Uma vez degradado, o Cerrado não se regenera naturalmente
20 de fevereiro de 2018
José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – Alguns dos
mais importantes rios do Brasil – Xingu, Tocantins, Araguaia, São
Francisco, Parnaíba, Gurupi, Jequitinhonha, Paraná e Paraguai, entre
outros – nascem no Cerrado. Trata-se da única savana do planeta dotada
de rios perenes. A rápida conversão do Cerrado em pastagens e lavouras e
o manejo inadequado das áreas preservadas colocam em risco esse
formidável recurso natural, em um país com o terceiro maior potencial
hidrelétrico tecnicamente aproveitável do mundo, e em que 77,2% da
matriz elétrica é suprida pela hidroeletricidade.
Abandonadas, áreas do bioma
convertidas em pastagens se transformam em cerradão, uma formação de
vegetação adensada mas pobre em biodiversidade, indica pesquisa feita na
Unesp (fotos: divulgação)
Além disso, a destruição do Cerrado constitui uma perda inestimável
em termos de biodiversidade, pois, na microescala, esse bioma, que pode
apresentar 35 espécies diferentes de plantas por metro quadrado, é mais
rico em flora e fauna do que a floresta tropical (
leia em: http://agencia.fapesp.br/25865).
Sabe-se que o Cerrado tem um potencial de regeneração natural muito
alto. Mas até que ponto vai sua resiliência? O que é necessário para
que, uma vez convertido em pastagens, o Cerrado recupere sua
configuração natural? Quanto tempo seria necessário para isso?
Um novo estudo, feito na Universidade Estadual Paulista (Unesp) e com resultados publicados no
Journal of Applied Ecology, procurou responder a essas perguntas.
“Nosso esforço inicial foi localizar, no Estado de São Paulo, as
áreas de antigas pastagens que agora se encontram em regeneração natural
na condição de ‘reserva legal’”, disse a coordenadora do estudo
Giselda Durigan, professora da pós-graduação em Ciência Florestal da Unesp e pesquisadora do Instituto Florestal do Estado de São Paulo.
O trabalho foi realizado no âmbito do doutorado de
Mário Guilherme de Biagi Cava, com Bolsa da FAPESP e orientação de Durigan, e também apoiado por meio de um Auxílio à Pesquisa concedido ao professor
Milton Cezar Ribeiro e de uma Bolsa de Doutorado a
Natashi Aparecida Lima Pilon.
“Foram encontradas mais de 80 áreas, o que pareceu de saída um dado
bastante promissor. Mas o entusiasmo inicial de meu orientando foi
arrefecido pela resistência dos proprietários em permitir o acesso às
áreas para amostragem. E isso nos levou a uma primeira constatação: a de
que o rigor das leis de preservação não tem sido acompanhado da
necessária assistência que deveria ser prestada pelo poder público aos
particulares para a restauração da vegetação”, disse.
Apesar do interesse social de uma pesquisa como essa, a oposição dos
proprietários fez com que a amostragem fosse reduzida para 29 áreas, que
haviam sido convertidas de Cerrado em pastagens, e foram posteriormente
incorporadas como unidades de conservação ou reservas legais de
empresas de reflorestamento, usinas e propriedades agropecuárias.
Nelas, foi feito o levantamento da vegetação, tanto das árvores
quanto das plantas pequenas que compõem o estrato herbáceo-arbustivo e
que constituem a maior riqueza da flora do Cerrado. Apesar de estarem
localizadas em regiões diferentes, essas 29 áreas, com idades variando
de quatro a 25 anos, puderam ser ordenadas em uma sequência cronológica
no que se refere ao estágio de regeneração.
“Para resumir nossos resultados, de maneira bastante simplificada,
descobrimos que o estrato arbóreo se recupera, até mesmo com muita
facilidade. Mas, uma vez eliminada, a vegetação rasteira ou de pequeno
porte, que compõe o estrato herbáceo-arbustivo e que contém a maior
parte das espécies endêmicas, não se regenera. Então, quando a pastagem é
simplesmente abandonada, ela se transforma, depois de algum tempo, em
um cerradão, que é uma formação caracterizada por vegetação muito
adensada, com grande predomínio de árvores e pobre em biodiversidade”,
afirmou Durigan.
As árvores se recuperam por possuírem raízes muito profundas e terem
evoluído, ao longo de milhões de anos, desenvolvendo a capacidade de
rebrotar inúmeras vezes.
“Quem tenta implantar pastagens no Cerrado sabe que o custo maior de
manutenção é a roçada. Sem que seja roçada pelo menos de dois em dois
anos, a vegetação arbórea volta a se impor. Não é possível eliminá-la
nem aplicando herbicida”, disse Durigan.
Porém o estrato herbáceo-arbustivo, que é removido para a implantação
das pastagens, não se recompõe, devido à invasão dos terrenos por
gramíneas exóticas muito resistentes e agressivas: as braquiárias.
“Essas só desaparecem com o sombreamento, causado pelo adensamento
das árvores. Mas, quando desaparecem as gramíneas exóticas, as plantas
originais de pequeno porte, que foram completamente erradicadas pelos
herbicidas, pelas roçadas e pela competição com as braquiárias e que não
toleram a sombra, também não voltam mais”, continuou a pesquisadora.
Para fazer com que a área voltasse a abrigar um cerrado típico, seria
necessário eliminar as gramíneas exóticas, com manejo por meio de fogo
associado a herbicida, e, depois, reintroduzir as espécies nativas. Mas
isso constitui uma operação difícil e cara, que, com os recursos atuais,
não pode ser realizada em larga escala.
“Temos pesquisado diferentes técnicas para promover a recuperação.
Com sementes, é necessária uma quantidade gigantesca, que não há nem de
onde tirar. O que deu muito certo, em escala experimental, foi o
transplante do estrato herbáceo-arbustivo: a camada superficial do solo,
acompanhada das touceiras de capim e das pequenas plantas”, disse
Durigan.
“O grande problema é que, no Estado de São Paulo, já não há mais
áreas-fonte para isso. O que sobrou de Cerrado aberto está invadido por
gramíneas exóticas. Então, quando se transplanta a camada superficial do
solo, a braquiária vai junto. Isso acontece inclusive nas áreas
protegidas”, acrescentou.
Floresta degradada
O estudo feito na Unesp permitiu fechar um diagnóstico e fazer
predições. Espontaneamente, uma vez degradado, o cerrado típico não se
recompõe totalmente. Para que uma área de pastagem volte a ser um
cerrado típico, com riqueza de biodiversidade, com a flora
característica, com
habitats para fauna especializada em savana, é
necessário manejo humano: não se pode deixar que o adensamento das
árvores passe do limiar de 15 metros quadrados por hectare; é preciso
erradicar o capim exótico; e deve-se reintroduzir o estrato
herbáceo-arbustivo nativo.
Evoluindo espontaneamente, sem manejo, em 49 anos a vegetação arbórea
nas antigas áreas de pastagem irá se transformar em cerradão. A
cobertura esparsa de solo característica do cerradão é alcançada em
quatro anos e a biodiversidade pobre do estrato herbáceo é obtida em 19
anos. “O processo é rápido, mas os resultados não são os que procuramos.
O cerradão não se distingue de uma floresta degradada”, disse Durigan.
Dois anos depois do levantamento, já na segunda fase do doutorado de
Cava, os pesquisadores vão voltar às mesmas áreas em fevereiro e março
de 2018, e medir tudo novamente, para obter a taxa precisa de aumento de
cobertura, densidade e biodiversidade.
“Esses valores precisos nos permitirão saber com exatidão qual é o
potencial de regeneração das diferentes áreas e quais são os fatores
favoráveis. É o tipo de solo? É a distância a uma fonte de sementes? É a
proximidade de recursos hídricos? Todos esses parâmetros serão
considerados”, disse Durigan.
Conforme afirmou, o artigo publicado por seu grupo é muito inovador
porque não há ninguém em outros países tratando de recuperação de
savanas.
“Isto porque ainda não ocorreu na África nem na Austrália um processo
similar ao que estamos vivendo aqui, de conversão da savana em
pastagens extensivas e em grandes lavouras de soja, cana ou milho. Na
África, as savanas estão bem degradadas, mas devido ao sobrepastoreio, à
exploração de lenha e a outras ações cujos impactos são menos visíveis
no curto prazo. No Brasil, estamos presenciando transformações que
ocorrem de um dia para o outro”, comentou a pesquisadora.
O artigo
Abandoned pastures cannot spontaneously recover the attributes of old-growth savanas
(doi: 10.1111/1365-2664.13046), de Mário G. B. Cava, Natashi A. L.
Pilon, Milton Cezar Ribeiro e Giselda Durigan, está publicado em
http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/1365-2664.13046/full.