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quarta-feira, 7 de junho de 2017

Ambientes marinhos e de água doce no Brasil sofrem com poluição por microplásticos

07 de junho de 2017



Ambientes marinhos e de água doce no Brasil sofrem com poluição por microplásticos Minúsculos detritos de plástico estão presentes em larga escala em praias e rios no país, têm sido ingeridos por peixes e pequenos organismos e causado efeitos tóxicos em moluscos, apontam estudos (foto: Pryscilla Resaffe)

 Elton Alisson | Agência FAPESP – Além de garrafas PET, sacolas e embalagens de alimentos, entre outros objetos, os ambientes marinhos e de água doce em todo o mundo têm sido contaminados com minúsculos detritos, conhecidos como microplásticos, com tamanho menor que 5 milímetros, como fibras e pequenos resíduos gerados pela fragmentação de grandes pedaços de plástico.

Um grupo de pesquisadores do Departamento de Ciências do Mar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), campus da Baixada Santista, em colaboração com colegas de outras universidades e instituições de pesquisa do Brasil e do exterior, constatou que esses microplásticos também estão presentes em larga escala em praias e rios no Brasil.

Os pesquisadores também observaram que algumas espécies de peixes de água doce e de pequenos organismos marinhos ingerem frequentemente esses microplásticos, e que os contaminantes liberados por esses poluentes causam efeitos tóxicos para espécies de moluscos, como os mexilhões marrons (Perna perna).

Os resultados dos estudos, coordenados por Luiz Felipe Mendes de Gusmão com apoio da FAPESP, foram publicados nas revistas Environmental Pollution e Water Research.
“Temos observado a poluição generalizada por microplásticos tanto de ecossistemas marinhos como de ambientes de água doce”, disse  Gusmão, professor da Unifesp da Baixada Santista e coordenador das pesquisas, à Agência FAPESP.

De acordo com o pesquisador, enquanto resíduos de plástico grandes, como sacolas, tampinhas e garrafas PET, são relativamente fáceis de serem vistos e retirados da areia de uma praia, os microplásticos são quase impossíveis de serem removidos por serem muito pequenos e praticamente imperceptíveis a olho nu. Por isso, tem se observado um aumento do acúmulo desse tipo de poluente em praias de todo o mundo, apontou.

“Os microplásticos que entram em um ambiente de água doce são transportados, via os rios, até os oceanos. E quando chegam aos oceanos esses fragmentos de plástico são transportados por correntes marinhas e tendem a ficar em suspensão na coluna d’água ou encalharem em praias”, explicou.
Uma vez que essas partículas de plástico têm sido encontradas de forma generalizada em ambientes marinhos e de água doce em todo o mundo, o pesquisador, em colaboração com colegas no Brasil e no exterior, começou a monitorar nos últimos anos a presença desses poluentes em ambientes aquáticos no país.

Os primeiros locais escolhidos foram as praias de Itaquidantuva e de Paranapuã, situadas na reserva ambiental de Xixová-Japuí, localizada entre os municípios da Praia Grande e São Vicente, na baixada santista, em São Paulo.

Durante um ano os pesquisadores coletaram semanalmente nas áreas das duas praias pellets de plástico – grânulos de plástico, com diâmetro inferior a 10 milímetros, utilizados na fabricação de produtos plásticos.
Os resultados das análises indicaram uma altíssima concentração desse tipo de microplástico. “Observamos pellets de plástico, de diferentes cores e tamanhos, se acumulando na praia de Paranapuã o ano inteiro. Em alguns momentos, as praias ficavam cheias desses microplásticos, e em outros momentos eles sumiam temporariamente em razão de fatores como a circulação oceânica, as ondas e o regime de ventos”, afirmou.

Efeitos tóxicos

De acordo com o pesquisador, algumas características que potencializam o efeito nocivo do plástico em ambientes marinhos e de água doce são que a maioria dos polímeros comuns – como o polipropileno e o poliestireno – degradam muito lentamente e são leves – o que permite serem transportados com facilidade pelas correntes oceânicas e permanecerem por muito tempo no ambiente marinho

Ao permanecerem por longo tempo no ambiente, as moléculas de contaminantes presentes em um meio aquático, como metais pesados e pesticidas, começam a aderir à superfície dos plásticos e podem atingir concentrações extremamente altas. Além disso, esses resíduos de plástico também possuem aditivos presentes na composição do material, como corantes, dispersantes e protetores contra raios ultravioleta.
Com o passar do tempo, os fragmentos de plástico tendem a liberar esses contaminantes no ambiente aquático, explicou Gusmão.

“Se os microplásticos forem ingeridos pela fauna marinha, os poluentes aderidos na sua superfície podem ser liberados no tubo digestivo do animal, o que pode causar efeitos tóxicos”, ressaltou.
A fim de avaliar a potencial toxicidade para organismos marinhos dos contaminantes liberados por microplásticos, os pesquisadores da Unifesp, em colaboração com colegas da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Santa Cecília, realizaram experimentos em que expuseram larvas de mexilhões marrons a amostras de pellets de plástico que recolheram nas praias de Itaquidantuva e de Paranapuã e também a pellets virgens.
Os resultados das análises indicaram que os contaminantes liberados pelos pellets de plástico afetaram o desenvolvimento embrionário dos moluscos.

As larvas expostas aos pellets de plástico virgens apresentaram alta taxa de mortalidade, enquanto nenhuma das larvas expostas aos pellets de plástico recolhidos das duas praias conseguiu se desenvolver.

As observações sugeriram que os contaminantes aderidos à superfície dos pellets de plástico recolhidos das praias foram os responsáveis pelos efeitos tóxicos no desenvolvimento das larvas expostas aos microplásticos, enquanto a morte das larvas expostas aos pellets virgens foi devido provavelmente aos aditivos químicos do próprio material.
“Somente a exposição aos microplásticos, sem que ingerissem, fez com que as larvas morressem”, disse Gusmão.

A poluição marítima também mobiliza a ONU Meio Ambiente que lança nesta quarta-feira (07/06), no Brasil, a campanha “Mares Limpos”, que durante cinco anos terá ações para conter a maré de plásticos que invade os oceanos. O evento acontece no AquaRio, no Rio de Janeiro, como parte das comemorações do Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado no dia 5 de junho.

No Brasil, a campanha trabalhará na mobilização de governos, parlamentares, sociedade civil e setor privado para fortalecer ações que reduzam a contribuição do país ao problema global dos plásticos que acabam nos mares. Os esforços da campanha se concentrarão em buscar uma drástica redução no uso de plásticos descartáveis e o banimento de microesferas de plástico em cosméticos e produtos de higiene, além de apoiar a elaboração do Plano Nacional de Combate ao Lixo no Mar, capitaneado pelo Ministério do Meio Ambiente.

Ingestão

Os pesquisadores da Unifesp também avaliaram se pequenos organismos marinhos são capazes de ingerir microplásticos encontrados em seus habitats.
Em um estudo realizado em colaboração com colegas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), das Universidades Federais do Rio Grande (FURG) e do Paraná (UFPR), além da University of Copenhagen, da Dinamarca, e do Instituto de Estudos Ecossistêmicos, da Itália, eles examinaram o conteúdo intestinal da meiofauna (animais que medem menos de 1 milímetro e vivem enterrados entre grãos de areia das praias) de seis praias situadas no Brasil, na Itália e nas Ilhas Canárias, na Espanha.

As análises laboratoriais revelaram que três espécies comuns de anelídeos, do gênero Saccocirrus, tinham microfibras (fibras provenientes de cordas e fios de pesca e de tecidos de roupas, entre outras) em seus intestinos, mas sem apresentar lesões físicas aparentes.
“Constatamos que mesmo organismos marinhos desse porte podem interagir com microplásticos”, disse Gusmão.

Em outro estudo, os pesquisadores da Unifesp, em colaboração com colegas das Universidades Federais do Rio Grande do Norte (UFRN) e Rural de Pernambuco (UFRPE), avaliaram a ingestão de microplásticos por um peixe de água doce comum e muito consumido em regiões semiáridas na América do Sul: o caborja (Hoplosternum littorale).

Para realizar o estudo, eles analisaram o intestino de espécimes do peixe de um rio intermitente que passa pela cidade de Serra Talhada, no interior de Pernambuco, capturadas por pescadores da região.
Os resultados das análises indicaram que 83% dos peixes tinham detritos plásticos em seus intestinos – a maior proporção relatada para uma espécie de peixe de água doce no mundo até o momento.
A maioria dos detritos plásticos (88,6%) extraídos do estômago dos peixes era microplásticos com tamanho de até 5 milímetros, e as fibras foram o tipo de microplástico mais frequente (46,6%) ingerido pelos animais.

Os pesquisadores também observaram que os peixes consumiam mais microplásticos nas regiões mais urbanizadas do rio.

“Hoje tem sido muito discutido como diminuir os impactos causados por resíduos de plásticos grandes em ambientes e organismos marinhos e de água doce, mas a poluição por microplásticos também representa um problema muito sério”, disse Gusmão.
“É preciso repensar a cadeia de produção do plástico, que é um produto importante para a sociedade, de modo a reduzir a chance dele chegar ao ambiente”, avaliou.

O artigo “Leachate from microplastics impairs larval development in brown mussels’ (doi:10.1016/j.watres.2016.10.016), de Gusmão e outros, pode ser lido por assinantes da Water Research em www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0043135416307667.

O artigo “In situ ingestion of microfibres by meiofauna from sandy beaches” (doi: 10.1016/j.envpol.2016.06.015) pode ser lido por assinantes da revista Environmental Pollution em www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0269749116305036.

E o artigo “Microplastics ingestion by a common tropical freshwater fishing resource” (doi: 10.1016/j.envpol.2016.11.068) pode ser lido por assinantes da mesma revista em www.sciencedirect.com/science/article/pii/S026974911632396X.

sábado, 7 de março de 2015



Ambiente marinho

Acredita-se, em geral, que o Reino Animal originou-se nos oceanos Arqueozoicos muito antes dos primeiros registros fósseis. Todo filo maior de animais tem, pelo menos, alguns representantes marinhos; alguns grupos, como os cnidários, são inteiramente ou, em grande parte, marinhos. A partir do ambiente marinho ancestral, diferentes grupos de animais invadiram a água doce enquanto que outros migraram para a terra.

Quando comparado à água doce e à terra, o ambiente marinho é relativamente uniforme. O oxigênio é geralmente disponível, e a salinidade do mar aberto é relativamente constante, variando de 34 a 36 partes por mil (3,4 – 3,6%), dependendo da latitude. A luz e a temperatura podem variar bastante, embora principalmente como consequência da profundidade. Assim, a vida não é distribuída uniformemente por toda a profundidade e extensão dos mares do mundo, os quais cobrem aproximadamente 71% da superfície terrestre. As margens dos continentes inclinam-se gradualmente em direção ao mar na forma de plataformas submersas até a profundidade de 150 a 200 metros e, então, inclinam-se abruptamente até a profundidade de 3000 metros ou mais. Antes de alcançar o fundo oceânico, o declive continental é interrompido por um terraço ou por uma inclinação mais gradual, a qual é formada pela elevação continental. O assoalho das bacias oceânicas, denominado plano abissal, varia de 3000 a 5000 metros em profundidade e pode apresentar características como montanhas, cumes e vales oceânicos. A margem ocidental da plataforma Atlântica fica a cerca de 120 km do litoral, mas ao longo da costa Pacífica da América do Norte, a plataforma continental é bastante estreita. A mais extensa plataforma encontra-se próxima à costa da Sibéria e estende-se até uma distancia de 1300 km, no Oceano Ártico.
As águas que ficam sobre as plataformas continentais formam a zona nerítica e aquelas além da plataforma formam a zona oceânica. A margem do mar, que se eleva e se baixa com a maré, é a zona litoral (“intertidal”). A região localizada acima é a supralitoral (“supraidal”) e a região abaixo a sublitoral (“subtidal”). As inclinações continentais (talude continental) formam a zona batial, os planos abissais a zona abissal e os vales a zona hadal.
A distribuição vertical dos organismos marinhos é controlada principalmente pela profundidade alcançada pela luz. Luz suficiente para que a fotossíntese supere a respiração chega apenas a uma pequena distância da superfície, podendo atingir até 200 m, na dependência da turbidez da água.

Abaixo desta zona eufótica superior, existe uma zona de transição onde pode ocorrer algum nível de fotossíntese, embora sua taxa de produção seja menos do que a perda pela respiração. Desta zona de transição até o assoalho oceânico prevalece a escuridão total. Esta zona constitui a zona afótica. Os animais que habitam permanentemente as zonas afóticas ou de transição, ou são carnívoros ou alimentam-se de suspensões e detritos e dependem, em última instância, da atividade fotossintética das microscópicas algas das regiões superiores iluminadas.
Os animais das águas marinhas que nadam livremente ou flutuam constituem a fauna pelágica e aqueles que vivem no fundo compõem a fauna bentônica. Os habitantes do fundo podem viver sobre a superfície (epifauna) ou sob a superfície (infauna) do fundo oceânico e, em geral, refletem de maneira notável o caráter do substrato, ou seja, se é um substrato mole de areia ou lodo. Muitos animais são adaptados a viver nos espaços entre os grãos de areia e compõem o que comumente é referido como a fauna intersticial ou meiofauna. Este grupo inclui representantes d virtualmente todos os filos animais maiores, sendo que alguns grupos de animais são anteriormente desconhecidos foram descobertos recentemente neste ambiente. Os animais pelágicos e bentônicos são encontrados em todas as zonas horizontais. Por exemplo, pode-se referir a animais neríticos pelágicos ou à infauna da zona abissal.
Nas águas oceânicas tropicais de diversas áreas, os níveis populacionais são menores quando comparados aos oceanos temperados e frios, onde a mistura com águas profundas ricas em nutrientes é maior. Entretanto, os mares tropicais e subtropicais possuem, de modo geral, maior número de espécies do que as águas temperadas. No outro extremo, as planícies abissais oceânicas, que são perpetuamente escuras e glaciais, sustentam uma fauna relativamente pequena, tanto em número de indivíduos quanto em número de espécies.

Ambientes de água doce e de Estuário

Os lagos terrestres também exibem um zoneamento horizontal e vertical; entretanto o conteúdo da água doce, seus menores tamanho e profundidade tornam-nos, sob diferentes aspectos, ecologicamente distintos dos oceanos. A margem de um lago onde a luz alcança o fundo é denominada zona litorânea. No interior da zona litorânea, a camada superior iluminada da água, equivalente à zona eufótica do mar, é denominada, nos lagos, zona limnética. Na zona limnética e abaixo dela, as águas e o fundo do lago pertencem à zona profunda.
A temperatura é um fator preponderante no controle do ambiente dos lagos. Em contraste com a água salgada, que se torna crescentemente densa conforme descreve a temperatura, a água doce atinge sua maior densidade a 4ºC; portanto, quando os lagos das regiões temperadas da terra são aquecidos durante a primavera e o verão, a água quente fica na superfície enquanto que a água mais fria e pesada permanece no fundo. É pequena a circulação entre os níveis superior e inferior, de tal forma que não apenas a zona inferior é escura, mas também estagnada e deficiente em oxigênio, dando suporte apenas a uma fauna limitada. Com o advento da estação fria, a água do estrato superior se torna mais pesada e afunda, resultando uma reviravolta geral (“turnover”) entre a água da superfície e a água profunda. As condições se tornam estabilizadas novamente no inverno, com uma estratificação invertida de temperatura, uma vez que agora a água mais fria e leve em forma de gelo flutua e a água mais quente (4º) e pesada está no fundo. Na primavera, após o derretimento do gelo formado no inverno, há uma outra reviravolta (“turnover”) como há no outono.
Os lagos tropicais podem apresentar um único “turnover” de inverno ou podem exibir uma condição altamente estável com pequena circulação vertical.

A junção dos rios com o mar não é abrupta. Pelo contrario, os dois ambientes interconvertem-se gradualmente, criando o ambiente de estuário o qual é caracterizado por uma água salobra, isto é, com salinidade consideravelmente abaixo dos 3,5% típicos do mar aberto. O ambiente de estuário compreende desembocaduras de rios e deltas circundantes, limites costeiros, pequenas enseadas e braços de mar que recortam a costa. É, usualmente, afetado pela maré, de cuja palavra deriva a palavra estuário (aesus, maré). A maior parte dos animais marinhos são osmoconformistas e esteno-halinos (toleram pequena variação no conteúdo salino) e não são capazes de sobreviver em salinidades muito reduzidas. As salinidades mais baixas e variáveis dos estuários restringem, portanto, a sua fauna àqueles invasores marinhos euri-halinos (suportam amplas variações na concentração salina) e a poucas espécies de água doce que podem tolerar estas condições. A fauna também inclui alguns animais que se tornaram especialmente adaptados a condições de estuário e que não são encontrados em nenhum outro lugar.

Nos trópicos, os mangues constituem uma comunidade característica do ambiente de estuário, assim como das áreas salinas onde as águas são calmas. As arvores do mangue são espécies que podem tolerar condições de salinidade. Eles ocupam a zona litorânea e geralmente possuem raízes escoras e raízes aéreas especiais (pneumatóforos) que se projetam para cima da superfície da água. As comunidades mais altamente desenvolvidas de mangues são encontradas no Indo/Pacífico, onde numerosas espécies formam diversas zonas que se estendem em direção ao mar. Tais mangues podem ocupar vastas áreas costeiras e são virtualmente impenetráveis. O mangue-vermelho, Rhizophora mangle, que possui raízes longas que se estendem a partir de seus ramos diretamente para baixo, é o mangue comum da América tropical. As arvores do mangue retêm sedimentos e contribuem para a formação de terreno estável, criando um habitat que é ocupado por animais e outras plantas.

Plâncton, produção primaria e cadeias alimentares

Tanto os oceanos quanto os lagos de água doce contêm um extenso agrupamento de organismos microscópicos que nadam ou vivem suspensos na água. Estes organismos compreendem o plâncton incluem tanto os animais (zooplâncton) quanto as plantas (fitoplâncton). Embora diversos organismos planctônicos sejam capazes de se deslocarem, eles são demasiadamente pequenos para fazê-lo independentemente das correntes. O fitoplâncton é composto de numerosas diatomáceas e outras algas microscópicas.

O zooplâncton marinho inclui representantes de, praticamente, todos os grupos animais, tanto adultos quanto estágios de desenvolvimento. Algumas espécies (holoplâncton) passam toda a sua vida no plâncton; larvas de outras espécies (meroplâncton) entram e saem do plâncton em diferentes pontos no curso de seu desenvolvimento. Os animais constituintes do plâncton de água doce são mais limitados quanto ao seu número. O plâncton, especialmente o marinho, tem uma importância fundamental na cadeia alimentar aquática uma vez que o fitoplâncton fotossintético – particularmente diatomáceas, dinoflagelados e diminutos flagelados – forma o nível trófico primário, servindo de alimento aos animais maiores. Como seria de se esperar, o plâncton atinge sua maior densidade nas zonas superiores e iluminadas das águas que apresentam altos níveis de nutrientes (nitratos, fosfatos, etc.). Os nutrientes inorgânicos são necessários para a síntese de compostos orgânicos efetuada pelo fitoplâncton. Em geral, os mais altos níveis de nutrientes são encontrados nas águas costeiras rasas, nas áreas de ressurgência e nas águas superficiais dos oceanos frios e temperados, onde a mistura com os níveis mais profundos não é impedida.
As águas superficiais dos oceanos tropicais e subtropicais são geralmente empobrecidas porque é pequena a sua mistura com águas profundas ricas em nutrientes. A água superficial, que é quente e, portanto menos densa, viaja acima da água fria e, portanto, mais pesada dos níveis mais profundos. As águas oceânicas que possuem baixa produtividade, como a Corrente do Golfo e o Mar dos Sargaços, são claras e azuis. A baixa concentração de plâncton permite a penetração da luz até uma profundidade considerável e os comprimentos de onde azuis são refletidos pelas moléculas da água. A água do mar mais rica em plâncton é verde, pois o plâncton e os detritos orgânicos refletem a luz amarela que, combinada com a luz azul refletida pelas moléculas da água, produz a cor verde.

Partículas fecais e fragmentos de plantas mortas e de restos animais, derivados do plâncton ou das plantas e animais bentônicos, assentam-se no fundo e misturam-se às partículas minerais (areia). Este material depositado é uma fonte de alimento para diversos animais. Alguns destes comedores de detritos digerem a própria matéria orgânica; outros alimentam-se de bactérias que se encontram no material depositado.

REFERÊNCIAS

BARNES ROBERT D., Zoologia de Invertebrados. Livraria Roca LTDA. Quarta Edição. São Paulo 1984.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Algas em ambientes pobres em nutrientes são mais suscetíveis às mudanças climáticas

05/12/2012
Por Elton Alisson
Agência FAPESP – Estudos recentes indicaram que os organismos marinhos que vivem em ambientes pobres em nutrientes serão mais suscetíveis aos impactos causados pelas mudanças climáticas globais nos oceanos.

Isso porque, como teriam menor disponibilidade de nitrogênio e fósforo, entre outros nutrientes, nos lugares onde vivem, possuiriam mecanismos de resistência mais frágeis do que os que estão em áreas com maior disponibilidade desses “alimentos”. Em função disso, seriam mais vulneráveis ao aumento de até 4 graus Celsius na temperatura da água dos mares e à diminuição em até 0,6 unidade da acidez (pH) projetada para este século.
Uma série de experimentos com algas realizados por pesquisadores de cinco continentes, com a participação de seis brasileiros, corroborou essas observações. O grupo constatou que algas que ocorrem em ambientes pobres em nutrientes são mais suscetíveis às alterações de temperatura, pH e radiação ultravioleta, provocadas pelas mudanças climáticas, do que as que ocorrem em lugares com maior disponibilidade de nutrientes.

Em função disso, com o aumento da temperatura e diminuição da acidez das águas dos mares, podem ocorrer mudanças nas comunidades de algas estruturadoras de habitats, diminuindo a produtividade primária (de organismos que fazem fotossíntese). Consequentemente, a contribuição dos oceanos para mitigar os efeitos das mudanças climáticas será reduzida porque as algas são algumas das principais protagonistas no sequestro de dióxido de carbono.

“Alguns estudos já haviam apontado essas hipóteses, que corroboramos agora por meio de uma série de experimentos realizados em diferentes condições”, disse Fanly Fungyi Chow Ho, pesquisadora do Laboratório de Algas Marinhas “Édison José de Paula”, do Departamento de Botânica do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), e uma das participantes do estudo, à Agência FAPESP.
Os experimentos foram realizados durante o 9º Workshop Internacional do Grupo de Produtividade Primária Aquática (GAP), que ocorreu no final de setembro em Málaga, na Espanha. Organizado pela Universidade de Málaga e pelo Instituto Espanhol de Oceanografia, em parceria com a Sociedade Internacional de Limnologia, o conceito do workshop foi diferente dos eventos científicos convencionais.
Em vez de apresentação de conferências, painéis e mesas-redondas, as atividades do encontro científico foram voltadas para a realização de trabalhos experimentais em campo, em tanque e em laboratório, planejados com antecedência de um ano e com o objetivo definido de entender melhor os impactos das mudanças climáticas globais sobre espécies de macro e microalgas.

Para realizar os experimentos, os cerca de 100 pesquisadores e estudantes de graduação e pós-graduação participantes do evento foram distribuídos em quatro grupos de trabalho. Dois grupos realizaram experimentos em tanque e em campo, nas águas costeiras de Málaga, para analisar as respostas químicas e fisiológicas de macro e microalgas a condições de estresse ambiental.

Outros dois grupos – um dos quais integrados por Chow Ho – realizaram experimentos nos quais foram colocadas amostras das algas coletadas em aquários com diferentes concentrações de nutrientes e condições de temperatura, acidez da água e de radiação UV, para simular as condições que podem ocorrer no ambiente com as mudanças climáticas.
Paralelamente, foi mensurada uma série de parâmetros de respostas fisiológicas das algas a essas variações, como crescimento, capacidade de realização de fotossíntese e produção de componentes bioquímicos de interesse biotecnológico, como antioxidantes e pigmentos.

Os resultados preliminares das análises apontaram que as mudanças de acidez, da temperatura e da disponibilidade de nutrientes na água alteraram as capacidades de realizar fotossíntese, de crescimento e de produção de compostos pelas algas. Por outro lado, a diminuição da disponibilidade de nutrientes na água pode ser útil para melhorar as características fisiológicas e bioquímicas de algumas microalgas de interesse biotecnológico.
Experimentos em laboratório realizados pelos pesquisadores durante o evento com microalgas Chlorella revelaram que o crescimento da alga – usada como complemento alimentar devido ao alto poder antioxidante e muito visada como matéria-prima para o desenvolvimento de biocombustíveis e para biorremediação de águas residuais – é pouco afetado por alterações provocadas por mudanças climáticas. Além disso, a alga é capaz de acumular mais lipídeos de interesse alimentar e energético quando submetidas a baixas condições de nutrientes.
“A diminuição da quantidade de nutrientes na água pode ser benéfica para aumentar a produção de biomassa dessas microalgas”, avaliou Chow Ho, que já teve diversos projetos apoiados pela FAPESP e realiza atualmente uma pesquisa em que estuda a fisiologia integrativa de macroalgas frente a condições de estresse.

Resultados inéditos

Alguns dos resultados dos estudos colaborativos realizados pelo grupo de pesquisadores internacionais foram apresentados e discutidos no evento. Outros resultados estão em análise e deverão ser publicados em 2013 em um volume especial da revista Aquatic Biology com cerca de 15 artigos.
“Os resultados inéditos demandarão mais tempo para serem gerados porque necessitarão de uma análise mais profunda em laboratório do que a que conseguiríamos fazer ao longo de dez dias de duração do evento”, explicou Chow Ho.

Ao todo, os pesquisadores coletaram aproximadamente 9 mil amostras de algas e 10 mil dados durante o evento, que deverão ser submetidas a análises químicas, genômicas e transcriptômicas em laboratórios na Irlanda, Estados Unidos, França e Espanha durante o ano de 2013. O grupo de pesquisadores brasileiros participará das análises estatísticas e das tabulações dos resultados.

Além de Chow Ho participaram do evento e da realização dos experimentos os pesquisadores brasileiros Cristina Nassar e Rodrigo Mariath, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), José Bonomi Barufi, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Margareth Copertino, da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), e Moacir Aluísio Torres, da Universidade Estadual de Santa Catarina (UESC). Barufi e Torres fizeram mestrado com Bolsa da FAPESP.