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quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Pesquisadores da Unesp reúnem maior banco de dados de primatas
 
Estudiosos da Mata Atlântica escreveram artigo publicado na revista internacional Ecology
 
Laurence Culot, Departamento de Zoologia do Instituto de Biociências do câmpus Rio Claro
05/12/2018
O bugio-ruivo é o macaco mais comum nas florestas e fragmentos da Mata Atlântica
 
Os primatas estão entre os mamíferos mais bem estudados de todo o mundo. Explorar o conhecimento sobre ecologia, comportamento e genética desses animais oferece suporte para compreendermos melhor a evolução humana e o surto de doenças infecciosas, como a febre amarela, por exemplo.
Além disso, primatas desempenham um papel-chave dentro do ecossistema ao ingerir sementes dos frutos dos quais se alimentam e as defecando pelo chão das florestas, agindo como verdadeiros jardineiros.
Em posição de destaque, o Brasil tem mais espécies de primatas do que qualquer outro país, sendo a Mata Atlântica o refúgio de 26 espécies das quais 73% só ocorrem dentro dos limites desta floresta tropical historicamente degradada.
Diante deste cenário, pesquisadores da Unesp em Rio Claro lideraram uma rede de colaboração para a construção de um banco de dados, o maior até o presente momento, e reunir informações sobre populações e comunidades destes animais.
O projeto contou com o esforço de mais de 100 pesquisadores de várias instituições, a maior parte deles brasileiros. Este enorme conjunto de dados foi publicado na revista científica Ecology, uma das mais tradicionais e conceituadas do meio acadêmico, em formato aberto (open data). Ou seja, qualquer pessoa dispõe de acesso livre às informações compiladas.
Milhares de registros
O estudo foi liderado pela professora Laurence Culot, primatóloga e docente do Departamento de Zoologia da Unesp em Rio Claro, e pelo aluno de graduação em Ciências Biológicas Lucas Augusto Pereira. Foram compilados mais de 10.000 registros de ocorrência em mais de 5.000 locais de Mata Atlântica no Brasil, na Argentina e no Paraguai.
Esses dados foram extraídos de cerca de 900 publicações nacionais e internacionais, bem como de teses e dissertações, geralmente disponíveis apenas em português, agora também disponíveis para pesquisadores estrangeiros.
Além disso, o banco de dados reúne uma grande quantidade de informações até então não publicadas, disponibilizadas pelos coautores do trabalho.
Os dados abrangem um período entre os anos de 1820 e 2017, o que permite tecer um grande panorama sobre a distribuição desses animais na Mata Atlântica ao longo do espaço e do tempo.
A importância deste abrangente trabalho colaborativo se encontra na gama de possibilidades de processamento dos dados e produção de conhecimento. Agora, pesquisadores do mundo todo têm nas mãos informações que podem ajudar a compreender cada vez mais como os primatas, nossos parentes mais próximos dentro da árvore da vida, respondem às ameaças cada vez mais intensas das sociedades humanas, o que deve resultar, no futuro, em ações concretas de conservação desses animais.
Além disso, esses dados serão de extrema importância para guiar novas pesquisas em regiões que abrigam espécies pouco estudadas até o momento.
Mais ainda, o conjunto de dados permite avaliar as espécies mais abundantes e as mais raras. No primeiro caso, o bugio-ruivo (Alouatta guariba) é o macaco mais comum nas florestas e fragmentos da Mata Atlântica. Uma realidade que mudou drasticamente devido aos recentes surtos de febre amarela no país, que dizimaram suas populações e levou a UICN (União Internacional para Conservação da Natureza) a inserir a espécie na próxima lista das 25 espécies de primatas mais ameaçadas do mundo --essa lista será publicada em 2019.
Entre as espécies mais raras, o mico-leão-de-cara-preta (Leontopithecus caissara) tem uma distribuição restrita a uma pequena parte do extremo sul no litoral do Estado de São Paulo e no litoral do Estado do Paraná, no Parque Nacional de Superagui.
O "Atlantic-Primates", nome deste estudo, é parte do “Atlantic Series”, uma iniciativa que pretende tornar público o maior conjunto possível de dados sobre a biodiversidade da Mata Atlântica, levando-se em conta que este é um dos biomas mais estudados do mundo.
A iniciativa é liderada pelos professores Mauro Galetti e Milton Cezar Ribeiro, ambos docentes do Departamento de Ecologia da Unesp em Rio Claro. Neste sentido, o Atlantic Series é também uma celebração do árduo trabalho e esforço de centenas de pesquisadores e naturalistas que, ao longo de vários anos, coletaram essas valiosas informações e que agora se fazem mais necessárias do que nunca.
Para saber mais sobre o ATLANTIC-PRIMATES: https://esajournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/ecy.2525
Para saber mais sobre o ATLANTIC SERIES: https://github.com/LEEClab/Atlantic_series

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Novo macaco nas árvores da Amazônia

Pesquisadores descrevem nova espécie de primata da floresta amazônica. Embora recém-descoberto, o animal já pode estar correndo risco de extinção pela perda de seu hábitat devido ao desmatamento. 
 
Por: Everton Lopes
Publicado em 05/05/2015 | Atualizado em 05/05/2015
Novo macaco nas árvores da Amazônia
Zogue-zogue-rabo-de-fogo (‘Callicebus miltoni’), o mais novo primata do Brasil, foi encontrado na Amazônia. (foto: Júlio César Dalponte.
 
A recente descoberta de um primata na Amazônia, o zogue-zogue-rabo-de-fogo (Callicebus miltoni), demonstra que ainda há muito para se conhecer sobre a região.

O animal foi primeiro avistado no estado de Mato Grosso em 2011. Agora, pesquisadores do Instituto para a Conservação dos Carnívoros Neotropicais (Pró-Carnívoros), do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e do Museu Paraense Emílio Goeldi publicaram a descrição completa da espécie na revista científica Papéis Avulsos de Zoologia.

Silva: “A característica mais marcante da espécie é sua cauda avermelhada, cor de tijolo, por isso o nome ‘rabo de fogo’”.
 
Durante uma expedição científica pelo interior da Amazônia em 2011, pesquisadores avistaram um primata do gênero Callicebus, típico da floresta amazônica e da mata atlântica. Mas o exemplar apresentava algumas peculiaridades visíveis, o que sugeria se tratar de uma nova espécie. “A característica mais marcante da espécie é sua cauda avermelhada, cor de tijolo, por isso o nome ‘rabo de fogo’. Essa mesma coloração é encontrada ainda na região ventral do animal até a altura do pescoço”, descreve Felipe Ennes Silva, biólogo do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá que participou da descoberta.
Para confirmar que era uma nova espécie, foram realizadas comparações de coloração da pelagem e de medidas do corpo e do crânio do animal com as de outras espécies do gênero. “O padrão de coloração peculiar já foi suficiente para constatarmos que se tratava de uma espécie nova”, conta Silva. “Posteriormente, uma análise molecular comparando o material genético de C. miltoni com o de espécies vizinhas também confirmou sua singularidade.”
Espécies do gênero ‘Callicebus’
Ilustração de três espécies diferentes do gênero ‘Callicebus’. O padrão peculiar de coloração da pelagem foi suficiente para distinguir o zogue-zogue-rabo-de-fogo (no centro) como uma nova espécie. (ilustração: Stephen Nash)
O zogue-zogue-rabo-de-fogo ocorre em uma área de cerca de 4.921.540 hectares que vai do norte do Mato Grosso ao sul do Amazonas, entre os rios Aripuanã e Roosevelt.

Embora os pesquisadores ainda não tenham dados de campo a respeito do comportamento da espécie, os animais desse gênero costumam viver em pequenos grupos, de dois a seis indivíduos, que geralmente têm um filhote por ano (esses grupos, em geral, apresentam apenas uma fêmea reprodutiva). Os Callicebus têm cerca de 30 centímetros de comprimento, possuem hábitos arborícolas e diurnos e a sua alimentação consiste principalmente de frutos.

Já ameaçado

Apesar de recém-descoberto, o zogue-zogue-rabo-de-fogo já pode estar correndo risco de extinção. De acordo com Silva, a perda de hábitat é fator crítico para a manutenção da espécie.
Silva: “A região onde essa espécie se encontra sofre uma grande pressão do desmatamento causado por motivos diversos, como o corte seletivo de árvores para fins comerciais”
 
“A região onde essa espécie se encontra sofre uma grande pressão do desmatamento causado por motivos diversos, como o corte seletivo de árvores para fins comerciais”, destaca o biólogo. “Obras para a construção de estradas e hidrelétricas na área também devem influenciar o status de conservação dessa espécie em longo prazo. Somente nos rios Aripuanã e Roosevelt, sete hidrelétricas estão previstas para serem implementadas nos próximos anos”, alerta.

O pesquisador ressalta a importância da realização de expedições científicas para se obter cada vez mais conhecimento sobre a nossa biodiversidade e, assim, permitir a elaboração de medidas de conservação. “Os primatas neotropicais estão entre os grupos de nossa fauna de que mais temos informações e ainda estamos nos surpreendendo com novos dados provenientes de trabalhos de campo”, comenta. “Se considerarmos grupos menos estudados, chegaremos à conclusão de que temos uma tarefa gigante pela frente, de proporções realmente amazônicas”, encerra o biólogo.

Everton Lopes
Ciência Hoje On-line

terça-feira, 19 de novembro de 2013

O supermacaco das Américas

Paleontólogos reconstroem o estilo de vida versátil do Cartelles coimbrafilhoi, o maior símio que já habitou o continente 

IGOR ZOLNERKEVIC | Edição 213 - Novembro de 2013

Há mais de 15 mil anos viveu onde hoje é o Brasil um macaco duas vezes maior que o muriqui, o maior macaco vivo no Novo Mundo. A prova da existência desse supermacaco das Américas é um esqueleto fóssil quase completo, descoberto em 1992 em uma caverna no município de Campo Formoso, no interior da Bahia. Descrito pelo paleontólogo Cástor Cartelle, hoje pesquisador da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas), o fóssil do supermacaco foi analisado em detalhes mais recentemente por Lauren Halenar e Alfred Rosenberger, paleontólogos da Universidade da Cidade de Nova York (CUNY). Lauren e Rosenberger concluíram que a espécie, batizada este ano de Cartelles coimbrafilhoi, explorava o chão da floresta tão bem quanto um chimpanzé.

Ao mesmo tempo, apesar do tamanho avantajado, esse macacão podia escalar as árvores e se pendurar em seus galhos com a mesma habilidade, embora um pouco mais lentamente, que as espécies menores de sua família – a dos Atelidae, à qual pertencem o bugio, o macaco-aranha, o macaco-barrigudo e o muriqui. “O Cartelles provavelmente não se movia ou se comportava como nenhuma espécie de macaco do Novo Mundo viva hoje”, diz Lauren.

O fóssil do Cartelles coimbrafilhoi, segundo os pesquisadores, é um dos mais importantes para reconstituir a história evolutiva, ainda pouco conhecida, dos macacos dessa região. A classificação desse fóssil em uma nova espécie – na verdade, gênero e espécie – eleva para quatro o número de espécies de macacos que viveram na América do Sul no final do Pleistoceno e hoje estão extintos. A descoberta de novos fósseis, como os encontrados nos últimos anos por Rosenberger e colaboradores em cavernas submersas da República Dominicana, deve ajudar a completar esse quadro, que ainda tem como peça importante o macaco achado em Campo Formoso em 1992.

Naquele ano, explorando um pequeno trecho da Toca da Boa Vista, que tem 110 quilômetros de extensão e é considerada a maior caverna do hemisfério Sul, uma equipe de espeleólogos encontrou um dos esqueletos e avisou ao grupo de Cartelle, que achou dois esqueletos fósseis de macacos bastante completos, com mais de 90% dos ossos preservados. Os animais devem ter vivido em campos e florestas ao redor da caverna em algum momento, entre 360 mil e 15 mil anos atrás, no final do período geológico chamado Pleistoceno. Logo após a morte dos bichos, suas carcaças devem ter sido levadas por fortes enxurradas para o interior da caverna, onde seus ossos foram preservados. “Encontrar um esqueleto quase completo de qualquer táxon [grupo de organismos] é muito raro”, Lauren comenta.

As primeiras descrições desses fósseis foram publicadas em 1996, em dois artigos científicos escritos por Cartelle e pelo paleontólogo norte-americano Walter Hartwig, da Universidade Touro, na Califórnia. O esqueleto detalhado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) não representou grande desafio. Estudos posteriores confirmaram que a espécie, chamada de Caipora bambuiorum, foi uma versão maior do atual macaco-aranha. Embora pesasse cerca de 20 quilos (o dobro de um macaco-aranha), o Caipora devia se mover de maneira muito parecida, sendo capaz de usar tanto braços e pernas quanto sua cauda preênsil para se deslocar com agilidade entre os galhos das árvores.
Mais enigmático era o outro esqueleto, descrito por Hartwig e Cartelle na Nature. Os pesquisadores concluíram que a hipótese mais provável era que se tratava de um segundo fóssil de uma espécie descoberta um século e meio antes em uma caverna no município de Lagoa Santa, Minas Gerais, a mais de 1.200 quilômetros da Toca da Boa Vista. Em Lagoa Santa, o paleontólogo dinamarquês Peter Lund encontrou em 1836 um fragmento de fêmur e um pedaço de osso do braço, que ele identificou como o primeiro fóssil de primata descoberto na história. O Protopithecus brasiliensis é mencionado por Charles Darwin em seu clássico de 1859, Sobre a origem das espécies, e as estimativas mais recentes sugerem que pesava até 24 quilos.

Cartelle conta, no entanto, que sempre desconfiou que era preciso confirmar se os dois fósseis eram mesmo do Protopithecus. Ele e Hartwig haviam comparado o esqueleto da Toca da Boa Vista com fotos dos fragmentos do Protopithecus brasiliensis, guardados no Museu de História Natural da Dinamarca. Os dois pesquisadores haviam notado pequenas diferenças entre os fósseis, mas as interpretaram como variação natural entre indivíduos da mesma espécie. “Pensava comigo que iria um dia à Dinamarca examinar melhor”, conta Cartelle, que ainda não teve a oportunidade de realizar a viagem.

O suposto Protopithecus da Toca da Boa Vista apresentava ainda uma combinação muito estranha de características para os pesquisadores. Em seu doutorado concluído em 2005, a bióloga Patrícia Guedes, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, concluiu que a dentição do fóssil, embora um pouco desgastada, reunia características de duas subfamílias dos Atelidae: a dos Alouattinae e a dos Atelinae. Ela observou ainda que a forma do crânio era semelhante à dos outros Alouattinae, subfamília a que pertencem os bugios, enquanto seus dentes pareciam mais com os da subfamília dos Atelinae, a mesma do macaco-aranha, do macaco-barrigudo e do muriqui. Outros estudos, tanto do crânio quanto do resto do corpo, também sugeriam que a espécie misturava características dessas duas subfamílias, separadas há mais de 12,9 milhões de anos.

Para tentar resolver essas contradições, Rosenberger propôs a Lauren, então sua estudante de doutorado, que dedicasse sua tese a esmiuçar completamente os fósseis do P. brasiliensis de Lagoa Santa e da Toca da Boa Vista. Durante algumas semanas em Copenhague e em Belo Horizonte, ela mediu as formas e as dimensões dos ossos fossilizados, para depois comparar com os ossos de centenas de indivíduos de várias espécies de macacos atuais do acervo do Museu Americano de História Natural, em Nova York. O objetivo era determinar onde os fósseis se encaixavam na árvore filogenética dos macacos e deduzir como eles se movimentavam, a partir da forma de seus ossos. “Inferimos a função dos elementos do esqueleto de espécies extintas ao comparar a forma de seus ossos com a dos ossos de espécies vivas”, Lauren explica.
“Lauren notou imediatamente que alguns dos ossos eram bem diferentes anatomicamente”, lembra Rosenberger. Em artigo publicado neste mês no Journal of Human Evolution, ele e Lauren estão propondo que cada um dos fósseis atribuídos ao Protopithecus brasiliensis pertence, na realidade, a uma espécie diferente.

O P. brasiliensis de Lagoa Santa, segundo os pesquisadores, devia ser um atelíneo. Embora seja difícil afirmar qualquer coisa mais detalhada a seu respeito a partir de dois fragmentos de ossos, Lauren supõe que a espécie fosse como um muriqui, mas duas vezes maior. Já o esqueleto da Toca da Boa Vista era da mesma subfamília dos bugios, mas pertencente a um gênero diferente. Sua espécie foi batizada de Cartelles coimbrafilhoi, em homenagem a Cartelle, que há 50 anos estuda os mamíferos do Pleistoceno brasileiro – pelo menos quatro espécies extintas levam seu nome –, e a Adelmar Coimbra-Filho, um dos pioneiros da primatologia brasileira, que atuou para salvar o mico-leão-dourado da extinção.
Lauren estima que o Cartelles coimbrafilhoi pesava entre 25 e 28 quilos, o que faz dele a maior das quatro espécies de grandes macacos que viveram na América pleistocênica. O C. coimbrafilhoi media 1,67 metro do topo da cabeça à ponta da cauda e a base de seu crânio e sua mandíbula lembram as do macaco-barrigudo. Mas o formato geral do crânio se parece com o de um bugio, inclusive com o mesmo grande espaço próximo à garganta, que abriga o aparelho vocal desses macacos capazes de emitir urros audíveis a até 5 quilômetros de distância. Lauren explica, no entanto, que não é possível saber se o C. coimbrafilhoi urrava tão ou mais forte do que os bugios, pois a potência do chamado desses macacos não se relaciona de maneira simples com seu tamanho – ela depende também dos hábitos sociais de cada espécie e do ambiente em que vive.

O restante do esqueleto lembra o de um macaco-aranha, só que mais robusto. O formato de seus ossos sugere uma musculatura bem desenvolvida, adaptada para escalar e se dependurar. Hartwig e Cartelle já haviam proposto que o animal devia se sentir em casa no topo das árvores. Mas, por conta de seu tamanho, alguns pesquisadores descartaram a ideia, sugerindo que a espécie vivesse apenas no chão. De modo geral, apenas as espécies menores costumam ter um estilo de vida arborícola, pois os animais grandes correm mais risco de quebrar um galho e cair. Mas nem sempre é o caso. “O peso da grande maioria dos macacos arborícolas do Velho Mundo está na casa dos 10 quilos”, explica o primatólogo Stephen Ferrari, da Universidade Federal de Sergipe. “Entretanto, o maior primata arborícola, o orangotango, pode chegar aos 100.”

Além de ser bem menor que um orangotango, o Cartelles coimbrafilhoi talvez contasse ainda com a ajuda de sua grossa e longa cauda para se agarrar aos galhos, embora ainda faltem estudos biomecânicos para confirmar se a sua cauda podia ser usada como um quinto membro preênsil, capaz de se pendurar em galhos e sustentar o peso inteiro do animal, como fazem várias espécies vivas da família dos Atelidae.
Em todo caso, os ossos também indicam que a espécie tinha hábitos terrestres bem desenvolvidos. “Parece provável que o comportamento do Cartelles era mais parecido com o dos chimpanzés atuais, que são trepadores habilidosos, mas passam a maior parte de seu tempo no chão”, sugere Ferrari.

Patrícia concorda, lembrando que mesmo bugios e muriquis, normalmente arborícolas, às vezes exploram o chão. Recentemente a equipe da primatóloga Karen Strier, da Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos, registrou entre muriquis-do-norte vivendo em uma reserva particular protegida em Minas Gerais o desenvolvimento de hábitos terrestres. Em artigo publicado em 2012 na Plos One, Karen defende que a mudança de comportamento esteja ligada ao aumento da população, que passou de 60 para 300 indivíduos nos últimos 30 anos, e a falta de espaço para tantos macacos na reserva. Segundo a pesquisadora, ao aprender a explorar o chão, os muriquis encontraram mais comida e houve um aumento da taxa de natalidade, embora os animais também tenham se tornado mais vulneráveis ao ataque de predadores.
As quatro espécies extintas de macacos brasileiros – Cartelles coimbrafilhoi, Caipora bambuiorum, Protopithecus brasiliensis e Alouatta mauroi– conviveram com a megafauna, mamíferos de grande porte, como as preguiças-gigantes e os tigres-dente-de-sabre, que habitaram as Américas no Pleistoceno e podem ter sido extintos por causa das mudanças climáticas. “Espécies grandes de primatas são muito mais vulneráveis à extinção, não importa a causa”, Lauren explica.
Até o momento, não há como saber se alguma espécie de macaco atual descende da linhagem de algum desses grandalhões. “O trabalho de Lauren e Rosenberger chama atenção por mostrar a carência de dados disponíveis sobre a morfologia pós-craniana de primatas americanos”, comenta Patrícia. “Compreender a variação da morfologia dos platirrinos [grupo que inclui os macacos do Novo Mundo, com narinas distantes e voltadas para os lados] é muito importante para propor hipóteses de relacionamento entre eles e compreender a diversificação desses mamíferos na América do Sul.”

Um fim de ano bom

Equipe achou dois fósseis de primatas às vésperas do ano-novo
Ricardo Zorzetto

© ADRIANO GAMBARINI
O fotógrafo Adriano Gambarini registrou Cartelle (à esq.) e seus dois colaboradores durante coleta de fósseis em 1992 na  Toca da Boa Vista
O fotógrafo Adriano Gambarini registrou Cartelle (à esq.) e seus dois colaboradores durante coleta de fósseis em 1992 na Toca da Boa Vista

O ano de 1992 havia praticamente acabado quando Cástor Cartelle, paleontólogo especialista em preguiças extintas, fez uma das descobertas mais importantes da primatologia brasileira. Era 30 de dezembro e ele e dois colegas haviam caminhado duas horas por um labirinto de túneis, passagens estreitas e abismos para chegar ao salão da Toca da Boa Vista, onde estavam, lado a lado, os fósseis de duas das maiores espécies de macacos que viveram nas Américas no final do Pleistoceno. “Inicialmente pensei que fossem um macho e uma fêmea”, conta Cartelle, que mais tarde saberia que os fósseis pertenciam a espécies distintas, ainda não descritas.

Ele e seus colaboradores Mauro Ferreira e Rodrigo Lopes Ferreira não chegaram lá sozinhos. No dia anterior, quatro ou cinco integrantes do Grupo Bambuí de Pesquisas Espeleológicas, uma equipe grande que durante anos mapeou a Toca da Boa Vista, havia começado a explorar um trecho da caverna chamado “além mundo”, avistado os fósseis e levado uma amostra ao acampamento, uma escola em Laje dos Negros, distrito de Campo Formoso. “Alguém, não lembro quem, trouxe um crânio e nos mostrou”, conta Rodrigo, à época estudante de biologia na UFMG que trabalhava com Cartelle. “Vimos que era de um macaco e pedimos para nos levarem aonde o tinham encontrado.”
© ADRIANO GAMBARINI
Um dos salões da caverna
Um dos salões da caverna

No dia 30 de dezembro, ao deparar com os fósseis, os pesquisadores se surpreenderam. “Estava um a cinco metros do outro e o estado de conservação era impressionante”, recorda Rodrigo. Por mais de oito horas ele, Cartelle e Mauro esquadrinharam o chão do local coletando tudo o que encontravam do esqueleto dos macacos, depois descritos como Caipora bambuiorum e Protopithecus brasiliensis (este, rebatizado agora de Cartelles coimbrafilhoi), e de um fóssil de preguiça.  Réplicas dos esqueletos estarão expostas no Museu de Ciências Naturais da PUC Minas, que reabre em dezembro, depois de um incêndio no ano passado.

Na época em que viveram os macacos a região de Campo Formoso abrigava uma floresta tropical úmida, resultado do encontro da vegetação do Atlântico com a da Amazônia. Com o fim da última era glacial, o clima da região se tornou semiárido. No dia da coleta, ao calor e à secura da região se somaram as altas temperaturas da caverna. “Passamos um dia na antessala do purgatório”, conta Cartelle, “nunca suei tanto”. Até ele, que não bebe, naquela tarde tomou um ou dois copos de cerveja para comemorar.

Artigo científico

HALENAR, L. B. e ROSENBERGER, A. L. A closer look at the “Protopithecus” fossil assemblages: new genus and species from Bahia, Brazil. Journal of Human Evolution. v. 65, n.4, p. 374-90. out. 2013.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Ramificações ancestrais

Divergência de macacos-prego, tão antiga quanto a de seres humanos e chimpanzés, se reflete em ecologia e comportamento 

MARIA GUIMARÃES | Edição 196 - Junho de 2012
Desaparecidos por séculos, os macacos-prego-galegos foram redescobertos há poucos anos.

Os macacos-prego e caiararas existem na América Central, na Amazônia inteira, no cerrado, na caatinga e em toda a mata atlântica, chegando até a Argentina. Nessa extensão variam muito em forma, cor, tamanho, preferências alimentares e comportamento. São primatas marcantes, com um sistema social complexo e capazes de usar ferramentas, uma habilidade rara. Mesmo diante da grande variação entre espécies, até recentemente os especialistas classificavam macacos-prego e caiararas no mesmo gênero, Cebus, e boa parte deles respondia nos registros científicos pelo nome Cebus apella. Nos últimos 10 anos, a classificação desses primatas vem passando por uma revolução, com base no trabalho de pesquisadores brasileiros e de fora. “A taxonomia deles ainda seguia o trabalho dos naturalistas”, diz o primatólogo brasileiro Jean-Philippe Boubli. “A era da tecnologia molecular está permitindo toda uma reorganização.” Junto com a colega norte-americana Jessica Lynch Alfaro, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, ele – à época pesquisador na Wildlife Conservation Society – organizou um simpósio sobre esses macacos num congresso em 2010 no Japão. Reunindo os pesquisadores que mais estavam trazendo novidades ao conhecimento sobre esses primatas, o encontro deu origem a um volume especial da revista American Journal of Primatology, publicado em abril deste ano.

Quando estudava o comportamento desses macacos em Caratinga, Minas Gerais, Jessica via diferenças entre eles e os de outros lugares, mas não tinha contexto evolutivo para avaliar de onde elas vinham. “Não sabíamos há quanto tempo os grupos estavam separados ou qual o parentesco entre eles”, conta. Agora o animal que ela estudava se chama Sapajus nigritus, diferente de como era conhecido tanto em gênero como espécie. O pontapé inicial da mudança foi sugerido por José de Sousa e Silva Júnior em seu doutorado, concluído em 2001 pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Ele propôs dois subgêneros: Cebus para os caiararas, mais esguios, distribuídos da Amazônia para o norte, e Sapajus para os macacos-prego, mais robustos e muitas vezes caracterizados por um topete na cabeça, espalhados da Amazônia para o sul. “Ele foi corajoso em propor a divisão”, avalia Boubli, “mas agora podemos ir além”.

Só agora, uma década depois, a subdivisão se ampliou em trabalho de Jessica, Boubli e colaboradores publicado em fevereiro na revista Journal of Biogeography. Por meio de amplas análises genéticas, feitas sobretudo no laboratório de Jessica mas também no de Izeni Farias, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), ficou demonstrado que Cebus e Sapajus são diferentes a ponto de serem considerados gêneros distintos embora de tamanho parecido, ambos com pouco mais de 2 quilogramas. Mais especificamente, o estudo mostra que as duas linhagens se separaram há mais de 6 milhões de anos – mesmo tempo que separa o surgimento de chimpanzés e de seres humanos a partir de um ancestral comum. A mudança foi aceita pela maior parte dos primatólogos e está na Lista anotada dos mamíferos do Brasil publicada em abril pela Conservation International. Mas não é unanimidade, como é costume no meio científico. Em comentário recém-publicado no site da American Journal of Primatology, Alfred Rosenberger, do Brooklyn College, em Nova York, defende que a divisão dos macacos-prego e caiararas foi apressada e até certo ponto desnecessária. Embora não critique os fundamentos genéticos, ele argumenta que uma repartição exagerada pode criar espécies raras que angariam mais recursos para conservação, mesmo que não se justifique do ponto de vista científico. A discussão envereda mais para o campo filosófico, com base na fluidez do conceito de espécie, que não tem fronteiras definidas.
Os esguios Cebus capucinus, habitantes da América Central

Jessica está convicta de suas conclusões. Por meio de sequenciamento genético e de técnicas que permitem estimar quando aconteceram as ramificações na árvore genealógica desses primatas, tudo isso relacionado à geografia de sua distribuição atual, o grupo liderado por ela chegou a uma proposta sobre a trajetória desses animais ao longo da evolução. A formação do rio Amazonas foi responsável por criar uma separação norte-sul que isolou os primatas que ali viviam, gerando a ramificação na genealogia que deu origem a Cebus e a Sapajus. Depois disso, por cerca de 4 milhões de anos não se sabe bem o que aconteceu. Só por volta de 2 milhões de anos atrás o grupo que deu origem aos macacos mais robustos se espalhou pela mata atlântica sem deixar descendentes na Amazônia. A ocupação de toda a costa brasileira foi rápida e se deu em conjunto com uma grande diversificação de espécies.

Há cerca de 700 mil anos a expansão ao sul chegou até a Argentina, próximo às cataratas do Iguaçu, e rumou para o norte ocupando o cerrado, na região central do Brasil. Em seguida, por volta de 400 mil anos atrás, eles chegaram de volta à Amazônia, onde tornaram a se encontrar com seus parentes mais delicados, que se tinham espalhado pela região norte, em torno dos Andes, e chegado até a Costa Rica, na América Central.

Essa reinvasão relativamente recente da Amazônia pelos macacos-prego explica sua baixa diversidade por ali em número de espécies, e também a competição que se estabelece entre os dois gêneros que ficaram separados por milhões de anos. “Os Sapajus conseguem usar uma variedade maior de recursos, como quebrar frutos mais duros”, explica Jessica. Isso faz com que, quando eles coexistem com seus primos do norte – como é comum no oeste da Amazônia entre C. albifrons e S. macrocephalus –, a densidade dos mais esguios fique reduzida. Boubli analisou mais a fundo a diversidade genética dos Cebus, em artigo publicado na edição especial da American Journal of Primatology, e mostrou que esses animais pouco estudados abrigam uma enorme diversidade.
Para Izeni Farias, responsável pelas análises genéticas, não foi surpresa. “A distribuição é muito ampla, era de se esperar uma grande variação”, afirmou a geneticista, coordenadora de um projeto do Sistema Nacional de Pesquisa em Biodiversidade (Sisbiota) que busca amostrar a diversidade genética dos vertebrados amazônicos.

Experiente em andanças pela selva amazônica, Boubli vê o estudo genético como um ponto de partida que indica a necessidade de novos estudos. “Os interflúvios de rios como o Jaú, o Purus e outros separam populações que podem ficar isoladas tempo suficiente para se tornarem espécies”, explica o primatólogo. Um exemplo observado por ele são macacos das duas margens do rio Negro que estão separados há 1 milhão de anos, segundo dados genéticos. “Olhando, eles parecem iguais. Será que são espécies diferentes?”
Sapajus libidinosus escala paredão na serra da Capivara

A olho nu
Na amplitude tridimensional da Amazônia, coletar material para estudos genéticos já é bastante difícil. Estudos de ecologia e comportamento são muito mais complicados, daí a quase total ignorância sobre os animais que vivem por lá. A maior parte dos estudos que envolvem observação acontece em áreas de fácil acesso, onde os macacos já estão habituados à presença humana. No Brasil, isso torna os Sapajus muito mais estudados do que os Cebus. E há bastante variação de uma espécie a outra.

Essa variação depende em parte do ambiente, como mostra um grupo liderado por Patrícia Izar, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP), em artigo na American Journal of Primatology. A equipe comparou S. nigritus do Parque Estadual Carlos Botelho, no interior de São Paulo, e S. libidinosus da Fazenda Boa Vista, no município de Gilbués, Piauí. As diferenças ecológicas são marcantes: uma espécie de mata atlântica, que passa a maior parte do tempo no alto das árvores, e outra de caatinga, usando mais o chão em meio à vegetação menos generosa.

Talvez por causa do ambiente mais aberto, os macacos nordestinos demonstravam mais incômodo com a presença dos pesquisadores, que por vezes acusavam em gritos de alarme como se fossem predadores. Essa maior percepção do risco do entorno pode estar por trás dos grupos sociais mais coesos ali do que na floresta paulista. A disponibilidade de alimento, surpreendentemente menor na mata mais exuberante, também afeta a estrutura do grupo, que em Carlos Botelho muitas vezes se dispersa em busca de uma boa refeição. As palmeiras da caatinga produzem cocos de vários tipos, ricos em nutrientes e que exigem perícia de quem deseja consumi-los: o uso de ferramentas, comportamento comum em Sapajus mas nunca observado em Cebus.

“São raríssimos os registros de uso de ferramentas em macacos arbóreos”, conta Tiago Falótico, do IP-USP. Ele mostrou, em seu trabalho de doutorado terminado em 2011 sob orientação de Eduardo Ottoni, que além do aspecto ecológico esse comportamento também é influenciado pela cultura dos grupos. “Os macacos do Parque Nacional da Serra da Capivara têm um instrumental muito mais variado que os de Gilbués”, conta, sobre dois locais no Piauí. Em Gilbués, os cocos da piaçava, do catulé e do catuli chegam a ser bastante grandes e difíceis de quebrar. Nada que desanime os Sapajus libidinosus, o macaco-prego-amarelo: eles usam pedras de até 3 quilogramas (praticamente o próprio peso), que erguem e abatem sobre o coco apoiado numa pedra plana. “As fêmeas às vezes precisam saltar com a pedra e usar a força da queda para conseguir quebrar os cocos”, diz o pesquisador.

Mas a criatividade para por aí em Gilbués, enquanto os grupos da serra da Capivara, que não têm cocos para quebrar (mas abrem castanhas de caju a pedradas), usam o mesmo tipo de ferramenta para cavar o solo arenoso em busca de raízes e de aranhas que vivem em ninhos subterrâneos. Além disso, são também exímios na confecção e no uso de varetas para tirar mel de colmeias e desentocar mamangavas e outros insetos de ocos em troncos de árvores. Eles também usam varas compridas para expulsar lagartos de frestas nos paredões de pedra avermelhados que se erguem até 50 metros acima do solo. “A diferença de comportamento entre grupos da mesma espécie em ambiente similar indica que eles podem ter tradições transmitidas por aprendizagem social”, explica Falótico. Outro uso curioso de ferramentas está no repertório das fêmeas de apenas um grupo da serra da Capivara: elas atiram pedras nos machos para chamar atenção durante os poucos dias de duração do cio.

Outro adepto do uso de ferramentas é o macaco-prego-galego (S. flavius), estudado no Rio Grande do Norte por Ricardo Emidio e Renata Ferreira, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Poucos estudos foram feitos sobre essa espécie, até recentemente conhecida apenas por uma pintura do século XVIII que ninguém sabia se representava um animal existente.

Habilidades alternativas

Mesmo não usando ferramentas no dia a dia, os macacos-prego de florestas também têm habilidades manuais. É o que mostrou a equipe do primatólogo Júlio César Bicca-Marques, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), por meio de experimentos com Sapajus nigritus em que posicionou bananas dentro de caixas de acrílico em plataformas numa propriedade privada em Porto Alegre (veja o vídeo). Criado pelo antropólogo Paul Garber, da Universidade de Illinois e coautor do artigo, o experimento teve resultados semelhantes aos obtidos pelo norte-americano com Cebus capucinus na Costa Rica. Numa primeira versão do desafio, os macacos precisavam puxar uma vareta para derrubar a banana e deixá-la ao alcance das mãos. Os dois machos do grupo aprenderam o truque com facilidade. Mas quando o experimento mudou, e a vareta passou a precisar ser empurrada, o sucesso não se repetiu. Não por falta de capacidade na solução de problemas, na opinião do pesquisador gaúcho. “A associação foi muito fácil, mas eles parecem precisar de mais tempo para extinguir o aprendizado”, explica. Numa próxima oportunidade, ele pretende começar o teste pela segunda versão, para comprovar sua hipótese.

Outro tipo de ferramenta, muito diferente, é o hábito de esfregar produtos diversos, como frutos ou insetos, na pelagem. Até recentemente esse costume tinha sido observado muito mais em Cebus do que em Sapajus. “Como é um comportamento observado esporadicamente em Sapajus, quase ninguém tinha dados suficientes para publicar”, conta Jessica Lynch Alfaro, que reuniu as informações recolhidas por diversos pesquisadores em uma revisão.
Filhotes aprendem com observação de perto.

De maneira geral, o trabalho mostrou que os Cebus têm uma tendência maior do que seus primos a esfregar no pelo quase tudo que encontram, com uma preferência por material vegetal, como frutos cítricos e folhas. O comportamento é mais raro em Sapajus, que, sobretudo na mata atlântica, restringem o uso a insetos. A escolha de material para besuntar-se não deixa de ter uma influência ecológica – o que estiver disponível –, mas uma diferença intrínseca entre os dois gêneros é decisiva. “No Parque Nacional Manu, no Peru, os Sapajus não se esfregam e os Cebus sim”, exemplifica Jessica.

Os macacos-prego da mata atlântica têm uma preferência marcada por formigas, como mostraram Tiago Falótico e sua colega Michele Verderane em estudo feito no Parque Ecológico do Tietê, em São Paulo, e publicado em 2007. Principalmente na estação seca, quando há mais carrapatos, os primatas pegam punhados de formigas e esfregam meticulosamente pelo corpo. “Elas liberam ácido fórmico, que tem ação repelente para carrapatos”, conta o pesquisador da USP. Ele e Michele comprovaram o efeito passando a substância no dedo e inserindo num frasco de carrapatos, num experimento em que contavam quanto tempo os parasitas caminhavam sobre o dedo e que distância percorriam. Falótico viu o mesmo comportamento no Piauí, onde os macacos também esfregam piolhos-de-cobra, fonte de benzoquinona, um repelente contra pernilongos.

Outras observações recolhidas por Jessica permitiram mapear a esfregação por macacos-prego e mostrar que o procedimento não se limita a uma preferência cosmética e tem uso prático e até medicinal. Um caso curioso é o dos Cebus albifrons que vivem no meio de um vilarejo da Amazônia equatoriana e costumam roubar o sabão de lavar roupa, que usam para tomar banho.

Há muito de novo no reino dos macacos-prego, mas os especialistas estão longe de satisfeitos. Para Jessica e Boubli, eles apenas revelaram a ponta do iceberg, uma indicação do quanto ainda há por descobrir. Na Amazônia, onde o comportamento e a ecologia são praticamente desconhecidos, as informações genéticas são uma pista de que talvez haja espécies às quais ninguém dá importância. “Espero que as novas populações e espécies descobertas ajudem a tomar decisões de conservação”, diz Jessica.

Artigos científicos

LYNCH ALFARO, J.W. et al. Explosive Pleistocene range expansion leads to widespread Amazonian sympatry between robust and gracile capuchin monkeys. Journal of Biogeography. v. 39, n. 2, p. 272-88. fev. 2012.
BOUBLI, J.P. et al. Cebus phylogenetic relationships: 
a preliminary reassessment of the diversity of the untufted capuchin monkeys. American Journal of Primatology. 
v. 74, n. 4, p. 381-93. abr. 2012.
IZAR, P. et al. Flexible and conservative features of social systems in tufted capuchin monkeys: comparing the socioecology of Sapajus libidinosus and Sapajus nigritus. American Journal of Primatology. v. 74, n. 4, p. 315-31. abr. 2012.
GARBER, P.A. et al. Experimental field study of problem-solving using tools in free-ranging capuchins (Sapajus nigritus, formerly Cebus nigritus). American Journal of Primatology. v. 74, n. 4, p. 344-58. abr. 2012.
LYNCH ALFARO, J.W. et al. Anointing variation across wild capuchin populations: a review of material preferences, bout frequency and anointing sociality 
in Cebus and Sapajus. American Journal of Primatology. 
v. 74, n. 4, p. 299-314. abr. 2012.

domingo, 18 de dezembro de 2011

As matriarcas da floresta
Convivência com a mãe aumenta o sucesso reprodutivo dos muriquis machos

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Mais um galho na árvore dos primatas

Descoberta nova espécie de macaco, restrita a uma pequena área no noroeste do Mato Grosso. Pesquisadores apontam que o achado pode ajudar a valorizar a única reserva extrativista do estado.
Por: Mariana Ferraz
Publicado em 14/11/2011 | Atualizado em 14/11/2011
Mais um galho na árvore dos primatas
Cauda de tons laranjas e marrons chamou a atenção do pesquisador, que logo imaginou que se tratava de uma nova espécie de macaco. (foto: Julio Dalponte) 
 
A descoberta de uma nova espécie de macaco na Reserva Extrativista Guariba-Roosevelt, noroeste do Mato Grosso, é mais uma confirmação da enorme diversidade de primatas na Amazônia e do quanto essa diversidade permanece pouco explorada.
De distribuição aparentemente restrita à reserva, a espécie integra o gênero Callicebus, conhecido localmente como zogue-zogue, e ainda não recebeu seu nome científico, uma vez que o processo de descrição continua em andamento.

Os créditos da descoberta vão para os biólogos Júlio Dalponte, diretor executivo de uma empresa de serviços ambientais, e José de Souza e Silva Jr., do Museu Paraense Emílio Goeldi.
Dalponte conta que os tons laranjas e marrons da cauda do animal chamaram sua atenção em meio a folhagem. "Quando vamos para o campo, temos uma imagem na cabeça do que pode ser encontrado no local e ficamos atentos a essas características. Assim, quando vi as cores da cauda do animal imaginei logo que se tratava de uma nova espécie."

O macaco recém-descoberto é de pequeno porte, como saguis e micos, o que o torna incapaz de atravessar rios com margens distantes cujas árvores não se encostam nas copas. Os pesquisadores acreditam que o fato pode ajudar a entender a distribuição do animal.

"Espécies do gênero Callicebus são restritas a interflúvios e a reserva está exatamente entre os rios Roosevelt e Guariba. Sabemos que o rio Roosevelt impede a passagem dos animais, mas ainda precisamos confirmar se o mesmo acontece com o Guariba", explica Dalponte, completando que há suspeita de que a margem direita deste último rio possa abrigar outra espécie de macaco nova para a ciência.

De olho na reserva

A Reserva Extrativista Guariba-Roosevelt é parte de um pequeno mosaico de unidades de conservação em meio a uma área sob forte pressão da expansão agropecuária. Com 138 mil hectares e 52 famílias, trata-se da única reserva extrativista do Mato Grosso.
Para Dalponte, a descoberta pode ajudar a valorizar o trabalho na reserva. "É uma descoberta que pode dar visibilidade ao local, ajudando a atrair recursos. Trata-se de uma área com forte interferência humana e poucas partes protegidas. Sua existência é um alento."
Unidades de conservação
Mosaico de unidades de conservação visitadas pela expedição Guariba-Roosevelt. O objetivo da expedição era subsidiar o plano de manejo das unidades localizadas no noroeste do Mato Grosso, área sobre forte pressão do agronegócio.
O pesquisador pretende voltar para o campo o mais brevemente possível para conhecer melhor a distribuição do animal e compará-la com a das outras espécies de macaco que ocorrem no local. Enquanto isso não acontece, Dalponte e o pesquisador do Museu Goeldi, José de Sousa e Silva Jr., pensam em como batizar a espécie.

"Pensamos em homenagear um dos mais antigos e importantes primatólogos do Brasil, o pesquisador Milton Thiago de Melo. Quase centenário, ele ainda não conta com animais batizados em sua homenagem."
A expedição na qual se descobriu a nova espécie foi promovida pela Secretaria de Meio Ambiente do Estado do Mato Grosso, a empresa Mapsmut e a WWF-Brasil com o intuito de subsidiar a construção do plano de manejo da área.

Mariana FerrazCiência Hoje On-line/ AM

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Laboratório de Primatologia

Linhas de Pesquisa  
Ecologia, conservação, comportamento e cognição de primatas
Principais tópicos de pesquisa:
(a) Ecologia cognitiva – determinar, através de uma abordagem experimental de campo, os tipos de informação ecológica e social utilizados na tomada de decisões de forrageio por diferentes espécies de primatas neotropicais;
(b) Forrageio social – identificar as estratégias de forrageio adotadas por diferentes membros de um grupo social e sua relação com a estrutura social, relações de dominância e disponibilidade e facilidade de monopolização do alimento;
(c) Ecologia da fragmentação – avaliar a influência de diferentes graus de isolamento espacial decorrentes da fragmentação do hábitat e de características estruturais dos fragmentos sobre a sobrevivência, ecologia e comportamento de sub-populações de primatas isoladas em remanescentes florestais;
(d) Simpatria entre espécies congenéricas – Avaliar o grau de sobreposição de nichos, a estrutura das vocalizações, a estrutura genética das populações e a ocorrência de hibridização entre espécies congenéricas simpátricas (em especial, os bugios Alouatta caraya e A. guariba clamitans);
(e) Frugivoria e dispersão de sementes – Investigar a influência do consumo de frutos pelos macacos sobre a viabilidade, germinação e dispersão de sementes de diferentes espécies arbóreas e sua contribuição na regeneração da floresta;
(f) Termorregulação comportamental – determinar a influência de variáveis ambientais (temperatura, velocidade do vento, sensação térmica e umidade relativa do ar) sobre o comportamento postural, a seleção de microhábitats e o distanciamento interindividual durante o descanso;
(g) Comportamento de primatas em cativeiro - estudar diferentes aspectos do comportamento dos primatas sob condições de cativeiro, tais como seu comportamento e organização social, período reprodutivo, influência do enriquecimento ambiental sobre o repertório comportamental e uso de ferramentas.

Coordenador do Laboratório:Prof. Júlio César Bicca-Marques, Ph.D.
Fonte: http://www.pucrs.br/fabio/labprimatologia.html

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Primatas do Brasil: prioridade global

Estadão entrevistou o pesquisador que ajudou a incluir duas espécies de primatas brasileiros na lista dos 25 mais ameaçadaos da IUCN

27 de outubro de 2010 | 12h 00
 
Karina Ninni - Especial para o Estado
Cerca de metade das 424 espécies dos primatas do mundo estão ameaçadas de extinção. O Brasil é o país com maior diversidade desses animais e também lidera em número de espécies ameaçadas: 40 estão em uma das três categorias que a União Internacional pela Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês) considera problemáticas: criticamente em perigo; em perigo ou vulnerável.

A cada dois anos, a IUCN divulga a lista dos 25 primatas mais ameaçados no mundo. Este ano ela inclui o guigó-da Caatinga (Callicebus barbarabrownae) e o macaco-prego-galego (Cebus flavius). Um dos três membros da delegação do País na ONG, o veterinário e doutor em Antropologia Biológica Maurício Talebi falou ao Planeta sobre o esforço para incluir na relação animais brasileiros.
Como é o processo de escolha dos animais que entram na lista da IUCN?
As delegações é que sugerem. No início a lista é bem grande, beirando cem espécies. O primeiro debate já tira quase 50% da lista preliminar. O macaco-prego-galego já havia sido recomendado na última reunião, mas não chegou ao final, caiu antes. Desta vez, conseguimos. Gastamos só 15 minutos na argumentação em favor de ambas as espécies. Mas a reunião durou quase 5 horas. Sobraram 32 espécies para a escolha final.
O que pesa para que o animal seja considerado ameaçado a ponto de estar entre os 25?
O fato de os animais estarem sem hábitat, ou reduzidos a um pequeno número de indivíduos, ou ainda quando há grande pressão antrópica (do homem) sobre eles. No caso do macaco-prego-galego, pesou o fato de ele ter sido considerado desaparecido. Como já havíamos apresentado a “candidatura” dele na reunião passada, os coordenadores entenderam que havia um esforço dos pesquisadores brasileiros para preservar a espécie. Em quatro anos conseguimos mapear a espécie, mostrar onde ocorria, estimar o número de remanescentes. Isso faz a diferença.
Quanto tempo ele ficou “desaparecido”?
Incríveis 300 anos. Nós, cientistas, achávamos que era erro de nomenclatura, que não havia macaco-prego “loiro”. Mas havia registros de pinturas do período imperial, da Família Real, nas quais sempre aparecia um membro da realeza com um macaco-prego albino no ombro. Gravuras do animal feitas pelos primeiros artistas que retrataram a fauna brasileira também eram comuns. Quando ele reapareceu, em 2006, fizemos um esforço imenso de mapeamento. É um bicho raríssimo.
Quantos indivíduos existem hoje no País?
Numa perspectiva otimista, 100, 150 indivíduos.
É bem pouco...
É, mas se for levado em conta que concorremos com espécies cuja população remanescente é estimada em seis, sete indivíduos, a relação muda de figura.
E onde vive esse macaco?
Na Mata Atlântica. Há pequenas populações em ilhas de floresta no Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas.
Qual é a importância de ter uma espécie na lista?
É estratégico para conseguir mobilizar recursos e pessoal para estudá-la. É o ponto de partida para a recuperação e a conservação. O mico-leão-preto esteve na lista e foi retirado em 2008. Foi criada uma unidade de conservação para ajudar a conservar a espécie, que não está mais criticamente em perigo.
A perda e a fragmentação de hábitat são os maiores problemas para as espécies originárias da Mata Atlântica?
Sem dúvida. Infelizmente 70% dos primatas do bioma estão sob algum nível de ameaça: vulneráveis, em perigo ou criticamente em perigo.
E quanto ao guigó-da-Caatinga? Por que está na lista?
O guigó é uma espécie endêmica da Caatinga que, por sua vez, é um bioma endêmico do Brasil. Ou seja, ele só ocorre aqui. Já estava na lista da IUCN, classificado como criticamente em perigo.
Ele também está ficando sem hábitat?
A Caatinga é fragmentada e pouco protegida. Tanto que as principais ameaças ao guigó são os ciclos de queimada e o desmatamento.
Quantos indivíduos existem e onde eles se concentram?
Também numa perspectiva otimista, entre 500 e 1.000. A distribuição original é de difícil reconstrução, pelo estágio atual de devastação da Caatinga. A espécie está restrita à Bahia e a Sergipe, numa área de 100 a 150 quilômetros quadrados.
A delegação brasileira tentou incluir outras espécies ameaçadas na lista?
Levamos um tipo de acari e outro chamado Saguinus bicolor (sauim-de-coleira), que é um sagui cuja pelagem, como o nome diz, é de duas cores. Ele só ocorre na região de Manaus, numa área excepcionalmente antropizada (com impacto da ação humana) – daí nossa preocupação em tentar protegê-lo.
Quais são os bons exemplos de preservação no Brasil?
O exemplo emblemático é o do mico-leão-dourado. Há 30 anos, eles eram 250. Hoje, a população é bem maior (são cerca de 1.600 animais).