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quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Macacos-prego produzem pedras afiadas semelhantes a ferramentas

20 de outubro de 2016


Elton Alisson  |  Agência FAPESP – Além de usar pedras para diversas finalidades, como quebrar frutos e, dessa forma, conseguir extrair a parte comestível, os macacos-prego da espécie Sapajus libidinosus encontrados no Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, costumam bater uma pedra contra a outra, presa a uma rocha, com força e repetidamente, a fim de quebrá-la. Ao conseguirem isso, os animais lambem e cheiram o pó de quartzo resultante da fragmentação do mineral.
Esse comportamento dos macacos-prego gera, às vezes, lascas de pedra afiadas e conchoidais, com superfícies lisas e curvas, semelhantes à superfície interna de uma concha marinha – resultantes de múltiplas percussões (batidas) –, que caem no chão e não são usadas pelos animais.
Macacos-prego produzem pedras afiadas semelhantes a ferramentas Fragmentos de pedras gerados acidentalmente pelos primatas no Parque Nacional da Serra da Capivara são parecidos com instrumentos talhados em rochas pelos ancestrais humanos há 2,6 milhões de anos, constata estudo (imagem: M.Haslam e T. Proffitt / Primate Archaeology Group - Oxford University) 
 
 
Ao analisar mais detidamente essas lascas de pedra produzidas inadvertidamente pelos macacos-prego, pesquisadores do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP), em colaboração com colegas da Faculdade de Arqueologia da University of Oxford e da University College London, da Inglaterra, constataram que algumas delas são muito semelhantes a ferramentas líticas talhadas em rochas pelos ancestrais dos humanos (hominídeos) durante o período Paleolítico ou da pedra lascada, há 2,6 milhões de anos a.C.
A pesquisa se desenvolveu com apoio da FAPESP no âmbito do Projeto Temático "Uso de ferramentas por macacos-prego (Sapajus libidinosus) selvagens", coordenado pelo professor Eduardo Ottoni.

Os resultados do estudo foram publicados nesta quarta-feira (19/09) na edição on-line da revista Nature.
"Constatamos que algumas lascas de pedra produzidas acidentalmente pelos macacos-prego são muito parecidas com as ferramentas líticas olduvaienses", disse Tiago Falótico, pós-doutorando no Instituto de Psicologia da USP e um dos autores do estudo, à Agência FAPESP.
As ferramentas olduvaienses são assim chamadas por terem sido encontradas em meados do século XX na região da Garganta de Olduvai, na Tânzania. São consideradas como algumas das mais antigas ferramentas de pedra lascada, com até 2,6 milhões de anos de idade, e atribuídas aos Homo habilis – um dos primeiros representantes do gênero Homo, que inclui os humanos modernos.

Falótico, que realiza pós-doutorado com Bolsa da FAPESP, e seu orientador, o professor Eduardo Ottoni, estudam há tempos o comportamento de macacos-prego e, especificamente, o uso de ferramentas por esses primatas da espécie Sapajus libidinosos no Parque Nacional da Serra da Capivara.
Durante seus estudos, eles observaram os animais baterem pedras e depois cheirar e lamber o pó de quartzo restante da fragmentação. Mas ainda não conseguiram identificar por que fazem isso.

“Nossas observações sugerem que os macacos podem estar ingerindo o pó de quartzo ou líquens que estão sobre as pedras, uma vez que as pedras em si só têm sílica”, afirmou Falótico.
O pesquisador começou ainda durante o seu doutorado, também realizado com Bolsa da FAPESP e sob a orientação de Ottoni, a coletar as pedras batidas pelos animais – incluindo as que usaram como martelo e os fragmentos desprendidos da rocha.
Os fragmentos de pedra, juntamente com material arqueológico obtido por ele e Ottoni nos últimos anos durante escavações para um estudo sobre arqueologia primata, integrante do Temático apoiado pela FAPESP, foram analisados pelo arqueólogo Tomos Proffitt, pesquisador da Faculdade de Arqueologia da University of Oxford e especialista em ferramentas líticas olduvaienses, e Michael Haslam, pesquisador do Instituto de Arqueologia da University College London, associados ao projeto.
Os resultados das análises indicaram que as lascas de pedras produzidas involuntariamente pelos macacos-prego têm todas as características e formas das ferramentas líticas produzidas deliberadamente pelos hominídeos.
As lascas de pedras apresentam formato conchoidal, com diferentes graus de dano por percussão (batida) e pequenos pontos de impacto, cercados por cicatrizes circulares ou crescentes, e bordas afiadas.

“Os paleoantropólogos [que combinam conhecimentos da paleontologia e da antropologia para estudar fósseis de hominídeos, assim como as evidências deixadas por eles] usam essas características de lascas de pedra afiadas tanto para distingui-las das pedras naturalmente quebradas, como para atribuí-las aos hominídeos, que produziam pedras com essas formas intencionalmente para usá-las como ferramentas”, disse Falótico.
Uma vez que as lascas de pedra produzidas acidentalmente pelos macacos-prego são muito semelhantes às ferramentas líticas feitas deliberadamente pelos hominídeos, os pesquisadores chamam atenção para o fato de que, se encontradas isoladamente fora de um sítio arqueológico hominídeo, esse material poderia ser confundido com artefatos líticos produzidos pelos ancestrais dos humanos.

“Quando lascas de pedra afiadas são encontradas em um sítio arqueológico geralmente é mais fácil atribuí-las como sendo ferramentas líticas produzidas intencionalmente por hominídeos, porque, geralmente, há muitos núcleos de pedra e indícios de ocupação humana, como fogueiras”, avaliou Falótico. “Mas, quando encontradas isoladamente e se os registros arqueológicos são mais esparsos, eventualmente podem ter sido produzidas não necessariamente pelos ancestrais humanos”, ponderou.

Percussão com pedra 

De acordo com os pesquisadores, já existiam outros registros de primatas que batem pedras e, ao fazer isso, podem produzir acidentalmente fragmentos semelhantes a ferramentas líticas.
Em 2007, um grupo de pesquisadores do Canadá, Alemanha, Reino Unido e Estados Unidos identificou, com base em evidências coletadas no único assentamento pré-histórico de chimpanzés conhecido no mundo – situado na selva tropical úmida de Tai, na Costa do Marfim –, que chimpanzés do oeste africano (Pan troglodytes verus) usavam instrumentos de pedra há 4,3 mil anos para quebrar frutas secas.
Os fragmentos de pedra produzidos pelos chimpanzés ao bater uma pedra contra a outra, contudo, não tinham as características dos produzidos intencionalmente pelos hominídeos.
“Ao tentar quebrar um coco com uma pedra, por exemplo, os animais acabavam acertando acidentalmente a pedra colocada debaixo do fruto, usada como bigorna”, explicou Ottoni.
Segundo o pesquisador, outras espécies de macacos, como o macaco cinomolgo (Macaca fascicularis) e o macaco-japonês (Macaca fuscata) também batem pedras. Mas o macaco-prego é o único observado até o momento que bate pedra com a finalidade de danificar outra, apontaram.

“A população de macacos-prego que estudamos na Serra da Capivara tem um repertório de uso de ferramentas não só de pedra, mas também de madeira, por exemplo, mais complexo do que qualquer primata”, comparou Ottoni.

“Além de usar ferramentas líticas percussivas, como pedras, para quebrar castanha-de-caju e coco, por exemplo e, como observamos agora, para danificar outra pedra, eles também usam varetas feitas de galhos de árvores como sondas para tirar lagartos ou insetos de suas tocas e se alimentar”, afirmou.
O vídeo dos macacos-prego batendo pedras pode ser visto em www.youtube.com/watch?v=bIdnj5uWpPA&feature=youtu.be.

E o artigo “Wild monkeys flake stone tools” (doi: 10.1038/nature20112), de Proffitt, Luncz, Falótico, Ottoni, la Torre e Haslam, pode ser lido por assinantes da revista Nature em www.nature.com/nature/journal/vaop/ncurrent/full/nature20112.html
 

sábado, 23 de julho de 2016

Macacos-prego já usavam ferramentas no período pré-colombiano

Estudo arqueológico no Piauí revela pedras usadas para quebrar castanhas com idades até 700 anos
MARIA GUIMARÃES | Edição Online 13:00 11 de julho de 2016
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© TIAGO FALÓTICO/IP-USP
Macaco-prego (Sapajus libidinosus) usa pedra para quebrar fruto na serra da Capivara
Macaco-prego (Sapajus libidinosus) usa pedra para quebrar fruto na serra da Capivara

Novos indícios indicam que, por volta de 700 anos atrás, macacos-prego já usavam ferramentas para quebrar castanhas de caju e extrair a parte comestível. As caravelas portuguesas ainda não tinham chegado à costa brasileira com utensílios mais sofisticados, que de qualquer maneira até hoje não estão à disposição dos animais na serra da Capivara, no Piauí. “É o primeiro relato de ferramentas de macacos-prego no registro arqueológico”, conta o biólogo Tiago Falótico, pesquisador de pós-doutorado do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP).

Falótico e o colega Eduardo Ottoni, seu supervisor, há tempos estudam o comportamento de macacos-prego e especificamente o uso de ferramentas por esses primatas da espécie Sapajus libidinosus (ver Pesquisa FAPESP nº 196). Nos últimos três anos, em parceria com o arqueólogo Michael Haslam, da Universidade de Oxford, na Inglaterra, eles aprofundaram os estudos no tempo.

O grupo fez escavações em uma área no Parque Nacional da Serra da Capivara e descobriu que as mesmas configurações de ferramentas observadas hoje aparecem em camadas correspondentes a período que chegam ao século XIII, como mostra artigo publicado hoje (11/7) na revista Current Biology. “Os macacos escolhem pedras maiores para bater nas castanhas e as deixam acumuladas junto aos cajueiros”, conta o pesquisador. Segundo ele, as datações por radiocarbono são bem precisas e permitem esse refinamento de datas. Camadas ainda mais antigas, que podem chegar a 3 mil anos atrás, ainda estão sendo analisadas.
© TIAGO FALÓTICO/IP-USP
Macho adulto procura comida com ajuda de graveto
Macho adulto procura comida com ajuda de graveto.

As 69 ferramentas encontradas são muito semelhantes às usadas hoje: pedras achatadas servem como base e são pelo menos quatro vezes mais pesadas do que aquelas usadas como martelos – também pelo menos quatro vezes mais pesadas do que a média dos pedregulhos encontrados por perto (ver comportamento em vídeo). Análises químicas confirmaram que manchas escuras nas rochas indicam que foram usadas para quebras castanhas de caju. A constância indica que a transmissão de conhecimento, hoje evidente entre macacos mais experientes e mais jovens, vem acontecendo há pelo menos uma centena de gerações.

Até agora, o uso pré-moderno de ferramentas por não humanos só tinha sido descoberto em chimpanzés na Costa do Marfim. No período pré-colombiano, os macacos da Caatinga brasileira conviviam, até certo ponto, com pessoas que habitam a região há pelo menos 10 mil anos. Mas não há indícios de atividade humana no sítio arqueológico primata. “Todos os fragmentos de carvão que analisamos têm origem em queimadas naturais”, afirma Falótico. Brasas são a forma comum de humanos processarem as castanhas de caju para eliminar as substâncias indigestas. Quem gosta de uma castanha torrada sabe. Falótico, que já deu uma mordida cautelosa numa castanha crua, também.

Projetos
 
Uso de ferramentas por macacos-prego (Sapajus libidinosus) selvagens: ecologia, aprendizagem socialmente mediada e tradições comportamentais (n° 2014/04818-0); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Temático; Pesquisador responsável Eduardo Benedicto Ottoni (USP); Investimento R$ 439.536,00.

2. Uso de ferramentas por macacos-prego: aprendizagem e tradição (nº 2013/05219-0); Modalidade Bolsa no país – Pós-doutorado; Pesquisador responsável Eduardo Benedicto Ottoni (USP); Bolsista Tiago Falótico (USP); Investimento R$ 178.512,00 (FAPESP).

Artigo científico
 
HASLAM, M. et al. Pre-Columbian monkey tools. Current Biology, v. 26, n. 13, p. R521–R522. 11 jul 2016.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Ramificações ancestrais

Divergência de macacos-prego, tão antiga quanto a de seres humanos e chimpanzés, se reflete em ecologia e comportamento 

MARIA GUIMARÃES | Edição 196 - Junho de 2012
Desaparecidos por séculos, os macacos-prego-galegos foram redescobertos há poucos anos.

Os macacos-prego e caiararas existem na América Central, na Amazônia inteira, no cerrado, na caatinga e em toda a mata atlântica, chegando até a Argentina. Nessa extensão variam muito em forma, cor, tamanho, preferências alimentares e comportamento. São primatas marcantes, com um sistema social complexo e capazes de usar ferramentas, uma habilidade rara. Mesmo diante da grande variação entre espécies, até recentemente os especialistas classificavam macacos-prego e caiararas no mesmo gênero, Cebus, e boa parte deles respondia nos registros científicos pelo nome Cebus apella. Nos últimos 10 anos, a classificação desses primatas vem passando por uma revolução, com base no trabalho de pesquisadores brasileiros e de fora. “A taxonomia deles ainda seguia o trabalho dos naturalistas”, diz o primatólogo brasileiro Jean-Philippe Boubli. “A era da tecnologia molecular está permitindo toda uma reorganização.” Junto com a colega norte-americana Jessica Lynch Alfaro, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, ele – à época pesquisador na Wildlife Conservation Society – organizou um simpósio sobre esses macacos num congresso em 2010 no Japão. Reunindo os pesquisadores que mais estavam trazendo novidades ao conhecimento sobre esses primatas, o encontro deu origem a um volume especial da revista American Journal of Primatology, publicado em abril deste ano.

Quando estudava o comportamento desses macacos em Caratinga, Minas Gerais, Jessica via diferenças entre eles e os de outros lugares, mas não tinha contexto evolutivo para avaliar de onde elas vinham. “Não sabíamos há quanto tempo os grupos estavam separados ou qual o parentesco entre eles”, conta. Agora o animal que ela estudava se chama Sapajus nigritus, diferente de como era conhecido tanto em gênero como espécie. O pontapé inicial da mudança foi sugerido por José de Sousa e Silva Júnior em seu doutorado, concluído em 2001 pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Ele propôs dois subgêneros: Cebus para os caiararas, mais esguios, distribuídos da Amazônia para o norte, e Sapajus para os macacos-prego, mais robustos e muitas vezes caracterizados por um topete na cabeça, espalhados da Amazônia para o sul. “Ele foi corajoso em propor a divisão”, avalia Boubli, “mas agora podemos ir além”.

Só agora, uma década depois, a subdivisão se ampliou em trabalho de Jessica, Boubli e colaboradores publicado em fevereiro na revista Journal of Biogeography. Por meio de amplas análises genéticas, feitas sobretudo no laboratório de Jessica mas também no de Izeni Farias, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), ficou demonstrado que Cebus e Sapajus são diferentes a ponto de serem considerados gêneros distintos embora de tamanho parecido, ambos com pouco mais de 2 quilogramas. Mais especificamente, o estudo mostra que as duas linhagens se separaram há mais de 6 milhões de anos – mesmo tempo que separa o surgimento de chimpanzés e de seres humanos a partir de um ancestral comum. A mudança foi aceita pela maior parte dos primatólogos e está na Lista anotada dos mamíferos do Brasil publicada em abril pela Conservation International. Mas não é unanimidade, como é costume no meio científico. Em comentário recém-publicado no site da American Journal of Primatology, Alfred Rosenberger, do Brooklyn College, em Nova York, defende que a divisão dos macacos-prego e caiararas foi apressada e até certo ponto desnecessária. Embora não critique os fundamentos genéticos, ele argumenta que uma repartição exagerada pode criar espécies raras que angariam mais recursos para conservação, mesmo que não se justifique do ponto de vista científico. A discussão envereda mais para o campo filosófico, com base na fluidez do conceito de espécie, que não tem fronteiras definidas.
Os esguios Cebus capucinus, habitantes da América Central

Jessica está convicta de suas conclusões. Por meio de sequenciamento genético e de técnicas que permitem estimar quando aconteceram as ramificações na árvore genealógica desses primatas, tudo isso relacionado à geografia de sua distribuição atual, o grupo liderado por ela chegou a uma proposta sobre a trajetória desses animais ao longo da evolução. A formação do rio Amazonas foi responsável por criar uma separação norte-sul que isolou os primatas que ali viviam, gerando a ramificação na genealogia que deu origem a Cebus e a Sapajus. Depois disso, por cerca de 4 milhões de anos não se sabe bem o que aconteceu. Só por volta de 2 milhões de anos atrás o grupo que deu origem aos macacos mais robustos se espalhou pela mata atlântica sem deixar descendentes na Amazônia. A ocupação de toda a costa brasileira foi rápida e se deu em conjunto com uma grande diversificação de espécies.

Há cerca de 700 mil anos a expansão ao sul chegou até a Argentina, próximo às cataratas do Iguaçu, e rumou para o norte ocupando o cerrado, na região central do Brasil. Em seguida, por volta de 400 mil anos atrás, eles chegaram de volta à Amazônia, onde tornaram a se encontrar com seus parentes mais delicados, que se tinham espalhado pela região norte, em torno dos Andes, e chegado até a Costa Rica, na América Central.

Essa reinvasão relativamente recente da Amazônia pelos macacos-prego explica sua baixa diversidade por ali em número de espécies, e também a competição que se estabelece entre os dois gêneros que ficaram separados por milhões de anos. “Os Sapajus conseguem usar uma variedade maior de recursos, como quebrar frutos mais duros”, explica Jessica. Isso faz com que, quando eles coexistem com seus primos do norte – como é comum no oeste da Amazônia entre C. albifrons e S. macrocephalus –, a densidade dos mais esguios fique reduzida. Boubli analisou mais a fundo a diversidade genética dos Cebus, em artigo publicado na edição especial da American Journal of Primatology, e mostrou que esses animais pouco estudados abrigam uma enorme diversidade.
Para Izeni Farias, responsável pelas análises genéticas, não foi surpresa. “A distribuição é muito ampla, era de se esperar uma grande variação”, afirmou a geneticista, coordenadora de um projeto do Sistema Nacional de Pesquisa em Biodiversidade (Sisbiota) que busca amostrar a diversidade genética dos vertebrados amazônicos.

Experiente em andanças pela selva amazônica, Boubli vê o estudo genético como um ponto de partida que indica a necessidade de novos estudos. “Os interflúvios de rios como o Jaú, o Purus e outros separam populações que podem ficar isoladas tempo suficiente para se tornarem espécies”, explica o primatólogo. Um exemplo observado por ele são macacos das duas margens do rio Negro que estão separados há 1 milhão de anos, segundo dados genéticos. “Olhando, eles parecem iguais. Será que são espécies diferentes?”
Sapajus libidinosus escala paredão na serra da Capivara

A olho nu
Na amplitude tridimensional da Amazônia, coletar material para estudos genéticos já é bastante difícil. Estudos de ecologia e comportamento são muito mais complicados, daí a quase total ignorância sobre os animais que vivem por lá. A maior parte dos estudos que envolvem observação acontece em áreas de fácil acesso, onde os macacos já estão habituados à presença humana. No Brasil, isso torna os Sapajus muito mais estudados do que os Cebus. E há bastante variação de uma espécie a outra.

Essa variação depende em parte do ambiente, como mostra um grupo liderado por Patrícia Izar, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP), em artigo na American Journal of Primatology. A equipe comparou S. nigritus do Parque Estadual Carlos Botelho, no interior de São Paulo, e S. libidinosus da Fazenda Boa Vista, no município de Gilbués, Piauí. As diferenças ecológicas são marcantes: uma espécie de mata atlântica, que passa a maior parte do tempo no alto das árvores, e outra de caatinga, usando mais o chão em meio à vegetação menos generosa.

Talvez por causa do ambiente mais aberto, os macacos nordestinos demonstravam mais incômodo com a presença dos pesquisadores, que por vezes acusavam em gritos de alarme como se fossem predadores. Essa maior percepção do risco do entorno pode estar por trás dos grupos sociais mais coesos ali do que na floresta paulista. A disponibilidade de alimento, surpreendentemente menor na mata mais exuberante, também afeta a estrutura do grupo, que em Carlos Botelho muitas vezes se dispersa em busca de uma boa refeição. As palmeiras da caatinga produzem cocos de vários tipos, ricos em nutrientes e que exigem perícia de quem deseja consumi-los: o uso de ferramentas, comportamento comum em Sapajus mas nunca observado em Cebus.

“São raríssimos os registros de uso de ferramentas em macacos arbóreos”, conta Tiago Falótico, do IP-USP. Ele mostrou, em seu trabalho de doutorado terminado em 2011 sob orientação de Eduardo Ottoni, que além do aspecto ecológico esse comportamento também é influenciado pela cultura dos grupos. “Os macacos do Parque Nacional da Serra da Capivara têm um instrumental muito mais variado que os de Gilbués”, conta, sobre dois locais no Piauí. Em Gilbués, os cocos da piaçava, do catulé e do catuli chegam a ser bastante grandes e difíceis de quebrar. Nada que desanime os Sapajus libidinosus, o macaco-prego-amarelo: eles usam pedras de até 3 quilogramas (praticamente o próprio peso), que erguem e abatem sobre o coco apoiado numa pedra plana. “As fêmeas às vezes precisam saltar com a pedra e usar a força da queda para conseguir quebrar os cocos”, diz o pesquisador.

Mas a criatividade para por aí em Gilbués, enquanto os grupos da serra da Capivara, que não têm cocos para quebrar (mas abrem castanhas de caju a pedradas), usam o mesmo tipo de ferramenta para cavar o solo arenoso em busca de raízes e de aranhas que vivem em ninhos subterrâneos. Além disso, são também exímios na confecção e no uso de varetas para tirar mel de colmeias e desentocar mamangavas e outros insetos de ocos em troncos de árvores. Eles também usam varas compridas para expulsar lagartos de frestas nos paredões de pedra avermelhados que se erguem até 50 metros acima do solo. “A diferença de comportamento entre grupos da mesma espécie em ambiente similar indica que eles podem ter tradições transmitidas por aprendizagem social”, explica Falótico. Outro uso curioso de ferramentas está no repertório das fêmeas de apenas um grupo da serra da Capivara: elas atiram pedras nos machos para chamar atenção durante os poucos dias de duração do cio.

Outro adepto do uso de ferramentas é o macaco-prego-galego (S. flavius), estudado no Rio Grande do Norte por Ricardo Emidio e Renata Ferreira, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Poucos estudos foram feitos sobre essa espécie, até recentemente conhecida apenas por uma pintura do século XVIII que ninguém sabia se representava um animal existente.

Habilidades alternativas

Mesmo não usando ferramentas no dia a dia, os macacos-prego de florestas também têm habilidades manuais. É o que mostrou a equipe do primatólogo Júlio César Bicca-Marques, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), por meio de experimentos com Sapajus nigritus em que posicionou bananas dentro de caixas de acrílico em plataformas numa propriedade privada em Porto Alegre (veja o vídeo). Criado pelo antropólogo Paul Garber, da Universidade de Illinois e coautor do artigo, o experimento teve resultados semelhantes aos obtidos pelo norte-americano com Cebus capucinus na Costa Rica. Numa primeira versão do desafio, os macacos precisavam puxar uma vareta para derrubar a banana e deixá-la ao alcance das mãos. Os dois machos do grupo aprenderam o truque com facilidade. Mas quando o experimento mudou, e a vareta passou a precisar ser empurrada, o sucesso não se repetiu. Não por falta de capacidade na solução de problemas, na opinião do pesquisador gaúcho. “A associação foi muito fácil, mas eles parecem precisar de mais tempo para extinguir o aprendizado”, explica. Numa próxima oportunidade, ele pretende começar o teste pela segunda versão, para comprovar sua hipótese.

Outro tipo de ferramenta, muito diferente, é o hábito de esfregar produtos diversos, como frutos ou insetos, na pelagem. Até recentemente esse costume tinha sido observado muito mais em Cebus do que em Sapajus. “Como é um comportamento observado esporadicamente em Sapajus, quase ninguém tinha dados suficientes para publicar”, conta Jessica Lynch Alfaro, que reuniu as informações recolhidas por diversos pesquisadores em uma revisão.
Filhotes aprendem com observação de perto.

De maneira geral, o trabalho mostrou que os Cebus têm uma tendência maior do que seus primos a esfregar no pelo quase tudo que encontram, com uma preferência por material vegetal, como frutos cítricos e folhas. O comportamento é mais raro em Sapajus, que, sobretudo na mata atlântica, restringem o uso a insetos. A escolha de material para besuntar-se não deixa de ter uma influência ecológica – o que estiver disponível –, mas uma diferença intrínseca entre os dois gêneros é decisiva. “No Parque Nacional Manu, no Peru, os Sapajus não se esfregam e os Cebus sim”, exemplifica Jessica.

Os macacos-prego da mata atlântica têm uma preferência marcada por formigas, como mostraram Tiago Falótico e sua colega Michele Verderane em estudo feito no Parque Ecológico do Tietê, em São Paulo, e publicado em 2007. Principalmente na estação seca, quando há mais carrapatos, os primatas pegam punhados de formigas e esfregam meticulosamente pelo corpo. “Elas liberam ácido fórmico, que tem ação repelente para carrapatos”, conta o pesquisador da USP. Ele e Michele comprovaram o efeito passando a substância no dedo e inserindo num frasco de carrapatos, num experimento em que contavam quanto tempo os parasitas caminhavam sobre o dedo e que distância percorriam. Falótico viu o mesmo comportamento no Piauí, onde os macacos também esfregam piolhos-de-cobra, fonte de benzoquinona, um repelente contra pernilongos.

Outras observações recolhidas por Jessica permitiram mapear a esfregação por macacos-prego e mostrar que o procedimento não se limita a uma preferência cosmética e tem uso prático e até medicinal. Um caso curioso é o dos Cebus albifrons que vivem no meio de um vilarejo da Amazônia equatoriana e costumam roubar o sabão de lavar roupa, que usam para tomar banho.

Há muito de novo no reino dos macacos-prego, mas os especialistas estão longe de satisfeitos. Para Jessica e Boubli, eles apenas revelaram a ponta do iceberg, uma indicação do quanto ainda há por descobrir. Na Amazônia, onde o comportamento e a ecologia são praticamente desconhecidos, as informações genéticas são uma pista de que talvez haja espécies às quais ninguém dá importância. “Espero que as novas populações e espécies descobertas ajudem a tomar decisões de conservação”, diz Jessica.

Artigos científicos

LYNCH ALFARO, J.W. et al. Explosive Pleistocene range expansion leads to widespread Amazonian sympatry between robust and gracile capuchin monkeys. Journal of Biogeography. v. 39, n. 2, p. 272-88. fev. 2012.
BOUBLI, J.P. et al. Cebus phylogenetic relationships: 
a preliminary reassessment of the diversity of the untufted capuchin monkeys. American Journal of Primatology. 
v. 74, n. 4, p. 381-93. abr. 2012.
IZAR, P. et al. Flexible and conservative features of social systems in tufted capuchin monkeys: comparing the socioecology of Sapajus libidinosus and Sapajus nigritus. American Journal of Primatology. v. 74, n. 4, p. 315-31. abr. 2012.
GARBER, P.A. et al. Experimental field study of problem-solving using tools in free-ranging capuchins (Sapajus nigritus, formerly Cebus nigritus). American Journal of Primatology. v. 74, n. 4, p. 344-58. abr. 2012.
LYNCH ALFARO, J.W. et al. Anointing variation across wild capuchin populations: a review of material preferences, bout frequency and anointing sociality 
in Cebus and Sapajus. American Journal of Primatology. 
v. 74, n. 4, p. 299-314. abr. 2012.