A poluição, o aquecimento das águas e a introdução de peixes reduziram o número de axolotes selvagens. Alejandro Prieto/NPL/Minden Pictures
Uma versão desta história apareceu em Science, Vol 380, Edição 6645. Baixar PDF
Cidade do México
- Ainda não é meio-dia de uma quarta-feira no Lago Xochimilco, um
mosaico de lagoas e canais ao sul desta extensa metrópole, mas os
foliões em um barco turístico de cores vivas já abriram a cerveja e
estão comemorando. Em outro barco, uma banda de mariachis sintoniza.
de fundo chato Carlos Uriel Sumano Arias, remando uma chalupa
pertencente à Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), desliza
para dentro de um canal tranquilo e se deita ao lado de uma chinampa
, uma ilha artificial para cultivo - um sistema agrícola inventado
pelos astecas . “Gostaria de lhe mostrar um axolote”, diz ele.
Um queridinho da medicina regenerativa, o axolote (Ambystoma mexicanum
) pode regenerar membros decepados, seus olhos, suas brânquias externas
com babados e até mesmo tecido cerebral. Cerca de 1 milhão estão em
cativeiro em laboratórios e aquários em todo o mundo. Fofa para
alguns, grotesca para outros, a salamandra também deixou sua marca na
cultura pop, aparecendo como personagem em jogos online. No México,
sua imagem enfeita a nota de 50 pesos. O axolote é onipresente - e ao
mesmo tempo está desaparecendo. A única população selvagem
remanescente está fazendo sua última resistência aqui, em canais
isolados de um antigo habitat que se tornou hostil demais para
sustentá-lo.
Agora, este refúgio também está em perigo. Empresários vêm comprando chinampas
, convertendo algumas em campos de futebol e construindo pavilhões em
outras para banquetes à luz de tochas. “Esse fenômeno de gentrificação
é uma grande ameaça”, já que as empresas investem menos do que os
fazendeiros na limpeza dos canais, diz Luis Zambrano González, biólogo
da UNAM que passou 20 anos tentando evitar a extinção do axolote.
A melhor chance do animal pode ser a restauração agressiva do
habitat. Zambrano espera expandir o número de refúgios de canal dos
atuais 20, totalizando 5 quilômetros de hidrovias, para 200 – o
suficiente, diz ele, para sustentar uma população viável. “Uma espécie
não é uma espécie se não está em seu ambiente”, argumenta. Outros
veem a salvação na criação de axolotes com espécies intimamente
relacionadas, o que pode introduzir variações genéticas que podem tornar
as populações selvagens ou cativas mais resilientes. “Outras populações de Ambystoma
trocaram recentemente genes com o axolote e são geneticamente
semelhantes”, diz o biólogo David Weisrock, da Universidade de Kentucky.
“Nem toda esperança está perdida.”
As 15 espécies de Ambystoma encontradas no centro do México compartilham uma herança genética com a salamandra-tigre ( A. tigrinum
). Como a maioria dos anfíbios, ele tem brânquias e vive na água como
uma larva antes de se mudar para a terra como um adulto que respira ar.
Mas quando os ancestrais dos axolotes colonizaram lagos isolados em
toda a região, cerca de 1 milhão de anos atrás, uma grande quantidade de
comida e poucos predadores estimularam uma notável adaptação: as
salamandras em alguns lagos começaram a passar toda a vida debaixo
d'água, mantendo as características juvenis. “Se não houver pressão
para sair… você pode se tornar sexualmente maduro sem ter que sair do
lago”, diz Weisrock. O axolote é uma das quatro espécies do centro do
México que raramente, ou nunca, se metamorfoseiam na natureza.
Os astecas reverenciavam o axolotl, acreditando ser a encarnação de
Xolotl, um deus da morte e transformação. Mas depois que os espanhóis
fundaram a Cidade do México, eles drenaram os lagos próximos, diminuindo
o habitat dos axolotes. O anfíbio sofreu outro golpe nas décadas de
1970 e 1980, quando as autoridades introduziram carpas e tilápias em
Xochimilco como alimento para a crescente população da região. Ambas as
espécies se alimentam de ovos e filhotes de axolote. Para agravar os
problemas da salamandra, as águas rasas ficaram mais quentes e poluídas.
Uma pesquisa de 1998 registrou 6.000 axolotes por quilômetro quadrado.
Mas o último censo, concluído em 2015, estimou apenas 36 por
quilômetro quadrado.
A essa altura, a salamandra parece ter desaparecido da maior parte de
Xochimilco. Nos últimos 2 anos, Alejandro Maeda-Obregón, Ph.D.
estudante da University College London (UCL), analisou o DNA da água do
lago em busca de sinais de axolotes e outras espécies ameaçadas de
extinção. Maeda-Obregón, trabalhando com Julia Day da UCL e Elizabeth
Clare da Universidade de York, até agora não conseguiu detectar
sequências de axolotes mitocondriais nos trechos turísticos de
Xochimilco. “É um ecossistema em colapso”, diz ele. Eles agora se
voltaram para os refúgios, procurando por axolotes conhecidos por
pesquisas anteriores que vivem lá.
O parentesco próximo do axolote com outras salamandras Ambystoma
pode permitir que os biólogos revigorem a espécie ao criá-la com
parentes. Os cientistas estão investigando a origem dessa semelhança
genética incomum, diz a geneticista da UNAM Gabriela Parra Olea. Ela
suspeita que a salamandra do planalto ( A. velasci ) pode ter
sido “a promotora da uniformidade genética”. Como adulto terrestre,
pode ter rastejado de lago em lago, acasalando-se com salamandras
locais.
Zambrano espera que tais intervenções não sejam necessárias para os
axolotes de Xochimilco. Ele e sua equipe estão trabalhando para criar
mais refúgios, livres de peixes predadores, fechando os canais com redes
ou barreiras de pedra. Em um desses refúgios, a água é clara e fresca.
“Axolotls podem se dar bem aqui”, diz Sumano. Perto, à sombra,
encontram-se dois tanques de água. Ele se inclina sobre uma delas e
aponta uma larva de axolote, de alguns centímetros de comprimento,
remando ao longo da borda. No outro nadam axolotes maduros que são 10
vezes maiores. A equipe está aguardando as autorizações para libertar
os cativos.
Zambrano espera “transformar nosso problema de gentrificação em uma
oportunidade” arrecadando dinheiro de desenvolvedores para criar
refúgios. Ele lançou recentemente uma campanha de “adoção de axolotes”
para restaurar habitats e apoiar os agricultores que monitoram os
refúgios. “Os próximos 5 anos são críticos”, diz ele. Para a
salamandra dos deuses, o tempo está se esgotando.
segunda-feira, 12 de novembro de 2018
Você come camarão? Então, melhor se informar sobre o que está em jogo…
Nestes tristes dias que vivemos, o país
ameaçado de quebrar, população dividida, e perspectivas nada otimistas
pela frente, talvez não fosse o momento para levar mais problemas à
população. Feliz, ou infelizmente, é essa nossa profissão e nosso foco,
como já dito, “estudar e divulgar as questões relativas ao mar e à zona
costeira.” Então, vamos lá, você come camarão?
Você come camarão? Foto: theecologist.org.
Conheça a carcinicultura ou, criação de camarões em cativeiro…
Se você come camarão, saiba que tudo começou nos anos 70, no sudeste asiático,
quando a abertura de fazendas pipocava. Febre mesmo! “A criação de
camarões comerciais em larga escala começou na década de 1970. A
produção cresceu acentuadamente, particularmente para atender às
demandas do mercado dos Estados Unidos, Japão e Europa Ocidental. A produção global total de camarão de criação alcançou mais de 1,6 milhão de toneladas em 2003, representando um valor de quase 9 bilhões de dólares. Cerca de 75% do camarão de criação é produzido na Ásia, em especial China e Tailândia. Outros 25% são produzidos principalmente na América Latina, onde Brasil, Equador e México são os maiores produtores. O líder mundial em exportação é a Tailândia.”
Por que começou no Sudeste Asiático?
Porque trata-se de questão cultural. “O camarão é cultivado no Sudeste Asiático e na Chinahá séculos, usando métodos tradicionais de baixa intensidade. Na Indonésia, o uso de lagoas de água salobra, chamadas tambaks, pode ser rastreado até o século XV. Eles usaram tanques de pequena escala para monocultura ou policultivos com outras espécies, como milkfish,
ou em rotação com arroz, usando os arrozais para culturas de camarão
durante a estação seca, quando nenhum arroz poderia ser cultivado.”
Os problemas
Tudo começou muito de repente, sem se
prever o crescimento absurdo que teve a atividade até atingir o valor
anual de mais de 9 bilhões de dólares! “A criação de camarões
transformou empresas tradicionais de pequena escala no sudeste da Ásia,
em parte da indústria global.”
Cada vez mais camarões…
“Os avanços tecnológicos levaram ao
cultivo de camarões em densidades cada vez maiores, e a produção,
embarcada para todo o mundo. Praticamente todos os camarões de criação
são da família Penaeidae, apenas duas espécies – Penaeus vannamei (camarão branco do Pacífico) e Penaeus monodon (camarão tigre gigante) – representam cerca de 80% dos camarões de criação. Essas monoculturas industriais são muito suscetíveis a doenças, causaram várias epidemias regionais de populações de camarões. O aumento dos problemas ecológicos, os repetidos surtos de doenças e as pressões e críticas de ONGs e países consumidores
levaram a mudanças na indústria no final da década de 1990 e, em geral,
à regulamentação mais forte por parte dos governos. Em 1999, foi
iniciado um programa destinado a desenvolver e promover práticas agrícolas mais sustentáveis…“
Traduzindo releases oficiais…
A maioria dos estudos sobre a
carcinicultura, na web, são patrocinados pela indústria do camarão. Seja
a mundial, com predomínio das fazendas do sudeste asiático, sejam as
fazendas como as do Nordeste do Brasil. Neste caso o guarda- chuva
jurídico é a ABCC – Associação Brasileira de Criadores de Camarão.
Todas disputam um apetitoso mercado de bilhões. O que estas matérias
não dizem, por motivos óbvios, é que a pressa em supri-lo fez com que as
fazendas fossem criadas em áreas de mangue, mais fácil de derrubar.
Porque os mangues estão ao lado da imprescindível água do mar e, ao
menos no Brasil, mangues são áreas públicas, não estão à venda, seria
mais fácil ocupá-los. E assim a carcinicultura destruiu inutilmente
grande parte dos manguezais do planeta, um dos mais importantes criatórios naturais marinhos, cuja maior parte fica na mesma região, o sudeste asiático. A comunidade mundial chiou e foi verificar mais de perto…
E descobriu a poluição química gerada pela criação
Ficaram chocados com a poluição química. Como disse o estarrecido pesquisador, Enric Sala:
“Nas lagoas (do sudeste asiático), colocam os filhotes de camarões e,
para evitar que as larvas de mosquito os comam, jogam uma camada de
diesel para que os mosquitos não botem ovos na água. Depois jogam
pesticidas para que não cresçam algas. Quando os camarões estão grandes,
esvaziam a lagoa e os camarões ficam impregnados de toda essa
sujeira. Em alguns casos, acrescenta-se corantes para
terem um tom mais laranjinha. E depois de cinco anos, as lagoas ficam
tão salobras que os produtores vão cortar mangues em outro lugar.”
No Nordeste do Brasil
O mesmo acontece nos mangues do Rio Grande do Norte,
maior produtor do Brasil, e em todos os outros estados do Nordeste. Sem
falar que, na despesca, a água dos tanques é devolvida à gamboa sem
qualquer tratamento, o que gera tremenda poluição.
Você come camarão. Cada tanque sendo preparado. Primeira medida: decepar mangue. Foto: Aracati, Ceará.
No Brasil, o produto usado para garantir o ‘laranjinha’ é o conhecido metabissulfito de sódio, “conservante
usado como antioxidante e inibidor da proliferação de microorganismos.
Sua ingestão pode causar reações alérgicas, problemas de pele, irritação
gástrica e rinite severa em pessoas sensíveis ao composto.”
Você come camarão. Vale do rio Jaguaribe, município de Aracati, Ceará, onde se vê tanques de criação, via-se pujante manguezal.
Mas tem mais. Você como camarão? Então, aguarde…
Duas das maiores causas de perda de biodiversidade no mundo
Você come camarão? Pois saiba que segundo a comunidade acadêmica, o pior problema para a perda de biodiversidade é o desaparecimento de habitats. O segundo pior, a introdução de espécies exóticas. A carcinicultura faz as duas coisas. Ainda que, passado o tempo desde o início das criações, o Penaeus vannamei não
tenha conseguido se impor sobre os camarões nativos. ‘Meno male’. Mas,
pela extirpação do mangue, a prática é combatida por Estados não
entreguistas como a Paraíba, por exemplo, cuja secretária de Meio Ambiente considerava esta atividade como ‘uma das maiores ameaças ao litoral Nordestino‘, ao lado da especulação.
Procedência do camarão de criação
O tópico, ‘Cada vez mais camarões…’, explicou as espécies usadas. No Brasil optou-se pelo Penaeus vannamei (camarão branco do Pacífico), apesar de tudo que já se sabe quanto aos problemas causados pelas espécies exóticas. Como sobra, a carcinicultura provoca conflitos sociais
já que, ao escolherem parte de um manguezal para as fazendas, os
produtores cercam uma área adjacente bem maior, impedindo que os
catadores tradicionais explorem o mangue.
À
direita, João do Cumbe, à esquerda, Paulina Chamorro. João contou no
documentário que é ‘ameaçado de morte pela Compescal’, Aracati,
Ceará. Você come camarão?
No documentário que produzi, há depoimento do extrativista João do Cumbe, ameaçado de morte pela fazenda do prefeito de Aracati, a Compescal, que decepou totalmente o manguezal da foz do rio Jaguaribe, no litoral do Ceará. Também entrevistei o promotor público Diógenes, em Natal,
Rio Grande do Norte. Ele contou que “depois que começara um processo
sobre estragos ambientais produzidos pela carcinicultura, sofreu diversas ameaças de morte.”
Diógenes foi ameaçado pelos produtores.
Curiosidades da carcinicultura no Brasil
Quando vi os estragos, não acreditei. Aconteceu durante a primeira expedição pela costa brasileira, entre 2005 e 2007. Descobri algumas ‘curiosidades’ que ajudam a compreender a carcinicultura
no Brasil. A medida que descia a costa de Norte para Sul, desde o
Amapá, eu ouvia falar na novidade. Mas só vi uma fazenda no Piauí. A
partir daí, até o Sul da Bahia, o que mais se vê nos estuários, são
grandes espaços decepados de mangue. Como é possível ocupar os mangues,
pensei, são espaços públicos, berçários, não podem ser ocupados! Resolvi
focar o assunto e, dentro da grande reportagem da costa brasileira,
abrir espaço para reportagens menores. Comecei a estudar. Li,
entrevistei ao menos dez professores das Universidades Federais do
Nordeste, todos contrários; todos os secretários de meio ambiente,
promotores públicos, ambientalistas, etc, e procurei matérias na imprensa internacional, ONGs daqui e de fora.
Os políticos, sempre eles…
Durante a travessia do Nordeste
pesquisei todas as fazendas de camarão, e visitei quase cem por cento
delas. Entrevistei quem se dispôs a falar (mas foram poucos…),
entrevistei o pessoal do entorno, o prefeito da localidade, etc.
A barra do rio Cunhaú, Rio Grande do Norte, detonada pela carcinicultura, o mangue foi extirpado. Você come camarão?
Produzi um documentário.
Descobri que 95% delas eram de políticos, ou gente a eles ligada:
prefeitos, vereadores, deputados, senadores, e até um vice-presidente da
República. Por envolverem ‘gente graúda’ , tinham mais chances de vista
grossa por parte das autoridades ambientais que deveriam zelar pelo
mangue íntegro, e em pé.
Algumas fazendas são do ‘pessoal do crime’
Na época da viagem, 2005 – 2007, se as
fazendas não estivessem nas mãos de um destes dois grupos, políticos, ou
amigos de políticos, então elas pertenciam a gente do crime, caso de
uma das maiores da Bahia, a Lusomar.
Você come camarão? Foto tirada do site da Lusomar só para vc ver o tamanho da área desmatada.
Depois de ver e gravar os estragos que
ela fez depois da despesca, poluindo o que restava do manguezal do
entorno ao devolver a água utilizada sem qualquer tratamento, segui até a
praia Costa Azul, para ver sua unidade de criação de larvas.
Você come camarão? O tamanho da Lusomar
Mais uma vez fiquei de queixo caído com o
tamanho do empreendimento, e constatei que a Lusomar também não
respeitou a faixa mínima de 300 metros, medidos a partir da linha da
preamar, para as primeiras construções em direção ao interior, conforme
determina a Resolução 303, do Conama, que procura disciplinar a ocupação das praias.
Olha só o jeito que montaram a estrutura de esgotos! Você come camarão?
Como mostram as fotos, parte das obras
civis está claramente dentro do limite protegido. Para não falar que a
área tem dunas e restingas, ambas consideradas APPs. Note que a empresa
colocou um tosco cano d’água para liberar seus rejeitos em plena zona de
arrebentação.
Você come camarão? Estrutura de esgotos da Lusomar na zona de arrebentação!
Como funciona com as fazendas dos amigos dos políticos
Quando são deles mesmos, tudo fica mais fácil. Os ‘legisladores’ desafiam o Ibama
com total cara-de-pau. Não deixam que a fiscalização os atinja. Quando
as fazendas são dos amigos dos políticos, funciona mais ou menos como a Lusomar, que investigamos. Descobrimos a velha prática da barganha.
Hora
da despesa da Lusomar, hora da poluição nos canais do mangue. Toda água
do tanque é despejada a gamboa, de volta, sem tratamento nenhum.
Tudo indica que o governador Paulo Souto financiou as obras com dinheiros públicos do FNE (Fundo Constitucional do Nordeste), que é um Fundo Federal, em troca da empresa contribuir para a campanha de um prefeito de sua corrente política no município de Jandaíra, onde se localiza a fazenda. O antigo era aliado de ACM, inimigo e rival político de Paulo Souto…
Lusomar elege Herbert Maia – PDT, com extensa ficha policial, prefeito de Jandaíra, BA
Pois a Lusomar cumpriu sua parte, elegeu Herbert Maia, do PDT. Ele tem dois CPFs, e farta ficha policial. Cinco processos na Justiça de Alagoas, 41 no TJ de Sergipe, e 11 processos do Tribunal de Contas da União.
O cara está envolvido em emissão de notas frias, roubo e desmanche de
veículos, e crimes de pistolagem. Em 1988 foi preso em Sergipe.
Acusação: líder de quadrilha, vendia notas fiscais frias para diversas
prefeituras. Segundo nossa pesquisa, ele está envolvido em crimes de morte, como o que vitimou o promotor de Cedro de São João, Waldir de freitas Dantas, assassinado em 19 de março de 1988. Por fim, Herbert foi denunciado pelo comparsa, de nome Cristinaldo Santana, vulgo “ Veneno
” , de receptação e desmanche de carros roubados. Todos estes casos
vieram à tona com sua “ vitória ” nas últimas eleições (1797 votos
contra 1721 do segundo colocado).
O FNE – Fundo Constitucional do Nordeste
O papel deste Fundo era financiar as
fazendas. Impressionado com tanta bondade, pesquisei mais e descobri
que ele sugere em suas diretrizes “preferência aos mini e pequenos empreendedores”, e projetos que “protejam o meio ambiente”.
Você come camarão? Fazer com o dinheiro dos outros é fácil…
Curiosamente, a turma da carcinicultura não se enquadra em nenhum dos dois tópicos…
Maior problema das fazendas de criação ainda não resolvido: a farinha de peixe
Para além dos graves problemas
apontados, um dos piores é a alimentação escolhida nas fazendas: a
farinha de peixe. Esta mistura é feita com populações que antes não eram
pescadas, apesar de terem uma função importante na cadeia alimentar dos
oceanos. Note-se o paradoxo: a aqüicultura começou para resolver o
problema da sobrepesca. Mas, à medida que cresce mundo afora, mais
peixes, antes descartados por terem pouco valor comercial, são
capturados para alimentá-las. “A conseqüência pode ser terrível, a conta
não fecha. Não é sustentável.
Como assim, não é sustentável, e as fazendas instaladas?
Bem, os produtores não tiveram que
investir comprando, e preparando as terras como em qualquer atividade do
gênero. A mamata, e charada da questão financeira, começa aí. As
terras, mangues, áreas públicas, foram ‘doadas’ aos produtores, talvez
isso explique a onipresente presença de políticos nesta área de
atuação…Descobrimos ainda que os empregos gerados são sazonais, sem
carteira assinada (quem pode, pode…). Além disto, 84% das 245 fazendas
de criação do Ceará, por exemplo, estavam em APPs, Áreas de Preservação Permanente estipuladas pelo CONAMA (Conselho Nacional de Meio Ambiente), e nem por isto fiscalizadas ou multadas pelo Ibama.
A ficha caiu… devastação e poluição provocam boicote internacional
Esses problemas em conjunto chamaram a
atenção internacional. Veja o que aconteceu. “Infelizmente, as
exportações brasileiras de camarão caíram drasticamente de 42,5 mil toneladas (65,4% da produção), em 2005, para 5728 toneladas (8,81% da produção), em 2009
(ABCC, 2011). O Brasil foi um dos países líderes em exportações para a
Europa, mas em 2009 caiu para a 28ª posição (ABCC, 2011). A produção de
camarão tem permanecido constante apenas porque os produtores têm
conseguido aumentar as vendas domésticas.”
Esta queda nas exportações tem dois motivos. O primeiro foi um boicote dos compradores
devido às condições de ‘terra-arrasada’, mais a poluição como encargo; o
segundo são as constantes pragas que dizimam criações intensivas. Ou
seja, o mundo soube dos problemas ambientais gerados pelas criações e
reagiu. Exigiu melhorias para voltar a comprar. É o que esperamos que
aconteça com você, que lê este post e eventualmente, come camarão.
A pesca do camarão
Existem algumas modalidades, desde as de
menor impacto, até as de maior. Infelizmente, 90% do camarão oriundo da
pesca vem da modalidade mais terrível e combatida mundo afora, o arrastão. No Brasil não é diferente. Este vídeo (com legendas) mostra o dano causado pelas redes de arrasto ao assoalho marinho.
A modalidade é uma hecatombe para o assoalho marinho. Detona tudo que
estiver em seu caminho. E ainda é responsável pela captura incidental,
quando toneladas são mortas e devolvidas ao mar.
Então, você come camarão?
Voltando aos ‘tempos tristes’ que
vivemos, não apelo sequer aos legisladores, ao Estado. Mas acredito que
se cada um tiver consciência de seus atos, às vezes tão corriqueiros
como comer (nada é corriqueiro quando se trata de 7.5 bilhões de
pessoas), isso por si já será um benefício. Felizmente, mesmo nestes
tempos bicudos, sobram provas que os bons cidadãos continuam atentos
apesar de tudo. A reação positiva que tivemos com a campanha pelo fim
dos canudinhos plásticos, nos mostra que o caminho é falar com você, cidadão. Pense sobre a parte de cada um, e tome sua posição. Como se diz lá fora, ‘pense globalmente, aja localmente‘.
Foto de abertura: www.frozenshrimpsuppliers.com.
segunda-feira, 21 de maio de 2018
Ben Mierement, NOAA NOS (ret.)
Plastic debris found in the deepest part of the ocean
Detritos de plástico encontrados na parte mais profunda do oceano
Plastic trash is now so pervasive, it has even made its way to the deepest part of the ocean, National Geographic reports.
Scientists found a plastic bag almost 11 kilometers deep in the Mariana
Trench in the Pacific Ocean while combing through a database of
photos from thousands of submersible dives made over the past 30
years. One-third of all debris in the database, created to provide a
record of trash in the ocean depths, were plastics, mostly single-use
products. In some photos, deep-sea creatures like sea anemones were
entangled in the plastic. Writing in Marine Policy, the researchers say the production of plastic waste needs to be drastically reduced to protect the deep-sea environment.
O lixo de plástico agora é tão difundido que chegou até a parte mais profunda do oceano, segundo a National Geographic. Os cientistas encontraram uma sacola plástica de quase 11 quilômetros de profundidade na Fossa das Marianas, no Oceano Pacífico, enquanto vasculhava um banco de dados de fotos de milhares de mergulhos submersíveis feitos nos últimos 30 anos. Um terço de todos os detritos no banco de dados, criados para fornecer um registro de lixo nas profundezas do oceano, eram plásticos, a maioria produtos de uso único. Em algumas fotos, criaturas do fundo do mar, como anêmonas do mar, estavam enredadas no plástico. Escrevendo em Política Marinha, os pesquisadores dizem que a produção de resíduos plásticos precisa ser drasticamente reduzida para proteger o ambiente do fundo do mar.
segunda-feira, 19 de março de 2018
Análise dos efeitos da poluição em lagoas costeiras
Foram 20 locais analisados e 6 espécies zooplanctônicas registradas
[15/03/2018]
O aluno
Erick Manzano Macias defendeu hoje, 15 de março, sua tese de mestrado
intitulada “A comunidade zooplanctônica em um gradiente de poluição
antrópica em um Complexo Estuarino Lagunar”. O trabalho foi realizado
por meio do Programa de Pós-Graduação em Biologia Animal.
Resumo:
A presente dissertação esta composta por três partes. Na primeira
parte são apresentadas as fotos dos locais estudados (20) e das espécies
zooplanctônicas registradas (seis). A segunda parte apresenta os três
objetivos propostos. Finalmente, a terceira parte consta do manuscrito
que pretende ser submetido para publicação.
Muitos centros urbanos
localizam-se próximos às lagoas costeiras, influenciando estes ambientes
através de despejos domésticos e industriais. Estes ecossistemas são de
extrema importância para a biodiversidade local, incluindo a comunidade
zooplanctônica.
Foram estudados os fatores físico-químicos e as
densidades zooplanctônicas em diferentes escalas (comunidade, grupos,
espécies e fases de desenvolvimento); foram identificadas as diferenças
(através de ANOVA´s) e a relação que existe entre estas variáveis
(através de RDA) ao longo de um gradiente de poluição e um gradiente
temporal; e foi quantificado se o gradiente de poluição afeta o estado
trófico do CELMM (através de um índice de estado trófico).
As coletas
foram feitas em quatro áreas em três margens de duas lagoas costeiras e
no canal conector do Complexo Estuarino Lagunar Mundaú-Manguaba (CELMM).
Em cada área foram distribuídos 5 pontos de coleta, nas estações seca e
chuvosa.
As áreas encontram-se num gradiente de degradação ambiental de
maior a menor poluição. Em cada ponto foram feitas amostragens do
zooplâncton; foi mensurado o pH, a temperatura (TEM), o oxigênio
dissolvido (OD), a condutividade (COM) e a profundidade (PROF) nas duas
estações; e foi mensurada a salinidade (SAL), o carbono orgânico
dissolvido (COD) e a clorofila-a (CLOR-A) na estação chuvosa. Foram
identificadas diferenças em todos fatores físicos e químicos, exceto no
COD sob o gradiente de poluição antrópica.
Foram encontradas diferenças
no pH, temperatura, oxigênio dissolvido e condutividade, sob a escala
temporal. Foram identificadas diferenças nas densidades dos estágios
Copepodito e Copepoda; e nas seis espécies que compõem a comunidade, sob
o gradiente de poluição antrópica. Foram encontradas diferenças nas
densidades dos estágios náuplio pequeno, Copepodito e Copepoda; e nos
copépodes, cf. Apocyclops e Calanoida sp1; e nos cladóceros, M. minuta e
C. cornuta, sob a escala temporal. Foi identificado que o gradiente de
poluição antrópica afeta o nível trófico das lagoas que compõem o CELMM,
e que a área menos impactada pela eutrofização é a A1 devido a
processos hidrodinâmicos do sistema.
Em quanto as relações detectadas,
na estação seca houve associação entre: o oxigênio dissolvido e as
espécies B. calyciflorus e cf. Apocyclops; a temperatura e M. minuta e
C. cornuta; a condutividade e as espécies B. plicatilis e Calanoida sp1.
Na estação chuvosa houve associação entre: a condutividade e a
salinidade e as espécies B. calyciflorus e cf. Apocyclops; a temperatura
e a clorofila-a e as espécies B. plicatilis e Calanoida sp1.
Finalmente, sugerimos que as espécies B. plicatilis e B. calyciflorus,
servem como bioindicadores da qualidade da água.
Comissão Examinadora:
Prof.(a). Maria Stela Maioli Castilho Noll - Orientadora - Unesp/Sjrp Prof.(a). Betina Kozlowsky Suzuki - Universidade Federal Do Estado Do Rio De Janeiro (Unirio) Prof.(a). Maria Isabel De Almeida Rocha - Universidade Federal Do Estado Do Rio De Janeiro (Unirio)
quarta-feira, 7 de junho de 2017
Ambientes marinhos e de água doce no Brasil sofrem com poluição por microplásticos
07 de junho de 2017
Minúsculos detritos de plástico
estão presentes em larga escala em praias e rios no país, têm sido
ingeridos por peixes e pequenos organismos e causado efeitos tóxicos em
moluscos, apontam estudos (foto: Pryscilla Resaffe)
Elton Alisson | Agência FAPESP – Além de
garrafas PET, sacolas e embalagens de alimentos, entre outros objetos,
os ambientes marinhos e de água doce em todo o mundo têm sido
contaminados com minúsculos detritos, conhecidos como microplásticos,
com tamanho menor que 5 milímetros, como fibras e pequenos resíduos
gerados pela fragmentação de grandes pedaços de plástico.
Um grupo de pesquisadores do Departamento de Ciências do Mar da
Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), campus da Baixada Santista,
em colaboração com colegas de outras universidades e instituições de
pesquisa do Brasil e do exterior, constatou que esses microplásticos
também estão presentes em larga escala em praias e rios no Brasil.
Os pesquisadores também observaram que algumas espécies de peixes de
água doce e de pequenos organismos marinhos ingerem frequentemente esses
microplásticos, e que os contaminantes liberados por esses poluentes
causam efeitos tóxicos para espécies de moluscos, como os mexilhões
marrons (Perna perna).
Os resultados dos estudos, coordenados por Luiz Felipe Mendes de Gusmão com apoio da FAPESP, foram publicados nas revistas Environmental Pollution e Water Research.
“Temos observado a poluição generalizada por microplásticos tanto de
ecossistemas marinhos como de ambientes de água doce”, disse Gusmão,
professor da Unifesp da Baixada Santista e coordenador das pesquisas, à Agência FAPESP.
De acordo com o pesquisador, enquanto resíduos de plástico grandes,
como sacolas, tampinhas e garrafas PET, são relativamente fáceis de
serem vistos e retirados da areia de uma praia, os microplásticos são
quase impossíveis de serem removidos por serem muito pequenos e
praticamente imperceptíveis a olho nu. Por isso, tem se observado um
aumento do acúmulo desse tipo de poluente em praias de todo o mundo,
apontou.
“Os microplásticos que entram em um ambiente de água doce são
transportados, via os rios, até os oceanos. E quando chegam aos oceanos
esses fragmentos de plástico são transportados por correntes marinhas e
tendem a ficar em suspensão na coluna d’água ou encalharem em praias”,
explicou.
Uma vez que essas partículas de plástico têm sido encontradas de
forma generalizada em ambientes marinhos e de água doce em todo o mundo,
o pesquisador, em colaboração com colegas no Brasil e no exterior,
começou a monitorar nos últimos anos a presença desses poluentes em
ambientes aquáticos no país.
Os primeiros locais escolhidos foram as praias de Itaquidantuva e de
Paranapuã, situadas na reserva ambiental de Xixová-Japuí, localizada
entre os municípios da Praia Grande e São Vicente, na baixada santista,
em São Paulo.
Durante um ano os pesquisadores coletaram semanalmente nas áreas das duas praias pellets de plástico – grânulos de plástico, com diâmetro inferior a 10 milímetros, utilizados na fabricação de produtos plásticos.
Os resultados das análises indicaram uma altíssima concentração desse tipo de microplástico. “Observamos pellets
de plástico, de diferentes cores e tamanhos, se acumulando na praia de
Paranapuã o ano inteiro. Em alguns momentos, as praias ficavam cheias
desses microplásticos, e em outros momentos eles sumiam temporariamente
em razão de fatores como a circulação oceânica, as ondas e o regime de
ventos”, afirmou.
Efeitos tóxicos
De acordo com o pesquisador, algumas características que
potencializam o efeito nocivo do plástico em ambientes marinhos e de
água doce são que a maioria dos polímeros comuns – como o polipropileno e
o poliestireno – degradam muito lentamente e são leves – o que permite
serem transportados com facilidade pelas correntes oceânicas e
permanecerem por muito tempo no ambiente marinho
Ao permanecerem por longo tempo no ambiente, as moléculas de
contaminantes presentes em um meio aquático, como metais pesados e
pesticidas, começam a aderir à superfície dos plásticos e podem atingir
concentrações extremamente altas. Além disso, esses resíduos de plástico
também possuem aditivos presentes na composição do material, como
corantes, dispersantes e protetores contra raios ultravioleta.
Com o passar do tempo, os fragmentos de plástico tendem a liberar esses contaminantes no ambiente aquático, explicou Gusmão.
“Se os microplásticos forem ingeridos pela fauna marinha, os
poluentes aderidos na sua superfície podem ser liberados no tubo
digestivo do animal, o que pode causar efeitos tóxicos”, ressaltou.
A fim de avaliar a potencial toxicidade para organismos marinhos dos
contaminantes liberados por microplásticos, os pesquisadores da Unifesp,
em colaboração com colegas da Escola de Engenharia de São Carlos da
Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Santa Cecília,
realizaram experimentos em que expuseram larvas de mexilhões marrons a
amostras de pellets de plástico que recolheram nas praias de Itaquidantuva e de Paranapuã e também a pellets virgens.
Os resultados das análises indicaram que os contaminantes liberados pelos pellets de plástico afetaram o desenvolvimento embrionário dos moluscos.
As larvas expostas aos pellets de plástico virgens apresentaram alta taxa de mortalidade, enquanto nenhuma das larvas expostas aos pellets de plástico recolhidos das duas praias conseguiu se desenvolver.
As observações sugeriram que os contaminantes aderidos à superfície dos pellets
de plástico recolhidos das praias foram os responsáveis pelos efeitos
tóxicos no desenvolvimento das larvas expostas aos microplásticos,
enquanto a morte das larvas expostas aos pellets virgens foi devido provavelmente aos aditivos químicos do próprio material.
“Somente a exposição aos microplásticos, sem que ingerissem, fez com que as larvas morressem”, disse Gusmão.
A poluição marítima também mobiliza a ONU Meio Ambiente que lança
nesta quarta-feira (07/06), no Brasil, a campanha “Mares Limpos”, que
durante cinco anos terá ações para conter a maré de plásticos que invade
os oceanos. O evento acontece no AquaRio, no Rio de Janeiro, como parte
das comemorações do Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado no dia 5 de
junho.
No Brasil, a campanha trabalhará na mobilização de governos,
parlamentares, sociedade civil e setor privado para fortalecer ações que
reduzam a contribuição do país ao problema global dos plásticos que
acabam nos mares. Os esforços da campanha se concentrarão em buscar uma
drástica redução no uso de plásticos descartáveis e o banimento de
microesferas de plástico em cosméticos e produtos de higiene, além de
apoiar a elaboração do Plano Nacional de Combate ao Lixo no Mar,
capitaneado pelo Ministério do Meio Ambiente.
Ingestão
Os pesquisadores da Unifesp também avaliaram se pequenos organismos
marinhos são capazes de ingerir microplásticos encontrados em seus habitats.
Em um estudo realizado em colaboração com colegas da Universidade
Estadual de Campinas (Unicamp), das Universidades Federais do Rio Grande
(FURG) e do Paraná (UFPR), além da University of Copenhagen, da
Dinamarca, e do Instituto de Estudos Ecossistêmicos, da Itália, eles
examinaram o conteúdo intestinal da meiofauna (animais que medem menos
de 1 milímetro e vivem enterrados entre grãos de areia das praias) de
seis praias situadas no Brasil, na Itália e nas Ilhas Canárias, na
Espanha.
As análises laboratoriais revelaram que três espécies comuns de anelídeos, do gênero Saccocirrus,
tinham microfibras (fibras provenientes de cordas e fios de pesca e de
tecidos de roupas, entre outras) em seus intestinos, mas sem apresentar
lesões físicas aparentes.
“Constatamos que mesmo organismos marinhos desse porte podem interagir com microplásticos”, disse Gusmão.
Em outro estudo, os pesquisadores da Unifesp, em colaboração com
colegas das Universidades Federais do Rio Grande do Norte (UFRN) e Rural
de Pernambuco (UFRPE), avaliaram a ingestão de microplásticos por um
peixe de água doce comum e muito consumido em regiões semiáridas na
América do Sul: o caborja (Hoplosternum littorale).
Para realizar o estudo, eles analisaram o intestino de espécimes do
peixe de um rio intermitente que passa pela cidade de Serra Talhada, no
interior de Pernambuco, capturadas por pescadores da região.
Os resultados das análises indicaram que 83% dos peixes tinham
detritos plásticos em seus intestinos – a maior proporção relatada para
uma espécie de peixe de água doce no mundo até o momento.
A maioria dos detritos plásticos (88,6%) extraídos do estômago dos
peixes era microplásticos com tamanho de até 5 milímetros, e as fibras
foram o tipo de microplástico mais frequente (46,6%) ingerido pelos
animais.
Os pesquisadores também observaram que os peixes consumiam mais microplásticos nas regiões mais urbanizadas do rio.
“Hoje tem sido muito discutido como diminuir os impactos causados por
resíduos de plásticos grandes em ambientes e organismos marinhos e de
água doce, mas a poluição por microplásticos também representa um
problema muito sério”, disse Gusmão.
“É preciso repensar a cadeia de produção do plástico, que é um
produto importante para a sociedade, de modo a reduzir a chance dele
chegar ao ambiente”, avaliou.
O artigo “Leachate from microplastics impairs larval development in brown mussels’ (doi:10.1016/j.watres.2016.10.016), de Gusmão e outros, pode ser lido por assinantes da Water Research em www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0043135416307667.
O artigo “In situ ingestion of microfibres by meiofauna from sandy beaches” (doi: 10.1016/j.envpol.2016.06.015) pode ser lido por assinantes da revista Environmental Pollution em www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0269749116305036.
Uma área contaminada, segundo a Cetesb em seu Manual de gerenciamento de águas contaminadas,pode ser definida como um local ou terreno onde há comprovadamente poluição ou contaminação causada pela introdução de quaisquer substâncias ou resíduos que ali foram depositados, acumulados, armazenados, enterrados ou infiltrados de forma planejada, acidental ou até mesmo natural .
Os poluentes ou contaminantes podem apresentar-se em diversos estados: gases de menor, igual ou maior densidade do que o ar; fase líquida livre, de densidade menor, igual ou maior do que a água; em solução na água subterrânea; ou ainda na forma de sólidos ou semi-sólidos.
Podem-se encontrar no ar, nos solos, rochas, águas superficiais e subterrâneas, materiais de aterro, construções e tubulações enterradas, a partir de onde podem propagar-se por diversas vias, alterando a qualidade das águas, do ar e do solo e causando impactos negativos ou riscos na própria área ou em seus arredores.
Há uma diferença conceitual entre poluição e contaminação, mas, de maneira geral, os dois termos são considerados sinônimos. As explicações de Daniel Nass no artigo “O conceito de Poluição” para a Revista Eletrônica de Ciências da Universidade de São Paulo – campus São Carlos, apresentadas a seguir, ajudam a diferenciar os dois conceitos.
Poluição é uma alteração ecológica provocada pelo ser humano, que prejudica, direta ou indiretamente, sua vida ou seu bem-estar, trazendo danos aos recursos naturais e impedimento a atividades econômicas.
Porém, nem toda alteração ecológica pode ser considerada poluição; por exemplo, o lançamento de uma pequena carga de esgoto doméstico em um rio provoca a diminuição do teor de oxigênio de suas águas, mas se não afetar a vida dos peixes nem a dos seres que lhes servem de alimento, o impacto ambiental provocado pelo esgoto não é considerado poluição.
A contaminação é a presença, em um ambiente, de seres patogênicos ou substâncias em concentração nociva ao ser humano; no entanto, se não resultar em uma alteração das relações ecológicas, a contaminação não é uma forma de poluição.
Esta diferenciação é fundamental no caso do ambiente ser a água. Se estivermos falando em contaminação da atmosfera, a diferença entre contaminação e poluição perde importância, visto que ela é o ambiente de onde o ser humano capta oxigênio.
O ar contaminado, seja com gases tóxicos ou partículas microscópicas em suspensão, também não pode ser confinado em um determinado espaço, como o solo e a água. Assim, a contaminação do ar tem conseqüências diretas na vida do homem, devendo ser classificada também como poluição. Já o observado aumento da concentração de gás carbônico na atmosfera é apenas poluição, visto que este gás não é potencialmente tóxico.
O fator de poluição não precisa agir ativamente sobre o ser vivo, mas de forma indireta retira dele as condições adequadas à sua vida; por exemplo, as alterações ecológicas que provocam a morte dos peixes de um rio que recebe grande quantidade de esgotos não se dão pela ação de uma substância ou ser patogênico letal, mas pelo lançamento de nutrientes em quantidade excessiva.
A expressão “remediação de áreas contaminadas” compreende a recuperação do subsolo e das águas subterrâneas contaminados ou poluídos. Pode significar tanto a limpeza total (clean up) da área como a diminuição do impacto da contaminação a limites aceitáveis.
Apesar da maioria dos textos abordando a Geotecnia Ambiental bem como as legislações e regulamentações ambientais, não se fazerem uma distinção entre poluição e contaminação é importante que o profissional tenha estes conceitos bem definidos, ainda que exista uma incompatibilidade constatada entre os conceitos legais e técnicos, principalmente do conceito poluição.
Tudo a ver
Para saber mais conceitos relativos ao gerenciamento de áreas contaminadas e às técnicas de remediação mais difundidas adquira o livro Geotecnia Ambiental de Maria Eugenia Gimenez Boscov.
Geotecnia Ambiental traz a primeira contribuição consolidada da Engenharia Geotécnica brasileira às mais contundentes questões ambientais urbanas do momento: lixo urbano e resíduos sólidos em geral.
A contaminação e o transporte de poluentes em solos e barragens de rejeitos são alguns dos temas tratado nesta obra, com preocupação especial pelos aquíferos subterrâneos
segunda-feira, 1 de agosto de 2016
Agrotóxicos ameaçam colônias de aves da Antártica
01 de agosto de 2016
Peter Moon | Agência FAPESP – Pesquisadores confirmaram a presença de contaminantes orgânicos no sangue de petréis-gigantes do sul de diversas colônias na Península Antártica. Estudos de carcaças e outros tecidos já tinham dado sinais da contaminação, agora confirmados a partir de amostras de sangue em que foi detectada a presença de diversas substâncias nocivas, entre as quais o DDT, pesticida banido nos Estados Unidos em 1972, quando se constatou que seu uso ameaçava a sobrevivência de diversas espécies de aves de rapina.
A pesquisa foi realizada pela bióloga Fernanda Imperatrice Colabuono, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP). Ela estudou os animais das colônias de petréis-gigantes das ilhas Elefante e Livingston, no arquipélago das Shetland do Sul, na Península Antártica, com bolsa de pós-doutorado e bolsa de estágio de pesquisa no exterior da FAPESP.
A pesquisa teve apoio também da Universidade do Vale do Rio dos Sinos e do National Institute of Standards and Technology dos Estados Unidos, com o apoio logístico do Programa Antártico Brasileiro.
O petrel-gigante-do-sul (Macronectes giganteus) é um animal magnífico e um importante predador de topo no Atlântico Sul e Oceano Austral. Com envergadura de asas de cerca de 2 metros, é uma das maiores aves voadoras do planeta, menor apenas que o albatroz e o condor. São também longevos. Petréis-gigantes podem viver mais de 50 anos. Passam a vida nos céus dos mares do Sul do planeta, à procura de comida.
Na época do acasalamento, durante o verão antártico, os petréis-gigantes retornam à mesma colônia onde nasceram. Para os biólogos, essa é uma vantagem para o estudo da espécie. Uma vez identificado e marcado, um indivíduo pode ter sua vida estudada por vários anos.
Nos verões antárticos de 2011/2012 e 2012/2013, Colabuono coletou amostras de sangue de 113 indivíduos e constatou a presença de contaminantes orgânicos como bifenilos policlorados (PCBs), hexaclorobenzeno (HCB), pentaclorobenzeno (PeCB), diclorodifeniltricloroetano (DDTs) e derivados, o pesticida clordano (banido nos Estados Unidos em 1988) e o formicida Mirex (banido nos Estados Unidos em 1978 e recentemente no Brasil).
Segundo Colabuono, todos esses poluentes orgânicos são persistentes no meio ambiente, têm ação cancerígena, causam disfunção hormonal e problemas reprodutivos. Os resultados foram publicados num artigo em Environmental Pollution.
Colabuono afirma que, comparado aos níveis de contaminação nas aves do hemisfério norte, os níveis de contaminação detectados nas colônias de petreis na Península Antártica ainda são baixos. O objetivo agora é monitorá-los no longo prazo, para se “ter um indicativo da tendência de aumento ou decréscimo desses contaminantes ao longo dos anos no ambiente em que estas aves vivem”, diz a bióloga.
Cadeia de contaminação
O DDT é transportado pelo ar e pela chuva. Uma vez em rios e lagos, se acumula na cadeia alimentar. Os insetos contaminados são comidos por peixes e estes por outros predadores. Em cada patamar da cadeia alimentar o nível de acúmulo de DDT nos tecidos aumenta.
Seus efeitos nocivos se tornam mais visíveis quando se atinge o ápice da cadeia, nos predadores de topo. O petrel-gigante é um deles. Ele se alimenta de peixes, lulas e até de carcaças de outras aves. Ou seja, no trajeto de uma longa vida, ao comer centenas de quilos de peixes contaminados, a quantidade de contaminantes nos tecidos do petrel sempre aumenta.
Foi o que aconteceu nos Estados Unidos com os falcões-peregrinos e os condores da Califórnia. Nos anos 1960, suas populações começaram a declinar dramaticamente. Os condores chegaram a contar apenas umas poucas centenas de indivíduos. Estavam a um passo da completa extinção.
Foi quando se descobriu o papel do DDT naquela tragédia. Ao se acumular no corpo das fêmeas adultas, o DDT era repassado à casca de seus ovos, que se tornavam finas e frágeis, partindo com grande frequência. A reprodução da espécie estava ameaçada. Em 1972, a produção, comercialização e o uso do DDT foram banidos nos Estados Unidos. Com o tempo, as populações de falcões e condores começaram a se recuperar.
O Brasil é atualmente o maior consumidor mundial de agrotóxicos. O uso proibido do DDT foi proibido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) apenas em 2009 – mas, como ele persiste no meio ambiente, sua presença ainda é detectada nos tecidos de animais como o petrel. A preocupação de Colabuono em acompanhar a vida de seus petréis-gigantes tem fundamento.
O artigo de Fernanda I. Colabuono, Stacy S. Vander Pol, Kevin M. Huncik, Satie Taniguchi, Maria V. Petry, John R. Kucklick, Rosalinda C. Montone, Persistent organic pollutants in blood samples of Southern Giant Petrels (Macronectes giganteus) from the South Shetland Islands, Antarctica, publicado em Environmental Pollution, pode ser acessado no endereçohttp://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0269749116304298.
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
Poluição: lixo, esgoto e metais pesados ameaçam os rios do Brasil
Se a importância de se
buscar o uso racional da água no dia a dia já é comumente disseminada
no meio empresarial e entre a população, a crise hídrica em São Paulo
evidencia a urgência da situação. Ainda que rios, lagos e córregos
abasteçam regiões inteiras e desempenhem um papel fundamental na vida de
todos, a preservação dos cursos d'água no Brasil está longe de ser a
ideal.
De acordo com uma
pesquisa desenvolvida pela ONG SOS Mata Atlântica, o cenário não é nada
favorável: apenas 11% dos rios brasileiros analisados foram considerados
de boa qualidade, enquanto 35% receberam a classificação de “ruins” e
5% estavam em situação crítica. O restante, 49%, é considerado pela
organização como regular.
Os piores índices
encontrados pelo estudo se localizam nos centros urbanos. Falta de
tratamento de esgoto, lançamento ilegal de efluentes industriais e
desmatamento, são as principais fontes de contaminação e poluição dos
recursos hídricos.
Os melhores índices,
por sua vez, estão em áreas protegidas pela lei, como a bacia do Alto
Tietê, na Área de Proteção Ambiental (APA) Capivari-Monos, em São Paulo;
em Extrema (MG), na APA Fernão Dias e no Espírito Santo, no município
de Santa Teresa, conhecido como Santuário Capixaba da Mata Atlântica. O
levantamento foi realizado em 177 pontos de 96 rios em sete estados
brasileiros.
De onde vem a poluição?
Convenções
internacionais estabelecem que qualquer tipo de material ou substância
que interfira no equilíbrio de um determinado ecossistema é considerado
um poluente. Neste sentido, a degradação dos nossos rios possui várias
causas, inclusive o comportamento inadequado ou conivente da população
ao fazerem o descarte de seus resíduos de forma irregular ou não
cobrarem de empresas e governos uma postura mais sustentável.
No caso das águas, os
principais e mais comuns poluentes são esgoto doméstico, petróleo e seus
derivados, metais pesados, substâncias organocloradas (poluentes
orgânicos persistentes) e o lixo. Veja abaixo como cada um dos fatores
impacta na sociedade e como você pode fazer para diminuir o dano ao
recurso natural mais precioso do planeta:
Esgoto doméstico
Com o lançamento do esgoto ou efluente doméstico
não tratado nos rios, há um aumento da matéria orgânica na água, o que
faz com que o equilíbrio local seja afetado, ocorrendo o aumento de
determinados microrganismos e a dificuldade de desenvolvimento de
outros. Esse processo, conhecido como eutrofização,
pode levar ao surgimento de microalgas e ao sufocamento de peixes e
outras espécies, além da transmissão de doenças presentes nas fezes
humanas para outros consumidores da água. Sem citar o fato de que o
esgoto doméstico pode estar contaminado com substâncias tóxicas não
orgânicas.
Neste caso, é preciso
conhecer bem qual a destinação correta para cada tipo de esgoto
produzido pela residência/indústria, além de procurar se informar sobre a
existência ou não de Estações de Tratamento de Esgoto (ETE) na região e
sua eficiência.
Efluentes industriais
O lançamento de efluentes provenientes das atividades
industriais em rios, lagos e córregos provocam um sério desequilíbrio no
ecossistema. As alta cargas poluentes presentes nesse tipo de resíduo
provocam efeitos tóxicos nos seres vivos do local, podendo se acumular
em seus organismos, influenciando também a rotina do ser humano, podendo
causar doenças e, em casos mais graves, até a morte. Veja mais em nosso
artigo “Conheça as doenças causadas pelo “não tratamento” do esgoto”.
Metais pesados
Geralmente resultantes de processos industriais,
substâncias como o mercúrio, o chumbo e o cádmio são classificados como
metais pesados e têm uma capacidade tóxica altíssima. Eles se acumulam
no organismo e podem causar sérios problemas, como câncer ou outras
doenças.
A medida para se evitar esse tipo de desastre cabe às
indústrias: todo os rejeitos do processo produtivo devem ser
corretamente destinados. Além disso, essas empresas precisam ser
fiscalizadas e monitoradas. Caso a indústria não realize o tratamento
adequado, esses metais serão lançados nos rios, contaminando todo o
curso de águas.
Poluentes Orgânicos Persistentes (POP)
Os poluentes orgânicos persistentes (POP) são
organoclorados que não se degradam facilmente na natureza e surgem da
produção de pesticidas e plásticos. Um exemplo de POP é o DDT, muito
usado na década de 70 em produtos de controle de pragas agrícolas.
Atualmente, como seus efeitos altamente nocivos são conhecidos, ele é
proibido. Mas é papel do consumidor sempre verificar se há presença
desse tipo de substância naquilo que consome.
Lixo
Se em terra firme o lixo mal destinado já traz sérias
consequências, imagina em alto mar, sem o menor controle? Através das
praias ou mesmo de esgotos sendo despejados diretamente nos rios, o lixo
chega diretamente à fauna marítima, sem contar as embarcações, tais
como veleiros, cargueiros ou navios turísticos, que despejam seus
resíduos nas águas. Nesse cenário, os animais muitas vezes confundem
plástico e vidro com seus alimentos naturais e morrem engasgados ou
sufocados.
quarta-feira, 16 de abril de 2014
O alerta dos sapos
Estudo em Rondônia revela alteração genética de espécies
pela poluição, com riscos para os humanos. Os animais podem ser usados
no monitoramento da contaminação dos ambientes em que vivem.
Por: Gabriel Toscano
Publicado em 16/04/2014
|
Atualizado em 16/04/2014
O ‘Leptodactylus petersii’ vive em qualquer fragmento de
vegetação e pode ser encontrado até em áreas urbanas. O animal é um bom
indicador de contaminação do ambiente. (foto: Francisco Carlos da Silva)
Desde o início da civilização, as cidades são construídas em locais
ricos em recursos hídricos, devido à necessidade constante de água para o
consumo direto da população e para as atividades humanas. Nos centros
urbanos, porém, é gerado um grande volume de lixo, com muitos materiais e
fluidos poluentes, e nem sempre os mananciais que fornecem a água estão
protegidos desses resíduos, descartados sem cuidado. A conta acaba
sendo paga pelos ambientes naturais.
Cientes do problema, pesquisadores do Centro Universitário Luterano
de Ji-Paraná (Ceulji), em Rondônia, ligado à Universidade Luterana do
Brasil (Ulbra), estão realizando testes em material biológico do anfíbio
Leptodactylus petersii para detectar lesões causadas ao animal pela poluição e avaliar como o ambiente, e os humanos que ali vivem, são afetados.
A técnica pode revelar alterações genéticas, que ocorrem quando o pequeno sapo entra em contato com a poluição.
Na pesquisa, liderada pelo biólogo Francisco Carlos da Silva, é
extraída uma pequena fração de células da epiderme dos animais, para a
realização do chamado teste de micronúcleo. Essa técnica pode revelar
alterações genéticas, que ocorrem quando o pequeno sapo entra em contato
com a poluição.
Como o L. petersii vive em qualquer fragmento de vegetação, é
muito comum encontrar a espécie mesmo em áreas urbanas, desde que
existam pequenas regiões alagadiças. As áreas de preservação permanente
situadas no perímetro urbano de Ji-Paraná seriam o ambiente ideal para
esses animais. Entretanto, essas áreas, onde está sendo realizada a
pesquisa, vêm sofrendo despejo de esgoto irregular. Como os anfíbios,
como o nome indica, vivem tanto em terra quanto dentro da água, eles
ficam expostos diretamente à poluição. Por isso, são considerados bons
indicadores ambientais.
Embora a pesquisa esteja no início, já apresenta alguns resultados.
As análises das primeiras amostras de pele dos sapos constataram a
presença de micronúcleos nas células. Estes se formam quando, nos
cromossomos, fragmentos alterados por poluentes tóxicos são ‘cortados’
por mecanismos genéticos capazes de corrigir erros no processo de
divisão das células. Os fragmentos permanecem na célula, envolvidos por
uma membrana, e se parecem com pequenos núcleos. Sua existência,
portanto, revela que a poluição já está causando alterações genéticas
nos anfíbios.
As setas vermelhas
indicam os micronúcleos que se formaram nas células dos anfíbios, em
decorrência de alterações genéticas causadas pela poluição. (foto:
Francisco Carlos da Silva)
Da Silva chama a atenção para o perigo de as alterações atingirem as
células reprodutivas dos animais. “Se agentes genotóxicos presentes
nesses ambientes atingirem as células germinativas (gametas), provocarão
a formação de genes defeituosos. Nesse caso, podem nascer indivíduos
com anomalias, que seriam transmitidas aos seus descendentes”, explica.
Biomonitoramento ampliado
O grupo de pesquisa pretende expandir o biomonitoramento ambiental. A
ideia é realizar as análises não só nos anfíbios, mas também em
espécies da vegetação e de peixes nas áreas estudadas. Uma das linhas de
estudo, já em andamento, é a germinação de sementes de cebola na água
dos mananciais, para verificar se ocorre alguma anomalia em seu
desenvolvimento.
Os peixes são importantes porque é por meio deles que o problema pode
atingir a população humana. Na região, peixes fazem parte da dieta
habitual dos moradores, e o consumo da carne contaminada pode levar a
problemas de saúde. Como já foram confirmados os danos genéticos na
espécie L. petersii, que vive na mesma área e compartilha a
mesma água, os pesquisadores acreditam que os peixes também possam
sofrer o mesmo impacto.
Despejos irregulares de esgoto podem comprometer o ecossistema. (foto: Rafaelle Nazário Viana)
As mutações e seus efeitos na vida dos animais podem abalar o
ecossistema. Os sapos, por exemplo, são essenciais para o equilíbrio
biológico do ambiente, pois, em condições normais, se alimentam de
grande quantidade de insetos. Se as mutações levarem à redução da
população de sapos, poderia ocorrer a proliferação excessiva de
mosquitos, formigas, baratas, entre outros insetos.
Da Silva: “Quanto mais poluição, provavelmente maior é a interferência na formação genética dos seres que vivem no ambiente”
Da Silva lembra que o estudo é feito em Rondônia, mas o perigo existe
em todo o Brasil, em especial nas grandes cidades. “Quanto mais
poluição, provavelmente maior é a interferência na formação genética dos
seres que vivem no ambiente”, alerta.
Segundo o biólogo, o principal objetivo da pesquisa é, com o
biomonitoramento, mostrar a importância da preservação ambiental não
apenas para a população, mas também para as grandes empresas e o
governo, que têm a capacidade de investir no tratamento dos resíduos,
evitando seu descarte na natureza.