Mostrando postagens com marcador Walter Neves. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Walter Neves. Mostrar todas as postagens

sábado, 3 de outubro de 2020

 

A história da dispersão do Homo para fora da África deve ser reescrita?


Uma nova descoberta sugere que os hominídeos deixaram o continente africano pelo menos 500.000 anos antes do que se pensava.

Giancarlo Scardia esteve na Jordânia em 2013, quando a Guerra Civil Síria começou. Ele se lembra de ter visto refugiados reunidos em acampamentos gigantes e aeronaves militares se movendo em direção à fronteira.

 

Scardia, um geólogo com base na Universidade Estadual Paulista no Brasil, não estava lá para observar o conflito seu interesse estava em uma história muito mais antiga. Enterrado em camadas de sedimento no vale de Zarqa, no norte da Jordânia, estava um grande esconderijo de rochas lascadas.

Scardia e seus colegas, tendo analisado esses artefatos, argumentam que eles são ferramentas rudimentares usadas pelos primeiros humanos, criadas e descartadas cerca de 2,5 milhões de anos atrás. Se eles estiverem certos, podemos precisar repensar quais espécies de hominídeos fizeram as primeiras incursões fora do berço africano - e quando.

O consenso geral por décadas é que o Homo erectus - uma espécie ereta e de pernas longas - foi um dos primeiros hominídeos (ou espécies intimamente relacionadas aos humanos modernos) a deixar a África. Os cientistas presumem que os membros dessa espécie viajaram pelo corredor natural do Levante, uma região ao longo da borda oriental do Mediterrâneo, cerca de 2 milhões de anos atrás.

O Estudo do Scardia, publicado na edição de setembro da Quaternary Science Avaiação , sugere uma saída muito mais cedo. Ele propõe que os hominídeos capazes de criar ferramentas podem ter estado nas portas da Ásia cerca de 500.000 anos antes. Essa afirmação ajuda a explicar a evolução intrigante de uma espécie de hominídeo encontrada na Indonésia, bem como um grupo contencioso de crânios encontrados na Geórgia . Também alimenta uma discussão mais ampla sobre quais espécies de Homo vieram da África e quais evoluíram fora daquele continente .

A equipe de pesquisadores italianos e brasileiros de cardia escavou um terraço fluvial de 30 metros de altura, uma formação geológica escalonada esculpida por um rio. A fonte de água teria sustentado uma variedade de vida selvagem local e, potencialmente, humanos.

Dispersão - o geólogo Giancarlo Scardia (segundo a partir da esquerda) e três de seus co-autores discutem sua pesquisa ao lado de uma coleção de crânios de hominídeos.

O geólogo Giancarlo Scardia (segundo a partir da esquerda) e três de seus co-autores discutem sua pesquisa ao lado de uma coleção de crânios de hominídeos. Cecília Bastos

Encontramos um momento perfeito em que a geologia estava registrando o paleoambiente”, diz Scardia. O vale de Zarqa está repleto de artefatos; as pessoas encontraram ferramentas mais avançadas, como machados de mão, em terraços fluviais mais baixos e mais jovens, junto com fósseis de mamutes e outra fauna extinta. “Ela está ocupada por hominídeos há milhões de anos”, diz ele.

U nderpinning o local da escavação foi uma camada de basalto escuro vulcânica, datado de cerca de 2,5 milhões de anos atrás, estabelecendo a base cronológica. Scardia e seus colegas usaram três métodos para datar os sedimentos onde as ferramentas foram encontradas acima desta base. (Restos de um mamute e um auroque, um ancestral primitivo do gado, também estavam entre essas camadas.)

A equipe começou com uma técnica chamada paleomagnetismo, que mede o alinhamento dos minerais em relação aos pólos magnéticos giratórios da Terra periodicamente. Os pesquisadores então usaram dois métodos de datação radioisotópica para refinar a pesquisa: medir a decomposição do potássio em argônio e do urânio em átomos de chumbo para estimar a idade das camadas de sedimentos.

B y triangulação todos os três métodos, Scardia e seus colegas descobriram que as primeiras ferramentas havia se estabelecido em seu lugar no registro geológico sobre 2,48 milhões de anos atrás. Com essa idade, ele diz, “não há dúvida”.

Dispersão - Scardia e seus colegas suspeitam que essas rochas sejam na verdade ferramentas antigas, lascadas por uma espécie de hominídeo há cerca de 2 milhões de anos.

Scardia e seus colegas suspeitam que essas rochas sejam na verdade ferramentas antigas, lascadas por uma espécie de hominídeo há cerca de 2 milhões de anos. Astolfo Araujo

Sem evidência, algo fóssil notoriamente difíceis de encontrar neste tectonicamente ativa região é difícil dizer conclusivamente que fez as ferramentas. A evidência fóssil mais antiga de H. erectus data de cerca de 1,9 milhão de anos atrás , tornando improvável que essa espécie tenha feito as ferramentas encontradas no vale de Zarqa.

S cárdia e sua equipe está escrevendo um outro papel para explicar as implicações dos achados, mas eles têm algumas especulações preliminares. A hipótese deles é que as ferramentas podem ter sido trabalhadas pelo Homo habilis - uma espécie antiga da família Homo viva durante o início do Pleistoceno.

Os pesquisadores geralmente pensam que o H. habilis , cujo corpo parece mais bem feito para se balançar em árvores do que para caminhar a pé, era incapaz de uma migração tão distante da África. Mas H. habilis certamente era capaz de fazer ferramentas de pedra .

Fencontrar uma coleção tão antiga de artefatos é “uma grande descoberta”, diz a arqueóloga e paleoantropóloga Debbie Argue, da Australian National University.

A rgue vê o novo estudo como um complemento de várias ideias na área. Por um lado, os pesquisadores discutiram a possibilidade dos hominídeos deixarem a África antes do H. erectus por décadas. Por outro lado, ela observa, "seus resultados se encaixam em um padrão emergente de locais de ferramentas de pedra na África e na China".

Ferramentas de tom S recentemente encontradas na Argélia datam de 2,4 milhões de anos atrás , sugerindo que a dispersão no Levante também poderia ter acontecido nessa época. Outros artefatos encontrados no ano passado na China têm cerca de 2,1 milhões de anos.

Eu n disso, Argue, especialista em Homo floresiensis , vê o papel de contribuir para teorias em torno de que as espécies de hominídeos misteriosas. Descoberto em 2003 na ilha de Flores, na Indonésia, os cientistas acham que H. floresiensis pode ter vivido entre cerca de 60.000 e 100.000 anos atrás . Esse hominídeo diminuto tinha um crânio mais ou menos do tamanho do de um chimpanzé e - com pés relativamente grandes - apenas 90 cm de altura.

S cientistas inicialmente a hipótese de que esse hominídeo era ou um humano moderno patologicamente anão, ou que H. erectus chegou nesta parte da Ásia, liquidada em Flores, e evoluiu para uma espécie menor, como resultado da má comida e isolamento. ( Espécies extintas de elefantes anões , escavadas na ilha, corroboram esta afirmação.)

B ut uma explicação mais recente é que um hominídeo desconhecido era um ancestral comum de ambos H. floresiensis e H. habilis . Essa hipótese propõe uma migração pré- H. erectus para fora da África, que o novo artigo de Scardia e seus colegas apóia, observa Argue. Essa migração anterior também abre a possibilidade de que algumas espécies de hominídeos tenham evoluído após deixar o continente africano.

R Obin Dennell, arqueólogo Paleolítico da Universidade de Sheffield, diz o som namoro aparência, embora ele não está convencido de que as pedras são ferramentas. “O último lugar onde eu gostaria de procurar por artefatos de pedra primitiva seria um depósito fluvial de alta energia”, explica ele. As pedras, ele observa, podem simplesmente ter lascado ao serem jogadas na água com o tempo.

Para descartar essa possibilidade, Scardia e seus colegas descartaram quaisquer ferramentas que eles pensaram que pudessem ter lascado naturalmente, selecionando apenas aquelas que apresentassem marcas unidirecionais repetitivas que sugerissem modelagem hominínea deliberada. Dennell sugere que uma forma de fortalecer o caso das peças de Zarqa seria "registrar cada pedra nas escavações onde os artefatos foram reivindicados e registrar o tamanho, peso, cicatrizes de lascas, etc., da mesma maneira." Ele diz: “No geral, não estou convencido”.

A rgue é mais positiva. A equipe “compreende um conjunto impressionante de especialistas nas próprias disciplinas necessárias para esse tipo de trabalho”, diz ela. “Não tenho críticas.”

O estudo também acrescenta combustível para uma discussão mais ampla no campo sobre o paradigma da África ser o berço de todas as espécies de Homo . Scardia e seus colegas suspeitam que um hominíneo pré- H. erectus pode ter viajado para a Ásia e aí evoluído para novas espécies como o H. floresiensis ou os igualmente misteriosos Denisovans encontrados na Sibéria (e mais recentemente, no Tibete).

A equipe aponta a descoberta de crânios semelhantes ao H. habilis nas montanhas do Cáucaso na Geórgia, com quase 1,8 milhão de anos de idade, como evidência dessa migração e evolução subsequente. “A África criou o H. habilis , e o H. habilis então existia na Ásia. O que isso fez lá? Produzir outras espécies ”, diz Scardia, apoiando a ideia de que a Ásia foi outro berço central da evolução humana.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Cientistas brasileiros reescrevem a história do gênero humano

Docente da Unesp é autor principal de artigo escrito com colegas do Brasil e exterior
05/07/2019 por: Herton Escobar | Jornal da USP
Professor no IGCE de Rio Claro, Giancarlo Scardia foi responsável pela datação das amostras encontradas nas expedições na Jordânia. Imagem: Divulgação.
A já complicada e sempre polêmica história da evolução humana acaba de ganhar uma nova versão, escrita por cientistas brasileiros.

A espécie que teria saído da África pela primeira vez teria sido o Homo habilis, e não o Homo erectus; e isso teria acontecido 500 mil anos antes do que se pensava — o que permitiria explicar diversos mistérios relacionados à história dos hominídeos no Cáucaso, na China e na Indonésia.

A nova narrativa, apresentada no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), é baseada em evidências arqueológicas desenterradas pelos pesquisadores no vale do rio Zarqa, na Jordânia, próximo à capital Amã. 

Eles descobriram centenas de ferramentas de pedra lascada com 1,9 milhão a 2,5 milhões de anos de idade, claramente produzidas por mãos humanas.

O problema é que, segundo a teoria que predomina hoje sobre a evolução e dispersão do gênero homo (linhagem que deu origem aos seres humanos modernos), o primeiro hominídeo a deixar a África foi o Homo erectus, entre 2 milhões e 1,8 milhão de anos atrás.

Então, quem teria produzido aquelas ferramentas no Oriente Médio, meio milhão de anos antes?
0120190704_1089_nuclei_a_sez_triedrica_zarqa_jordania_nucleo_corte.jpg
Fotos e desenhos de ferramentas líticas, de 2,45 milhões de anos (Crédito: Fabio Parenti)
02-20190705_pedra-lascada.jpgPedras lascadas coletadas na Jordânia (Crédito: Cecília Bastos/USP Imagens)

O trabalho não chega a cravar um nome no papel, mas o pesquisador Walter Neves tem opinião convicta sobre o assunto: “Foi o Homo habilis”, profere ele. 

A datação dos artefatos jordanianos foi confirmada por três técnicas diferentes, e o Homo habilis era a única espécie de hominídeo (do gênero homo) que já vagava pela África naquela época, 2,5 milhões de anos atrás. Sendo assim, é o principal e único suspeito. O nome “homem habilidoso” refere-se justamente à sua associação pioneira com a produção de utensílios de pedra lascada.

“Acho que geramos a data precisa de saída dos hominídeos da África”, avalia Neves, professor aposentado do Instituto de Biociências da USP e pesquisador do IEA.

O novo cronograma se encaixa perfeitamente — no tempo e no espaço — com o de outra descoberta recente, feita por outros estudiosos, que encontraram ferramentas líticas de 2,4 milhões de anos na Argélia, no norte da África, próximo à “porta de saída” para o Oriente Médio.

Segundo os pesquisadores, não há dúvidas sobre a idade dos artefatos da Jordânia nem sobre o fato de que eles foram produzidos por hominídeos (e não por processos naturais). “Há evidências muito claras de lascamento intencional”, disse o arqueólogo Fabio Parenti, do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), um dos líderes da pesquisa, que escava na região desde a década de 1990.

As peças são principalmente núcleos e lascas de pedra, características da chamada “indústria olduvaiensi”, que nossos ancestrais mais primitivos do gênero homo usavam para quebrar objetos e cortar as carcaças de animais dos quais se alimentavam.

Não encontramos fósseis porque essa região da Jordânia não conserva bem fósseis, mas achamos as ferramentas desses hominídeos”, explica Neves. “Os resultados não poderiam ser mais convergentes.”

Especialista em evolução humana, e popularmente conhecido como “pai da Luzia” — por conta de seu trabalho com o fóssil mineiro que se tornou símbolo do povoamento das Américas —, Neves é um dos seis autores do trabalho que será publicado neste sábado, 6 de julho, na revista Quarternary Science Reviews.

Ele e Parenti assinam o estudo com o geólogo Giancarlo Scardia, da Universidade Estadual Paulista (Unesp – Rio Claro), e o geoarqueólogo Astolfo Araújo, do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, além de colaboradores nos Estados Unidos e na Alemanha, que contribuíram com parte das análises.
01campojordania.jpgEquipe de pesquisadores durante exploração que encontrou ferramentas de pedra lascada no vale do rio Zarqa, na Jordânia (Crédito: Giancarlo Scardia)

Neves acredita que as ferramentas foram produzidas por uma população de Homo habilis recém-saída da África, em rota para a região do Cáucaso, onde mais tarde o Homo habilis daria origem ao Homo erectus — uma espécie maior, mais inteligente e mais moderna de hominídeo, considerada por muitos como a precursora do homem moderno (Homo sapiens).

Os famosos fósseis de Dmanisi, na República da Geórgia, segundo Neves, seriam de uma forma transitória de hominídeo, com características tanto de Homo habilis quanto de Homo erectus; o que explicaria a grande variabilidade morfológica dos crânios encontrados ali, com 1,8 milhão de anos de idade. 

Essa diversidade já é discutida há anos pela comunidade científica internacional, levando alguns pesquisadores a propor que Homo erectus e Homo habilis não eram espécies diferentes, mas, na verdade, variações de uma mesma linhagem; com uma variabilidade anatômica equivalente à que existe, ainda hoje, entre os chimpanzés.

“Acho que nossa pesquisa vai encerrar de vez essa discussão”, disse Neves. A variabilidade dos crânios de Dmanisi, segundo ele, “é exatamente o que se esperaria de uma espécie transitória”.

Nesse caso, então, o Homo erectus teria evoluído primeiramente no Cáucaso, e só depois migrado para dentro da África, onde seus fósseis mais antigos datam, também, e só começam a aparecer por volta de 1,8 milhão de anos atrás.

“O grande desbravador”

Além da diversidade de Dmanisi, uma saída precoce do Homo habilis da África também ajudaria a explicar a descoberta recente de artefatos de pedra lascada em Shangchen, no leste da China, com 2,1 milhões de anos — ou seja, anteriores ao Homo erectus. Neves acredita que elas, também, tenham sido produzidas pelo Homo habilis — o que significaria que o Homo habilis não só foi o primeiro a sair da África, como o primeiro a ocupar a Eurásia.

“O grande desbravador foi o habilis”, afirma Neves. O Homo habilis era bem menor do que o Homo erectus, tanto em estatura (1,20 m x 1,75 m) quanto em volume cerebral (650 cm3 x 850 cm3), mas já era bípede e perfeitamente capaz de caminhar longas distâncias, garante Neves.

Mais audacioso ainda, ele sugere que o Homo habilis — e não o Homo erectus — foi a espécie que deu origem ao Homo floresiensis, um hominídeo pigmeu que viveu até bem recentemente (20 mil anos atrás) na Ilha de Flores, na Indonésia. Apelidado de Hobbit, ele tinha pouco mais de 1 metro de altura e um cérebro equivalente em tamanho ao de um chimpanzé.

Pesquisadores debatem há anos, intensamente, se o Homo floresiensis era uma espécie portadora de microcefalia ou outra malformação genética, ou apenas uma versão reduzida de um Homo erectus — encolhida pelo chamado “efeito ilha”, um processo evolutivo que tende a reduzir o tamanho de espécies que vivem restritas a ambientes insulares.

Para Neves, a hipótese do Homo habilis faz mais sentido, porque se tratava de uma espécie já naturalmente menor. “Seria muito mais fácil para a evolução espremer um Homo habilis no formato de um floresiensis do que um Homo erectus”, diz.

Reconstruir a história da evolução humana é como tentar reescrever o roteiro de um filme baseado apenas em um trailer, ou narrar a história de um livro com base apenas em algumas folhas, sem saber exatamente quem são os personagens, de onde eles vêm, como eles se relacionam ou o que cada um faz. As evidências são poucas e difíceis de serem encontradas, o que faz da paleoantropologia (o estudo da evolução humana com base em fósseis) um do campos mais competitivos, polêmicos e espetaculares da ciência.

Ceticismo

Os pesquisadores não têm dúvida que o trabalho e suas implicações para o estudo da evolução humana serão recebidos com “muito ceticismo” pela comunidade científica internacional. “Vamos ser destroçados”, declarou Neves, com a tranquilidade de quem já está calejado nesse tipo de coisa. “Com certeza vamos encontrar ceticismo, mas faz parte da ciência”, disse Scardia, primeiro autor do trabalho e responsável pela datação do material. “Temos muita confiança nos nossos resultados.”

O natural seria que uma descoberta desse porte fosse publicada numa revista de maior impacto, como Natureou Science. Só não foi, segundo Neves, porque os editores dessas revistas “não acreditam que possa haver vida inteligente abaixo do Equador”, pelo menos no que diz respeito à paleoantropologia — uma área na qual o Brasil não tem tradição de pesquisa internacional.

“Não queria me aposentar antes de botar o Brasil no mapa da paleoantropologia mundial”, desabafa o sempre polêmico e aguerrido Neves. “Engulam ou não, o Brasil está no mapa agora.”
03infografico-final.jpg

“Acho que nossa pesquisa vai encerrar de vez essa discussão”, disse Neves. A variabilidade dos crânios de Dmanisi, segundo ele, “é exatamente o que se esperaria de uma espécie transitória”.
Nesse caso, então, o Homo erectus teria evoluído primeiramente no Cáucaso, e só depois migrado para dentro da África, onde seus fósseis mais antigos datam, também, e só começam a aparecer por volta de 1,8 milhão de anos atrás.
.

“O grande desbravador”

Além da diversidade de Dmanisi, uma saída precoce do Homo habilis da África também ajudaria a explicar a descoberta recente de artefatos de pedra lascada em Shangchen, no leste da China, com 2,1 milhões de anos — ou seja, anteriores ao Homo erectus. Neves acredita que elas, também, tenham sido produzidas pelo Homo habilis — o que significaria que o Homo habilis não só foi o primeiro a sair da África, como o primeiro a ocupar a Eurásia.
“O grande desbravador foi o habilis”, afirma Neves. O Homo habilis era bem menor do que o Homo erectus, tanto em estatura (1,20 m x 1,75 m) quanto em volume cerebral (650 cm3 x 850 cm3), mas já era bípede e perfeitamente capaz de caminhar longas distâncias, garante Neves.
Mais audacioso ainda, ele sugere que o Homo habilis — e não o Homo erectus — foi a espécie que deu origem ao Homo floresiensis, um hominídeo pigmeu que viveu até bem recentemente (20 mil anos atrás) na Ilha de Flores, na Indonésia. Apelidado de Hobbit, ele tinha pouco mais de 1 metro de altura e um cérebro equivalente em tamanho ao de um chimpanzé.
Pesquisadores debatem há anos, intensamente, se o Homo floresiensis era uma espécie portadora de microcefalia ou outra malformação genética, ou apenas uma versão reduzida de um Homo erectus — encolhida pelo chamado “efeito ilha”, um processo evolutivo que tende a reduzir o tamanho de espécies que vivem restritas a ambientes insulares.
Para Neves, a hipótese do Homo habilis faz mais sentido, porque se tratava de uma espécie já naturalmente menor. “Seria muito mais fácil para a evolução espremer um Homo habilis no formato de um floresiensis do que um Homo erectus”, diz.


Professor Walter Neves fala sobre a descoberta de pedra lascada que indica mudanças na história evolutiva dos humanos – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
.
.
Reconstruir a história da evolução humana é como tentar reescrever o roteiro de um filme baseado apenas em um trailer, ou narrar a história de um livro com base apenas em algumas folhas, sem saber exatamente quem são os personagens, de onde eles vêm, como eles se relacionam ou o que cada um faz. As evidências são poucas e difíceis de serem encontradas, o que faz da paleoantropologia (o estudo da evolução humana com base em fósseis) um do campos mais competitivos, polêmicos e espetaculares da ciência.
.

Afloramento no Vale do Zarqa, Jordânia, em 2014. A formação escavada é conhecida como Dawqara – Foto: cedida pelo pesquisador
.

Ceticismo

Os pesquisadores não têm dúvida que o trabalho e suas implicações para o estudo da evolução humana serão recebidos com “muito ceticismo” pela comunidade científica internacional. “Vamos ser destroçados”, declarou Neves, com a tranquilidade de quem já está calejado nesse tipo de coisa. “Com certeza vamos encontrar ceticismo, mas faz parte da ciência”, disse Scardia, primeiro autor do trabalho e responsável pela datação do material. “Temos muita confiança nos nossos resultados.”
O natural seria que uma descoberta desse porte fosse publicada numa revista de maior impacto, como Nature ou Science. Só não foi, segundo Neves, porque os editores dessas revistas “não acreditam que possa haver vida inteligente abaixo do Equador”, pelo menos no que diz respeito à paleoantropologia — uma área na qual o Brasil não tem tradição de pesquisa internacional.
“Não queria me aposentar antes de botar o Brasil no mapa da paleoantropologia mundial”, desabafa o sempre polêmico e aguerrido Neves. “Engulam ou não, o Brasil está no mapa agora.”
A pesquisa foi financiada principalmente pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pela Wenner-Gren Foundation for Anthropological Research, de Nova York.
.
.

Réplicas de crânios de hominídeos expostas em coletiva de imprensa no IEA – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens


Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Cientistas brasileiros reescrevem a história do gênero humano

Docente da Unesp é autor principal de artigo escrito com colegas do Brasil e exterior

05/07/2019 por: Herton Escobar | Jornal da USP
Professor no IGCE de Rio Claro, Giancarlo Scardia foi responsável pela datação das amostras encontradas nas expedições na Jordânia. Imagem: Divulgação.
 
A já complicada e sempre polêmica história da evolução humana acaba de ganhar uma nova versão, escrita por cientistas brasileiros. A espécie que teria saído da África pela primeira vez teria sido o Homo habilis, e não o Homo erectus; e isso teria acontecido 500 mil anos antes do que se pensava — o que permitiria explicar diversos mistérios relacionados à história dos hominídeos no Cáucaso, na China e na Indonésia.

A nova narrativa, apresentada no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), é baseada em evidências arqueológicas desenterradas pelos pesquisadores no vale do rio Zarqa, na Jordânia, próximo à capital Amã. Eles descobriram centenas de ferramentas de pedra lascada com 1,9 milhão a 2,5 milhões de anos de idade, claramente produzidas por mãos humanas.
O problema é que, segundo a teoria que predomina hoje sobre a evolução e dispersão do gênero homo(linhagem que deu origem aos seres humanos modernos), o primeiro hominídeo a deixar a África foi o Homo erectus, entre 2 milhões e 1,8 milhão de anos atrás. Então, quem teria produzido aquelas ferramentas no Oriente Médio, meio milhão de anos antes?
0120190704_1089_nuclei_a_sez_triedrica_zarqa_jordania_nucleo_corte.jpg
Fotos e desenhos de ferramentas líticas, de 2,45 milhões de anos (Crédito: Fabio Parenti)
02-20190705_pedra-lascada.jpgPedras lascadas coletadas na Jordânia (Crédito: Cecília Bastos/USP Imagens)

O trabalho não chega a cravar um nome no papel, mas o pesquisador Walter Neves tem opinião convicta sobre o assunto: “Foi o Homo habilis”, profere ele. A datação dos artefatos jordanianos foi confirmada por três técnicas diferentes, e o Homo habilis era a única espécie de hominídeo (do gênero homo) que já vagava pela África naquela época, 2,5 milhões de anos atrás. Sendo assim, é o principal e único suspeito. O nome “homem habilidoso” refere-se justamente à sua associação pioneira com a produção de utensílios de pedra lascada.

“Acho que geramos a data precisa de saída dos hominídeos da África”, avalia Neves, professor aposentado do Instituto de Biociências da USP e pesquisador do IEA. O novo cronograma se encaixa perfeitamente — no tempo e no espaço — com o de outra descoberta recente, feita por outros estudiosos, que encontraram ferramentas líticas de 2,4 milhões de anos na Argélia, no norte da África, próximo à “porta de saída” para o Oriente Médio.

Segundo os pesquisadores, não há dúvidas sobre a idade dos artefatos da Jordânia nem sobre o fato de que eles foram produzidos por hominídeos (e não por processos naturais). “Há evidências muito claras de lascamento intencional”, disse o arqueólogo Fabio Parenti, do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), um dos líderes da pesquisa, que escava na região desde a década de 1990. As peças são principalmente núcleos e lascas de pedra, características da chamada “indústria olduvaiensi”, que nossos ancestrais mais primitivos do gênero homo usavam para quebrar objetos e cortar as carcaças de animais dos quais se alimentavam.

“Não encontramos fósseis porque essa região da Jordânia não conserva bem fósseis, mas achamos as ferramentas desses hominídeos”, explica Neves. “Os resultados não poderiam ser mais convergentes.”

Especialista em evolução humana, e popularmente conhecido como “pai da Luzia” — por conta de seu trabalho com o fóssil mineiro que se tornou símbolo do povoamento das Américas —, Neves é um dos seis autores do trabalho que será publicado neste sábado, 6 de julho, na revista Quarternary Science Reviews. Ele e Parenti assinam o estudo com o geólogo Giancarlo Scardia, da Universidade Estadual Paulista (Unesp – Rio Claro), e o geoarqueólogo Astolfo Araújo, do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, além de colaboradores nos Estados Unidos e na Alemanha, que contribuíram com parte das análises.
01campojordania.jpgEquipe de pesquisadores durante exploração que encontrou ferramentas de pedra lascada no vale do rio Zarqa, na Jordânia (Crédito: Giancarlo Scardia)
Neves acredita que as ferramentas foram produzidas por uma população de Homo habilis recém-saída da África, em rota para a região do Cáucaso, onde mais tarde o Homo habilis daria origem ao Homo erectus — uma espécie maior, mais inteligente e mais moderna de hominídeo, considerada por muitos como a precursora do homem moderno (Homo sapiens).

Os famosos fósseis de Dmanisi, na República da Geórgia, segundo Neves, seriam de uma forma transitória de hominídeo, com características tanto de Homo habilis quanto de Homo erectus; o que explicaria a grande variabilidade morfológica dos crânios encontrados ali, com 1,8 milhão de anos de idade. Essa diversidade já é discutida há anos pela comunidade científica internacional, levando alguns pesquisadores a propor que Homo erectus e Homo habilis não eram espécies diferentes, mas, na verdade, variações de uma mesma linhagem; com uma variabilidade anatômica equivalente à que existe, ainda hoje, entre os chimpanzés.

“Acho que nossa pesquisa vai encerrar de vez essa discussão”, disse Neves. A variabilidade dos crânios de Dmanisi, segundo ele, “é exatamente o que se esperaria de uma espécie transitória”.
Nesse caso, então, o Homo erectus teria evoluído primeiramente no Cáucaso, e só depois migrado para dentro da África, onde seus fósseis mais antigos datam, também, e só começam a aparecer por volta de 1,8 milhão de anos atrás.

“O grande desbravador”

Além da diversidade de Dmanisi, uma saída precoce do Homo habilis da África também ajudaria a explicar a descoberta recente de artefatos de pedra lascada em Shangchen, no leste da China, com 2,1 milhões de anos — ou seja, anteriores ao Homo erectus. Neves acredita que elas, também, tenham sido produzidas pelo Homo habilis — o que significaria que o Homo habilis não só foi o primeiro a sair da África, como o primeiro a ocupar a Eurásia.

“O grande desbravador foi o habilis”, afirma Neves. O Homo habilis era bem menor do que o Homo erectus, tanto em estatura (1,20 m x 1,75 m) quanto em volume cerebral (650 cm3 x 850 cm3), mas já era bípede e perfeitamente capaz de caminhar longas distâncias, garante Neves.

Mais audacioso ainda, ele sugere que o Homo habilis — e não o Homo erectus — foi a espécie que deu origem ao Homo floresiensis, um hominídeo pigmeu que viveu até bem recentemente (20 mil anos atrás) na Ilha de Flores, na Indonésia. Apelidado de Hobbit, ele tinha pouco mais de 1 metro de altura e um cérebro equivalente em tamanho ao de um chimpanzé.

Pesquisadores debatem há anos, intensamente, se o Homo floresiensis era uma espécie portadora de microcefalia ou outra malformação genética, ou apenas uma versão reduzida de um Homo erectus — encolhida pelo chamado “efeito ilha”, um processo evolutivo que tende a reduzir o tamanho de espécies que vivem restritas a ambientes insulares.

Para Neves, a hipótese do Homo habilis faz mais sentido, porque se tratava de uma espécie já naturalmente menor. “Seria muito mais fácil para a evolução espremer um Homo habilis no formato de um floresiensis do que um Homo erectus”, diz.
Reconstruir a história da evolução humana é como tentar reescrever o roteiro de um filme baseado apenas em um trailer, ou narrar a história de um livro com base apenas em algumas folhas, sem saber exatamente quem são os personagens, de onde eles vêm, como eles se relacionam ou o que cada um faz. As evidências são poucas e difíceis de serem encontradas, o que faz da paleoantropologia (o estudo da evolução humana com base em fósseis) um do campos mais competitivos, polêmicos e espetaculares da ciência.

Ceticismo

Os pesquisadores não têm dúvida que o trabalho e suas implicações para o estudo da evolução humana serão recebidos com “muito ceticismo” pela comunidade científica internacional. “Vamos ser destroçados”, declarou Neves, com a tranquilidade de quem já está calejado nesse tipo de coisa. “Com certeza vamos encontrar ceticismo, mas faz parte da ciência”, disse Scardia, primeiro autor do trabalho e responsável pela datação do material. “Temos muita confiança nos nossos resultados.”
O natural seria que uma descoberta desse porte fosse publicada numa revista de maior impacto, como Natureou Science. Só não foi, segundo Neves, porque os editores dessas revistas “não acreditam que possa haver vida inteligente abaixo do Equador”, pelo menos no que diz respeito à paleoantropologia — uma área na qual o Brasil não tem tradição de pesquisa internacional.
“Não queria me aposentar antes de botar o Brasil no mapa da paleoantropologia mundial”, desabafa o sempre polêmico e aguerrido Neves. “Engulam ou não, o Brasil está no mapa agora.”
03infografico-final.jpg

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Brasileiros encontram evidências de que ancestral do homem saiu da África 500 mil anos antes

A descoberta traz mais uma peça ao grande quebra-cabeça temporal e espacial que é a reconstituição dos primeiros passos dos hominídeos pelo mundo.

Por Elida Oliveira, G1

Pedra lascada encontrada na Jordânia por pesquisadores brasileiros — Foto: Cecília Bastos/IEA/USP/Divulgação
Pedra lascada encontrada na Jordânia por pesquisadores brasileiros — Foto: Cecília Bastos/IEA/USP/Divulgação
Em uma montanha da Jordânia, no Vale do Zarqa, um grupo de pesquisadores brasileiros e italianos encontraram evidências que podem trazer um novo entendimento sobre a dispersão dos primeiros hominídeos pelo mundo: lascas de pedras, provavelmente vindas da fabricação de instrumentos, indicam que o gênero homo saiu da África 500 mil anos antes do que era conhecido, há 2,4 milhões de anos. E não foi o homo erectus que levantou e saiu andando por aí – nesta época, ele nem havia surgido. A hipótese apresentada pelos pesquisadores (que ainda precisa de complementação já que não foram encontrados fósseis) é que o primeiro homo a explorar o planeta foi o habilis.

As evidências estão em um artigo científico publicado neste sábado (6) no periódico Quaternary Science Reviews. Os pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Rio Claro, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), da Universidade de São Paulo (USP), com o Instituto Italiano de Paleontologia Humana, a Universidade Estadual do Oregon (EUA) e do Goethe-University, Frankfurt Isotope & Element Research Center (Fierce) assinam a publicação. O trabalho foi financiado majoritariamente pela Fapesp e pela Wenner-Gren Foundation for Anthropological Research, de Nova York. 

A descoberta traz mais uma peça ao grande quebra-cabeça temporal e espacial que é a reconstituição dos primeiros passos dos hominídeos pelo mundo, ancestrais do homem moderno.

Os primeiros hominídeos

Walter Neves durante apresentação da pesquisa na USP. — Foto: Cecília Bastos/IEA/USP/Divulgação
Walter Neves durante apresentação da pesquisa na USP. — Foto: Cecília Bastos/IEA/USP/Divulgação
Os detalhes da descoberta foram apresentados pelos pesquisadores brasileiros em São Paulo nesta quinta-feira (4), em uma sala de conferência da USP. Com uma vareta na mão e um mapa repleto setas, o professor sênior do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP Walter Neves explicou o avanço do gênero homo durante a evolução. 

Sabe-se que os primeiros hominídeos surgiram há 7 milhões de anos e, 5 milhões de anos depois, surgiu o gênero homo. O homo habilis teria aparecido na África há 2,5 milhões de anos e fabricava ferramentas de pedra lascada, chamada Olduvaiense (foram vestígios deste tipo de ferramenta que foram encontrados na Jordânia).

Em um corte temporal, Neves coloca outras peças do quebra-cabeça, com evidências da presença de homos pelo mundo: cinco crânios de tamanhos variados achados na jazida paleoantropológica de Dmanisi, na República da Geórgia (alguns parecidos com o homo habilis, outros com o homo erectus, mas todos supostamente vivendo na mesma época devido às características em que foram achados e à datação dos materiais, que remete à 1,8 milhão de anos); e o fóssil de um homo muito pequeno, que ganhou o nome de floresiensis e o apelido de ‘Hobit’, encontrado na Ilha das Flores, na Indonésia, com datação de 90 mil a 20 mil anos atrás. A ciência entendia que o homo floresiensis havia sido uma adaptação do erectus devido à baixa oferta de comida na ilha -- mas esta adaptação era um pouco forçada, já que o tamanho do crânio deste fóssil era de 350 cm³, menor que o de um chimpanzé, que tem 450 cm³.
Crânios de tipos de homos mostram a diferença de tamanho entre eles. Da esquerda para a direita: dois crânios de homo habilis, seguido por dois crânios de homo erectus. Ao fim, um exemplar de homo florenziensis. — Foto: IEA/USP/Divulgação
Crânios de tipos de homos mostram a diferença de tamanho entre eles. Da esquerda para a direita: dois crânios de homo habilis, seguido por dois crânios de homo erectus. Ao fim, um exemplar de homo florenziensis. — Foto: IEA/USP/Divulgação

Avanço do gênero homo pelo mundo

Com a nova descoberta das lascas de pedra, a história pode ser recontada. A hipótese apresentada pelo grupo de pesquisadores brasileiros e italianos é de que o homo habilis saiu da África há 1,9 milhão de anos, chegou ao Cáucaso (região da Jordânia) há 1,8 milhão de anos e se espalhou. Isso explicaria os tamanhos variados de homos convivendo juntos na jazida paleoantropológica de Dmanisi e explicaria o tamanho do 'Hobit', que seria a evolução do habilis, menor que o erectus.

“Na pré-historia, quando não se tem osso, tem pedra. Artefatos profundamente angulares são provas de um lascamento intencional. A ocorrência de formas nestes objetos é evidência de intencionalidade”, diz Fabio Parenti, do departamento de Antropologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Escavação

Trabalho feito no Vale do Zarqa, na Jordânia, com a prospecção vertical em afloramento, em busca de fosseis e artefatos líticos — Foto: Fabio Parenti/Divulgação
Trabalho feito no Vale do Zarqa, na Jordânia, com a prospecção vertical em afloramento, em busca de fosseis e artefatos líticos — Foto: Fabio Parenti/Divulgação
As primeiras peças foram encontradas em 1996. Na época, o trabalho não prosseguiu. Em 2013, o trabalho foi retomado e durou até 2015. 

O pesquisador Astolfo Araújo, do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, explica que a montanha foi ‘cortada’ por tratores para que agricultores pudessem trabalhar a terra, o que permitiu que uma camada mais antiga de solo ficasse mais fácil de ser escavada.

“Só temos acesso à estratigrafia por causa dos terraços construídos no começo dos anos 1970. Usamos um maquinário pesado para limpar o cascalho que continua caindo e ter acesso aos artefatos. Raspando centenas de metros, com martelinhos, colher de pedreiro, encontramos as peças. Cada peça foi encontrada individualmente, o que foi imprescindível para entender qual o posicionamento das peças e a interpretação que daríamos a elas”, explica Araújo.
Trincheira escavada em 1999, na Jordânia — Foto: Fabio Parenti/IEA/USP/Divulgação
Trincheira escavada em 1999, na Jordânia — Foto: Fabio Parenti/IEA/USP/Divulgação
Mas, como pedaços de pedra aparentemente sem importância paleontológica se transformam em peças capazes de recontar a história da humanidade?

Araújo diz que são as características da pedra: as lascas se unem, mostrando que saíram de uma mesma peça original. Elas são angulares, o que não apareceria em uma pedra que não foi alterada e geralmente se deteriora em formas mais arredondadas.
“As lascas se unem, mostrando um evento de ‘lascamento’: enquanto um hominídio fazia uma ferramenta, saiu uma lasca, depois outra. Elas estavam a 20 cm de distância. Isso não poderia acontecer se o material tivesse apenas caído da vertente [montanha]”, diz.

“Com as nossas descobertas na Jordânia e com essa precisão de datação, demonstramos que, na verdade, o homem não deixou a África por volta de 1,9 milhão de anos, mas sim há 2,4 milhões de anos. Retrocedemos em 500 mil anos a saída da África. E isso impõe uma pergunta muito simples: se saiu há 2,4 milhões de anos, e não há 1,9 milhão, quem foi esse primeiro hominídeo a deixar a África? No modelo tradicional seria o homo erectus. Agora, não. Fica claro que o primeiro hominídeo que deixou a África foi o homo habilis, porque há 2,4 milhões, 2,5 milhões de anos o único hominídeo que tinha na África era o homo habilis”, diz Neves.
Ou, ao menos, assim as evidências apontam – até que novas escavações tragam mais peças para a história da humanidade.
Esquema mostra os artefatos encontrados na Jordânia — Foto: Fabio Parenti/IEA/USP/Divulgação
Esquema mostra os artefatos encontrados na Jordânia — Foto: Fabio Parenti/IEA/USP/Divulgação
Esquema mostra os artefatos encontrados na Jordânia — Foto: Fabio PArenti/IEA/USP/Divulgação
Esquema mostra os artefatos encontrados na Jordânia — Foto: Fabio PArenti/IEA/USP/Divulgação

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Achado na Jordânia indica que homem pode ter saído da África 400 mil anos antes do que se pensava

Pesquisadores de universidades brasileiras dataram artefatos de pedra lascada em 2,5 milhões de anos; peças teriam sido feitas pelo Homo habilis
Visão geral do Vale do rio Zarqa, onde estão os sítios estudados na Jordânia
Giancarlo Scardia / Unesp
Um grupo de arqueólogos e geólogos de universidades brasileiras afirma ter descoberto os mais antigos indícios da saída de hominídeos da África. 

As camadas geológicas em que foram encontrados seixos lascados e lascas, oriundos de escavações feitas entre 2013 e 2016 no vale do rio Zarqa, na Jordânia, foram datadas por três métodos distintos e atingiram a idade máxima de aproximadamente 2,5 milhões anos. 

Se os dados estiverem corretos, esses artefatos teriam sido produzidos pelas mãos de indivíduos pertencentes a populações de Homo habilis, a primeira espécie conhecida do gênero Homo, 400 mil anos antes do registro considerado até agora como o mais antigo da presença de hominídeos fora do continente africano

No ano passado, foram encontradas na China peças de indústria lítica, como os arqueólogos denominam os artefatos de pedra trabalhados por mãos humanas, às quais foram atribuídas a idade de 2,1 milhões de anos. Os novos achados no Oriente Médio, que devem provocar alguma polêmica assim que se tornarem públicos, serão publicados no dia 6 de julho no periódico científico Quaternary Science Reviews.

“Nosso estudo muda a história da humanidade em quase meio milhão de anos”, afirma o bioarqueólogo Walter Neves, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), coordenador da equipe que fez as pesquisas na Jordânia e escreveu o artigo científico. Também altera qual teria sido a primeira espécie de hominídeo a deixar a África, berço da humanidade. 

Antes das recentes descobertas de indústria lítica com mais de 2 milhões de anos na China e agora na Jordânia, o sítio de Dmanisi, na República da Geórgia, na região do Cáucaso, exibia artefatos de pedra e cinco crânios de hominídeos da espécie Homo erectus datados em cerca de 1,8 milhão de anos. Mas há 2,5 milhões, idade dos sítios no vale do rio Zarqa, existia apenas uma espécie de hominídeo que trabalhava a pedra lascada, o Homo habilis. Por isso, Neves e seus colegas atribuem os artefatos da Jordânia a essa espécie.
No vale do rio Zarqa não foram identificados fósseis de ossadas de hominídeos nas escavações, apenas vestígios de uma espécie de mamute, do bovídeo auroque, de um cavalo e de mastodonte. “É muito raro encontrar esqueletos humanos em sítios paleolíticos”, comenta o arqueólogo italiano Fabio Parenti, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), outro membro da equipe e coautor do trabalho. “Quando não temos ossos, falamos das pedras [lascadas pelo homem].” Segundo os pesquisadores, os artefatos de pedras de Zarqa apresentam características inequívocas de terem sido feitas por mãos humanas e não de forma natural, debate que sempre surge quando são achadas novas evidências arqueológicas com potencial de “reescrever” a pré-história.
Suas lascas e seixos seriam característicos da chamada indústria lítica Olduvaiense, muito primitiva, registrada na África há pelo menos 2,4 milhões de anos. Trata-se basicamente de seixos a partir dos quais são produzidas lascas. O que diferencia as peças dessa indústria são seu formato mais próximo do triangular (os seixos de origem natural são mais arredondados), com talhos em ângulos menores que 80 graus. “Os hominídeos não caçavam nessa época. Essas lascas deviam ser usadas para descascar carniça”, comenta Neves. Cerca de 2 mil artefatos de pedra lascada foram encontrados em sítios do vale do Zarqa. “Encontramos em um barranco de 120 metros que escavamos uma concentração anormal de artefatos de pedra”, diz o arqueólogo Astolfo Araujo, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP, outro membro da equipe.
Lascas de pedras encontradas no vale do rio Zarqa feitas por hominídeosGiancarlo Sardia / Unesp

Os sítios da Jordânia são pouco conhecidos. Embora tenham sido escavados por franceses e italianos entre 30 e 40 anos atrás (Fabio Parenti escavou a área no final dos anos 1990), são alvo de poucas publicações científicas. A equipe de Neves resolveu explorar na região porque a Jordânia faz parte do Oriente Médio, que seria um corredor de passagem natural para os hominídeos de saída da África a caminho da Ásia. 

No entanto, quase não há registros antigos da presença de hominídeos no Oriente Médio. “Ficamos muito surpresos quando nossas datações deram 2,5 milhões anos para as camadas geológicas mais antigas com artefatos líticos”, admite o geólogo italiano Giarcarlo Scardia, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Rio Claro, especialista em paleomagnetismo e primeiro autor do estudo. “Mas acho que não há como questionar nossas datações.”

Os três métodos usados para determinar a idade da formação Dawqara (camada geológica) em que estavam os artefatos de pedra foram a datação por isótopos de elemento argônio, o decaimento do urânio para o chumbo e o paleomagnetismo. Os resultados das análises indicaram que a região deve ter sido habitada por hominídeos por um período contínuo de 500 mil anos, entre 2,5 e 2 milhões de anos atrás.
Escavação em paredão do Vale do rio ZarqaGiancarlo Scardia / Unesp.

Além de Parenti, Neves, Araujo e Scardia, também assinam o artigo com descobertas na Jordânia os pesquisadores Daniel P. Miggins, da Universidade do Estado do Oregon, nos Estados Unidos, e Axel Gerdes, da Universidade Goethe, da Alemanha. Cerca de 80% dos trabalhos da equipe foram financiados por projetos da FAPESP e o restante pela Wenner-Gren Foundation for Anthropological Research, de Nova York.

Projeto

Evolução biocultural hominínia do Vale do rio Zarqa, Jordânia: uma abordagem paleoantropológica (nº 13/22631-2); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Walter Neves (USP);  Investimento  R$ 208.048,98

Artigo científico

SCARDIA. G. et al. Chronologic constraints on hominin dispersal outside Africa since 2.48Ma from the Zarqa Valley, Jordan. Quaternary Science Reviews. 6 jul. 2019

sábado, 6 de julho de 2019




Brasileiros acham objetos de 2,4 mi de anos que podem rever evolução humana Divulgação Descoberta sugere que a saída dos primeiros representantes do nosso gênero da África aconteceu cerca de 500 mil anos antes Imagem: Divulgação Bruna Souza Cruz Do UOL, em São Paulo 05/07/2019 06h00Atualizada em 06/07/2019 12h05 Erramos: este conteúdo foi alterado Resumo da notícia Artefatos de pedra lascada de 2,4 milhões de anos foram achadas fora da África Descoberta sugere que saída dos Homines do continente antes do imaginado Achava-se que Homo erectus deixou primeira a África; agora, pode ser o Homo habilis Brasileiro da equipe acha que comunidade internacio... - Veja mais em https://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/redacao/2019/07/05/cientistas-acham-objetos-de-24-mi-de-anos-que-podem-rever-evolucao-humana.htm?fbclid=IwAR3-5QsPYEBYIDtAHUILJY8QwGie1LRyNUDISGba6bvq7yDwv0x7-fWc9Nc&cmpid=copiaecola
Brasileiros acham objetos de 2,4 mi de anos que podem rever evolução humana Divulgação Descoberta sugere que a saída dos primeiros representantes do nosso gênero da África aconteceu cerca de 500 mil anos antes Imagem: Divulgação Bruna Souza Cruz Do UOL, em São Paulo 05/07/2019 06h00Atualizada em 06/07/2019 12h05 Erramos: este conteúdo foi alterado Resumo da notícia Artefatos de pedra lascada de 2,4 milhões de anos foram achadas fora da África Descoberta sugere que saída dos Homines do continente antes do imaginado Achava-se que Homo erectus deixou primeira a África; agora, pode ser o Homo habilis Brasileiro da equipe acha que comunidade internacio... - Veja mais em https://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/redacao/2019/07/05/cientistas-acham-objetos-de-24-mi-de-anos-que-podem-rever-evolucao-humana.htm?fbclid=IwAR3-5QsPYEBYIDtAHUILJY8QwGie1LRyNUDISGba6bvq7yDwv0x7-fWc9Nc&cmpid=copiaecola
Brasileiros acham objetos de 2,4 mi de anos que podem rever evolução humana Divulgação Descoberta sugere que a saída dos primeiros representantes do nosso gênero da África aconteceu cerca de 500 mil anos antes Imagem: Divulgação Bruna Souza Cruz Do UOL, em São Paulo 05/07/2019 06h00Atualizada em 06/07/2019 12h05 Erramos: este conteúdo foi alterado Resumo da notícia Artefatos de pedra lascada de 2,4 milhões de anos foram achadas fora da África Descoberta sugere que saída dos Homines do continente antes do imaginado Achava-se que Homo erectus deixou primeira a África; agora, pode ser o Homo habilis Brasileiro da equipe acha que comunidade internacio... - Veja mais em https://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/redacao/2019/07/05/cientistas-acham-objetos-de-24-mi-de-anos-que-podem-rever-evolucao-humana.htm?fbclid=IwAR3-5QsPYEBYIDtAHUILJY8QwGie1LRyNUDISGba6bvq7yDwv0x7-fWc9Nc&cmpid=copiaecola

quarta-feira, 7 de março de 2018

A saga da humanidade em 12 vídeos

07 de março de 2018

Agência FAPESP – “Perguntar se nós, humanos, descendemos do macaco é inadequado – somos macacos. A evolução que resultou no Homo sapiens não foi linear, e sim feita de idas e vindas”, disse Walter Alves Neves, professor titular do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva da Universidade de São Paulo, onde fundou e coordena o Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos, único do gênero da América Latina.

 
Curso de Walter Neves para o Canal USP apresenta os pontos principais da evolução que resultou no Homo sapiens (foto: Canal USP)

 
 “Ficamos bípedes não de uma vez só, mas aos poucos – durante milhões de anos, os hominídeos viveram entre as árvores e o solo: a chamada bipedia facultativa”, disse o paleoantropólogo, que em 12 vídeos, preparados especialmente para o Canal USP (youtube.com/canalusp), apresenta os pontos principais do caminho trilhado entre o ancestral comum ao homem e aos chimpanzés até o aparecimento do Homo sapiens, 200 mil anos atrás.

Em 30 anos como pesquisador da evolução humana, Neves reuniu réplicas de crânios das espécies de grandes símios e de hominídeos. O curso “A Saga da Humanidade” se baseia nessas réplicas, em torno das quais o pesquisador relata hábitos e características de cada espécie. Do Sahelanthropus tchadensis ao Homo neanderthalensis, Neves conduz o espectador pela longa saga que levou o homem a ocupar o planeta. O curso tem 11 aulas e mais um vídeo com observações finais.
Neves é conhecido por estudos arqueológicos na Lagoa Santa, em Minas Gerais, e pela reconstituição de Luzia, o fóssil humano mais antigo encontrado na América Latina. Ao lado do interesse científico na macroevolução humana e da formulação de uma nova teoria para o povoamento do continente americano, em que propõe a ocorrência de duas correntes migratórias, por dois grupos biológicos distintos, Neves tem também grande interesse na divulgação científica.

Para o paleoantropólogo, é tarefa da universidade e do Estado colocar à disposição do público os conhecimentos já reunidos sobre a evolução. “Do ponto de vista científico, nós não precisamos de Deus para explicar a origem e a evolução da linhagem até nós. Mas isso é muito pouco apresentado às pessoas no Brasil”, disse no último vídeo do curso.
“A Saga da Humanidade”: https://goo.gl/WiKGRn