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sexta-feira, 12 de maio de 2023

 

A 'salamandra dos deuses' do México está à beira da extinção

Cientistas correm para salvar os últimos axolotes selvagens, famosos por regenerar partes do corpo

um axolote flutuando na água com lixo ao redor
A poluição, o aquecimento das águas e a introdução de peixes reduziram o número de axolotes selvagens. Alejandro Prieto/NPL/Minden Pictures
Uma versão desta história apareceu em Science, Vol 380, Edição 6645. Baixar PDF

Cidade do México - Ainda não é meio-dia de uma quarta-feira no Lago Xochimilco, um mosaico de lagoas e canais ao sul desta extensa metrópole, mas os foliões em um barco turístico de cores vivas já abriram a cerveja e estão comemorando. Em outro barco, uma banda de mariachis sintoniza. de fundo chato Carlos Uriel Sumano Arias, remando uma chalupa pertencente à Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), desliza para dentro de um canal tranquilo e se deita ao lado de uma chinampa , uma ilha artificial para cultivo - um sistema agrícola inventado pelos astecas . “Gostaria de lhe mostrar um axolote”, diz ele.

Um queridinho da medicina regenerativa, o axolote (Ambystoma mexicanum ) pode regenerar membros decepados, seus olhos, suas brânquias externas com babados e até mesmo tecido cerebral. Cerca de 1 milhão estão em cativeiro em laboratórios e aquários em todo o mundo. Fofa para alguns, grotesca para outros, a salamandra também deixou sua marca na cultura pop, aparecendo como personagem em jogos online. No México, sua imagem enfeita a nota de 50 pesos. O axolote é onipresente - e ao mesmo tempo está desaparecendo. A única população selvagem remanescente está fazendo sua última resistência aqui, em canais isolados de um antigo habitat que se tornou hostil demais para sustentá-lo.

Agora, este refúgio também está em perigo. Empresários vêm comprando chinampas , convertendo algumas em campos de futebol e construindo pavilhões em outras para banquetes à luz de tochas. “Esse fenômeno de gentrificação é uma grande ameaça”, já que as empresas investem menos do que os fazendeiros na limpeza dos canais, diz Luis Zambrano González, biólogo da UNAM que passou 20 anos tentando evitar a extinção do axolote.

A melhor chance do animal pode ser a restauração agressiva do habitat. Zambrano espera expandir o número de refúgios de canal dos atuais 20, totalizando 5 quilômetros de hidrovias, para 200 – o suficiente, diz ele, para sustentar uma população viável. “Uma espécie não é uma espécie se não está em seu ambiente”, argumenta. Outros veem a salvação na criação de axolotes com espécies intimamente relacionadas, o que pode introduzir variações genéticas que podem tornar as populações selvagens ou cativas mais resilientes. “Outras populações de Ambystoma trocaram recentemente genes com o axolote e são geneticamente semelhantes”, diz o biólogo David Weisrock, da Universidade de Kentucky. “Nem toda esperança está perdida.”

As 15 espécies de Ambystoma encontradas no centro do México compartilham uma herança genética com a salamandra-tigre ( A. tigrinum ). Como a maioria dos anfíbios, ele tem brânquias e vive na água como uma larva antes de se mudar para a terra como um adulto que respira ar. Mas quando os ancestrais dos axolotes colonizaram lagos isolados em toda a região, cerca de 1 milhão de anos atrás, uma grande quantidade de comida e poucos predadores estimularam uma notável adaptação: as salamandras em alguns lagos começaram a passar toda a vida debaixo d'água, mantendo as características juvenis. “Se não houver pressão para sair… você pode se tornar sexualmente maduro sem ter que sair do lago”, diz Weisrock. O axolote é uma das quatro espécies do centro do México que raramente, ou nunca, se metamorfoseiam na natureza.

Os astecas reverenciavam o axolotl, acreditando ser a encarnação de Xolotl, um deus da morte e transformação. Mas depois que os espanhóis fundaram a Cidade do México, eles drenaram os lagos próximos, diminuindo o habitat dos axolotes. O anfíbio sofreu outro golpe nas décadas de 1970 e 1980, quando as autoridades introduziram carpas e tilápias em Xochimilco como alimento para a crescente população da região. Ambas as espécies se alimentam de ovos e filhotes de axolote. Para agravar os problemas da salamandra, as águas rasas ficaram mais quentes e poluídas. Uma pesquisa de 1998 registrou 6.000 axolotes por quilômetro quadrado. Mas o último censo, concluído em 2015, estimou apenas 36 por quilômetro quadrado.

A essa altura, a salamandra parece ter desaparecido da maior parte de Xochimilco. Nos últimos 2 anos, Alejandro Maeda-Obregón, Ph.D. estudante da University College London (UCL), analisou o DNA da água do lago em busca de sinais de axolotes e outras espécies ameaçadas de extinção. Maeda-Obregón, trabalhando com Julia Day da UCL e Elizabeth Clare da Universidade de York, até agora não conseguiu detectar sequências de axolotes mitocondriais nos trechos turísticos de Xochimilco. “É um ecossistema em colapso”, diz ele. Eles agora se voltaram para os refúgios, procurando por axolotes conhecidos por pesquisas anteriores que vivem lá.

O parentesco próximo do axolote com outras salamandras Ambystoma pode permitir que os biólogos revigorem a espécie ao criá-la com parentes. Os cientistas estão investigando a origem dessa semelhança genética incomum, diz a geneticista da UNAM Gabriela Parra Olea. Ela suspeita que a salamandra do planalto ( A. velasci ) pode ter sido “a promotora da uniformidade genética”. Como adulto terrestre, pode ter rastejado de lago em lago, acasalando-se com salamandras locais.

Zambrano espera que tais intervenções não sejam necessárias para os axolotes de Xochimilco. Ele e sua equipe estão trabalhando para criar mais refúgios, livres de peixes predadores, fechando os canais com redes ou barreiras de pedra. Em um desses refúgios, a água é clara e fresca. “Axolotls podem se dar bem aqui”, diz Sumano. Perto, à sombra, encontram-se dois tanques de água. Ele se inclina sobre uma delas e aponta uma larva de axolote, de alguns centímetros de comprimento, remando ao longo da borda. No outro nadam axolotes maduros que são 10 vezes maiores. A equipe está aguardando as autorizações para libertar os cativos.

Zambrano espera “transformar nosso problema de gentrificação em uma oportunidade” arrecadando dinheiro de desenvolvedores para criar refúgios. Ele lançou recentemente uma campanha de “adoção de axolotes” para restaurar habitats e apoiar os agricultores que monitoram os refúgios. “Os próximos 5 anos são críticos”, diz ele. Para a salamandra dos deuses, o tempo está se esgotando.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Você come camarão? Então, melhor se informar sobre o que está em jogo…

Nestes tristes dias que vivemos, o país ameaçado de quebrar, população dividida, e perspectivas nada otimistas pela frente, talvez não fosse o momento para levar mais problemas à população. Feliz, ou infelizmente, é essa nossa profissão e nosso foco, como já dito, “estudar e divulgar as questões relativas ao mar e à zona costeira.” Então, vamos lá, você come camarão?
imagem de balde de camarões para ilustrar post Você come camarão?
Você come camarão? Foto: theecologist.org.
Conheça a carcinicultura ou, criação de camarões em cativeiro…
Se você come camarão, saiba que tudo começou nos anos 70, no sudeste asiático, quando a abertura de fazendas pipocava. Febre mesmo! “A criação de camarões comerciais em larga escala começou na década de 1970. A produção cresceu acentuadamente, particularmente para atender às demandas do mercado dos Estados Unidos, Japão e Europa Ocidental. A produção global total de camarão de criação alcançou mais de 1,6 milhão de toneladas em 2003, representando um valor de quase 9 bilhões de dólares. Cerca de 75% do camarão de criação é produzido na Ásia, em especial ChinaTailândia. Outros 25% são produzidos principalmente na América Latina, onde BrasilEquadorMéxico são os maiores produtores. O líder mundial em exportação é a Tailândia.”

Por que começou no Sudeste Asiático?

Porque trata-se de questão cultural. “O camarão é cultivado no Sudeste Asiático e na China há séculos, usando métodos tradicionais de baixa intensidade. Na Indonésia, o uso de lagoas de água salobra, chamadas tambaks, pode ser rastreado até o século XV. Eles usaram tanques de pequena escala para monocultura ou policultivos com outras espécies, como milkfish, ou em rotação com arroz, usando os arrozais para culturas de camarão durante a estação seca, quando nenhum arroz poderia ser cultivado.”

Os problemas

Tudo começou muito de repente, sem se prever o crescimento absurdo que teve a atividade até atingir o valor anual de mais de 9 bilhões de dólares! “A criação de camarões transformou empresas tradicionais de pequena escala no sudeste da Ásia, em parte da indústria global.”

Cada vez mais camarões…

“Os avanços tecnológicos levaram ao cultivo de camarões em densidades cada vez maiores, e a produção, embarcada para todo o mundo. Praticamente todos os camarões de criação são da família Penaeidae, apenas duas espécies – Penaeus vannamei (camarão branco do Pacífico) e Penaeus monodon (camarão tigre gigante) – representam cerca de 80% dos camarões de criação. Essas monoculturas industriais são muito suscetíveis a doenças,  causaram várias epidemias regionais de populações de camarões. O aumento dos problemas ecológicos, os repetidos surtos de doenças e as pressões e críticas de ONGs e países consumidores levaram a mudanças na indústria no final da década de 1990 e, em geral, à regulamentação mais forte por parte dos governos. Em 1999, foi iniciado um programa destinado a desenvolver e promover práticas agrícolas mais sustentáveis…

Traduzindo releases oficiais…

A maioria dos estudos sobre a carcinicultura, na web, são patrocinados pela indústria do camarão. Seja a mundial, com predomínio das fazendas do sudeste asiático, sejam as fazendas como as do Nordeste do Brasil. Neste caso o guarda- chuva jurídico é a ABCC – Associação Brasileira de Criadores de Camarão. Todas disputam um apetitoso mercado de bilhões. O que estas matérias não dizem, por motivos óbvios, é que a pressa em supri-lo fez com que as fazendas fossem criadas em áreas de mangue, mais fácil de derrubar. Porque os mangues estão ao lado da imprescindível água do mar e, ao menos no Brasil, mangues são áreas públicas, não estão à venda, seria mais fácil ocupá-los. E assim a carcinicultura destruiu inutilmente grande parte dos manguezais do planeta, um dos mais importantes criatórios naturais marinhos, cuja maior parte fica na mesma região, o sudeste asiático. A comunidade mundial chiou e foi verificar mais de perto…

E descobriu a poluição química gerada pela criação

Ficaram chocados com a poluição química. Como disse o estarrecido pesquisador, Enric Sala: “Nas lagoas (do sudeste asiático), colocam os filhotes de camarões e, para evitar que as larvas de mosquito os comam, jogam uma camada de diesel para que os mosquitos não botem ovos na água. Depois jogam pesticidas para que não cresçam algas. Quando os camarões estão grandes, esvaziam a lagoa e os camarões ficam impregnados de toda essa sujeira. Em alguns casos, acrescenta-se corantes para terem um tom mais laranjinha. E depois de cinco anos, as lagoas ficam tão salobras que os produtores vão cortar mangues em outro lugar.”

No Nordeste do Brasil

O mesmo acontece nos mangues do Rio Grande do Norte, maior produtor do Brasil, e em todos os outros estados do Nordeste. Sem falar que, na despesca, a água dos tanques é devolvida à gamboa sem qualquer tratamento, o que gera tremenda poluição.
imagem de tanque de carcinicultura no Ceará
Você come camarão. Cada tanque sendo preparado. Primeira medida: decepar mangue. Foto: Aracati, Ceará.
No Brasil, o produto usado para garantir o ‘laranjinha’ é o conhecido metabissulfito de sódio, “conservante usado como antioxidante e inibidor da proliferação de microorganismos. Sua ingestão pode causar reações alérgicas, problemas de pele, irritação gástrica e rinite severa em pessoas sensíveis ao composto.”
imagem de carcinicultura no Vale do rio Jaguaribe, município de Aracati, Ceará
Você come camarão. Vale do rio Jaguaribe, município de Aracati, Ceará, onde se vê tanques de criação, via-se pujante manguezal.
Mas tem mais. Você como camarão? Então, aguarde…

Duas das maiores causas de perda de biodiversidade no mundo

Você come camarão? Pois saiba que segundo a comunidade acadêmica, o pior problema para a perda de biodiversidade é o desaparecimento de habitats. O segundo pior, a introdução de espécies exóticas. A carcinicultura faz as duas coisas. Ainda que, passado o tempo desde o início das criações, o Penaeus vannamei não tenha conseguido se impor sobre os camarões nativos. ‘Meno male’.  Mas, pela extirpação do mangue, a prática é combatida por Estados não entreguistas como a Paraíba, por exemplo, cuja secretária de Meio Ambiente considerava esta atividade como ‘uma das maiores ameaças ao litoral Nordestino‘, ao lado da especulação.

Procedência do camarão de criação

O tópico, ‘Cada vez mais camarões…’, explicou as espécies usadas. No Brasil optou-se pelo Penaeus vannamei (camarão branco do Pacífico), apesar de tudo que já se sabe quanto aos problemas causados pelas espécies exóticas. Como sobra, a carcinicultura  provoca conflitos sociais já que, ao escolherem parte de um manguezal para as fazendas, os produtores cercam uma área adjacente bem maior, impedindo que os catadores tradicionais explorem o mangue.
À direita, João do Cumbe, à esquerda, Paulina Chamorro. João contou no documentário que é ‘ameaçado de morte pela Compescal’, Aracati, Ceará. Você come camarão?
No documentário que produzi, há depoimento do extrativista João do Cumbe, ameaçado de morte pela fazenda do prefeito de Aracati, a Compescal, que decepou totalmente o manguezal da foz do rio Jaguaribe, no litoral do Ceará. Também entrevistei o promotor público Diógenes, em Natal, Rio Grande do Norte. Ele contou que “depois que começara um processo sobre estragos ambientais produzidos pela carcinicultura, sofreu diversas ameaças de morte.”
imagem do promotor Diógenes, de Natal
Diógenes foi ameaçado pelos produtores.

Curiosidades da carcinicultura no Brasil

Quando vi os estragos, não acreditei. Aconteceu durante a primeira expedição pela costa brasileira, entre 2005 e 2007. Descobri algumas ‘curiosidades’ que ajudam a compreender a carcinicultura no Brasil. A medida que descia a costa de Norte para Sul, desde o Amapá, eu ouvia falar na novidade. Mas só vi uma fazenda no Piauí. A partir daí, até o Sul da Bahia, o que mais se vê nos estuários, são grandes espaços decepados de mangue. Como é possível ocupar os mangues, pensei, são espaços públicos, berçários, não podem ser ocupados! Resolvi focar o assunto e, dentro da grande reportagem da costa brasileira, abrir espaço para reportagens menores. Comecei a estudar. Li, entrevistei ao menos dez professores das Universidades Federais do Nordeste, todos contrários; todos os secretários de meio ambiente, promotores públicos, ambientalistas, etc, e procurei matérias na imprensa internacional, ONGs daqui e de fora.

Os políticos, sempre eles…

Durante a travessia do Nordeste pesquisei todas as fazendas de camarão, e visitei quase cem por cento delas. Entrevistei quem se dispôs a falar (mas foram poucos…), entrevistei o pessoal do entorno, o prefeito da localidade, etc.
imagem da barra do rio Cunhaú, Rio Grande do Norte, detonada pela carcinicultura,
A barra do rio Cunhaú, Rio Grande do Norte, detonada pela carcinicultura, o mangue foi extirpado. Você come camarão?
Produzi um documentário. Descobri que 95% delas eram de políticos, ou gente a eles ligada: prefeitos, vereadores, deputados, senadores, e até um vice-presidente da República. Por envolverem ‘gente graúda’ , tinham mais chances de vista grossa por parte das autoridades ambientais que deveriam zelar pelo mangue íntegro, e em pé.

Algumas fazendas são do ‘pessoal do crime’

Na época da viagem, 2005 – 2007, se as fazendas não estivessem nas mãos de um destes dois grupos, políticos, ou amigos de políticos, então elas pertenciam a gente do crime, caso de uma das maiores da Bahia, a Lusomar.
imagem de manguezal desmtada pela carcinicultura
Você come camarão? Foto tirada do site da Lusomar só para vc ver o tamanho da área desmatada.
Depois de ver e gravar os estragos que ela fez depois da despesca, poluindo o que restava do manguezal do entorno ao devolver a água utilizada sem qualquer tratamento, segui até a praia Costa Azul, para ver sua unidade de criação de larvas.
Imagem da fazenda de camarões da Lusomar, no litoral da bahia
Você come camarão? O tamanho da Lusomar
Mais uma vez fiquei de queixo caído com o tamanho do empreendimento, e constatei que a Lusomar também não respeitou a faixa mínima de 300 metros, medidos a partir da linha da preamar, para as primeiras construções em direção ao interior, conforme determina a Resolução 303, do Conama, que procura disciplinar a ocupação das praias.
imagem da estrutura de esgotos da fazenda Lusomar
Olha só o jeito que montaram a estrutura de esgotos! Você come camarão?
Como mostram as fotos, parte das obras civis está claramente dentro do limite protegido. Para não falar que a área tem dunas e restingas, ambas consideradas APPs. Note que a empresa colocou um tosco cano d’água para liberar seus rejeitos em plena zona de arrebentação.
imagem da estrutura de esgotos da fazenda Lusomar na altura da arrebentação
Você come camarão? Estrutura de esgotos da Lusomar na zona de arrebentação!

Como funciona com as fazendas dos amigos dos políticos

Quando são deles mesmos, tudo fica mais fácil. Os ‘legisladores’ desafiam o Ibama com total cara-de-pau. Não deixam que a fiscalização os atinja. Quando as fazendas são dos amigos dos políticos, funciona mais ou menos como a Lusomar, que investigamos. Descobrimos a velha prática da barganha.
imagem de poluição marinha por fazendas de camarão
Hora da despesa da Lusomar, hora da poluição nos canais do mangue. Toda água do tanque é despejada a gamboa, de volta, sem tratamento nenhum.
Tudo indica que o governador Paulo Souto financiou as obras com dinheiros públicos do FNE (Fundo Constitucional do Nordeste), que é um Fundo Federal, em troca da empresa contribuir para a campanha de um prefeito de sua corrente política no município de Jandaíra, onde se localiza a fazenda. O antigo era aliado de ACM, inimigo e rival político de Paulo Souto

Lusomar elege Herbert Maia – PDT, com extensa ficha policial, prefeito de Jandaíra, BA

Pois a Lusomar cumpriu sua parte, elegeu Herbert Maia, do PDT. Ele tem dois CPFs, e farta ficha policial. Cinco processos na Justiça de Alagoas, 41 no TJ de Sergipe, e 11 processos do Tribunal de Contas da União. O cara está envolvido em emissão de notas frias, roubo e desmanche de veículos, e crimes de pistolagem. Em 1988 foi preso em Sergipe. Acusação: líder de quadrilha, vendia notas fiscais frias para diversas prefeituras. Segundo nossa pesquisa, ele está envolvido em crimes de morte, como o que vitimou o promotor de Cedro de São João, Waldir de freitas Dantas, assassinado em 19 de março de 1988. Por fim, Herbert foi denunciado pelo comparsa, de nome Cristinaldo Santana, vulgo “ Veneno ” , de receptação e desmanche de carros roubados. Todos estes casos vieram à tona com sua “ vitória ” nas últimas eleições (1797 votos contra 1721 do segundo colocado).

FNE – Fundo Constitucional do Nordeste

O papel deste Fundo era financiar as fazendas. Impressionado com tanta bondade, pesquisei mais e descobri que ele sugere em suas diretrizes “preferência aos mini e pequenos empreendedores”, e projetos que “protejam o meio ambiente”.
imagem de placa do fundo do nordeste que apoia a carcinicultura
Você come camarão? Fazer com o dinheiro dos outros é fácil…
Curiosamente, a turma da carcinicultura não se enquadra em nenhum dos dois tópicos…

Maior problema das fazendas de criação ainda não resolvido: a farinha de peixe

Para além dos graves problemas apontados, um dos piores é a alimentação escolhida nas fazendas: a farinha de peixe. Esta mistura é feita com populações que antes não eram pescadas, apesar de terem uma função importante na cadeia alimentar dos oceanos. Note-se o paradoxo: a aqüicultura começou para resolver o problema da sobrepesca. Mas, à medida que cresce mundo afora, mais peixes, antes descartados por terem pouco valor comercial, são capturados para alimentá-las. “A conseqüência pode ser terrível, a conta não fecha. Não é sustentável.

Como assim, não é sustentável, e as fazendas instaladas?

Bem, os produtores não tiveram que investir comprando, e preparando as terras como em qualquer atividade do gênero. A mamata, e charada da questão financeira, começa aí. As terras, mangues, áreas públicas, foram ‘doadas’ aos produtores, talvez isso explique a onipresente presença de políticos nesta área de atuação…Descobrimos ainda que os empregos gerados são sazonais, sem carteira assinada (quem pode, pode…). Além disto, 84% das 245 fazendas de criação do Ceará, por exemplo, estavam em APPs, Áreas de Preservação Permanente estipuladas pelo CONAMA (Conselho Nacional de Meio Ambiente), e nem por isto fiscalizadas ou multadas pelo Ibama.

A ficha caiu… devastação e poluição provocam boicote internacional

Esses problemas em conjunto chamaram a atenção internacional. Veja o que aconteceu. “Infelizmente, as exportações brasileiras de camarão caíram drasticamente de 42,5 mil toneladas (65,4% da produção), em 2005, para 5728 toneladas (8,81% da produção), em 2009 (ABCC, 2011). O Brasil foi um dos países líderes em exportações para a Europa, mas em 2009 caiu para a 28ª posição (ABCC, 2011). A produção de camarão tem permanecido constante apenas porque os produtores têm conseguido aumentar as vendas domésticas.”
Esta queda nas exportações tem dois motivos. O primeiro foi um boicote dos compradores devido às condições de ‘terra-arrasada’, mais a poluição como encargo; o segundo são as constantes pragas que dizimam criações intensivas. Ou seja, o mundo soube dos problemas ambientais gerados pelas criações e reagiu. Exigiu melhorias para voltar a comprar. É o que esperamos que aconteça com você, que lê este post e eventualmente, come camarão.

A pesca do camarão

Existem algumas modalidades, desde as de menor impacto, até as de maior. Infelizmente, 90% do camarão oriundo da pesca vem da modalidade mais terrível e combatida mundo afora, o arrastão. No Brasil não é diferente. Este vídeo (com legendas) mostra o dano causado pelas redes de arrasto ao assoalho marinho. A modalidade é uma hecatombe para o assoalho marinho. Detona tudo que estiver em seu caminho. E ainda é responsável pela captura incidental, quando toneladas são mortas e devolvidas ao mar.

Então, você come camarão?

Voltando aos ‘tempos tristes’ que vivemos, não apelo sequer aos legisladores, ao Estado. Mas acredito que se cada um tiver consciência de seus atos, às vezes tão corriqueiros como comer (nada é corriqueiro quando se trata de 7.5 bilhões de pessoas), isso por si já será um benefício. Felizmente, mesmo nestes tempos bicudos, sobram provas que os bons cidadãos continuam atentos apesar de tudo. A reação positiva que tivemos com a campanha pelo fim dos canudinhos plásticos, nos mostra que o caminho é falar com você, cidadão. Pense sobre a parte de cada um, e tome sua posição. Como se diz lá fora, ‘pense globalmente, aja localmente‘.
Foto de abertura: www.frozenshrimpsuppliers.com.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Ben Mierement, NOAA NOS (ret.)

Plastic debris found in the deepest part of the ocean

Detritos de plástico encontrados na parte mais profunda do oceano

Plastic trash is now so pervasive, it has even made its way to the deepest part of the oceanNational Geographic reports. Scientists found a plastic bag almost 11 kilometers deep in the Mariana Trench in the Pacific Ocean while combing through a database of photos from thousands of submersible dives made over the past 30 years. One-third of all debris in the database, created to provide a record of trash in the ocean depths, were plastics, mostly single-use products. In some photos, deep-sea creatures like sea anemones were entangled in the plastic. Writing in Marine Policy, the researchers say the production of plastic waste needs to be drastically reduced to protect the deep-sea environment.


O lixo de plástico agora é tão difundido que chegou até a parte mais profunda do oceano, segundo a National Geographic. Os cientistas encontraram uma sacola plástica de quase 11 quilômetros de profundidade na Fossa das Marianas, no Oceano Pacífico, enquanto vasculhava um banco de dados de fotos de milhares de mergulhos submersíveis feitos nos últimos 30 anos. Um terço de todos os detritos no banco de dados, criados para fornecer um registro de lixo nas profundezas do oceano, eram plásticos, a maioria produtos de uso único. Em algumas fotos, criaturas do fundo do mar, como anêmonas do mar, estavam enredadas no plástico. Escrevendo em Política Marinha, os pesquisadores dizem que a produção de resíduos plásticos precisa ser drasticamente reduzida para proteger o ambiente do fundo do mar.

segunda-feira, 19 de março de 2018

Análise dos efeitos da poluição em lagoas costeiras
Foram 20 locais analisados e 6 espécies zooplanctônicas registradas
[15/03/2018]

O aluno Erick Manzano Macias defendeu hoje, 15 de março, sua tese de mestrado intitulada “A comunidade zooplanctônica em um gradiente de poluição antrópica em um Complexo Estuarino Lagunar”. O trabalho foi realizado por meio do Programa de Pós-Graduação em Biologia Animal.

Resumo:

A presente dissertação esta composta por três partes. Na primeira parte são apresentadas as fotos dos locais estudados (20) e das espécies zooplanctônicas registradas (seis). A segunda parte apresenta os três objetivos propostos. Finalmente, a terceira parte consta do manuscrito que pretende ser submetido para publicação.


Muitos centros urbanos localizam-se próximos às lagoas costeiras, influenciando estes ambientes através de despejos domésticos e industriais. Estes ecossistemas são de extrema importância para a biodiversidade local, incluindo a comunidade zooplanctônica.

Foram estudados os fatores físico-químicos e as densidades zooplanctônicas em diferentes escalas (comunidade, grupos, espécies e fases de desenvolvimento); foram identificadas as diferenças (através de ANOVA´s) e a relação que existe entre estas variáveis (através de RDA) ao longo de um gradiente de poluição e um gradiente temporal; e foi quantificado se o gradiente de poluição afeta o estado trófico do CELMM (através de um índice de estado trófico).

As coletas foram feitas em quatro áreas em três margens de duas lagoas costeiras e no canal conector do Complexo Estuarino Lagunar Mundaú-Manguaba (CELMM). Em cada área foram distribuídos 5 pontos de coleta, nas estações seca e chuvosa.

As áreas encontram-se num gradiente de degradação ambiental de maior a menor poluição. Em cada ponto foram feitas amostragens do zooplâncton; foi mensurado o pH, a temperatura (TEM), o oxigênio dissolvido (OD), a condutividade (COM) e a profundidade (PROF) nas duas estações; e foi mensurada a salinidade (SAL), o carbono orgânico dissolvido (COD) e a clorofila-a (CLOR-A) na estação chuvosa. Foram identificadas diferenças em todos fatores físicos e químicos, exceto no COD sob o gradiente de poluição antrópica.

Foram encontradas diferenças no pH, temperatura, oxigênio dissolvido e condutividade, sob a escala temporal. Foram identificadas diferenças nas densidades dos estágios Copepodito e Copepoda; e nas seis espécies que compõem a comunidade, sob o gradiente de poluição antrópica. Foram encontradas diferenças nas densidades dos estágios náuplio pequeno, Copepodito e Copepoda; e nos copépodes, cf. Apocyclops e Calanoida sp1; e nos cladóceros, M. minuta e C. cornuta, sob a escala temporal. Foi identificado que o gradiente de poluição antrópica afeta o nível trófico das lagoas que compõem o CELMM, e que a área menos impactada pela eutrofização é a A1 devido a processos hidrodinâmicos do sistema.

Em quanto as relações detectadas, na estação seca houve associação entre: o oxigênio dissolvido e as espécies B. calyciflorus e cf. Apocyclops; a temperatura e M. minuta e C. cornuta; a condutividade e as espécies B. plicatilis e Calanoida sp1. Na estação chuvosa houve associação entre: a condutividade e a salinidade e as espécies B. calyciflorus e cf. Apocyclops; a temperatura e a clorofila-a e as espécies B. plicatilis e Calanoida sp1. Finalmente, sugerimos que as espécies B. plicatilis e B. calyciflorus, servem como bioindicadores da qualidade da água.

Comissão Examinadora:

Prof.(a). Maria Stela Maioli Castilho Noll - Orientadora - Unesp/Sjrp
Prof.(a). Betina Kozlowsky Suzuki - Universidade Federal Do Estado Do Rio De Janeiro (Unirio)
Prof.(a). Maria Isabel De Almeida Rocha - Universidade Federal Do Estado Do Rio De Janeiro (Unirio)

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Ambientes marinhos e de água doce no Brasil sofrem com poluição por microplásticos

07 de junho de 2017



Ambientes marinhos e de água doce no Brasil sofrem com poluição por microplásticos Minúsculos detritos de plástico estão presentes em larga escala em praias e rios no país, têm sido ingeridos por peixes e pequenos organismos e causado efeitos tóxicos em moluscos, apontam estudos (foto: Pryscilla Resaffe)

 Elton Alisson | Agência FAPESP – Além de garrafas PET, sacolas e embalagens de alimentos, entre outros objetos, os ambientes marinhos e de água doce em todo o mundo têm sido contaminados com minúsculos detritos, conhecidos como microplásticos, com tamanho menor que 5 milímetros, como fibras e pequenos resíduos gerados pela fragmentação de grandes pedaços de plástico.

Um grupo de pesquisadores do Departamento de Ciências do Mar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), campus da Baixada Santista, em colaboração com colegas de outras universidades e instituições de pesquisa do Brasil e do exterior, constatou que esses microplásticos também estão presentes em larga escala em praias e rios no Brasil.

Os pesquisadores também observaram que algumas espécies de peixes de água doce e de pequenos organismos marinhos ingerem frequentemente esses microplásticos, e que os contaminantes liberados por esses poluentes causam efeitos tóxicos para espécies de moluscos, como os mexilhões marrons (Perna perna).

Os resultados dos estudos, coordenados por Luiz Felipe Mendes de Gusmão com apoio da FAPESP, foram publicados nas revistas Environmental Pollution e Water Research.
“Temos observado a poluição generalizada por microplásticos tanto de ecossistemas marinhos como de ambientes de água doce”, disse  Gusmão, professor da Unifesp da Baixada Santista e coordenador das pesquisas, à Agência FAPESP.

De acordo com o pesquisador, enquanto resíduos de plástico grandes, como sacolas, tampinhas e garrafas PET, são relativamente fáceis de serem vistos e retirados da areia de uma praia, os microplásticos são quase impossíveis de serem removidos por serem muito pequenos e praticamente imperceptíveis a olho nu. Por isso, tem se observado um aumento do acúmulo desse tipo de poluente em praias de todo o mundo, apontou.

“Os microplásticos que entram em um ambiente de água doce são transportados, via os rios, até os oceanos. E quando chegam aos oceanos esses fragmentos de plástico são transportados por correntes marinhas e tendem a ficar em suspensão na coluna d’água ou encalharem em praias”, explicou.
Uma vez que essas partículas de plástico têm sido encontradas de forma generalizada em ambientes marinhos e de água doce em todo o mundo, o pesquisador, em colaboração com colegas no Brasil e no exterior, começou a monitorar nos últimos anos a presença desses poluentes em ambientes aquáticos no país.

Os primeiros locais escolhidos foram as praias de Itaquidantuva e de Paranapuã, situadas na reserva ambiental de Xixová-Japuí, localizada entre os municípios da Praia Grande e São Vicente, na baixada santista, em São Paulo.

Durante um ano os pesquisadores coletaram semanalmente nas áreas das duas praias pellets de plástico – grânulos de plástico, com diâmetro inferior a 10 milímetros, utilizados na fabricação de produtos plásticos.
Os resultados das análises indicaram uma altíssima concentração desse tipo de microplástico. “Observamos pellets de plástico, de diferentes cores e tamanhos, se acumulando na praia de Paranapuã o ano inteiro. Em alguns momentos, as praias ficavam cheias desses microplásticos, e em outros momentos eles sumiam temporariamente em razão de fatores como a circulação oceânica, as ondas e o regime de ventos”, afirmou.

Efeitos tóxicos

De acordo com o pesquisador, algumas características que potencializam o efeito nocivo do plástico em ambientes marinhos e de água doce são que a maioria dos polímeros comuns – como o polipropileno e o poliestireno – degradam muito lentamente e são leves – o que permite serem transportados com facilidade pelas correntes oceânicas e permanecerem por muito tempo no ambiente marinho

Ao permanecerem por longo tempo no ambiente, as moléculas de contaminantes presentes em um meio aquático, como metais pesados e pesticidas, começam a aderir à superfície dos plásticos e podem atingir concentrações extremamente altas. Além disso, esses resíduos de plástico também possuem aditivos presentes na composição do material, como corantes, dispersantes e protetores contra raios ultravioleta.
Com o passar do tempo, os fragmentos de plástico tendem a liberar esses contaminantes no ambiente aquático, explicou Gusmão.

“Se os microplásticos forem ingeridos pela fauna marinha, os poluentes aderidos na sua superfície podem ser liberados no tubo digestivo do animal, o que pode causar efeitos tóxicos”, ressaltou.
A fim de avaliar a potencial toxicidade para organismos marinhos dos contaminantes liberados por microplásticos, os pesquisadores da Unifesp, em colaboração com colegas da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Santa Cecília, realizaram experimentos em que expuseram larvas de mexilhões marrons a amostras de pellets de plástico que recolheram nas praias de Itaquidantuva e de Paranapuã e também a pellets virgens.
Os resultados das análises indicaram que os contaminantes liberados pelos pellets de plástico afetaram o desenvolvimento embrionário dos moluscos.

As larvas expostas aos pellets de plástico virgens apresentaram alta taxa de mortalidade, enquanto nenhuma das larvas expostas aos pellets de plástico recolhidos das duas praias conseguiu se desenvolver.

As observações sugeriram que os contaminantes aderidos à superfície dos pellets de plástico recolhidos das praias foram os responsáveis pelos efeitos tóxicos no desenvolvimento das larvas expostas aos microplásticos, enquanto a morte das larvas expostas aos pellets virgens foi devido provavelmente aos aditivos químicos do próprio material.
“Somente a exposição aos microplásticos, sem que ingerissem, fez com que as larvas morressem”, disse Gusmão.

A poluição marítima também mobiliza a ONU Meio Ambiente que lança nesta quarta-feira (07/06), no Brasil, a campanha “Mares Limpos”, que durante cinco anos terá ações para conter a maré de plásticos que invade os oceanos. O evento acontece no AquaRio, no Rio de Janeiro, como parte das comemorações do Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado no dia 5 de junho.

No Brasil, a campanha trabalhará na mobilização de governos, parlamentares, sociedade civil e setor privado para fortalecer ações que reduzam a contribuição do país ao problema global dos plásticos que acabam nos mares. Os esforços da campanha se concentrarão em buscar uma drástica redução no uso de plásticos descartáveis e o banimento de microesferas de plástico em cosméticos e produtos de higiene, além de apoiar a elaboração do Plano Nacional de Combate ao Lixo no Mar, capitaneado pelo Ministério do Meio Ambiente.

Ingestão

Os pesquisadores da Unifesp também avaliaram se pequenos organismos marinhos são capazes de ingerir microplásticos encontrados em seus habitats.
Em um estudo realizado em colaboração com colegas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), das Universidades Federais do Rio Grande (FURG) e do Paraná (UFPR), além da University of Copenhagen, da Dinamarca, e do Instituto de Estudos Ecossistêmicos, da Itália, eles examinaram o conteúdo intestinal da meiofauna (animais que medem menos de 1 milímetro e vivem enterrados entre grãos de areia das praias) de seis praias situadas no Brasil, na Itália e nas Ilhas Canárias, na Espanha.

As análises laboratoriais revelaram que três espécies comuns de anelídeos, do gênero Saccocirrus, tinham microfibras (fibras provenientes de cordas e fios de pesca e de tecidos de roupas, entre outras) em seus intestinos, mas sem apresentar lesões físicas aparentes.
“Constatamos que mesmo organismos marinhos desse porte podem interagir com microplásticos”, disse Gusmão.

Em outro estudo, os pesquisadores da Unifesp, em colaboração com colegas das Universidades Federais do Rio Grande do Norte (UFRN) e Rural de Pernambuco (UFRPE), avaliaram a ingestão de microplásticos por um peixe de água doce comum e muito consumido em regiões semiáridas na América do Sul: o caborja (Hoplosternum littorale).

Para realizar o estudo, eles analisaram o intestino de espécimes do peixe de um rio intermitente que passa pela cidade de Serra Talhada, no interior de Pernambuco, capturadas por pescadores da região.
Os resultados das análises indicaram que 83% dos peixes tinham detritos plásticos em seus intestinos – a maior proporção relatada para uma espécie de peixe de água doce no mundo até o momento.
A maioria dos detritos plásticos (88,6%) extraídos do estômago dos peixes era microplásticos com tamanho de até 5 milímetros, e as fibras foram o tipo de microplástico mais frequente (46,6%) ingerido pelos animais.

Os pesquisadores também observaram que os peixes consumiam mais microplásticos nas regiões mais urbanizadas do rio.

“Hoje tem sido muito discutido como diminuir os impactos causados por resíduos de plásticos grandes em ambientes e organismos marinhos e de água doce, mas a poluição por microplásticos também representa um problema muito sério”, disse Gusmão.
“É preciso repensar a cadeia de produção do plástico, que é um produto importante para a sociedade, de modo a reduzir a chance dele chegar ao ambiente”, avaliou.

O artigo “Leachate from microplastics impairs larval development in brown mussels’ (doi:10.1016/j.watres.2016.10.016), de Gusmão e outros, pode ser lido por assinantes da Water Research em www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0043135416307667.

O artigo “In situ ingestion of microfibres by meiofauna from sandy beaches” (doi: 10.1016/j.envpol.2016.06.015) pode ser lido por assinantes da revista Environmental Pollution em www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0269749116305036.

E o artigo “Microplastics ingestion by a common tropical freshwater fishing resource” (doi: 10.1016/j.envpol.2016.11.068) pode ser lido por assinantes da mesma revista em www.sciencedirect.com/science/article/pii/S026974911632396X.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Contaminação x poluição. Qual a diferença?

poluição agua 1Uma área contaminada, segundo a Cetesb em seu Manual de gerenciamento de águas contaminadas,pode ser definida como um local ou terreno onde há comprovadamente poluição ou contaminação causada pela introdução de quaisquer substâncias ou resíduos que ali foram depositados, acumulados, armazenados, enterrados ou infiltrados de forma planejada, acidental ou até mesmo natural .


Os poluentes ou contaminantes podem apresentar-se em diversos estados: gases de menor, igual ou maior densidade do que o ar; fase líquida livre, de densidade menor, igual ou maior do que a água; em solução na água subterrânea; ou ainda na forma de sólidos ou semi-sólidos.
Podem-se encontrar no ar, nos solos, rochas, águas superficiais e subterrâneas, materiais de aterro, construções e tubulações enterradas, a partir de onde podem propagar-se por diversas vias, alterando a qualidade das águas, do ar e do solo e causando impactos negativos ou riscos na própria área ou em seus arredores.
Há uma diferença conceitual entre poluição e contaminação, mas, de maneira geral, os dois termos são considerados sinônimos. As explicações de Daniel Nass no artigo “O conceito de Poluição” para a Revista Eletrônica de Ciências da Universidade de São Paulo – campus São Carlos, apresentadas a seguir, ajudam a diferenciar os dois conceitos.
Poluição é uma alteração ecológica provocada pelo ser humano, que prejudica, direta ou indiretamente, sua vida ou seu bem-estar, trazendo danos aos recursos naturais e impedimento a atividades econômicas.
Porém, nem toda alteração ecológica pode ser considerada poluição; por exemplo, o lançamento de uma pequena carga de esgoto doméstico em um rio provoca a diminuição do teor de oxigênio de suas águas, mas se não afetar a vida dos peixes nem a dos seres que lhes servem de alimento, o impacto ambiental provocado pelo esgoto não é considerado poluição.
 A contaminação é a presença, em um ambiente, de seres patogênicos ou substâncias em concentração nociva ao ser humano; no entanto, se não resultar em uma alteração das relações ecológicas, a contaminação não é uma forma de poluição.
poluição ar 1Esta diferenciação é fundamental no caso do ambiente ser a água. Se estivermos falando em contaminação da atmosfera, a diferença entre contaminação e poluição perde importância, visto que ela é o ambiente de onde o ser humano capta oxigênio.
O ar contaminado, seja com gases tóxicos ou partículas microscópicas em suspensão, também não pode ser confinado em um determinado espaço, como o solo e a água. Assim, a contaminação do ar tem conseqüências diretas na vida do homem, devendo ser classificada também como poluição. Já o observado aumento da concentração de gás carbônico na atmosfera é apenas poluição, visto que este gás não é potencialmente tóxico.
O fator de poluição não precisa agir ativamente sobre o ser vivo, mas de forma indireta retira dele as condições adequadas à sua vida; por exemplo, as alterações ecológicas que provocam a morte dos peixes de um rio que recebe grande quantidade de esgotos não se dão pela ação de uma substância ou ser patogênico letal, mas pelo lançamento de nutrientes em quantidade excessiva.
A expressão “remediação de áreas contaminadas” compreende a recuperação do subsolo e das águas subterrâneas contaminados ou poluídos. Pode significar tanto a limpeza total (clean up) da área como a diminuição do impacto da contaminação a limites aceitáveis.
Apesar da maioria dos textos abordando a Geotecnia Ambiental bem como as legislações e regulamentações ambientais, não se fazerem uma distinção entre poluição e contaminação é importante que o profissional tenha estes conceitos bem definidos, ainda que exista uma incompatibilidade constatada entre os conceitos legais e técnicos, principalmente do conceito poluição.
Tudo a ver
capa geotecniaPara saber mais conceitos relativos ao gerenciamento de áreas contaminadas e às técnicas de remediação mais difundidas adquira o livro Geotecnia Ambiental de Maria Eugenia Gimenez Boscov.
Geotecnia Ambiental traz a primeira contribuição consolidada da Engenharia Geotécnica brasileira às mais contundentes questões ambientais urbanas do momento: lixo urbano e resíduos sólidos em geral.
A contaminação e o transporte de poluentes em solos e barragens de rejeitos são alguns dos temas tratado nesta obra, com preocupação especial pelos aquíferos subterrâneos

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Agrotóxicos ameaçam colônias de aves da Antártica

01 de agosto de 2016

Peter Moon | Agência FAPESP – Pesquisadores confirmaram a presença de contaminantes orgânicos no sangue de petréis-gigantes do sul de diversas colônias na Península Antártica. Estudos de carcaças e outros tecidos já tinham dado sinais da contaminação, agora confirmados a partir de amostras de sangue em que foi detectada a presença de diversas substâncias nocivas, entre as quais o DDT, pesticida banido nos Estados Unidos em 1972, quando se constatou que seu uso ameaçava a sobrevivência de diversas espécies de aves de rapina.
A pesquisa foi realizada pela bióloga Fernanda Imperatrice Colabuono, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP). Ela estudou os animais das colônias de petréis-gigantes das ilhas Elefante e Livingston, no arquipélago das Shetland do Sul, na Península Antártica, com bolsa de pós-doutorado e bolsa de estágio de pesquisa no exterior da FAPESP.
A pesquisa teve apoio também da Universidade do Vale do Rio dos Sinos e do National Institute of Standards and Technology dos Estados Unidos, com o apoio logístico do Programa Antártico Brasileiro.
O petrel-gigante-do-sul (Macronectes giganteus) é um animal magnífico e um importante predador de topo no Atlântico Sul e Oceano Austral. Com envergadura de asas de cerca de 2 metros, é uma das maiores aves voadoras do planeta, menor apenas que o albatroz e o condor. São também longevos. Petréis-gigantes podem viver mais de 50 anos. Passam a vida nos céus dos mares do Sul do planeta, à procura de comida.
Na época do acasalamento, durante o verão antártico, os petréis-gigantes retornam à mesma colônia onde nasceram. Para os biólogos, essa é uma vantagem para o estudo da espécie. Uma vez identificado e marcado, um indivíduo pode ter sua vida estudada por vários anos.
Nos verões antárticos de 2011/2012 e 2012/2013, Colabuono coletou amostras de sangue de 113 indivíduos e constatou a presença de contaminantes orgânicos como bifenilos policlorados (PCBs), hexaclorobenzeno (HCB), pentaclorobenzeno (PeCB), diclorodifeniltricloroetano (DDTs) e derivados, o pesticida clordano (banido nos Estados Unidos em 1988) e o formicida Mirex (banido nos Estados Unidos em 1978 e recentemente no Brasil).
Segundo Colabuono, todos esses poluentes orgânicos são persistentes no meio ambiente, têm ação cancerígena, causam disfunção hormonal e problemas reprodutivos. Os resultados foram publicados num artigo em Environmental Pollution.
Colabuono afirma que, comparado aos níveis de contaminação nas aves do hemisfério norte, os níveis de contaminação detectados nas colônias de petreis na Península Antártica ainda são baixos. O objetivo agora é monitorá-los no longo prazo, para se “ter um indicativo da tendência de aumento ou decréscimo desses contaminantes ao longo dos anos no ambiente em que estas aves vivem”, diz a bióloga.
Cadeia de contaminação
O DDT é transportado pelo ar e pela chuva. Uma vez em rios e lagos, se acumula na cadeia alimentar. Os insetos contaminados são comidos por peixes e estes por outros predadores. Em cada patamar da cadeia alimentar o nível de acúmulo de DDT nos tecidos aumenta.
Seus efeitos nocivos se tornam mais visíveis quando se atinge o ápice da cadeia, nos predadores de topo. O petrel-gigante é um deles. Ele se alimenta de peixes, lulas e até de carcaças de outras aves. Ou seja, no trajeto de uma longa vida, ao comer centenas de quilos de peixes contaminados, a quantidade de contaminantes nos tecidos do petrel sempre aumenta.
Foi o que aconteceu nos Estados Unidos com os falcões-peregrinos e os condores da Califórnia. Nos anos 1960, suas populações começaram a declinar dramaticamente. Os condores chegaram a contar apenas umas poucas centenas de indivíduos. Estavam a um passo da completa extinção.
Foi quando se descobriu o papel do DDT naquela tragédia. Ao se acumular no corpo das fêmeas adultas, o DDT era repassado à casca de seus ovos, que se tornavam finas e frágeis, partindo com grande frequência. A reprodução da espécie estava ameaçada. Em 1972, a produção, comercialização e o uso do DDT foram banidos nos Estados Unidos. Com o tempo, as populações de falcões e condores começaram a se recuperar.
O Brasil é atualmente o maior consumidor mundial de agrotóxicos. O uso proibido do DDT foi proibido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) apenas em 2009 – mas, como ele persiste no meio ambiente, sua presença ainda é detectada nos tecidos de animais como o petrel. A preocupação de Colabuono em acompanhar a vida de seus petréis-gigantes tem fundamento.
O artigo de Fernanda I. Colabuono, Stacy S. Vander Pol, Kevin M. Huncik, Satie Taniguchi, Maria V. Petry, John R. Kucklick, Rosalinda C. Montone, Persistent organic pollutants in blood samples of Southern Giant Petrels (Macronectes giganteus) from the South Shetland Islands, Antarctica, publicado em Environmental Pollution, pode ser acessado no endereçohttp://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0269749116304298

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Poluição: lixo, esgoto e metais pesados ameaçam os rios do Brasil

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 Se a importância de se buscar o uso racional da água no dia a dia já é comumente disseminada no meio empresarial e entre a população, a crise hídrica em São Paulo evidencia a urgência da situação. Ainda que rios, lagos e córregos abasteçam regiões inteiras e desempenhem um papel fundamental na vida de todos, a preservação dos cursos d'água no Brasil está longe de ser a ideal.
 
De acordo com uma pesquisa desenvolvida pela ONG SOS Mata Atlântica, o cenário não é nada favorável: apenas 11% dos rios brasileiros analisados foram considerados de boa qualidade, enquanto 35% receberam a classificação de “ruins” e 5% estavam em situação crítica. O restante, 49%, é considerado pela organização como regular.
 
Os piores índices encontrados pelo estudo se localizam nos centros urbanos. Falta de tratamento de esgoto, lançamento ilegal de efluentes industriais e desmatamento, são as principais fontes de contaminação e poluição dos recursos hídricos.
 
Os melhores índices, por sua vez, estão em áreas protegidas pela lei, como a bacia do Alto Tietê, na Área de Proteção Ambiental (APA) Capivari-Monos, em São Paulo; em Extrema (MG), na APA Fernão Dias e no Espírito Santo, no município de Santa Teresa, conhecido como Santuário Capixaba da Mata Atlântica. O levantamento foi realizado em 177 pontos de 96 rios em sete estados brasileiros.

De onde vem a poluição?

Convenções internacionais estabelecem que qualquer tipo de material ou substância que interfira no equilíbrio de um determinado ecossistema é considerado um poluente. Neste sentido, a degradação dos nossos rios possui várias causas, inclusive o comportamento inadequado ou conivente da população ao fazerem o descarte de seus resíduos de forma irregular ou não cobrarem de empresas e governos uma postura mais sustentável.
 
No caso das águas, os principais e mais comuns poluentes são esgoto doméstico, petróleo e seus derivados, metais pesados, substâncias organocloradas (poluentes orgânicos persistentes) e o lixo. Veja abaixo como cada um dos fatores impacta na sociedade e como você pode fazer para diminuir o dano ao recurso natural mais precioso do planeta:

Esgoto doméstico

Com o lançamento do esgoto ou efluente doméstico não tratado nos rios, há um aumento da matéria orgânica na água, o que faz com que o equilíbrio local seja afetado, ocorrendo o aumento de determinados microrganismos e a dificuldade de desenvolvimento de outros. Esse processo, conhecido como eutrofização, pode levar ao surgimento de microalgas e ao sufocamento de peixes e outras espécies, além da transmissão de doenças presentes nas fezes humanas para outros consumidores da água. Sem citar o fato de que o esgoto doméstico pode estar contaminado com substâncias tóxicas não orgânicas.
 
Neste caso, é preciso conhecer bem qual a destinação correta para cada tipo de esgoto produzido pela residência/indústria, além de procurar se informar sobre a existência ou não de Estações de Tratamento de Esgoto (ETE) na região e sua eficiência.

Efluentes industriais

O lançamento de efluentes provenientes das atividades industriais em rios, lagos e córregos provocam um sério desequilíbrio no ecossistema. As alta cargas poluentes presentes nesse tipo de resíduo provocam efeitos tóxicos nos seres vivos do local, podendo se acumular em seus organismos, influenciando também a rotina do ser humano, podendo causar doenças e, em casos mais graves, até a morte. Veja mais em nosso artigo “Conheça as doenças causadas pelo “não tratamento” do esgoto.

Metais pesados

Geralmente resultantes de processos industriais, substâncias como o mercúrio, o chumbo e o cádmio são classificados como metais pesados e têm uma capacidade tóxica altíssima. Eles se acumulam no organismo e podem causar sérios problemas, como câncer ou outras doenças.
A medida para se evitar esse tipo de desastre cabe às indústrias: todo os rejeitos do processo produtivo devem ser corretamente destinados. Além disso, essas empresas precisam ser fiscalizadas e monitoradas. Caso a indústria não realize o tratamento adequado, esses metais serão lançados nos rios, contaminando todo o curso de águas.

Poluentes Orgânicos Persistentes (POP)

Os poluentes orgânicos persistentes (POP) são organoclorados que não se degradam facilmente na natureza e surgem da produção de pesticidas e plásticos. Um exemplo de POP é o DDT, muito usado na década de 70 em produtos de controle de pragas agrícolas. Atualmente, como seus efeitos altamente nocivos são conhecidos, ele é proibido. Mas é papel do consumidor sempre verificar se há presença desse tipo de substância naquilo que consome.

Lixo

Se em terra firme o lixo mal destinado já traz sérias consequências, imagina em alto mar, sem o menor controle? Através das praias ou mesmo de esgotos sendo despejados diretamente nos rios, o lixo chega diretamente à fauna marítima, sem contar as embarcações, tais como veleiros, cargueiros ou navios turísticos, que despejam seus resíduos nas águas. Nesse cenário, os animais muitas vezes confundem plástico e vidro com seus alimentos naturais e morrem engasgados ou sufocados.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

O alerta dos sapos

Estudo em Rondônia revela alteração genética de espécies pela poluição, com riscos para os humanos. Os animais podem ser usados no monitoramento da contaminação dos ambientes em que vivem. 
 
Por: Gabriel Toscano
Publicado em 16/04/2014 | Atualizado em 16/04/2014
O alerta dos sapos
O ‘Leptodactylus petersii’ vive em qualquer fragmento de vegetação e pode ser encontrado até em áreas urbanas. O animal é um bom indicador de contaminação do ambiente. (foto: Francisco Carlos da Silva)
Desde o início da civilização, as cidades são construídas em locais ricos em recursos hídricos, devido à necessidade constante de água para o consumo direto da população e para as atividades humanas. Nos centros urbanos, porém, é gerado um grande volume de lixo, com muitos materiais e fluidos poluentes, e nem sempre os mananciais que fornecem a água estão protegidos desses resíduos, descartados sem cuidado. A conta acaba sendo paga pelos ambientes naturais.
Cientes do problema, pesquisadores do Centro Universitário Luterano de Ji-Paraná (Ceulji), em Rondônia, ligado à Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), estão realizando testes em material biológico do anfíbio Leptodactylus petersii para detectar lesões causadas ao animal pela poluição e avaliar como o ambiente, e os humanos que ali vivem, são afetados.

A técnica pode revelar alterações genéticas, que ocorrem quando o pequeno sapo entra em contato com a poluição.
Na pesquisa, liderada pelo biólogo Francisco Carlos da Silva, é extraída uma pequena fração de células da epiderme dos animais, para a realização do chamado teste de micronúcleo. Essa técnica pode revelar alterações genéticas, que ocorrem quando o pequeno sapo entra em contato com a poluição.
Como o L. petersii vive em qualquer fragmento de vegetação, é muito comum encontrar a espécie mesmo em áreas urbanas, desde que existam pequenas regiões alagadiças. As áreas de preservação permanente situadas no perímetro urbano de Ji-Paraná seriam o ambiente ideal para esses animais. Entretanto, essas áreas, onde está sendo realizada a pesquisa, vêm sofrendo despejo de esgoto irregular. Como os anfíbios, como o nome indica, vivem tanto em terra quanto dentro da água, eles ficam expostos diretamente à poluição. Por isso, são considerados bons indicadores ambientais.

Embora a pesquisa esteja no início, já apresenta alguns resultados. As análises das primeiras amostras de pele dos sapos constataram a presença de micronúcleos nas células. Estes se formam quando, nos cromossomos, fragmentos alterados por poluentes tóxicos são ‘cortados’ por mecanismos genéticos capazes de corrigir erros no processo de divisão das células. Os fragmentos permanecem na célula, envolvidos por uma membrana, e se parecem com pequenos núcleos. Sua existência, portanto, revela que a poluição já está causando alterações genéticas nos anfíbios.
Micronúcleos em células
As setas vermelhas indicam os micronúcleos que se formaram nas células dos anfíbios, em decorrência de alterações genéticas causadas pela poluição. (foto: Francisco Carlos da Silva)
Da Silva chama a atenção para o perigo de as alterações atingirem as células reprodutivas dos animais. “Se agentes genotóxicos presentes nesses ambientes atingirem as células germinativas (gametas), provocarão a formação de genes defeituosos. Nesse caso, podem nascer indivíduos com anomalias, que seriam transmitidas aos seus descendentes”, explica.

Biomonitoramento ampliado

O grupo de pesquisa pretende expandir o biomonitoramento ambiental. A ideia é realizar as análises não só nos anfíbios, mas também em espécies da vegetação e de peixes nas áreas estudadas. Uma das linhas de estudo, já em andamento, é a germinação de sementes de cebola na água dos mananciais, para verificar se ocorre alguma anomalia em seu desenvolvimento.

Os peixes são importantes porque é por meio deles que o problema pode atingir a população humana. Na região, peixes fazem parte da dieta habitual dos moradores, e o consumo da carne contaminada pode levar a problemas de saúde. Como já foram confirmados os danos genéticos na espécie L. petersii, que vive na mesma área e compartilha a mesma água, os pesquisadores acreditam que os peixes também possam sofrer o mesmo impacto.
Esgoto
Despejos irregulares de esgoto podem comprometer o ecossistema. (foto: Rafaelle Nazário Viana)
As mutações e seus efeitos na vida dos animais podem abalar o ecossistema. Os sapos, por exemplo, são essenciais para o equilíbrio biológico do ambiente, pois, em condições normais, se alimentam de grande quantidade de insetos. Se as mutações levarem à redução da população de sapos, poderia ocorrer a proliferação excessiva de mosquitos, formigas, baratas, entre outros insetos.
Da Silva: “Quanto mais poluição, provavelmente maior é a interferência na formação genética dos seres que vivem no ambiente”
Da Silva lembra que o estudo é feito em Rondônia, mas o perigo existe em todo o Brasil, em especial nas grandes cidades. “Quanto mais poluição, provavelmente maior é a interferência na formação genética dos seres que vivem no ambiente”, alerta.
Segundo o biólogo, o principal objetivo da pesquisa é, com o biomonitoramento, mostrar a importância da preservação ambiental não apenas para a população, mas também para as grandes empresas e o governo, que têm a capacidade de investir no tratamento dos resíduos, evitando seu descarte na natureza.

Gabriel Toscano
Ciência Hoje On-line