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segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Estudo desvenda processos envolvidos na regeneração da ponta do dígito de mamíferos Pesquisadores da Unicamp observaram que a extremidade do dedo cresce quando amputada porque é composta de pele, osso e unha, três tecidos que se recuperam naturalmente após sofrer dano (imagem: Lucimara Sensiate e Henrique Marques-Souza)

Estudo desvenda processos envolvidos na regeneração da ponta do dígito de mamíferos

12 de setembro de 2019

André Julião, de Campos do Jordão  |  Agência FAPESP – Cientistas há muito procuram desvendar o mecanismo envolvido no processo de regeneração da ponta de um dígito amputada, acreditando que aí estaria a chave para a regeneração completa de membros lesionados, como ocorre com as salamandras.

Esses anfíbios, quando perdem uma pata ou a ponta do rabo, formam no lugar um blastema, conjunto de células indiferenciadas capazes de recriar todos os tecidos perdidos, originando um membro igual ao que existia no local. Nunca algo parecido foi observado em mamíferos.

Em um artigo publicado na revista Scientific Reports, pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) contestam as expectativas otimistas. Em vez da chamada regeneração epimórfica, como a das salamandras, na qual até mesmo as articulações e a função do membro amputado são recuperadas, na ponta do dígito de mamíferos ocorre o crescimento de basicamente três tecidos que naturalmente realizam essa função quando danificados: unha, pele e osso.

Eles mostraram, portanto, que o processo observado nos dedos de mamíferos é muito mais simples do que se esperava e, por isso, não é modelo para a regeneração de membros.

O estudo foi apresentado na última segunda-feira (9/9), durante o 3rd Australia Brazil Chile Regenerative Medicine and Developmental Biology Symposium, que integra a programação da 34ª Reunião Anual da Federação de Sociedades de Biologia Experimental (FeSBE), em Campos do Jordão (SP).

O trabalho é assinado pela doutoranda Lucimara A. Sensiate e seu orientador, Henrique Marques Barbosa de Souza, ambos do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp. O estudo teve Auxílio à Pesquisa da FAPESP na modalidade Apoio a Jovens Pesquisadores.

“Vimos que a ponta do dedo é muito mais simples do que o dígito inteiro ou um braço, por exemplo. Ela não tem músculo, glândulas ou articulações, mas basicamente unha, pele e osso. Esses três tecidos têm uma capacidade natural de regeneração”, disse Souza.

O crescimento da ponta do dígito, portanto, não é uma regeneração no sentido estrito da palavra, mas uma sucessão de fenômenos bastante conhecidos. Assim como qualquer ferimento na pele, a lesão causada pela amputação cicatriza pela migração dos queratinócitos, células da pele que produzem queratina.

A unha parcialmente cortada retoma seu crescimento por ser dotada de uma grande quantidade de células-tronco que induzem esse fenômeno durante toda a vida do organismo. Entretanto, o crescimento mais importante neste processo é o crescimento do tecido ósseo, que ocorre naturalmente quando se sofre uma fratura, por exemplo.

Esse crescimento se dá por meio das chamadas células osteoprogenitoras. Cientistas já haviam mostrado que a unha é fundamental para o crescimento ósseo após a amputação de dígitos de camundongos, induzindo o chamado crescimento distal no formato pontiagudo característico de falanges distais, a ponta do dedo.

Novo velho modelo

Para demonstrar o fenômeno, os pesquisadores fizeram experimentos com camundongos, o modelo animal mais usado para estudar a regeneração da ponta do dígito. Dois grupos de animais foram submetidos a dois tipos de amputação: distal e proximal.

A amputação distal elimina cerca de 25% da extremidade do dígito, mas resulta no crescimento da ponta, com morfologia semelhante a dígitos não amputados. Já na amputação proximal, o corte elimina em torno de 50% do dígito, mas a lesão se fecha sem que haja crescimento ósseo ou da unha.
Para incluir estruturas mais complexas em uma amputação distal, os pesquisadores realizaram ainda uma amputação distal em um ângulo oblíquo, retirando também uma estrutura denominada coxim, que, além da pele, possui glândulas, gordura e outros tecidos. Se os dígitos amputados distalmente possuíssem capacidade de regeneração epimórfica, o coxim do dedo também seria recuperado.

Passados 30 dias das amputações, os dígitos que haviam sofrido o corte distal (ângulo reto) tinham reconstituído a unha, a falange terminal e a pele, reproduzindo o formato original. No entanto, os dígitos que sofreram o corte distal oblíquo recuperaram todas estas estruturas, mas foram incapazes de regenerar o coxim.

“Isso mostra que estruturas que não possuem capacidade intrínseca de retomar crescimento não são induzidas a se regenerar após uma amputação”, disse o pesquisador.
Nas amputações proximais não houve nenhuma regeneração, apenas cicatrização. Os pesquisadores mostraram que nesse corte mais profundo é removida uma região conhecida como periósteo, rica em células produtoras de tecido ósseo. Trabalhos de outros grupos dão conta de que, na cabeça dos veados, o periósteo é essencial no renascimento da galhada dos animais, que cai de tempos em tempos. Isso mostra uma conexão entre essas células e o crescimento ósseo em mamíferos.
A células da região do periósteo são estimuladas por uma via de sinalização, mediada por proteínas da família Wnt, que induz células mesenquimais a se diferenciarem em células osteoprogenitoras e a secretarem matriz óssea. Trabalhos anteriores demonstraram que a presença dessa via de sinalização na base da unha é fundamental para o crescimento ósseo após amputações distais.

Em amputações proximais, tal sinalização não aconteceria e, por isso, o osso não cresce. Quando outros grupos de pesquisa forçaram a sinalização em amputações proximais, conseguiram reverter o fenótipo e o dígito apresentou o crescimento ósseo e, com isso, o formato similar ao dígito não amputado.

Outra evidência de que a regeneração da ponta do dígito é basicamente um crescimento ósseo é que, em estudos de outros grupos, foi aplicada em uma amputação proximal uma microesfera capaz de liberar BMP, proteína que induz crescimento ósseo usada para tratamentos dentários e de fraturas. Mesmo sem o periósteo, o osso cresceu em forma de ponta.

“Portanto, o que precisa acontecer após a amputação é basicamente a indução de crescimento ósseo. O resto [fechamento da lesão], nós observamos de forma muito similar em amputações distais e proximais”, disse o pesquisador.

“Por exemplo, a joanete é um calo ósseo que cresce na articulação, na base do dedão do pé, mas ninguém chama de dedo porque não tem articulação nem unha. O mesmo ocorre na ponta do dígito, que cresce novamente quando amputada. Não se trata de um dedo novo, mas de uma ponta óssea”, explicou Souza.

Com as novas conclusões, os pesquisadores esperam que a chamada “regeneração da ponta do dígito” passe a ser considerada apenas um modelo de crescimento ósseo. Com isso, o foco dos estudos de regeneração de membros em mamíferos pode seguir novos caminhos.
O artigo Bone growth as the main determinant of mouse digit tip regeneration after amputation (doi: 10.1038/s41598-019-45521-4), de Lucimara A. Sensiate e Henrique Marques Barbosa de Souza, pode ser lido em: www.nature.com/articles/s41598-019-45521-4.

terça-feira, 18 de junho de 2019

Penas deste Fóssil de 130 Milhões de Anos Ainda Contêm Traços de Cor

Feathers on This 130-Million-Year-Old Fossil Still Contain Traces of Color
Os restos fossilizados de Eoconfuciusornis, um pássaro bicudo sem dentes, ainda contêm vestígios de sua cor original. (Imagem: Xiaoli Wang)

Fóssil manteve suas penas e cores por 130 milhões de anos

Um fóssil primorosamente preservado encontrado na China ainda contém os compostos biológicos originais que deram a um pássaro de 130 milhões de anos seu sombreamento e cor. A descoberta amplia o prazo em que os cientistas pensaram que essas substâncias podem ser preservadas.

Em um novo artigo publicado na revista Proceedings, da Academia Nacional de Ciências, pesquisadores da Universidade Estadual da Carolina do Norte, da Academia Chinesa de Ciências e da Universidade Linyi mostram evidências de preservação original de queranossomos e melanossomas nos restos fossilizados de Eoconfuciusornis, um pássaro de tamanho médio que viveu na China há cerca de 130 milhões de anos. É o fóssil mais antigo já descoberto que ainda contém vestígios dessas moléculas que dão cor.

Paleontólogos descobriram traços de organelas contendo pigmentos chamados melanossomas em penas fossilizadas antes. 
 
O problema é que os cientistas não tinham certeza se os melanossomos, e sua cor associada, eram realmente da criatura preservada, ou de micróbios que se acumulavam nas penas durante a decomposição e a fossilização. Mais evidências foram necessárias para separar as duas possibilidades.

Essa evidência chegou agora na forma de queratina, uma proteína fibrosa que protege certas células de danos. "Se esses pequenos corpos são melanossomos, eles devem ser incorporados em uma matriz queratinosa, já que as penas contêm beta-queratina", observou Mary Schweitzer, bióloga da NCS e coautora do estudo, em um comunicado.

“Se não pudéssemos encontrar a queratina, então essas estruturas poderiam facilmente ser micróbios, ou uma mistura de micróbios e melanossomos - em ambos os casos, previsões de sombreamento de dinossauros não seriam exatas”.

Usando microscópios eletrônicos de varredura e transmissão, juntamente com uma técnica para criar um mapa de alta resolução dos elementos dentro das penas, os pesquisadores foram capazes de mostrar que os vestígios químicos de melanossomos e queratina no fóssil eram de fato derivados das penas originais, e que não houve mistura ou lixiviação durante a decomposição.  
 
O sombreado marrom escuro visto neste fóssil é razoavelmente indicativo de como ele apareceu no pássaro quando ainda estava vivo.

Os pesquisadores dizem que sua nova técnica tem o potencial de ajudar os cientistas a entender - no nível molecular - como e por que as penas evoluíram nesses primeiros pássaros.

Felizmente, a presença de melanossomos e queratina em um fóssil sugere que outros fósseis poderiam revelar segredos semelhantes. 
 
Acontece que praticamente todos os dinossauros tinham penas (se Jurassic Park preferir admitir isso ou não), então é concebível que a nova técnica possa ser usada para determinar os esquemas de cores de certos dinossauros. Isso pressupõe, é claro, que os paleontologistas possam encontrar um fóssil tão bem preservado quanto este último.


O estudo foi publicado no Proceedings of National Academy of Sciences

terça-feira, 3 de junho de 2014

Macho ou fêmea?

Pesquisadores desenvolvem método mais rápido e barato para determinar o sexo de aves recém-nascidas. Além de ser menos estressante para os animais, a nova técnica, que se baseia em raios X emitidos pela penugem, não prejudica o meio ambiente. 
 
Por: Mariana Rocha
Publicado em 03/06/2014 | Atualizado em 03/06/2014
Macho ou fêmea?
Normalmente, a distinção do sexo das aves é feita a partir de características físicas que, no caso de pintinhos, só surgem quando eles têm quatro semanas de vida. (foto: Thomas Vlrerick/ Flickr – CC BY 2.0) 
 
Barato, rápido e ecologicamente correto. Assim pode ser descrito o método desenvolvido por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) para determinar o sexo de aves recém-nascidas. Em apenas cinco minutos, a técnica é capaz de dizer com 100% de precisão se uma ave é macho ou fêmea – distinção imprescindível para a indústria avicultora e para o sucesso reprodutivo de aves silvestres ameaçadas de extinção.

A técnica foi testada em 25 pintinhos recém-nascidos que ainda não tinham características físicas suficientemente desenvolvidas para a sexagem – nome dado ao processo de distinção entre macho e fêmea.
Em apenas cinco minutos, a técnica é capaz de dizer com 100% de precisão se uma ave é macho ou fêmea.
 
Do primeiro ao oitavo dia de vida dos animais, a química Juliana Terra, que desenvolveu o método durante seu pós-doutorado na Unicamp, cortou diariamente uma pequena quantidade da penugem de cada um para analisar sua composição. “Nas penugens coletadas no oitavo dia de vida, foi possível detectar o sexo dos animais com 100% de acerto”, diz a pesquisadora. A distinção por características físicas costuma ser feita somente quando os pintinhos já têm quatro semanas de vida.

Terra explica que, para fazer a sexagem, as amostras de penugem recebem radiação eletromagnética. Tal processo faz com que elétrons de camadas internas dos átomos que compõem a penugem sejam ejetados e o espaço deixado por eles passa a ser ocupado por elétrons oriundos de camadas externas. Quando esses elétrons se locomovem para as camadas internas, liberam energia. “Conforme a energia liberada, é possível saber qual átomo estava presente na amostra”, completa. “Além disso, a intensidade da radiação emitida é proporcional à concentração do elemento.”
Ao medir a energia liberada pelas amostras irradiadas, Terra determina a concentração de enxofre presente na penugem. Tal elemento compõe a queratina, proteína que constitui, além das penas das aves, unhas, pele e pelos humanos e animais.

A rigidez e resistência das queratinas são consequências das ligações entre moléculas de enxofre e variam entre os sexos”, explica a química. “A causa dessa variação ainda não está clara, mas existem indícios de que a estrutura da proteína é diferente para machos e fêmeas e o mesmo ocorre para homens e mulheres.” Nos pintos, há maior concentração de enxofre na penugem dos machos em comparação à das fêmeas.
Equipamento de raios X
Para analisar a composição da penugem das aves, a técnica desenvolvida na Unicamp utiliza raios X com intensidade 100 a 1.000 vezes menor que a dos usados na prática clínica. (foto: Juliana Terra)
Atualmente, a sexagem de pintinhos recém-nascidos é feita por meio da identificação visual da presença ou ausência de um órgão masculino rudimentar. “Esse órgão pode ser identificado com 95% de acerto por profissionais bem treinados e a técnica é quase uma 'arte', devido à complexidade envolvida”, comenta Terra. A necessidade de especialistas torna o método caro e, por exigir que o profissional aperte a cloaca do animal, o procedimento é considerado estressante para as aves.

“Há também métodos que envolvem análise citogenética, ultrassonografia e técnicas baseadas em DNA, mas eles são caros e/ou invasivos”, complementa a pesquisadora. Ela destaca que, futuramente, a proposta é utilizar equipamentos portáteis para medir os raios X, dispensando o corte da penugem do animal.

Vantagens para a indústria

Por ser capaz de distinguir com precisão o sexo de aves com apenas oito dias de vida, o método se mostrou muito vantajoso para a indústria avicultora. Como cada sexo possui necessidades nutricionais diferentes, o avicultor evita o desperdício de ração e reduz os custos ao criar machos e fêmeas em locais separados. “O ideal é que a sexagem de pintinhos e a consequente separação por sexo ocorra o quanto antes”, diz Terra.
O método foi testado apenas em pintinhos, mas pode ser adaptado para outras aves
Além da aplicação na indústria, a nova técnica pode ser útil no combate à extinção de algumas espécies de aves silvestres, já que a identificação do sexo é fundamental para o sucesso reprodutivo de espécies mantidas em cativeiro.
A pesquisadora explica que mais de 50% das aves apresentam dificuldade de identificação dos sexos mesmo em idade adulta – caso de araras, papagaios e tucanos, que correm risco de se extinguir. São animais que não têm diferenças visíveis em seus órgãos genitais nem apresentam características secundárias que permitam a distinção sexual. Até agora, o método foi testado apenas em pintinhos, mas pode ser adaptado para outras aves.
Terra acrescenta que o grupo envolvido na pesquisa optou por não patentear a técnica, apesar de sua aplicação comercial. “A proposta inicial do trabalho não envolveu apelo de mercado, mas a constatação de que a metodologia proposta poderia ser uma alternativa aos métodos vigentes”, completa.

Mariana Rocha
Ciência Hoje On-line