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quarta-feira, 10 de agosto de 2022

 

Datação indica que esqueleto encontrado no Piauí tem 9,6 mil anos

Apelidado de Zuzu, indivíduo foi contemporâneo dos grupos humanos mais antigos da América do Sul

Crânio reconstituído de Zuzu, exposto no Museu do Homem Americano, em São Raimundo Nonato, no Piauí

Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP

Zuzu, um esqueleto humano bastante antigo encontrado no interior do Piauí, já esteve envolvido em algumas polêmicas arqueológicas. Uma, aparentemente resolvida agora, é sobre quando esse indivíduo teria vivido. Zuzu habitou a região onde hoje é o sudeste do Piauí há cerca de 9,6 mil anos, aproximadamente 1.400 anos depois do que o estimado anteriormente. Mesmo assim, está entre os exemplares humanos mais antigos achados até o momento na América do Sul. A outra, ainda em aberto, é sobre seu sexo: o esqueleto já foi indicado por alguns estudos como sendo de uma mulher, enquanto outros sugerem que seria de um homem, opção favorecida pelas análises mais recentes, mas com constituição corpórea que sugere um esqueleto feminino.


“O valor obtido na nova datação de Zuzu está dentro do esperado”, afirma a arqueóloga argentina Lumila Menéndez, pesquisadora das universidades de Bonn, na Alemanha, e de Viena, na Áustria, e primeira autora do artigo publicado em 12 de maio na Scientific Reports apresentando os resultados. “Esse valor é semelhante ao obtido por meio de datação direta para outros esqueletos antigos da América do Sul. Nenhum deles tem muito mais do que isso.” Baseando-se na análise de fogueiras e material lítico supostamente produzidos por seres humanos, a arqueóloga franco-brasileira Niède Guidon, coautora do trabalho atual e líder por quase cinco décadas das pesquisas no Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí, onde foi achado o esqueleto de Zuzu, defende desde os anos 1980 que o Homo sapiens se instalou na região dezenas de milhares de anos atrás. No entanto, o valor obtido na nova datação de Zuzu é o mais antigo para um esqueleto humano da região.

Determinar quando viveram os exemplares humanos mais antigos do continente é fundamental para compreender como se deu a ocupação das Américas. A datação de materiais biológicos com milhares de anos, no entanto, é desafiadora no Brasil. O clima tropical, com alta umidade, e os solos muitas vezes ácidos dificultam a preservação adequada de ossos e outros tecidos que contêm material genético e elementos úteis para determinar a idade dos corpos. Como alternativa, os arqueólogos tentam obtê-la de forma indireta, por meio da datação de materiais associados ao esqueleto, como a camada de sedimento da qual foi retirado ou fragmentos de carvão associados a ele.

Foi possível agora estabelecer em que período Zuzu viveu a partir da datação direta de íons de carbonato (CO3) do esmalte do dente. Isótopos radioativos de carbono encontrados em dois molares permitiram afirmar que o esqueleto tem entre 9.526 e 9.681 anos. Essa, no entanto, seria uma idade mínima, afirmam os pesquisadores. É possível que Zuzu tenha algumas centenas de anos a mais, uma vez que carbonato de materiais do ambiente, mais jovem do que o do esqueleto, pode ter se integrado aos dentes após a morte.


“A ausência de datações diretas de esqueletos encontrados no Parque Nacional Serra da Capivara levava os pesquisadores estrangeiros que trabalham com o povoamento das Américas a desconsiderar os dados da região”, relata a antropóloga física argentina Ana Solari, pesquisadora da Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham), entidade responsável pela preservação do patrimônio cultural e natural do parque, e coautora do trabalho publicado na Scientific Reports.

Localizado no sudeste do Piauí, a cerca de 530 quilômetros da capital, Teresina, o Parque Nacional Serra da Capivara ocupa uma área de aproximadamente 130 mil hectares de Caatinga nos municípios de São Raimundo Nonato, João Costa, Brejo do Piauí e Coronel José Dias. Ali está uma das maiores concentrações no país de sítios arqueológicos do Holoceno superior, época geológica que durou de 11,7 mil anos atrás a 8,2 mil anos. Vinte e sete deles abrigam esqueletos humanos, sepultados solitariamente, como Zuzu, ou em grupos de até 20 indivíduos. Idades obtidas por meio de datação indireta, feita a partir da análise de materiais encontrados junto aos esqueletos, indicam que alguns são contemporâneos de Zuzu e outros possivelmente até um pouco mais antigos.

A ossada de Zuzu foi encontrada em julho de 1997 em escavações realizadas em um pequeno abrigo rochoso conhecido como Toca dos Coqueiros, no município de Coronel José Dias, pela equipe de Guidon. O local é um paredão de rocha inclinado, coberto por pinturas rupestres, que oferecia proteção contra sol e chuva – o clima na região era mais úmido naquela época. Zuzu estava em posição fetal, deitado sobre seu lado esquerdo, com a mão esquerda sob a face e a direita à frente do rosto.

Depois de algumas tentativas de datação direta do esqueleto, frustradas pela ausência de colágeno nos ossos, Guidon e a bioarqueóloga Andrea Lessa conseguiram em 2002 estabelecer a idade de um carvão incrustado no calcanhar direito do esqueleto. O material tinha aproximadamente 11 mil anos, a primeira idade atribuída ao esqueleto. “Sempre que possível, tenta-se privilegiar a datação direta do esqueleto, capaz de definir em que período o indivíduo viveu”, explica a bioantropóloga Mercedes Okumura, da Universidade de São Paulo (USP), estudiosa do povoamento pré-histórico do Brasil, que não participou do trabalho atual.

Zuzu na posição em que foi originalmente encontrado na Toca dos Coqueiros em 1997FUMDHAM

A primeira datação, apresentada em um artigo publicado no American Journal of Physical Anthropology, era mais próxima à de outro esqueleto humano famoso, considerado até hoje o mais antigo da América do Sul: Luzia, uma mulher adulta que morreu entre 12,5 mil e 13 mil anos atrás nos arredores do atual município de Lagoa Santa, na região central de Minas Gerais. “Com exceção de Luzia e um ou outro caso, a quase totalidade do material humano encontrado em Lagoa Santa tem entre 9 mil e 10 mil anos, a mesma atribuída agora a Zuzu”, conta o bioantropólogo Walter Neves, criador do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos da USP, responsável nos anos 1990 pela análise detalhada do crânio de Luzia e de outros esqueletos de Lagoa Santa.

No trabalho de 2002, Lessa e Guidon propuseram que Zuzu teria tido entre 1,40 e 1,60 metro em vida e morrido entre 35 e 45 anos de idade. Características dos ossos da pélvis indicavam que o esqueleto era de uma mulher, assim como os resultados de uma análise de DNA extraído de dois ossos da mão direita e de uma vértebra da coluna.

Era o início de outra polêmica envolvendo o esqueleto da Toca dos Coqueiros, uma vez que o resultado da análise genética gerou ceticismo entre os arqueólogos por causa da dificuldade de preservação do colágeno nos esqueletos da serra da Capivara.

Anos mais tarde, o arqueólogo Albert Russell Nelson, então pesquisador das universidades de Michigan e Wyoming, nos Estados Unidos, reconstituiu o crânio de Zuzu, encontrado bastante fraturado, e reanalisou suas características. Comparou ainda estruturas de sua pélvis com as de dois esqueletos femininos – um quase contemporâneo a ele e outro bem mais recente – encontrados na serra da Capivara.

Nelson concluiu que Zuzu teria sido um homem, embora com feições mais delicadas. Outro achado arqueológico apoiava a ideia: a presença de duas pontas de lança de pedra lascada encontradas junto ao corpo – acredita-se que esse tipo de oferenda só fosse feito para homens. Em um comentário publicado em 2005 também no American Journal of Physical Anthropology, ele sugeriu ainda, com base na forma e em medições de estruturas do crânio, que Zuzu teria uma aparência próxima à de Luzia e dos outros indivíduos do povo que habitou a região de Lagoa Santa há cerca de 10 mil anos. A conclusão seria reforçada dois anos mais tarde por outra análise, publicada na mesma revista, feita por Neves e pelo bioantropólogo brasileiro Mark Hubbe, hoje professor na Universidade Estadual de Ohio, nos Estados Unidos, em colaboração com Guidon. No trabalho, eles afirmaram: “Em relação ao sexo de Zuzu, nossas análises corroboram a ideia defendida por Nelson em 2005 de que esse esqueleto pertence a um homem grácil”.


Quando analisou os crânios do povo de Lagoa Santa no final dos anos 1980, Neves verificou que esses indivíduos, assim como os outros esqueletos do mesmo período encontrados nas Américas, apresentavam feições semelhantes às dos africanos e dos aborígenes da Austrália e da Melanésia – e distinta das de grupos indígenas atuais, com traços asiáticos. Chamados de paleoíndios, os indivíduos daquele grupo, ao qual pertenceriam Luzia e Zuzu, apresentam o crânio mais estreito e alongado no sentido ântero-posterior, com as órbitas mais baixas, do que o dos indígenas atuais. Eles seriam descendentes do primeiro grupo humano a entrar nas Américas, vindo a partir da Ásia e com traços australo-melanésios, de acordo com o modelo de ocupação do continente proposto em 1989 por Neves e pelo bioantropólogo argentino Héctor Pucciarelli. Essa morfologia teria existido até tempos históricos, em indivíduos de povos como os Botucudos. Os demais grupos indígenas, segundo o modelo, seriam descendentes de uma segunda leva migratória, composta por indivíduos com características asiáticas.

“O trabalho é muito elegante, mas já era esperado que Zuzu tivesse feições australo-melanésias, assim como os demais paleoíndios, como já havia sido indicado”, afirma Neves, que não participou do presente estudo. Ele atribui a presença disseminada dessa característica naquela época à história evolutiva dos seres humanos. Como o Homo sapiens surgiu na África e possivelmente passou por um processo relativamente recente de transformação morfológica do crânio, essas características mais antigas se tornaram disseminadas pelo planeta. “Até 10 mil anos atrás vários grupos em todo o mundo apresentavam essa morfologia que chamo de pan-africana”, afirma o bioantropólogo.

Além de estabelecer um valor obtido por datação direta para o esqueleto de Zuzu, no trabalho da Scientific Reports, Menéndez, Solari e colaboradores analisaram 10 medidas de seu crânio e compararam com as de outros 108 esqueletos – 39 de indivíduos que viveram no Holoceno superior e 69 no Holoceno inferior (últimos 4,2 mil anos) – encontrados em diferentes regiões do Brasil. Os resultados mostraram que Zuzu tem uma similaridade muito maior com os crânios do primeiro grupo, quase todos paleoíndios de Lagoa Santa, do que com os dos indivíduos de períodos mais recentes, mesmo os que vivem ou viveram em locais geograficamente mais próximos da serra da Capivara, como o povo Guajajara, do Maranhão.

Ao confrontar as formas do crânio de Zuzu com as de indivíduos dos dois períodos, os pesquisadores concluíram que o esqueleto provavelmente seria de uma mulher. Já na comparação com os crânios apenas do Holoceno superior, período ao qual pertence, Zuzu é homem com feições delicadas. “Possivelmente o dimorfismo sexual, ou seja, as diferenças na fisionomia externa entre homens e mulheres, mudou ao longo do tempo. Essas diferenças podem ter sido menos acentuadas ou, simplesmente, esses povos podem ter apresentado características morfológicas diferentes no passado”, supõe Menéndez. “Talvez seja por esse motivo que temos dificuldade em saber se era um esqueleto masculino ou feminino.” O dimorfismo sexual, no entanto, era bem marcado entre os habitantes antigos de Lagoa Santa, contemporâneos de Zuzu.

Artigos científicos
MENÉNDEZ, L. P. et alMorphometric affinities and direct radiocarbon dating of the Toca dos Coqueiros’ skull (Serra da Capivara, Brazil). Scientific Reports. v. 12, n. 7807. 12 mai. 2022.
LESSA, A. e GUIDON, N. Osteobiographic analysis of skeleton I, sítio Toca dos Coqueiros, Serra da Capivara National Park, Brazil, 11,060 bp: first results. American Journal of Physical Anthropology. v. 118, n. 8, p. 99-110. jun. 2002.
NELSON, A. R. “Osteobiographics” of dos Coqueiros paleoindian reconsidered: Comment on Lessa and Guidon (2002). American Journal of Physical Anthropology. v. 126, n. 4, p. 401-3. abr. 2005.
HUBBE, M. et al“Zuzu” strikes again – Morphological affinities of the early Holocene human skeleton from Toca dos Coqueiros, Piaui, BrazilAmerican Journal of Physical Anthropology. v. 134, n. 2, p. 285-91. out. 2007.



sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Cultura de uso de ferramentas por macacos-prego variou ao longo de 3 mil anos

Estudos de arqueologia e etologia se encontram na serra da Capivara, no Piauí, e revelam o primeiro registro conhecido de mudanças culturais em primatas não humanos
Macho adulto quebra castanha-de-caju, observado de perto por um jovem (primeiro plano) e uma fêmea (ao fundo)
Tiago Falótico / USP
Enquanto arqueólogos escavam o solo duro e seco da Caatinga no Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, em busca de vestígios do passado, macacos-prego logo ao lado usam pedras para quebrar cocos, sementes e castanhas-de-caju. Provavelmente de modo semelhante ao que fazem há pelo menos 3 mil anos, como revela parceria entre pesquisadores da Inglaterra e do Brasil. “Eles vão se tornando um pouco primatólogos, enquanto nós viramos um pouco arqueólogos”, conta o biólogo Tiago Falótico, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), que coordenou as escavações mais recentes. Há seis anos ele e seu antigo supervisor Eduardo Ottoni, do Instituto de Psicologia da USP, trabalham em parceria com os arqueólogos britânicos Michael Haslam e Tomos Proffitt, do University College London, na investigação de como viviam os macacos. Descobriram que, assim como acontece hoje entre diferentes grupos de primatas, no passado a cultura de uso de ferramentas variou, como descreve artigo publicado nesta segunda (24/6) na revista Nature Ecology & Evolution. “É a primeira vez que se constata essa variação cultural em registros arqueológicos de primatas não humanos”, afirma Falótico.

Entrevista: Tiago Falótico
 
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Há alguns anos as escavações por lá revelaram que os macacos-prego da serra da Capivara (Sapajus libidinosus) já usavam pedras para quebrar castanhas-de-caju em tempos pré-colombianos. Chimpanzés, que desbancaram o uso de ferramentas como característica definidora dos seres humanos, já manejavam pedras há 4 mil anos de acordo com escavações na Costa do Marfim, na África. Mas lá não há sinais de que tenham alterado o comportamento.
Escavação arqueológica acontece debaixo de cajueirosTiago Falótico / USP


Os macacos-prego são ricos em variações de comportamento, que alguns especialistas chamam de culturas. Há grupos que usam pedras, outros preferem gravetos. 

Depende do tipo de alimento disponível em cada área, mas também do que os jovens de cada população aprendem com os mais velhos. Da mesma maneira, à medida que foram escavando mais fundo – e regredindo no tempo – os pesquisadores encontraram variação. O material depositado entre 2.400 e 3 mil anos atrás revela o uso extenso de pedras pequenas, cheias de quebras causadas por impactos repetidos


Provavelmente eram usadas para processar alimentos menos duros do que castanhas-de-caju. “Hoje eles usam pedras semelhantes para quebrar sementes e frutos como os da maniçoba [Manihot pseudoglaziovii], uma planta da família da mandioca”, conta Falótico, que interpreta as marcas no material arqueológico com base no que os macacos fazem hoje. Infelizmente não foi possível detectar resíduos dos alimentos nas pedras encontradas, mas ele ainda não desistiu. “Outras áreas podem ter condições de preservação diferentes que um dia nos permitam identificar resíduos.”

Na fase seguinte, entre aproximadamente 565 e 640 anos atrás, conforme datação de fragmentos de carvão resultantes de queimadas e presentes no sedimento, os macacos ainda usavam pedras pequenas, mas já existiam mais bigornas – superfícies planas onde apoiam o alimento no momento da quebra. Mais recentemente, eles parecem ter começado a usar pedras maiores que permitem processar castanhas bem duras e disseminaram o uso de bigornas. Eles chegam a erguer acima da cabeça pedras de cerca de 3 quilogramas, semelhante ao próprio peso. Também usam pedras para cavar e paquerar, entre outras utilidades.
Duas pedras usadas por macacos na fase mais antiga mostram variedade de formatos, tamanhos e marcas de usoTiago Falótico / USP

É impossível estabelecer os motivos dessa variação no registro arqueológico. Será que começavam a desenvolver as técnicas e aos poucos foram descobrindo que funcionava e explorando fontes alimentares antes inacessíveis? 

Ou grupos da mesma época já tinham costumes variáveis, transmitidos de uma geração para outra, e a escavação de outros sítios revelará uma diversidade cultural já nos tempos mais antigos? Ou, ainda, em certos momentos os alimentos disponíveis não exigiam maiores esforços? Todas são possibilidades plausíveis, embora a análise de amostras de pólen fossilizado revele que há 7 mil anos já havia cajueiros na região. Não significa, porém, que estivessem constantemente em todos os lugares, pode ter havido variação na abundância dessa árvore.

O trabalho – dos macacos no manejo das pedras e das pessoas que os estudam – continua, e Falótico divide seu tempo de trabalho de campo entre as escavações e a observação do comportamento atual. “Gosto mais de seguir os macacos do que de ficar agachado cavando”, confessa. Ele tem se concentrado em estudar os padrões das lascas obtidas pela quebra das pedras batidas umas contra as outras, que alguns anos atrás se mostraram indistinguíveis daquelas produzidas pelos homens das cavernas. A região, onde registros da ocupação humana podem estar entre os mais antigos do continente, ainda parece ter muito a revelar sobre as atividades de pessoas e macacos ao longo de milhares de anos.
Jovem macho esmaga uma frutinha de grão-de-galo (Cordia rufescens)Tiago Falótico / USP

“Pode haver sítios ainda não encontrados relacionados a primatas”, diz a arqueóloga Mercedes Okumura, do Instituto de Biociências da USP, que não tem conhecimento de outro sítio comparável em termos de documentação de arqueologia envolvendo tanto seres humanos como outros primatas. Ela é coautora de um artigo publicado em 2018 na revista Quaternaire que descreve a formação das camadas arqueológicas do boqueirão da Pedra Furada, no Parque Nacional da Serra da Capivara, levando em conta as contribuições de pessoas e macacos (contou para isso com acesso aos dados do grupo de Falótico). 

Entre os achados das escavações é difícil dizer quem produziu as lascas mais simples, ela conta, mas atribui com segurança a seres humanos estruturas mais complexas de pedra lascada. Ela vê como frutífera a relação com os arqueólogos-primatólogos. “Me refiro realmente a uma via de mão dupla: quem faz arqueologia ‘humana’ pode aprender muito também ao estudar esses casos relacionados a outros primatas.”

Projetos
 
1. Uso de ferramentas por macacos-prego (Sapajus libidinosus) selvagens: ecologia, aprendizagem socialmente mediada e tradições comportamentais (nº 2014/04818-0); Modalidade Auxílio à Pesquisa — Temático; Pesquisador responsável Eduardo Benedicto Ottoni (USP); Investimento R$ 611.005,29.

2. Uso de ferramentas por macacos-prego: aprendizagem e tradição (nº 2013/05219-0); Modalidade Bolsa de pós-doutorado; Pesquisador responsável Eduardo Benedicto Ottoni (USP); Beneficiário Tiago Falótico; Investimento R$ 423.450,88.

Artigos científicos

FALÓTICO, T. et al. Three thousand years of wild capuchin stone tool use. Nature Ecology & Evolution. on-line. 26 jun. 2019.

PARENTI, F. et al. Genesis and taphonomy of the archaeological layers of Pedra Furada rock-shelter, Brazil. Quaternaire. v. 29, n. 3, p. 255-69. nov. 2018.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Macacos-prego produzem pedras afiadas semelhantes a ferramentas

20 de outubro de 2016


Elton Alisson  |  Agência FAPESP – Além de usar pedras para diversas finalidades, como quebrar frutos e, dessa forma, conseguir extrair a parte comestível, os macacos-prego da espécie Sapajus libidinosus encontrados no Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, costumam bater uma pedra contra a outra, presa a uma rocha, com força e repetidamente, a fim de quebrá-la. Ao conseguirem isso, os animais lambem e cheiram o pó de quartzo resultante da fragmentação do mineral.
Esse comportamento dos macacos-prego gera, às vezes, lascas de pedra afiadas e conchoidais, com superfícies lisas e curvas, semelhantes à superfície interna de uma concha marinha – resultantes de múltiplas percussões (batidas) –, que caem no chão e não são usadas pelos animais.
Macacos-prego produzem pedras afiadas semelhantes a ferramentas Fragmentos de pedras gerados acidentalmente pelos primatas no Parque Nacional da Serra da Capivara são parecidos com instrumentos talhados em rochas pelos ancestrais humanos há 2,6 milhões de anos, constata estudo (imagem: M.Haslam e T. Proffitt / Primate Archaeology Group - Oxford University) 
 
 
Ao analisar mais detidamente essas lascas de pedra produzidas inadvertidamente pelos macacos-prego, pesquisadores do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP), em colaboração com colegas da Faculdade de Arqueologia da University of Oxford e da University College London, da Inglaterra, constataram que algumas delas são muito semelhantes a ferramentas líticas talhadas em rochas pelos ancestrais dos humanos (hominídeos) durante o período Paleolítico ou da pedra lascada, há 2,6 milhões de anos a.C.
A pesquisa se desenvolveu com apoio da FAPESP no âmbito do Projeto Temático "Uso de ferramentas por macacos-prego (Sapajus libidinosus) selvagens", coordenado pelo professor Eduardo Ottoni.

Os resultados do estudo foram publicados nesta quarta-feira (19/09) na edição on-line da revista Nature.
"Constatamos que algumas lascas de pedra produzidas acidentalmente pelos macacos-prego são muito parecidas com as ferramentas líticas olduvaienses", disse Tiago Falótico, pós-doutorando no Instituto de Psicologia da USP e um dos autores do estudo, à Agência FAPESP.
As ferramentas olduvaienses são assim chamadas por terem sido encontradas em meados do século XX na região da Garganta de Olduvai, na Tânzania. São consideradas como algumas das mais antigas ferramentas de pedra lascada, com até 2,6 milhões de anos de idade, e atribuídas aos Homo habilis – um dos primeiros representantes do gênero Homo, que inclui os humanos modernos.

Falótico, que realiza pós-doutorado com Bolsa da FAPESP, e seu orientador, o professor Eduardo Ottoni, estudam há tempos o comportamento de macacos-prego e, especificamente, o uso de ferramentas por esses primatas da espécie Sapajus libidinosos no Parque Nacional da Serra da Capivara.
Durante seus estudos, eles observaram os animais baterem pedras e depois cheirar e lamber o pó de quartzo restante da fragmentação. Mas ainda não conseguiram identificar por que fazem isso.

“Nossas observações sugerem que os macacos podem estar ingerindo o pó de quartzo ou líquens que estão sobre as pedras, uma vez que as pedras em si só têm sílica”, afirmou Falótico.
O pesquisador começou ainda durante o seu doutorado, também realizado com Bolsa da FAPESP e sob a orientação de Ottoni, a coletar as pedras batidas pelos animais – incluindo as que usaram como martelo e os fragmentos desprendidos da rocha.
Os fragmentos de pedra, juntamente com material arqueológico obtido por ele e Ottoni nos últimos anos durante escavações para um estudo sobre arqueologia primata, integrante do Temático apoiado pela FAPESP, foram analisados pelo arqueólogo Tomos Proffitt, pesquisador da Faculdade de Arqueologia da University of Oxford e especialista em ferramentas líticas olduvaienses, e Michael Haslam, pesquisador do Instituto de Arqueologia da University College London, associados ao projeto.
Os resultados das análises indicaram que as lascas de pedras produzidas involuntariamente pelos macacos-prego têm todas as características e formas das ferramentas líticas produzidas deliberadamente pelos hominídeos.
As lascas de pedras apresentam formato conchoidal, com diferentes graus de dano por percussão (batida) e pequenos pontos de impacto, cercados por cicatrizes circulares ou crescentes, e bordas afiadas.

“Os paleoantropólogos [que combinam conhecimentos da paleontologia e da antropologia para estudar fósseis de hominídeos, assim como as evidências deixadas por eles] usam essas características de lascas de pedra afiadas tanto para distingui-las das pedras naturalmente quebradas, como para atribuí-las aos hominídeos, que produziam pedras com essas formas intencionalmente para usá-las como ferramentas”, disse Falótico.
Uma vez que as lascas de pedra produzidas acidentalmente pelos macacos-prego são muito semelhantes às ferramentas líticas feitas deliberadamente pelos hominídeos, os pesquisadores chamam atenção para o fato de que, se encontradas isoladamente fora de um sítio arqueológico hominídeo, esse material poderia ser confundido com artefatos líticos produzidos pelos ancestrais dos humanos.

“Quando lascas de pedra afiadas são encontradas em um sítio arqueológico geralmente é mais fácil atribuí-las como sendo ferramentas líticas produzidas intencionalmente por hominídeos, porque, geralmente, há muitos núcleos de pedra e indícios de ocupação humana, como fogueiras”, avaliou Falótico. “Mas, quando encontradas isoladamente e se os registros arqueológicos são mais esparsos, eventualmente podem ter sido produzidas não necessariamente pelos ancestrais humanos”, ponderou.

Percussão com pedra 

De acordo com os pesquisadores, já existiam outros registros de primatas que batem pedras e, ao fazer isso, podem produzir acidentalmente fragmentos semelhantes a ferramentas líticas.
Em 2007, um grupo de pesquisadores do Canadá, Alemanha, Reino Unido e Estados Unidos identificou, com base em evidências coletadas no único assentamento pré-histórico de chimpanzés conhecido no mundo – situado na selva tropical úmida de Tai, na Costa do Marfim –, que chimpanzés do oeste africano (Pan troglodytes verus) usavam instrumentos de pedra há 4,3 mil anos para quebrar frutas secas.
Os fragmentos de pedra produzidos pelos chimpanzés ao bater uma pedra contra a outra, contudo, não tinham as características dos produzidos intencionalmente pelos hominídeos.
“Ao tentar quebrar um coco com uma pedra, por exemplo, os animais acabavam acertando acidentalmente a pedra colocada debaixo do fruto, usada como bigorna”, explicou Ottoni.
Segundo o pesquisador, outras espécies de macacos, como o macaco cinomolgo (Macaca fascicularis) e o macaco-japonês (Macaca fuscata) também batem pedras. Mas o macaco-prego é o único observado até o momento que bate pedra com a finalidade de danificar outra, apontaram.

“A população de macacos-prego que estudamos na Serra da Capivara tem um repertório de uso de ferramentas não só de pedra, mas também de madeira, por exemplo, mais complexo do que qualquer primata”, comparou Ottoni.

“Além de usar ferramentas líticas percussivas, como pedras, para quebrar castanha-de-caju e coco, por exemplo e, como observamos agora, para danificar outra pedra, eles também usam varetas feitas de galhos de árvores como sondas para tirar lagartos ou insetos de suas tocas e se alimentar”, afirmou.
O vídeo dos macacos-prego batendo pedras pode ser visto em www.youtube.com/watch?v=bIdnj5uWpPA&feature=youtu.be.

E o artigo “Wild monkeys flake stone tools” (doi: 10.1038/nature20112), de Proffitt, Luncz, Falótico, Ottoni, la Torre e Haslam, pode ser lido por assinantes da revista Nature em www.nature.com/nature/journal/vaop/ncurrent/full/nature20112.html
 

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Pedras afiadas sugerem povoamento de mais de 20 mil anos no Piauí

Do UOL, em São Paulo

  • Reprodução/E. Boëda Et Al/Antiquity
Novas descobertas apontam que pessoas que habitavam a América do Sul antes da cultura Clovis, ancestrais dos indígenas, povoaram o nordeste brasileiro há mais de 20 mil anos. Dois conjuntos simples de ferramentas de pedras escavadas na base de uma encosta rochosa no Piauí foram feitas por pequenos grupos de colonos, que viveram há cerca de 24 mil anos, e outro de cerca de 15 mil anos, dizem os pesquisadores.

O antigo sítio Vale da Pedra Furada, no Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, encontra-se perto de outros campos da era pré-Clovis, segundo uma equipe liderada pelo arqueólogo Eric Boëda da Universidade de Paris. Marcas microscópicas em 294 pedras escavadas indicam que os seres humanos tinham afiado as rochas. As datações por radiocarbono da madeira queimada e análises de solo determinaram a idade das pedras. As novas descobertas desafiam a visão de longa data entre os arqueólogos que as pessoas da cultura Clovis foram as primeiras a se estabelecerem nas Américas.

Se as novas datas se mantiverem, produtores de ferramentas semelhantes a cultura Clovis se encontravam na América do Sul antes de 20 mil anos atrás, de acordo com o arqueólogo Kjel Knutsson da Universidade da Suécia. Mas as pedras afiadas podem ter sido criadas por eventos naturais, como deslizamentos de rochas, ou deslocadas para o solo há 24 mil anos a partir de camadas de sedimentos mais jovens, ponderam os arqueólogos brasileiros Adriana Schmidt Dias, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e Lucas Bueno, da Universidade Federal de Santa Catarina. (Com Science News)