previamente aquecida a altas temperaturas e posteriormente
solidificada em ambientes isolados, onde não há presença significativa
de oxigênio.
Os pesquisadores aplicaram o mesmo modelo para sistemas
supercondutores à base de ferro e os resultados obtidos sugerem a
existência de um ponto crítico para estes sistemas também. Ainda,
considerando seu caráter universal, o modelo pode ser estendido para
diversos outros sistemas de interesse.
A pesquisa foi liderada pelo professor Mariano de Souza, do Departamento de Física do Instituto de Geociências e Ciências Exatas (IGCE) da
Unesp em Rio Claro. Assinam também o artigo o estudante de doutorado
Gabriel Gomes, da USP, e o renomado físico americano H. Eugene Stanley,
da Boston University.
O docente da Unesp teve o primeiro contato com a Teoria de
Percolação, que possui relação com fenômenos críticos, em 1995 e desde
então trabalha no tema.
“Temos a perspectiva de aplicar o referido modelo teórico para outros
sistemas que apresentam duas escalas de energia”, afirma o professor do
IGCE. “Em suma, o modelo é universal e pode ser aplicado para qualquer
sistema que seja descrito por duas escalas de energia”, diz Mariano de
Souza.
Mais informações sobre o grupo de pesquisa podem ser obtidas na página do Solid State Physics Group. O grupo oferece amplas oportunidades de pesquisa.
segunda-feira, 1 de abril de 2019
Besouro-escorpião
Pesquisador estuda casos inéditos de besouro venenoso em SP
Besouro-escorpião, antes registrado somente no Peru, é único da espécie a inocular toxina
[26/03/2019]
Besouros
são insetos pertencentes à ordem “Coleoptera”, o mais diverso grupo de
animais do mundo.
São 250 mil espécies divididas em 190 famílias
espalhadas por todo planeta, exceto nas regiões polares. São pequenos,
mas resistentes. Por isso, proporcionalmente ao tamanho, podem até ser
considerados um dos animais mais fortes do planeta.
Apesar de algumas espécies gerarem prejuízos por atacar
culturas no campo, também são reconhecidas pela sua importância no
controle biológico de outras pragas. Proporcionando equilíbrio no meio
ambiente. Em resumo, são “serzinhos” bacanas, trabalhadores e
inofensivos, certo?
Pois bem. Um pesquisador do Departamento de Zoologia do
Instituto de Biociências da Unesp, campus Botucatu, tem estudado um
besouro um pouco diferente. Mais nocivo ao homem e extremamente raro: o
besouro-escorpião. Só pelo nome talvez tenhamos ideia do que ele é
capaz.
Sim, ele tem um ferrão parecido com o “colega” aracnídeo.
Mas ao invés de ser na cauda, ele fica nas pontas das antenas. E sim, o
veneno dele doí. Pelo menos foi o que descreveram as duas vítimas do
inseto. Uma mulher e um homem, ambos próximos à casa dos 30 anos, e que
transitavam em áreas rurais nas cidades de Botucatu e Boituva no momento
dos incidentes com o tal besouro, registrados ano passado.
“No primeiro caso a vítima descreveu dor aguda e um quadro
alérgico local que durou cerca de 24 horas. No segundo houve dor aguda
também, mas o quadro alérgico durou apenas uma hora. Isso é curioso,
pois dois quadros distintos se desenvolveram com a picada e ainda não
sabemos o por quê pois é necessário mais estudos sobre a composição da
toxina”, explica o biólogo Antonio Sforcin Amaral, responsável pelo
estudo.
“O besouro já era conhecido, mas só havia um registo de
acidente causado por ele no Peru. E esse registro dele no interior de
São Paulo é inédito e não sabíamos como a picada dele se desenvolvia
direito. Essa descoberta é importante pois muitas vezes uma pessoa
picada por animal não consegue identificar o causador do acidente. Então
é comum procurarmos atendimento médico sem saber o que nos picou”,
argumenta.
De acordo com Sforcin, este trabalho ainda é preliminar,
mas abre espaço para se estudar mais profundamente a toxina do inseto e
os tratamentos adequados no caso de acidentes futuros. O inseto mede
cerca de 2cm de comprimento e se caracteriza por tons de cinza, marrom e
preto pelo corpo.
“A existência de um besouro peçonhento é surpreendente pois
não é conhecido outro besouro capaz de inocular toxinas. Então, da
perspectiva biológica, abre-se margem para entender como se deu o
desenvolvimento das glândulas de toxina na ponta das antenas, um lugar
incomum para se usar na defesa”, argumenta Sforcin.
Livro destaca a importância das pequenas plantas para o Cerrado
Obra de professora da Unesp encanta e conscientiza leitores com belas imagens e informação
22/01/2019por: José Tadeu Arantes | Agência FAPESP
Livro é destinado à distribuição gratuita para bibliotecas, institutos de pesquisa e estudioso, além de estar disponível em PDF. Imagem: Reprodução
“As pessoas só dão valor para aquilo que conhecem.” Foi este pensamento que inspirou a pesquisadora Giselda Durigan a coordenar a empreitada coletiva que resultou no livro Plantas pequenas do Cerrado: biodiversidade negligenciada. Com
720 páginas, quase todas ilustradas com deslumbrantes fotos coloridas, o
livro apresenta um levantamento exaustivo das plantas de pequeno porte,
que são o sustentáculo do Cerrado.
Professora em programas de pós-graduação em Ciência Florestal
na Universidade Estadual Paulista (Unesp) e em Ecologia na Universidade
Estadual de Campinas (Unicamp), ela estuda o Cerrado há mais de 30 anos.
Destinada à distribuição gratuita para bibliotecas, institutos de
pesquisa e estudiosos, e também disponibilizada em arquivo PDF aberto
para todos os interessados, a obra teve sua publicação financiada pela
Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo.
Durigan, que também é pesquisadora do Instituto Florestal do Estado
de São Paulo, explica que a publicação é resultado de quase uma década
de trabalho a várias mãos, que se iniciou com uma pesquisa de doutorado
sobre o impacto da invasão das fisionomias campestres do Cerrado por
árvores de pinus e ganhou corpo ao longo de três outras pesquisas
apoiadas pela FAPESP.
“Quando nos engajamos nessas pesquisas, percebemos que o grande impacto causado pelas invasões biológicas [Saiba mais em agencia.fapesp.br/27156/] e pela supressão do fogo [Mais informações em agencia.fapesp.br/26325/]
não se dava sobre árvores, mas sobre as plantas pequenas do campo. E
isso constituiu um enorme desafio, porque a nomenclatura e a
classificação dessas plantas eram largamente desconhecidas. Eu tinha
passado toda a minha vida profissional olhando para cima, para as
árvores. Tive, então, que olhar para baixo, e com muito respeito”, disse
Durigan à Agência FAPESP.
O grupo que coordenou na feitura do livro foi constituído por suas alunas Natashi Aparecida Lima Pilon e Geissianny Bessão de Assis, e por seus colegas Flaviana Maluf de Souza e João Batista Baitello.
“O que chamamos de ‘plantas pequenas’ são espécies que se tornam
adultas e capazes de se reproduzir com menos de 2 metros de altura. Foi
um critério arbitrário que adotamos. Começamos coletando essas plantas, e
inventando nomes provisórios para elas, enquanto corríamos atrás de
pessoas que pudessem nos ajudar na identificação”, contou Durigan.
Mas não foi nada fácil encontrar essas pessoas, conta a pesquisadora.
Simplesmente, não havia especialistas em plantas pequenas. Foi preciso
recorrer a manuais, monografias, livros antigos e ao famoso Dicionário das Plantas Úteis do Brasil, em seis volumes, publicado por Manoel Pio Corrêa no início do século passado.
“Encontramos plantas que nunca tinham sido registradas no Estado de
São Paulo e outras que não eram coletadas há várias décadas. Mas não
achamos nenhuma espécie nova, desconhecida pela ciência. Todas já tinham
seus nomes científicos. Porém, foi uma busca tremenda descobrir os
nomes populares. Muitas das plantas que encontramos estavam
classificadas como ‘daninhas’ nesses livros antigos, porque a
perspectiva adotada era a de quem queria cultivar o Cerrado com
pastagens ou agricultura”, disse Durigan.
Um termo curioso encontrado foi o “mata-pasto”, que nomeava nada
menos do que sete espécies diferentes, todas elas muito resistentes.
Como essas plantas rebrotam inúmeras vezes depois de cortadas, eram
consideradas daninhas. E o nome popular que receberam invertia a ordem
cronológica, como se o pasto tivesse aparecido antes e as plantas
surgissem depois para atrapalhar, quando havia sido exatamente o
contrário.
“O que as pessoas não entendiam – e temos feito um esforço enorme
para esclarecer – é que essas plantas de pequeno porte são fundamentais
para a sobrevivência do Cerrado e da extraordinária riqueza que ele
possui em termos de recursos hídricos e biodiversidade”, disse Durigan.
“Fala-se em desmatamento quando ocorre corte de árvores. Mas, se as
plantas pequenas são erradicadas, todo o equilíbrio do Cerrado se rompe.
E isso está acontecendo sem o menor impedimento porque a legislação não
protege a vegetação que não tem árvores. Além disso, essa vegetação nem
sequer aparece nos mapas, dadas as limitações tecnológicas para
diferenciá-la de pastagens ou agricultura em imagens de satélite”,
acrescentou.
Seis plantas pequenas para uma árvore Durigan destaca que são as plantas pequenas que cobrem o solo, prevenindo a erosão pela chuva ou pelo vento.
“Elas possuem um emaranhado de raízes, facilitando a infiltração da
água no solo e garantindo a saúde do ecossistema e a manutenção dos
mananciais que alimentam os rios. Para ser savana, o Cerrado precisa
possuir as duas camadas: a camada de árvores esparsas a meia altura e a
camada de plantas pequenas cobrindo o solo”, explicou.
Segundo os autores do livro, a proporção é de seis espécies de
plantas pequenas para cada espécie de árvore. Das 12.734 espécies
vegetais que compõem o Cerrado, mais de 10 mil correspondem a plantas
pequenas. Elas estão ameaçadas pelo adensamento das copas das árvores,
resultante do manejo inadequado, e pela invasão por espécies exóticas,
como o pinus e a braquiária.
O objetivo do livro é encantar os leitores com a beleza dessas
plantas pequenas. E conscientizá-los acerca da necessidade de sua
preservação.
Professor da Unesp publica com colegas de Polônia e Austrália
Artigo aponta adaptações que permitiram à planta carnívora ser polinizada por aves
21/01/2019por: ACI Unesp
Pesquisadores examinaram adaptações da Utricularia menziesii. Imagem: Divulgação.
As utriculárias são um gênero de plantas carnívoras (Utricularia)
que compreende aproximadamente 250 espécies distribuídas pelo mundo. As
espécies ocorrem geralmente em locais ensolarados e úmidos, em brejos,
pântanos, lagoas e rios. A maior parte das espécies pode ser encontrada
nas Américas, África e também na Austrália.
Um artigo publicado no ano passado pelo professor Vitor Fernandes
Oliveira de Miranda, do câmpus de Jaboticabal, em parceria com
pesquisadores da Polônia e da Austrália, examinou a micromorfologia de
uma das espécies de utriculária para avaliar características que possam
estar ligadas à sua estratégia de polinização.
O artigo foi publicado no periódico Annals of Botany
em parceria com pesquisadores da Jagiellonian University, da Cracóvia,
Universidade de Varsóvia, University of Silesia, de Katovice, todas na
Polônia, da University of Western Austrália, Universiadde de Adelaide,
ambas na Austrália.
As utriculárias são plantas que apresentam pequenas vesículas
chamadas de utrículos. Essas bolsas são, na verdade, folhas modificadas,
as quais são empregadas para a captura de pequenos animais. Os
utrículos, que medem geralmente entre 0,2 e 1,5 cm, são pequenas bolsas
que agem por sucção, abaixo da água, capturando desde protozoários,
insetos aquáticos e até mesmo alevinos e girinos.
O docente explica que, apesar de todas as características inusitadas
dessas plantas, ainda sabemos pouco sobre a sua biologia. Poucos são os
estudos sobre a biologia da polinização das espécies de utriculária.
Dentre as espécies das quais se conhecem os polinizadores, nós sabemos
que eles são geralmente abelhas, moscas e pequenas borboletas. Como as
espécies de utriculária apresentam flores geralmente bastante
semelhantes, com cores basicamente amarelas, lilases, brancas ou
vermelhas, acredita-se que os polinizadores devam ser os mesmos grupos
de insetos.
“A exceção são as espécies de flores vermelhas, uma vez que essa cor
está muito associada à polinização pelas aves. Dos trabalhos publicados
sobre a biologia da polinização das espécies de utriculária, esse é o
primeiro de uma espécie com flores vermelhas: a Utricularia menziesii”, aponta.
Em Jaboticabal, Miranda coordena um grupo de pesquisa voltado para
estudos da sistemática, genômica e evolução de plantas carnívoras. O
docente explica que a evolução é um processo que basicamente aproveita
formas pré-existentes, permitindo a adaptação dos seres vivos às
mudanças no ambiente, por exemplo.
No caso das utriculárias, aponta o docente, sabe-se que houve uma
linhagem ancestral comum há aproximadamente 30 milhões de anos atrás que
deu origem a todas as demais espécies. A partir de uma linhagem
ancestral que era terrestre, surgiram todas as espécies aquáticas (que
vivem em rios, riachos e lagoas), epífitas (que vivem sobre troncos de
árvores), litófitas (que vivem sobre afloramentos rochosos) e reófitas
(que vivem próximas à água, estando assim ora fora d’água ou submersas).
“Da mesma forma, possivelmente as primeiras utriculárias eram
polinizadas por abelhas, moscas ou borboletas, sendo que algumas
espécies se adaptaram para a polinização por aves. Muitas espécies de
plantas polinizadas por aves apresentam cores vermelhas e produzem
quantidade de néctar suficientemente atrativas para esses animais”,
aponta Miranda. “O nosso trabalho concluiu que esse é o caso da
australiana Utricularia menziesii. O polinizador dessa espécie de carnívora é a ave Acanthorhynchus superciliosus”. Ave Acanthorhynchus superciliosus, polinizadora da espécie de planta carnívora Utricularia menziesii (Crédito: Wikipedia)
Miranda lembra que já existem relatos na literatura da visita da ave Acanthorhynchus superciliosus às flores em U. menziesii, entretanto sem nenhuma descrição da anatomia floral. Como a planta é de
pequeno porte, com inflorescências que medem entre 3 e 7 cm, não é
possível que a ave polinizadora se apoie na planta. Entretanto, suas
flores são bastante rígidas, o que permite que o polinizador enfie o seu
bico e possa lamber o néctar. “Outra adaptação bastante interessante é o
cálcar presente nas flores.
Nas utriculárias, as flores apresentam um
tubo, que são pétalas modificadas, que produz e armazena o néctar. No
caso de U. menziesii, o cálcar é alongado e levemente curvado, adaptado ao bico também com essa forma das aves”.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2019
Informações escassas sobre poluição em Áreas Marinhas Protegidas
Artigo da Unesp aponta que apenas 0,06% delas têm pesquisas sobre poluição em suas áreas
Áreas Marinhas Protegidas são importantes também para preservar e aumentar os estoques pesqueiros
Imagem: Pixabay
Artigo
publicado por um grupo de pesquisadores do Instituto de Biociências da
Unesp, no Campus Litoral Paulista, em São Vicente, aponta que apenas
0,06% das 13.674 Áreas Marinhas Protegidas (AMP) existentes no planeta
possuem informações sobre a poluição por substâncias químicas ou seus
efeitos ecológicos em seus espaços.
Áreas Marinhas Protegidas são hoje o principal instrumento de
conservação marinha por regulamentar e limitar as atividades humanas com
impacto negativo, visando mitigar a perda de biodiversidade e dos
serviços ambientais fornecidos por seu ecossistema.
O
grupo liderado pelo professor Denis Moledo de Souza Abessa revisou a
literatura cientifica publicada sobre o impacto da poluição química ou
seus efeitos toxicológicos nas 13.674 AMPs existentes no mundo. A busca
encontrou apenas 96 artigos que cobrem 67 dessas áreas, ou seja, menos
de 0,06% do total. A revisão foi publicada na revista Environmental Pollution, da Elsevier.
O
professor da Unesp explica que há alguns anos o grupo vem estudando a
poluição e seus efeitos no litoral brasileiro e que uma quantidade
significativa das AMPs localizadas no país apresentavam problemas pela
proximidade de fontes de poluição ou por características que favoreciam a
deposição de contaminantes. “Ao mesmo tempo, notamos que havia muito
pouca informação sobre isso no mundo, o que nos motivou a realizar um
estudo mais abrangente, que foi esta revisão que publicamos agora”,
explica o docente, responsável também coordenação do Núcleo de Estudos
sobre Poluição e Ecotoxicologia Aquática do Instituto de Biociências.
Além da pouca informação sobre poluição em AMPs no mundo, outro ponto
chamou a atenção dos pesquisadores: das AMPs onde foram encontrados
dados, a revisão mostrou que há indícios de poluição em mais de 80%
delas. “Isso mostra que o problema pode ser bem maior e que de fato as
AMPs não são gerenciadas ou criadas pensando-se na contaminação”,
destaca Abessa, que contou com a colaboração de pesquisadores
portugueses das universidades de Alveiro e do Algarve na elaboração do
artigo.
O docente do câmpus de São Vicente explica que as AMPs constituem o
instrumento mais importante para a conservação marinha, mas que sua
eficiência depende de outras medidas, como o licenciamento ambiental e a
gestão costeira, uma vez que a maior parte das fontes de poluição
encontra-se instalada em terra, como indústrias, atividades agropecuária
e zonas urbanas. “Os contaminantes que caem nos corpos d’água são
levados para o mar e as correntes marinhas os carregam até as AMPs, onde
podem então ocorrer efeitos ecológicos negativos”, explica.
Um
levantamento semelhante restrito apenas às APMs (163, no total) do
Brasil foi realizado recentemente por um aluno de iniciação científica
do grupo, com resultado praticamente idênticos: poucos dados, e entre as
áreas com informações, boa parte delas apresenta evidências de
contaminação
Abessa explica ainda que muitas dessas áreas foram criadas sob o
argumento de aumentar ou preservar os estoques pesqueiros, que ficarão
prejudicado se tais áreas estiverem contaminadas. “Assim, os impactos
que eram inicialmente ecológicos tornam-se problemas econômicos, pela
perda deste serviço ambiental de reposição dos estoques pesqueiros que o
mar realiza gratuitamente”.
quinta-feira, 6 de dezembro de 2018
Pesquisadores da Unesp reúnem maior banco de dados de primatas
Estudiosos da Mata Atlântica escreveram artigo publicado na revista internacional Ecology
Laurence Culot, Departamento de Zoologia do Instituto de Biociências do câmpus Rio Claro
05/12/2018
O bugio-ruivo é o macaco mais comum nas florestas e fragmentos da Mata Atlântica
Os
primatas estão entre os mamíferos mais bem estudados de todo o mundo.
Explorar o conhecimento sobre ecologia, comportamento e genética desses
animais oferece suporte para compreendermos melhor a evolução humana e o
surto de doenças infecciosas, como a febre amarela, por exemplo.
Além disso, primatas desempenham um
papel-chave dentro do ecossistema ao ingerir sementes dos frutos dos
quais se alimentam e as defecando pelo chão das florestas, agindo como
verdadeiros jardineiros.
Em posição de destaque, o Brasil tem mais
espécies de primatas do que qualquer outro país, sendo a Mata Atlântica o
refúgio de 26 espécies das quais 73% só ocorrem dentro dos limites
desta floresta tropical historicamente degradada.
Diante deste cenário, pesquisadores da
Unesp em Rio Claro lideraram uma rede de colaboração para a construção
de um banco de dados, o maior até o presente momento, e reunir
informações sobre populações e comunidades destes animais.
O projeto contou com o esforço de mais de
100 pesquisadores de várias instituições, a maior parte deles
brasileiros. Este enorme conjunto de dados foi publicado na revista
científica Ecology, uma das mais tradicionais e conceituadas do
meio acadêmico, em formato aberto (open data). Ou seja, qualquer pessoa
dispõe de acesso livre às informações compiladas.
Milhares de registros
O estudo foi liderado pela professora
Laurence Culot, primatóloga e docente do Departamento de Zoologia da
Unesp em Rio Claro, e pelo aluno de graduação em Ciências Biológicas
Lucas Augusto Pereira. Foram
compilados mais de 10.000 registros de ocorrência em mais de 5.000
locais de Mata Atlântica no Brasil, na Argentina e no Paraguai.
Esses
dados foram extraídos de cerca de 900 publicações nacionais e
internacionais, bem como de teses e dissertações, geralmente disponíveis
apenas em português, agora também disponíveis para pesquisadores
estrangeiros.
Além
disso, o banco de dados reúne uma grande quantidade de informações até
então não publicadas, disponibilizadas pelos coautores do trabalho.
Os
dados abrangem um período entre os anos de 1820 e 2017, o que permite
tecer um grande panorama sobre a distribuição desses animais na Mata
Atlântica ao longo do espaço e do tempo.
A importância deste abrangente trabalho
colaborativo se encontra na gama de possibilidades de processamento dos
dados e produção de conhecimento. Agora, pesquisadores do mundo todo têm
nas mãos informações que podem ajudar a compreender cada vez mais como
os primatas, nossos parentes mais próximos dentro da árvore da vida,
respondem às ameaças cada vez mais intensas das sociedades humanas, o
que deve resultar, no futuro, em ações concretas de conservação desses
animais.
Além disso, esses dados serão de extrema
importância para guiar novas pesquisas em regiões que abrigam espécies
pouco estudadas até o momento.
Mais ainda, o conjunto de dados permite avaliar as espécies mais abundantes e as mais raras. No primeiro caso, o bugio-ruivo (Alouatta guariba)
é o macaco mais comum nas florestas e fragmentos da Mata Atlântica. Uma
realidade que mudou drasticamente devido aos recentes surtos de febre
amarela no país, que dizimaram suas populações e levou a UICN (União Internacional para Conservação da Natureza) a inserir a espécie na próxima lista das 25 espécies de primatas mais ameaçadas do mundo --essa lista será publicada em 2019.
Entre as espécies mais raras, o mico-leão-de-cara-preta (Leontopithecus caissara)
tem uma distribuição restrita a uma pequena parte do extremo sul no
litoral do Estado de São Paulo e no litoral do Estado do Paraná, no
Parque Nacional de Superagui.
O
"Atlantic-Primates", nome deste estudo, é parte do “Atlantic Series”,
uma iniciativa que pretende tornar público o maior conjunto possível de
dados sobre a biodiversidade da Mata Atlântica, levando-se em conta que
este é um dos biomas mais estudados do mundo.
A
iniciativa é liderada pelos professores Mauro Galetti e Milton Cezar
Ribeiro, ambos docentes do Departamento de Ecologia da Unesp em Rio
Claro. Neste sentido, o Atlantic Series é também uma celebração do árduo
trabalho e esforço de centenas de pesquisadores e naturalistas que, ao
longo de vários anos, coletaram essas valiosas informações e que agora
se fazem mais necessárias do que nunca.
Campo rupestre no Brasil apresenta alta diversidade de espécies de plantas
20 de junho de 2018
Elton Alisson | Agência FAPESP – Na Serra
do Espinhaço – uma cadeia montanhosa que se estende pelos estados de
Minas Gerais e Bahia – é possível observar um tipo de vegetação antiga,
chamada campo rupestre, que apresenta alta diversidade de espécies de
plantas, a maior parte delas endêmica (que ocorre exclusivamente naquela
região).
A ecologia desse tipo de vegetação, que está ameaçada e chamou a
atenção de exploradores e naturalistas que passaram pelo Brasil, como o
botânico dinamarquês Eugen Warming (1841-1924), ainda é pouco estudada,
apontam pesquisadores da área.
Edição especial de revista
científica reúne o conhecimento atual sobre a vida vegetal nesse
ecossistema, localizado na Serra do Espinhaço, ainda pouco estudado e
ameaçado (fotos: Thiago Sanna Freire Silva, Maria Gabriela de Camargo e Patrícia Morellato)
A fim de reunir o conhecimento atual sobre a vida vegetal em campo
rupestre, a pesquisadora Patrícia Morellato, professora do Instituto de
Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Rio
Claro, em parceria com Fernando Augusto de Oliveira e Silveira,
professor do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de
Minas Gerais (UFMG), organizaram uma edição especial da revista Flora sobre o tema.
Parte dos resultados dos estudos publicados na edição especial é consequência de um projeto
realizado por Morellato, no âmbito de um acordo da FAPESP com a Vale e
as fundações de amparo à pesquisa dos estados de Minas Gerais (Fapemig) e
do Pará (Fapespa), e de uma pesquisa que está sendo realizada pela
pesquisadora, também com apoio
da FAPESP em convênio com a Microsoft. Os dois projetos são realizados
na Serra do Cipó – uma formação geológica situada em Minas Gerais,
localizada ao sul da província geológica da Serra do Espinhaço.
“A Serra do Espinhaço, especialmente a Serra do Cipó, apresenta a
maior diversidade de espécies de plantas endêmicas da flora brasileira”,
disse Morellato, à Agência FAPESP.
Uma das hipóteses para explicar a diversidade e o endemismo de
espécies do campo rupestre da Serra do Espinhaço considera as condições
da vegetação, assentada sobre uma cadeia de montanhas longa e estreita,
entrecortada por picos e vales e com cerca de 1.000 quilômetros de
extensão, formada há mais de 1 bilhão de anos.
A cadeia montanhosa evoluiu geologicamente e se diversificou em
diversas pequenas paisagens que compõem um mosaico formado por
afloramentos rochosos, campos úmidos, arenosos e pedregosos, além de
ilhas de floresta. Essa diversidade de paisagem é cercada por três
grandes biomas: o do Cerrado, o da Mata Atlântica e o da Caatinga. “Esse conjunto de características, além das condições climáticas,
caracterizadas por uma estação fria e seca, alternada com outra estação
quente e bastante úmida, permitiu a evolução dessa flora muito rica na
Serra do Espinhaço”, explicou Morellato.
Os pesquisadores reforçam uma proposta, apresentada em um artigo publicado em 2016 na revista Plant and Soil,
de incluir o campo rupestre na classificação de OCBIL – sigla de Old
Climatically-Buffered, Infertile Landscapes –, que designa uma vegetação
antiga, climaticamente tamponada e sobre uma paisagem infértil, em
termos de solo.
Essa classificação do campo rupestre possibilitaria testar hipóteses
teóricas sobre a evolução desse tipo de vegetação e o reconhecimento da
comunidade científica de que ela é similar ao Fynbos – nome genérico
dado à vegetação da ponta do sul da África – e à região florística do
sudoeste da Austrália.
“Só há algumas regiões na Terra que têm essas características de
zonas climáticas antigas sobre solos inférteis e que apresentam alta
diversidade de espécies”, disse Morellato.
Câmeras e drones
A classificação do campo rupestre como um OCBIL também possibilitaria
promover a colaboração científica entre os continentes que possuem esse
tipo de vegetação e apoiar a conservação e o uso sustentável de campos
rupestres e outras paisagens antigas, avaliam os pesquisadores.
As espécies endêmicas de campo rupestre, como a sempre-viva (Comanthera elegantula) e a canela-de-ema-gigante (Vellozia gigantea),
estão ameaçadas por incêndios não controlados e a exploração excessiva.
Além disso, uma área expressiva dessa paisagem no Brasil tem sido
destruída pela mineração, antes de ter sido estudada.
“Como o campo rupestre está sobre afloramento de rochas muitas vezes
compostas de ferro e outros minerais, uma boa parte dessa paisagem tem
sido destruída pela mineração. Essa atividade econômica representa hoje a
maior ameaça à diversidade desse ecossistema que mal conhecemos”, disse
Morellato.
Por meio do projeto realizado no âmbito de um acordo da FAPESP com a
Vale e a Fapemig, a pesquisadora estudou as relações de diversas
espécies de plantas da Serra do Cipó com o ambiente (fenologia), além da
polinização delas, a fim de desenvolver ações de restauração.
Os resultados dos estudos foram publicados em um capítulo do livro Ecology and Conservation of Mountaintop grasslands in Brazil e nas revistas Ecology e PLOS ONE.
Já por meio do projeto apoiado pela FAPESP no âmbito de um acordo com
a Microsoft, os pesquisadores têm usado diversas tecnologias, como
câmeras e drones, para monitorar a vegetação também na Serra do Cipó e,
dessa forma, estudar sua mudança sazonal em diferentes escalas de
altitude.
“A ideia é compreender melhor quando é a estação de crescimento da
vegetação na Serra do Cipó e o que determina o começo e o fim dessa
estação para identificar quais são os gatilhos que direcionam as
mudanças de paisagem”, explicou Morellato.
Parte do levantamento foi feito nas fazendas da Unesp nos dois municípios.
[22/06/2018]
No dia 21
de junho, no auditório do Parque Municipal Joaquim Amaral Amando de
Barros, aconteceu o lançamento do Guia de Aves de Botucatu e São Manuel.
A publicação compila dados de levantamentos de avifauna realizados nos
dois municípios e registram 342 espécies de aves, das quais 27 são
ameaçadas de extinção e outras 14 consideradas quase ameaçadas.
O Guia é resultado do trabalho de popularização e difusão da
Ornitologia por meio do projeto de extensão “Passarinhando: Educação
Ambiental e Conservação”, coordenado pela professora Silvia Mitiko
Nishida, do Departamento de Fisiologia do Instituto de Biociências (IB)
da Unesp, câmpus de Botucatu, e conta com o apoio do Laboratório de
Etologia do IB; Fazendas de Ensino, Pesquisa e Extensão (Fepe) da
Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) da Unesp; o Centro de Medicina e
Pesquisa em Animais Selvagens (Cempas) da Faculdade de Medicina
Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da Unesp e Secretaria do Verde da
Prefeitura Municipal de Botucatu.
A partir da esquerda: Victor Antonelli, prof. Renata Fonseca, Lais de Freitas, prof. Silvia Nishida e Gustavo Bacchim.
A obra tem como autores as professoras Silvia Mitiko Nishida e Renata
Cristina Batista Fonseca; os pós-graduandos João Pedro Salvador Boato,
Lais Lopes de Freitas, Daniel Pagnin; o graduando Victor Rodrigues
Antonelli e Gustavo Toledo Bacchim, bacharel em Biologia pelo IB.
O professor César Martins, diretor do IB, ressaltou a importância do
Guia. “É uma satisfação muito grande para nossa Faculdade contribuir
para o lançamento dessa obra. Vivemos um momento em que cada vez se
torna mais importante colocarmos a instituição a serviço da sociedade e,
nesse sentido, trabalhos com esse viés extensionista são muito
importantes. Nossa sociedade é muito carente do conhecimento científico
produzido pela universidade e isso pode ser feito por ações simples como
essa proposta de fazer um guia. Agradeço a professora Silvia, a grande
articuladora dessa ideia, e toda sua equipe”.
Professor César Martins, diretor do IB/Unesp: "Satisfação em contribuir para o lançamento dessa obra".
O engenheiro agrônomo Marcio Piedade Vieira, secretário do Verde de
Botucatu, também saudou a iniciativa da publicação. “A gente só cuida do
que a gente conhece e gosta. Creio que esse Guia representa uma grande
oportunidade para que muitas pessoas possam conhecer as aves da nossa
região e adquirir uma consciência que vai se transformar em hábito de
cuidar. Espero que esse Guia seja uma ferramenta para a mudança de
hábitos”.
Marcio Piedade Vieira, secretário do Verde de Botucatu: "Ferramenta para a mudança de hábitos".
A professora Silvia Nishida agradeceu parceiros, colaboradores e
coautores do Guia e falou sobre a importância da preservação ambiental.
“O Guia de Aves é o resultado de muitos trabalhos de ensino e pesquisa. E
agora, ao devolver para os municípios de Botucatu e São Manuel o
conhecimento sobre a avifauna, cumprimos também a função de extensão.
Através dos levantamentos feitos, o Guia nos ajuda a entender que
políticas publicas são necessárias para garantir que os fragmentos de
mata remanescentes na região sejam mantidos e também estimular a
recuperação ambiental do cerrado. É o trabalho coletivo de conhecer que
vai nos possibilitar a prática da conservação”.
Professora Silvia Mitiko Nishida mostra o Guia:"resultado de muitos trabalhos de pesquisa e ensino".
Três das áreas onde foram realizados os levantamentos da avifauna que
compõem o Guia pertencem à Unesp. São as fazendas experimentais
Lageado, Edgárdia e São Manuel. “Ao longo do tempo, desde a criação do
curso de graduação em Engenharia Florestal da FCA, alguns levantamentos
já foram feitos nas fazendas, com a participação de alunos de graduação e
pós-graduação. Para compor essa lista, juntamos todos os levantamentos e
elaboramos uma listagem de aves referente ao Lageado e à Edgárdia.
No
caso específico da Fazenda São Manuel, foi feito um levantamento para um
trabalho de conclusão de curso realizado por um orientado da professora
Sílvia Nishida (ver reportagem),
que foi muito interessante porque até as pessoas que trabalham ou moram
lá não tinham ideia da riqueza da avifauna no local”, comentou a
professora Renata Fonseca, vice-supervisora das Fepe da FCA. “É
importante lembrar que nossas três fazendas totalizam 2500 hectares,
sendo cerca de 60% de reservas naturais. Isso faz com que possamos ter
essa grande biodiversidade na área”.
O Guia de Aves de Botucatu e São Manuel pode ser adquirido junto ao
Departamento de Fisiologia do Instituto de Biociências pelos telefones
(14)3880-0328 ou (14) 3880-)0330 ou via e-mail: silvia.nishida@unesp.br