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sexta-feira, 28 de junho de 2024

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Pássaros, morcegos e flores: a coevolução dos polinizadores vertebrados e suas plantas

Pássaros, morcegos e flores
  • Pássaros, morcegos e flores ISBN: 9780816553723 Brochura, novembro de 2024 Disponível para encomenda
    £26.95
    # 264591
Preço: £ 26,95
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Sobre este livro

Como pedras preciosas voando pelo céu, os beija-flores atraem nossa atenção. Mas são mais do que relâmpagos: são polinizadores essenciais nos seus ecossistemas. Da mesma forma, na escuridão da noite, os morcegos que se alimentam de néctar realizam o mesmo serviço ecológico importante que as suas coloridas contrapartes aviárias.

Polinizadores vertebrados, como morcegos e pássaros, são espécies-chave do deserto de Sonora. O biólogo Theodore H. Fleming utiliza estas espécies – encontradas no deserto em redor da sua casa – para abordar duas grandes questões relacionadas com a evolução da vida na Terra: Como é que estes animais evoluíram e como é que coevoluíram com as suas plantas alimentícias?

Um mergulho profundamente reflexivo e pesquisado na história evolutiva, Birds, Bats, and Blooms oferece uma viagem envolvente através de trajetórias evolutivas enquanto discute pássaros e morcegos que se alimentam de néctar e sua coevolução como polinizadores com plantas com flores. O foco principal está nas aves do Novo Mundo, como os beija-flores e seus equivalentes quirópteros (morcegos que se alimentam de néctar da família Phyllostomidae). Ele também discute suas contrapartes ecológicas do Velho Mundo, incluindo pássaros solares, comedores de mel, lorikeets e morcegos que se alimentam de néctar da família Pteropodidae. Fleming também aborda o estado de conservação destes belos animais.

Através de uma prosa envolvente, Fleming reúne as pesquisas mais recentes em biologia evolutiva e as combina com relatos de suas interações pessoais com morcegos e pássaros. Seu relato inclui quatorze fotografias coloridas tiradas pelo autor durante suas viagens de pesquisa ao redor do mundo.

Avaliações de Clientes

Biografia

Theodore H. Fleming é professor emérito de biologia na Universidade de Miami. Ele passou décadas estudando mamíferos e suas plantas alimentícias no Panamá, Costa Rica, Austrália, México e Arizona. Ele mora em Tucson

sexta-feira, 14 de abril de 2023

 

Esqueletos de morcegos mais antigos conhecidos lançam luz sobre os primeiros voos de mamíferos

Os fósseis, que datam de cerca de 53 milhões de anos atrás, representam uma espécie recém-descoberta - 12/04/23



RIETBERGEN ET AL ., PLOS ONE , DOI: 10.1371/JOURNAL.PONE.0283505 (2023)


De cavernas úmidas da Amazônia a cavidades de árvores e fendas rochosas em Wyoming, os morcegos fazem seus lares em todo o mundo. Um novo estudo publicado hoje no PLOS ONE descreve dois dos mais antigos fósseis de morcegos conhecidos , o que pode ajudar os cientistas a aprender como esses mamíferos desenvolveram a capacidade de voar e se dispersaram pelos oceanos e continentes.

Os relativamente pequenos esqueletos de morcegos, com aproximadamente 1,5 polegadas de comprimento, foram encontrados em um leito fóssil perto de Kemmerer, Wyoming. Eles foram escavados de uma formação geológica rica em fósseis de pântanos e lagos antigos de uma era chamada Eoceno, datada de cerca de 50 milhões de anos atrás. Chamado de Green River Formation, o local abrange partes de Wyoming, Utah e Colorado. Com base na idade das camadas de sedimentos que cercam os fósseis, os pesquisadores estimam que os morcegos tenham cerca de 53 milhões de anos, tornando-os os fósseis de morcegos mais antigos já registrados. Acredita-se que os morcegos tenham evoluído a partir de mamíferos não voadores nessa época.


Os fósseis, que datam de cerca de 53 milhões de anos atrás, representam uma espécie recém-descoberta

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

 

Os primeiros dinossauros voadores foram um experimento evolucionário fracassado

Life 22 de outubro de 2020

Ambopteryx longibrachium
Impressão artística de um Ambopteryx longibrachium deslizante

Gabriel ugueto

Os primeiros dinossauros a voar foram um experimento evolucionário fracassado. Eles tinham asas feitas de uma membrana de pele, semelhantes às dos morcegos, mas eram ruins em voar e logo foram superados pelos pássaros.

“Eles eram planadores mal projetados”, diz Alex Dececchi, da Mount Marty University, em Dakota do Sul. “Eles foram espremidos.”

Os pássaros evoluíram dos dinossauros e costumava-se pensar que eles eram o único ramo evolutivo a ganhar a habilidade de voar. Mas em 2015, Xing Xu do Instituto de Paleontologia de Vertebrados em Pequim relatou a descoberta de sua equipe de um fóssil bizarro chamado Yi qi , que significa "asa estranha" em chinês mandarim, com asas feitas de uma membrana parecida com a de um morcego, em vez de penas.

Em 2019, uma equipe incluindo Xu revelou um fóssil de outra espécie com asas de membrana chamada Ambopteryx longibrachium .

Agora, uma equipe incluindo Dececchi e Xu fez um estudo mais detalhado das habilidades de vôo desses animais, baseado em parte em varreduras a laser do fóssil de Yi , que revelaram mais detalhes sobre seus tecidos moles. Ainda não está claro qual o formato exato das asas, então a equipe analisou vários arranjos.

Uma possibilidade é que esses animais tivessem asas em forma de morcego, conectadas às pernas. Outra é que eles eram mais parecidos com os dos pássaros. Provavelmente foi algo intermediário, pensa a equipe.

As descobertas sugerem que o Yi e o Ambopteryx não eram apenas incapazes de voar motorizado, como se pensava, mas também não eram tão bons em planar como alguns animais modernos, como os esquilos voadores. Isso significa que quase certamente eram animais que viviam em árvores e que planavam por curtas distâncias, acredita a equipe.

Na época em que o Yi e o Ambopteryx evoluíram cerca de 160 milhões de anos atrás, não havia pássaros e os céus eram dominados por pterossauros relativamente grandes, um grupo separado dos dinossauros. Mas depois que os pássaros evoluíram alguns milhões de anos depois , os dinossauros com asas de membrana não tinham para onde ir, em termos evolutivos.

Eles não podiam competir com pássaros de tamanho semelhante, porque os pássaros voavam melhor, diz Dececchi. E não podiam se tornar maiores porque também não podiam competir com os pterossauros. “Esses caras nunca tiveram uma chance”, diz ele.

É claro que os morcegos conseguiram evoluir para aviadores altamente qualificados muito mais tarde, cerca de 50 milhões de anos atrás. Isso pode ter sido possível porque os morcegos eram noturnos e, portanto, não competiam diretamente com os pássaros.

“Ser noturno poderia ter dado a eles uma janela”, diz Dececchi. Em contraste, não há razão para pensar que Yi e Ambopteryx estivessem ativos à noite.

Referência do jornal: iScience , DOI: 10.1016 / j.isci.2020.101574

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Análise da morfologia dos órgãos reprodutivos de morcegos 
 
Machos e fêmeas de espécies diferentes foram comparados em estudo
[23/02/2018]
A aluna Larissa Mayumi Bueno defendeu hoje, 23 de fevereiro, sua tese de doutorado intitulada “Caracterização do ciclo reprodutivo de machos e fêmeas de Eptesicus furinalis (Vespertilionidae, Chiroptera): morfologia e variação hormonal”. O trabalho foi realizado por meio do Programa de Pós-Graduação em Biologia Animal.

ttp://www.caryinstitute.org/discover-ecology/podcasts/


Resumo:
Os morcegos apresentam ampla diversidade nos aspectos reprodutivos, entretanto, são poucos os estudos detalhados sobre a morfologia reprodutiva de Chiroptera, principalmente nas espécies de clima tropical.

O estudo dos aspectos reprodutivos de uma espécie é de grande importância para o entendimento de estratégias para sua conservação. Portanto, o presente estudo teve como objetivos analisar a morfologia dos órgãos reprodutivos de machos e fêmeas de Eptesicus furinalis (Vespertilionidae), uma espécie de grande distribuição pela América do Sul, e comparar a foliculogênese e a morfologia geral dos ovários dessa espécie com a espécie simpátrica Artibeus planirostris (Phyllostomidae). Nos machos de E. furinalis, durante o processo de regressão testicular, no qual o testículo apresenta quatro fases reprodutivas distintas morfologicamente  (fase ativa, em regressão, regredida e recrudescência), as células testiculares apresentaram variação na expressão de receptores hormonais andrógenos e luteinizantes, indicando a participação desses hormônios no controle do processo da regressão testicular, sendo que esse controle é exercido por meio da ativação dos receptores de andrógenos nas células de Sertoli, e dos receptores de hormônio luteinizante nas células de Leydig. Na fase de regressão testicular, a expressão de LHR e AR tendem a diminuir, o que causa a desativação da espermatogênese, e na fase de recrudescência testicular ocorre um aumento na expressão de LHR e AR, os quais reativam a espermatogênese. 

A morfologia do epidídimo, que é dividido em cabeça, corpo e cauda, e tem o epitélio composto por células principais, apicais, basais, estreitas, claras e halo, também sofre influencia do processo de regressão testicular, evidenciadas principalmente pela altura do epitélio e  porcentagem relativa do lúmen e do estroma.

Há evidências de armazenamento de espermatozoides na região da cauda, devido aos maiores valores da porcentagem relativa de lumen na cauda do epidídimo durante a fase regredida, ou seja, quando não há a produção de espermatozoides. Com relação às fêmeas, a morfologia geral dos ovários diferiu entres as espécies, enquanto E. furinalis apresentou uma abundância de glândulas intersticiais e folículos primordiais distribuídos por todo o ovário, os ovários de A. planirostris  apresentaram poucas glândulas intersticias e os folículos primordiais localizados em uma área específica, constituindo um ovário polarizado. No processo da foliculogênese de A. planirostris e E. furinalis foram reconhecidos cinco tipos de folículos ovarianos: primordiais, primários, secundários, terciários e antrais. Em E. furinalis a ovulação ocorre em ambos os ovários, podendo ser liberados mais de um oócito por ovário (poliovular), enquanto em A. planirostris as fêmeas liberam um único oócito predominantemente pelo ovário esquerdo (monovular). 

No período de Janeiro a Julho, as fêmeas de E. furinalis estavam em condição não reprodutiva, ou seja, não estavam em período de gravidez ou lactação, sendo que de Maio a Julho foram observados espermatozoides no útero, indicando portanto, ocorrência de cópula nesse período. No período de Agosto a Dezembro, as fêmeas apresentaram condições de gravidez e/ou lactação, podendo exibir até quatro embriões no útero bicórneo no estágio inicial da gravidez (Agosto e Setembro), que se reduziu para dois embriões em estágio mais avançado (Outubro). As variações na concentração sérica de estradiol, a presença de folículos antrais nos períodos de gravidez e lactação, e a presença de fêmeas lactantes e grávidas concomitantemente sugerem a ocorrência de estro pós-parto na espécie. Portanto, os resultados obtidos nesse trabalho demonstram a complexidade da morfologia e do controle hormonal da reprodução em morcegos, bem como a variação morfológica dos órgãos reprodutivos entre espécies de morcegos simpátricas.

Comissão Examinadora:

Prof.(A). Eliana Morielle Versute-Orientadora-Unesp/Sjrp
Prof.(A). Manoel Francisco Biancardi-Universidade Federal De Goiás
Prof.(A). Ana Paula Da Silva Perez-Universidade Federal De Goias
Prof.(A). Danielle Barbosa Morais-Universidade Federal Do Rio Grande Do Norte
Prof.(A). Selma Maria Almeida Santos-Instituto Butantan

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

A lua e a fome dos morcegos

ED. 250 | DEZEMBRO 2016
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© RUESTZ/WIKIMEDIA COMMONS
Intensidade do luar não modificou a busca por insetos em quatro de cinco espécies de morcego estudadas
Intensidade do luar não modificou a busca por insetos em quatro de cinco espécies de morcego estudadas.


Em noites de luar nos trópicos, os morcegos insetívoros reduziriam sua procura por comida, segundo uma hipótese bastante difundida. A diminuição na busca por alimento seria uma resposta à menor presença de insetos em noites claras e também ao risco aumentado de os morcegos se tornarem alvos fáceis de seus predadores em um ambiente mais iluminado. Um estudo, no entanto, colocou à prova essa associação de comportamento desses mamíferos voadores com a intensidade do brilho da Lua. Por um período de 53 dias, biólogos do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) acompanharam os hábitos alimentares de cinco diferentes espécies de morcego dentro da Reserva Florestal Adolpho Ducke, no norte de Manaus (Mammalian Biology – Zeitschrift für Säugetierkunde, 11 de novembro).


Apenas uma delas, a Myotis riparius, reduziu sua procura por insetos em função do luar. Duas, a Cormura brevirostris e a Saccopteryx bilineata, não alteraram seu ritmo de busca por insetos. As outras duas, Pteronotus parnellii e Saccopteryx leptura, até intensificaram sua atividade alimentar nas noites menos escuras. Com o emprego de gravadores de som, os pesquisadores registraram as atividades dos morcegos em 10 pontos distintos da reserva entre janeiro e maio de 2013, durante a estação chuvosa. No total, foram monitoradas 636 horas de atividade dos morcegos, sempre das 18 às 6 horas. Em cada ponto escolhido, os movimentos dos animais foram acompanhados por entre quatro e seis noites seguidas.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Hábito incomum e ancestral

Fósseis encontrados no Egito sugerem que morcegos que dormem em pé, atualmente restritos à ilha africana de Madagascar, descendem de espécies que viviam no continente há mais de 30 milhões de anos. 
 
Por: Mariana Rocha
Publicado em 24/06/2014 | Atualizado em 24/06/2014
Hábito incomum e ancestral
Diferentemente da maioria dos morcegos, os da família Myzopodidae dormem de cabeça para cima. (foto: S BKennedy/ Flickr – CC BY-NC-ND 2.0) 
 
Morcegos dormem de cabeça para baixo, certo? Nem sempre. Prova disso são as duas únicas espécies representantes da família Myzopodidae, que dormem em pé. Atualmente restritos à ilha africana de Madagascar, esses animais descendem de ancestrais que viviam no continente e cujos fósseis foram descobertos recentemente. O material, encontrado na depressão de Fayum, no Egito, levou à descrição de duas novas espécies – já extintas – da mesma família.
De acordo com o estudo, publicado na revista PLoS One, uma das espécies viveu há 37 milhões de anos, enquanto a outra, há 30 milhões.
Apesar da semelhança com os morcegos de Madagascar, os fósseis encontrados foram descritos como novas espécies depois que os cientistas perceberam diferenças nos tamanhos e formatos dos dentes. “Notamos detalhes como um terceiro molar mais curto e um quarto molar maior em comparação aos morcegos de Madagascar, o que fez a diferença na hora de classificá-los como novas espécies”, afirma o paleontólogo e coautor da pesquisa Gregg Gunnell, da Universidade Duke, nos Estados Unidos.
Dentes de morcegos
Nomeadas ‘Phasmatonycteris phiomensis’ n. sp. e ‘Phasmatonycteris butleri’ n. sp., as novas espécies de morcegos foram identificadas a partir da análise dos tamanhos e formatos dos dentes dos fósseis egípcios. (imagem: Gregg Gunnell)
Assim como os exemplares de Madagascar, esses animais tinham almofadas adesivas nos polegares e calcanhares, característica que dividem apenas com membros da família Thyropteridae, que vivem na América do Sul.
Segundo Gunnell, as almofadas adesivas servem para que os morcegos se agarrem à superfície de folhas muito lisas. “Eles normalmente ficam presos às folhas da palmeira, onde costumam dormir e caçar”, explica.
Para o paleontólogo, os primeiros morcegos a habitarem a Terra provavelmente dormiam de cabeça para cima
Os pesquisadores, no entanto, ainda não sabem por que os morcegos da família Myzopodidae têm o hábito de dormir em pé. “Deve haver alguma vantagem, mas não conseguimos descobrir”, diz Gunell.
Para o paleontólogo, os primeiros morcegos a habitarem a Terra provavelmente dormiam de cabeça para cima. “Eles não tinham asas e se apoiavam nos braços e pernas. Depois, os braços ganharam uma pele extensa, que os cobriu formando asas, levando os morcegos a se apoiarem somente nos pés”, completa.

Do continente para a ilha

O achado dos fósseis no Egito sugere que os ancestrais dos morcegos que habitam a ilha de Madagascar surgiram no continente. O paleontólogo acredita que correntes oceânicas tenham carregado pedaços de vegetação entre 55 e 33 milhões de anos atrás e os morcegos do continente tenham voado de uma vegetação para outra, chegando à ilha em algum momento.
Gunnell acrescenta que o ambiente onde esses morcegos ancestrais viviam era bem diferente do deserto em que seus fósseis foram encontrados. “Havia grandes rios e florestas, o que tornava o local muito propício para esses animais, que se alimentavam de insetos”, completa.

Mariana Rocha
Ciência Hoje On-line

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Os mamíferos da discórdia
Estudo contesta visão de que a maioria das espécies típicas do cerrado e da caatinga se originou nas florestas
© Maria Elina Bichuette
Marsupiais do gênero Cryptonanus: exemplo de mamíferos endêmicos do cerrado  
Há algumas décadas, a fauna de mamíferos do cerrado e da caatinga costumava ser descrita como uma versão empobrecida dos animais que habitavam as duas grandes florestas nacionais, a amazônica ao norte e a mata atlântica, na porção litorânea do país. A definição se amparava na constatação de que muitas das espécies presentes nos dois biomas vizinhos eram também compartilhadas com as densas matas adjacentes. Até as chamadas espécies endêmicas do cerrado e da caatinga, aquelas que só eram encontradas nessas áreas de vegetação predominantemente aberta, e em mais nenhuma outra, descenderiam de linhagens ancestrais associadas às florestas.

Um estudo recente, feito por três biólogos, questiona essa visão e sustenta exatamente o contrário: cerca de 80% das espécies endêmicas conhecidas de mamíferos do Brasil Central e semiárido do Nordeste têm suas raízes em regiões de vegetação aberta do continente sul-americano, do tipo savana, com poucas árvores e mais gramíneas, como o próprio cerrado e seu vizinho chaco, área plana e relativamente seca que se estende por partes dos territórios do Paraguai, Bolívia e Argentina, além de um pequeno trecho no centro-oeste nacional.

A ideia é defendida por Ana Paula Carmignotto, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Mario de Vivo, curador da seção de mamíferos do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), e Alfredo Langguth, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), num artigo que será um dos capítulos do livro Bones, clones, and biomes – The history and geography of recent neotropical mammals, a ser lançado em meados deste ano pela editora da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos. “Conseguimos demonstrar que muitas das espécies endêmicas de áreas abertas do cerrado e da caatinga não se originaram, como as pessoas pensavam, de espécies irmãs das florestas vizinhas”, afirma Vivo, cujos estudos foram basicamente financiados por um projeto temático feito no âmbito do programa Biota-FAPESP. “Elas, na verdade, pertencem a linhagens de formação aberta, com ramificações em outros biomas desse tipo na América do Sul.”

A hipótese se mostra mais plausível para a fauna típica de mamíferos do cerrado, onde, como no vizinho chaco, a presença de vastas áreas abertas era ainda mais expressiva por volta de 10 mil anos atrás do que é atualmente. A existência por um longo período de tempo dessa grande zona de savana no coração da América do Sul funcionou, de acordo com os pesquisadores, como o berço de boa parte das espécies mais típicas do cerrado.

No caso da caatinga, o papel das áreas abertas como origem de espécies singulares de mamíferos é aparentemente menos palpável, mas não totalmente desprezível. No que é hoje o semiárido nordestino, houve uma floresta tropical há alguns milhares de anos. O dado explica por que as matas do passado, e as de hoje, parecem realmente ter sido mais importantes para o desenvolvimento das poucas espécies únicas de mamíferos da caatinga, bioma onde esse grupo de animais é menos diversificado que no cerrado. Ainda assim, os três autores do artigo dizem que é um exagero creditar às florestas toda a cota de endemismo da caatinga.

Para chegar a essas conclusões, o trio de pesquisadores fez uma grande revisão da literatura científica publicada sobre o tema e também foi a campo estudar alguns animais específicos do cerrado e da caatinga e sua distribuição geográfica. O resultado do trabalho gerou uma lista atualizada não só das espécies presentes exclusivamente nos dois biomas, mas de todos os seus mamíferos conhecidos. A biodiversidade encontrada foi maior do que se esperava.

De acordo com o trabalho, o cerrado, cujo território abrange cerca de 2 milhões de quilômetros quadrados e abarca o pantanal, possui 227 espécies de mamíferos, 33 a mais do que encontrara o último inventário, de 2002. Com menos da metade da área e mais seca, a caatinga, segundo o novo estudo, conta com 153 espécies de mamíferos, 10 a mais do que elencara o levantamento anterior, de 2008 (veja infográfico).
Os morcegos e os roedores são as duas ordens de mamíferos com maior número de espécies conhecidas em ambos os biomas. Os primeiros representam mais de um terço das espécies do cerrado e mais da metade das da caatinga. Os segundos respondem por outro terço das espécies do cerrado e um quarto das da caatinga. Em seguida, com um número bem menor de espécies, destacam-se os carnívoros e os marsupiais (veja quadro).

É interessante notar que 120 espécies de mamíferos estão presentes tanto na caatinga como no cerrado. “A maior parte dos mamíferos desses dois biomas é compartilhada entre si ou com a floresta amazônica, a mata atlântica ou o chaco”, afirma Ana Paula Carmignotto. “Essa questão sempre foi destacada em outros estudos e pouco se falava das espécies endêmicas.” Segundo Vivo, muitos trabalhos davam a entender que as áreas abertas da América do Sul não tinham gerado nada de original em termos de novas formas de mamíferos. Quase tudo visto era como uma ramificação de linhagens que evoluíram nas matas fechadas. 

Morcego da espécie Xeronycteris vieirai: endêmico da caatinga
 

A impressão, falsa segundo o trio de autores, talvez decorra da constatação de que o universo dos mamíferos exclusivos do Brasil Central é realmente pequeno e concentrado. Os pesquisadores contaram 25 espécies exclusivas do cerrado (21 de roedores, 2 de marsupias, 1 de primata e 1 de morcego) e 8 da caatinga (5 de roedores, 1 de primata, 1 de marsupial e 1 de morcego). Falar de endemismo de mamíferos no cerrado e na caatinga é, portanto, quase sinônimo de falar de roedores. A distribuição geográfica das espécies encontradas nos dois biomas e os estudos filogenéticos, que traçam seu possível parentesco e relação evolutiva com animais de outras regiões, levaram os biólogos a defender dois padrões de endemismo.

O primeiro compreende espécies de mamíferos hoje típicas do cerrado ou da caatinga que derivaram de gêneros originários da floresta amazônica ou da mata atlântica. Os exemplos clássicos podem ser encontrados sobretudo na ordem dos primatas. O Callithrix penicillata, popularmente denominado sagui-de-tufo-preto ou mico-estrela, é um macaco que vive somente no cerrado, mais precisamente em trechos arbóreos desse ecossistema. É a única das mais de 20 espécies do gênero Callithrix que habita uma zona de savana, fora da floresta equatorial ou da mata litorânea. O mesmo ocorre com o Callicebus barbarabrownae, o guigó-da-caatinga, espécie hoje ameaçada de extinção cuja origem deve ter sido a vizinha mata atlântica. Alguns roedores, marsupiais e morcegos (como o Lonchophylla dekeyseri) do cerrado e da caatinga também se encaixam nessa situação.

O segundo padrão de endemismo é o de linhagens de animais que há muito tempo estão associadas a biomas de vegetação predominantemente aberta, como o próprio cerrado e a caatinga no passado remoto e o chaco. “A maioria dos mamíferos endêmicos do cerrado e da caatinga pertence a essa categoria”, afirma Vivo. As três espécies de roedores do cerrado do gênero Juscelinomys estão nessa situação. Esse também é o caso de duas espécies endêmicas de roedores do gênero Thalpomys, duas do gênero Wiedomys e uma do gênero Kunsia, entre outras.
A história evolutiva dos pequenos marsupais do gênero Thylamys é ainda mais surpreendente. Existem nove espécies do animal na América do Sul, cinco encontradas em áreas de vegetação aberta da região dos Andes. As duas espécies endêmicas do Brasil –  a Thylamys karimii, popularmente denominada catita e encontrada no cerrado e na caatinga, e a Thylamys velutinus, a catita-anã-de-rabo-gordo, presente apenas no cerrado – exibem os traços mais antigos (basais) do gênero e não teriam relações de parentesco com marsupiais originários de áreas florestais. “É um caso raro”, comenta Ana Paula. “Na maioria da vezes, a diversificação dos grupos de mamíferos associados às formações abertas da América do Sul ocorreu nos Andes e depois as linhagens se dispersaram e se diferenciaram aqui.”

O biológo Cleber Alho, professor titular aposentado da Universidade de Brasília (UnB) e hoje docente da pós-gradução da Universidade Anhanguera-Uniderp, do Mato Grosso do Sul, discorda da ideia de que a maioria das espécies endêmicas do cerrado e da caatinga seja derivada de linhagens de animais originários de áreas abertas. “Não sei como poderia justificar a possível origem de espécies endêmicas (desses dois biomas) em ambientes abertos”, afirma Alho. Ele cita exemplos de primatas, roedores e morcegos do cerrado cujas linhagens seriam provenientes de áreas com florestas.

Em sua maioria, as espécies mencionadas por Alho são as mesmas que Ana Paula, Vivo e Langguth admitem ser mesmo originárias de matas, embora sustentem que esses casos são a exceção, e não a regra da história evolutiva da fauna endêmica de mamíferos do centro do Brasil. Uma discordância explícita diz respeito às origens de uma espécie extinta de roedor, Juscelinomys candango, o rato-candango encontrado apenas durante a construção de Brasília em 1960 e, desde então, nunca mais visto. “Ele também dependia de hábitat florestado”, diz Alho. Vivo e seus colegas acham que não.

Outros pesquisadores acreditam que as ideias expostas no capítulo do livro sobre os mamíferos endêmicos do Brasil Central não devem ser descartadas sem estudos mais aprofundados. “É um trabalho muito interessante e acho que eles podem ter razão”, afirma o biólogo Rui Cerqueira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “A hipótese deles é bastante razoável.” Segundo o pesquisador fluminense, a noção de que a fauna de mamíferos do cerrado e da caatinga seria uma versão empobrecida dos animais florestais está realmente ultrapassada e mais estudos sobre a questão, sobretudo no semiárido nordestino, onde as coletas de animais são pouco frequentes, precisam ser feitos.

Artigo científico

CARMIGNOTTO, A. P. et al. Mammals of the Cerrado and Caatinga – Distribution Patterns of the Tropical Open Biomes of Central South America. Capítulo do livro Bones, clones, and biomes – The history and geography 
of recent neotropical mammals. No prelo.

O Projeto

Systematics evolution and conservation of eastern Brazilian Mammals –
n° 1998/05075-7
Modalidade
Projeto Temático
Co­or­de­na­dor
Mario de Vivo – USP
Investimento
R$ 529.250,05 (FAPESP)

domingo, 13 de novembro de 2011


Você sabia que o morcego doa sangue para salvar a vida de outro morcego?

Eles têm fama de sugadores de sangue, mas também podem fazer o papel de doadores
Por: Leila Maria Pêssoa, Departamento de Zoologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro
Publicado em 01/11/2011 | Atualizado em 01/11/2011
Você sabia que o morcego doa sangue para salvar a vida de outro morcego?
Foto: João Oliveira/Mastozoologia do Museu Nacional (UFRJ)
Apesar da associação com vampiros, nem todo morcego é sugador de sangue. Acredite você, dentre as mais de mil espécies de morcegos conhecidas, apenas três são hematófagas, isto é, se alimentam de sangue. E mais: justamente os hematófagos fazem o papel de doadores!
Quer saber por que um morcego pode precisar de doação de sangue? Porque esses animais podem perder até um quarto de seu peso corporal se ficarem apenas duas noites sem alimento. O emagrecimento faz a temperatura do corpo do animal baixar e, com isso, ele pode morrer.
As chances de um morcego, em uma situação frágil dessas, sobreviver aumentam se outro morcego regurgitar, quer dizer, colocar para fora pela boca o sangue que estava em seu estômago. Eis a doação de que estamos falando, uma ação movida pelo instinto de sobrevivência, sem agulhas!
Essa doação de sangue, fique sabendo, não é feita ao acaso: os morcegos escolhem dentro da colônia para quem querem dar o sangue e, em geral, preferem dividi-lo com parentes. As mamães são as maiores doadoras – cerca de dois terços das regurgitações de sangue são feitas entre mães e filhotes.
Viu só?! Até mesmo na sociedade dos morcegos, doar sangue é um gesto valioso para salvar a vida de semelhantes que precisam de ajuda. Converse sobre isso com os adultos da sua família!