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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Uma vez degradado, o Cerrado não se regenera naturalmente

20 de fevereiro de 2018


José Tadeu Arantes  |  Agência FAPESP – Alguns dos mais importantes rios do Brasil – Xingu, Tocantins, Araguaia, São Francisco, Parnaíba, Gurupi, Jequitinhonha, Paraná e Paraguai, entre outros – nascem no Cerrado. Trata-se da única savana do planeta dotada de rios perenes. A rápida conversão do Cerrado em pastagens e lavouras e o manejo inadequado das áreas preservadas colocam em risco esse formidável recurso natural, em um país com o terceiro maior potencial hidrelétrico tecnicamente aproveitável do mundo, e em que 77,2% da matriz elétrica é suprida pela hidroeletricidade.

Uma vez degradado, o Cerrado não se regenera naturalmente Abandonadas, áreas do bioma convertidas em pastagens se transformam em cerradão, uma formação de vegetação adensada mas pobre em biodiversidade, indica pesquisa feita na Unesp (fotos: divulgação)

Além disso, a destruição do Cerrado constitui uma perda inestimável em termos de biodiversidade, pois, na microescala, esse bioma, que pode apresentar 35 espécies diferentes de plantas por metro quadrado, é mais rico em flora e fauna do que a floresta tropical (leia em: http://agencia.fapesp.br/25865).
Sabe-se que o Cerrado tem um potencial de regeneração natural muito alto. Mas até que ponto vai sua resiliência? O que é necessário para que, uma vez convertido em pastagens, o Cerrado recupere sua configuração natural? Quanto tempo seria necessário para isso?
Um novo estudo, feito na Universidade Estadual Paulista (Unesp) e com resultados publicados no Journal of Applied Ecology, procurou responder a essas perguntas.
“Nosso esforço inicial foi localizar, no Estado de São Paulo, as áreas de antigas pastagens que agora se encontram em regeneração natural na condição de ‘reserva legal’”, disse a coordenadora do estudo Giselda Durigan, professora da pós-graduação em Ciência Florestal da Unesp e pesquisadora do Instituto Florestal do Estado de São Paulo.

O trabalho foi realizado no âmbito do doutorado de Mário Guilherme de Biagi Cava, com Bolsa da FAPESP e orientação de Durigan, e também apoiado por meio de um Auxílio à Pesquisa concedido ao professor Milton Cezar Ribeiro e de uma Bolsa de Doutorado a Natashi Aparecida Lima Pilon.
“Foram encontradas mais de 80 áreas, o que pareceu de saída um dado bastante promissor. Mas o entusiasmo inicial de meu orientando foi arrefecido pela resistência dos proprietários em permitir o acesso às áreas para amostragem. E isso nos levou a uma primeira constatação: a de que o rigor das leis de preservação não tem sido acompanhado da necessária assistência que deveria ser prestada pelo poder público aos particulares para a restauração da vegetação”, disse.
Apesar do interesse social de uma pesquisa como essa, a oposição dos proprietários fez com que a amostragem fosse reduzida para 29 áreas, que haviam sido convertidas de Cerrado em pastagens, e foram posteriormente incorporadas como unidades de conservação ou reservas legais de empresas de reflorestamento, usinas e propriedades agropecuárias.
Nelas, foi feito o levantamento da vegetação, tanto das árvores quanto das plantas pequenas que compõem o estrato herbáceo-arbustivo e que constituem a maior riqueza da flora do Cerrado. Apesar de estarem localizadas em regiões diferentes, essas 29 áreas, com idades variando de quatro a 25 anos, puderam ser ordenadas em uma sequência cronológica no que se refere ao estágio de regeneração.
“Para resumir nossos resultados, de maneira bastante simplificada, descobrimos que o estrato arbóreo se recupera, até mesmo com muita facilidade. Mas, uma vez eliminada, a vegetação rasteira ou de pequeno porte, que compõe o estrato herbáceo-arbustivo e que contém a maior parte das espécies endêmicas, não se regenera. Então, quando a pastagem é simplesmente abandonada, ela se transforma, depois de algum tempo, em um cerradão, que é uma formação caracterizada por vegetação muito adensada, com grande predomínio de árvores e pobre em biodiversidade”, afirmou Durigan.

As árvores se recuperam por possuírem raízes muito profundas e terem evoluído, ao longo de milhões de anos, desenvolvendo a capacidade de rebrotar inúmeras vezes.
“Quem tenta implantar pastagens no Cerrado sabe que o custo maior de manutenção é a roçada. Sem que seja roçada pelo menos de dois em dois anos, a vegetação arbórea volta a se impor. Não é possível eliminá-la nem aplicando herbicida”, disse Durigan.
Porém o estrato herbáceo-arbustivo, que é removido para a implantação das pastagens, não se recompõe, devido à invasão dos terrenos por gramíneas exóticas muito resistentes e agressivas: as braquiárias.

“Essas só desaparecem com o sombreamento, causado pelo adensamento das árvores. Mas, quando desaparecem as gramíneas exóticas, as plantas originais de pequeno porte, que foram completamente erradicadas pelos herbicidas, pelas roçadas e pela competição com as braquiárias e que não toleram a sombra, também não voltam mais”, continuou a pesquisadora.
Para fazer com que a área voltasse a abrigar um cerrado típico, seria necessário eliminar as gramíneas exóticas, com manejo por meio de fogo associado a herbicida, e, depois, reintroduzir as espécies nativas. Mas isso constitui uma operação difícil e cara, que, com os recursos atuais, não pode ser realizada em larga escala.
“Temos pesquisado diferentes técnicas para promover a recuperação. Com sementes, é necessária uma quantidade gigantesca, que não há nem de onde tirar. O que deu muito certo, em escala experimental, foi o transplante do estrato herbáceo-arbustivo: a camada superficial do solo, acompanhada das touceiras de capim e das pequenas plantas”, disse Durigan.
“O grande problema é que, no Estado de São Paulo, já não há mais áreas-fonte para isso. O que sobrou de Cerrado aberto está invadido por gramíneas exóticas. Então, quando se transplanta a camada superficial do solo, a braquiária vai junto. Isso acontece inclusive nas áreas protegidas”, acrescentou.

Floresta degradada

O estudo feito na Unesp permitiu fechar um diagnóstico e fazer predições. Espontaneamente, uma vez degradado, o cerrado típico não se recompõe totalmente. Para que uma área de pastagem volte a ser um cerrado típico, com riqueza de biodiversidade, com a flora característica, com habitats para fauna especializada em savana, é necessário manejo humano: não se pode deixar que o adensamento das árvores passe do limiar de 15 metros quadrados por hectare; é preciso erradicar o capim exótico; e deve-se reintroduzir o estrato herbáceo-arbustivo nativo.

Evoluindo espontaneamente, sem manejo, em 49 anos a vegetação arbórea nas antigas áreas de pastagem irá se transformar em cerradão. A cobertura esparsa de solo característica do cerradão é alcançada em quatro anos e a biodiversidade pobre do estrato herbáceo é obtida em 19 anos. “O processo é rápido, mas os resultados não são os que procuramos. O cerradão não se distingue de uma floresta degradada”, disse Durigan.

Dois anos depois do levantamento, já na segunda fase do doutorado de Cava, os pesquisadores vão voltar às mesmas áreas em fevereiro e março de 2018, e medir tudo novamente, para obter a taxa precisa de aumento de cobertura, densidade e biodiversidade.
“Esses valores precisos nos permitirão saber com exatidão qual é o potencial de regeneração das diferentes áreas e quais são os fatores favoráveis. É o tipo de solo? É a distância a uma fonte de sementes? É a proximidade de recursos hídricos? Todos esses parâmetros serão considerados”, disse Durigan.

Conforme afirmou, o artigo publicado por seu grupo é muito inovador porque não há ninguém em outros países tratando de recuperação de savanas.

“Isto porque ainda não ocorreu na África nem na Austrália um processo similar ao que estamos vivendo aqui, de conversão da savana em pastagens extensivas e em grandes lavouras de soja, cana ou milho. Na África, as savanas estão bem degradadas, mas devido ao sobrepastoreio, à exploração de lenha e a outras ações cujos impactos são menos visíveis no curto prazo. No Brasil, estamos presenciando transformações que ocorrem de um dia para o outro”, comentou a pesquisadora.
O artigo Abandoned pastures cannot spontaneously recover the attributes of old-growth savanas (doi: 10.1111/1365-2664.13046), de Mário G. B. Cava, Natashi A. L. Pilon, Milton Cezar Ribeiro e Giselda Durigan, está publicado em http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/1365-2664.13046/full.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Nova visão sobre a eficiência das Unidades de Conservação
Artigo é publicado em revista internacional
Assessoria de Comunicação e Imprensa
08/02/2018
Mata Atlàntica
 
No recente trabalho publicado na revista Acta Oecologica, pesquisadores do Laboratório de Ecologia Espacial e Conservação (LEEC) da UNESP-Rio Claro e um pesquisador da Universidade Federal de Goiás (UFG) testaram a eficiência da rede das Unidades de Conservação nos biomas da Amazônia e da Mata Atlântica. Para isso o grupo utilizou uma abordagem pouco usual: eles avaliaram como as áreas de proteção (Protected Areas – PAs), como são conhecidas no termo técnico da área, eram eficientes em manter áreas climáticas estáveis ??(Climate Stable Areas – CSAs).

“Áreas climáticas estáveis são áreas que se mantiveram como bioma florestal em diferentes cenários de mudanças climáticas passadas (21 mil, 6 mil anos atrás e atualmente). No passado, esses biomas se moveram geograficamente devido às mudanças climáticas do Holoceno e do Pleistoceno, mas algumas áreas se mantiveram geograficamente e climaticamente estáveis”, segundo o pós-doutorando Thadeu Sobral-Souza, que liderou o grupo. 
Ele continua, “nossos modelos encontraram justamente quais são essas áreas (ver mapa à esquerda na figura). Em seguida, nós classificamos as CSAs quanto à sua estabilidade temporal, quais delas estavam situadas em áreas protegidas e possuíam remanescentes florestais intactos”.

Os pesquisadores então criaram três classes de prioridade: 
1) Área prioritária muito alta [CSAs (21 mil anos), fora das PAs e com floresta intacta], 
2) Área prioritária alta [ CSAs (21 mil anos), fora das PAs e com floresta fragmentada]; e 
3) Área prioritária média [CSAs (6 mil anos), fora das PAs e com floresta intacta].

“Nossos resultados indicaram que a rede de PAs da Amazônia é quatro vezes mais eficiente que a rede de PAs da Mata Atlântica. Dessa forma, nós propomos que novos esforços de conservação nesses biomas florestais requerem diferentes abordagens para assegurar e aumentar a eficiência das PAs” comenta o Prof. Matheus Lima-Ribeiro da UFG de Jataí.

Por fim, os autores dão um remate final ao trabalho, deixando claras as diferenças nas propostas de conservação. Segundo o Prof. Milton Ribeiro, da UNESP de Rio Claro, “na Mata Atlântica, onde há poucas CSAs e sua distribuição é disjunta, propomos que programas de restauração deveria ser o foco”. Segundo ele, na Amazônia o cenário é totalmente diferente. Ele continua, “no oeste da Amazônia, onde há grandes áreas climaticamente estáveis e com vastas áreas florestais intactas, propomos que as ações devem incentivar a criação de novas PAs e/ou a expansão das mesmas. Já no leste da Amazônia, onde há grandes CSAs com pouco fragmento florestal intacto, comparado ao oeste da Amazônia, sugerimos que programas de restauração passiva, aliada à criação de PAs seja uma medida eficiente de conservação”.

Os autores ainda disponibilizaram as CSAs em arquivos no formato shapefile para download no link permanente: https://github.com/mauriciovancine/CSAs-Amazon-Atlantic-Forest.

O trabalho teve financiamento de diferentes fontes de fomento como FAPESP, Capes e CNPq e pode ser acessado através do link: https://authors.elsevier.com/c/1WWgr,Q4YJFjNc.

Contatos:

Thadeu Sobra-Souza, pós-doutorando, UNESP Rio Claro - thadeusobral@gmail.com

Maurício Humberto Vancine, mestrado, UNESP Rio Claro - mauricio.vancine@gmail.com

Milton Cezar Ribeiro, professor, UNESP Rio Claro - mcr@rc.unesp.br

Matheus Ribeiro, professor da UFG Jataí - mslima.ribeiro@gmail.com

Acesse release com imagens aqui.

Acesse artigo aqui.
Sobral-Souza, T., M. H. Vancine, M. C. Ribeiro, and M. S. Lima-Ribeiro. 2018. Efficiency of protected areas in Amazon and Atlantic Forest conservation: a spatio-temporal view. Acta Oecologica 87: 1–7.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

A riqueza dos campos de altitude

História evolutiva da vegetação na área serrana da região Sul ressalta importância de ecossistema não florestal
GILBERTO STAM | ED. 239 | JANEIRO 2016
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© EDUARDO CESAR
Paisagens do alto da serra: gramíneas, arbustos, araucárias e despenhadeiros abruptos
Paisagens do alto da serra: gramíneas, arbustos, araucárias e despenhadeiros abruptos

Os campos de altitude da Serra Geral, no sul do Brasil, são encontrados sobre platôs cada vez mais altos à medida que avançam para a borda leste, onde a serra de repente despenca em imensos cânions. Vegetação campestre e arbustos predominam nessa área de invernos frios e solo raso, salpicada por afloramentos rochosos, pequenas manchas florestais e regiões encharcadas e ricas em matéria orgânica (turfeiras). A aparente monotonia dos campos, que alguns chamam de “mar de grama”, esconde uma rica biodiversidade vegetal, com quase 300 espécies exclusivas da região, muitas delas pouco estudadas até recentemente. “A taxa de endemismo é de 25%, muito maior do que a encontrada na Floresta Atlântica da região”, diz o botânico João Iganci, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Embora muitas plantas dali também existam em outras regiões de altitude, tanto tropicais quanto temperadas, é esse endemismo que torna especiais os campos do Sul. “O número total de espécies também é alto e comparável a outros centros de biodiversidade, considerando que a área é pequena.”

Iganci, especialista na vegetação dos Campos de Cima da Serra, como são conhecidos na região, faz parte de um grupo da UFRGS e da Universidade Federal de Goiás (UFG) liderado pela geneticista Loreta Freitas, também da UFRGS, que busca compreender a história evolutiva das espécies da região e localizar áreas prioritárias para conservação.

Os pesquisadores dividiram a Serra Geral em quatro regiões (ver mapa), sempre a partir de 900 metros acima do nível do mar, onde a floresta típica da Mata Atlântica dá lugar aos campos e às matas com araucária. A primeira etapa foi mapear a distribuição das espécies usando como indicador três gêneros típicos da região, todos eles com uma abundância de espécies endêmicas (índice de endemismo): Petunia, Calibrachoa e Adesmia. O estudo demonstrou que a Área 1, no cume da serra, abriga a maior diversidade, com 13 espécies, seguida pela Área 2, a oeste, com 10 espécies.
© ILSE BOLDRINI / UFRGS
Gramínea Elyonurus
Gramínea Elyonurus

Altos índices de endemismo geralmente ocorrem em ecossistemas antigos e estáveis, já que demora muito tempo para novas espécies surgirem. Parece que foi isso mesmo que aconteceu nos campos de altitude sulinos, de acordo com simulações do clima desde 21 mil anos atrás, quando o planeta atingiu sua temperatura mais baixa desde o último ciclo glacial. Os resultados indicam que a Área 1, seguida pela 2, manteve um clima mais estável, confirmando a pista dada pela biodiversidade. “No último máximo glacial o clima era mais frio e seco, propício para o desenvolvimento dos campos, o que permitiu que espécies desse ambiente avançassem sobre áreas mais úmidas e quentes, onde antes predominavam florestas”, conta Loreta. “Ao migrar para regiões para as quais não estavam adaptadas, as espécies campestres se diversificavam, dando origem a novas espécies e linhagens.” Durante esse período, houve expansão dos campos em direção a locais de menor altitude, ao norte. Mas, com o aquecimento gradual e aumento da umidade, as florestas voltaram a se expandir e ocupar regiões de campos que, por sua vez, se tornaram restritos às regiões mais altas, onde estão hoje.

As florestas com araucária – que dividem o mesmo ambiente, formando mosaicos com os campos – também tiveram um papel importante. “Ao longo do tempo, ocorreu uma competição constante entre campo e essas florestas, com uma alternância entre ambientes dependendo das condições climáticas”, diz Iganci. Essa dinâmica, que ainda hoje existe, pode ter sido responsável pela separação de determinadas populações que acabaram formando novas espécies. “Esse parece ter sido o caso de algumas petúnias polinizadas por abelhas”, diz Loreta. “Essas abelhas não conseguiam atravessar as florestas com araucária, que assim provocavam um bloqueio no fluxo gênico entre populações.”
© ILSE BOLDRINI
Cravo-do-campo (Trichocline macrocephala)
Cravo-do-campo (Trichocline macrocephala)
Os pesquisadores observaram também que a biodiversidade fica menor nas direções oeste e norte, conforme diminui a altitude e a umidade que vem do mar. “Os resultados para biodiversidade se referem apenas aos grupos estudados, mas são espécies altamente representativas da região”, diz Loreta. “Também observamos uma forte correlação da biodiversidade com o clima e a altitude.” Além de indicar áreas prioritárias e ajudar a entender a origem da biodiversidade da região, o estudo contribui para revelar uma riqueza antes desconhecida. “Até pouco tempo atrás os Campos de Cima da Serra vinham sendo completamente negligenciados em estudos que levam em conta os aspectos ecológicos, evolutivos e conservacionistas”, diz Iganci. O pesquisador, que fez várias viagens de coleta nos últimos 10 anos, alerta para a degradação do ecossistema e identifica sua principal ameaça: o avanço da silvicultura, que consiste em plantações de pinheiro e eucalipto.

Percepção campestre
 
O estudo contraria a ênfase dada às florestas que limita os esforços de preservação de campos no mundo todo. Um grupo de especialistas em ecossistemas campestres do Brasil, Estados Unidos, França, Bélgica e África do Sul tenta mudar essa percepção ressaltando, dentro e fora da comunidade científica, a alta biodiversidade dos campos, que devem ser vistos como ecossistemas antigos, cuja história evolutiva de milhões de anos tem íntima relação com o fogo e a presença de animais herbívoros. Muitas plantas apresentam adaptações como caules subterrâneos e são capazes de brotar rapidamente após a queima e com órgãos subterrâneos como tubérculos, rizomas e bulbos, que armazenam água e amido em local protegido.
© 4 JEFERSON FREGONEZI / UFRGS
Petúnia Calibrachoa sellowiana
Petúnia Calibrachoa sellowiana

“A diversidade de plantas e também de outros grupos dos ambientes de campo e de savana no Brasil pode ser considerada equivalente àquela das florestas”, diz o ecólogo Gerhard Overbeck, especialista em vegetação campestre, também da UFRGS. “Temos de levar em conta também a área ocupada por esses ecossistemas. O Pampa, por exemplo, ocupa pouco mais de 2% do Brasil, mas contém mais de 2.150 espécies de plantas apenas em ambientes de campo”, completa. Segundo ele, em algumas regiões campestres no sul do Brasil é possível encontrar mais de 50 espécies de plantas por metro quadrado, incluindo um grande número de espécies de gramíneas. Muitas plantas de ambientes campestres têm um longo ciclo de vida, como algumas do gênero Vellozia, que ocorrem nos campos rupestres no Brasil Central, que demoram 100 anos para chegar à idade reprodutiva e podem viver até 500 anos. O problema é que os sinais de antiguidade no campo são mais difíceis de visualizar que o perímetro das árvores ou o acúmulo de matéria orgânica nas florestas.

Valorização humana
 
Os campos também prestam importantes serviços ecológicos. “Esses ecossistemas são fundamentais na regulação do ciclo hidrológico, pois além de a vegetação reter muito menos água das chuvas do que o dossel das florestas, as abundantes raízes finas funcionam como uma esponja que libera a água aos poucos para os rios e aquíferos”, diz a engenheira florestal especialista em Cerrado Giselda Durigan, do Instituto Florestal do Estado de São Paulo, em Assis. Além disso, o solo abriga tubérculos, bulbos e rizomas, adaptações das plantas que ajudam a reter água na estação seca e permitem que elas resistam ao fogo e à herbivoria, desafios comuns nesses ambientes. “Essas estruturas contribuem para o sequestro de carbono, embora isso ainda não esteja quantificado”, diz Giselda. “Os solos são complexos e levam muito tempo para se formar. Se degradados, a recuperação é dificílima.”
© VALÉRIO PILLAR / UFRGS
Plantio de Pinus em campo
Plantio de Pinus em campo
A falta de conhecimento sobre a ecologia dos campos tem levado a políticas de conservação equivocadas, como o incentivo à silvicultura, com resultados desastrosos para a biodiversidade e para os serviços ecológicos. “As árvores fazem sombra, impedindo o crescimento das plantas herbáceas ávidas por sol e reduzindo a biodiversidade”, diz Giselda. “Além disso, fazem com que 20% a 30% da água da chuva evapore antes de chegar ao solo.” Outro exemplo de proteção às avessas é a proibição da “sapecada”, queima provocada pelos pecuaristas serranos para manejo do pasto e proibida em 1992 pelo Código Florestal Estadual do Rio Grande do Sul. Giselda afirma que o fogo, assim como o gado (desde que não sejam excessivos), evita o adensamento das árvores, ajudando a manter estável a estrutura e a diversidade da vegetação campestre. Além disso, a variedade de gramíneas natural desses ambientes pode tornar a carne mais saudável do que a de animais confinados.
060-063_Campos de altitude_239O grupo internacional de especialistas, do qual fazem parte Giselda e Gerhard, publicou em 2015 um artigo no qual propõe o conceito de “campos antigos” (old growth grasslands, em inglês), um adjetivo em geral aplicado a florestas maduras. Os autores chamam a atenção para características específicas de ecossistemas de campo de savana que exigem estratégias de conservação distintas. Ao ampliar a compreensão desses ambientes, eles também esperam contribuir para inserir os campos na pauta do movimento ambientalista, lançando um novo olhar sobre esses ecossistemas que ajude a enxergar as riquezas escondidas no “mar de grama”.

Artigos científicos
 
Veldman, J. W. et al. Toward an old-growth concept for grasslands, savannas, and woodlands. Frontiers in Ecology and Environment. v. 13, n. 3, p. 154-62. abr. 2015.

Barros, M. J. F. et al. Environmental drivers of diversity in Subtropical Highland Grasslands. Perspectives in Plant Ecology, Evolution and Systematics. v. 17, n. 5, p. 360-8. out. 2015.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Para onde vão as nossas matas?

No Ano Internacional das Florestas, o diretor do Programa Mata Atlântica mostra o pouco que temos para comemorar

Isís Nóbile Diniz
As florestas cobrem 31% da área terrestre, garantem a sobrevivência de 1,6 bilhão de pessoas e abrigam cerca de 300 milhões de habitantes. Para destacar essa importância, promover a preservação ambiental e, também, incentivar a reflexão sobre a relação do homem com as matas, a Organização das Nações Unidas (ONU) elegeu 2011o Ano Internacional das Florestas sob o slogan: “Proteja as florestas, elas protegem você”. O Brasil, segundo maior país com área total coberta por matas – perde para a Rússia e suas florestas boreais –, tem pouco a comemorar. A Mata Atlântica, um dos biomas mais ricos em biodiversidade, aparece na lista dos dez que mais correm risco de desaparecer.

Mundialmente, o Brasil é conhecido pela Floresta Amazônica que habita o imaginário das pessoas inspirando, por exemplo, filmes épicos como Avatar. Não é por menos. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o bioma Amazônia ocupa quase metade do território nacional – é a maior floresta tropical do planeta. E ela vai além das fronteiras, se estende pelos vizinhos Venezuela, Colômbia, Peru, Bolívia, Equador, Suriname, Guiana e Guiana Francesa. Sozinha, a Amazônia responde por 26% das florestas tropicais remanescentes do mundo. Apesar dessa grandeza, é graças a todos os biomas brasileiros que o país abriga mais de 20% do número total de espécies endêmicas do planeta e um deles em especial. Segundo a organização não governamental (ONG) SOS Mata Atlântica, a floresta que cede o nome à organização é o bioma mais rico em biodiversidade do planeta.

Estima-se, porém, que restou 7% a 21% da vegetação original da Mata Atlântica, valores
cuja variação se deve ao tipo de levantamento considerado. Esse é o resultado de décadas de desmatamento. No bioma, vive mais de 60% da população brasileira. São cerca de 110 milhões de pessoas que dependem, direta e indiretamente, da conservação dos remanescentes das florestas para a garantia do abastecimento de água, a regulação do clima, a fertilidade do solo. Luiz Paulo Pinto, diretor do Programa Mata Atlântica da ONG Conservação Internacional, conta qual a situação atual do bioma e acredita na sua recuperação.


AULA ABERTA Qual é a situação atual da Mata Atlântica? O desmatamento se estabilizou?
LUIZ PAULO Análises recentes revelam a gravidade da situação: mais de 80% dos fragmentos florestais remanescentes possuem menos de 50 hectares. Manchas de floresta desse tamanho podem ainda reter parte da biodiversidade, mas a grande maioria está sujeita à pressão intensa como incêndios, caça, pisoteio de gado, invasão de espécies exóticas, retirada de produtos madeireiros e não madeireiros, além de processos naturais como maior insolação, ventos, e outros fatores que acelaram mudanças no microclima característico daquela área e que podem alterar os rumos da dinâmica fl orestal. Em síntese, estudos mostram que o nível de fragmentação dos ecossistemas naturais, agindo de forma combinada com outros fatores de degradação, está provocando modificações profundas na biodiversidade, levando ao declínio local irreversível de espécies da fl ora e da fauna, além da degradação de solos, da água e de outros elementos da paisagem, que podem afetar os serviços ambientais proporcionados pela floresta. Se quisermos proteger a biodiversidade e manter os serviços ambientais dessas florestas, temos de criar mais espaços protegidos e recuperar parte da floresta e de outros ambientes naturais. A grande preocupação é que menos de 2% do território da Mata Atlântica está coberto por unidades de conservação de proteção integral, ou seja, parques, reservas biológicas e estações ecológicas.

AULA ABERTA Há anos, organizações não governamentais e empresas trabalham com conscientização e reflorestamento da Mata Atlântica. Segundo alguns dados, certas áreas já foram recuperadas. Por que essa recuperação é lenta?
LUIZ PAULO
A ciência da restauração florestal da Mata Atlântica e do Brasil teve grande avanço. Existem metodologias e processos testados e reconhecidos envolvendo gestão, planejamento da restauração, tecnologias de intervenção e técnicas de monitoramento. A restauração não é algo simples e as taxas de sucesso no longo prazo ainda são muito baixas, muitas vezes por falhas na condução de algum desses componentes. As ações e intervenções necessárias esbarram também nas diferenças regionais em termos de capacidade técnica instalada, em dificuldades impostas pelo estado ainda fragmentado do conhecimento sobre a sua biodiversidade, nas diferenças em um ambiente de forte pressão antrópica, marcado pela complexidade nas relações sociais e econômicas, e nas dificuldades de engajamento de proprietários rurais resistentes a intervenções ambientais. Isso sem contar o custo elevado (R$10.000,00/hectare em média) da restauração. São poucos incentivos econômicos e investimentos, públicos e privados, capazes de cobrir projetos e territórios extensos.

O QUE SÃO FLORESTAS?

De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO): “Áreas medindo mais de 0,5 ha com árvores maiores que 5 m de altura e cobertura de copa superior a 10%, ou árvores capazes de alcançar este parâmetro in situ. Isto não inclui terra predominantemente sob uso agrícola ou urbano”.
Luoman/iStockphoto

AULA ABERTA Segundo algumas instituições, é possível recuperar as áreas degradadas até que tenhamos 21% da cobertura original da Mata Atlântica. Acredita ser verdade? Como pode ser viável?
LUIZ PAULO Sim. O histórico de projetos e de ações de restauração florestal da Mata Atlântica mostra que a experiência no tema, combinada com a capacidade humana, institucional e política existentes podem contribuir para uma evolução rápida das iniciativas de restauração. Um importante passo foi dado nessa direção em 2009. Uma aliança multi- institucional chamada Pacto pela Restauração da Mata Atlântica foi estabelecida com o objetivo de restaurar 15 milhões de hectares até 2050. O Pacto conta com mais de 165 membros de diversos setores da sociedade (organizações ambientais nacionais e internacionais, instituições governamentais, empresas, centros de pesquisa, comunidades, etc.) e vem trabalhando para criar integração e colaboração entre seus membros a fim de estabelecer uma rede institucional capacitada para ações de restauração florestal no bioma. As primeiras análises do Pacto resultaram no Mapa de Áreas Potenciais para Restauração, com a indicação de 17 milhões de hectares de áreas potenciais para a restauração florestal da Mata Atlântica. Acreditamos, também, que a restauração pode gerar benefícios econômicos, por meio do pagamento aos produtores pelos serviços ambientais resultantes da restauração, como detentores de biodiversidade, de carbono, como produtores de água, além da possibilidade de uso dessas áreas restauradas para diversificação da produção, por meio da disponibilização de produtos madeireiros e não madeireiros.

AULA ABERTA Qual a importância em manter as florestas em pé?
LUIZ PAULO
As florestas sempre estiveram associadas ao modo de vida das sociedades, influenciando a sobrevivência de famílias. A ciência cada vez mais decifra a importância da cobertura florestal na manutenção do fluxo de água no solo, nos rios e na atmosfera, assim como nas emissões globais de dióxido de carbono. As florestas são importantíssimas pela manutenção de cerca de 90% da biodiversidade terrestre. Têm sido amplamente reconhecidos e discutidos nos últimos anos os “serviços ecossistêmicos” proporcionados pelas florestas (também chamados “serviços ambientais” em determinadas ocasiões para efeitos legais e de políticas públicas). Alguns estados como o
Espírito Santo e o Rio de Janeiro já possuem programas de pagamento por serviços ambientais, como reconhecimento dos serviços de uma floresta ou outro tipo de ambiente natural. O Pagamento por Serviços Ambientais é um sistema em que os beneficiários fazem pagamentos a proprietários rurais ou outros detentores dos meios de provisão de um determinado serviço, para que estes adotem práticas que garantam a conservação e/ou restauração do ambiente objeto daquele contrato – por exemplo, um manancial em uma floresta conservada ou em recuperação. Na Mata Atlântica, existem mais de 40 iniciativas planejando e/ou adotando esse conceito. Só no estado do Espírito Santo já são mais de 180 proprietários rurais beneficiados e recebendo recursos pelo programa
Produtores de Água.

PARTICIPAÇÃO BRASILEIRA

No total, 60,7% do território do Brasil é coberto por florestas, segundo o Serviço Florestal Brasileiro (SFB). Por isso, o governo brasileiro anunciou que serão realizados vários eventos objetivando sensibilizar a sociedade sobre a importância da preservação das florestas. Uma das ações é o lançamento do site tupiniquim do Ano Internacional das Florestas (www.anodafl oresta.com.br). No site oficial do evento (www.un.org/ forests/), consta que o país sediará, pela primeira vez, a Conferência internacional IUFRO Tree Biotechnology 2011. Segundo a Embrapa, trata-se do evento mais importante na área de biotecnologia florestal promovido há mais de 20 anos pela União Internacional de Organizações de Pesquisa Florestal (IUFRO). Este ano, entre os dias 26 de junho e 1ª
de julho, a conferência terá como tema ”De genomas à integração e geração de resultados” e deverá contar com a participação de cerca de 500 pessoas, sendo 300 brasileiros e 200 estrangeiros.
AULA ABERTA O que falta para o Brasil perceber sua riqueza natural e preservá-la?
LUIZ PAULO
Mesmo com uma economia fortemente dependente de recursos naturais, tem faltado vontade política ao governo brasileiro para se reinventar em seu modelo de desenvolvimento. Pesquisas de opinião coordenadas pelo MMA sobre o que a sociedade pensa a respeito da proteção ambiental mostram o aumento gradual de interesse e reconhecimento da população sobre o tema. Entretanto, ainda existe um abismo entre a intenção e a prática, e há dificuldades para a maior parte da população entender a relação direta entre a floresta e suas necessidades diárias. Sendo assim, somente ações integradas e coletivas e uma articulação e mobilização geral da sociedade poderão garantir o futuro dessas áreas. É preciso rever prioridades, fortalecer o sistema de governança e gestão dos territórios, ampliar a proteção e restauração florestal em áreas prioritárias, investir em ciência, tecnologia e inovação, e ampliar substancialmente os investimentos financeiros nessa área para garantir, no longo prazo, a conservação da biodiversidade e a manutenção dos serviços ambientais das florestas.
Ammit/Shutterstock
Macaco-de-cheiro
AULA ABERTA Aliás, o “novo” Código Florestal não vai na contramão da “moda” atual de preservar o meio ambiente?
LUIZ PAULO
É bom esclarecer que não há novo Código Florestal, o que há é uma proposta de reforma liderada pelo relatório do deputado Aldo Rebelo, fortemente apoiado pela CNA e pelos ruralistas. A proposta do deputado, se aprovada na forma original, será desastrosa para o meio ambiente, gerando riscos de apagão energético inclusive, uma vez que pela supressão de áreas de proteção permanente (áreas definidas para proteção de cursos de água) condena a produção e a manutenção hídrica do Brasil. O afã por mais áreas de cultivo, sem análise científica de seus riscos, poderá acarretar grande perda de vidas nas áreas de forte risco ambiental, onde vive a maioria das populações pobres. É incompreensível que em tempos de mudanças climáticas se queira relaxar na conservação de áreas florestais e serviços ecossistêmicos. Isso contradiz os alarmes da ciência e os compromissos brasileiros perante as Convenções do Clima e da Biodiversidade, ratificados formalmente pelo Brasil, além de nos colocar em um cenário de possíveis grandes investimentos necessários para mitigar suas consequências. Do ponto de vista econômico, os ganhos de área certamente não compensarão as vantagens relativas de ter o agronegócio brasileiro como o mais verde do mundo. O Código Florestal deveria ser carregado como “plus” nos produtos brasileiros. Isso não quer dizer que o Código Florestal não necessite de ajustes. O ideal seria um código que fosse capaz de determinar a cobertura florestal de cada ecossistema, dentro de cada bioma, de forma a garantir o pleno funcionamento dos serviços ambientais e conservação da biodiversidade. O Código Florestal deveria estar em conformidade com o cenário de paisagem que queremos para daqui a 50, 100 anos, como garantia ao desenvolvimento sustentável do Brasil.

AS DEZ FLORESTAS MAIS AMEAÇADAS DO MUNDO

A organização não governamental Conservação Internacional (CI) elaborou uma lista (abaixo) com as dez florestas do mundo que passaram pela maior perda do seu hábitat natural. Eles encabeçam um rol de 35 Matas chamadas de “hot spots”, os locais mais ricos em biodiversidade e mais ameaçados de extinção. Veja quais são as matas que correm mais risco de desaparecer. Todas as florestas citadas perderam cerca de 90% de sua vegetação original com um agravante: cada uma abriga ao menos 1.500 espécies de plantas nativas. De acordo com a CI, a Mata Atlântica, por exemplo, possui 8 mil plantas, 323 anfíbios e 48 mamíferos endêmicos. O fim dessas florestas significa a perda dessa biodiversidade para sempre.

BACIA DO MEDITERRÂNEO
Sul da Europa, norte da África, oeste da Ásia (a mais ameaçada, com 5% da sua cobertura original preservada)

INDO-BIRMÂNIA
(nos países asiáticos Mianmar, Camboja, Laos, Tailândia e Vietnã, com 5% da vegetação natural)

NOVA ZELÂNDIA
(também 5%); Sunda (Indonésia, Malásia e Brunei, com 7%)

FILIPINAS (7%)

MATA ATLÂNTICA (Brasil, com 8%)

MONTANHAS DO CENTRO-SUL DA CHINA (8%)

PROVÍNCIA FLORÍSTICA DA CALIFÓRNIA, NOS ESTADOS UNIDOS (10%)

FLORESTAS DE AFROMONTANE
(Moçambique, Tanzânia, Quênia e Somália, com 10%)


MADAGASCAR E ILHAS DO OCEANO ÍNDICO
(Madagascar, Seychelles, Ilhas Maurício, União das Comores e Reunião, 10%)
AULA ABERTA Algumas pesquisas afirmam que é possível produzir mais alimentos sem desmatar mais. Acredita nisso?
LUIZ PAULO
Sim. As informações geradas por pesquisas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo mostram que a agricultura pode se expandir territorialmente ocupando as terras de elevada aptidão agrícola hoje utilizadas com pecuária extensiva. A agricultura ocupa por volta de 67 milhões de hectares no país, já apresentando produtividades elevadas. A maior parte das terras de elevada aptidão para agricultura já foram abertas. O estoque de terras de elevada e média aptidão para agricultura já abertas e que estão sob pastagens é de 29 milhões de hectares e 32 milhões de hectares respectivamente, totalizando 61 milhões de hectares. Esse estoque pode quase dobrar o tamanho da área agrícola sem que seja necessário derrubar um pé de árvore. A diminuição da área de pecuária brasileira pode ser compensada pela intensificação da produção.

E A AMAZÔNIA? E O CERRADO?

Magno Castelo Branco, presidente da ONG Iniciativa Verde e especialista na área florestal, alerta para os riscos que os dois biomas – principalmente o Cerrado –, que cobrem quase 75% do país, correm: “Os motores da degradação da Amazônia atualmente são os mesmos de 10 e 20 anos atrás: desmatamento para obtenção de madeira e a abertura de novas áreas produtivas, principalmente para a criação de gado e plantio de soja. Porém, o Cerrado está em uma posição realmente delicada e isso é um sinal de que devemos combater o desmatamento no Brasil de forma ampla e irrestrita. Enquanto as taxas de desmatamento na Amazônia caíram principalmente por meio de ações do governo, estima- se que houve uma migração desses vetores de desmatamento para o Cerrado, que é menos “protegido”. Como exemplo, a Política Nacional de Mudanças Climáticas estipula meta de 80% de redução do desmatamento na Amazônia e 40% no Cerrado, um sinal óbvio de que esse bioma não tem recebido a importância que merece. Mais da metade desse bioma foi destruído, e boa parte do que restou se encontra bastante fragmentado, o que contribui ainda mais para o seu desaparecimento. É preciso que o Cerrado, e também a Caatinga, recebam a mesma atenção na nossa agenda ambiental que a Mata Atlântica e a Amazônia têm recebido. Se isso não for feito com urgência, em poucas décadas teremos a confirmação de um triste cenário no que diz respeito a esses biomas”.
AULA ABERTA Enfim, é possível continuar desenvolvendo a economia do país sem degradar mais ainda o meio ambiente? Como?
LUIZ PAULO
Sim. De acordo com o relatório intitulado “Rumo a uma Economia Verde: Caminhos para o Desenvolvimento Sustentável e a Erradicação da Pobreza”, lançado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) em fevereiro deste ano, investir 2% do PIB mundial em dez setores estratégicos pode viabilizar a transição rumo a uma “economia verde” de baixo carbono. Apoiada por políticas nacionais e internacionais inovadoras, a soma, que atualmente corresponde a cerca de 1,3 trilhão de dólares por ano, fomentaria o crescimento da economia global a níveis provavelmente superiores aos dos atuais modelos econômicos. O relatório mostra a “economia verde” como um catalisador-chave para o crescimento e erradicação da pobreza nas economias em desenvolvimento, nas quais, em alguns casos, cerca de 90% do PIB está ligado à natureza ou a recursos naturais tais como a água potável. A Mata Atlântica possui, aproximadamente, 70% do PIB nacional, e o Brasil é uma das dez maiores economias do planeta. O país tem capacidade e pode conciliar desenvolvimento e conservação da biodiversidade, levando bemestar para milhões de brasileiros. Está na hora de escolhermos esse novo caminho!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Os mamíferos da discórdia
Estudo contesta visão de que a maioria das espécies típicas do cerrado e da caatinga se originou nas florestas
© Maria Elina Bichuette
Marsupiais do gênero Cryptonanus: exemplo de mamíferos endêmicos do cerrado  
Há algumas décadas, a fauna de mamíferos do cerrado e da caatinga costumava ser descrita como uma versão empobrecida dos animais que habitavam as duas grandes florestas nacionais, a amazônica ao norte e a mata atlântica, na porção litorânea do país. A definição se amparava na constatação de que muitas das espécies presentes nos dois biomas vizinhos eram também compartilhadas com as densas matas adjacentes. Até as chamadas espécies endêmicas do cerrado e da caatinga, aquelas que só eram encontradas nessas áreas de vegetação predominantemente aberta, e em mais nenhuma outra, descenderiam de linhagens ancestrais associadas às florestas.

Um estudo recente, feito por três biólogos, questiona essa visão e sustenta exatamente o contrário: cerca de 80% das espécies endêmicas conhecidas de mamíferos do Brasil Central e semiárido do Nordeste têm suas raízes em regiões de vegetação aberta do continente sul-americano, do tipo savana, com poucas árvores e mais gramíneas, como o próprio cerrado e seu vizinho chaco, área plana e relativamente seca que se estende por partes dos territórios do Paraguai, Bolívia e Argentina, além de um pequeno trecho no centro-oeste nacional.

A ideia é defendida por Ana Paula Carmignotto, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Mario de Vivo, curador da seção de mamíferos do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), e Alfredo Langguth, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), num artigo que será um dos capítulos do livro Bones, clones, and biomes – The history and geography of recent neotropical mammals, a ser lançado em meados deste ano pela editora da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos. “Conseguimos demonstrar que muitas das espécies endêmicas de áreas abertas do cerrado e da caatinga não se originaram, como as pessoas pensavam, de espécies irmãs das florestas vizinhas”, afirma Vivo, cujos estudos foram basicamente financiados por um projeto temático feito no âmbito do programa Biota-FAPESP. “Elas, na verdade, pertencem a linhagens de formação aberta, com ramificações em outros biomas desse tipo na América do Sul.”

A hipótese se mostra mais plausível para a fauna típica de mamíferos do cerrado, onde, como no vizinho chaco, a presença de vastas áreas abertas era ainda mais expressiva por volta de 10 mil anos atrás do que é atualmente. A existência por um longo período de tempo dessa grande zona de savana no coração da América do Sul funcionou, de acordo com os pesquisadores, como o berço de boa parte das espécies mais típicas do cerrado.

No caso da caatinga, o papel das áreas abertas como origem de espécies singulares de mamíferos é aparentemente menos palpável, mas não totalmente desprezível. No que é hoje o semiárido nordestino, houve uma floresta tropical há alguns milhares de anos. O dado explica por que as matas do passado, e as de hoje, parecem realmente ter sido mais importantes para o desenvolvimento das poucas espécies únicas de mamíferos da caatinga, bioma onde esse grupo de animais é menos diversificado que no cerrado. Ainda assim, os três autores do artigo dizem que é um exagero creditar às florestas toda a cota de endemismo da caatinga.

Para chegar a essas conclusões, o trio de pesquisadores fez uma grande revisão da literatura científica publicada sobre o tema e também foi a campo estudar alguns animais específicos do cerrado e da caatinga e sua distribuição geográfica. O resultado do trabalho gerou uma lista atualizada não só das espécies presentes exclusivamente nos dois biomas, mas de todos os seus mamíferos conhecidos. A biodiversidade encontrada foi maior do que se esperava.

De acordo com o trabalho, o cerrado, cujo território abrange cerca de 2 milhões de quilômetros quadrados e abarca o pantanal, possui 227 espécies de mamíferos, 33 a mais do que encontrara o último inventário, de 2002. Com menos da metade da área e mais seca, a caatinga, segundo o novo estudo, conta com 153 espécies de mamíferos, 10 a mais do que elencara o levantamento anterior, de 2008 (veja infográfico).
Os morcegos e os roedores são as duas ordens de mamíferos com maior número de espécies conhecidas em ambos os biomas. Os primeiros representam mais de um terço das espécies do cerrado e mais da metade das da caatinga. Os segundos respondem por outro terço das espécies do cerrado e um quarto das da caatinga. Em seguida, com um número bem menor de espécies, destacam-se os carnívoros e os marsupiais (veja quadro).

É interessante notar que 120 espécies de mamíferos estão presentes tanto na caatinga como no cerrado. “A maior parte dos mamíferos desses dois biomas é compartilhada entre si ou com a floresta amazônica, a mata atlântica ou o chaco”, afirma Ana Paula Carmignotto. “Essa questão sempre foi destacada em outros estudos e pouco se falava das espécies endêmicas.” Segundo Vivo, muitos trabalhos davam a entender que as áreas abertas da América do Sul não tinham gerado nada de original em termos de novas formas de mamíferos. Quase tudo visto era como uma ramificação de linhagens que evoluíram nas matas fechadas. 

Morcego da espécie Xeronycteris vieirai: endêmico da caatinga
 

A impressão, falsa segundo o trio de autores, talvez decorra da constatação de que o universo dos mamíferos exclusivos do Brasil Central é realmente pequeno e concentrado. Os pesquisadores contaram 25 espécies exclusivas do cerrado (21 de roedores, 2 de marsupias, 1 de primata e 1 de morcego) e 8 da caatinga (5 de roedores, 1 de primata, 1 de marsupial e 1 de morcego). Falar de endemismo de mamíferos no cerrado e na caatinga é, portanto, quase sinônimo de falar de roedores. A distribuição geográfica das espécies encontradas nos dois biomas e os estudos filogenéticos, que traçam seu possível parentesco e relação evolutiva com animais de outras regiões, levaram os biólogos a defender dois padrões de endemismo.

O primeiro compreende espécies de mamíferos hoje típicas do cerrado ou da caatinga que derivaram de gêneros originários da floresta amazônica ou da mata atlântica. Os exemplos clássicos podem ser encontrados sobretudo na ordem dos primatas. O Callithrix penicillata, popularmente denominado sagui-de-tufo-preto ou mico-estrela, é um macaco que vive somente no cerrado, mais precisamente em trechos arbóreos desse ecossistema. É a única das mais de 20 espécies do gênero Callithrix que habita uma zona de savana, fora da floresta equatorial ou da mata litorânea. O mesmo ocorre com o Callicebus barbarabrownae, o guigó-da-caatinga, espécie hoje ameaçada de extinção cuja origem deve ter sido a vizinha mata atlântica. Alguns roedores, marsupiais e morcegos (como o Lonchophylla dekeyseri) do cerrado e da caatinga também se encaixam nessa situação.

O segundo padrão de endemismo é o de linhagens de animais que há muito tempo estão associadas a biomas de vegetação predominantemente aberta, como o próprio cerrado e a caatinga no passado remoto e o chaco. “A maioria dos mamíferos endêmicos do cerrado e da caatinga pertence a essa categoria”, afirma Vivo. As três espécies de roedores do cerrado do gênero Juscelinomys estão nessa situação. Esse também é o caso de duas espécies endêmicas de roedores do gênero Thalpomys, duas do gênero Wiedomys e uma do gênero Kunsia, entre outras.
A história evolutiva dos pequenos marsupais do gênero Thylamys é ainda mais surpreendente. Existem nove espécies do animal na América do Sul, cinco encontradas em áreas de vegetação aberta da região dos Andes. As duas espécies endêmicas do Brasil –  a Thylamys karimii, popularmente denominada catita e encontrada no cerrado e na caatinga, e a Thylamys velutinus, a catita-anã-de-rabo-gordo, presente apenas no cerrado – exibem os traços mais antigos (basais) do gênero e não teriam relações de parentesco com marsupiais originários de áreas florestais. “É um caso raro”, comenta Ana Paula. “Na maioria da vezes, a diversificação dos grupos de mamíferos associados às formações abertas da América do Sul ocorreu nos Andes e depois as linhagens se dispersaram e se diferenciaram aqui.”

O biológo Cleber Alho, professor titular aposentado da Universidade de Brasília (UnB) e hoje docente da pós-gradução da Universidade Anhanguera-Uniderp, do Mato Grosso do Sul, discorda da ideia de que a maioria das espécies endêmicas do cerrado e da caatinga seja derivada de linhagens de animais originários de áreas abertas. “Não sei como poderia justificar a possível origem de espécies endêmicas (desses dois biomas) em ambientes abertos”, afirma Alho. Ele cita exemplos de primatas, roedores e morcegos do cerrado cujas linhagens seriam provenientes de áreas com florestas.

Em sua maioria, as espécies mencionadas por Alho são as mesmas que Ana Paula, Vivo e Langguth admitem ser mesmo originárias de matas, embora sustentem que esses casos são a exceção, e não a regra da história evolutiva da fauna endêmica de mamíferos do centro do Brasil. Uma discordância explícita diz respeito às origens de uma espécie extinta de roedor, Juscelinomys candango, o rato-candango encontrado apenas durante a construção de Brasília em 1960 e, desde então, nunca mais visto. “Ele também dependia de hábitat florestado”, diz Alho. Vivo e seus colegas acham que não.

Outros pesquisadores acreditam que as ideias expostas no capítulo do livro sobre os mamíferos endêmicos do Brasil Central não devem ser descartadas sem estudos mais aprofundados. “É um trabalho muito interessante e acho que eles podem ter razão”, afirma o biólogo Rui Cerqueira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “A hipótese deles é bastante razoável.” Segundo o pesquisador fluminense, a noção de que a fauna de mamíferos do cerrado e da caatinga seria uma versão empobrecida dos animais florestais está realmente ultrapassada e mais estudos sobre a questão, sobretudo no semiárido nordestino, onde as coletas de animais são pouco frequentes, precisam ser feitos.

Artigo científico

CARMIGNOTTO, A. P. et al. Mammals of the Cerrado and Caatinga – Distribution Patterns of the Tropical Open Biomes of Central South America. Capítulo do livro Bones, clones, and biomes – The history and geography 
of recent neotropical mammals. No prelo.

O Projeto

Systematics evolution and conservation of eastern Brazilian Mammals –
n° 1998/05075-7
Modalidade
Projeto Temático
Co­or­de­na­dor
Mario de Vivo – USP
Investimento
R$ 529.250,05 (FAPESP)

terça-feira, 17 de maio de 2011

 AULA ABERTA - Para onde vão as nossas matas? No Ano Internacional das Florestas, o diretor do Programa Mata Atlântica mostra o pouco que temos para comemorar

por Isís Nóbile Diniz As florestas cobrem 31% da área terrestre, garantem a sobrevivência de 1,6 bilhão de pessoas e abrigam cerca de 300 milhões de habitantes. Para destacar essa importância, promover a preservação ambiental e, também, incentivar a reflexão sobre a relação do homem com as matas, a Organização das Nações Unidas (ONU) elegeu 2011o Ano Internacional das Florestas sob o slogan: “Proteja as florestas, elas protegem você”. O Brasil, segundo maior país com área total coberta por matas – perde para a Rússia e suas florestas boreais –, tem pouco a comemorar. A Mata Atlântica, um dos biomas mais ricos em biodiversidade, aparece na lista dos dez que mais correm risco de desaparecer.

Mundialmente, o Brasil é conhecido pela Floresta Amazônica que habita o imaginário das pessoas inspirando, por exemplo, filmes épicos como Avatar. Não é por menos. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o bioma Amazônia ocupa quase metade do território nacional – é a maior floresta tropical do planeta. E ela vai além das fronteiras, se estende pelos vizinhos Venezuela, Colômbia, Peru, Bolívia, Equador, Suriname, Guiana e Guiana Francesa. Sozinha, a Amazônia responde por 26% das florestas tropicais remanescentes do mundo. Apesar dessa grandeza, é graças a todos os biomas brasileiros que o país abriga mais de 20% do número total de espécies endêmicas do planeta e um deles em especial. Segundo a organização não governamental (ONG) SOS Mata Atlântica, a floresta que cede o nome à organização é o bioma mais rico em biodiversidade do planeta.

Estima-se, porém, que restou 7% a 21% da vegetação original da Mata Atlântica, valores
cuja variação se deve ao tipo de levantamento considerado. Esse é o resultado de décadas de desmatamento. No bioma, vive mais de 60% da população brasileira. São cerca de 110 milhões de pessoas que dependem, direta e indiretamente, da conservação dos remanescentes das florestas para a garantia do abastecimento de água, a regulação do clima, a fertilidade do solo. Luiz Paulo Pinto, diretor do Programa Mata Atlântica da ONG Conservação Internacional, conta qual a situação atual do bioma e acredita na sua recuperação.


AULA ABERTA Qual é a situação atual da Mata Atlântica? O desmatamento se estabilizou?
LUIZ PAULO Análises recentes revelam a gravidade da situação: mais de 80% dos fragmentos florestais remanescentes possuem menos de 50 hectares. Manchas de floresta desse tamanho podem ainda reter parte da biodiversidade, mas a grande maioria está sujeita à pressão intensa como incêndios, caça, pisoteio de gado, invasão de espécies exóticas, retirada de produtos madeireiros e não madeireiros, além de processos naturais como maior insolação, ventos, e outros fatores que acelaram mudanças no microclima característico daquela área e que podem alterar os rumos da dinâmica fl orestal. Em síntese, estudos mostram que o nível de fragmentação dos ecossistemas naturais, agindo de forma combinada com outros fatores de degradação, está provocando modificações profundas na biodiversidade, levando ao declínio local irreversível de espécies da fl ora e da fauna, além da degradação de solos, da água e de outros elementos da paisagem, que podem afetar os serviços ambientais proporcionados pela floresta. Se quisermos proteger a biodiversidade e manter os serviços ambientais dessas florestas, temos de criar mais espaços protegidos e recuperar parte da floresta e de outros ambientes naturais. A grande preocupação é que menos de 2% do território da Mata Atlântica está coberto por unidades de conservação de proteção integral, ou seja, parques, reservas biológicas e estações ecológicas.

AULA ABERTA Há anos, organizações não governamentais e empresas trabalham com conscientização e reflorestamento da Mata Atlântica. Segundo alguns dados, certas áreas já foram recuperadas. Por que essa recuperação é lenta?
LUIZ PAULO
A ciência da restauração florestal da Mata Atlântica e do Brasil teve grande avanço. Existem metodologias e processos testados e reconhecidos envolvendo gestão, planejamento da restauração, tecnologias de intervenção e técnicas de monitoramento. A restauração não é algo simples e as taxas de sucesso no longo prazo ainda são muito baixas, muitas vezes por falhas na condução de algum desses componentes. As ações e intervenções necessárias esbarram também nas diferenças regionais em termos de capacidade técnica instalada, em dificuldades impostas pelo estado ainda fragmentado do conhecimento sobre a sua biodiversidade, nas diferenças em um ambiente de forte pressão antrópica, marcado pela complexidade nas relações sociais e econômicas, e nas dificuldades de engajamento de proprietários rurais resistentes a intervenções ambientais. Isso sem contar o custo elevado (R$10.000,00/hectare em média) da restauração. São poucos incentivos econômicos e investimentos, públicos e privados, capazes de cobrir projetos e territórios extensos.


O QUE SÃO FLORESTAS? De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO): “Áreas medindo mais de 0,5 ha com árvores maiores que 5 m de altura e cobertura de copa superior a 10%, ou árvores capazes de alcançar este parâmetro in situ. Isto não inclui terra predominantemente sob uso agrícola ou urbano”.


Luoman/iStockphoto



AULA ABERTA Segundo algumas instituições, é possível recuperar as áreas degradadas até que tenhamos 21% da cobertura original da Mata Atlântica. Acredita ser verdade? Como pode ser viável?
LUIZ PAULO Sim. O histórico de projetos e de ações de restauração florestal da Mata Atlântica mostra que a experiência no tema, combinada com a capacidade humana, institucional e política existentes podem contribuir para uma evolução rápida das iniciativas de restauração. Um importante passo foi dado nessa direção em 2009. Uma aliança multi- institucional chamada Pacto pela Restauração da Mata Atlântica foi estabelecida com o objetivo de restaurar 15 milhões de hectares até 2050. O Pacto conta com mais de 165 membros de diversos setores da sociedade (organizações ambientais nacionais e internacionais, instituições governamentais, empresas, centros de pesquisa, comunidades, etc.) e vem trabalhando para criar integração e colaboração entre seus membros a fim de estabelecer uma rede institucional capacitada para ações de restauração florestal no bioma. As primeiras análises do Pacto resultaram no Mapa de Áreas Potenciais para Restauração, com a indicação de 17 milhões de hectares de áreas potenciais para a restauração florestal da Mata Atlântica. Acreditamos, também, que a restauração pode gerar benefícios econômicos, por meio do pagamento aos produtores pelos serviços ambientais resultantes da restauração, como detentores de biodiversidade, de carbono, como produtores de água, além da possibilidade de uso dessas áreas restauradas para diversificação da produção, por meio da disponibilização de produtos madeireiros e não madeireiros.

AULA ABERTA Qual a importância em manter as florestas em pé?
LUIZ PAULO
As florestas sempre estiveram associadas ao modo de vida das sociedades, influenciando a sobrevivência de famílias. A ciência cada vez mais decifra a importância da cobertura florestal na manutenção do fluxo de água no solo, nos rios e na atmosfera, assim como nas emissões globais de dióxido de carbono. As florestas são importantíssimas pela manutenção de cerca de 90% da biodiversidade terrestre. Têm sido amplamente reconhecidos e discutidos nos últimos anos os “serviços ecossistêmicos” proporcionados pelas florestas (também chamados “serviços ambientais” em determinadas ocasiões para efeitos legais e de políticas públicas). Alguns estados como o
Espírito Santo e o Rio de Janeiro já possuem programas de pagamento por serviços ambientais, como reconhecimento dos serviços de uma floresta ou outro tipo de ambiente natural. O Pagamento por Serviços Ambientais é um sistema em que os beneficiários fazem pagamentos a proprietários rurais ou outros detentores dos meios de provisão de um determinado serviço, para que estes adotem práticas que garantam a conservação e/ou restauração do ambiente objeto daquele contrato – por exemplo, um manancial em uma floresta conservada ou em recuperação. Na Mata Atlântica, existem mais de 40 iniciativas planejando e/ou adotando esse conceito. Só no estado do Espírito Santo já são mais de 180 proprietários rurais beneficiados e recebendo recursos pelo programa
Produtores de Água.
  
PARTICIPAÇÃO BRASILEIRA No total, 60,7% do território do Brasil é coberto por florestas, segundo o Serviço Florestal Brasileiro (SFB). Por isso, o governo brasileiro anunciou que serão realizados vários eventos objetivando sensibilizar a sociedade sobre a importância da preservação das florestas. Uma das ações é o lançamento do site tupiniquim do Ano Internacional das Florestas (www.anodafl oresta.com.br). No site oficial do evento (www.un.org/ forests/), consta que o país sediará, pela primeira vez, a Conferência internacional IUFRO Tree Biotechnology 2011. Segundo a Embrapa, trata-se do evento mais importante na área de biotecnologia florestal promovido há mais de 20 anos pela União Internacional de Organizações de Pesquisa Florestal (IUFRO). Este ano, entre os dias 26 de junho e 1ª
de julho, a conferência terá como tema ”De genomas à integração e geração de resultados” e deverá contar com a participação de cerca de 500 pessoas, sendo 300 brasileiros e 200 estrangeiros.


AULA ABERTA O que falta para o Brasil perceber sua riqueza natural e preservá-la?
LUIZ PAULO
Mesmo com uma economia fortemente dependente de recursos naturais, tem faltado vontade política ao governo brasileiro para se reinventar em seu modelo de desenvolvimento. Pesquisas de opinião coordenadas pelo MMA sobre o que a sociedade pensa a respeito da proteção ambiental mostram o aumento gradual de interesse e reconhecimento da população sobre o tema. Entretanto, ainda existe um abismo entre a intenção e a prática, e há dificuldades para a maior parte da população entender a relação direta entre a floresta e suas necessidades diárias. Sendo assim, somente ações integradas e coletivas e uma articulação e mobilização geral da sociedade poderão garantir o futuro dessas áreas. É preciso rever prioridades, fortalecer o sistema de governança e gestão dos territórios, ampliar a proteção e restauração florestal em áreas prioritárias, investir em ciência, tecnologia e inovação, e ampliar substancialmente os investimentos financeiros nessa área para garantir, no longo prazo, a conservação da biodiversidade e a manutenção dos serviços ambientais das florestas.


Ammit/Shutterstock
Macaco-de-cheiro
[continuação]

AULA ABERTA Aliás, o “novo” Código Florestal não vai na contramão da “moda” atual de preservar o meio ambiente?
LUIZ PAULO
É bom esclarecer que não há novo Código Florestal, o que há é uma proposta de reforma liderada pelo relatório do deputado Aldo Rebelo, fortemente apoiado pela CNA e pelos ruralistas. A proposta do deputado, se aprovada na forma original, será desastrosa para o meio ambiente, gerando riscos de apagão energético inclusive, uma vez que pela supressão de áreas de proteção permanente (áreas definidas para proteção de cursos de água) condena a produção e a manutenção hídrica do Brasil. O afã por mais áreas de cultivo, sem análise científica de seus riscos, poderá acarretar grande perda de vidas nas áreas de forte risco ambiental, onde vive a maioria das populações pobres. É incompreensível que em tempos de mudanças climáticas se queira relaxar na conservação de áreas florestais e serviços ecossistêmicos. Isso contradiz os alarmes da ciência e os compromissos brasileiros perante as Convenções do Clima e da Biodiversidade, ratificados formalmente pelo Brasil, além de nos colocar em um cenário de possíveis grandes investimentos necessários para mitigar suas consequências. Do ponto de vista econômico, os ganhos de área certamente não compensarão as vantagens relativas de ter o agronegócio brasileiro como o mais verde do mundo. O Código Florestal deveria ser carregado como “plus” nos produtos brasileiros. Isso não quer dizer que o Código Florestal não necessite de ajustes. O ideal seria um código que fosse capaz de determinar a cobertura florestal de cada ecossistema, dentro de cada bioma, de forma a garantir o pleno funcionamento dos serviços ambientais e conservação da biodiversidade. O Código Florestal deveria estar em conformidade com o cenário de paisagem que queremos para daqui a 50, 100 anos, como garantia ao desenvolvimento sustentável do Brasil.

AS DEZ FLORESTAS MAIS AMEAÇADAS DO MUNDO A organização não governamental Conservação Internacional (CI) elaborou uma lista (abaixo) com as dez florestas do mundo que passaram pela maior perda do seu hábitat natural. Eles encabeçam um rol de 35 Matas chamadas de “hot spots”, os locais mais ricos em biodiversidade e mais ameaçados de extinção. Veja quais são as matas que correm mais risco de desaparecer. Todas as florestas citadas perderam cerca de 90% de sua vegetação original com um agravante: cada uma abriga ao menos 1.500 espécies de plantas nativas. De acordo com a CI, a Mata Atlântica, por exemplo, possui 8 mil plantas, 323 anfíbios e 48 mamíferos endêmicos. O fim dessas florestas significa a perda dessa biodiversidade para sempre.

BACIA DO MEDITERRÂNEO
Sul da Europa, norte da África, oeste da Ásia (a mais ameaçada, com 5% da sua cobertura original preservada)

INDO-BIRMÂNIA
(nos países asiáticos Mianmar, Camboja, Laos, Tailândia e Vietnã, com 5% da vegetação natural)

NOVA ZELÂNDIA
(também 5%); Sunda (Indonésia, Malásia e Brunei, com 7%)

FILIPINAS (7%)

MATA ATLÂNTICA (Brasil, com 8%)

MONTANHAS DO CENTRO-SUL DA CHINA (8%)

PROVÍNCIA FLORÍSTICA DA CALIFÓRNIA, NOS ESTADOS UNIDOS (10%)

FLORESTAS DE AFROMONTANE
(Moçambique, Tanzânia, Quênia e Somália, com 10%)


MADAGASCAR E ILHAS DO OCEANO ÍNDICO

(Madagascar, Seychelles, Ilhas Maurício, União das Comores e Reunião, 10%)

   
AULA ABERTA Algumas pesquisas afirmam que é possível produzir mais alimentos sem desmatar mais. Acredita nisso?
LUIZ PAULO
Sim. As informações geradas por pesquisas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo mostram que a agricultura pode se expandir territorialmente ocupando as terras de elevada aptidão agrícola hoje utilizadas com pecuária extensiva. A agricultura ocupa por volta de 67 milhões de hectares no país, já apresentando produtividades elevadas. A maior parte das terras de elevada aptidão para agricultura já foram abertas. O estoque de terras de elevada e média aptidão para agricultura já abertas e que estão sob pastagens é de 29 milhões de hectares e 32 milhões de hectares respectivamente, totalizando 61 milhões de hectares. Esse estoque pode quase dobrar o tamanho da área agrícola sem que seja necessário derrubar um pé de árvore. A diminuição da área de pecuária brasileira pode ser compensada pela intensificação da produção.


E A AMAZÔNIA? E O CERRADO? Magno Castelo Branco, presidente da ONG Iniciativa Verde e especialista na área florestal, alerta para os riscos que os dois biomas – principalmente o Cerrado –, que cobrem quase 75% do país, correm: “Os motores da degradação da Amazônia atualmente são os mesmos de 10 e 20 anos atrás: desmatamento para obtenção de madeira e a abertura de novas áreas produtivas, principalmente para a criação de gado e plantio de soja. Porém, o Cerrado está em uma posição realmente delicada e isso é um sinal de que devemos combater o desmatamento no Brasil de forma ampla e irrestrita. Enquanto as taxas de desmatamento na Amazônia caíram principalmente por meio de ações do governo, estima- se que houve uma migração desses vetores de desmatamento para o Cerrado, que é menos “protegido”. Como exemplo, a Política Nacional de Mudanças Climáticas estipula meta de 80% de redução do desmatamento na Amazônia e 40% no Cerrado, um sinal óbvio de que esse bioma não tem recebido a importância que merece. Mais da metade desse bioma foi destruído, e boa parte do que restou se encontra bastante fragmentado, o que contribui ainda mais para o seu desaparecimento. É preciso que o Cerrado, e também a Caatinga, recebam a mesma atenção na nossa agenda ambiental que a Mata Atlântica e a Amazônia têm recebido. Se isso não for feito com urgência, em poucas décadas teremos a confirmação de um triste cenário no que diz respeito a esses biomas”.  

AULA ABERTA Enfim, é possível continuar desenvolvendo a economia do país sem degradar mais ainda o meio ambiente? Como?
LUIZ PAULO
Sim. De acordo com o relatório intitulado “Rumo a uma Economia Verde: Caminhos para o Desenvolvimento Sustentável e a Erradicação da Pobreza”, lançado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) em fevereiro deste ano, investir 2% do PIB mundial em dez setores estratégicos pode viabilizar a transição rumo a uma “economia verde” de baixo carbono. Apoiada por políticas nacionais e internacionais inovadoras, a soma, que atualmente corresponde a cerca de 1,3 trilhão de dólares por ano, fomentaria o crescimento da economia global a níveis provavelmente superiores aos dos atuais modelos econômicos. O relatório mostra a “economia verde” como um catalisador-chave para o crescimento e erradicação da pobreza nas economias em desenvolvimento, nas quais, em alguns casos, cerca de 90% do PIB está ligado à natureza ou a recursos naturais tais como a água potável. A Mata Atlântica possui, aproximadamente, 70% do PIB nacional, e o Brasil é uma das dez maiores economias do planeta. O país tem capacidade e pode conciliar desenvolvimento e conservação da biodiversidade, levando bemestar para milhões de brasileiros. Está na hora de escolhermos esse novo caminho!


Isís Nóbile Diniz Ísis Nóbile Diniz é jornalista especializada em ciência e meio ambiente

Fonte: www.sciam.com.br