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segunda-feira, 7 de outubro de 2024

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Antes vista como "milagrosa", planta invasora e perigosa se espalha por Fernando de Noronha

Duna coberta de leucenas em praia de Fernando de Noronha

Crédito, Thayná Mello

Legenda da foto, A leucena, considerada uma das 100 piores espécies invasoras do mundo, está presente em 60% das áreas com vegetação de Fernando de Noronha
  • Author, Evanildo da Silveira
  • Role, De São Paulo para a BBC News Brasil

A leucena (Leucena leucocephala) já foi considerada uma "árvore milagrosa" por crescer rapidamente mesmo em áreas degradadas, de clima seco e solo pobre.

À medida que foi introduzida em diferentes regiões, porém, o que era seu grande trunfo acabou se tornando um grande problema, e sua propagação passou a colocar em risco espécies nativas.

Esse arbusto originário do México e do norte da América Central hoje está entre as 100 piores espécies invasoras do mundo, causando estragos especialmente em ilhas e arquipélagos.

O rastro de perda de biodiversidade aparece no Havaí, nas ilhas Galápagos, nas ilhas Fiji, na Indonésia e nas Filipinas e, mais recentemente, em Fernando de Noronha.

Com o objetivo de verificar o efeito da leucena na vegetação nativa no arquipélago brasileiro, a bióloga Thayná Jeremias Mello realizou uma pesquisa para seu mestrado no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) em 178 pontos da região.

Os resultados são preocupantes.

"(A leucena) encontrou na ilha um ambiente propício para se desenvolver e hoje é a planta mais comum do local", diz o também biólogo Alexandre Adalardo de Oliveira, do Departamento de Ecologia do IB-USP e orientador de Mello. "Nós a detectamos em 60% das áreas com vegetação da ilha."

Ela é dominante em um quinto dos locais nos quais se estabeleceu. Mas não é só isso. "Onde ela ocorre, a riqueza de espécies nativas diminui muito, cerca de 70%", diz Oliveira.

Segundo os pesquisadores, a leucena, conhecida também como linhaça em Fernando de Noronha, foi introduzida no arquipélago na década de 1940, para alimentar animais e produzir lenha.

Em artigo sobre o tema, Mello, que é analista ambiental no Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), explica que, na época da introdução da leucena no arquipélago, o cultivo da planta "era estimulado em todo o mundo, por crescer rápido até em áreas degradadas, ajudar a fertilizar o solo e ser tolerante à seca".

O problema é que ela logo começou a se espalhar, mesmo para locais onde não havia sido cultivada. "Tentativas de controlá-la fracassavam: cortada, ela rebrotava vigorosamente. Antes 'milagrosa', a espécie entrou na lista das 100 piores invasoras do mundo. Hoje é reconhecida por sua agressividade e por causar perda de biodiversidade, com ameaça destacada às ilhas oceânicas."

Segundo Oliveira, por serem remotos, esses ambientes costumam ter baixa biodiversidade. "Por isso, são considerados ambientes frágeis", diz.

"As espécies que vivem (nessas ilhas remotas), por terem evoluído isoladas, interagiram com poucos organismos ao longo de sua história evolutiva. Por isso, não estão adaptadas a competir com outras por recursos e sofrem com a invasão."

Mello afirma que invasões biológicas são atualmente a segunda maior causa de perda de biodiversidade no mundo, ficando atrás apenas da destruição dos habitats.

"Certos ambientes são mais suscetíveis que outros à invasão, especialmente quando degradados", diz. "É o caso das ilhas oceânicas, onde as invasões biológicas são a principal causa de perda de biodiversidade."

Leucena na praia do Americano

Crédito, Thayná Mello.

Legenda da foto, Na praia do Americano, a maior parte da vegetação é dominada pela leucena

O avanço da leucena em Fernando de Noronha não foi a única descoberta dos pesquisadores. Eles também realizaram experimentos a fim de entender como se dá a interação entre a invasora e as plantas nativas da região.

Para isso, observaram, em campo e em casa de vegetação, o efeito do contato da leucena e de uma espécie nativa, o feijão-bravo (Capparis flexuosa), em outra planta natural do local, o mulungu (Erythrina velutina) — uma das mais comuns nas florestas originais do arquipélago.

Os resultados mostram que o mulungu cresce junto com o feijão-bravo, mas a presença da leucena altera completamente os resultados.

"A leucena até melhora a germinação das sementes do mulungu, mas essa planta morre mais e cresce menos" em áreas invadidas, afirma Oliveira. "Em contrapartida, o feijão-bravo parece não ser afetado pela espécie exótica."

Quando a interação se dá entre as três plantas, o resultado é ainda pior para o mulungu, que morre mais e cresce menos do que em ambientes em que havia só a invasora.

"Notamos que a espécie exótica aumenta a taxa de mortalidade do mulungu em quatro vezes, enquanto a presença dela associada ao feijão-bravo aumenta mais de sete vezes esse índice", afirma Oliveira.

Ou seja, "uma espécie nativa (feijão-bravo) que não tem efeito sobre outra (mulungu) passa a ter um efeito fortemente negativo quando da presença da invasora (leucena)", diz.

Os estudos de Thayná Mello para seu mestrado foram realizados entre 2012 e 2014, mas ela ainda pesquisa o tema. "A ocupação por leucena continua aumentando em Fernando de Noronha", diz à BBC News Brasil.

Seus levantamentos nos últimos anos, que incluem a observação de outras 12 espécies de plantas exóticas, foram reunidos no Plano de Ação para Manejo de Flora Exótica Invasora do Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha, que está em fase inicial de implementação.

quarta-feira, 14 de julho de 2021

 

Iniciativa multinacional aponta diretrizes para mitigar os impactos de espécies invasoras

14 de julho de 2021


Iniciativa multinacional aponta diretrizes para mitigar os impactos de espécies invasoras Minks em paisagem da Patagônia argentina. Os animais foram introduzidos na América do Sul para a produção de peles (foto: Programa Patagonia-Aves Argentinas)

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – Espécies exóticas invasoras são causadoras de impactos ambientais, sociais e econômicos negativos. Um exemplo, entre muitos, é a gramínea braquiária – de origem africana e introduzida no Brasil para formação de pastagens destinadas à criação de gado bovino –, que se tornou uma grande ameaça para a sobrevivência de espécies nativas e a biodiversidade em várias escalas espaciais.

A erradicação completa de espécies exóticas invasoras é frequentemente inviável. E tentativas feitas nesse sentido já produziram resultados indesejados e até mesmo prejudiciais, porque a simples retirada da espécie exótica invasora não reconstitui o ambiente – como, por exemplo, em áreas de Cerrado invadidas por pinheiros. Por isso, considerando que espécies exóticas invasoras que não podem ser erradicadas precisam ser administradas continuamente, pesquisadores do Brasil, Argentina, Chile e Reino Unido definiram os eixos estratégicos para uma política nesse sentido, com foco na mitigação dos impactos, mais do que na eliminação das espécies.

O projeto resultante, que recebeu o nome de CONTAIN (“conter” em inglês), surgiu a partir de uma chamada de propostas lançada em 2018 por acordo de cooperação entre a FAPESP; o Natural Environment Research Council (NERC), o UK Research and Innovation (UKRI) e o Newton Fund (NF), do Reino Unido; o Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (Conicet), da Argentina; a Comisión Nacional de Investigación Científica y Tecnológica (Conicyt), do Chile; e o Consejo Nacional de Ciencia, Tecnología e Innovación Tecnológica (Concytec), do Peru.

A iniciativa busca estabelecer e desenvolver ferramentas de manejo que permitam otimizar o controle de espécies exóticas invasoras em horizontes de médio e longo prazo. A participação do grupo brasileiro, sediado na Universidade Estadual Paulista (Unesp), é coordenada por Alessandra Fidelis, professora do Instituto de Biociências, no campus de Rio Claro.

Um estudo elaborado pelos integrantes do CONTAIN foi publicado no periódico BioScience. O trabalho contou com apoio da FAPESP por meio do projeto “Uso do manejo adaptativo na otimização do manejo a longo prazo de espécies invasoras prejudiciais à biodiversidade e economia rural”, conduzido por Fidelis.

“Nosso estudo procurou contemplar não apenas as invasões em si, mas também traçar diretrizes para a interação com gestores, tendo o objetivo de conter a proliferação das espécies e mitigar seus impactos”, diz a pesquisadora à Agência FAPESP.

O estudo utilizou como definição de espécies exóticas invasoras aquelas que “transitam com sucesso pelos três estágios iniciais de invasão [transporte, introdução e estabelecimento] e, subsequentemente, estabelecem múltiplas populações autossustentáveis, compostas por indivíduos que se reproduzem, sobrevivem e se dispersam, em uma paisagem além da sua distribuição nativa”. E indicou que um subconjunto delas “produz uma gama de impactos ambientais, sociais e econômicos negativos em várias escalas espaciais”.

Nesse vasto subconjunto, foram enfocadas as seguintes espécies exóticas invasoras: no Brasil, a braquiária e outras gramíneas de origem africana (introduzidas para o plantio de pastagens destinadas à alimentação de rebanhos bovinos) e as árvores do gênero Pinus (introduzidas do hemisfério norte para a produção de polpa e resina); na Argentina, o mamífero de origem norte-americana mink (também chamado de vison e introduzido para a produção de peles) e as árvores dos gêneros Pinus e Ligustrum (de origem asiática e utilizada em arborização); no Chile, o pinheiro, o mink e a vespa de jaqueta amarela (de origem asiática).

“Definimos seis critérios de planejamento para mitigar os impactos. Os três primeiros configuram um levantamento detalhado da situação: mapear a presença da espécie exótica invasora na região e sua distribuição espacial; investigar por quanto tempo essa invasora está presente; avaliar o que sabemos sobre os impactos causados por ela”, informa Fidelis.

E prossegue. “Os três critérios seguintes dizem respeito à resposta que podemos dar a essa situação: que tipos de intervenções são factíveis, do ponto de vista técnico, social e econômico; que consequências negativas essas intervenções podem acarretar; fazer o balanço dos custos e benefícios das intervenções e das consequências."

A atual pandemia já explicitou com clareza meridiana os riscos que a degradação dos ambientes naturais pode causar. E a urgência da adoção de políticas de controle e mitigação bem embasadas em conhecimentos científicos. “No caso das espécies enfocadas por nosso estudo, temos um motivo a mais, e um motivo bastante forte, para implementar essas políticas, pois foi descoberto que o mink é transmissor do novo coronavírus”, comenta Fidelis.

Evidentemente, tudo isso só será efetivo se os conhecimentos gerados nas universidades e nos institutos de pesquisa transbordarem o ambiente acadêmico e forem abraçados pela sociedade, em especial pelos gestores, públicos e privados.

O artigo Management policies for invasive alien species: addressing the impacts rather than the species pode ser acessado em https://doi.org/10.1093/biosci/biaa139.

quarta-feira, 24 de março de 2021

'Monstro do rio' da Amazônia aparece morto na Flórida


O pirarucu, um dos maiores peixes de água doce do mundo, é nativo do rio Amazonas. (Crédito da imagem: TatianaMironenko via Getty Images)

O corpo apodrecido de um "monstro de rio" morto da Amazônia recentemente foi levado pela costa da Flórida, levantando preocupações sobre se esse peixe predador gigantesco se juntou à lista cada vez maior de espécies invasoras do Estado do Sol, de acordo com fontes de notícias.

Mas embora possa prosperar nas águas quentes da Flórida, este peixe, conhecido como pirarucu ( Arapaima gigas ) - uma criatura de tamanho considerável que pode atingir 3 metros de comprimento e até 440 libras. (200 kg), de acordo com um estudo de 2019 na revista PLOS One - as chances são contra isso, pelo menos por agora, disse Solomon David, um ecologista aquático da Nicholls State University em Louisiana que não estava envolvido com o pirarucu recente avistamento.

Isso porque esses peixes têm algumas peculiaridades muito particulares: eles se reproduzem apenas em áreas específicas, gastam tempo e energia valiosos cuidando de seus filhotes e não atingem a maturidade sexual até que tenham cerca de 1,5 m de comprimento e pelo menos 3 aos 5 anos, David disse ao Live Science. Além disso, seriam necessários muitos indivíduos para ter uma população sustentável na Flórida e, até agora, apenas um pirarucu morto foi encontrado.

Neste caso, o pirarucu era provavelmente um animal de estimação exótico no aquário particular de uma pessoa que ficou grande demais para seu tanque e foi ilegalmente solto na natureza ou morreu em cativeiro e foi jogado no rio, disse David. “Nós nem sabemos se essa coisa estava viva quando foi despejada, se foi despejada lá”, disse David ao Live Science.

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Os restos do pirarucu foram encontrados no Parque Jaycee de Cape Coral, às margens do rio Caloosahatchee, que deságua no Golfo do México, no oeste da Flórida, informou o South Florida Sun Sentinel no início de março. O peixe normalmente esverdeado, de cauda avermelhada, já estava branco de decomposição, mostram as fotos . Mas embora não tivesse 3 metros de comprimento, era definitivamente um pirarucu, disse a Comissão de Conservação de Peixes e Vida Selvagem da Flórida ao Sun Sentinel.

Esse peixe, também conhecido como pirarucu ou paiche, costumava ser abundante em partes do rio Amazonas , mas agora a espécie está ameaçada em muitos lugares ao longo de seu habitat nativo, disse David. O pirarucu faz parte do grupo das línguas ósseas, uma série de peixes tropicais de corpo pesado cujas línguas são cravejadas de dentes e cujos corpos são cobertos por grandes escamas em forma de mosaico que são duras, como uma armadura, de acordo com a Enciclopédia Britânica . Essas escamas são tão resistentes que nem mesmo as piranhas conseguem picá-las - mas isso é apenas sorte, já que o piranha evoluiu muito antes de as piranhas existirem, disse David.

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Os pirarucus, especialmente os bebês pirarucos como os mostrados aqui, são populares em aquários privados. (Crédito da imagem: Solomon David)

O pirarucu é valorizado por sua carne, e não apenas nas regiões rurais ao longo do rio, onde a carne relativamente desossada do peixe, uma vez salgada, pode ser armazenada sem refrigeração, segundo Miami Patch . Na verdade, a Whole Foods Market vendia pirarucu cultivado comercialmente, disse a rede de supermercados em uma postagem de blog de 2016 . Mas o pirarucu selvagem está ameaçado em grande parte pela pesca predatória, e não ajuda o fato de a espécie, um dos maiores peixes de água doce do mundo, ser relativamente fácil de detectar. É uma respiração de ar obrigatória, o que significa que tem que vir à superfície da água a cada 5 a 15 minutos para engolir o ar, de acordo com um estudo de 2009 no Journal of Applied Ichthyology

Arapaimas desenvolveu essa tática de respiração porque a Amazônia tem baixos níveis de oxigênio . (Água quente retém menos oxigênio do que água fria.) Os pirarucus não têm pulmões, mas sim tecido especial em suas bexigas natatórias que processa oxigênio, disse a mongabay Lesley de Souza, conservacionista que se especializou em peixes neotropicais no Field Museum em Chicago .com .

Relacionado: Galeria de imagens: Espécies invasorashttps://cdn.mos.cms.futurecdn.net/jbUovPF5nJDK8TKrdymeUe-970-80.jpg.webp

O pirarucu tem cauda avermelhada. (Crédito da imagem: Solomon David)

Pais investidos

Ao contrário de muitos peixes que nunca encontram seus filhotes, os pirarucus são pais amorosos. Durante a estação chuvosa da Amazônia, geralmente de dezembro a maio, o rio inunda as planícies aluviais vizinhas. É lá, nas planícies alagadas, que os pirarucus cavam ninhos rasos onde as fêmeas podem botar ovos para os machos fertilizarem. Ambos os pais protegem o ninho de predadores e continuam a cuidar dos filhotes assim que os ovos eclodem, apenas nove dias depois, de acordo com um estudo de 2017 na revista PLOS One

Ambos os pais liberam da cabeça uma substância láctea, conhecida como "leite de pirarucu", que é administrado aos filhos, de acordo com o estudo. Além disso, os pais são cuidadores dedicados.

“O macho fornece um cuidado parental intensivo que pode durar até três meses, guiando os filhotes acima de sua cabeça escurecida em áreas ricas em zooplâncton para alimentação”, de acordo com o estudo de 2017. A fêmea tende a nadar ao redor do macho e dos filhotes à distância - não está claro por que, mas talvez para procurar predadores ou comida - e geralmente deixa sua "família" após cerca de um mês, após o qual ela pode se reproduzir com outros machos, de acordo com o estudo. 

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O peixe mooneye, outro peixe com língua óssea, também tem dentes na língua. (Crédito da imagem: Solomon David)

O cuidado dos pais é um dos principais motivos pelos quais o pirarucu provavelmente não está tomando conta das águas da Flórida, já que os jovens pirarucu "não são peixes muito resistentes quando pequenos", disse David. Mas se esses peixes chegarem à idade adulta, eles podem viver pelo menos 15 a 20 anos, de acordo com o estudo PLOS One 2019.

Concedido, mesmo que as probabilidades estejam contra esse peixe na Flórida, o pirarucu poderia superar esses obstáculos - talvez eles pudessem encontrar áreas de nidificação na costa da Flórida, criar seus filhotes, esperar até que estivessem grandes e velhos o suficiente para se reproduzir e então repetir o ciclo , estabelecendo uma população viável. Se isso acontecesse, esses comedores vorazes provavelmente afetariam as populações de espécies invasoras e nativas de peixes e pequenos invertebrados que vivem nas proximidades, disse David. No entanto, esses peixes são tão grandes e demoram tanto para amadurecer que provavelmente seria possível para a Comissão de Conservação de Peixes e Vida Selvagem da Flórida rastreá-los e removê-los, observou ele.   

“Devíamos estar atentos - não há nada de errado em estar vigilante”, disse David. “Mas, novamente, ir dos peixes para a propagação do medo não é a melhor maneira de aprender sobre esses peixes”, acrescentou ele, observando toda a cobertura negativa da mídia que esses peixes estão recebendo.

Alguns estabelecimentos, incluindo a CBS e até a revista de pesca " Field & Stream ", chamam os peixes amazônicos de "feios".

"Como alguém que é uma espécie de campeão para os peixes 'feios', acho que precisamos fugir disso", disse David. "Eu acho que eles são peixes muito legais e de aparência incrível. Basta olhar para aquelas escamas vermelhas."

Originalmente publicado na Live Science.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Seis espécies de anfíbios invasores são identificadas no Brasil

10 de novembro de 2017

Peter Moon  |  Agência FAPESP – A invasão de ecossistemas brasileiros por espécies provenientes de outros biomas, países ou continentes é um desafio para os conservacionistas. Há vários exemplos, como os javalis originários da Europa e importados para fazendas no Uruguai, de onde escaparam para o Brasil nos anos 1990, alastrando-se desde então pelas regiões Sul e Sudeste.
Seis espécies de anfíbios invasores são identificadas no Brasil Pesquisadores publicam na PLOS ONE primeiro levantamento de anfíbios invasores dos biomas brasileiros. Algumas invasões são recentes, como é o caso da perereca-assobiadora, e outras são antigas, como a rã-touro (foto: rã-touro (Lithobastes castesbeianus / divulgação) 
 
 

Entre os invasores há também anfíbios. Um grupo de biólogos das universidades paulistas acaba de publicar o primeiro levantamento de anfíbios invasores dos biomas brasileiros. Contabilizaram a presença de nada menos que seis espécies diferentes, entre sapos, rãs e pererecas, espalhados por boa parte do país.

Algumas invasões são recentes, como é o caso da perereca-assobiadora (Eleutherodactylus johnstonei), introduzida acidentalmente na cidade de São Paulo há menos de uma década. Outros casos são mais antigos, como o sapo-cururu (Rhinella jimi), que chegou ao arquipélago de Fernando de Noronha há 130 anos.

Resultados do trabalho foram publicados na PLOS ONE em artigo de Lucas Forti, do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Luís Felipe Toledo, chefe do Laboratório de História Natural de Anfíbios Brasileiros da Unicamp, Célio Haddad, professor do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), e outros. A pesquisa contou com diversos apoios da FAPESP, na forma de Auxílios e Bolsas.

A ideia de fazer um levantamento dos anfíbios invasores nos biomas brasileiros surgiu no verão de 2013-2014, quando Forti observou nos jardins de um condomínio no Guarujá (SP) uma infestação de pererecas-das-bromélias (Phyllodytes luteolus). “Trata-se de uma espécie cujo habitat original são as porções de Mata Atlântica que se estendem desde o norte do Rio de Janeiro até a Paraíba”, disse.
O herpetólogo suspeita que as pererecas-das-bromélias devem ter sido introduzidas no Guarujá acidentalmente, por meio do comércio de plantas ornamentais, uma vez que a espécie, como seu nome indica, costuma viver nos acúmulos de água entre as folhas das bromélias.

Segundo Forti, a invasão põe em risco a sobrevivência de pererecas nativas que vivem em habitats semelhantes na Baixada Santista, especialmente a do gênero Ischnocnema . O risco advém da vocalização dos invasores. Ocorre que os machos de P. luteolus, em seus cantos noturnos para chamar a atenção das fêmeas, vocalizam na mesma faixa de frequência dos machos de Ischnocnema.

O ruído causado pela vocalização de uma espécie invasora provavelmente prejudica o sistema acústico de comunicação em espécies nativas, fato que, especificamente, deve colocar em risco a reprodução na espécie nativa do gênero Ischnocnema nos locais de simpatriaquando duas espécies ocorrem na mesma área geográfica – com P. luteolus.

“Isso potencialmente atrapalha a comunicação acústica das espécies e talvez possa ter efeitos negativos sobre a habilidade das fêmeas localizarem os machos no ambiente reprodutivo”, disse Forti.

Outra invasão foi identificada em algumas ruas do bairro do Brooklin, na zona sul da cidade de São Paulo. Em 2014, diversas famílias começaram a se queixar de um barulho ensurdecedor que tirava seu sono (confira no vídeo em www.youtube.com/watch?v=9cV11UPneHc).

Haddad, professor da Unesp em Rio Claro, foi contatado pelos moradores para investigar a causa da barulheira e acabou identificando a bioinvasão. Era o canto de centenas de pererecas-assobiadoras.
“Todo o barulho é produzido pelo macho da espécie, pois a fêmea é muda. É o macho que tem o papel de coaxar para atrair a fêmea. A espécie é nativa das Antilhas e achamos que foi trazida acidentalmente em plantas ornamentais”, disse Haddad, que coordena o Projeto Temático “Diversidade e conservação dos anfíbios brasileiros”.

O problema das pererecas-assobiadoras no bairro paulista já provoca consequências econômicas, como a desvalorização imobiliária naquelas ruas onde está por enquanto circunscrita a invasão. Os animais estão se reproduzindo nos quintais das casas.
Segundo Haddad, deve-se combater e eliminar o problema enquanto a invasão está restrita a um bairro. “Se nada for feito, a população de pererecas-assobiadoras vai se alastrar e, caso venha a atingir uma área de mata, sair de controle”, disse.

Cururu e rã-touro

Há dois outros casos de bioinvasão que são há muito de conhecimento dos cientistas. Um deles é na ilha de Fernando de Noronha, onde os primeiros sapos-cururus, naturais do Nordeste, foram introduzidos pelo padre Francisco Adelino de Brito Dantas (1825-1893), que em 1888 foi ser o capelão da colônia penal que lá funcionava.

Estima-se que o religioso tenha levado o cururu como forma de controle biológico dos insetos que infestavam suas hortaliças. Outra suposição é que o cururu teria sido introduzido por militares dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, quando mantiveram uma base na ilha. Eles teriam trazido os cururus como forma de controle da população de mosquitos.

O problema do cururu é a sua voracidade. “Em Noronha, sabemos que o cururu está comendo bichos ameaçados de extinção”, disse Toledo, que estudou o problema da invasão de cururus no arquipélago.
O anfíbio bioinvasor com presença mais ampla no Brasil e com as consequências mais graves é a rã-touro (Lithobastes castesbeianus). Natural da América do Norte, foi importada para a ranicultura nos anos 1930 e logo escapou dos ranários para o meio ambiente, encontrando-se hoje disseminada pelas manchas de Mata Atlântica em diversos estados do Sul e do Sudeste. É um animal grande, de até 20 centímetros, e que come de tudo, entre insetos, filhotes de pequenos mamíferos, pequenas aves e até membros jovens da própria espécie.

Além de competir com espécies nativas por recursos, a rã-touro é um reservatório natural de Batrachochytrium dendrobatidis, um fungo que ameaça a população mundial de anfíbios. O fungo é o causador de uma doença chamada quitridiomicose, que ataca a pele dos anfíbios e interfere na troca gasosa dos animais com o meio ambiente.

Nos últimos anos, tem sido registrada uma acentuada extinção de espécies de anfíbios em várias regiões do planeta. A bioinvasão de rã-touro, que se alastra por diversos continentes, pode estar relacionada a tais extinções em massa, pois o fungo foi identificado pelos cientistas brasileiros na pele da rã-touro, que é resistente à doença.

“Tudo indica que a proliferação invasiva da rã-touro está disseminando o fungo. Se for o caso, trata-se de uma constatação muito importante e que servirá de base para o combate à doença e à proteção das diversas populações de anfíbios ameaçados”, disse Toledo.

As outras duas espécies de anfíbios bioinvasores identificadas no estudo são a perereca-de-banheiro (Scinax x-signatus), natural da Venezuela e da Colômbia e que, como o cururu, também infesta Noronha, e a rã-pimenta (Leptodactylus labyrinthicus), que hoje se prolifera na Amazônia central.
Os autores do levantamento dos anfíbios invasores também investigaram qual poderá ser a distribuição futura das seis espécies em função das mudanças climáticas. Simulações foram feitas tomando por base os prognósticos climáticos para 2100 do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

“A boa notícia é que, das seis espécies invasoras identificadas, quatro terão a sua área de distribuição reduzida até 2100, inclusive a famigerada rã-touro. Não é o caso, contudo, da perereca-assobiadora e do sapo-cururu, que podem vir a ter a sua distribuição ampliada”, disse Toledo.
O artigo Perspectives on invasive amphibians in Brazil, de Lucas Rodriguez Forti , C. Guilherme Becker, Leandro Tacioli, Vânia Rosa Pereira, André Cid F. A. Santos, Igor Oliveira, Célio F. B. Haddad e Luís Felipe Toledo, pode ser lido em https://doi.org/10.1371/journal.pone.0184703.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Impactos sobre as Bacias Hidrográficas de Água Doce

O aumento populacional e à distribuição irregular entre habitação humana e recursos hídricos cria pressões cada vez maiores para o armazenamento de água em muitas partes do planeta. A crise da água em São Paulo é um exemplo atual deste desequilíbrio.
 Neste contexto, o gerenciamento dos reservatórios artificiais, da qualidade de sua água e das bacias hidrográficas na qual se inserem essas represas é de fundamental importância para o desenvolvimento sustentado a longo prazo.

Conhecer e entender quais são as principais atividades humanas de maior impacto sobre as bacias hidrográficas de água doce é de fundamental importância para a conservação da qualidade e quantidade da água de represas além de ajudar nas discussões sociais sobre o futuro de nossas bacias. Entre os principais impactos estão:

Desflorestamento: a remoção das florestas ao longo dos cursos dos rios acarreta diversas alterações indesejáveis nos processo ecológicos, tais como a redução de materiais alóctonos disponíveis para os rios e a perda de sua capacidade de atuar como um “sistema filtrante” de nutrientes e materiais em suspensão.
desfloestamento
O desaparecimento das florestas naturais depriva a curso de água de animais selvagens, alimentos e abrigo. Assim sendo, perde-se sua função de zona de transição (e absorção) entre o sistema terrestre e o aquático. O aumento do material particulado nas águas é outra consequência negativa.

Mineração: a mineração de ouro pela filtragem dos sedimentos do fundo dos rios causa um grande impacto negativo. Devido ao fato de o ouro ser amalgamado com mercúrio, nas proximidades do rio, ocorre a contaminação dos organismos componentes da cadeia alimentar presente no rio.
mineração
A mineração de areia e de bauxita são outras atividades que interrompem processos ecológicos. A do carvão e do ferro também causam efeitos diretos e indiretos sobre os ecossistemas de águas doce.

Construção de ferrovias e estradas de rodagem: estas obras causam grandes alterações em várzeas, baixadas e pequenos cursos de água. Os impactos imediatos ocorrem durante e logo após a construção.
O incremento da erosão acarreta uma maior eutrofização devido às maiores taxas de nutrientes somadas à menor disponibilidade de luz para algas e para plantas maiores durante os períodos de maior turbidez
.
Introdução de espécies exóticas: a introdução de espécies, tanto aquáticas como terrestres, causam alterações na cadeia alimentar. Por exemplo, a introdução intencional ou acidental de peixes predatórios freqüentemente levam à perda de espécies locais valiosas. No nordeste do Brasil, a introdução do Eucalyptus acarretou alterações na composição química dos lagos.

Irrigação: é a principal causa de salinização extensiva, principalmente nas regiões semi- áridas.
Projetos com irrigação excessiva normalmente resultam em grandes desastres, tais como o projeto soviético para algodão, que transformou o mar de Aral em uma sujeira, com barcos de pesca enferrujados abandonados em uma areia salgada. São enormes os problemas locais de saúde.
irrigação
Construção de canais e retificação de rios: as interferências tecnológicas de grande porte comumente correlatas à construção dessas obras têm conseqüências negativas sobre a hidrologia regional, sobre a disponibilidade dos recursos hídricos e sobre sua distribuição biológica.
A perspectiva de que se pode obter proteção contra cheias pela construção de barragens cada vez mais altas, ironicamente, conduz a maiores danos por inundações. As águas, em vez de serem armazenadas dentro do território pelas várzeas, meandros e florestas, fluem livremente para a parte baixa dos rios.
esgoto 
Esgoto e outros dejetos: dejetos não tratados oriundos de fontes pontuais ou difusas causam diversas alterações na cadeia alimentar dos rios, baixios e várzeas. Descargas de esgoto urbano, sem tratamento ou somente com tratamento primário ou secundário (sem remoção de nutrientes), causam sérios problemas de eutrofização.

Descargas de dejetos agroindustriais, fruto de seu processamento, fertilizantes, herbicidas, pesticidas e resíduos de agricultura, deterioram a qualidade da água; Transferências ou retiradas de água, induzindo a uma menor recarga das águas subterrâneas: a retirada excessiva de água leva ao esvaziamento dos reservatórios, fato que se relaciona com a piora da qualidade da água.
Transferências hídricas, especialmente para longas distâncias, podem ser perigosas devido a consequências inesperadas para a área e para a fauna aquática. A redução na recarga das águas subterrâneas faz com que sequem poços e vegetação e ocorram perdas agrícolas.

Desenvolvimento urbano: os esgotos das cidades causam uma poluição “per capita” maior do que aquela produzida em áreas rurais providas de latrinas ou tanques sépticos. O mesmo se aplica aos detritos sólidos.
vitrine impacto bacia hidrografica
Agricultura e agroindústria: uma estocagem imprópria de fertilizantes, produtos agroquímicos ou esterco são a principal causa da poluição difusa. Fertilizantes aplicados de maneira excessiva não são incorporados pelas plantas, sendo lavados pelas chuvas.

A erosão aumenta por práticas agrícolas inadequadas e acarreta grande assoreamento nos reservatórios. A perda de capacidade de retenção hídrica do solo também é importante. Também pode ocorrer uma salinização de terras irrigadas.

Tudo a ver
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Para saber mais sobre soluções integradas para o gerenciamento de reservatórios construídos, da qualidade da água e das bacias hidrográficas nas quais se inserem as represas adquira o livro Gerenciamento da qualidade da água de represas de José Galizia Tundisi e Milan Straskraba.

O livro mostra como a pesquisa subsidia as tomadas de decisão para encontrar alternativas e soluções otimizadas, além de detalhar os principais mecanismos de funcionamento desses ecossistemas.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Para onde vão as nossas matas?

No Ano Internacional das Florestas, o diretor do Programa Mata Atlântica mostra o pouco que temos para comemorar

Isís Nóbile Diniz
As florestas cobrem 31% da área terrestre, garantem a sobrevivência de 1,6 bilhão de pessoas e abrigam cerca de 300 milhões de habitantes. Para destacar essa importância, promover a preservação ambiental e, também, incentivar a reflexão sobre a relação do homem com as matas, a Organização das Nações Unidas (ONU) elegeu 2011o Ano Internacional das Florestas sob o slogan: “Proteja as florestas, elas protegem você”. O Brasil, segundo maior país com área total coberta por matas – perde para a Rússia e suas florestas boreais –, tem pouco a comemorar. A Mata Atlântica, um dos biomas mais ricos em biodiversidade, aparece na lista dos dez que mais correm risco de desaparecer.

Mundialmente, o Brasil é conhecido pela Floresta Amazônica que habita o imaginário das pessoas inspirando, por exemplo, filmes épicos como Avatar. Não é por menos. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o bioma Amazônia ocupa quase metade do território nacional – é a maior floresta tropical do planeta. E ela vai além das fronteiras, se estende pelos vizinhos Venezuela, Colômbia, Peru, Bolívia, Equador, Suriname, Guiana e Guiana Francesa. Sozinha, a Amazônia responde por 26% das florestas tropicais remanescentes do mundo. Apesar dessa grandeza, é graças a todos os biomas brasileiros que o país abriga mais de 20% do número total de espécies endêmicas do planeta e um deles em especial. Segundo a organização não governamental (ONG) SOS Mata Atlântica, a floresta que cede o nome à organização é o bioma mais rico em biodiversidade do planeta.

Estima-se, porém, que restou 7% a 21% da vegetação original da Mata Atlântica, valores
cuja variação se deve ao tipo de levantamento considerado. Esse é o resultado de décadas de desmatamento. No bioma, vive mais de 60% da população brasileira. São cerca de 110 milhões de pessoas que dependem, direta e indiretamente, da conservação dos remanescentes das florestas para a garantia do abastecimento de água, a regulação do clima, a fertilidade do solo. Luiz Paulo Pinto, diretor do Programa Mata Atlântica da ONG Conservação Internacional, conta qual a situação atual do bioma e acredita na sua recuperação.


AULA ABERTA Qual é a situação atual da Mata Atlântica? O desmatamento se estabilizou?
LUIZ PAULO Análises recentes revelam a gravidade da situação: mais de 80% dos fragmentos florestais remanescentes possuem menos de 50 hectares. Manchas de floresta desse tamanho podem ainda reter parte da biodiversidade, mas a grande maioria está sujeita à pressão intensa como incêndios, caça, pisoteio de gado, invasão de espécies exóticas, retirada de produtos madeireiros e não madeireiros, além de processos naturais como maior insolação, ventos, e outros fatores que acelaram mudanças no microclima característico daquela área e que podem alterar os rumos da dinâmica fl orestal. Em síntese, estudos mostram que o nível de fragmentação dos ecossistemas naturais, agindo de forma combinada com outros fatores de degradação, está provocando modificações profundas na biodiversidade, levando ao declínio local irreversível de espécies da fl ora e da fauna, além da degradação de solos, da água e de outros elementos da paisagem, que podem afetar os serviços ambientais proporcionados pela floresta. Se quisermos proteger a biodiversidade e manter os serviços ambientais dessas florestas, temos de criar mais espaços protegidos e recuperar parte da floresta e de outros ambientes naturais. A grande preocupação é que menos de 2% do território da Mata Atlântica está coberto por unidades de conservação de proteção integral, ou seja, parques, reservas biológicas e estações ecológicas.

AULA ABERTA Há anos, organizações não governamentais e empresas trabalham com conscientização e reflorestamento da Mata Atlântica. Segundo alguns dados, certas áreas já foram recuperadas. Por que essa recuperação é lenta?
LUIZ PAULO
A ciência da restauração florestal da Mata Atlântica e do Brasil teve grande avanço. Existem metodologias e processos testados e reconhecidos envolvendo gestão, planejamento da restauração, tecnologias de intervenção e técnicas de monitoramento. A restauração não é algo simples e as taxas de sucesso no longo prazo ainda são muito baixas, muitas vezes por falhas na condução de algum desses componentes. As ações e intervenções necessárias esbarram também nas diferenças regionais em termos de capacidade técnica instalada, em dificuldades impostas pelo estado ainda fragmentado do conhecimento sobre a sua biodiversidade, nas diferenças em um ambiente de forte pressão antrópica, marcado pela complexidade nas relações sociais e econômicas, e nas dificuldades de engajamento de proprietários rurais resistentes a intervenções ambientais. Isso sem contar o custo elevado (R$10.000,00/hectare em média) da restauração. São poucos incentivos econômicos e investimentos, públicos e privados, capazes de cobrir projetos e territórios extensos.

O QUE SÃO FLORESTAS?

De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO): “Áreas medindo mais de 0,5 ha com árvores maiores que 5 m de altura e cobertura de copa superior a 10%, ou árvores capazes de alcançar este parâmetro in situ. Isto não inclui terra predominantemente sob uso agrícola ou urbano”.
Luoman/iStockphoto

AULA ABERTA Segundo algumas instituições, é possível recuperar as áreas degradadas até que tenhamos 21% da cobertura original da Mata Atlântica. Acredita ser verdade? Como pode ser viável?
LUIZ PAULO Sim. O histórico de projetos e de ações de restauração florestal da Mata Atlântica mostra que a experiência no tema, combinada com a capacidade humana, institucional e política existentes podem contribuir para uma evolução rápida das iniciativas de restauração. Um importante passo foi dado nessa direção em 2009. Uma aliança multi- institucional chamada Pacto pela Restauração da Mata Atlântica foi estabelecida com o objetivo de restaurar 15 milhões de hectares até 2050. O Pacto conta com mais de 165 membros de diversos setores da sociedade (organizações ambientais nacionais e internacionais, instituições governamentais, empresas, centros de pesquisa, comunidades, etc.) e vem trabalhando para criar integração e colaboração entre seus membros a fim de estabelecer uma rede institucional capacitada para ações de restauração florestal no bioma. As primeiras análises do Pacto resultaram no Mapa de Áreas Potenciais para Restauração, com a indicação de 17 milhões de hectares de áreas potenciais para a restauração florestal da Mata Atlântica. Acreditamos, também, que a restauração pode gerar benefícios econômicos, por meio do pagamento aos produtores pelos serviços ambientais resultantes da restauração, como detentores de biodiversidade, de carbono, como produtores de água, além da possibilidade de uso dessas áreas restauradas para diversificação da produção, por meio da disponibilização de produtos madeireiros e não madeireiros.

AULA ABERTA Qual a importância em manter as florestas em pé?
LUIZ PAULO
As florestas sempre estiveram associadas ao modo de vida das sociedades, influenciando a sobrevivência de famílias. A ciência cada vez mais decifra a importância da cobertura florestal na manutenção do fluxo de água no solo, nos rios e na atmosfera, assim como nas emissões globais de dióxido de carbono. As florestas são importantíssimas pela manutenção de cerca de 90% da biodiversidade terrestre. Têm sido amplamente reconhecidos e discutidos nos últimos anos os “serviços ecossistêmicos” proporcionados pelas florestas (também chamados “serviços ambientais” em determinadas ocasiões para efeitos legais e de políticas públicas). Alguns estados como o
Espírito Santo e o Rio de Janeiro já possuem programas de pagamento por serviços ambientais, como reconhecimento dos serviços de uma floresta ou outro tipo de ambiente natural. O Pagamento por Serviços Ambientais é um sistema em que os beneficiários fazem pagamentos a proprietários rurais ou outros detentores dos meios de provisão de um determinado serviço, para que estes adotem práticas que garantam a conservação e/ou restauração do ambiente objeto daquele contrato – por exemplo, um manancial em uma floresta conservada ou em recuperação. Na Mata Atlântica, existem mais de 40 iniciativas planejando e/ou adotando esse conceito. Só no estado do Espírito Santo já são mais de 180 proprietários rurais beneficiados e recebendo recursos pelo programa
Produtores de Água.

PARTICIPAÇÃO BRASILEIRA

No total, 60,7% do território do Brasil é coberto por florestas, segundo o Serviço Florestal Brasileiro (SFB). Por isso, o governo brasileiro anunciou que serão realizados vários eventos objetivando sensibilizar a sociedade sobre a importância da preservação das florestas. Uma das ações é o lançamento do site tupiniquim do Ano Internacional das Florestas (www.anodafl oresta.com.br). No site oficial do evento (www.un.org/ forests/), consta que o país sediará, pela primeira vez, a Conferência internacional IUFRO Tree Biotechnology 2011. Segundo a Embrapa, trata-se do evento mais importante na área de biotecnologia florestal promovido há mais de 20 anos pela União Internacional de Organizações de Pesquisa Florestal (IUFRO). Este ano, entre os dias 26 de junho e 1ª
de julho, a conferência terá como tema ”De genomas à integração e geração de resultados” e deverá contar com a participação de cerca de 500 pessoas, sendo 300 brasileiros e 200 estrangeiros.
AULA ABERTA O que falta para o Brasil perceber sua riqueza natural e preservá-la?
LUIZ PAULO
Mesmo com uma economia fortemente dependente de recursos naturais, tem faltado vontade política ao governo brasileiro para se reinventar em seu modelo de desenvolvimento. Pesquisas de opinião coordenadas pelo MMA sobre o que a sociedade pensa a respeito da proteção ambiental mostram o aumento gradual de interesse e reconhecimento da população sobre o tema. Entretanto, ainda existe um abismo entre a intenção e a prática, e há dificuldades para a maior parte da população entender a relação direta entre a floresta e suas necessidades diárias. Sendo assim, somente ações integradas e coletivas e uma articulação e mobilização geral da sociedade poderão garantir o futuro dessas áreas. É preciso rever prioridades, fortalecer o sistema de governança e gestão dos territórios, ampliar a proteção e restauração florestal em áreas prioritárias, investir em ciência, tecnologia e inovação, e ampliar substancialmente os investimentos financeiros nessa área para garantir, no longo prazo, a conservação da biodiversidade e a manutenção dos serviços ambientais das florestas.
Ammit/Shutterstock
Macaco-de-cheiro
AULA ABERTA Aliás, o “novo” Código Florestal não vai na contramão da “moda” atual de preservar o meio ambiente?
LUIZ PAULO
É bom esclarecer que não há novo Código Florestal, o que há é uma proposta de reforma liderada pelo relatório do deputado Aldo Rebelo, fortemente apoiado pela CNA e pelos ruralistas. A proposta do deputado, se aprovada na forma original, será desastrosa para o meio ambiente, gerando riscos de apagão energético inclusive, uma vez que pela supressão de áreas de proteção permanente (áreas definidas para proteção de cursos de água) condena a produção e a manutenção hídrica do Brasil. O afã por mais áreas de cultivo, sem análise científica de seus riscos, poderá acarretar grande perda de vidas nas áreas de forte risco ambiental, onde vive a maioria das populações pobres. É incompreensível que em tempos de mudanças climáticas se queira relaxar na conservação de áreas florestais e serviços ecossistêmicos. Isso contradiz os alarmes da ciência e os compromissos brasileiros perante as Convenções do Clima e da Biodiversidade, ratificados formalmente pelo Brasil, além de nos colocar em um cenário de possíveis grandes investimentos necessários para mitigar suas consequências. Do ponto de vista econômico, os ganhos de área certamente não compensarão as vantagens relativas de ter o agronegócio brasileiro como o mais verde do mundo. O Código Florestal deveria ser carregado como “plus” nos produtos brasileiros. Isso não quer dizer que o Código Florestal não necessite de ajustes. O ideal seria um código que fosse capaz de determinar a cobertura florestal de cada ecossistema, dentro de cada bioma, de forma a garantir o pleno funcionamento dos serviços ambientais e conservação da biodiversidade. O Código Florestal deveria estar em conformidade com o cenário de paisagem que queremos para daqui a 50, 100 anos, como garantia ao desenvolvimento sustentável do Brasil.

AS DEZ FLORESTAS MAIS AMEAÇADAS DO MUNDO

A organização não governamental Conservação Internacional (CI) elaborou uma lista (abaixo) com as dez florestas do mundo que passaram pela maior perda do seu hábitat natural. Eles encabeçam um rol de 35 Matas chamadas de “hot spots”, os locais mais ricos em biodiversidade e mais ameaçados de extinção. Veja quais são as matas que correm mais risco de desaparecer. Todas as florestas citadas perderam cerca de 90% de sua vegetação original com um agravante: cada uma abriga ao menos 1.500 espécies de plantas nativas. De acordo com a CI, a Mata Atlântica, por exemplo, possui 8 mil plantas, 323 anfíbios e 48 mamíferos endêmicos. O fim dessas florestas significa a perda dessa biodiversidade para sempre.

BACIA DO MEDITERRÂNEO
Sul da Europa, norte da África, oeste da Ásia (a mais ameaçada, com 5% da sua cobertura original preservada)

INDO-BIRMÂNIA
(nos países asiáticos Mianmar, Camboja, Laos, Tailândia e Vietnã, com 5% da vegetação natural)

NOVA ZELÂNDIA
(também 5%); Sunda (Indonésia, Malásia e Brunei, com 7%)

FILIPINAS (7%)

MATA ATLÂNTICA (Brasil, com 8%)

MONTANHAS DO CENTRO-SUL DA CHINA (8%)

PROVÍNCIA FLORÍSTICA DA CALIFÓRNIA, NOS ESTADOS UNIDOS (10%)

FLORESTAS DE AFROMONTANE
(Moçambique, Tanzânia, Quênia e Somália, com 10%)


MADAGASCAR E ILHAS DO OCEANO ÍNDICO
(Madagascar, Seychelles, Ilhas Maurício, União das Comores e Reunião, 10%)
AULA ABERTA Algumas pesquisas afirmam que é possível produzir mais alimentos sem desmatar mais. Acredita nisso?
LUIZ PAULO
Sim. As informações geradas por pesquisas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo mostram que a agricultura pode se expandir territorialmente ocupando as terras de elevada aptidão agrícola hoje utilizadas com pecuária extensiva. A agricultura ocupa por volta de 67 milhões de hectares no país, já apresentando produtividades elevadas. A maior parte das terras de elevada aptidão para agricultura já foram abertas. O estoque de terras de elevada e média aptidão para agricultura já abertas e que estão sob pastagens é de 29 milhões de hectares e 32 milhões de hectares respectivamente, totalizando 61 milhões de hectares. Esse estoque pode quase dobrar o tamanho da área agrícola sem que seja necessário derrubar um pé de árvore. A diminuição da área de pecuária brasileira pode ser compensada pela intensificação da produção.

E A AMAZÔNIA? E O CERRADO?

Magno Castelo Branco, presidente da ONG Iniciativa Verde e especialista na área florestal, alerta para os riscos que os dois biomas – principalmente o Cerrado –, que cobrem quase 75% do país, correm: “Os motores da degradação da Amazônia atualmente são os mesmos de 10 e 20 anos atrás: desmatamento para obtenção de madeira e a abertura de novas áreas produtivas, principalmente para a criação de gado e plantio de soja. Porém, o Cerrado está em uma posição realmente delicada e isso é um sinal de que devemos combater o desmatamento no Brasil de forma ampla e irrestrita. Enquanto as taxas de desmatamento na Amazônia caíram principalmente por meio de ações do governo, estima- se que houve uma migração desses vetores de desmatamento para o Cerrado, que é menos “protegido”. Como exemplo, a Política Nacional de Mudanças Climáticas estipula meta de 80% de redução do desmatamento na Amazônia e 40% no Cerrado, um sinal óbvio de que esse bioma não tem recebido a importância que merece. Mais da metade desse bioma foi destruído, e boa parte do que restou se encontra bastante fragmentado, o que contribui ainda mais para o seu desaparecimento. É preciso que o Cerrado, e também a Caatinga, recebam a mesma atenção na nossa agenda ambiental que a Mata Atlântica e a Amazônia têm recebido. Se isso não for feito com urgência, em poucas décadas teremos a confirmação de um triste cenário no que diz respeito a esses biomas”.
AULA ABERTA Enfim, é possível continuar desenvolvendo a economia do país sem degradar mais ainda o meio ambiente? Como?
LUIZ PAULO
Sim. De acordo com o relatório intitulado “Rumo a uma Economia Verde: Caminhos para o Desenvolvimento Sustentável e a Erradicação da Pobreza”, lançado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) em fevereiro deste ano, investir 2% do PIB mundial em dez setores estratégicos pode viabilizar a transição rumo a uma “economia verde” de baixo carbono. Apoiada por políticas nacionais e internacionais inovadoras, a soma, que atualmente corresponde a cerca de 1,3 trilhão de dólares por ano, fomentaria o crescimento da economia global a níveis provavelmente superiores aos dos atuais modelos econômicos. O relatório mostra a “economia verde” como um catalisador-chave para o crescimento e erradicação da pobreza nas economias em desenvolvimento, nas quais, em alguns casos, cerca de 90% do PIB está ligado à natureza ou a recursos naturais tais como a água potável. A Mata Atlântica possui, aproximadamente, 70% do PIB nacional, e o Brasil é uma das dez maiores economias do planeta. O país tem capacidade e pode conciliar desenvolvimento e conservação da biodiversidade, levando bemestar para milhões de brasileiros. Está na hora de escolhermos esse novo caminho!

sábado, 10 de dezembro de 2011

Peixes exóticos de origem marinha: espécies invasoras

Os peixes são o grupo de vertebrados em maior número, estando representados por no mínimo, 30.000 espécies, sendo que destas cerca de 60% ocorrem nos ambientes costeiros e marinhos de todo o mundo. Há uma estimativa que 160 espécies sejam descritas ao ano, considerando-se água doce e salgada. No Brasil, segundo Menezes, et al. (2003) há pelo menos 1.297 espécies. Os peixes são um grupo antigo e muito bem adaptado aos mais variados ambientes. Encontram-se peixes desde as zonas mais rasas, as de arrebentação, que são supersaturadas de oxigênio, em poças de maré, nas águas poluídas ou não dos estuários, nos ambientes recifais, com condições físicas bastante constantes, nos entornos dos costões, sob as plataformas continentais, ao longo dos taludes, nas planícies abissais até as fossas abissais com 8.372 m. Ocorrem em ambientes tropicais até os polares, em sistemas de alta e baixa energia. Para os peixes serem tão bem sucedidos é preciso que apresentem adaptações morfológicas, fisiológicas e comportamentais tais que praticamente inexiste ambiente aquático no mundo que sejam incapazes de ocupar. A variação de tamanho dos peixes é ímpar, havendo organismos adultos de gobídeos (figura 1) de 8 mm de comprimento total e tubarões-baleia (figura 2) chegando a atingir 15 m. Muitas espécies de peixes são exclusivamente marinhas, mas algumas podem fazer incursões nos ambientes dulcícolas ocasionalmente e outras espécies são diádromas, além daquelas dulcícolas.
Os peixes podem também ser classificados quanto à região onde vivem em pelágicos e demersais, estes vivendo em grande dependência com o substrato consolidado ou não, onde procuram alimento e abrigo. Muitos pelágicos, em função da inexistência de abrigo na coluna
d água, formam cardumes bastante coesos, principalmente como estratégia de proteção.






Figura 1. Peixe gobídeo Deltentosteus quadrimaculatus (fonte: www.corbis.com)












Figura 2. Tubarão-baleia Rhincodon typus (fonte: www.corbis.com)

Quanto ao hábito alimentar podem ser planctófagos, como sardinhas, predadores detritívoras como tainhas e comensais como rêmoras. Por sua vez os peixes são predados por inúmeros animais desde invertebrados aos vertebrados. A maioria dos peixes é dióica, i. e., possui sexos separados, mas há alguns hermafroditas como as garoupas e os peixes-palhaços (figura 3).
Muitos peixes são ovíparos e não possuem cuidados parentais. Grande parte dos peixes passa por metamorfose durante sua ontogenia, sendo que, geralmente os ovos são diminutos, mas podem atingir vários centímetros de diâmetro (ovos de celacantos atingem 9 cm), assim como as larvas. Os peixes crescem ininterruptamente até a morte e há registro de animais com até
205 anos como os peixes-pedra no Alasca.










Figura 3. Peixe-palhaço Amphiprion frenatus (fonte: www.corbis.com)


Se por um lado os peixes são os vertebrados com maior número de espécies, há quase 1.319 espécies incluídas na Lista Vermelha da IUCN (2008), sendo que até mesmo as carismáticas como cavalo-marinho e tubarão-baleia estão citadas nessa lista. Em verdade não existe um grupo denominado “Peixes”, mas sim um conjunto de quatro categorias de animais que assim são chamados. Aqui no Brasil foram registradas quatro espécies de Myxini, 139 de Chondrichthyes, os cartilaginosos - tubarões, raias e quimeras e 1.155 de Actinopterygii, os ósseos nos ambientes costeiros e marinhos do Brasil.
A importância dos peixes desde épocas pré-históricas deve-se ao fato principalmente por serem utilizados como alimento. Atualmente, mesmo sendo bastante prezados como fonte de proteína animal verifica-se que muitos dos estoques se encontram explotados ao nível máximo ou superexplotados e essa é uma atividade que vem ameaçando, juntamente com a poluição dos ecossistemas, destruição dos habitats e a introdução de espécies exóticas a biodiversidade íctica em escala mundial, sem falar também das mudanças climáticas globais. Os peixes figuram desde os primórdios da civilização, presentes nas pinturas das cavernas e sumamente importantes nas principais religiões do mundo simbolicamente e em rituais. Os peixes são um recurso importante tanto para pesca tradicional, quer seja comercial quer de subsistência, bem como para recreativa gerando divisas consideráveis. Estima-se que haja 38 milhões de pescadores no mundo e 200 milhões de pessoas ligadas ao processo de pesca, sendo que essa atividade produz valores da ordem de 144 milhões de toneladas/ano das quais progressivamente os montantes gerados pela aquicultura já ultrapassam dos 36%. Somente a China é responsável pela captura de cerca de 52 milhões de toneladas/ano das quais 34 são oriundas da aquicultura. Os peixes marinhos ornamentais correspondem a menos de 10% daqueles criados em cativeiro e das 8.000 comercializadas, sendo que, menos de 25 advém de piscicultura.
Um exemplo da erradicação da ictiofauna nativa pode ser verificada no Lago Vitória na África, onde a perca-do-Nilo (figura 4) ao ser introduzida exterminou 500 espécies de ciclídeos endêmicos.
A introdução, intencional ou não, de espécies exóticas de peixes no mundo e nas águas do Brasil deve ser avaliada com muita atenção e precaução, pois há hipóteses dos impactos poderem ser irreversíveis.













Figura 4. Perca-do-Nilo Lates niloticus (fonte: www.corbis.com)

Síntese dos resultados

O número de espécies exóticas de peixes marinhos foi baixo, com apenas quatro espécies (Tabelas 1.1 e 1.2), todas com registros relativamente pontuais, porém apontando para uma dispersão mais acentuada da família Bleniidae. Destas quatro espécies da ictiofauna, três foram caracterizadas como detectadas e uma estabelecida (Tabelas 1.1 e 1.2). Destas, três são originárias do Indo-Pacífico e uma do Atlântico Oriental. Os vetores comprovados de dispersão são desconhecidos para todas as espécies. Quanto aos vetores potenciais, a água de lastro aparece somente para uma espécie, enquanto que para as demais são desconhecidos (Tabela 1.3).
Dentre os supostos locais de origem, 4 espécies são do Indo-Pacífico e somente uma do Atlântico Oriental (Tabela 1.4). A espécie Butis koilomatodon (figura 5) tem como suposto local de origem, além do Indo-Pacífico, o Leste da África (Tabela 1.4).








Figura 5. Butis koilomatodon
Tabela 1.1: Situação populacional dos táxons de peixes marinhos com espécies exóticas reportadas para o Brasil.
Tabela 1.2: Espécies exóticas de peixes marinhos reportadas para o Brasil e sua situação populacional.
Tabela 1.3: Vetores potenciais de dispersão das espécies exóticas marinhas de peixes reportadas para o Brasil.
Tabela 1.4: Supostos locais de origem das espécies exóticas marinhas de peixes reportadas
para o Brasil.
Referências Bibliográficas

MENDONÇA, H.S.; NUNAN, G W.; SANTOS, S.R.; BANDEIRA, W.D.; SANTOS, A.C. Ocorrência de Omobranchus punctatus (Valenciennes, 1836) (Teleostei, Blenniidae) na Baía de Todos os Santos, Bahia: primeiro registro da invasão de uma espécie exótica de peixe marinho em águas brasileiras. In: ENCONTRO BRASILEIRO DE ICTIOLOGIA, 16., 2005, João Pessoa, Paraíba. Resumo.

MOURA, R.L.; MENEZES N.A. Família Acanthuridae. In: MENEZES, N.A.; BUCKUP, P.A.; FIGUEIREDO, J.L.; MOURA, R.L. (Eds). Catálogo das espécies de peixes marinhos do Brasil. São Paulo: Museu da Universidade de São Paulo, 2003.