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quinta-feira, 22 de agosto de 2024

 

Rochas revelam a variação da altura do mar na costa brasileira

Como parte de um fenômeno cíclico, atualmente intensificado pelas mudanças climáticas, as águas do Atlântico estavam a 3 metros acima da altura atual há 4,7 mil anos na região do Recife

Falésia Ponta dos Três Irmãos, em São Bento do Norte (RN), com até 8 metros de altura: os arenitos (como no detalhe) indicam onde o mar chegava há 120 mil anos

Helenice Vital / UFRN

Os geólogos sabem há tempos que o mar estava mais ou menos a 125 metros (m) abaixo do atual limite entre as praias e as ondas na cidade do Recife, em Pernambuco, há 20 mil anos. Naquele período, uma floresta ocupava a região que viria a ser a praia de Boa Viagem, uma das mais conhecidas da capital pernambucana. Talvez houvesse até mesmo rios com cachoeiras caindo das elevações que hoje formam a plataforma continental, limite entre os trechos mais rasos e mais profundos do mar.

Depois o mar subiu e, de acordo com análises do geógrafo Antonio Vicente Ferreira Junior, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), entre 4,7 mil e 4,1 mil anos atrás, o nível médio na região do Recife e dos municípios costeiros mais próximos ao norte e ao sul pode ter atingido 3 m acima do nível médio atual. Seria o bastante para as ondas cobrirem a foz do rio Capibaribe, as avenidas à beira-mar e o antigo centro das cidades litorâneas da região metropolitana.


Estudos como este, publicado em abril na Ocean and Coastal Research, completam, detalham e eventualmente corrigem as informações obtidas por técnicas menos precisas que as atuais. Servem também para indicar as áreas mais vulneráveis à elevação do nível do mar, que deve ser intensificada nas próximas décadas pelas mudanças climáticas. O aumento da temperatura média anual do planeta aquece o oceano e faz seu volume expandir-se; pela mesma razão, as geleiras em terra firme derretem, o que também contribui para o aumento do volume dos mares.

Praia de Enxu Queimado, em São Miguel do Gostoso (RN), com arenitos expostos, que mostram a variação do nível médio do mar nos últimos 10 mil anosHelenice Vital / UFRN


“Nos anos 1980, não tínhamos GPS geodésico, com o qual hoje medimos a altitude de um ponto com grande precisão”, comenta o geólogo José Maria Landim Domingues, da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Ele estava no doutorado quando participou da equipe coordenada pelos geólogos Kenitiro Suguio (1937-2021), da Universidade de São Paulo (USP), e Louis Martin, do Escritório de Pesquisa Científica e Técnica no Exterior (Orstom), hoje Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD), da França.

Os três e outros geólogos coletaram e analisaram cerca de 700 amostras de rochas e restos de organismos marinhos ao longo de metade do litoral, do norte de Alagoas ao sul de Santa Catarina. Esse estudo, publicado em 1985 na Revista Brasileira de Geociências, mostrou variações locais e regionais do nível médio do mar – no Nordeste, pode ter chegado a 5 m acima do atual há cerca de 5,7 mil anos, enquanto no Sul não teria passado de 3 m.

Aos poucos, um conceito se assentou: “Há alguns anos se falava em uma variação global uniforme do nível do mar, mas hoje sabemos que cada região tem suas peculiaridades, por causa da geologia e do relevo”, comenta a geóloga Helenice Vital, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Com sua equipe, ela acompanha há 20 anos a oscilação do mar no litoral potiguar (ver infográfico abaixo), publicando suas descobertas desde 2006 em revistas especializadas como a Marine Geology.


Definido como a altitude média da superfície dos oceanos, o nível do mar foi registrado pela primeira vez no Brasil pelo astrônomo português Bento Sanches Dorta (1739-1794) em 1781 na baía de Guanabara, e com regularidade a partir de 1831, também no Rio de Janeiro. O sobe e desce do mar reflete as forças gravitacionais da Lua e do Sol sobre a Terra, as deformações na superfície dos oceanos, o derretimento ou a formação de geleiras e a mudança do eixo da Terra, que faz o mar balançar como se estivesse em um prato suspenso no ar.

Rochas e conchas
Retratada em paredes de rochas à beira-mar, a oscilação da altura média do mar pode ser medida de várias formas. Os grupos de Vital e de Ferreira examinaram as variações nos últimos 10 mil anos, o período geológico conhecido como Holoceno, por meio de rochas chamadas arenitos de praia (ou beachrocks), que indicam os antigos limites do mar. Elas se formam somente na linha de costa, a fronteira entre a terra e o mar, quando a água dos rios encontra a do mar e faz o carbonato de cálcio (CaCO3) de organismos marinhos se dissolver e cimentar os sedimentos. Segundo Landim, essa cimentação foi registrada pela primeira vez pelo empresário e historiador português Gabriel Soares de Sousa (1540-1591) no Tratado descritivo do Brasil, de 1587, ainda que atribuindo a formação do que chamou de seixinhos de praia ao congelamento da areia em contato “com a frialdade da água do mar”. A análise microscópica e a datação do carbono de uma das formas de CaCO3 de conchas incrustadas nas rochas indicam quando as camadas das rochas se formaram e, a partir daí, a variação do nível do mar em um lugar específico.

No início de junho, o geólogo Rodolfo José Angulo, com sua equipe da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e colegas do exterior, percorreu as praias de Laguna, em Santa Catarina, em busca de outro indicador da variação do nível do mar: os caracóis marinhos conhecidos como vermitídeos. A determinação da idade de uma das formas de carbono da couraça desses moluscos indica quando esses organismos se fixaram em rochas que estavam próximas à linha de maré baixa.

“Às vezes, encontramos vermitídeos em morros, indicando que naquele lugar o nível do mar já esteve mais alto”, comenta. Seu plano é descobrir como o mar subiu e desceu no litoral catarinense em um período mais recente, os últimos 300 anos, somando as informações das cascas dos moluscos com as dos dois tipos de aparelhos que acompanham a oscilação do mar, os marégrafos (o Brasil tem uma rede de cerca de 330 aparelhos ao longo do litoral) e satélites artificiais, como o Copernicus Sentinel-6, da Agência Espacial Europeia (ESA).

Arenitos, vermitídeos e corais já serviram para o grupo da UFPR mostrar que o nível do mar, entre 6 mil e 5 mil anos atrás, deveria estar a quase 3 m acima do atual no arquipélago de Abrolhos e a 4,5 m acima no atol das Rocas, ambos na costa brasileira. Os resultados foram detalhados em artigos publicados em maio e agosto de 2022 na Marine Geology.

Praia de Muro Alto, em Ipojuca (PE), com uma faixa de arenitos superficiais que se estende por 4,7 kmAntonio Vicente Ferreira Junior / UFPE

Em conjunto, esses estudos revelam as transformações do litoral brasileiro. “Há 120 mil anos, a plataforma continental de Pernambuco era parte do continente”, comenta Ferreira. Landim ajuda a enriquecer a paisagem milenar: “Há 20 mil anos, não existiam as baías de Todos os Santos [BA] e da Guanabara [RJ] nem a lagoa dos Patos [RS]. Estava tudo coberto por vegetação, até o mar subir e inundar tudo”.

Depois de recuar, subir e estabilizar-se, o nível do mar apresenta uma clara tendência de novamente se avolumar, em todo o mundo. “É inquestionável que o mar está subindo nas últimas décadas”, afirma Angulo.

De acordo com a Nasa, a agência espacial norte-americana, o nível médio global do mar aumentou cerca de 9,4 centímetros (cm) desde 1993; entre 2022 e 2023, o aumento foi de 0,7 cm, em razão do aquecimento global e do El Niño intenso. “Em teoria, deveríamos estar entrando em um período geológico de resfriamento, com recuo da linha da costa”, diz Vital. “Mas não é o que estamos vendo.”

No site Sea Level, a Nasa projeta uma elevação do mar de 10 cm em 2030 para Belém, Recife, Rio de Janeiro e Cananéia, no litoral paulista. Um grupo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) também prevê uma elevação de 70 cm até 2100 na ilha Fiscal, no limite do centro histórico da capital fluminense, como argumentado em um artigo de março na Natural Hazards. Seria o bastante para causar a perda das áreas remanescentes de manguezais, aumentar as inundações marinhas e prejudicar lugares turísticos da cidade do Rio. A perspectiva de danos intensos tem feito municípios costeiros do Brasil planejarem medidas de prevenção contra a subida do mar (ver Pesquisa FAPESP nº 238).

“Para definirmos as áreas mais vulneráveis à elevação do nível do mar, precisamos fazer mapeamentos com precisão, na escala de centímetros”, diz Landim. Usando uma tecnologia de sensoriamento remoto que usa feixes de laser chamada Lidar (Light Detection and Ranging), ele verificou que, no município de Belmonte, no sul da Bahia, as áreas mais sensíveis são pouco ocupadas pelos moradores. “Praias urbanas estreitas, comprimidas entre as avenidas e o mar, tendem a desaparecer, a não ser que ganhem areia, um processo caro” (ver Pesquisa FAPESP no 338).

O avanço do mar sobre ilhas e continente está longe de ser uma possibilidade remota. Em junho, por causa da elevação do nível do mar, o governo do Panamá, na América Central, solicitou a cerca de mil moradores da ilha Gardi Sugdub, uma das 50 ocupadas pelos indígenas Guna, que se mudassem para uma cidade recém-construída no continente, com casas pré-fabricadas. De acordo com uma reportagem da CNN, as casas ainda não tinham acesso à água nem a serviços de saúde. A mudança, no entanto, é necessária. “Dentro de 40 a 80 anos – dependendo da altura das ilhas e da taxa de aumento do nível do mar –, a maioria, se não todas as ilhas habitadas da região, estará submersa”, alertou para a CNN Steven Paton, diretor do programa de monitoramento físico do Smithsonian Institution no Panamá.

A reportagem acima foi publicada com o título “As marcas das antigas marés” na edição impressa nº 342, de agosto de 2024.

Artigos científicos
ANGULO, R. J. et al. Mid-to Late Holocene sealevel changes at Abrolhos archipelago and Bank, southwestern Atlantic, Brazil. Marine Geology. v. 450, 106841. ago. 2022.
ANGULO, R. J. et al. Paleo-sea levels, Late-Holocene evolution, and a new interpretation of the boulders at the Rocas Atoll, southwestern Equatorial Atlantic. Marine Geology. v. 447, 106780. mai. 2022.
CALDAS, L. H. de O. et al. Holocene sea level history: Evidence from coastal sediments of the northern Rio Grande do Norte coast, NE Brazil. Marine Geology. v. 228, n. 1-4, p. 39-53. 30 abr. 2006.
FERREIRA JÚNIOR, A. V. et al. Beachrocks of the northeast of Brazil: Local effects of sea level fluctuations in a far-field during in Holocene. Ocean and Coastal Research. 2024, v. 72, e24022. 12 abr. 2024.
SUGUIO, K. et al. Flutuações do nível relativo do mar durante o quaternário superior ao longo do litoral brasileiro e suas implicações na sedimentação costeira. Revista Brasileira de Geociências. v. 15, n. 4, p. 273-86. ago. 1985.
TOSTE, R. et al. Dynamically downscaled coastal flooding in Brazil’s Guanabara Bay under a future climate change scenario. Natural Hazards. On-line. 26 mar. 2024.























































sábado, 17 de agosto de 2024

 

O mistério da pedra central de Stonehenge é descoberto

sábado, 10 de agosto de 2024

 

Estudo de rochas antigas na Austrália indica que placas tectônicas começaram a se formar há pelo menos 3 bilhões de anos

Knox Gorge no Parque Nacional Karijini, Pilbara, Austrália Ocidental.
O desfiladeiro Knox no Parque Nacional Karijini na região de Pilbara, Austrália Ocidental. (Crédito da imagem: Posnov/Getty Images)

Cientistas podem ter descoberto a falha de corte de arco mais antiga do mundo nos desertos remotos do noroeste da Austrália. A descoberta demonstra que os processos tectônicos de placas estavam operacionais há pelo menos 3 bilhões de anos, alimentando o debate científico em andamento.

"Este estudo demonstra claramente os movimentos horizontais das placas antes de 3 bilhões de anos atrás", disse o coautor do estudo Timothy Kusky , diretor do Centro de Tectônica Global da Universidade de Geociências da China , à Live Science.

No novo estudo, publicado em 15 de julho no periódico Geology, pesquisadores revelaram que há cerca de 3 bilhões de anos, grandes blocos de rocha do tamanho de uma cidade se moveram horizontalmente uns sobre os outros por pelo menos 19 milhas (30 quilômetros). Os padrões lembram o que os geólogos chamam de falhas de transformação de corte de arco, vistas em arcos vulcânicos ativos como os Andes e Sumatra. Se as descobertas estiverem corretas, essas rochas danificadas podem ser a evidência mais antiga de movimentos horizontais de placas, disseram os pesquisadores, embora nem todos os especialistas estejam convencidos.

A tectônica de placas, a teoria que sustenta a atividade geológica da Terra, molda nosso planeta com montanhas, continentes em movimento e convulsões sísmicas. No entanto, apontar as origens desse processo fundamental continua sendo um debate contencioso.

Relacionado: A tectônica de placas da Terra começou centenas de milhões de anos antes do que pensávamos, revelam cristais antigos

Modelos indicam que a Terra primitiva tinha correntes de convecção menos desenvolvidas, necessárias para impulsionar a tectônica de placas, sugerindo que uma crosta externa espessa e rígida formou uma "tampa estagnada", limitando movimentos horizontais dinâmicos. Embora corpos de magma possam ter subido e se solidificado, placas rígidas não conseguiram colidir ou subduzir para formar as cadeias de montanhas vulcânicas observadas hoje. O debate gira em torno de quando as correntes de convecção se desenvolveram, permitindo que a "tampa estagnada" da Terra se quebrasse em placas tectônicas individuais.

Alguns cientistas argumentam que a tectônica de placas começou no Hadeano, há mais de 4 bilhões de anos. Outros acreditam que a primitiva "tampa única" ou "tampa estagnada" dominou a Terra primitiva até cerca de 1 bilhão de anos atrás.

Modelagem recente de IA sugere que a atividade tectônica pode remontar ao éon Hadeano, há mais de 4 bilhões de anos. No entanto, validar modelos com pistas diretas das rochas mais antigas e raramente preservadas da Terra é um desafio monumental.

Estudar esses processos iniciais é difícil devido à escassez de rochas antigas. Mas o Cráton de Pilbara, na Austrália, com suas rochas de 3,59 bilhões de anos, é uma região vital para entender as origens da tectônica de placas. "O Cráton de Pilbara é onde os geólogos definiram pela primeira vez a hipótese da 'tampa estagnada'", disse Kusky. A zona de cisalhamento de Mulgandinnah — uma ampla região de deformação intensa, incluindo falhas horizontais, dentro do Cráton de Pilbara — pode oferecer insights cruciais para esse debate.

imagem aérea em cores falsas do cráton de Pilbara, na Austrália, mostrando linhas de rochas quebradas

Imagem aérea em cores falsas do Cráton de Pilbara, na Austrália Ocidental.(Crédito da imagem: imagem do Observatório Terrestre da NASA por  Joshua Stevens , usando dados da NASA/METI/AIST/Japan Space Systems e da  equipe científica ASTER dos EUA/Japão .)

Os pesquisadores usaram observações de campo clássicas e dados magnéticos de alta resolução para conectar características enterradas com geologia de superfície. Eles se basearam em estudos anteriores que datavam o movimento em cerca de 3 bilhões de anos atrás, empregando técnicas de geologia estrutural para reconstruir o deslocamento de grandes corpos rochosos, antes conectados, em pelo menos 19 milhas (30 quilômetros).

Quando as placas colidem em ângulos estranhos nos arcos vulcânicos atuais, falhas de transformação de corte de arco se desenvolvem, permitindo movimento horizontal e vertical. Como os tipos de rochas e padrões de destruição da zona de cisalhamento de Mulgandinnah são tão semelhantes aos arcos vulcânicos modernos, Kusky explicou que apenas a subducção profunda, onde uma placa desliza sob a outra, poderia ser responsável por essas observações. Consequentemente, essas descobertas validam modelos de IA recentes que sugerem que as placas tectônicas estavam ativas há pelo menos 3 bilhões de anos, e possivelmente há mais de 4 bilhões de anos.

Esses estudos "representam os últimos pregos no mito de que uma tampa estagnada dominava a Terra primitiva", disse Kusky.

Nem todos concordam que este novo estudo encerra o debate. Taras Gerya , professor de ciências da Terra no Instituto Federal Suíço de Tecnologia de Zurique, que não estava envolvido no estudo, continua cauteloso. "Não há consenso sobre evidências de subducção em Pilbara", ele disse à Live Science. Ele sugeriu que outros processos poderiam produzir observações semelhantes. "Este padrão de falha também poderia se desenvolver em um chamado regime de tampa mole", ele acrescentou, observando uma condição intermediária em que a litosfera da Terra se comporta como uma camada "mole" ou semirrígida em vez de uma placa totalmente rígida.

No entanto, Simon Lamb , professor associado de geologia na Victoria University of Wellington Te Herenga Waka na Nova Zelândia que revisou o estudo, acha a evidência persuasiva. "É difícil imaginar como deslocamentos tão grandes poderiam ter ocorrido sem subducção. Portanto, vejo isso como evidência convincente para a tectônica de placas", disse Lamb à Live Science.

Kusky resume: "Se parece, cheira, provavelmente é isso."

Evan Howell
Colaborador da Live Science

Evan Howell é um escritor científico freelancer baseado no Colorado, contribuindo para a Live Science com foco em geociências. Ele também escreveu para a Eos Magazine e produziu centenas de artigos de blog e episódios de podcast sobre diversos tópicos, incluindo psicologia, economia comportamental e finanças pessoais. Evan obteve seu bacharelado e mestrado em Geologia pela Appalachian State University e Northern Arizona University, respectivamente, e tem mais de dez anos de experiência como Geólogo Sênior.