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segunda-feira, 19 de outubro de 2020

 

Esperança para o Raro Macaco Colobus

O primeiro censo populacional do macaco colobus vermelho endêmico de Zanzibar traz boas e más notícias.

Colobus Vermelho Imagem: Por Olivier Lejade da França [CC BY-SA 2.0 (https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0)], via Wikimedia Commons

Uma equipe de cientistas da Wildlife Conservation Society concluiu recentemente o primeiro censo populacional do macaco colobus vermelho de Zanzibar. Esta espécie é encontrada apenas no arquipélago de Zanzibar, na costa da África Oriental, e é um dos muitos primatas ameaçados de extinção do mundo.

O censo, publicado na Oryx , trouxe boas notícias. Os resultados mostraram que há mais de três vezes mais macacos colobus vermelhos de Zanzibar (mais de 5.800 animais individuais) do que se pensava anteriormente, e muitos mais macacos vivendo em áreas protegidas do que fora delas. No entanto, as más notícias são abundantes. A sobrevivência de animais jovens é muito baixa, a espécie agora está extinta em quatro áreas, os habitats florestais dos quais os primatas e outras espécies dependem estão sendo rapidamente desmatados para projetos de desenvolvimento agrícola e turístico e a caça é comum.

"Os cientistas sabem sobre o macaco colobus vermelho de Zanzibar há 150 anos, mas este é o primeiro estudo sistemático desta espécie mal compreendida em toda a sua extensão", disse o Dr. Tim Davenport, diretor do Programa Nacional da Tanzânia da WCS e autor principal do estude. “A avaliação sistemática redefine quase tudo o que sabemos sobre este animal incrível e agora está orientando estratégias de manejo eficazes para esta espécie.”

Para obter uma melhor compreensão do estado e das necessidades ecológicas do macaco-colobo vermelho de Zanzibar, a equipe passou dois anos (4.725 horas no campo) procurando e observando-os. Os levantamentos ocorreram dentro e fora das áreas protegidas na principal ilha de Zanzibar, Unguja, e os cientistas empregaram uma nova técnica de censo para coletar dados sobre tamanhos e estruturas de grupos, dados demográficos e locais com a ajuda de dispositivos GPS.

Os resultados forneceram prova de que as áreas protegidas de Zanzibar estão funcionando ... até certo ponto. Sessenta e nove por cento da população de macacos colobus vermelhos de Zanzibar vivem dentro da rede de áreas protegidas de Unguja, e grupos de macacos encontrados em áreas protegidas apresentam tamanhos médios de grupo maiores e mais fêmeas por grupo.

Por outro lado, a avaliação também destacou os desafios para a conservação, especialmente para mais de 30 por cento da população de macacos que vivem fora das áreas protegidas. Os cientistas descobriram que quatro das florestas anteriormente conhecidas por conterem macacos-colobus vermelhos de Zanzibar não existem mais. Quatro outros locais foram encontrados para conter apenas um grupo familiar, que provavelmente não sobreviverá isolado.

Uma das maiores ameaças ao macaco colobus vermelho de Zanzibar é o desmatamento. As florestas em Unguja estão sendo perdidas a uma taxa de mais de 19 quilômetros quadrados por ano devido às atividades agrícolas, desenvolvimento residencial e crescimento da população humana. A caça de macacos para alimentação e retaliação por assaltos às plantações também é preocupante.

O resultado do estudo foi recentemente apresentado ao governo de Zanzibar. Os autores recomendam a criação de uma nova área protegida para proteger ainda mais o macaco colobus vermelho de Zanzibar, bem como aumentar as operações de turismo florestal e de primatas. Outra sugestão é tornar o primata o animal oficial nacional de Zanzibar.

“O macaco colobus vermelho de Zanzibar é único em Zanzibar e pode ser um exemplo maravilhoso de como os esforços de conservação podem ter sucesso na proteção da vida selvagem e do habitat, o que, por sua vez, beneficia as comunidades”, acrescentou Davenport. “A espécie pode servir como um símbolo adequado tanto para Zanzibar quanto para a previsão do governo no manejo da vida selvagem.”

A WCS agora trabalhará com o Governo de Zanzibar para iniciar um programa de espécies emblemáticas que protegerá os primatas e as florestas remanescentes do arquipélago.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Cultura de uso de ferramentas por macacos-prego variou ao longo de 3 mil anos

Estudos de arqueologia e etologia se encontram na serra da Capivara, no Piauí, e revelam o primeiro registro conhecido de mudanças culturais em primatas não humanos
Macho adulto quebra castanha-de-caju, observado de perto por um jovem (primeiro plano) e uma fêmea (ao fundo)
Tiago Falótico / USP
Enquanto arqueólogos escavam o solo duro e seco da Caatinga no Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, em busca de vestígios do passado, macacos-prego logo ao lado usam pedras para quebrar cocos, sementes e castanhas-de-caju. Provavelmente de modo semelhante ao que fazem há pelo menos 3 mil anos, como revela parceria entre pesquisadores da Inglaterra e do Brasil. “Eles vão se tornando um pouco primatólogos, enquanto nós viramos um pouco arqueólogos”, conta o biólogo Tiago Falótico, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), que coordenou as escavações mais recentes. Há seis anos ele e seu antigo supervisor Eduardo Ottoni, do Instituto de Psicologia da USP, trabalham em parceria com os arqueólogos britânicos Michael Haslam e Tomos Proffitt, do University College London, na investigação de como viviam os macacos. Descobriram que, assim como acontece hoje entre diferentes grupos de primatas, no passado a cultura de uso de ferramentas variou, como descreve artigo publicado nesta segunda (24/6) na revista Nature Ecology & Evolution. “É a primeira vez que se constata essa variação cultural em registros arqueológicos de primatas não humanos”, afirma Falótico.

Entrevista: Tiago Falótico
 
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Há alguns anos as escavações por lá revelaram que os macacos-prego da serra da Capivara (Sapajus libidinosus) já usavam pedras para quebrar castanhas-de-caju em tempos pré-colombianos. Chimpanzés, que desbancaram o uso de ferramentas como característica definidora dos seres humanos, já manejavam pedras há 4 mil anos de acordo com escavações na Costa do Marfim, na África. Mas lá não há sinais de que tenham alterado o comportamento.
Escavação arqueológica acontece debaixo de cajueirosTiago Falótico / USP


Os macacos-prego são ricos em variações de comportamento, que alguns especialistas chamam de culturas. Há grupos que usam pedras, outros preferem gravetos. 

Depende do tipo de alimento disponível em cada área, mas também do que os jovens de cada população aprendem com os mais velhos. Da mesma maneira, à medida que foram escavando mais fundo – e regredindo no tempo – os pesquisadores encontraram variação. O material depositado entre 2.400 e 3 mil anos atrás revela o uso extenso de pedras pequenas, cheias de quebras causadas por impactos repetidos


Provavelmente eram usadas para processar alimentos menos duros do que castanhas-de-caju. “Hoje eles usam pedras semelhantes para quebrar sementes e frutos como os da maniçoba [Manihot pseudoglaziovii], uma planta da família da mandioca”, conta Falótico, que interpreta as marcas no material arqueológico com base no que os macacos fazem hoje. Infelizmente não foi possível detectar resíduos dos alimentos nas pedras encontradas, mas ele ainda não desistiu. “Outras áreas podem ter condições de preservação diferentes que um dia nos permitam identificar resíduos.”

Na fase seguinte, entre aproximadamente 565 e 640 anos atrás, conforme datação de fragmentos de carvão resultantes de queimadas e presentes no sedimento, os macacos ainda usavam pedras pequenas, mas já existiam mais bigornas – superfícies planas onde apoiam o alimento no momento da quebra. Mais recentemente, eles parecem ter começado a usar pedras maiores que permitem processar castanhas bem duras e disseminaram o uso de bigornas. Eles chegam a erguer acima da cabeça pedras de cerca de 3 quilogramas, semelhante ao próprio peso. Também usam pedras para cavar e paquerar, entre outras utilidades.
Duas pedras usadas por macacos na fase mais antiga mostram variedade de formatos, tamanhos e marcas de usoTiago Falótico / USP

É impossível estabelecer os motivos dessa variação no registro arqueológico. Será que começavam a desenvolver as técnicas e aos poucos foram descobrindo que funcionava e explorando fontes alimentares antes inacessíveis? 

Ou grupos da mesma época já tinham costumes variáveis, transmitidos de uma geração para outra, e a escavação de outros sítios revelará uma diversidade cultural já nos tempos mais antigos? Ou, ainda, em certos momentos os alimentos disponíveis não exigiam maiores esforços? Todas são possibilidades plausíveis, embora a análise de amostras de pólen fossilizado revele que há 7 mil anos já havia cajueiros na região. Não significa, porém, que estivessem constantemente em todos os lugares, pode ter havido variação na abundância dessa árvore.

O trabalho – dos macacos no manejo das pedras e das pessoas que os estudam – continua, e Falótico divide seu tempo de trabalho de campo entre as escavações e a observação do comportamento atual. “Gosto mais de seguir os macacos do que de ficar agachado cavando”, confessa. Ele tem se concentrado em estudar os padrões das lascas obtidas pela quebra das pedras batidas umas contra as outras, que alguns anos atrás se mostraram indistinguíveis daquelas produzidas pelos homens das cavernas. A região, onde registros da ocupação humana podem estar entre os mais antigos do continente, ainda parece ter muito a revelar sobre as atividades de pessoas e macacos ao longo de milhares de anos.
Jovem macho esmaga uma frutinha de grão-de-galo (Cordia rufescens)Tiago Falótico / USP

“Pode haver sítios ainda não encontrados relacionados a primatas”, diz a arqueóloga Mercedes Okumura, do Instituto de Biociências da USP, que não tem conhecimento de outro sítio comparável em termos de documentação de arqueologia envolvendo tanto seres humanos como outros primatas. Ela é coautora de um artigo publicado em 2018 na revista Quaternaire que descreve a formação das camadas arqueológicas do boqueirão da Pedra Furada, no Parque Nacional da Serra da Capivara, levando em conta as contribuições de pessoas e macacos (contou para isso com acesso aos dados do grupo de Falótico). 

Entre os achados das escavações é difícil dizer quem produziu as lascas mais simples, ela conta, mas atribui com segurança a seres humanos estruturas mais complexas de pedra lascada. Ela vê como frutífera a relação com os arqueólogos-primatólogos. “Me refiro realmente a uma via de mão dupla: quem faz arqueologia ‘humana’ pode aprender muito também ao estudar esses casos relacionados a outros primatas.”

Projetos
 
1. Uso de ferramentas por macacos-prego (Sapajus libidinosus) selvagens: ecologia, aprendizagem socialmente mediada e tradições comportamentais (nº 2014/04818-0); Modalidade Auxílio à Pesquisa — Temático; Pesquisador responsável Eduardo Benedicto Ottoni (USP); Investimento R$ 611.005,29.

2. Uso de ferramentas por macacos-prego: aprendizagem e tradição (nº 2013/05219-0); Modalidade Bolsa de pós-doutorado; Pesquisador responsável Eduardo Benedicto Ottoni (USP); Beneficiário Tiago Falótico; Investimento R$ 423.450,88.

Artigos científicos

FALÓTICO, T. et al. Three thousand years of wild capuchin stone tool use. Nature Ecology & Evolution. on-line. 26 jun. 2019.

PARENTI, F. et al. Genesis and taphonomy of the archaeological layers of Pedra Furada rock-shelter, Brazil. Quaternaire. v. 29, n. 3, p. 255-69. nov. 2018.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Humanos estão a caminho de extinguir todos os outros primatas

Em meio século, 75% das espécies de macacos, micos e lêmures já terão desaparecido do planeta

Um orangotango de Sumatra, um lêmure de Madagascar, um mico-leão-dourado do Brasil e um gorila das montanhas congolês.
Um orangotango de Sumatra, um lêmure de Madagascar, um mico-leão-dourado do Brasil e um gorila das montanhas congolês. (Conservation International/Rhett A. Butler)

“Foi surpreendente descobrir que as cifras eram tão altas, porque sugerem que estamos chegando a um ponto de não retorno ou que talvez já tenhamos chegado”, lamenta o primatologista mexicano Alejandro Estrada, que há 35 anos estuda os primatas da América em seu habitat. As cifras às quais se refere são horripilantes: 60% dos primatas estão ameaçados de extinção. Dos gigantescos gorilas das montanhas, de 200 quilos, aos diminutos lêmures do gênero Microcebus, de 30 gramas, os primatas estão a caminho de desaparecerem para sempre na natureza por culpa da pressão que os humanos exercem através da agricultura, caça, exploração madeireira, mineração... “Vendo o reduzido tamanho das populações e a intensidade das ameaças, logo poderíamos viver uma cascata de extinções. Não podemos nos permitir isso!", alerta Estrada.
Dos gigantescos gorilas das montanhas aos diminutos lêmures da espécie ‘Microcebus’, 60% dos primatas estão ameaçados de extinção
Um primata, o humano, parece decidido a extinguir os seus parentes mais próximos numa batalha sem trégua em que as forças estão completamente desequilibradas: em apenas 50 anos terão desaparecido três de cada quatro espécies de primatas, 378 das 504 registradas. Acabamos de saber disso graças a um macro estudo publicado na Science Advances, liderado pelo pesquisador mexicano, entre outros, e com a participação de 30 especialistas. “Estamos realmente muito preocupados, e nosso artigo é um apelo por uma ação global à comunidade científica em geral e ao público e aos políticos para que evitem isso”, afirma.

O estudo é muito rico em dados e informações detalhadas sobre esse extermínio. Na Ásia, 73% dos primatas estão ameaçados, cifra que sobe para 87% em Madagascar, o reino dos lêmures, na costa oriental da África. O orangotango da Sumatra perdeu 60% do seu habitat em apenas 20 anos e deve perder mais 30% nas próximas décadas por culpa do desmatamento (geralmente para a produção de óleo de palma) e da mudança climática.
Entre 1990 e 2010, as práticas agrícolas consumiram 1,5 milhão de quilômetros quadrados em seus habitats, o equivalente ao Amazonas
Os pesquisadores foram muito minuciosos na sua descrição das ameaças que dizimam nossos parentes. Embora haja diferenças importantes entre regiões, a agricultura se destaca como principal problema, já que devorou 76% dos habitats dos macacos, micos, lêmures e afins. Entre 1990 e 2010, as práticas agrícolas consumiram 1,5 milhão de quilômetros quadrados nesses habitats, o equivalente ao Estado do Amazonas, e foram perdidos dois milhões de quilômetros quadrados de cobertura florestal. Mas o pior é o que está por vir: a expansão futura dos cultivos abrange dois terços da área que esses mamíferos habitam. “Isto provocará um conflito territorial sem precedentes com75% das espécies de primatas em todo o mundo”, conclui o artigo.

As práticas agrícolas não agem sozinhas. A caça representa 60% das perdas diretas desses animais, com um problema emergente: o da captura de primatas para consumo humano. Calcula-se que na Nigéria e em Camarões são comercializados anualmente 150.000 primatas no mercado alimentício. Além disso, o desmatamento afeta 60% dos habitats, e a pecuária, 31%. A mineração, apesar de estar muito concentrada em pequenos territórios, está mostrando uma capacidade destrutiva muito grave, porque contribui para o desmatamento, a degradação florestal e a poluição do solo e da água. Os garimpeiros de coltan na África Central caçam macacos para se alimentar, outra terrível e inesperada decorrência do ciclo consumista que cerca os telefones celulares.
O denominador comum das regiões onde os primatas estão mais ameaçados são os altos níveis de pobreza e desigualdade em que vivem os humanos
Esse estudo, além de ser o primeiro a oferecer uma descrição global do estado de conservação dos primatas no mundo e das pressões antropogênicas contra eles, também fornece ideias e soluções para mitigar a perda local, regional e mundial de espécies. “Abordar as principais ameaças que afetam as populações de primatas é algo que exige políticas globais, mas um enfoque local seria construtivo”, diz Estrada, pesquisador da Universidade Nacional Autônoma do México. “O desmatamento, a caça insustentável e o comércio ilegal poderiam ser rapidamente abordados, com o objetivo de sensibilizar a população das zonas urbanas e rurais de que os primatas são um componente importante do seu capital natural”, diz. “Que conservá-los com seus hábitats e deter o comércio ilegal significa investir no futuro."

Há um fator importante que ele ressalta ao analisar os contextos nos quais os primatas não humanos mais sofrem: a pobreza dos primatas humanos. “O denominador comum dessas regiões são os altos níveis de pobreza e desigualdade, a perda de capital natural devido às demandas do mercado global, a má gestão, a falta de segurança alimentar e a escassa alfabetização. Cuidar desses aspectos é uma prioridade para assegurar a conservação dos primatas”, defende o especialista.
“Os primatas são extremamente importantes para a humanidade. Afinal de contas, são nossos parentes biológicos vivos mais próximos”, diz o estudo
A importância vai muito além da beleza dos primatas, de sua diversidade e de nossa capacidade de nos reconhecermos em seu olhar. “Devemos nossa humanidade a uma história evolutiva compartilhada”, diz Estrada. Numerosos trabalhos recentes certificam o papel fundamental que estes primatas desempenham em seus ecossistemas, e protegê-los seria investir no efeito guarda-chuva, pelo qual salvar uma espécie implica defender muitas outras, porque se mantém o equilíbrio do ciclo natural do seu entorno.

“Temos certeza de que em muitos casos a difícil situação dos nossos companheiros primatas não é conhecida pela comunidade global, incluídos os Governos locais e nacionais”, afirma o pesquisador, e essa é a razão pela qual publicaram esse estudo. As últimas frases do artigo científico são um alerta: “Temos uma última oportunidade de reduzir ou inclusive eliminar as ameaças humanas aos primatas e seus habitats, de orientar os esforços de conservação e aumentar a consciência mundial sobre a sua situação. Os primatas são extremamente importantes para a humanidade. Afinal de contas, são nossos parentes biológicos vivos mais próximos”.

Tartarugas, miolos, caracóis e caranguejos: os segredos culinários dos chimpanzés

Descobertas recentes expandem a dieta desses símios e a tecnologia que usam para se alimentar, o que fornece pistas sobre a evolução humana

O chimpanzé Pandi come da carapaça de uma tartaruga na selva do Gabão.
O chimpanzé Pandi come da carapaça de uma tartaruga na selva do Gabão.Erwan Théleste
Eram cinco e meia da tarde de 25 de maio de 2018 quando Pandi, o macho alfa, descobriu uma tartaruga no chão. Enquanto o restante de sua comunidade de Loango (Gabão) comia frutos nas árvores, Pandi deslizou para onde estava a tartaruga e começou a espancá-la com determinação contra um tronco grosso para quebrar sua armadura. Depois de vários golpes precisos, usou as mãos e os dentes para abrir a tartaruga e começou a comer sua carne. Foi a primeira vez que se observou um chimpanzé comendo uma tartaruga e abrindo-a com essa destreza, como uma lata de sardinhas.
Mas Pandi não apenas comeu a tartaruga tranquilamente empoleirado no ramo, alternando folhas com carne, como alguém que janta um bife com salada. Quando tinha comido metade do réptil, em vez de jogá-lo fora, colocou-o em um espaço entre dois galhos. Mudou de árvore, arranjou um ninho para dormir durante a noite e, às sete e meia da manhã seguinte, voltou para aquele lugar e comeu o resto da tartaruga. Como quem deixa parte da pizza para o dia seguinte; um comportamento completamente natural em humanos, mas que, se confirmado o que mostra um estudo, implicaria uma inesperada capacidade de planejamento para a inteligência dos chimpanzés.
 

Não é a única surpresa culinária recentemente descoberta entre os chimpanzés. Em um pequeno intervalo, pela primeira vez surgiram relatos de chimpanzés capturando e comendo caranguejos de água doce na Guiné ou os restos de um banquete com caracóis gigantes na República Democrática do Congo. Em Gombe, eles caçam pequenos macacos para comerem principalmente os cérebros, ricos em calorias e gorduras saturadas, depois de quebrar facilmente os crânios com os dentes. Na Tanzânia, em 2016, um grupo de chimpanzés expulsou com suas vozes o leopardo que, sob os galhos onde estavam, acabara de caçar um pequeno antílope da floresta. Algo assim nunca tinha sido visto: comer a carniça, sim, mas esses chimpanzés espantaram a gritos o temível predador, roubaram-lhe a presa e oito deles se alimentaram das entranhas dela.

Até agora, o seu menu conhecido –como predadores, além de plantas e frutas– incluía aves, insetos e 25 espécies de mamíferos, desde pequenos roedores com menos de um quilo até porcos de mais de vinte quilos. "Nossas observações ampliam agora essa extensa lista para incluir outro recurso alimentício: os répteis", resume Simone Pika, coautora dessa descoberta. Esta primatologista, codiretora do projeto de chimpanzés de Loango, também destaca a importância de documentar a técnica de predação de tartarugas, que "lança nova luz sobre a tecnologia de percussão, até agora mal compreendida, em chimpanzés."

Uma técnica de pancada que costumam usar com as cascas duras de frutas é empregada neste caso para quebrar as tartarugas e assim alcançar um prêmio de comida inacessível a outros predadores. Como assinala Pika, não é apenas o que comem, mas, acima de tudo, como o fazem: o que está sendo descoberto em seu campo vai além da mera ampliação do cardápio. Graças a essas descobertas, cresce o conhecimento sobre as técnicas culinárias e a sofisticação dos utensílios desses primatas, os mais próximos da humanidade, com os bonobos. E com isso sabemos mais sobre sua grande inteligência, mas também sobre a evolução dos grandes símios e dos humanos.
"Algumas dessas estratégias são muito semelhantes às desenvolvidas pelos nossos ancestrais em habitats parecidos", afirma Hernández
"Quando os chimpanzés se deparam com diferentes habitats, desenvolvem diferentes estratégias para obter alimentos", explica Adriana Hernández, primatologista das universidades de Oslo e Barcelona. "Algumas dessas estratégias são muito semelhantes às desenvolvidas por nossos ancestrais quando enfrentaram habitats semelhantes", acrescenta Hernández, que observa que a lista de comportamentos exclusivamente humanos se reduz à medida que aprendemos mais sobre outros primatas. "O estudo da variabilidade comportamental em chimpanzés é fascinante porque nos permite compreender melhor a nós mesmos e, se conseguirmos salvar populações selvagens, muitas surpresas ainda nos aguardam", disse Hernández, codiretora científica do instituto Jane Goodall Institute Espanha.

Utensílios 'culturais'

Um grupo internacional de cientistas acaba de publicar o resumo de seus achados em pesquisas sobre chimpanzés em uma região congolesa (Bili-Uerê) e é muito impressionante a quantidade de ferramentas que esses símios usam para cada tarefa específica, seis décadas depois de Jane Goodall mudar a definição de humano ao ver um chimpanzé usando uma vara para se alimentar. Varas, ramos e troncos de diferentes comprimentos, espessuras e firmeza, recolhidos e preparados para abrir buracos em cupinzeiros, para caçar insetos, para esmagar bichos que picam, para destruir cupinzeiros; lascas compridas para catar formigas, outras curtas e finas para recolher mel de colmeias no subsolo (com forma de escova na extremidade). Além disso, eles usam cascas em forma de colher para comer formigas e frutas e fazer com eles mingau sobre o barro.
O pesquisador Thurston Hicks posa com ferramentas dos chimpanzés congoleses.
O pesquisador Thurston Hicks posa com ferramentas dos chimpanzés congoleses.Sonia Uribe
No entanto, esses chimpanzés não usam pauzinhos para pescar cupins, algo muito comum em outras comunidades. E, além disso, os de Bili-Uerê, ao norte do rio Uele, coletam mel e esmagam frutas, mas ao sul do rio não fazem isso, e em vez disso, usam mais pauzinhos curtos para formigas. Tudo isso apesar de suas condições e ambientes serem praticamente os mesmos: não é que alguns saibam fazer algumas coisas e outros não.

São usos e costumes distintos nestas comunidades de chimpanzés rio acima e rio abaixo, o que os primatologistas chamam de cultura. "São traços específicos de grupo socialmente transmitidos entre indivíduos. A evidência da cultura em animais foi encontrada em várias espécies, não só em chimpanzés, mas é um fenômeno raro", explica Ammie Kalan, pesquisadora do Instituto Max Planck para Antropologia Evolutiva. 

E acrescenta: "Não estamos dizendo que isso seja o mesmo que a cultura humana, apenas que, ao entender melhor as culturas de animais, podemos compreender como a cultura humana evoluiu". Estas práticas culturais não são nenhuma novidade: recentemente foram compiladas na revista Science para denunciar que estão em risco: desde as fêmeas que fazem lanças para caçar macaquinhos até os chimpanzés que se reúnem no frescor das cavernas para fugir dos dias mais quente, passando pelos que utilizam longas varas para pescar nutritivas algas, os que aprenderam a beber água usando musgos como esponjas ou os que usam pedras como martelos para abrir nozes há milhares de anos, como tem sido mostrado arqueologicamente.
"São traços específicos de grupo socialmente transmitidos entre indivíduos. A evidência da cultura em animais foi encontrada em várias espécies", diz Ammie Kalan
“Temos de nos apoiar nos grandes símios não-humanos para entender a gama de comportamentos tecnológicos que provavelmente estiveram presentes em nossos ancestrais extintos", explicam os cientistas do estudo sobre Bili-Uerê, publicado na Folia Primatologica. Por exemplo, em Loango, os chimpanzés só conseguem abrir as tartarugas quando têm nove ou dez anos de idade. E não é um problema de força, mas de habilidade. No final, todos acabam comendo a carne da tartaruga, incluindo os que falharam na tentativa de abri-la.

No entanto, como explicaram Pika e seus colegas na Scientific Reports, o mais interessante pode ser o gesto de Pandi: deixar uma parte da tartaruga em sua carapaça para ter o café da manhã no dia seguinte. "Embora o pensamento voltado para o futuro tenha sido observado em pombos, ratos, corvídeos e nos grandes símios, alguns especialistas ainda acreditam que são unicamente humanos, que ocorreu em condições induzidas experimentalmente em cativeiro", explica Pika, codiretora do projeto de Loango.

Cinco anos atrás foi registrada a primeira exceção: fêmeas de chimpanzés eram capazes de se preparar para o futuro escolhendo o local mais adequado para acampar em função do que poderiam comer ali na manhã seguinte. Pandi e seu grupo, que às vezes levam por um tempo consigo as tartarugas e as esmagam quando chega a fome, poderiam ser o segundo caso de planejamento para o futuro não imediato. "Com a nossa observação, possivelmente estamos agregando outro exemplo que envolve um contexto diferente, mas precisamos de mais pesquisas para descobrir se esse comportamento desempenha um papel importante na comunidade dos chimpanzés", diz Pika.

Os chimpanzés que mataram o seu chefe tirano

Um grupo assassina o líder deposto depois que este volta do exílio e come seu cadáver

Agosto de 2019.
Vários chimpanzés examinam o cadáver de Foudouko.
Vários chimpanzés examinam o cadáver de Foudouko.
Alguns estudos recentes publicados por primatólogos parecem obra de Shakespeare. Aprendemos como a execução cruel de um chimpanzé desatou a guerra entre dois clãs. Ou como duas fêmeas de orangotango levaram sua rivalidade até as últimas consequências. Um novo trabalho conta outra história de poder, violência e amizade cujos protagonistas são grandes símios, não seres humanos. Os chimpanzés da quente savana de Fongoli, no Senegal, mataram seu líder de anos anteriores quando este tentava retornar ao grupo após um exílio que havia durado quase cinco anos.
Foudouko havia alcançado o status de macho alfa do grupo ainda jovem, no início de 2005, e liderou esta comunidade até o final de 2007, sempre com a ajuda de Mamadou, seu tenente. Foudouko foi destronado depois de Mamadou receber uma surra brutal que fraturou seu fêmur ou quadril, segundo deduzem pesquisadores que acompanham permanentemente o grupo, anotando tudo o que fazem. “Era como se fosse um tirano”, afirma à New Scientist a principal autora do estudo, Jill Pruetz, em referência a Foudouko.

Poucos meses depois de ter sido deposto, no início de 2008, este chimpanzé foi para o exílio. Desapareceu completamente por nove meses e, até 2013, mal podia ser visto no território de seu grupo. Este ostracismo “deve ter sido excepcionalmente estressante, como demonstrado em outros chimpanzés que sofrem isolamento social”, explicaram os primatólogos no International Journal of Primatology, já que são animais muito sociáveis, especialmente os machos, e para eles é doloroso até mesmo ter uma vida em semi-isolamento.

A inusitada violência desse grupo pode se dever à escassez de fêmeas reprodutivas, segundo sugerem os cientistas

Enquanto isso, Mamadou havia recuperado sua antiga posição social, após se humilhar até mesmo diante da mais fraca das fêmeas do grupo, formado por mais de trinta membros. A sociedade dos chimpanzés é muito hierárquica e, como explicam os pesquisadores, Mamadou precisou reconquistar o respeito da comunidade após sua derrota. Por fim, foi seu irmão David que chegou ao poder, deixando o cargo de macho beta a Mamadou.

Em meados de 2013, Foudouko pouco a pouco começou a participar das atividades do grupo, mas sem conseguir com que o aceitassem. Uma noite, após vários incidentes e perseguições para afastá-lo da comunidade de Fongoli, os primatologistas que os estudam escutaram uma gritaria incomum. Antes do amanhecer, um deles encontrou o cadáver de Foudouko, com graves cortes no pescoço e em um pé, o que provavelmente causou sua morte por perda de sangue. Além disso, tinha dois dedos destroçados, supostamente por conta do esforço de seus agressores em segurar suas extremidades a dentadas enquanto o matavam.

Poucos meses após ser derrubado, o chimpanzé partiu ao exílio. Desapareceu completamente por nove meses e durante cinco anos pouco interagiu com o grupo

A partir desse momento, os primatologistas agiram para observar em detalhes tudo o que ocorreu na sequência, para registrar como se comportava a comunidade diante desse assassinato. Todo o grupo se aproximou para presenciar a cena, cheirando e tocando o cadáver. Alguns machos jovens ainda o golpeavam e mordiam, mas os chefes não se comportaram agressivamente. Mesmo sem querer se relacionar com ele antes de sua morte, Mamadou puxou e empurrou o cadáver, mas sem agressividade: “Parecia estar tentando acordar Foudouko, ao invés de tentar machucá-lo, já que seu comportamento era menos agressivo do que o dos outros machos”, afirma o estudo.
Mas o momento mais sórdido ainda estava por vir. Foi quando se aproximou do cadáver a fêmea mais poderosa do grupo, a mãe do macho alfa David. Após inspecioná-lo, começou a comer as feridas de seu pescoço, mordendo várias vezes seu corpo para arrancar pedaços de carne que devorava. Depois de vários desses bocados, e algumas mordidas nos genitais, a fêmea introduziu o dedo no ânus do cadáver, que estava destroçado, e extraiu material fecal.

Escassez de fêmeas

Os cientistas acreditam que nesse caso, o primeiro em que se registra esse tipo de ostracismo que acaba em morte, há uma explicação reprodutiva. Nessa comunidade existem muito mais machos do que fêmeas maduros sexualmente, um cenário de extraordinária competição para se acasalar que estaria tornando os machos mais violentos.
Seu substituto foi ferido gravemente, mas conseguiu recuperar sua condição; seu irmão era o novo macho alfa.

“O alto nível de competição reprodutiva masculina em Fongoli, junto com uma baixa densidade de população e uma taxa extremamente baixa de interações intercomunitárias pode explicar o ataque a Foudouko”, concluem. “O caso de Foudouko é também um dos poucos registrados entre os chimpanzés da África Ocidental, uma subespécie caracterizada, junto com os bonobos, por ter relativamente poucas agressões letais em comparação com a subespécie de chimpanzés da África Oriental” explica o estudo.

A especialista Jill Pruetz já publicou dois anos atrás um estudo em que descreveu as especiais capacidades das fêmeas do grupo de Fongoli, que aprenderam a caçar com lanças, fazendo com que os machos respeitassem suas presas mais do que o esperado.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Macacos d’água

Publicado em 26/01/2016

Livro reúne conhecimento sobre primatas que vivem em ambientes alagados ao redor do mundo. Organizadores comentam a relação dos animais com esses ambientes e como as pesquisas sobre o tema podem ajudar na conservação dessas espécies.
Macacos d’água
Macaco-de-cheiro (‘Saimiri sciureus cassiquiarensis’) é uma das espécies que fazem uso de ambientes alagados. (foto: Marcelo Ismar Santana / Instituto Mamirauá).
 
Muitas espécies de primatas, em diferentes partes do mundo, fazem largo uso de ambientes alagados – entre eles pantanais, manguezais, igapós e até praias – para extrair recursos para sua sobrevivência. Conhecer a atual situação e as dinâmicas que regem tais ambientes é um desafio, mas também uma tarefa de grande importância para a manutenção dessas espécies. Em 2016, pela primeira vez, o conhecimento sobre esse tipo de primata será reunido em um grande livro: Primates of flooded habitat: ecology and conservation (“Primatas de hábitats alagados: ecologia e conservação”, em tradução livre), escrito com a participação de pesquisadores da África, Ásia e Américas Central e do Sul. A publicação, em inglês, tem previsão de lançamento para julho.

Ambientes alagados são, de uma forma geral, ricos em biodiversidade. No entanto, ainda há muito o que investigar sobre a presença de primatas nessas regiões. “Estudos com primatas em áreas alagadas são muito difíceis de serem realizados, primeiramente por questões logísticas, mas também porque nem sempre é possível ter acesso a essas áreas no período de águas altas, o que limita a pesquisa”, justifica a bióloga Fernanda Pozzam Paim, pesquisadora do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e autora de um dos capítulos do livro.

Apesar disso, o que já se sabe é bastante interessante. A quantidade de espécies que fazem uso de tais ambientes é grande: inclui gorilas e chimpanzés no Congo, orangotangos em Bornéu e até saguis na Amazônia. “Algumas espécies visitam os ambientes alagados apenas ocasionalmente para explorar alguns recursos específicos, outras podem passar a vida inteira neles”, conta Adrian Barnett, biólogo do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e um dos três editores da publicação.
Macacos d´água - uacari-branco
O uacari-branco (‘Cacajao calvus’) passa parte do tempo em florestas de várzea no norte da Amazônia, região periodicamente alagada por marés fluviais. (foto: Marcelo Ismar Santana / Instituto Mamirauá)
Em esforço inédito, a iniciativa reuniu pesquisadores de Brasil, Argentina, Guiana, Bolívia, México, Japão, Indonésia, Malásia, Estados Unidos, Inglaterra, África do Sul, Congo e Botswana, entre outros países. O livro vai apresentar dados sobre espécies que desenvolveram relações de dependência com ambientes alagados ao redor do mundo.

Em Pernambuco, por exemplo, os manguezais são fonte de ostras e caranguejos para os macacos-narigudos (Nasalis larvatus). “Sem os martelos e quebradores que nós usamos para quebrar suas cascas e conchas, esses macacos usam peças de pau do manguezal para bater os crustáceos e moluscos até a carne suculenta ficar acessível”, explica Barnett. Já nas praias do sul do continente africano, babuínos frequentam as costas rochosas em busca de cracas e moluscos. No Japão, primatas da espécie Macaca fuscata – conhecida aqui como macaco-japonês – vão até a costa litorânea atrás das algas ricas em ferro e outros nutrientes que complementam sua alimentação.

Segundo o especialista, a preservação das áreas alagáveis é fundamental para a própria conservação dos primatas. “Algumas áreas estão realmente ameaçadas diretamente pelo desmatamento, como os manguezais de diversas partes do mundo”, alerta. “Outras estão sofrendo os impactos da mineração, como a acumulação de sedimentos e mercúrio, e outras, ainda, a extração excessiva de determinadas espécies vegetais”.

"Primatas são muito queridos ao olhar do público, as pessoas em geral acreditam que eles têm muito charme. Podemos usá-los como ‘espécies bandeiras’ para conservar os hábitats – muitos deles em perigo"
Com o lançamento do livro, cientistas da área esperam contribuir não só com a conservação dos primatas, mas também de outras espécies animais e das próprias áreas alagadas. “Primatas são animais simpáticos, que quase sempre chamam a atenção das pessoas por serem considerados ‘próximos’ do ser humano”, lembra Paim. “Por este motivo, projetos de conservação de primatas, especialmente os ameaçados de extinção, são essenciais para a conservação da biodiversidade como um todo. Uma vez que um estudo é realizado em determinada área, com o objetivo de conservar uma espécie, toda a fauna e flora associadas a tal ambiente são automaticamente protegidos”, aposta. Barnett concorda: “Primatas são muito queridos ao olhar do público, as pessoas em geral acreditam que eles têm muito charme. Podemos usá-los como ‘espécies bandeiras’ para conservar os hábitats – muitos deles em perigo”.
Everton Lopes
Instituto Ciência Hoje/ RJ

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Nova espécie de macaco 'loiro' é descoberta na África

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18/09/2012 10:56
 
Cientistas descobriram uma nova espécie de macaco nas florestas da República Democrática do Congo (RDC), na África. Conhecido pela população local como macaco-lesula, o animal tem grandes olhos cor-de-mel, rosto e peito cobertos por pelos loiros, com pelagem levemente negra no topo da cabeça e tom mais escuro nos ombros, braços, patas e no corpo.

Batizado de Cercopithecus lomamiensis, em referência à bacia do rio Lomami, no Congo, onde foi encontrado, o animal é parente do macaco cara-de-coruja (Cercopithecus hamlyni), de acordo com o estudo, publicado no periódico científico "PLoS One" nesta quarta-feira (12).
Macaco 'loiro' é tímido, tem corpo esguio e é herbívoro, segundo cientistas (Foto: Reprodução/"PLoS One")
Macaco 'loiro' é tímido, tem corpo esguio e é herbívoro, segundo cientistas (Foto: Reprodução/"PLoS One")
A pesquisa aponta que o animal vive tanto no chão quanto em árvores e tem uma dieta basicamente herbívora. Os cientistas usaram aparelhos GPS para marcar a exata localização dos espécimes encontrados, incluindo macacos mortos por caçadores locais, leopardos e águias.
 
Os primeiros dados científicos sobre estes primatas foram coletados em junho de 2007, quando uma fêmea jovem da espécie (que até então era desconhecida) foi encontrada em uma jaula em uma escola primária em Opala, cidade da República Democrática do Congo.
O animal tem porte médio, corpo magro e o rosto parcialmente livre de pelos, avaliam os cientistas. Quanto mais jovem o primata, mais loira é a pelagem que cobre o seu corpo.
Macho adulto da espécie recém-descoberta 'Cercopithecus lomamiensis' (Foto: Reprodução/"PLoS One")
Macho adulto da espécie descoberta 'Cercopithecus
lomamiensis' (Foto: Reprodução/"PLoS One")
Tímidos

Estes macacos são tímidos e, entre os encontrados na região estudada do Congo, são os menos comuns  - de 223 observações de primatas feitas pelos cientistas durante o estudo, apenas 19 foram de "macacos loiros" ou macacos-lesula.
Os machos tem corpos maiores do que as fêmeas, dizem os pesquisadores. Para se comunicar, os animais emitem um grande guincho de baixa frequência sonora, similar aos seus parentes, os macacos cara-de-coruja.

Os macacos-lesula são encontrados em áreas de floresta úmida e tropical. Eles não foram identificados em savanas ou áreas de mata alagada, de acordo com o estudo.
Em geral os animais foram identificados em grupos, seja com indivíduos de sua espécie ou com outros primatas. Nos 19 encontros ocorridos durante o período de estudos dos cientistas, 48 primatas desta espécie foram vistos, sendo que 17 deles estavam no chão quando foram flagrados.

Os animais são pacíficos e fugiram na maior parte dos encontros com os cientistas, registra a pesquisa. Os cientistas registraram que a espécie é comum na bacia do rio Lomami, tendo sido identificada seguidas vezes em uma área de 17 mil km². Eles apontam que o lesula era até agora desconhecido por haver pouca pesquisa científica na região em que o animal foi encontrado.

Os bandos de "macacos-loiros" podem reunir cinco indivíduos ou mais. Geralmente são encontradas fêmeas jovens acompanhadas de um macho adulto. A nova espécie foi descoberta por uma equipe de cientistas de várias instituições, como a Universidade Columbia, a Universidade da cidade de Nova York, o Museu de História Natural (todas nos Estados Unidos), a Sociedade Lukuru para Pesquisa da Vida Selvagem e a Sociedade de Conservação da Vida Selvagem do Congo (ambas no Congo).
Filhotes do primata macaco-lasula capturados em região da República Democrática do Congo (Foto: Reprodução/"PLoS One")
Filhotes do macaco-lesula capturados na República Democrática do Congo (Foto: Reprodução/"PLoS One")

Fonte:g1.globo.com/natureza/noticia/2012/09/nova-especie-de-macaco-loiro-e-descoberta-na-africa.html

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Ramificações ancestrais

Divergência de macacos-prego, tão antiga quanto a de seres humanos e chimpanzés, se reflete em ecologia e comportamento 

MARIA GUIMARÃES | Edição 196 - Junho de 2012
Desaparecidos por séculos, os macacos-prego-galegos foram redescobertos há poucos anos.

Os macacos-prego e caiararas existem na América Central, na Amazônia inteira, no cerrado, na caatinga e em toda a mata atlântica, chegando até a Argentina. Nessa extensão variam muito em forma, cor, tamanho, preferências alimentares e comportamento. São primatas marcantes, com um sistema social complexo e capazes de usar ferramentas, uma habilidade rara. Mesmo diante da grande variação entre espécies, até recentemente os especialistas classificavam macacos-prego e caiararas no mesmo gênero, Cebus, e boa parte deles respondia nos registros científicos pelo nome Cebus apella. Nos últimos 10 anos, a classificação desses primatas vem passando por uma revolução, com base no trabalho de pesquisadores brasileiros e de fora. “A taxonomia deles ainda seguia o trabalho dos naturalistas”, diz o primatólogo brasileiro Jean-Philippe Boubli. “A era da tecnologia molecular está permitindo toda uma reorganização.” Junto com a colega norte-americana Jessica Lynch Alfaro, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, ele – à época pesquisador na Wildlife Conservation Society – organizou um simpósio sobre esses macacos num congresso em 2010 no Japão. Reunindo os pesquisadores que mais estavam trazendo novidades ao conhecimento sobre esses primatas, o encontro deu origem a um volume especial da revista American Journal of Primatology, publicado em abril deste ano.

Quando estudava o comportamento desses macacos em Caratinga, Minas Gerais, Jessica via diferenças entre eles e os de outros lugares, mas não tinha contexto evolutivo para avaliar de onde elas vinham. “Não sabíamos há quanto tempo os grupos estavam separados ou qual o parentesco entre eles”, conta. Agora o animal que ela estudava se chama Sapajus nigritus, diferente de como era conhecido tanto em gênero como espécie. O pontapé inicial da mudança foi sugerido por José de Sousa e Silva Júnior em seu doutorado, concluído em 2001 pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Ele propôs dois subgêneros: Cebus para os caiararas, mais esguios, distribuídos da Amazônia para o norte, e Sapajus para os macacos-prego, mais robustos e muitas vezes caracterizados por um topete na cabeça, espalhados da Amazônia para o sul. “Ele foi corajoso em propor a divisão”, avalia Boubli, “mas agora podemos ir além”.

Só agora, uma década depois, a subdivisão se ampliou em trabalho de Jessica, Boubli e colaboradores publicado em fevereiro na revista Journal of Biogeography. Por meio de amplas análises genéticas, feitas sobretudo no laboratório de Jessica mas também no de Izeni Farias, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), ficou demonstrado que Cebus e Sapajus são diferentes a ponto de serem considerados gêneros distintos embora de tamanho parecido, ambos com pouco mais de 2 quilogramas. Mais especificamente, o estudo mostra que as duas linhagens se separaram há mais de 6 milhões de anos – mesmo tempo que separa o surgimento de chimpanzés e de seres humanos a partir de um ancestral comum. A mudança foi aceita pela maior parte dos primatólogos e está na Lista anotada dos mamíferos do Brasil publicada em abril pela Conservation International. Mas não é unanimidade, como é costume no meio científico. Em comentário recém-publicado no site da American Journal of Primatology, Alfred Rosenberger, do Brooklyn College, em Nova York, defende que a divisão dos macacos-prego e caiararas foi apressada e até certo ponto desnecessária. Embora não critique os fundamentos genéticos, ele argumenta que uma repartição exagerada pode criar espécies raras que angariam mais recursos para conservação, mesmo que não se justifique do ponto de vista científico. A discussão envereda mais para o campo filosófico, com base na fluidez do conceito de espécie, que não tem fronteiras definidas.
Os esguios Cebus capucinus, habitantes da América Central

Jessica está convicta de suas conclusões. Por meio de sequenciamento genético e de técnicas que permitem estimar quando aconteceram as ramificações na árvore genealógica desses primatas, tudo isso relacionado à geografia de sua distribuição atual, o grupo liderado por ela chegou a uma proposta sobre a trajetória desses animais ao longo da evolução. A formação do rio Amazonas foi responsável por criar uma separação norte-sul que isolou os primatas que ali viviam, gerando a ramificação na genealogia que deu origem a Cebus e a Sapajus. Depois disso, por cerca de 4 milhões de anos não se sabe bem o que aconteceu. Só por volta de 2 milhões de anos atrás o grupo que deu origem aos macacos mais robustos se espalhou pela mata atlântica sem deixar descendentes na Amazônia. A ocupação de toda a costa brasileira foi rápida e se deu em conjunto com uma grande diversificação de espécies.

Há cerca de 700 mil anos a expansão ao sul chegou até a Argentina, próximo às cataratas do Iguaçu, e rumou para o norte ocupando o cerrado, na região central do Brasil. Em seguida, por volta de 400 mil anos atrás, eles chegaram de volta à Amazônia, onde tornaram a se encontrar com seus parentes mais delicados, que se tinham espalhado pela região norte, em torno dos Andes, e chegado até a Costa Rica, na América Central.

Essa reinvasão relativamente recente da Amazônia pelos macacos-prego explica sua baixa diversidade por ali em número de espécies, e também a competição que se estabelece entre os dois gêneros que ficaram separados por milhões de anos. “Os Sapajus conseguem usar uma variedade maior de recursos, como quebrar frutos mais duros”, explica Jessica. Isso faz com que, quando eles coexistem com seus primos do norte – como é comum no oeste da Amazônia entre C. albifrons e S. macrocephalus –, a densidade dos mais esguios fique reduzida. Boubli analisou mais a fundo a diversidade genética dos Cebus, em artigo publicado na edição especial da American Journal of Primatology, e mostrou que esses animais pouco estudados abrigam uma enorme diversidade.
Para Izeni Farias, responsável pelas análises genéticas, não foi surpresa. “A distribuição é muito ampla, era de se esperar uma grande variação”, afirmou a geneticista, coordenadora de um projeto do Sistema Nacional de Pesquisa em Biodiversidade (Sisbiota) que busca amostrar a diversidade genética dos vertebrados amazônicos.

Experiente em andanças pela selva amazônica, Boubli vê o estudo genético como um ponto de partida que indica a necessidade de novos estudos. “Os interflúvios de rios como o Jaú, o Purus e outros separam populações que podem ficar isoladas tempo suficiente para se tornarem espécies”, explica o primatólogo. Um exemplo observado por ele são macacos das duas margens do rio Negro que estão separados há 1 milhão de anos, segundo dados genéticos. “Olhando, eles parecem iguais. Será que são espécies diferentes?”
Sapajus libidinosus escala paredão na serra da Capivara

A olho nu
Na amplitude tridimensional da Amazônia, coletar material para estudos genéticos já é bastante difícil. Estudos de ecologia e comportamento são muito mais complicados, daí a quase total ignorância sobre os animais que vivem por lá. A maior parte dos estudos que envolvem observação acontece em áreas de fácil acesso, onde os macacos já estão habituados à presença humana. No Brasil, isso torna os Sapajus muito mais estudados do que os Cebus. E há bastante variação de uma espécie a outra.

Essa variação depende em parte do ambiente, como mostra um grupo liderado por Patrícia Izar, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP), em artigo na American Journal of Primatology. A equipe comparou S. nigritus do Parque Estadual Carlos Botelho, no interior de São Paulo, e S. libidinosus da Fazenda Boa Vista, no município de Gilbués, Piauí. As diferenças ecológicas são marcantes: uma espécie de mata atlântica, que passa a maior parte do tempo no alto das árvores, e outra de caatinga, usando mais o chão em meio à vegetação menos generosa.

Talvez por causa do ambiente mais aberto, os macacos nordestinos demonstravam mais incômodo com a presença dos pesquisadores, que por vezes acusavam em gritos de alarme como se fossem predadores. Essa maior percepção do risco do entorno pode estar por trás dos grupos sociais mais coesos ali do que na floresta paulista. A disponibilidade de alimento, surpreendentemente menor na mata mais exuberante, também afeta a estrutura do grupo, que em Carlos Botelho muitas vezes se dispersa em busca de uma boa refeição. As palmeiras da caatinga produzem cocos de vários tipos, ricos em nutrientes e que exigem perícia de quem deseja consumi-los: o uso de ferramentas, comportamento comum em Sapajus mas nunca observado em Cebus.

“São raríssimos os registros de uso de ferramentas em macacos arbóreos”, conta Tiago Falótico, do IP-USP. Ele mostrou, em seu trabalho de doutorado terminado em 2011 sob orientação de Eduardo Ottoni, que além do aspecto ecológico esse comportamento também é influenciado pela cultura dos grupos. “Os macacos do Parque Nacional da Serra da Capivara têm um instrumental muito mais variado que os de Gilbués”, conta, sobre dois locais no Piauí. Em Gilbués, os cocos da piaçava, do catulé e do catuli chegam a ser bastante grandes e difíceis de quebrar. Nada que desanime os Sapajus libidinosus, o macaco-prego-amarelo: eles usam pedras de até 3 quilogramas (praticamente o próprio peso), que erguem e abatem sobre o coco apoiado numa pedra plana. “As fêmeas às vezes precisam saltar com a pedra e usar a força da queda para conseguir quebrar os cocos”, diz o pesquisador.

Mas a criatividade para por aí em Gilbués, enquanto os grupos da serra da Capivara, que não têm cocos para quebrar (mas abrem castanhas de caju a pedradas), usam o mesmo tipo de ferramenta para cavar o solo arenoso em busca de raízes e de aranhas que vivem em ninhos subterrâneos. Além disso, são também exímios na confecção e no uso de varetas para tirar mel de colmeias e desentocar mamangavas e outros insetos de ocos em troncos de árvores. Eles também usam varas compridas para expulsar lagartos de frestas nos paredões de pedra avermelhados que se erguem até 50 metros acima do solo. “A diferença de comportamento entre grupos da mesma espécie em ambiente similar indica que eles podem ter tradições transmitidas por aprendizagem social”, explica Falótico. Outro uso curioso de ferramentas está no repertório das fêmeas de apenas um grupo da serra da Capivara: elas atiram pedras nos machos para chamar atenção durante os poucos dias de duração do cio.

Outro adepto do uso de ferramentas é o macaco-prego-galego (S. flavius), estudado no Rio Grande do Norte por Ricardo Emidio e Renata Ferreira, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Poucos estudos foram feitos sobre essa espécie, até recentemente conhecida apenas por uma pintura do século XVIII que ninguém sabia se representava um animal existente.

Habilidades alternativas

Mesmo não usando ferramentas no dia a dia, os macacos-prego de florestas também têm habilidades manuais. É o que mostrou a equipe do primatólogo Júlio César Bicca-Marques, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), por meio de experimentos com Sapajus nigritus em que posicionou bananas dentro de caixas de acrílico em plataformas numa propriedade privada em Porto Alegre (veja o vídeo). Criado pelo antropólogo Paul Garber, da Universidade de Illinois e coautor do artigo, o experimento teve resultados semelhantes aos obtidos pelo norte-americano com Cebus capucinus na Costa Rica. Numa primeira versão do desafio, os macacos precisavam puxar uma vareta para derrubar a banana e deixá-la ao alcance das mãos. Os dois machos do grupo aprenderam o truque com facilidade. Mas quando o experimento mudou, e a vareta passou a precisar ser empurrada, o sucesso não se repetiu. Não por falta de capacidade na solução de problemas, na opinião do pesquisador gaúcho. “A associação foi muito fácil, mas eles parecem precisar de mais tempo para extinguir o aprendizado”, explica. Numa próxima oportunidade, ele pretende começar o teste pela segunda versão, para comprovar sua hipótese.

Outro tipo de ferramenta, muito diferente, é o hábito de esfregar produtos diversos, como frutos ou insetos, na pelagem. Até recentemente esse costume tinha sido observado muito mais em Cebus do que em Sapajus. “Como é um comportamento observado esporadicamente em Sapajus, quase ninguém tinha dados suficientes para publicar”, conta Jessica Lynch Alfaro, que reuniu as informações recolhidas por diversos pesquisadores em uma revisão.
Filhotes aprendem com observação de perto.

De maneira geral, o trabalho mostrou que os Cebus têm uma tendência maior do que seus primos a esfregar no pelo quase tudo que encontram, com uma preferência por material vegetal, como frutos cítricos e folhas. O comportamento é mais raro em Sapajus, que, sobretudo na mata atlântica, restringem o uso a insetos. A escolha de material para besuntar-se não deixa de ter uma influência ecológica – o que estiver disponível –, mas uma diferença intrínseca entre os dois gêneros é decisiva. “No Parque Nacional Manu, no Peru, os Sapajus não se esfregam e os Cebus sim”, exemplifica Jessica.

Os macacos-prego da mata atlântica têm uma preferência marcada por formigas, como mostraram Tiago Falótico e sua colega Michele Verderane em estudo feito no Parque Ecológico do Tietê, em São Paulo, e publicado em 2007. Principalmente na estação seca, quando há mais carrapatos, os primatas pegam punhados de formigas e esfregam meticulosamente pelo corpo. “Elas liberam ácido fórmico, que tem ação repelente para carrapatos”, conta o pesquisador da USP. Ele e Michele comprovaram o efeito passando a substância no dedo e inserindo num frasco de carrapatos, num experimento em que contavam quanto tempo os parasitas caminhavam sobre o dedo e que distância percorriam. Falótico viu o mesmo comportamento no Piauí, onde os macacos também esfregam piolhos-de-cobra, fonte de benzoquinona, um repelente contra pernilongos.

Outras observações recolhidas por Jessica permitiram mapear a esfregação por macacos-prego e mostrar que o procedimento não se limita a uma preferência cosmética e tem uso prático e até medicinal. Um caso curioso é o dos Cebus albifrons que vivem no meio de um vilarejo da Amazônia equatoriana e costumam roubar o sabão de lavar roupa, que usam para tomar banho.

Há muito de novo no reino dos macacos-prego, mas os especialistas estão longe de satisfeitos. Para Jessica e Boubli, eles apenas revelaram a ponta do iceberg, uma indicação do quanto ainda há por descobrir. Na Amazônia, onde o comportamento e a ecologia são praticamente desconhecidos, as informações genéticas são uma pista de que talvez haja espécies às quais ninguém dá importância. “Espero que as novas populações e espécies descobertas ajudem a tomar decisões de conservação”, diz Jessica.

Artigos científicos

LYNCH ALFARO, J.W. et al. Explosive Pleistocene range expansion leads to widespread Amazonian sympatry between robust and gracile capuchin monkeys. Journal of Biogeography. v. 39, n. 2, p. 272-88. fev. 2012.
BOUBLI, J.P. et al. Cebus phylogenetic relationships: 
a preliminary reassessment of the diversity of the untufted capuchin monkeys. American Journal of Primatology. 
v. 74, n. 4, p. 381-93. abr. 2012.
IZAR, P. et al. Flexible and conservative features of social systems in tufted capuchin monkeys: comparing the socioecology of Sapajus libidinosus and Sapajus nigritus. American Journal of Primatology. v. 74, n. 4, p. 315-31. abr. 2012.
GARBER, P.A. et al. Experimental field study of problem-solving using tools in free-ranging capuchins (Sapajus nigritus, formerly Cebus nigritus). American Journal of Primatology. v. 74, n. 4, p. 344-58. abr. 2012.
LYNCH ALFARO, J.W. et al. Anointing variation across wild capuchin populations: a review of material preferences, bout frequency and anointing sociality 
in Cebus and Sapajus. American Journal of Primatology. 
v. 74, n. 4, p. 299-314. abr. 2012.

terça-feira, 20 de março de 2012

Cientistas conseguem em Mianmar imagens inéditas de macaco raro

Espécie descoberta em 2010 só havia sido descrita por ilustração.
Estimativa é que existam na região uma população de 330 exemplares.

12/01/2012 12h03 - Atualizado em 19/03/2012 12h03

Uma equipe internacional de primatólogos conseguiu capturar as primeiras imagens de uma nova espécie de macaco-de-cara-chata (Rhinopitecus Strykeri), descoberta em 2010 no norte de Mianmar e que tem uma população estimada em 330 animais.

As imagens foram divulgadas nesta semana pelas organizações Fauna & Flora International, Biodiversity and Nature Conservation Association e People Resources and Conservation Foundation, envolvidas no trabalho de pesquisa.

Uma gravura da espécie, apelidada de macaco "Elvis", devido ao seu elevado topete, foi apresentada pela organização ambiental WWF no fim do ano passado, quando foi publicada uma lista com mais 200 animais encontrados na região do região do Grande Mekong, rio que corta seis países do Sudeste Asiático como o Camboja, a China, Laos, Miannmar, Tailândia e Vietnã.
"Trata-se dos primeiros testemunhos do animal em seu habitat natural", destacou o biólogo birmanês Ngwe Lwin, da Associação de Conservação da Natureza e a Biodiversidade de Mianmar, durante a apresentação das fotos.
Jeremy Holden, que coordenou a colocação das câmaras, indicou que não foi um trabalho simples, já que tiveram que enfrentar as nevadas de janeiro e as persistentes precipitações de abril. As dificuldades eram ainda maiores pelo fato dos especialistas desconhecerem o lugar exato onde habitava a comunidade de macacos de cara chata descoberta em 2010.
Primeira imagem do macaco (Foto: Divulgação/FFI/BANCA/PRCF)Primeira imagem do macaco-de-cara-chata realizada por ambientalistas em Mianmar (Foto: Divulgação/FFI/BANCA/PRCF)
Anteriormente, apenas uma ilustração do primata havia sido divulgada. (Foto: Divulgação/WWF/Reuters)Anteriormente, apenas uma ilustração do primata havia sido divulgada. (Foto: Divulgação/WWF/Reuters)
 
Espirro
A espécie se destaca ao apresentar uma pelagem inteiramente negra e caudas "relativamente" longas, que equivalem a uma vez e meia o tamanho de seu próprio corpo. Embora o primata seja novo para a ciência, o macaco-de-cara-chata é conhecido pelos caçadores da região, que afirmam que o "nwoah" (no idioma local) é relativamente fácil de ser encontrado, já que o animal começa a espirrar quando chove.
Para evitar a entrada de água de chuva no nariz, estes símios costumam passar os dias chuvosos sentados com a cabeça entre os joelhos. Já nos meses de verão, entre maio e outubro, os macacos vivem nas montanhas e só descem no inverno, quando a comida começa a faltar.

O primatólogo Frank Momberg, da Fauna & Flora International, se reuniu com vários caçadores locais e descobriu que entre 260 e 330 animais da espécie se concentram em uma área de 270 km² nas margens do Rio Maw, situado no estado de Kachin, no nordeste de Mianmar.
Os macacos encontrados vivem isolados devido às características de Kachin, o qual conta com duas barreiras naturais, os Rios Mekong e Salween. Na China e no Vietnã existem algumas espécies de macacos-de-cara-chata. Porém, esta é a primeira vez que a comunidade científica internacional consegue localizar o animal em Mianmar.
 

 

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Mais um galho na árvore dos primatas

Descoberta nova espécie de macaco, restrita a uma pequena área no noroeste do Mato Grosso. Pesquisadores apontam que o achado pode ajudar a valorizar a única reserva extrativista do estado.
Por: Mariana Ferraz
Publicado em 14/11/2011 | Atualizado em 14/11/2011
Mais um galho na árvore dos primatas
Cauda de tons laranjas e marrons chamou a atenção do pesquisador, que logo imaginou que se tratava de uma nova espécie de macaco. (foto: Julio Dalponte) 
 
A descoberta de uma nova espécie de macaco na Reserva Extrativista Guariba-Roosevelt, noroeste do Mato Grosso, é mais uma confirmação da enorme diversidade de primatas na Amazônia e do quanto essa diversidade permanece pouco explorada.
De distribuição aparentemente restrita à reserva, a espécie integra o gênero Callicebus, conhecido localmente como zogue-zogue, e ainda não recebeu seu nome científico, uma vez que o processo de descrição continua em andamento.

Os créditos da descoberta vão para os biólogos Júlio Dalponte, diretor executivo de uma empresa de serviços ambientais, e José de Souza e Silva Jr., do Museu Paraense Emílio Goeldi.
Dalponte conta que os tons laranjas e marrons da cauda do animal chamaram sua atenção em meio a folhagem. "Quando vamos para o campo, temos uma imagem na cabeça do que pode ser encontrado no local e ficamos atentos a essas características. Assim, quando vi as cores da cauda do animal imaginei logo que se tratava de uma nova espécie."

O macaco recém-descoberto é de pequeno porte, como saguis e micos, o que o torna incapaz de atravessar rios com margens distantes cujas árvores não se encostam nas copas. Os pesquisadores acreditam que o fato pode ajudar a entender a distribuição do animal.

"Espécies do gênero Callicebus são restritas a interflúvios e a reserva está exatamente entre os rios Roosevelt e Guariba. Sabemos que o rio Roosevelt impede a passagem dos animais, mas ainda precisamos confirmar se o mesmo acontece com o Guariba", explica Dalponte, completando que há suspeita de que a margem direita deste último rio possa abrigar outra espécie de macaco nova para a ciência.

De olho na reserva

A Reserva Extrativista Guariba-Roosevelt é parte de um pequeno mosaico de unidades de conservação em meio a uma área sob forte pressão da expansão agropecuária. Com 138 mil hectares e 52 famílias, trata-se da única reserva extrativista do Mato Grosso.
Para Dalponte, a descoberta pode ajudar a valorizar o trabalho na reserva. "É uma descoberta que pode dar visibilidade ao local, ajudando a atrair recursos. Trata-se de uma área com forte interferência humana e poucas partes protegidas. Sua existência é um alento."
Unidades de conservação
Mosaico de unidades de conservação visitadas pela expedição Guariba-Roosevelt. O objetivo da expedição era subsidiar o plano de manejo das unidades localizadas no noroeste do Mato Grosso, área sobre forte pressão do agronegócio.
O pesquisador pretende voltar para o campo o mais brevemente possível para conhecer melhor a distribuição do animal e compará-la com a das outras espécies de macaco que ocorrem no local. Enquanto isso não acontece, Dalponte e o pesquisador do Museu Goeldi, José de Sousa e Silva Jr., pensam em como batizar a espécie.

"Pensamos em homenagear um dos mais antigos e importantes primatólogos do Brasil, o pesquisador Milton Thiago de Melo. Quase centenário, ele ainda não conta com animais batizados em sua homenagem."
A expedição na qual se descobriu a nova espécie foi promovida pela Secretaria de Meio Ambiente do Estado do Mato Grosso, a empresa Mapsmut e a WWF-Brasil com o intuito de subsidiar a construção do plano de manejo da área.

Mariana FerrazCiência Hoje On-line/ AM

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Laboratório de Primatologia

Linhas de Pesquisa  
Ecologia, conservação, comportamento e cognição de primatas
Principais tópicos de pesquisa:
(a) Ecologia cognitiva – determinar, através de uma abordagem experimental de campo, os tipos de informação ecológica e social utilizados na tomada de decisões de forrageio por diferentes espécies de primatas neotropicais;
(b) Forrageio social – identificar as estratégias de forrageio adotadas por diferentes membros de um grupo social e sua relação com a estrutura social, relações de dominância e disponibilidade e facilidade de monopolização do alimento;
(c) Ecologia da fragmentação – avaliar a influência de diferentes graus de isolamento espacial decorrentes da fragmentação do hábitat e de características estruturais dos fragmentos sobre a sobrevivência, ecologia e comportamento de sub-populações de primatas isoladas em remanescentes florestais;
(d) Simpatria entre espécies congenéricas – Avaliar o grau de sobreposição de nichos, a estrutura das vocalizações, a estrutura genética das populações e a ocorrência de hibridização entre espécies congenéricas simpátricas (em especial, os bugios Alouatta caraya e A. guariba clamitans);
(e) Frugivoria e dispersão de sementes – Investigar a influência do consumo de frutos pelos macacos sobre a viabilidade, germinação e dispersão de sementes de diferentes espécies arbóreas e sua contribuição na regeneração da floresta;
(f) Termorregulação comportamental – determinar a influência de variáveis ambientais (temperatura, velocidade do vento, sensação térmica e umidade relativa do ar) sobre o comportamento postural, a seleção de microhábitats e o distanciamento interindividual durante o descanso;
(g) Comportamento de primatas em cativeiro - estudar diferentes aspectos do comportamento dos primatas sob condições de cativeiro, tais como seu comportamento e organização social, período reprodutivo, influência do enriquecimento ambiental sobre o repertório comportamental e uso de ferramentas.

Coordenador do Laboratório:Prof. Júlio César Bicca-Marques, Ph.D.
Fonte: http://www.pucrs.br/fabio/labprimatologia.html