Ramificações ancestrais
Divergência de macacos-prego, tão antiga quanto a de seres humanos e chimpanzés, se reflete em ecologia e comportamento
MARIA GUIMARÃES |
Edição 196 - Junho de 2012

Desaparecidos por séculos, os macacos-prego-galegos foram redescobertos há poucos anos.
Os macacos-prego e caiararas existem na América Central, na Amazônia
inteira, no cerrado, na caatinga e em toda a mata atlântica, chegando
até a Argentina. Nessa extensão variam muito em forma, cor, tamanho,
preferências alimentares e comportamento. São primatas marcantes, com um
sistema social complexo e capazes de usar ferramentas, uma habilidade
rara. Mesmo diante da grande variação entre espécies, até recentemente
os especialistas classificavam macacos-prego e caiararas no mesmo
gênero,
Cebus, e boa parte deles respondia nos registros científicos pelo nome
Cebus apella.
Nos últimos 10 anos, a classificação desses primatas vem passando por
uma revolução, com base no trabalho de pesquisadores brasileiros e de
fora. “A taxonomia deles ainda seguia o trabalho dos naturalistas”, diz o
primatólogo brasileiro Jean-Philippe Boubli. “A era da tecnologia
molecular está permitindo toda uma reorganização.” Junto com a colega
norte-americana Jessica Lynch Alfaro, da Universidade da Califórnia em
Los Angeles, ele – à época pesquisador na Wildlife Conservation Society –
organizou um simpósio sobre esses macacos num congresso em 2010 no
Japão. Reunindo os pesquisadores que mais estavam trazendo novidades ao
conhecimento sobre esses primatas, o encontro deu origem a um volume
especial da revista
American Journal of Primatology, publicado em abril deste ano.
Quando estudava o comportamento desses macacos em Caratinga, Minas
Gerais, Jessica via diferenças entre eles e os de outros lugares, mas
não tinha contexto evolutivo para avaliar de onde elas vinham. “Não
sabíamos há quanto tempo os grupos estavam separados ou qual o
parentesco entre eles”, conta. Agora o animal que ela estudava se chama
Sapajus nigritus,
diferente de como era conhecido tanto em gênero como espécie. O pontapé
inicial da mudança foi sugerido por José de Sousa e Silva Júnior em seu
doutorado, concluído em 2001 pela Universidade Federal do Rio de
Janeiro.
Ele propôs dois subgêneros: Cebus para os caiararas, mais esguios, distribuídos da Amazônia para o norte, e Sapajus
para os macacos-prego, mais robustos e muitas vezes caracterizados por
um topete na cabeça, espalhados da Amazônia para o sul. “Ele foi
corajoso em propor a divisão”, avalia Boubli, “mas agora podemos ir
além”.
Só agora, uma década depois, a subdivisão se ampliou em trabalho de
Jessica, Boubli e colaboradores publicado em fevereiro na revista
Journal of Biogeography.
Por meio de amplas análises genéticas, feitas sobretudo no laboratório
de Jessica mas também no de Izeni Farias, da Universidade Federal do
Amazonas (Ufam), ficou demonstrado que
Cebus e
Sapajus
são diferentes a ponto de serem considerados gêneros distintos embora
de tamanho parecido, ambos com pouco mais de 2 quilogramas. Mais
especificamente, o estudo mostra que as duas linhagens se separaram há
mais de 6 milhões de anos – mesmo tempo que separa o surgimento de
chimpanzés e de seres humanos a partir de um ancestral comum. A mudança
foi aceita pela maior parte dos primatólogos e está na
Lista anotada dos mamíferos do Brasil
publicada em abril pela Conservation International. Mas não é
unanimidade, como é costume no meio científico. Em comentário
recém-publicado no
site da
American Journal of Primatology,
Alfred Rosenberger, do Brooklyn College, em Nova York, defende que a
divisão dos macacos-prego e caiararas foi apressada e até certo ponto
desnecessária. Embora não critique os fundamentos genéticos, ele
argumenta que uma repartição exagerada pode criar espécies raras que
angariam mais recursos para conservação, mesmo que não se justifique do
ponto de vista científico. A discussão envereda mais para o campo
filosófico, com base na fluidez do conceito de espécie, que não tem
fronteiras definidas.

Os esguios Cebus capucinus, habitantes da América Central
Jessica está convicta de suas conclusões. Por meio de sequenciamento
genético e de técnicas que permitem estimar quando aconteceram as
ramificações na árvore genealógica desses primatas, tudo isso
relacionado à geografia de sua distribuição atual, o grupo liderado por
ela chegou a uma proposta sobre a trajetória desses animais ao longo da
evolução. A formação do rio Amazonas foi responsável por criar uma
separação norte-sul que isolou os primatas que ali viviam, gerando a
ramificação na genealogia que deu origem a
Cebus e a
Sapajus.
Depois disso, por cerca de 4 milhões de anos não se sabe bem o que
aconteceu. Só por volta de 2 milhões de anos atrás o grupo que deu
origem aos macacos mais robustos se espalhou pela mata atlântica sem
deixar descendentes na Amazônia. A ocupação de toda a costa brasileira
foi rápida e se deu em conjunto com uma grande diversificação de
espécies.
Há cerca de 700 mil anos a expansão ao sul chegou até a
Argentina, próximo às cataratas do Iguaçu, e rumou para o norte ocupando
o cerrado, na região central do Brasil. Em seguida, por volta de 400
mil anos atrás, eles chegaram de volta à Amazônia, onde tornaram a se
encontrar com seus parentes mais delicados, que se tinham espalhado pela
região norte, em torno dos Andes, e chegado até a Costa Rica, na
América Central.
Essa reinvasão relativamente recente da Amazônia pelos macacos-prego
explica sua baixa diversidade por ali em número de espécies, e também a
competição que se estabelece entre os dois gêneros que ficaram separados
por milhões de anos. “Os
Sapajus conseguem usar uma variedade
maior de recursos, como quebrar frutos mais duros”, explica Jessica.
Isso faz com que, quando eles coexistem com seus primos do norte – como é
comum no oeste da Amazônia entre
C. albifrons e
S. macrocephalus –, a densidade dos mais esguios fique reduzida. Boubli analisou mais a fundo a diversidade genética dos
Cebus, em artigo publicado na edição especial da
American Journal of Primatology,
e mostrou que esses animais pouco estudados abrigam uma enorme
diversidade.
Para Izeni Farias, responsável pelas análises genéticas,
não foi surpresa. “A distribuição é muito ampla, era de se esperar uma
grande variação”, afirmou a geneticista, coordenadora de um projeto do
Sistema Nacional de Pesquisa em Biodiversidade (Sisbiota) que busca
amostrar a diversidade genética dos vertebrados amazônicos.
Experiente em andanças pela selva amazônica, Boubli vê o estudo
genético como um ponto de partida que indica a necessidade de novos
estudos. “Os interflúvios de rios como o Jaú, o Purus e outros separam
populações que podem ficar isoladas tempo suficiente para se tornarem
espécies”, explica o primatólogo. Um exemplo observado por ele são
macacos das duas margens do rio Negro que estão separados há 1 milhão de
anos, segundo dados genéticos. “Olhando, eles parecem iguais. Será que
são espécies diferentes?”

Sapajus libidinosus escala paredão na serra da Capivara
A olho nu
Na amplitude tridimensional da Amazônia, coletar material para estudos
genéticos já é bastante difícil. Estudos de ecologia e comportamento são
muito mais complicados, daí a quase total ignorância sobre os animais
que vivem por lá. A maior parte dos estudos que envolvem observação
acontece em áreas de fácil acesso, onde os macacos já estão habituados à
presença humana. No Brasil, isso torna os
Sapajus muito mais estudados do que os
Cebus. E há bastante variação de uma espécie a outra.
Essa variação depende em parte do ambiente, como mostra um grupo
liderado por Patrícia Izar, do Instituto de Psicologia da Universidade
de São Paulo (IP-USP), em artigo na
American Journal of Primatology. A equipe comparou
S. nigritus do Parque Estadual Carlos Botelho, no interior de São Paulo, e
S. libidinosus
da Fazenda Boa Vista, no município de Gilbués, Piauí. As diferenças
ecológicas são marcantes: uma espécie de mata atlântica, que passa a
maior parte do tempo no alto das árvores, e outra de caatinga, usando
mais o chão em meio à vegetação menos generosa.
Talvez por causa do ambiente mais aberto, os macacos nordestinos
demonstravam mais incômodo com a presença dos pesquisadores, que por
vezes acusavam em gritos de alarme como se fossem predadores. Essa maior
percepção do risco do entorno pode estar por trás dos grupos sociais
mais coesos ali do que na floresta paulista. A disponibilidade de
alimento, surpreendentemente menor na mata mais exuberante, também afeta
a estrutura do grupo, que em Carlos Botelho muitas vezes se dispersa em
busca de uma boa refeição. As palmeiras da caatinga produzem cocos de
vários tipos, ricos em nutrientes e que exigem perícia de quem deseja
consumi-los: o uso de ferramentas, comportamento comum em
Sapajus mas nunca observado em
Cebus.
“São raríssimos os registros de uso de ferramentas em macacos
arbóreos”, conta Tiago Falótico, do IP-USP. Ele mostrou, em seu trabalho
de doutorado terminado em 2011 sob orientação de Eduardo Ottoni, que
além do aspecto ecológico esse comportamento também é influenciado pela
cultura dos grupos. “Os macacos do Parque Nacional da Serra da Capivara
têm um instrumental muito mais variado que os de Gilbués”, conta, sobre
dois locais no Piauí. Em Gilbués, os cocos da piaçava, do catulé e do
catuli chegam a ser bastante grandes e difíceis de quebrar. Nada que
desanime os
Sapajus libidinosus, o macaco-prego-amarelo: eles
usam pedras de até 3 quilogramas (praticamente o próprio peso), que
erguem e abatem sobre o coco apoiado numa pedra plana. “As fêmeas às
vezes precisam saltar com a pedra e usar a força da queda para conseguir
quebrar os cocos”, diz o pesquisador.

Mas
a criatividade para por aí em Gilbués, enquanto os grupos da serra da
Capivara, que não têm cocos para quebrar (mas abrem castanhas de caju a
pedradas), usam o mesmo tipo de ferramenta para cavar o solo arenoso em
busca de raízes e de aranhas que vivem em ninhos subterrâneos. Além
disso, são também exímios na confecção e no uso de varetas para tirar
mel de colmeias e desentocar mamangavas e outros insetos de ocos em
troncos de árvores. Eles também usam varas compridas para expulsar
lagartos de frestas nos paredões de pedra avermelhados que se erguem até
50 metros acima do solo. “A diferença de comportamento entre grupos da
mesma espécie em ambiente similar indica que eles podem ter tradições
transmitidas por aprendizagem social”, explica Falótico. Outro uso
curioso de ferramentas está no repertório das fêmeas de apenas um grupo
da serra da Capivara: elas atiram pedras nos machos para chamar atenção
durante os poucos dias de duração do cio.
Outro adepto do uso de ferramentas é o macaco-prego-galego (
S. flavius),
estudado no Rio Grande do Norte por Ricardo Emidio e Renata Ferreira,
da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Poucos estudos foram
feitos sobre essa espécie, até recentemente conhecida apenas por uma
pintura do século XVIII que ninguém sabia se representava um animal
existente.
Habilidades alternativas
Mesmo não usando ferramentas no dia a dia, os macacos-prego de florestas
também têm habilidades manuais. É o que mostrou a equipe do primatólogo
Júlio César Bicca-Marques, da Pontifícia Universidade Católica do Rio
Grande do Sul (PUCRS), por meio de experimentos com
Sapajus nigritus em que posicionou bananas dentro de caixas de acrílico em plataformas numa propriedade privada em Porto Alegre (
veja o vídeo).
Criado pelo antropólogo Paul Garber, da Universidade de Illinois e
coautor do artigo, o experimento teve resultados semelhantes aos obtidos
pelo norte-americano com
Cebus capucinus na Costa Rica. Numa
primeira versão do desafio, os macacos precisavam puxar uma vareta para
derrubar a banana e deixá-la ao alcance das mãos. Os dois machos do
grupo aprenderam o truque com facilidade. Mas quando o experimento
mudou, e a vareta passou a precisar ser empurrada, o sucesso não se
repetiu. Não por falta de capacidade na solução de problemas, na opinião
do pesquisador gaúcho. “A associação foi muito fácil, mas eles parecem
precisar de mais tempo para extinguir o aprendizado”, explica. Numa
próxima oportunidade, ele pretende começar o teste pela segunda versão,
para comprovar sua hipótese.
Outro tipo de ferramenta, muito diferente, é o hábito de esfregar
produtos diversos, como frutos ou insetos, na pelagem. Até recentemente
esse costume tinha sido observado muito mais em
Cebus do que em
Sapajus. “Como é um comportamento observado esporadicamente em
Sapajus,
quase ninguém tinha dados suficientes para publicar”, conta Jessica
Lynch Alfaro, que reuniu as informações recolhidas por diversos
pesquisadores em uma revisão.

Filhotes aprendem com observação de perto.
De maneira geral, o trabalho mostrou que os
Cebus têm uma
tendência maior do que seus primos a esfregar no pelo quase tudo que
encontram, com uma preferência por material vegetal, como frutos
cítricos e folhas. O comportamento é mais raro em
Sapajus, que,
sobretudo na mata atlântica, restringem o uso a insetos. A escolha de
material para besuntar-se não deixa de ter uma influência ecológica – o
que estiver disponível –, mas uma diferença intrínseca entre os dois
gêneros é decisiva. “No Parque Nacional Manu, no Peru, os
Sapajus não se esfregam e os
Cebus sim”, exemplifica Jessica.
Os macacos-prego da mata atlântica têm uma preferência marcada por
formigas, como mostraram Tiago Falótico e sua colega Michele Verderane
em estudo feito no Parque Ecológico do Tietê, em São Paulo, e publicado
em 2007. Principalmente na estação seca, quando há mais carrapatos, os
primatas pegam punhados de formigas e esfregam meticulosamente pelo
corpo. “Elas liberam ácido fórmico, que tem ação repelente para
carrapatos”, conta o pesquisador da USP. Ele e Michele comprovaram o
efeito passando a substância no dedo e inserindo num frasco de
carrapatos, num experimento em que contavam quanto tempo os parasitas
caminhavam sobre o dedo e que distância percorriam. Falótico viu o mesmo
comportamento no Piauí, onde os macacos também esfregam
piolhos-de-cobra, fonte de benzoquinona, um repelente contra
pernilongos.
Outras observações recolhidas por Jessica permitiram mapear a
esfregação por macacos-prego e mostrar que o procedimento não se limita a
uma preferência cosmética e tem uso prático e até medicinal. Um caso
curioso é o dos
Cebus albifrons que vivem no meio de um vilarejo da Amazônia equatoriana e costumam roubar o sabão de lavar roupa, que usam para tomar banho.
Há muito de novo no reino dos macacos-prego, mas os especialistas
estão longe de satisfeitos. Para Jessica e Boubli, eles apenas revelaram
a ponta do
iceberg, uma indicação do quanto ainda há por
descobrir. Na Amazônia, onde o comportamento e a ecologia são
praticamente desconhecidos, as informações genéticas são uma pista de
que talvez haja espécies às quais ninguém dá importância. “Espero que as
novas populações e espécies descobertas ajudem a tomar decisões de
conservação”, diz Jessica.
Artigos científicos
LYNCH ALFARO, J.W.
et al.
Explosive Pleistocene range expansion leads to widespread Amazonian sympatry between robust and gracile capuchin monkeys.
Journal
of Biogeography. v. 39, n. 2, p. 272-88. fev. 2012.
BOUBLI, J.P.
et al.
Cebus phylogenetic relationships:
a preliminary reassessment of the diversity of the untufted capuchin monkeys.
American Journal of Primatology.
v. 74, n. 4, p. 381-93. abr. 2012.
IZAR, P.
et al.
Flexible and conservative features of social systems in tufted capuchin monkeys: comparing the socioecology of Sapajus libidinosus and Sapajus nigritus.
American Journal of Primatology. v. 74, n. 4, p. 315-31. abr. 2012.
GARBER, P.A.
et al.
Experimental field study of problem-solving using tools in free-ranging capuchins (Sapajus nigritus, formerly Cebus nigritus).
American Journal
of Primatology. v. 74, n. 4, p. 344-58. abr. 2012.
LYNCH ALFARO, J.W.
et al.
Anointing
variation across wild capuchin populations: a review of material
preferences, bout frequency and anointing sociality
in Cebus and Sapajus.
American Journal of Primatology.
v. 74, n. 4, p. 299-314. abr. 2012.