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segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Ostra exótica pode causar riscos para áreas do litoral paulista

Unesp Registro faz levantamento de dados biométricos para propor estratégias de controle

22/09/2019 por: Jorge Marinho
A ostra exótica Saccostrea (acima) da região indo-pacífico e a ostra nativa Cassostera (abaixo) encontradas em Cananeia/SP.
 
Imagem: Divulgação Unesp Registro
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A ostra Saccostrea, espécie de ostra de rocha encontrada principalmente na área oceânica conhecida como indo-pacífico, que é a região geográfica que compreende o Oceano Índico e a porção ocidental e tropical do Oceano Pacífico, foi encontrada na região de Cananéia/SP, onde ficam as áreas das Reservas Extrativista do Taquari e de Desenvolvimento Sustentável de Itapinhapima, há dois anos, segundo a Marília Cunha Lignon, professora do curso de Engenharia de Pesca do Câmpus Experimental da Unesp, em Registro/SP.

A região é reconhecida pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) em função da alta diversidade biológica, além de ter o reconhecimento também da Convenção Internacional das Zonas Úmidas e ser parte do Mosaico de Áreas Protegidas do Lagamar.
“A ostra Saccostrea começou a aparecer em pequenas quantidades, em 2017, mas agora está se espalhando muito rápido porque se reproduz por larva. Então, são milhares de larvas lançadas no estuário de Cananéia/SP, a cada fase de reprodução da espécie. Controlar essa expansão é bastante complicado”, analisa a pesquisadora que informa ainda que não se sabe quais são as ameaças, tanto biológicas quanto de biodiversidade, que essa espécie exótica de ostra pode trazer para a região.
03-ostras-exoticas.jpg“Não conseguimos ainda avaliar se ela pode colocar em risco as espécies nativas, por isso, é muito importante avançarmos nos estudos para conhecermos um pouco mais sobre a Saccostrea porque a presença dela na região está aumentando. Em julho desse ano, quando fizemos o monitoramento das parcelas permanentes em mangue, observamos que estava muito espalhada nas áreas. Não podemos perder mais tempo! Precisamos conhecer melhor a espécie e como é o comportamento dela em nossa zona costeira”, destaca Marília Cunha Lignon.

O mapeamento da ocorrência dessa ostra exótica tem sido feito por meio de visitas às áreas e entrevistando gestores de unidades de conservação, pescadores tradicionais, monitores ambientais que estão freqüentemente em contato com os manguezais e costões rochosos.

A última atividade dessa pesquisa, realizada durante "Semana de Conservação dos Manguezais" de Cananéia/SP, envolveu os alunos do curso de graduação em Engenharia de Pesca da Unesp, campus Registro, matriculados na disciplina optativa "Ecossistema Manguezal e seus Recursos Naturais", sob responsabilidade da professora Marília, a Fundação Florestal, gestores das unidades de conservação, biólogos do município e pescadores tradicionais que coletaram 50 quilos de ostras Saccostrea. Cada indivíduo recolhido terá sua largura, comprimento e altura medidos pelos estudantes da disciplina optativa da professora Marília.
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“O objetivo é conhecer a espécie e a dinâmica dela no ambiente. Um conhecimento que será compartilhado com a Fundação Florestal e com os gestores das unidades de conservação para que seja possível pensarmos juntos estratégias de manejo e controle da espécie porque essa ostra pode competir com a nativa Cassostrea, já que se fixa na raiz do mangue vermelho, o lugar de desenvolvimento da ostra local”, explica Marília Cunha Lignon, que também diz que serão realizados trabalhos para apresentação em congressos científicos.

"Eu acho fundamental colocar o aluno de graduação de Engenharia de Pesca em contato com os pescadores locais porque se valoriza o trabalho e o conhecimento prático que os pescadores têm do ambiente. O contato dos alunos com as equipes de gestão das unidades de conservação costeira também faz com que percebam na prática a importância do apoio de engenheiros de pesca para auxiliar no manejo de espécies costeiras. Quando tiramos o aluno de sala de aula, das questões mais teóricas, e o levamos para a prática, ele aprende muito mais rapidamente e de forma muito mais estimulante”, conclui a pesquisadora.

“O trabalho de equipe, entre a Unesp, a Fundação Florestal, a Prefeitura de Cananéia e monitores ambientais, na ação contra ostra exótica só confirma a preocupação de todos com o bom funcionamento do ecossistema manguezal. Cada aluno que participou da atividade pôde observar as características dessa espécie exótica e os efeitos dela dentro do estuário que serve berçário e abrigo para milhares de espécies”, conta Wanilton Polachini Batista, aluno de Engenharia de Pesca da Unesp, câmpus Registro.

“Foi uma experiência muito importante porque pude conhecer as pessoas da comunidade local que extraem ostra, a equipe da Fundação Florestal. Também pude saber essa ostra exótica está ocupando um habitat diferente do original dela e quais os efeitos em nosso ambiente costeiro. Quanto mais conhecimento o aluno de Engenharia de Pesca tiver sobre os vários ambientes aquáticos (água doce, estuarino e marinho), melhor será a nossa formação profissional”, revela Lucca Stocco, discente de Engenharia de Pesca da Unesp, câmpus Registro.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Registros vivos do tempo

Novas espécies de invertebrados marinhos descobertas no litoral paulista ajudam a entender a evolução dos oceanos
MARCELLO GUIMARÃES SIMÕES / UNESP
Cada vez que precisa coletar os pequenos animais marinhos invertebrados usados em sua pesquisa, o paleontólogo Marcello Guimarães Simões sofre com as viagens ao mar. Assim que o Progresso, um pesqueiro de camarões adaptado para pesquisas, zarpa do cais de Ubatuba, no litoral norte paulista, começam os enjôos, que só cessam na volta a terra firme. Mas nem o mal-estar o faz desistir do seu objetivo: capturar pequenos invertebrados conhecidos como braquiópodes – semelhantes a moluscos encontrados nas praias, com os quais têm em comum apenas as conchas – que estão ajudando a compreender as alterações que o ambiente marinho sofreu nos últimos milhares de anos e, no futuro, devem permitir propor formas de recuperação para essas áreas.
 
Vencendo o mal-estar e muitas vezes o mar revolto, Simões e Adilson Fransozo, ambos do Instituto de Biociências (IB) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu, conseguiram coletar entre 2001 e este ano cerca de 5 mil exemplares de uma das espécies menos estudadas de braquiópodes vivos, a Bouchardia rosea – tarefa da qual participou a equipe de Michal Kowalewski, do Instituto Politécnico da Virgínia, nos Estados Unidos.

Por serem morfologicamente muito semelhantes a representantes da mesma linhagem que viveram há 60 milhões de anos, as Bouchardia são consideradas fósseis vivos. Com duas conchas quase simétricas e articuladas, semelhantes àquelas que viram brinquedo nas mãos das crianças nas praias, esses invertebrados são uma espécie de janela aberta simultaneamente para o passado e para o futuro, pois estão ajudando a reconstituir, com detalhes, o ambiente marinho em eras remotas e a desenvolver a paleoecologia marinha aplicada, ciência voltada para avaliar a deterioração ambiental e impedir seu progresso.

Desde o início dos trabalhos com os braquiópodes coletados no litoral paulista, a equipe da Unesp, coordenada por Simões, derrubou alguns dogmas. Os resultados mais recentes, publicados em julho na revista Palaios, uma das mais importantes da área, e apresentados em outubro no encontro anual da Sociedade Geológica dos Estados Unidos, em Denver, mostraram que a atual fauna de braquiópodes articulados da plataforma continental brasileira é mais diversificada do que se imaginava. Além de Bouchardia rosea, invertebrado tipicamente brasileiro e o único braquiópode articulado até então conhecido, os pesquisadores encontraram representantes de Platidia anomioides, Terebratulina sp e Argyrotheca cuneata, espécies que apresentam afinidades com as da Antártica, do Caribe, do Mediterrâneo e da porção sul-africana dos oceanos Atlântico e Índico.

Essa diversidade lança algumas questões sobre a distribuição dos braquiópodes pelo planeta. Duas perguntas que os pesquisadores pretendem responder, tão logo quanto possível, são por que a Bouchardia rosea só existe no Brasil e como as outras espécies chegaram até aqui. Já sabem que parentes remotos de Bouchardia rosea – como a B. conspicua, a B. antarctica e a B. transplatina – possuem uma longa história geológica: algumas habitaram os oceanos há cerca de 60 milhões de anos, após a extinção dos dinossauros. Atualmente, fósseis de espécies de Bouchardia e outras formas aparentadas, como Bouchardiella , podem ser encontrados em rochas da Antártica, da Austrália, da Argentina e do Uruguai.

Com cerca de 15 milímetros de comprimento e revestido por conchas róseas de carbonato de cálcio, às vezes com minúsculas listras brancas, a B. rosea é a única espécie viva conhecida da família Bouchardiidae que ainda habita os mares, espalhando-se pelo litoral dos estados de São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Até o momento, os pesquisadores não sabem exatamente quando a espécie surgiu.

“Por motivos ainda pouco entendidos, enquanto as populações de Bouchardia rosea apresentam uma distribuição mais ao norte, ao longo da margem oriental da América do Sul, outras espécies fósseis do mesmo gênero têm uma distribuição mais ampla nos continentes do Hemisfério Sul e são encontradas na Austrália, na Antártica e, no continente sul-americano, na Argentina e no Uruguai”, ressalta Simões. “Outros estudos sugerem que a distribuição das espécies decorra das modificações nas correntes oceânicas ocorridas nos últimos milhões de anos, durante a evolução do Atlântico.”
Outra novidade é a profundidade em que podem ser encontradas as populações de Bouchardia, às vezes com milhares de indivíduos em apenas 1 metro quadrado. Falava-se que viviam em águas rasas, com cerca de 20 metros de profundidade, com raras ocorrências em águas com profundidade superior a 100 metros, mas as pesquisas do grupo da Unesp e as amostras coletadas pelo Programa de Avaliação do Potencial Sustentável de Recursos Vivos na Zona Econômica Exclusiva (Revizee) demonstraram que esses organismos podem viver a até 550 metros. A descoberta amplia o alcance de futuros estudos, ao mostrar que uma espécie antes encontrada apenas em águas rasas pode ocupar hábitats mais profundos e pouco estudados.

Pode haver também algumas correções de rota nas pesquisas. Com base nos escassos dados sobre a biologia de Bouchardia rosea, os especialistas interpretavam o modo de vida das espécies fósseis do gênero como sendo similares à de Bouchardia rosea . Dessa forma, viram muitas ocorrências fósseis como geradas em condições deposicionais de águas rasas, já que, até então, a distribuição da espécie vivente estava, em grande parte, restrita às águas rasas. “Como agora sabemos que a espécie ocupa fundos a profundidades em torno dos 500 metros, seria interessante reexaminar as ocorrências fósseis à luz dos novos dados e comparar com os advindos de outras ciências, como a estratigrafia, que estuda a origem e a composição das camadas de rochas”, comenta o pesquisador da Unesp.

Os estudos de Simões sugerem também que as correntes oceânicas de ressurgência (de águas muito frias) podem ser fundamentais para o desenvolvimento de populações de braquiópodes. 

Mais uma vez, as evidências caminham na contramão do que se sabia: imaginava-se que essas correntes, ricas em nutrientes, trariam prejuízos para esses invertebrados, já que poderiam entupir o aparelho filtrador, chamado lofóforo, que drena a água e seleciona a matéria nutritiva. Por fim, verificou-se ainda a preferência dos braquiópodes por determinados tipos de substratos – as Bouchardia crescem em áreas do fundo oceânico em que a concentração de carbonato de cálcio nos sedimentos varia de 40% a 70%.

As constatações sobre as correntes e o substrato em que crescem mais facilmente são pistas importantes para o mapeamento global dessas populações, indicando de maneira mais clara onde podem se manifestar e as áreas que podem ajudar a recuperar. “As conchas oferecem registros confiáveis sobre a história recente e as modificações ambientais e biológicas vividas por aquela região da plataforma brasileira”, reafirma Kowalewski. “A partir de dados do passado, conseguimos informações sobre os estragos causados pela ação humana na natureza, redirecionando a atuação de ecologistas, geólogos, paleontólogos, biólogos e de agências ambientais.”

Kowalewski cita como exemplo um trabalho da Universidade do Arizona, também nos Estados Unidos, que, em meados da década de 90, em colaboração com a equipe de Virgínia, jogou luzes sobre o potencial da chamada paleoecologia marinha aplicada, uma área de pesquisa em que fósseis vivos como os braquiópodes e os registros de épocas passadas têm servido como referência para projetos de recuperação de áreas degradadas. Com esse tipo de informação, por exemplo, já foi possível desenvolver um plano de recuperação da biodiversidade aquática do delta do Rio Colorado, próximo à fronteira dos Estados Unidos com o México, área que sofreu intensa transformação ambiental com a construção de hidrelétricas.

As barragens erguidas desde 1930 reduziram bastante a quantidade de água que chegava à foz do Rio Colorado. Em consequência, houve um aumento da salinidade, o que colocou em risco de extinção espécies de invertebrados como a Mulinia coloradoensis, um molusco que servia de alimento para pequenos peixes, pássaros e para a população local. Para complicar, havia poucos registros históricos dos parâmetros ambientais do delta do rio, no período anterior às barragens.

Foi nesse ponto que a paleoecologia entrou em ação. Os pesquisadores coletaram amostras de conchas dos invertebrados ameaçados, que formam densas acumulações (depósitos superficiais) ao longo do delta. Depois, em laboratório, determinaram a idade dessas conchas, que variavam de recentes a até 7,3 mil anos. Esse dado é essencial porque, como os animais secretam o carbonato de cálcio e formam as conchas em equilíbrio químico com a água do mar, permite aos pesquisadores acessar as informações geoquímicas de conchas formadas em épocas distintas.

Essa análise revela, por exemplo, como as condições ambientais – temperatura e salinidade, entre outras – variaram de centenas a milhares de anos atrás. Ficou claro, assim, qual deveria ser a quantidade de água a ser descarregada no delta, a fim de manter as condições adequadas para a sobrevivência da Mulinia.

A equipe da Unesp procura seguir caminho similar. Embora embrionárias, as pesquisas são tão ambiciosas quanto os trabalhos feitos pelos norte-americanos. “A paleoecologia marinha aplicada é uma área de enorme relevância social que só recentemente passou a receber a atenção merecida”, afirma Simões. “O estudo do Rio Colorado é um marco.” Seu laboratório guarda amostras de acúmulos de conchas de Bouchardia rosea mortas e moluscos bivalves encontradas em acumulações com milhares de exemplares. Foram coletadas em 46 estações marítimas, com até 45 metros de profundidade, localizadas a cerca de 40 quilômetros da costa de Ubatuba, Caraguatatuba e São Sebastião, aonde chegavam somente após quatro horas de viagem de barco.

De volta ao laboratório, os pesquisadores analisaram as conchas do ponto de vista de uma área da ciência que estuda os padrões de preservação dos restos orgânicos, como os graus de articulação das conchas e de fragmentação, alterações na cor ou as taxas de incrustação ocorridas durante a vida ou adquiridas após a morte desses invertebrados – a chamada tafonomia. Conseguiram assim descobrir como se formaram esses acúmulos e a procedência das conchas depositadas no fundo do mar. Depois, as conchas seguiram para a equipe da Universidade de Virgínia, que conferiu as características tafonômicas básicas.

De lá, foram enviadas para o Woods Hole Oceanographic Institution’s National Ocean Sciences Accelerator Mass Spectrometry Facility (Nosams) e datadas com a técnica de carbono 14, mais indicado para datações de materiais com até 70 mil anos. Outra remessa foi de Virgínia para a Universidade George Washington, onde os pesquisadores cuidaram das datações com aminoácidos, que funcionam como relógios biológicos e indicam o tempo transcorrido desde a morte do organismo. “Embora possua limitações, a datação por aminoácidos é um método mais barato e mais rápido que o do carbono 14”, comenta Simões. Conclusão: as idades das conchas de Bouchardia encontradas na costa norte de São Paulo variaram de zero (o organismo tinha acabado de morrer) a 20 mil anos, com predomínio absoluto das que têm até 500 anos.

“Surpreendentemente, é possível estabelecer séries completas de idades a cada 50 anos, até a faixa em torno dos 500 anos, e determinar como os padrões ambientais variavam”, diz o pesquisador.
Na próxima etapa do trabalho, as equipes da Unesp e de Virgínia pretendem investir no estudo geoquímico das conchas já datadas, dentro das séries de idades até 500 anos ou mais – e os segredos que guardam deverão ser revelados pela análise de isótopos estáveis. Os especialistas vão comparar as proporções entre os elementos químicos – como carbono 13 e 12 e oxigênio 18 e 16 – das águas oceânicas com os registrados pelas conchas de Bouchardia de diferentes épocas (atuais, com 500, 3 mil e 20 mil anos, por exemplo).

O objetivo é construir uma linha histórica de parâmetros ambientais, como salinidade e temperatura. Simões sabe que nesse caminho não haverá apenas tempestades e enjôos. “Se estivéssemos falando de uma nova espécie de dinossauro, o tema seria rapidamente reconhecido”, afirma. “No caso de conchas tão pequenas, o processo é mais lento.”

O Projeto
Tafonomia de Braquiópodes e Bivalves em Ambientes Siliciclásticos da Costa Norte do Estado de São Paulo: Variação Ambiental nas Assinaturas Tafonômicas, Estilo Bioestratinômico e Mistura Temporal entre Tafocenoses

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Valo Grande causa danos no litoral de São Paulo

Construído há quase 160 anos, canal gerou alterações ambientais que se agravaram recentemente
RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE | Edição Online 15:28 18 de dezembro de 2014


© LUCIANO FAUSTINO / WIKIMEDIA COMMONS
Canal do Valo Grande, em Iguape
Canal do Valo Grande, em Iguape, litoral sul de SP.

Quase 160 anos após a construção do canal do Valo Grande, no litoral sul de São Paulo, pesquisadores do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) seguem identificando desequilíbrios causados na região por conta da obra, que desviou grande parte do fluxo do rio Ribeira de Iguape para o Mar Pequeno, entre Iguape e Ilha Comprida. Em um estudo publicado na revista Anais da Academia Brasileira de Ciências, os pesquisadores, coordenados pelo oceanógrafo Michel Michaelovitch de Mahiques, verificaram que a construção do canal, projetado para facilitar o transporte de arroz produzido na cidade de Iguape até o porto local, causou alterações ambientais progressivas que se agravaram no passado recente.

Construído em 1855, o canal levou à formação do delta do Valo Grande no interior da laguna costeira. Isso, segundo os pesquisadores, se deu em função do intenso processo de assoreamento causado pela erosão das margens do canal e pelos sedimentos provenientes do rio Ribeira. Como resultado do alargamento do canal, aproximadamente 60% do fluxo do rio foi transferido para o sistema lagunar, de água salobra, provocando a diminuição drástica da salinidade e seu assoreamento. Ao mesmo tempo, a grande infiltração de água doce reduziu as áreas de mangue, que foram substituídas por vegetação de água doce. “A área do delta do Valo Grande encontra-se sob forte modificação de sua paisagem”, conta Mahiques. No arquipélago de Porto Iguape, por exemplo, os manguezais praticamente desapareceram nos últimos 10 anos. “Também houve um recuo progressivo da linha da costa na margem da Ilha Comprida ao longo dos anos”, explica.

Quando concluído, o Valo Grande tinha 4,4 metros de largura, dois de profundidade e aproximadamente 4 quilômetros de extensão. Ao longo de 150 anos desde a sua abertura, contudo, a força das águas do rio Ribeira aumentou a largura do canal, que hoje chega a quase 300 metros e sete metros de profundidade. Segundo Mahiques, também as águas desviadas do rio, carregadas de sedimentos lamosos, aos poucos provocaram intenso assoreamento e inviabilizaram o Porto de Iguape, já que as embarcações não mais podem atracar.

Em estudos anteriores, os pesquisadores já haviam observado que as águas do Ribeira de Iguape carregavam grãos mais finos e mais matéria orgânica do que antes, o que afetara a fauna que vive no fundo de rios e mares. Observaram também uma alteração química nos níveis de metais pesados, em especial o chumbo. Esse elemento químico pode entrar na cadeia alimentar marinha, acumular-se no organismo de espécies de alto valor comercial, como robalos, pescadas, manjubas, camarões, ostras e mexilhões, e chegar às pessoas, causando danos no sistema nervoso central (ver Pesquisa FAPESP nº 225). Agora, explica Mahiques, a constatação de que o canal continua a alterar a paisagem local deve fornecer subsídios para a discussão de políticas públicas relacionadas à preservação ou restauração do Valo Grande.

Projeto

O registro geológico da atividade antrópica no sistema Estuarino-Lagunar de Cananeia-Iguape (nº 06/04344-2); Modalidade Auxílio Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Michel Michaelovitch de Mahiques (IO-USP); Investimento R$ 129.948,01 (FAPESP).

Artigos científicos

MAHIQUES, M. M. et al. Coastline changes and sedimentation related with the opening of an artificial channel: the Valo Grande Delta, SE Brazil. Anais da Academia Brasileira de Ciências. nov. 2014.

MAHIQUES, M. M. et al. 150 years of anthropogenic metal input in a Biosphere Reserve:  the case study of the Cananéia–Iguape coastal system, Southeastern Brazil. Environmental Earth Sciences. v. 68, n. 4, p. 1073-87. jul. 2012.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Pesquisa analisa DNA de tubarões e agulhões pescados no litoral paulista

07/03/2014
Por Fabio Reynol
Agência FAPESP – A ocorrência do tubarão Carcharhinus longimanus tem diminuído no litoral paulista nas últimas décadas e, pela primeira vez, o agulhão da espécie Tetrapturus georgii foi identificado no Atlântico Sul.

Espécies capturadas por embarcações industriais e desembarcadas em terminais pesqueiros de Santos foram identificadas molecularmente (foto: Alberto Amorim

Essas revelações fazem parte do relatório do projeto Análise de sequências do DNA mitocondrial para avaliação populacional e identificação molecular das espécies de peixes pelágicos de importância econômica desembarcados em São Paulo, realizado de 2010 a 2013 e apoiado pela FAPESP na modalidade Auxilio à Pesquisa Regular.
Durante dois anos, de 2010 a 2011, o então mestrando Rodrigo Rodrigues Domingues fez plantão nos terminais pesqueiros de Santos, no litoral paulista. Seu trabalho foi coletar pequenos pedaços de tecido de carcaças de tubarões do gênero Carcharhinus e de agulhões Tetrapturus capturados por embarcações industriais em todo o Sudeste e Sul do Brasil e identificá-los molecularmente. O estudante também mediu, pesou e identificou o sexo de cada animal para posterior estudo biológico pesqueiro.

“As carcaças são desembarcadas sem cabeça, vísceras e nadadeiras, que são retiradas ainda dentro dos barcos; o que sobra é o corpo principal, chamado de ‘charuto’”, disse o professor Alexandre Wagner Silva Hilsdorf, do Núcleo Integrado de Biotecnologia da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), em São Paulo, coordenador da pesquisa. Esse processamento do pescado, iniciado ainda na embarcação, prejudica a identificação das espécies por características morfológicas, tornando as análises de DNA cruciais para esse levantamento.
Com amostras de 317 peixes, Domingues identificou as espécies e depois embarcou para a Flórida, nos Estados Unidos, para testar um protocolo de diferenciação específico para agulhões e tubarões, desenvolvido por um dos maiores especialistas mundiais na genética desses peixes, o professor Mahmood Shivji, do Oceanographic Center da Nova Southeastern University.
“Ele utilizou uma região chamada ITS-2 do DNA nuclear dos tubarões Carcharhinus para desenvolver marcadores moleculares para espécies diferentes”, explicou Domingues, que recebeu bolsa FAPESP durante o mestrado.
Os resultados puderam ser comparados a outro levantamento feito com os mesmos gêneros, entre 1974 e 1997, pelo pesquisador Alberto Ferreira de Amorim, do Instituto de Pesca (IP), em Santos. Trabalhando embarcado, o especialista analisava os animais antes de serem cortados e identificava as espécies morfologicamente. Ao todo, Amorim registrou 12 espécies de tubarões em suas incursões. Em comparação, a pesquisa da UMC, que também contou com a participação de Amorim, encontrou apenas quatro, todas do gênero Carcharhinus: C. falciformis e C. signatus, que formaram a imensa maioria capturada, e as espécies C. plumbeus e C. brachyurus, com um e dois exemplares capturados, respectivamente.
“Chamou-nos a atenção o fato de não termos encontrado nenhum C. longimanus, que fora a espécie mais abundante do trabalho de Amorim entre as décadas de 1970 e 1990”, afirmou Domingues, acrescentando que essa ausência corrobora outros estudos que indicam o declínio desse peixe em outros pontos do Atlântico.
Primeiro registro
Outro destaque da pesquisa foi o primeiro registro do agulhão Tetrapurus georgii em águas brasileiras. O peixe havia sido identificado no Mediterrâneo e na porção norte do Atlântico, mas nunca ao sul do Equador. “Por serem peixes migradores, capazes de percorrer enormes distâncias, sua presença era previsível no Atlântico Sul. Desconfiamos que o T. georgii, ou agulhão anão, possa ter sido constantemente confundido com o T. albidus, conhecido como agulhão branco e com o agulhão verde, T.pfluegeri”, disse Hilsdorf. O trabalho do estudante recebeu uma menção honrosa no Simpósio de Citogenética e Genética de Peixes, realizado em 2011 no município de São Pedro (SP).
A confusão, provocada pelas semelhanças morfológicas entre as espécies, levanta um problema sério para a gestão da pesca: como saber quais peixes são mais abundantes e quais devem ter a pressão de pesca aliviada para que as populações possam se recuperar? “Isso só será possível se conseguirmos identificar as espécies capturadas”, responde Domingues. “Todavia, uma vez no barco, todos viram agulhões ou cações [no caso dos tubarões] independente da espécie. Esse quadro só mudará se metodologias moleculares para identificação de espécies forem implantadas para monitorar o desembarque de pescado”, acrescentou.
Pesquisas como essa ajudam a pautar determinações emitidas pelos órgãos de controle pesqueiro, como a International Commission for the Conservation of Atlantic Tunas (ICCAT), da qual o Brasil é signatário. “Como os peixes migradores percorrem distâncias imensas e cruzam fronteiras, são necessárias instâncias internacionais para gerenciar a pesca”, afirmou Domingues. Uma das medidas já tomadas pela ICCAT foi a proibição da pesca do C. longimanus em 2011.
Em razão da falta de acurácia na identificação dos peixes, os órgãos que elaboram as estatísticas de captura costumam agrupar mais de uma espécie em um mesmo nome comum. “Isso traz sérias implicações para o manejo e a conservação das espécies, pois as medidas protecionistas devem ser feitas por espécie, uma vez que cada uma responde de modo diferente à pressão exercida pela pesca”, comentou o estudante.
Chamados pelágicos, por habitarem as camadas até 200 metros abaixo da superfície, agulhões e alguns tubarões possuem um papel importante na regulação do ecossistema marinho. Eles estão no topo da cadeia alimentar e a redução de suas populações provoca um desequilíbrio brutal em toda a fauna aquática que se encontra abaixo deles nessa cadeia.
Hilsdorf explica que as populações de tubarões e agulhões são alvo das indústrias pesqueiras brasileiras e internacionais e sofrem uma pressão pesqueira sem o devido controle. No caso dos tubarões, a pressão é aumentada por causa das barbatanas, valorizada como iguaria em alguns países asiáticos.
Agora com uma bolsa de doutorado FAPESP, Domingues pretende ampliar o estudo com avaliações genético populacionais das espécies C. falciformes e C. signatus ao longo do Atlântico. O DNA das amostras coletadas em seu mestrado, comparado com outras de diferentes localidades, propiciará um quadro mais completo da variabilidade genética dentro e entre populações, podendo gerar conhecimento para um melhor manejo pesqueiro dessas duas espécies. “O velho chavão da pesquisa se faz válido: é preciso conhecer para preservar”, disse.



segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Poluição reduz diversidade de bactérias marinhas no litoral paulista

13/01/2014
Por Noêmia Lopes
Agência FAPESP – Quanto menos poluída a água do mar no litoral de São Paulo, maior é a diversidade de bactérias marinhas. Essa foi uma das constatações de um grupo de pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB/USP), após a coleta de amostras de água do mar e de plâncton na Baixada Santista, em Ubatuba e em São Sebastião.

 
Análise de material coletado na Baixada Santista, em Ubatuba e em São Sebastião indica que comunidades bacterianas são prejudicadas pela contaminação das águas (Google Maps)


Eles participaram de uma pesquisa, realizada entre 2010 e 2012 com apoio da FAPESP, cujo objetivo geral era caracterizar comunidades bacterianas do litoral paulista por meio de análises moleculares e genéticas.

O foco estava nos exemplares quitinolíticos – ou seja, nas bactérias que metabolizam a quitina (polissacarídeo presente no exoesqueleto de muitos organismos marinhos) e liberam carbono e nitrogênio (utilizados em processos biológicos, fisiológicos e bioquímicos ao longo de toda a cadeia alimentar).
Após as fases de coleta e análise, foram encontrados 13 gêneros de bactérias quitinolíticas na Baixada Santista, 19 em Ubatuba e 28 em São Sebastião, somando as amostras de água do mar e de plâncton (alguns gêneros foram encontrados tanto em água do mar quanto em plâncton).
Por meio de estudos anteriores realizados pelo próprio ICB/USP, os pesquisadores conheciam os níveis de poluição antrópica (pelo homem) nos três locais: alto na Baixada Santista, médio em São Sebastião e baixo em Ubatuba.

Cruzando os resultados, concluiu-se que a maior diversidade é encontrada onde há poluição baixa ou mediana. “Os microrganismos nativos de um sistema competem com outros que chegam até ele, por meio de esgotos não tratados, por exemplo. E sobrevivem os mais fortes – no caso, aqueles associados aos poluentes”, disse Irma Nelly Gutierrez Rivera, professora e pesquisadora do ICB/USP.
De acordo com Rivera, tal redução na diversidade de bactérias quitinolíticas gera preocupações em ao menos três esferas. A primeira remete aos prejuízos diretos para a cadeia alimentar marinha, que necessita do carbono e do nitrogênio liberados pela metabolização da quitina. A segunda diz respeito a perdas para uma série de processos biotecnológicos nos quais essas bactérias são aplicáveis, como controle de insetos e fungos.
Já a terceira implica em riscos relacionados à perda de biodiversidade nos ecossistemas costeiros do país. “Há espécies desaparecendo antes mesmo de serem catalogadas. Isso é ruim porque devemos saber o que é nosso e o que não é – caso, por exemplo, dos microrganismos que chegam com a água de lastro dos navios e cuja interação com as espécies locais pode dar origem a espécies patogênicas que, por sua vez, podem causar doenças para o homem, para os animais marinhos e para o próprio ecossistema”, disse Rivera.

Metodologias e desenvolvimento

Entre 2007 e 2010, Rivera coordenou uma pesquisa com Auxílio Regular da FAPESP sobre a diversidade de microrganismos marinhos na Baixada Santista, em Ubatuba e em São Sebastião.
A partir de então e até o segundo semestre de 2012, com novo projeto de pesquisa, Rivera passou a coordenar a caracterização das comunidades bacterianas nesses três locais. Ou seja, a equipe focou os estudos nas bactérias – mais especificamente nas quitinolíticas – e buscou identificá-las por meio de análises moleculares e genéticas.

Para tanto, o primeiro passo foram as coletas de amostras de água e plâncton, que duraram 20 meses em São Sebastião e dois verões em Ubatuba e na Baixada Santista. As amostras de água eram coletadas em volumes de cinco litros, dez centímetros abaixo da superfície, em frascos previamente esterilizados. As amostras de plâncton foram coletadas com rede de malha, por arraste, durante cinco minutos, nos mesmos pontos de coleta das amostras de água.
A partir de então, o estudo das bactérias quitinolíticas viáveis (que podem ser cultivadas) foi realizado em meio de cultura que continha apenas quitina como fonte de carbono e alguns sais, de modo que o meio tivesse uma composição próxima à da água do mar. As bactérias quitinolíticas foram identificadas, em nível de gênero, com o método de sequenciamento do gene 16S rRNA.
Além dessa metodologia – chamada dependente de cultivo por exigir um meio em que as bactérias possam crescer – os pesquisadores usaram recursos moleculares e fizeram a construção de bibliotecas genômicas que viabilizam o trabalho a partir dos genes (ao invés do crescimento bacteriano), conhecidos como independentes de cultivo. Para tanto, amostras de água foram filtradas e concentradas, com posterior extração do DNA total.
A construção de bibliotecas genômicas foi realizada com o uso do gene chiA, que codifica as enzimas quitinases que degradam a quitina, e da técnica de clonagem – cada sequência foi analisada por meio de pareamento com sequências disponíveis em banco de dados (GenBank).
De acordo com a pesquisadora, caracterizar comunidades bacterianas com base em análises moleculares e genéticas é importante porque permite ampliar o leque de exemplares descritos, já que nem todos são capazes de crescer nos meio de cultivo dos quais os cientistas dispõem.
No caso do estudo do ICB/USP, as duas metodologias, dependente e independente de cultivo, confirmaram que a maior diversidade de bactérias ocorre em ambientes com nível de poluição baixo ou médio.
Nos três locais estudados, o filo Proteobacteria foi o mais recorrente. Em relação aos gêneros, em amostras de água, Micromonospora predominou em Ubatuba e São Sebastião, enquanto Aeromonas prevaleceu na Baixada Santista. Em amostras de plâncton, Ubatuba teve outros gêneros de bactérias, como Streptomyces e Luteimonas, enquanto as Aeromonas foram as mais encontradas em São Sebastião e na Baixada Santista.

“Para chegar ao nível das espécies, é preciso lançar mão de metodologias mais complexas”, afirmou Rivera. “Até hoje, conhecemos pouquíssimas espécies. Estudos apontam que os oceanos são os ambientes mais ricos em diversidade procariótica, com aproximadamente 3,5 x1030 espécies de bactérias. Por enquanto, apenas cerca de 6 mil delas estão descritas.”
Os pesquisadores do ICB/USP farão o sequenciamento completo do genoma de ao menos uma das bactérias quitinolíticas coletadas, a fim de identificar a que espécie ela pertence. Outro desdobramento serão estudos sobre as enzimas produzidas por bactérias de ecossistemas marinhos e suas possíveis aplicações biotecnológicas.

“Estamos na etapa final das análises estatísticas e já submetemos um artigo que aguarda publicação – Impact of Anthropogenic Activity on Chitinolytic Bacteria Diversity in the Marine Environment”, disse Rivera. Além dela, duas alunas de pós-doutorado participaram dos estudos: Claudiana Paula de Souza, com bolsa da FAPESP, e Bianca Caetano de Almeida.