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quarta-feira, 12 de maio de 2021
domingo, 23 de fevereiro de 2020
Onde estão as serpentes brasileiras
Atlas recolhe informações sobre as áreas de ocorrência de todas
as espécies registradas no país, mapeia biodiversidade e detecta regiões
prioritárias para novos inventários
Philodryas arnaldoi existe apenas em matas de araucárias
Cristiano Nogueira / USP
De cor laranja-avermelhada e tamanho modesto (não passa de 50 centímetros), a serpente da espécie Phalotris lativittatus
é naturalmente rara e de distribuição geográfica bastante restrita.
Como se não bastasse, sua incidência no estado de São Paulo, onde é
endêmica (só existe ali), vem diminuindo cada vez mais devido à perda de
hábitat em remanescentes do Cerrado paulista – fragmentado e degradado
nas últimas décadas pelo avanço das cidades, da agricultura e da
pecuária. Estima-se que a área de ocorrência da serpente seja um pouco
maior que 2 mil quilômetros quadrados (km²), agravando sua situação de
espécie quase ameaçada de extinção na lista vermelha da União
Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
Phalotris lativittatus é uma das 412 espécies registradas no Atlas de serpentes brasileiras, publicado na forma de artigo científico em edição especial da revista South American Journal of Herpetology,
de dezembro de 2019.
Com 274 páginas e assinado por 32 pesquisadores, a
maioria do Brasil, o trabalho descreve em detalhe a distribuição
geográfica de todas as espécies de serpentes encontradas até agora no
país, com base em mais de 163 mil exemplares preservados desde o século
XVIII em 140 coleções biológicas de universidades e museus de história
natural e coleções biológicas do Brasil e do mundo.
“Foram aproximadamente nove anos organizando e georreferenciando uma
síntese de informações produzidas ao longo de muitas décadas sobre uma
das faunas de serpentes mais ricas do planeta”, diz o biólogo Cristiano
Nogueira, pesquisador do Instituto de Biociências da Universidade de São
Paulo (IB-USP) e coordenador do trabalho. Por trás da publicação está
uma base de dados que reúne todos os registros conhecidos e validados
das espécies em todo o continente sul-americano, e pode servir como
ferramenta para novos estudos em biogeografia e biodiversidade. “O atlas
reúne um esforço inigualável de amostragem feito por gerações de
pesquisadores e instituições”, observa Nogueira.
Resultados preliminares, divulgados em 2015 por Pesquisa FAPESP,
já indicavam que algumas espécies haviam perdido até 80% da área de
floresta ou campos que ocupavam três décadas antes. Agora, com o
mapeamento concluído, é possível ter uma visão mais abrangente e atual
do problema, afirma o biólogo, ressaltando que os mapas localizam
detalhadamente onde estão as serpentes nos diversos biomas brasileiros.
A maior parte das espécies tem distribuição restrita no país e no
continente sul-americano. São localizadas em poucos pontos dentro de
zonas relativamente pequenas, como a já mencionada Phalotris lativittatus ou Philodryas arnaldoi,
endêmica das florestas de araucária. As espécies de distribuição
restrita, diz Nogueira, são as mais sensíveis aos impactos humanos – é
mais fácil provocar a extinção de um animal que existe apenas em uma
área pequena.

A campestre Philodryas livida vem perdendo espaço para a agricultura mecanizadaCristiano Nogueira / USP.
Uma serpente que vem perdendo hábitat é Erythrolamprus carajasensis,
endêmica da parte sul da Amazônia, por onde passa o chamado arco do
desmatamento, região da floresta amazônica que sofre mais com queimadas e
invasões. Outra é a corre-campo Philodryas livida, uma espécie
que vive apenas em regiões de topos de planalto onde a vegetação se
limita a capins, ervas e árvores muito esparsas, nos chamados campos
limpos ou campos sujos do Cerrado brasileiro. É o tipo de território que
vem sendo amplamente utilizado pela agricultura mecanizada para a
produção de milho e soja, por exemplo.
“Observando os mapas vemos que Philodryas livida era
encontrada em São Paulo, mas hoje não há mais registro no estado”, diz o
biólogo Otavio Marques, do Laboratório de Ecologia e Evolução do
Instituto Butantan, em São Paulo, e coautor do Atlas de serpentes.
“Os únicos encontros recentes estão no Parque Nacional das Emas, em
Goiás, evidenciando a importância das unidades de conservação integral
no país”, completa. Segundo ele, a extinção de um animal desses não
representa prejuízo apenas do ponto de vista da biodiversidade.
“Perde-se a chance de pesquisar seu potencial uso no tratamento de
doenças”, explica Marques, lembrando que um importante fármaco usado
contra hipertensão arterial, o Captopril, foi desenvolvido a partir do
veneno da jararaca (Bothrops jararaca).
Em outros casos, a perda de vegetação nativa pode favorecer a distribuição de algumas espécies, como a cascavel [Crotalus durissus],
cuja distribuição se estende por áreas abertas e ensolaradas de todo o
país. “Trata-se de uma espécie intolerante à umidade”, observa Marques.
Assim, no mapa fica evidente a quase total ausência de registros na
Amazônia. Com a diminuição das áreas de florestas e o impacto das
mudanças climáticas, ela tem expandido sua distribuição geográfica pelo
país, especialmente nas regiões Sul e Sudeste. “O interior de São Paulo,
onde havia muita mata, está cheio de cascavel”, sublinha.
Para Cristiano Nogueira, os mapas de distribuição apresentados no
atlas servem como subsídio científico para a conservação de serpentes,
além de abastecer com novos dados estudos evolutivos que buscam entender
como diferentes espécies de serpentes vivem no país.
Ele afirma que a
publicação do atlas é uma forma de reduzir o que os biogeógrafos chamam
de déficit Wallaceano, uma lacuna de conhecimento sobre onde estão
distribuídas as espécies.
O nome é uma forma de homenagear o naturalista
britânico Alfred Russel Wallace, que iniciou os estudos sobre
distribuição das espécies da fauna ainda no século XIX e é por isso
considerado o pai da biogeografia, ciência que estuda a distribuição dos
seres vivos. “Em pleno século XXI, com as imagens de satélite, temos
ótimos mapas de hidrografia, relevo, tipos de vegetação, porém poucos
bons mapas de distribuição de espécies”, acrescenta.
Exemplo de como o atlas pode suscitar novos questionamentos e descobertas é o caso de Micrurus ibiboboca,
uma cobra-coral comumente referida como típica da Caatinga. “Chamou a
atenção o animal ter sido identificado tanto em áreas de mata fechada no
litoral do Nordeste brasileiro como no interior, em áreas abertas de
Caatinga ou Cerrado”, explica Marques. “Poderíamos supor que se trata de
uma espécie versátil, adaptada a diferentes ambientes, mas tudo leva a
crer que as informações taxonômicas estão imprecisas e, na verdade, as
serpentes registradas no litoral e na Caatinga pertencem a espécies
distintas”, sugere ele, lembrando que novos estudos são necessários para
testar a hipótese.
Áreas preciosas
Outra contribuição do atlas é determinar o grau de endemismo nos diferentes biomas brasileiros. De acordo com o levantamento, 163 espécies catalogadas são exclusivamente brasileiras, ou seja, 39% das encontradas. “Nosso estudo detecta concentrações de endemismo em diferentes zonas do território brasileiro, algumas delas até então pouco estudadas”, afirma Nogueira. Uma das mais conhecidas é a porção sul da Mata Atlântica, até seu ponto de contato com as pastagens de araucárias e o Pampa, no Sul do país. Na parte norte da Mata Atlântica, englobando as regiões central e sudeste da Bahia, já quase fazendo contato com a Caatinga, também há muitas serpentes endêmicas.
No Nordeste do país, pelo menos duas áreas de Caatinga apresentam
altos níveis de endemismo: a depressão do médio rio São Francisco e
áreas de altitude mais elevada no Ceará. Já no Cerrado, destacam-se as
cabeceiras da bacia do Tocantins – incluindo a região do Jalapão e da
serra da Mesa –, o planalto da serra do Roncador, no nordeste de Mato
Grosso, e um grande conjunto de áreas de endemismo na porção oeste do
domínio, próximo ao Chaco e Pantanal. Na Amazônia, o endemismo se
concentra na parte norte, do leste de Belém até áreas próximas das
Guianas, incluindo os estados do Amapá e Roraima e a fronteira com a
Colômbia. “Todas essas áreas inspiram cuidados e requerem iniciativas de
conservação direcionadas, uma vez que abrigam espécies que não ocorrem
em outros lugares”, salienta Nogueira.
De modo geral, poucas espécies ocorrem amplamente em todo o país. Uma delas é a boipeva (Xenodon merremii),
uma serpente agressiva, embora não venenosa, encontrada dos pampas no
Sul do país até as savanas na Amazônia, passando por Mata Atlântica,
Cerrado, Pantanal e Caatinga. Os pesquisadores observaram que é comum
encontrar maior diversidade perto de centros urbanos: leste do estado de
São Paulo, sul da Bahia, Região Metropolitana de Belém, no Pará,
sudoeste de Mato Grosso e oeste de Mato Grosso do Sul. Em São Paulo,
foram registradas quase 40 espécies. Já em Belém, são mais de 80.
De acordo com Marques, essas áreas apresentam a maior riqueza (número
de espécies) e diversidade filogenética (número de linhagens) de
serpentes, talvez por causa da variedade de formas de vegetação e de
relevo. Além disso, são nessas áreas urbanas onde houve mais coletas.
“Também são lugares com mais espécies descritas, porque estão próximas a
centros de pesquisa como o Instituto Butantan”, diz Marques.
“Isso indica que precisamos concentrar novas amostragens em regiões
mais distantes, fora das imediações dos centros urbanos, longe dos
locais mais acessíveis, para obter melhores dados e otimizar os
esforços”, sugere. “Temos agora um mapa para direcionar a busca por
conhecimento, por novas espécies e novos registros de distribuição”,
conclui.
Projetos
1. Origem e evolução das serpentes e a sua diversificação na região neotropical: Uma abordagem multidisciplinar (nº 11/50206-9); Modalidade Projeto Temático; Programa Biota; Pesquisador responsável Hussam El Dine Zaher (USP); Investimento R$ 4.928.500,61.
2. Biogeografia, biodiversidade e conservação de répteis Squamata cisandinos (nº 15/20215-7); Modalidade Jovem Pesquisador; Pesquisador responsável Cristiano de Campos Nogueira (USP); Investimento R$ 630.298,27.
3. Estrutura de taxocenoses de anfíbios, répteis e pequenos mamíferos no Cerrado: O papel de fatores locais e regionais (nº 15/21259-8); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Marcio Roberto Costa Martins (USP); Investimento R$ 144.757,41.
4. Efeitos de alterações de hábitat sobre comunidades de anfíbios e répteis Squamata: Subsídios para programas de manejo, avaliações de risco de extinção e planos de ação de conservação (nº 18/14091-1); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Marcio Roberto Costa Martins (USP); Investimento R$ 184.274,90.
5. Novas abordagens de ecologia e conservação: Diversidade filogenética e funcional de anfíbios e serpentes da Mata Atlântica brasileira (nº 14/23677-9); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Ricardo Jannini Sawaya (UFABC); Investimento R$ 167.681,18.
Artigo científico
NOGUEIRA, C. C. et al. Atlas of Brazilian snakes: Verified point-locality maps to mitigate the Wallacean shortfall in a megadiverse snake fauna. South American Journal of Herpetology. v. 14, esp. 1, p. 1-274. 31 dez. 2019.
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sexta-feira, 6 de julho de 2018
Campo rupestre no Brasil apresenta alta diversidade de espécies de plantas
20 de junho de 2018
Elton Alisson | Agência FAPESP – Na Serra do Espinhaço – uma cadeia montanhosa que se estende pelos estados de Minas Gerais e Bahia – é possível observar um tipo de vegetação antiga, chamada campo rupestre, que apresenta alta diversidade de espécies de plantas, a maior parte delas endêmica (que ocorre exclusivamente naquela região).A ecologia desse tipo de vegetação, que está ameaçada e chamou a atenção de exploradores e naturalistas que passaram pelo Brasil, como o botânico dinamarquês Eugen Warming (1841-1924), ainda é pouco estudada, apontam pesquisadores da área.
A fim de reunir o conhecimento atual sobre a vida vegetal em campo
rupestre, a pesquisadora Patrícia Morellato, professora do Instituto de
Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Rio
Claro, em parceria com Fernando Augusto de Oliveira e Silveira,
professor do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de
Minas Gerais (UFMG), organizaram uma edição especial da revista Flora sobre o tema.
Parte dos resultados dos estudos publicados na edição especial é consequência de um projeto realizado por Morellato, no âmbito de um acordo da FAPESP com a Vale e as fundações de amparo à pesquisa dos estados de Minas Gerais (Fapemig) e do Pará (Fapespa), e de uma pesquisa que está sendo realizada pela pesquisadora, também com apoio da FAPESP em convênio com a Microsoft. Os dois projetos são realizados na Serra do Cipó – uma formação geológica situada em Minas Gerais, localizada ao sul da província geológica da Serra do Espinhaço.
“A Serra do Espinhaço, especialmente a Serra do Cipó, apresenta a maior diversidade de espécies de plantas endêmicas da flora brasileira”, disse Morellato, à Agência FAPESP.
Uma das hipóteses para explicar a diversidade e o endemismo de espécies do campo rupestre da Serra do Espinhaço considera as condições da vegetação, assentada sobre uma cadeia de montanhas longa e estreita, entrecortada por picos e vales e com cerca de 1.000 quilômetros de extensão, formada há mais de 1 bilhão de anos.
A cadeia montanhosa evoluiu geologicamente e se diversificou em diversas pequenas paisagens que compõem um mosaico formado por afloramentos rochosos, campos úmidos, arenosos e pedregosos, além de ilhas de floresta. Essa diversidade de paisagem é cercada por três grandes biomas: o do Cerrado, o da Mata Atlântica e o da Caatinga.
“Esse conjunto de características, além das condições climáticas, caracterizadas por uma estação fria e seca, alternada com outra estação quente e bastante úmida, permitiu a evolução dessa flora muito rica na Serra do Espinhaço”, explicou Morellato.
Os pesquisadores reforçam uma proposta, apresentada em um artigo publicado em 2016 na revista Plant and Soil, de incluir o campo rupestre na classificação de OCBIL – sigla de Old Climatically-Buffered, Infertile Landscapes –, que designa uma vegetação antiga, climaticamente tamponada e sobre uma paisagem infértil, em termos de solo.
Essa classificação do campo rupestre possibilitaria testar hipóteses teóricas sobre a evolução desse tipo de vegetação e o reconhecimento da comunidade científica de que ela é similar ao Fynbos – nome genérico dado à vegetação da ponta do sul da África – e à região florística do sudoeste da Austrália.
“Só há algumas regiões na Terra que têm essas características de zonas climáticas antigas sobre solos inférteis e que apresentam alta diversidade de espécies”, disse Morellato.
Câmeras e drones
A classificação do campo rupestre como um OCBIL também possibilitaria promover a colaboração científica entre os continentes que possuem esse tipo de vegetação e apoiar a conservação e o uso sustentável de campos rupestres e outras paisagens antigas, avaliam os pesquisadores.
As espécies endêmicas de campo rupestre, como a sempre-viva (Comanthera elegantula) e a canela-de-ema-gigante (Vellozia gigantea), estão ameaçadas por incêndios não controlados e a exploração excessiva. Além disso, uma área expressiva dessa paisagem no Brasil tem sido destruída pela mineração, antes de ter sido estudada.
“Como o campo rupestre está sobre afloramento de rochas muitas vezes compostas de ferro e outros minerais, uma boa parte dessa paisagem tem sido destruída pela mineração. Essa atividade econômica representa hoje a maior ameaça à diversidade desse ecossistema que mal conhecemos”, disse Morellato.
Por meio do projeto realizado no âmbito de um acordo da FAPESP com a Vale e a Fapemig, a pesquisadora estudou as relações de diversas espécies de plantas da Serra do Cipó com o ambiente (fenologia), além da polinização delas, a fim de desenvolver ações de restauração.
Os resultados dos estudos foram publicados em um capítulo do livro Ecology and Conservation of Mountaintop grasslands in Brazil e nas revistas Ecology e PLOS ONE.
Já por meio do projeto apoiado pela FAPESP no âmbito de um acordo com a Microsoft, os pesquisadores têm usado diversas tecnologias, como câmeras e drones, para monitorar a vegetação também na Serra do Cipó e, dessa forma, estudar sua mudança sazonal em diferentes escalas de altitude.
“A ideia é compreender melhor quando é a estação de crescimento da vegetação na Serra do Cipó e o que determina o começo e o fim dessa estação para identificar quais são os gatilhos que direcionam as mudanças de paisagem”, explicou Morellato.
O número especial da revista Flora, intitulado Plant life on campo rupestre, a megadiverse Neotropical old-growth grassland, pode ser lido em www.sciencedirect.com/journal/flora/vol/238/suppl/C.
Parte dos resultados dos estudos publicados na edição especial é consequência de um projeto realizado por Morellato, no âmbito de um acordo da FAPESP com a Vale e as fundações de amparo à pesquisa dos estados de Minas Gerais (Fapemig) e do Pará (Fapespa), e de uma pesquisa que está sendo realizada pela pesquisadora, também com apoio da FAPESP em convênio com a Microsoft. Os dois projetos são realizados na Serra do Cipó – uma formação geológica situada em Minas Gerais, localizada ao sul da província geológica da Serra do Espinhaço.
“A Serra do Espinhaço, especialmente a Serra do Cipó, apresenta a maior diversidade de espécies de plantas endêmicas da flora brasileira”, disse Morellato, à Agência FAPESP.
Uma das hipóteses para explicar a diversidade e o endemismo de espécies do campo rupestre da Serra do Espinhaço considera as condições da vegetação, assentada sobre uma cadeia de montanhas longa e estreita, entrecortada por picos e vales e com cerca de 1.000 quilômetros de extensão, formada há mais de 1 bilhão de anos.
A cadeia montanhosa evoluiu geologicamente e se diversificou em diversas pequenas paisagens que compõem um mosaico formado por afloramentos rochosos, campos úmidos, arenosos e pedregosos, além de ilhas de floresta. Essa diversidade de paisagem é cercada por três grandes biomas: o do Cerrado, o da Mata Atlântica e o da Caatinga.
“Esse conjunto de características, além das condições climáticas, caracterizadas por uma estação fria e seca, alternada com outra estação quente e bastante úmida, permitiu a evolução dessa flora muito rica na Serra do Espinhaço”, explicou Morellato.
Os pesquisadores reforçam uma proposta, apresentada em um artigo publicado em 2016 na revista Plant and Soil, de incluir o campo rupestre na classificação de OCBIL – sigla de Old Climatically-Buffered, Infertile Landscapes –, que designa uma vegetação antiga, climaticamente tamponada e sobre uma paisagem infértil, em termos de solo.
Essa classificação do campo rupestre possibilitaria testar hipóteses teóricas sobre a evolução desse tipo de vegetação e o reconhecimento da comunidade científica de que ela é similar ao Fynbos – nome genérico dado à vegetação da ponta do sul da África – e à região florística do sudoeste da Austrália.
“Só há algumas regiões na Terra que têm essas características de zonas climáticas antigas sobre solos inférteis e que apresentam alta diversidade de espécies”, disse Morellato.
Câmeras e drones
A classificação do campo rupestre como um OCBIL também possibilitaria promover a colaboração científica entre os continentes que possuem esse tipo de vegetação e apoiar a conservação e o uso sustentável de campos rupestres e outras paisagens antigas, avaliam os pesquisadores.
As espécies endêmicas de campo rupestre, como a sempre-viva (Comanthera elegantula) e a canela-de-ema-gigante (Vellozia gigantea), estão ameaçadas por incêndios não controlados e a exploração excessiva. Além disso, uma área expressiva dessa paisagem no Brasil tem sido destruída pela mineração, antes de ter sido estudada.
“Como o campo rupestre está sobre afloramento de rochas muitas vezes compostas de ferro e outros minerais, uma boa parte dessa paisagem tem sido destruída pela mineração. Essa atividade econômica representa hoje a maior ameaça à diversidade desse ecossistema que mal conhecemos”, disse Morellato.
Por meio do projeto realizado no âmbito de um acordo da FAPESP com a Vale e a Fapemig, a pesquisadora estudou as relações de diversas espécies de plantas da Serra do Cipó com o ambiente (fenologia), além da polinização delas, a fim de desenvolver ações de restauração.
Os resultados dos estudos foram publicados em um capítulo do livro Ecology and Conservation of Mountaintop grasslands in Brazil e nas revistas Ecology e PLOS ONE.
Já por meio do projeto apoiado pela FAPESP no âmbito de um acordo com a Microsoft, os pesquisadores têm usado diversas tecnologias, como câmeras e drones, para monitorar a vegetação também na Serra do Cipó e, dessa forma, estudar sua mudança sazonal em diferentes escalas de altitude.
“A ideia é compreender melhor quando é a estação de crescimento da vegetação na Serra do Cipó e o que determina o começo e o fim dessa estação para identificar quais são os gatilhos que direcionam as mudanças de paisagem”, explicou Morellato.
O número especial da revista Flora, intitulado Plant life on campo rupestre, a megadiverse Neotropical old-growth grassland, pode ser lido em www.sciencedirect.com/journal/flora/vol/238/suppl/C.
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quarta-feira, 20 de junho de 2018
Campo rupestre no Brasil apresenta alta diversidade de espécies de plantas
20 de junho de 2018
Elton Alisson | Agência FAPESP – Na Serra do Espinhaço – uma cadeia montanhosa que se estende pelos estados de Minas Gerais e Bahia – é possível observar um tipo de vegetação antiga, chamada campo rupestre, que apresenta alta diversidade de espécies de plantas, a maior parte delas endêmica (que ocorre exclusivamente naquela região).
A ecologia desse tipo de vegetação, que está ameaçada e chamou a atenção de exploradores e naturalistas que passaram pelo Brasil, como o botânico dinamarquês Eugen Warming (1841-1924), ainda é pouco estudada, apontam pesquisadores da área.
A fim de reunir o conhecimento atual sobre a vida vegetal em campo rupestre, a pesquisadora Patrícia Morellato, professora do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Rio Claro, em parceria com Fernando Augusto de Oliveira e Silveira, professor do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), organizaram uma edição especial da revista Flora sobre o tema.
Parte dos resultados dos estudos publicados na edição especial é consequência de um projeto realizado por Morellato, no âmbito de um acordo da FAPESP com a Vale e as fundações de amparo à pesquisa dos estados de Minas Gerais (Fapemig) e do Pará (Fapespa), e de uma pesquisa que está sendo realizada pela pesquisadora, também com apoio da FAPESP em convênio com a Microsoft. Os dois projetos são realizados na Serra do Cipó – uma formação geológica situada em Minas Gerais, localizada ao sul da província geológica da Serra do Espinhaço.
“A Serra do Espinhaço, especialmente a Serra do Cipó, apresenta a maior diversidade de espécies de plantas endêmicas da flora brasileira”, disse Morellato, à Agência FAPESP.
Uma das hipóteses para explicar a diversidade e o endemismo de espécies do campo rupestre da Serra do Espinhaço considera as condições da vegetação, assentada sobre uma cadeia de montanhas longa e estreita, entrecortada por picos e vales e com cerca de 1.000 quilômetros de extensão, formada há mais de 1 bilhão de anos.
A cadeia montanhosa evoluiu geologicamente e se diversificou em diversas pequenas paisagens que compõem um mosaico formado por afloramentos rochosos, campos úmidos, arenosos e pedregosos, além de ilhas de floresta. Essa diversidade de paisagem é cercada por três grandes biomas: o do Cerrado, o da Mata Atlântica e o da Caatinga.
“Esse conjunto de características, além das condições climáticas, caracterizadas por uma estação fria e seca, alternada com outra estação quente e bastante úmida, permitiu a evolução dessa flora muito rica na Serra do Espinhaço”, explicou Morellato.
Os pesquisadores reforçam uma proposta, apresentada em um artigo publicado em 2016 na revista Plant and Soil, de incluir o campo rupestre na classificação de OCBIL – sigla de Old Climatically-Buffered, Infertile Landscapes –, que designa uma vegetação antiga, climaticamente tamponada e sobre uma paisagem infértil, em termos de solo.
Essa classificação do campo rupestre possibilitaria testar hipóteses teóricas sobre a evolução desse tipo de vegetação e o reconhecimento da comunidade científica de que ela é similar ao Fynbos – nome genérico dado à vegetação da ponta do sul da África – e à região florística do sudoeste da Austrália.
“Só há algumas regiões na Terra que têm essas características de zonas climáticas antigas sobre solos inférteis e que apresentam alta diversidade de espécies”, disse Morellato.
Câmeras e drones
A classificação do campo rupestre como um OCBIL também possibilitaria promover a colaboração científica entre os continentes que possuem esse tipo de vegetação e apoiar a conservação e o uso sustentável de campos rupestres e outras paisagens antigas, avaliam os pesquisadores.
As espécies endêmicas de campo rupestre, como a sempre-viva (Helichrysum arenarium) e a canela-de-ema-gigante (Vellozia gigantea), estão ameaçadas por incêndios não controlados e a exploração excessiva. Além disso, uma área expressiva dessa paisagem no Brasil tem sido destruída pela mineração, antes de ter sido estudada.
“Como o campo rupestre está sobre afloramento de rochas muitas vezes compostas de ferro e outros minerais, uma boa parte dessa paisagem tem sido destruída pela mineração. Essa atividade econômica representa hoje a maior ameaça à diversidade desse ecossistema que mal conhecemos”, disse Morellato.
Por meio do projeto realizado no âmbito de um acordo da FAPESP com a Vale e a Fapemig, a pesquisadora estudou as relações de diversas espécies de plantas da Serra do Cipó com o ambiente (fenologia), além da polinização delas, a fim de desenvolver ações de restauração.
Os resultados dos estudos foram publicados em um capítulo do livro Ecology and Conservation of Mountaintop grasslands in Brazil e nas revistas Ecology e PLOS ONE.
Já por meio do projeto apoiado pela FAPESP no âmbito de um acordo com a Microsoft, os pesquisadores têm usado diversas tecnologias, como câmeras e drones, para monitorar a vegetação também na Serra do Cipó e, dessa forma, estudar sua mudança sazonal em diferentes escalas de altitude.
“A ideia é compreender melhor quando é a estação de crescimento da vegetação na Serra do Cipó e o que determina o começo e o fim dessa estação para identificar quais são os gatilhos que direcionam as mudanças de paisagem”, explicou Morellato.
O número especial da revista Flora, intitulado Plant life on campo rupestre, a megadiverse Neotropical old-growth grassland, pode ser lido em www.sciencedirect.com/journal/flora/vol/238/suppl/C.
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terça-feira, 27 de março de 2018
Desmatamento favorece ação de fungo que dizima anfíbios
20 de março de 2018
Peter Moon | Agência FAPESP – Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) estão investigando como o desflorestamento pode afetar a ação de patógenos que causam doenças como a quitridiomicose, que tem devastado populações de sapos e rãs no mundo nas últimas décadas.
Em artigo publicado na revista Proceedings of the Royal Society of London B – Biological Sciences
os pesquisadores analisaram como a interação entre o desmatamento e o
microbioma da pele pode afetar os anfíbios atingidos por fungos como o Batrachochytrium dendrobatidis, causador da quitridiomicose.
“Existe a suspeita de que esse fungo possa ter mais dificuldade de se estabelecer e proliferar em um animal cuja biota cutânea encontra-se íntegra”, disse Célio Haddad, professor do Instituto de Biociências da Unesp. A pesquisa integra o Projeto Temático “Diversity and conservation of Brazilian amphibians”, coordenado por Haddad e financiado pela FAPESP no âmbito do programa BIOTA.
O microbioma funciona como uma espécie de ecossistema que dificulta a ação de patógenos invasores. Para verificar qual seria a composição do microbioma na pele dos anfíbios da Mata Atlântica, habitando áreas de mata contínua ou mata degradada, os pesquisadores precisavam escolher uma espécie que não fosse exclusiva e que vivesse em ambas.
Precisaria também ser uma espécie com certo grau de tolerância ao fungo Batrachochytrium dendrobatidis, ou Bd. Ou seja, uma espécie cujo maior ou menor grau de tolerância individual pudesse ser associada à diversidade do microbioma cutâneo de cada indivíduo e avaliada de acordo com o local que habita.
A candidata eleita foi a pererequinha-do-brejo (Dendropsophus minutus), com moderada tolerância ao fungo e distribuição ampla na Mata Atlântica, tanto em ambientes de mata fechada como em áreas fragmentadas ou abertas.
Em 2010, os pesquisadores estudaram 10 populações de D. minutus em áreas da Mata Atlântica em São Luiz do Paraitinga (SP) e outras 10 populações da Mata de Araucárias, na Serra Gaúcha, em áreas degradadas e íntegras.
Foram amostrados cerca de 600 indivíduos. Entre esses, foram selecionados 187 indivíduos para estudo molecular. “Usamos luvas descartáveis para manusear cada animal, que foram limpos em campo com água destilada. Em seguida, usamos cotonetes para coletar material cutâneo de cada espécime, que foi armazenado em frascos estéreis”, disse outro autor do estudo, Guilherme Becker, pós-doutorando na Unesp na época e atualmente professor visitante do PPG de Ecologia da Unicamp.
Foi realizado o sequenciamento genético do material cutâneo coletado de cada indivíduo. “O processo gerou uma lista de bactérias presentes em cada indivíduo e em qual abundância. O resultado foi uma base de dados enorme, uma vez que cada indivíduo tinha centenas de bactérias”, disse Becker.
Os pesquisadores empregaram técnicas estatísticas para estabelecer relações e inferir padrões na base de dados. “Pela abordagem molecular, podemos verificar a carga de infecção do patógeno em relação à diversidade da biota cutânea de cada indivíduo. A partir daquele banco de dados, conseguimos gerar outros índices de diversidade, como o número de espécies de bactérias, sua abundância relativa e sua diversidade filogenética”, disse Becker.
Haddad conta que foi observado, em áreas abertas ou degradadas, que a composição do microbioma cutâneo é menos diversificada em termos de espécies de bactérias e menos homogênea entre os indivíduos.
“Em contraposição, nas áreas de floresta íntegra a composição do microbioma mostrou-se mais homogênea entre os indivíduos e mais diversificada em termos de microrganismos”, disse.
Os autores do estudo constataram que nas pererequinhas-do-brejo dos ambientes de floresta natural a diversidade do microbioma era maior. “O desmatamento diminuiu a diversidade da microbiota cutânea das pererequinhas, mas é difícil afirmar categoricamente que este empobrecimento da microbiota aumenta o risco de infecção pelo fungo”, disse Becker.
O pesquisador explica que, uma vez que um anfíbio é infectado pelo fungo Bd, a quantidade de bactérias aumenta muito em um primeiro momento, talvez pelo comprometimento do sistema imune causado pelo ataque de bactérias oportunistas.
“Os animais começam a ficar doentes, a pele fica mais grossa, o fungo cobre a pele. Uma vez que eles ficam muito doentes a carga de bactérias despenca. É um sinal ruim.
Significa que o microbioma está em disbiose [ou em crise]. Quando a quantidade de bactérias cai dramaticamente, o anfíbio geralmente morre”, disse Becker.
A ecologia da quitridiomicose é ainda mais complexa. O fungo Bd se espalha pelo meio ambiente por meio de esporos suspensos na água de lagoas e rios.
“É uma das piores epidemias atuais. Nenhuma outra doença de vertebrados atua como o fungo Bd. Trata-se de um patógeno generalista que prolifera melhor nos ambientes naturais, o que não favorece em nada os anfíbios. Por isso a quitridiomicose é tão devastadora”, disse Becker.
Endêmica na Mata Atlântica
A quitridiomicose está dizimando não apenas as espécies conhecidas de anfíbios, mas centenas ainda desconhecidas da ciência. Na doença, o fungo Bd se instala na pele, afetando a respiração e a fisiologia dos hospedeiros. O Bd é endêmico na Mata Atlântica brasileira, onde infecta inúmeras espécies, com maior ou menor suscetibilidade.
A suscetibilidade dos anfíbios ao fungo Bd varia bastante. Há espécies muito tolerantes, como é o caso da rã-touro norte-americana (Lithobates catesbeianus), espécies com tolerância intermediária e muitas outras onde a mortalidade pode chegar a 100%. A doença está espalhada pelas três Américas, mas também atinge a Austrália, Europa, Nova Zelândia e partes da África.
Os anfíbios apresentam mais de um sistema respiratório. Na fase do girino, respiram por meio de brânquias, como os peixes. Já na fase adulta, os anfíbios dependem principalmente da respiração cutânea, que podem associar ou não, dependendo do grupo, à respiração pulmonar e à respiração por meio da cavidade oral.
Quando o fungo Bd se instala na pele, ele ataca a queratina, principal proteína constituinte do tecido cutâneo, levando a uma maior impermeabilidade da pele do anfíbio, o que interfere na troca de gases com o meio ambiente.
A quitridiomicose atualmente é endêmica na Mata Atlântica brasileira, ainda que aqui ela ainda não seja tão devastadora como nas matas da Costa Rica, por exemplo, onde diversas espécies de anfíbios já desapareceram. Há relatos de pesquisadores dando conta de áreas antes livres da doença e que, em um ano, encontravam-se repletas de anfíbios, e no ano seguinte não se achou mais nenhum.
Não se sabe ao certo a razão pela qual a quitridiomicose é mais severa na Costa Rica e, aparentemente, mais branda entre as populações de anfíbios da Mata Atlântica. Talvez nem sempre tenha sido assim. Sabe-se que, no final dos anos 1970, houve um grande declínio entre as populações de anfíbios da Mata Atlântica.
“No fim da década de 1970 observamos o pico da prevalência do fungo Bd na pele de anfíbios depositados em museus, em relação aos animais depositados antes ou depois. Possivelmente, foi esse fungo que causou os declínios de populações de anfíbios na Mata Atlântica daquela época. Tudo isso coincide com declínios em massa ocorridos na mesma época em outros locais, como os Estados Unidos, os Andes e a Austrália”, disse Becker.
Segundo ele, o próximo passo da pesquisa é identificar se existem bactérias do microbioma dos anfíbios que conferem maior resistência à proliferação do fungo Bd na Mata Atlântica. Ao descobrir qual agente combate o fungo, pode ser possível formular probióticos para tentar proteger populações de anfíbios endêmicos ainda não afetadas, ajudando o microbioma a combater o fungo.
O artigo Land cover and forest connectivity alter the interactions among host, pathogen and skin microbiome (doi: 10.1098/rspb.2017.0582), de C. G. Becker, A. V. Longo, C. F. B. Haddad e K. R. Zamudio, está publicado em http://rspb.royalsocietypublishing.org/content/284/1861/20170582.
“Existe a suspeita de que esse fungo possa ter mais dificuldade de se estabelecer e proliferar em um animal cuja biota cutânea encontra-se íntegra”, disse Célio Haddad, professor do Instituto de Biociências da Unesp. A pesquisa integra o Projeto Temático “Diversity and conservation of Brazilian amphibians”, coordenado por Haddad e financiado pela FAPESP no âmbito do programa BIOTA.
O microbioma funciona como uma espécie de ecossistema que dificulta a ação de patógenos invasores. Para verificar qual seria a composição do microbioma na pele dos anfíbios da Mata Atlântica, habitando áreas de mata contínua ou mata degradada, os pesquisadores precisavam escolher uma espécie que não fosse exclusiva e que vivesse em ambas.
Precisaria também ser uma espécie com certo grau de tolerância ao fungo Batrachochytrium dendrobatidis, ou Bd. Ou seja, uma espécie cujo maior ou menor grau de tolerância individual pudesse ser associada à diversidade do microbioma cutâneo de cada indivíduo e avaliada de acordo com o local que habita.
A candidata eleita foi a pererequinha-do-brejo (Dendropsophus minutus), com moderada tolerância ao fungo e distribuição ampla na Mata Atlântica, tanto em ambientes de mata fechada como em áreas fragmentadas ou abertas.
Em 2010, os pesquisadores estudaram 10 populações de D. minutus em áreas da Mata Atlântica em São Luiz do Paraitinga (SP) e outras 10 populações da Mata de Araucárias, na Serra Gaúcha, em áreas degradadas e íntegras.
Foram amostrados cerca de 600 indivíduos. Entre esses, foram selecionados 187 indivíduos para estudo molecular. “Usamos luvas descartáveis para manusear cada animal, que foram limpos em campo com água destilada. Em seguida, usamos cotonetes para coletar material cutâneo de cada espécime, que foi armazenado em frascos estéreis”, disse outro autor do estudo, Guilherme Becker, pós-doutorando na Unesp na época e atualmente professor visitante do PPG de Ecologia da Unicamp.
Foi realizado o sequenciamento genético do material cutâneo coletado de cada indivíduo. “O processo gerou uma lista de bactérias presentes em cada indivíduo e em qual abundância. O resultado foi uma base de dados enorme, uma vez que cada indivíduo tinha centenas de bactérias”, disse Becker.
Os pesquisadores empregaram técnicas estatísticas para estabelecer relações e inferir padrões na base de dados. “Pela abordagem molecular, podemos verificar a carga de infecção do patógeno em relação à diversidade da biota cutânea de cada indivíduo. A partir daquele banco de dados, conseguimos gerar outros índices de diversidade, como o número de espécies de bactérias, sua abundância relativa e sua diversidade filogenética”, disse Becker.
Haddad conta que foi observado, em áreas abertas ou degradadas, que a composição do microbioma cutâneo é menos diversificada em termos de espécies de bactérias e menos homogênea entre os indivíduos.
“Em contraposição, nas áreas de floresta íntegra a composição do microbioma mostrou-se mais homogênea entre os indivíduos e mais diversificada em termos de microrganismos”, disse.
Os autores do estudo constataram que nas pererequinhas-do-brejo dos ambientes de floresta natural a diversidade do microbioma era maior. “O desmatamento diminuiu a diversidade da microbiota cutânea das pererequinhas, mas é difícil afirmar categoricamente que este empobrecimento da microbiota aumenta o risco de infecção pelo fungo”, disse Becker.
O pesquisador explica que, uma vez que um anfíbio é infectado pelo fungo Bd, a quantidade de bactérias aumenta muito em um primeiro momento, talvez pelo comprometimento do sistema imune causado pelo ataque de bactérias oportunistas.
“Os animais começam a ficar doentes, a pele fica mais grossa, o fungo cobre a pele. Uma vez que eles ficam muito doentes a carga de bactérias despenca. É um sinal ruim.
Significa que o microbioma está em disbiose [ou em crise]. Quando a quantidade de bactérias cai dramaticamente, o anfíbio geralmente morre”, disse Becker.
A ecologia da quitridiomicose é ainda mais complexa. O fungo Bd se espalha pelo meio ambiente por meio de esporos suspensos na água de lagoas e rios.
“É uma das piores epidemias atuais. Nenhuma outra doença de vertebrados atua como o fungo Bd. Trata-se de um patógeno generalista que prolifera melhor nos ambientes naturais, o que não favorece em nada os anfíbios. Por isso a quitridiomicose é tão devastadora”, disse Becker.
Endêmica na Mata Atlântica
A quitridiomicose está dizimando não apenas as espécies conhecidas de anfíbios, mas centenas ainda desconhecidas da ciência. Na doença, o fungo Bd se instala na pele, afetando a respiração e a fisiologia dos hospedeiros. O Bd é endêmico na Mata Atlântica brasileira, onde infecta inúmeras espécies, com maior ou menor suscetibilidade.
A suscetibilidade dos anfíbios ao fungo Bd varia bastante. Há espécies muito tolerantes, como é o caso da rã-touro norte-americana (Lithobates catesbeianus), espécies com tolerância intermediária e muitas outras onde a mortalidade pode chegar a 100%. A doença está espalhada pelas três Américas, mas também atinge a Austrália, Europa, Nova Zelândia e partes da África.
Os anfíbios apresentam mais de um sistema respiratório. Na fase do girino, respiram por meio de brânquias, como os peixes. Já na fase adulta, os anfíbios dependem principalmente da respiração cutânea, que podem associar ou não, dependendo do grupo, à respiração pulmonar e à respiração por meio da cavidade oral.
Quando o fungo Bd se instala na pele, ele ataca a queratina, principal proteína constituinte do tecido cutâneo, levando a uma maior impermeabilidade da pele do anfíbio, o que interfere na troca de gases com o meio ambiente.
A quitridiomicose atualmente é endêmica na Mata Atlântica brasileira, ainda que aqui ela ainda não seja tão devastadora como nas matas da Costa Rica, por exemplo, onde diversas espécies de anfíbios já desapareceram. Há relatos de pesquisadores dando conta de áreas antes livres da doença e que, em um ano, encontravam-se repletas de anfíbios, e no ano seguinte não se achou mais nenhum.
Não se sabe ao certo a razão pela qual a quitridiomicose é mais severa na Costa Rica e, aparentemente, mais branda entre as populações de anfíbios da Mata Atlântica. Talvez nem sempre tenha sido assim. Sabe-se que, no final dos anos 1970, houve um grande declínio entre as populações de anfíbios da Mata Atlântica.
“No fim da década de 1970 observamos o pico da prevalência do fungo Bd na pele de anfíbios depositados em museus, em relação aos animais depositados antes ou depois. Possivelmente, foi esse fungo que causou os declínios de populações de anfíbios na Mata Atlântica daquela época. Tudo isso coincide com declínios em massa ocorridos na mesma época em outros locais, como os Estados Unidos, os Andes e a Austrália”, disse Becker.
Segundo ele, o próximo passo da pesquisa é identificar se existem bactérias do microbioma dos anfíbios que conferem maior resistência à proliferação do fungo Bd na Mata Atlântica. Ao descobrir qual agente combate o fungo, pode ser possível formular probióticos para tentar proteger populações de anfíbios endêmicos ainda não afetadas, ajudando o microbioma a combater o fungo.
O artigo Land cover and forest connectivity alter the interactions among host, pathogen and skin microbiome (doi: 10.1098/rspb.2017.0582), de C. G. Becker, A. V. Longo, C. F. B. Haddad e K. R. Zamudio, está publicado em http://rspb.royalsocietypublishing.org/content/284/1861/20170582.
sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018
Vida das plantas nos campos rupestres
Fascículo organizado por pesquisadores brasileiros mostra diversidade e ameaças alarmantes
Assessoria de Comunicação e Imprensa
15/02/2018
Os
professores Patrícia Morellato, da Unesp de Rio Claro, e Fernando
Silveira, da UFMG, são editores de fascículo Especial de Revista
Internacional intitulado 'Plant life on campo rupestre, a megadiverse
Neotropical old-growth grassland'. Acesse o material em: https://www.sciencedirect.com/journal/flora/vol/238/suppl/C
Os anos de 2011-2020 representam a Decada
da Biodiversidade das Nações Unidas, que busca inspirar ações através do
mundo que apoiem a conservação da biodiversidade. O volume especial da
revista FLORA: “Plant life on campo rupestre, a megadiverse Neotropical
old-growth grassland” ilustra o conhecimento atual da vida das plantas
nos campos rupestres, um complexo vegetacional megadiverso, com alto
endemismo, mas sob ameaças alarmantes e sem precedentes.
As principais áreas de pesquisa agrupando os 27 artigos do volume especial são:
As principais áreas de pesquisa agrupando os 27 artigos do volume especial são:
i) Diversidade de plantas;
ii) coexistência de espécies, nicho
regenerativo e mudanças climáticas;
iii) Ecologia e interações
interespecíficas;
iv) A vida das plantas na canga;
v) Fogo, ecologia da
regeneração vegetal e conservação.
"Nós ressaltamos as grandes lacunas no conhecimento que ainda persistem e sugerimos as principais áreas para pesquisas futuras e quais seriam os passos principais para o entendimento e conservação destes ecossistemas antigos em todo o mundo", informa a docente da Unesp.
Tais esforços incluem a necessidade de: 1) Melhorar o conhecimento das espécies herbáceas; 2) Entender os efeitos dos fatores que causam as mudanças globais na vulnerabilidade das espécies endêmicas; 3) Compreender como a diversidade funcional de plantas e as interações planta-animal modelam a estrutura e função das comunidades vegetais; 4) Aplicar novas tecnologias (fenocâmeras, drones, sensoriamento remoto) para entender a fenologia das plantas no espaço e no tempo; 5) Mostrar padrões de diversificação e distinguir paleo e neoendemismos; 6) Destrinchar a função ecológica e evolutiva do fogo; 7) Fomentar novas ideias sobre os fatores que limitam a restauração ecológica em áreas degradadas de campo rupestre; 8) aumentar a conscientização e o valor dos serviços ecossistêmicos; 9) Identificar variáveis essenciais, medidas e áreas chave para a conservação dos campos rupestres; 10) promover revisões e pesquisa comparando ecossistemas antigos.
Desta forma, a crescente literatura sobre campo rupestre se beneficiará da pesquisa multidisciplinar e transdisciplinar de longo prazo, investigando uma grande variedade de tópicos, desde a ecologia das plantas ao funcionamento do ecossistema até a preservação da biodiversidade e restauração ecológica.
Todo o conhecimento deve chegar às partes interessadas, e deve ser traduzido em uma avaliação dos serviços ecossistêmicos para orientar a gestão racional do campo rupestre e para beneficiar as pessoas locais. Um passo importante na compreensão da ecologia do campo rupestre é a teoria das paisagens antigas, climáticas e inférteis ou OCBIL (old, climatically-buffered, infertile landscapes), que oferece um pano de fundo teórico de hipóteses testáveis e comparações entre países.
"Este volume especial fomentará a pesquisa colaborativa, levando à uma compreensão e apreciação mais profunda de um dos ecossistemas mais importantes do mundo", afirm a professora Patrícia.
"Nós ressaltamos as grandes lacunas no conhecimento que ainda persistem e sugerimos as principais áreas para pesquisas futuras e quais seriam os passos principais para o entendimento e conservação destes ecossistemas antigos em todo o mundo", informa a docente da Unesp.
Tais esforços incluem a necessidade de: 1) Melhorar o conhecimento das espécies herbáceas; 2) Entender os efeitos dos fatores que causam as mudanças globais na vulnerabilidade das espécies endêmicas; 3) Compreender como a diversidade funcional de plantas e as interações planta-animal modelam a estrutura e função das comunidades vegetais; 4) Aplicar novas tecnologias (fenocâmeras, drones, sensoriamento remoto) para entender a fenologia das plantas no espaço e no tempo; 5) Mostrar padrões de diversificação e distinguir paleo e neoendemismos; 6) Destrinchar a função ecológica e evolutiva do fogo; 7) Fomentar novas ideias sobre os fatores que limitam a restauração ecológica em áreas degradadas de campo rupestre; 8) aumentar a conscientização e o valor dos serviços ecossistêmicos; 9) Identificar variáveis essenciais, medidas e áreas chave para a conservação dos campos rupestres; 10) promover revisões e pesquisa comparando ecossistemas antigos.
Desta forma, a crescente literatura sobre campo rupestre se beneficiará da pesquisa multidisciplinar e transdisciplinar de longo prazo, investigando uma grande variedade de tópicos, desde a ecologia das plantas ao funcionamento do ecossistema até a preservação da biodiversidade e restauração ecológica.
Todo o conhecimento deve chegar às partes interessadas, e deve ser traduzido em uma avaliação dos serviços ecossistêmicos para orientar a gestão racional do campo rupestre e para beneficiar as pessoas locais. Um passo importante na compreensão da ecologia do campo rupestre é a teoria das paisagens antigas, climáticas e inférteis ou OCBIL (old, climatically-buffered, infertile landscapes), que oferece um pano de fundo teórico de hipóteses testáveis e comparações entre países.
"Este volume especial fomentará a pesquisa colaborativa, levando à uma compreensão e apreciação mais profunda de um dos ecossistemas mais importantes do mundo", afirm a professora Patrícia.
Contato da pesquisadora
patricia.morellato@gmail.com
patricia.morellato@gmail.com
O que são campos rupestres
Os campos rupestres ou rupícolas constituem uma ecorregião definida pelo WWF. São ecossistemas encontrados sobre topos de serras e chapadas de altitudes superiores a 900 m com afloramentos rochosos onde predominam ervas, gramíneas e arbustos, podendo ter arvoretas pouco desenvolvidas.
Em geral, ocorrem em mosaicos, não ocupando trechos contínuos, em áreas de transição entre o Cerrado, a Caatinga e a Mata Atlântica.
Apresentam topografia acidentada e grandes blocos de rochas com pouco solo, geralmente raso, ácido e pobre em nutrientes orgânicos. Em campos rupestres, é alta a ocorrência de espécies vegetais restritas geograficamente àquelas condições ambientais (endêmicas), principalmente na camada herbácea-subarbustiva.
Os campos rupestres ou rupícolas constituem uma ecorregião definida pelo WWF. São ecossistemas encontrados sobre topos de serras e chapadas de altitudes superiores a 900 m com afloramentos rochosos onde predominam ervas, gramíneas e arbustos, podendo ter arvoretas pouco desenvolvidas.
Em geral, ocorrem em mosaicos, não ocupando trechos contínuos, em áreas de transição entre o Cerrado, a Caatinga e a Mata Atlântica.
Apresentam topografia acidentada e grandes blocos de rochas com pouco solo, geralmente raso, ácido e pobre em nutrientes orgânicos. Em campos rupestres, é alta a ocorrência de espécies vegetais restritas geograficamente àquelas condições ambientais (endêmicas), principalmente na camada herbácea-subarbustiva.
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domingo, 30 de outubro de 2016
A maior diversidade de plantas do mundo
Botânicos registram 46 mil espécies e identificam em média 250 por ano no Brasil
CARLOS FIORAVANTI |
ED. 241 | MARÇO 2016
Revista Pesquisa FAPESP
Podcast: Rafaela Forzza
00:40 / 13:36
Quase metade, 43%, é exclusiva (endêmica) do território nacional. O total coloca o Brasil como o país com a maior riqueza de plantas no mundo – a primeira versão do levantamento, publicada em 2010, listava 40.989 espécies. Esse número não vai parar de crescer tão cedo porque novas espécies são identificadas e descritas continuamente em revistas científicas. Em média, os botânicos apresentam cerca de 250 novas espécies por ano.
Os cinco artigos detalhando a segunda versão da Lista de espécies da flora do Brasil foram publicados em dezembro do ano passado na Rodriguésia, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ), como forma de prestigiar a revista, que completou 80 anos em 2015. Dali também brota um alerta para as perdas contínuas de variedades únicas de plantas. Enquanto o levantamento era feito, um grupo de botânicos identificou uma espécie nova de bromélia com uma inflorescência vermelha, a Aechmea xinguana, em uma área de mata já coberta pela água do reservatório da usina de Belo Monte, em construção no norte do Pará. “Alguns exemplares dessa espécie foram resgatados e estavam na casa de vegetação do reservatório, mas as populações naturais se perderam na área alagada”, disse Rafaela Campostrini Forzza, pesquisadora do JBRJ e coordenadora do levantamento.
O trabalho não terminou. Neste mês de março os especialistas em cada grupo de plantas devem começar a incluir as descrições, distribuição geográfica detalhada e outras características de cada espécie no banco de dados on-line Flora do Brasil (floradobrasil.jbrj.gov.br) para servir de base para o Flora do Brasil Online, que deve estar concluído até 2020 para integrar o World Flora Online, com informações sobre todas as plantas conhecidas do mundo. Na trilha dos botânicos, os zoólogos se organizaram e apresentaram também em dezembro de 2015 a primeira versão do Catálogo Taxonômico da Fauna do Brasil (CTFB), resultado do trabalho de cerca de 500 especialistas, que começaram a detalhar as informações sobre 116.092 espécies, a maioria artrópodes, com quase 94 mil espécies ou 85% do total (fauna.jbrj.gov.br/fauna/listaBrasil).
© DENISE SASAKI/PROGRAMA FLORA CRISTALINO
Planta feminina de Gnetum leyboldii
do Parque Estadual Cristalino, no Mato Grosso, uma das seis espécies de
Gnetum da Amazônia: o que parece frutos são na verdade sementes
© GERARDUS OOLSTROM
Rhipsalis flagelliformis, espécie de cacto exclusiva do Rio de Janeiro
Na Flora brasiliensis, o grupo predominante, com 32.813 espécies, são as plantas com sementes protegidas por frutos carnosos ou secos, as chamadas angiospermas. Nesse grupo estão as árvores como o ipê e o jacarandá, a roseira e outras espécies ornamentais, o feijão, o amendoim, o milho e a maioria dos vegetais usados na alimentação. Somente de feijões, pertencentes aos gêneros Vigna, Canavalia e Phaseolus, a flora brasileira registra cerca de 30 espécies nativas e naturalizadas, “a maioria delas com um potencial para a alimentação humana ainda pouco investigado”, comentou Vinicius Souza, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP) que participou da produção e organização das informações desse trabalho.
Alegria e inquietação
Os botânicos agora convivem com a satisfação de ver mais uma etapa do projeto concluída e, ao mesmo tempo, uma desagradável inquietação, porque eles sabem que a distribuição geográfica das coletas de amostras de plantas, sobre as quais o trabalho foi feito, não era equilibrada: havia muito mais informações sobre as regiões Sul e Sudeste, onde se concentram as coletas, os grupos de especialistas e as instituições de pesquisa, do que nas outras partes do país. Enquanto no Rio de Janeiro havia 5,8 coletas por quilômetro quadrado (km2) e no Espírito Santo, 3,9 por km2, no Pará e no Amazonas essa relação era de 0,10 e 0,17 por km2.
Provavelmente por causa do número de coletas aquém do desejado pelos botânicos, o estado do Amazonas aparece em terceiro lugar entre os estados com maior diversidade, seguindo Minas Gerais, em primeiro, e Bahia. Os botânicos não estão satisfeitos com esse resultado. “No Amazonas poderia haver pelo menos mais 20 mil espécies ainda não amostradas”, disse Souza.
São Paulo encontra-se em quarto lugar de diversidade. Além de ser um espaço bastante percorrido por expedições botânicas, o estado apresenta uma variedade de relevos, com planícies a oeste e montanhas a leste, e de tipos de vegetação que favorecem a formação de novas espécies. “Tanto as formações vegetais de clima frio que vêm do sul quanto as de clima quente, como o Cerrado, param em São Paulo”, disse José Rubens Pirani, professor do Instituto de Biociências (IB) da USP (ver tabela).
“Infelizmente, mantivemos a distorção do trabalho de Von Martius, que coletou principalmente na Mata Atlântica, Caatinga e Cerrado e andou pouco pela Amazônia”, comentou Rafaela. “Precisamos de um plano nacional de mapeamento das espécies de plantas da Floresta Amazônica para resolver o problema da subamostragem do maior bioma brasileiro, que representa metade do território nacional.”
© EDUARDO CESAR
Em aclimatação na capital paulista: flor e fruto de Euphorbia attastoma, cacto endêmico da serra de Grão Mogol, MG, com látex fosforescente
“Ainda estamos longe dos prováveis números reais”, observou Souza. “Quanto maior o número de coletas por região ou estado, maior o número de espécies.” Uma evidência de sua afirmação é que, por causa das coletas mais numerosas, a diversidade de plantas do Tocantins aumentou 70% e a do Piauí, 40%, em relação ao registrado na primeira versão da Flora, de 2010. “Não estávamos trabalhando lá e as plantas não apareciam”, comentou Pirani. Em 2013, com sua equipe, ele identificou uma espécie nova de arbusto, Simaba tocantina, em uma área de Cerrado pouco conhecida no interior e nas proximidades do parque do Jalapão, leste do Tocantins, marcada por vastos areais como os descritos no livro Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa.
Na região Norte, as áreas menos estudadas são as mais propícias ao avanço das novas plantações de soja e cana-de-açúcar. “O desmatamento é muito mais rápido do que nossa capacidade de conhecer a floresta”, queixou-se a botânica paulista Daniela Zappi, pesquisadora do Kew Gardens, de Londres. “É um desespero. Parece que não vai dar tempo de chegar nessas áreas, principalmente no Arco do Desmatamento, entre o norte do Mato Grosso e o sul do Pará.”
As cactáceas, um dos grupos em que ela é especialista, apresentam uma elevada diversidade no Brasil – em Minas vivem 103 espécies e na Bahia, 98 –, mas 32% das 260 espécies desse grupo encontram-se em grau variável de risco de extinção. As áreas que ocupam são continuamente substituídas por plantações de eucalipto, agricultura ou mineração. Os cactos são explorados como plantas ornamentais e colhidos para servir como alimento para o gado ou para pessoas, que também os usam como fonte de medicamentos, geralmente sem se preocupar em repor as populações originais. Outro problema é que muitas espécies crescem apenas em áreas específicas. É o caso do Arrojadoa marylaniae, um cacto colunar com anéis de flores vermelhas que cresce apenas sobre uma jazida de quartzo branco de valor comercial no interior da Bahia.
© EDUARDO CESAR
Flor de japaranduba (Erythrochiton brasiliensis), arvoreta do interior de trechos inalterados da Mata Atlântica úmida
Rafaela também trabalha com o advogado Elton Leme, um botânico não profissional, na caracterização de três novas espécies do gênero Encholirium, que vivem entre rochas em morros da Bahia e de Minas Gerais. Por sua vez, pesquisadores da Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte espalharam cartazes com o título “Procura-se” e fotos e informações sobre o faveiro-de-wilson, uma árvore rara, e conseguiram localizar muitos exemplares com a ajuda de moradores do interior de Minas (ver Pesquisa Fapesp no 235).
“Não precisamos plantar apenas rosas e azaleias”, propôs Pirani enquanto caminhava pelos corredores amplos e ensolarados do herbário do IB-USP no início de janeiro. “Cultivar plantas ornamentais nativas em nossas casas, nas ruas e nas margens de estradas é uma forma de preservar a diversidade.” Em seguida ele apresentou um arbusto de flores azuis, a canela-de-ema, duas bromélias, o gravatá e a macambira, e outras plantas coletadas na serra de Grão Mogol, norte de Minas Gerais, que ele procura adaptar ao clima da capital. “Aqui chove mais do que em Minas, mas, mesmo assim, algumas delas florescem todo ano.”
Artigos científicos
COSTA, D. P. e PERALTA, D. F. Bryophytes diversity in Brazil. Rodriguésia. v. 66, n. 4, p. 1063-71. 2015.
MAIA, L. C. et al. Diversity of Brazilian Fungi. Rodriguésia. v. 66, n. 4, p. 1033-45. 2015.
MENEZES, M. et al. Update of the Brazilian floristic list of Algae and Cyanobacteria. Rodriguésia. v. 66, n. 4, p. 1047-62. 2015.
PRADO, J. et al. Diversity of ferns and lycophytes in Brazil. Rodriguésia. v. 66, n. 4, p. 1073-83. 2015.
THE BRAZIL FLORA GROUP. Growing knowledge: an overview of seed plant diversity in Brazil. Rodriguésia. v. 66, n. 4, p. 1085-113. 2015.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2016
A riqueza dos campos de altitude
História evolutiva da vegetação na área serrana da região Sul ressalta importância de ecossistema não florestal
GILBERTO STAM |
ED. 239 | JANEIRO 2016
© EDUARDO CESAR
Paisagens do alto da serra: gramíneas, arbustos, araucárias e despenhadeiros abruptos
Iganci, especialista na vegetação dos Campos de Cima da Serra, como são conhecidos na região, faz parte de um grupo da UFRGS e da Universidade Federal de Goiás (UFG) liderado pela geneticista Loreta Freitas, também da UFRGS, que busca compreender a história evolutiva das espécies da região e localizar áreas prioritárias para conservação.
Os pesquisadores dividiram a Serra Geral em quatro regiões (ver mapa), sempre a partir de 900 metros acima do nível do mar, onde a floresta típica da Mata Atlântica dá lugar aos campos e às matas com araucária. A primeira etapa foi mapear a distribuição das espécies usando como indicador três gêneros típicos da região, todos eles com uma abundância de espécies endêmicas (índice de endemismo): Petunia, Calibrachoa e Adesmia. O estudo demonstrou que a Área 1, no cume da serra, abriga a maior diversidade, com 13 espécies, seguida pela Área 2, a oeste, com 10 espécies.
© ILSE BOLDRINI / UFRGS
Gramínea Elyonurus
As florestas com araucária – que dividem o mesmo ambiente, formando mosaicos com os campos – também tiveram um papel importante. “Ao longo do tempo, ocorreu uma competição constante entre campo e essas florestas, com uma alternância entre ambientes dependendo das condições climáticas”, diz Iganci. Essa dinâmica, que ainda hoje existe, pode ter sido responsável pela separação de determinadas populações que acabaram formando novas espécies. “Esse parece ter sido o caso de algumas petúnias polinizadas por abelhas”, diz Loreta. “Essas abelhas não conseguiam atravessar as florestas com araucária, que assim provocavam um bloqueio no fluxo gênico entre populações.”
© ILSE BOLDRINI
Cravo-do-campo (Trichocline macrocephala)
Percepção campestre
O estudo contraria a ênfase dada às florestas que limita os esforços de preservação de campos no mundo todo. Um grupo de especialistas em ecossistemas campestres do Brasil, Estados Unidos, França, Bélgica e África do Sul tenta mudar essa percepção ressaltando, dentro e fora da comunidade científica, a alta biodiversidade dos campos, que devem ser vistos como ecossistemas antigos, cuja história evolutiva de milhões de anos tem íntima relação com o fogo e a presença de animais herbívoros. Muitas plantas apresentam adaptações como caules subterrâneos e são capazes de brotar rapidamente após a queima e com órgãos subterrâneos como tubérculos, rizomas e bulbos, que armazenam água e amido em local protegido.
© 4 JEFERSON FREGONEZI / UFRGS
Petúnia Calibrachoa sellowiana
Valorização humana
Os campos também prestam importantes serviços ecológicos. “Esses ecossistemas são fundamentais na regulação do ciclo hidrológico, pois além de a vegetação reter muito menos água das chuvas do que o dossel das florestas, as abundantes raízes finas funcionam como uma esponja que libera a água aos poucos para os rios e aquíferos”, diz a engenheira florestal especialista em Cerrado Giselda Durigan, do Instituto Florestal do Estado de São Paulo, em Assis. Além disso, o solo abriga tubérculos, bulbos e rizomas, adaptações das plantas que ajudam a reter água na estação seca e permitem que elas resistam ao fogo e à herbivoria, desafios comuns nesses ambientes. “Essas estruturas contribuem para o sequestro de carbono, embora isso ainda não esteja quantificado”, diz Giselda. “Os solos são complexos e levam muito tempo para se formar. Se degradados, a recuperação é dificílima.”
© VALÉRIO PILLAR / UFRGS
Plantio de Pinus em campo
Artigos científicos
Veldman, J. W. et al. Toward an old-growth concept for grasslands, savannas, and woodlands. Frontiers in Ecology and Environment. v. 13, n. 3, p. 154-62. abr. 2015.
Barros, M. J. F. et al. Environmental drivers of diversity in Subtropical Highland Grasslands. Perspectives in Plant Ecology, Evolution and Systematics. v. 17, n. 5, p. 360-8. out. 2015.
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