Ambientes marinhos e de água doce no Brasil sofrem com poluição por microplásticos
07 de junho de 2017
Minúsculos detritos de plástico
estão presentes em larga escala em praias e rios no país, têm sido
ingeridos por peixes e pequenos organismos e causado efeitos tóxicos em
moluscos, apontam estudos (foto: Pryscilla Resaffe)
Elton Alisson |
Agência FAPESP – Além de
garrafas PET, sacolas e embalagens de alimentos, entre outros objetos,
os ambientes marinhos e de água doce em todo o mundo têm sido
contaminados com minúsculos detritos, conhecidos como microplásticos,
com tamanho menor que 5 milímetros, como fibras e pequenos resíduos
gerados pela fragmentação de grandes pedaços de plástico.
Um grupo de pesquisadores do Departamento de Ciências do Mar da
Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), campus da Baixada Santista,
em colaboração com colegas de outras universidades e instituições de
pesquisa do Brasil e do exterior, constatou que esses microplásticos
também estão presentes em larga escala em praias e rios no Brasil.
Os pesquisadores também observaram que algumas espécies de peixes de
água doce e de pequenos organismos marinhos ingerem frequentemente esses
microplásticos, e que os contaminantes liberados por esses poluentes
causam efeitos tóxicos para espécies de moluscos, como os mexilhões
marrons (
Perna perna).
Os resultados dos estudos, coordenados por
Luiz Felipe Mendes de Gusmão com apoio da FAPESP, foram publicados nas revistas
Environmental Pollution e
Water Research.
“Temos observado a poluição generalizada por microplásticos tanto de
ecossistemas marinhos como de ambientes de água doce”, disse Gusmão,
professor da Unifesp da Baixada Santista e coordenador das pesquisas, à
Agência FAPESP.
De acordo com o pesquisador, enquanto resíduos de plástico grandes,
como sacolas, tampinhas e garrafas PET, são relativamente fáceis de
serem vistos e retirados da areia de uma praia, os microplásticos são
quase impossíveis de serem removidos por serem muito pequenos e
praticamente imperceptíveis a olho nu. Por isso, tem se observado um
aumento do acúmulo desse tipo de poluente em praias de todo o mundo,
apontou.
“Os microplásticos que entram em um ambiente de água doce são
transportados, via os rios, até os oceanos. E quando chegam aos oceanos
esses fragmentos de plástico são transportados por correntes marinhas e
tendem a ficar em suspensão na coluna d’água ou encalharem em praias”,
explicou.
Uma vez que essas partículas de plástico têm sido encontradas de
forma generalizada em ambientes marinhos e de água doce em todo o mundo,
o pesquisador, em colaboração com colegas no Brasil e no exterior,
começou a monitorar nos últimos anos a presença desses poluentes em
ambientes aquáticos no país.
Os primeiros locais escolhidos foram as praias de Itaquidantuva e de
Paranapuã, situadas na reserva ambiental de Xixová-Japuí, localizada
entre os municípios da Praia Grande e São Vicente, na baixada santista,
em São Paulo.
Durante um ano os pesquisadores coletaram semanalmente nas áreas das duas praias
pellets de plástico – grânulos de plástico, com diâmetro inferior a 10 milímetros, utilizados na fabricação de produtos plásticos.
Os resultados das análises indicaram uma altíssima concentração desse tipo de microplástico. “Observamos
pellets
de plástico, de diferentes cores e tamanhos, se acumulando na praia de
Paranapuã o ano inteiro. Em alguns momentos, as praias ficavam cheias
desses microplásticos, e em outros momentos eles sumiam temporariamente
em razão de fatores como a circulação oceânica, as ondas e o regime de
ventos”, afirmou.
Efeitos tóxicos
De acordo com o pesquisador, algumas características que
potencializam o efeito nocivo do plástico em ambientes marinhos e de
água doce são que a maioria dos polímeros comuns – como o polipropileno e
o poliestireno – degradam muito lentamente e são leves – o que permite
serem transportados com facilidade pelas correntes oceânicas e
permanecerem por muito tempo no ambiente marinho
Ao permanecerem por longo tempo no ambiente, as moléculas de
contaminantes presentes em um meio aquático, como metais pesados e
pesticidas, começam a aderir à superfície dos plásticos e podem atingir
concentrações extremamente altas. Além disso, esses resíduos de plástico
também possuem aditivos presentes na composição do material, como
corantes, dispersantes e protetores contra raios ultravioleta.
Com o passar do tempo, os fragmentos de plástico tendem a liberar esses contaminantes no ambiente aquático, explicou Gusmão.
“Se os microplásticos forem ingeridos pela fauna marinha, os
poluentes aderidos na sua superfície podem ser liberados no tubo
digestivo do animal, o que pode causar efeitos tóxicos”, ressaltou.
A fim de avaliar a potencial toxicidade para organismos marinhos dos
contaminantes liberados por microplásticos, os pesquisadores da Unifesp,
em colaboração com colegas da Escola de Engenharia de São Carlos da
Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Santa Cecília,
realizaram experimentos em que expuseram larvas de mexilhões marrons a
amostras de
pellets de plástico que recolheram nas praias de Itaquidantuva e de Paranapuã e também a
pellets virgens.
Os resultados das análises indicaram que os contaminantes liberados pelos
pellets de plástico afetaram o desenvolvimento embrionário dos moluscos.
As larvas expostas aos
pellets de plástico virgens apresentaram alta taxa de mortalidade, enquanto nenhuma das larvas expostas aos
pellets de plástico recolhidos das duas praias conseguiu se desenvolver.
As observações sugeriram que os contaminantes aderidos à superfície dos
pellets
de plástico recolhidos das praias foram os responsáveis pelos efeitos
tóxicos no desenvolvimento das larvas expostas aos microplásticos,
enquanto a morte das larvas expostas aos
pellets virgens foi devido provavelmente aos aditivos químicos do próprio material.
“Somente a exposição aos microplásticos, sem que ingerissem, fez com que as larvas morressem”, disse Gusmão.
A poluição marítima também mobiliza a ONU Meio Ambiente que lança
nesta quarta-feira (07/06), no Brasil, a campanha “Mares Limpos”, que
durante cinco anos terá ações para conter a maré de plásticos que invade
os oceanos. O evento acontece no AquaRio, no Rio de Janeiro, como parte
das comemorações do Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado no dia 5 de
junho.
No Brasil, a campanha trabalhará na mobilização de governos,
parlamentares, sociedade civil e setor privado para fortalecer ações que
reduzam a contribuição do país ao problema global dos plásticos que
acabam nos mares. Os esforços da campanha se concentrarão em buscar uma
drástica redução no uso de plásticos descartáveis e o banimento de
microesferas de plástico em cosméticos e produtos de higiene, além de
apoiar a elaboração do Plano Nacional de Combate ao Lixo no Mar,
capitaneado pelo Ministério do Meio Ambiente.
Ingestão
Os pesquisadores da Unifesp também avaliaram se pequenos organismos
marinhos são capazes de ingerir microplásticos encontrados em seus
habitats.
Em um estudo realizado em colaboração com colegas da Universidade
Estadual de Campinas (Unicamp), das Universidades Federais do Rio Grande
(FURG) e do Paraná (UFPR), além da University of Copenhagen, da
Dinamarca, e do Instituto de Estudos Ecossistêmicos, da Itália, eles
examinaram o conteúdo intestinal da
meiofauna (animais que medem menos
de 1 milímetro e vivem enterrados entre grãos de areia das praias) de
seis praias situadas no Brasil, na Itália e nas Ilhas Canárias, na
Espanha.
As análises laboratoriais revelaram que três espécies comuns de anelídeos, do gênero
Saccocirrus,
tinham microfibras (fibras provenientes de cordas e fios de pesca e de
tecidos de roupas, entre outras) em seus intestinos, mas sem apresentar
lesões físicas aparentes.
“Constatamos que mesmo organismos marinhos desse porte podem interagir com microplásticos”, disse Gusmão.
Em outro estudo, os pesquisadores da Unifesp, em colaboração com
colegas das Universidades Federais do Rio Grande do Norte (UFRN) e Rural
de Pernambuco (UFRPE), avaliaram a ingestão de microplásticos por um
peixe de água doce comum e muito consumido em regiões semiáridas na
América do Sul: o caborja (
Hoplosternum littorale).
Para realizar o estudo, eles analisaram o intestino de espécimes do
peixe de um rio intermitente que passa pela cidade de Serra Talhada, no
interior de Pernambuco, capturadas por pescadores da região.
Os resultados das análises indicaram que 83% dos peixes tinham
detritos plásticos em seus intestinos – a maior proporção relatada para
uma espécie de peixe de água doce no mundo até o momento.
A maioria dos detritos plásticos (88,6%) extraídos do estômago dos
peixes era microplásticos com tamanho de até 5 milímetros, e as fibras
foram o tipo de microplástico mais frequente (46,6%) ingerido pelos
animais.
Os pesquisadores também observaram que os peixes consumiam mais microplásticos nas regiões mais urbanizadas do rio.
“Hoje tem sido muito discutido como diminuir os impactos causados por
resíduos de plásticos grandes em ambientes e organismos marinhos e de
água doce, mas a poluição por microplásticos também representa um
problema muito sério”, disse Gusmão.
“É preciso repensar a cadeia de produção do plástico, que é um
produto importante para a sociedade, de modo a reduzir a chance dele
chegar ao ambiente”, avaliou.
O artigo
“Leachate from microplastics impairs larval development in brown mussels’ (doi:10.1016/j.watres.2016.10.016), de Gusmão e outros, pode ser lido por assinantes da
Water Research em
www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0043135416307667.
O artigo
“In situ ingestion of microfibres by meiofauna from sandy beaches” (doi: 10.1016/j.envpol.2016.06.015) pode ser lido por assinantes da revista
Environmental Pollution em
www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0269749116305036.
E o artigo
“Microplastics ingestion by a common tropical freshwater fishing resource” (doi: 10.1016/j.envpol.2016.11.068) pode ser lido por assinantes da mesma revista em
www.sciencedirect.com/science/article/pii/S026974911632396X.