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sexta-feira, 7 de junho de 2019

Ascendência genética Paleo-Esquimó e o povoamento de Chukotka e da América do Norte

Abstrato

Grande parte do Ártico americano foi estabelecido pela primeira vez há 5.000 anos, por grupos de pessoas conhecidas como paleo-esquimós. Eles foram posteriormente unidos e largamente deslocados cerca de 1.000 anos atrás pelos ancestrais dos atuais Inuit e Yup'ik 1 , 2 , 3 . A relação genética entre paleo-esquimós e nativos americanos, inuítes, yupik e aleutas permanece incerta 4 , 5 , 6 .  

Aqui apresentamos dados genômicos para 48 indivíduos antigos de Chukotka, da Sibéria Oriental, das Ilhas Aleutas, do Alasca e do Ártico canadense. Nós co-analisamos esses dados com dados das populações atuais do Iñupiat do Alasca e do oeste da Sibéria e publicamos genomas. 

 Utilizando métodos baseados no compartilhamento de alelos raros e haplótipos, bem como em técnicas estabelecidas 4 , 7 , 8 , 9 , mostramos que a ancestralidade relacionada ao paleo-esquimó é onipresente entre as pessoas que falam línguas Na-Dene e Eskimo-Aleut.

Desenvolvemos um modelo abrangente para os eventos Holopénicos de povoamento de Chukotka e da América do Norte e mostramos que os povos falantes de Na-Dene, as Ilhas Aleutas, os Yup'ik e os Inuit em toda a região ártica compartilham ancestralidade de um único Paleo. Fonte siberiana relacionada ao esquimó.

A nova face de Luzia e do povo de Lagoa Santa

08 de novembro de 2018


Peter Moon  |  Agência FAPESP – A história do povoamento das Américas acaba de ganhar uma nova interpretação. O maior e mais abrangente estudo já feito a partir de DNA fóssil, extraído dos mais antigos restos humanos achados no continente, confirmou a existência de um único contingente populacional ancestral de todas as etnias ameríndias, passadas e presentes. 

A nova face de Luzia e do povo de Lagoa Santa Trabalho de 72 pesquisadores de oito países conclui que o povo de Lagoa Santa descende dos migrantes da cultura Clóvis, da América do Norte. Fisionomia marcadamente africana atribuída à Luzia estava incorreta (imagens: André Strauss e Caroline Wilkinson)

Há mais de 17 mil anos, os membros daquele contingente original cruzaram o estreito de Bering, da Sibéria para o Alasca, para então povoar o Novo Mundo. O DNA fóssil indica que os integrantes daquela corrente migratória tinham afinidade com os povos da Sibéria e do norte da China, ou seja, não possuíam DNA africano ou da Australásia, como indicava a teoria tradicional.
Uma vez na América do Norte, é o que revela o novo estudo, os descendentes daquela corrente migratória ancestral se diversificaram em duas linhagens há cerca de 16 mil anos. Os membros de uma das linhagens cruzaram o istmo do Panamá e povoaram a América do Sul em três levas consecutivas e distintas. 

A primeira dessas levas ocorreu entre 15 mil e 11 mil anos atrás e a segunda se deu há no máximo 9 mil anos. Há registros do DNA fóssil de ambas as migrações em todo o continente sul-americano. Uma terceira leva é bem mais recente e de influência restrita, pois se deu há 4,2 mil anos, e seus membros se fixaram nos Andes centrais.

O estudo foi publicado na revista Cell por um grupo de 72 pesquisadores de oito países,  pertencentes a instituições como a Universidade de São Paulo (USP), a Harvard University, nos Estados Unidos, e o Instituto Max Planck, na Alemanha.
Os resultados da pesquisa sugerem que, na linhagem de humanos a executar o trajeto norte-sul entre 16 mil e 15 mil anos atrás, seus membros pertenciam à chamada cultura Clóvis, o nome dado a um conjunto de sítios arqueológicos que têm entre 13,5 mil e 11 mil anos, todos situados no oeste dos Estados Unidos. 
Clóvis é o nome da pequena cidade no Novo México onde foram descobertas, nos anos 1930, as primeiras pontas de flecha de pedra lascada cujo formato se tornou um identificador da cultura homônima. Na América do Norte, a cultura Clóvis está associada à caça da megafauna pleistocênica, como preguiças gigantes e mamutes. 
Com o declínio e a extinção da megafauna, há 11 mil anos, aquela cultura eventualmente desapareceu. Muito antes disso, entretanto, bandos de caçadores-coletores, ao explorar novas áreas de caça cada vez mais ao sul, eventualmente acabaram por ocupar a América Central, como comprova o DNA fóssil de 9,4 mil anos de um humano de Belize analisado no novo estudo. 

Posteriormente, talvez em perseguição a manadas de mastodontes, bandos de caçadores-coletores Clóvis cruzaram o istmo do Panamá para invadir e se espalhar pela América do Sul, como evidenciam os registros genéticos de enterramentos humanos no Brasil e no Chile agora revelados. Tal evidência genética vem corroborar evidências arqueológicas conhecidas, como o sítio Monte Verde, no sul do Chile, onde humanos esquartejavam mastodontes há 14,8 mil anos.
Entre os diversos sítios Clóvis conhecidos, o único enterramento humano associado às ferramentas da cultura fica no estado de Montana. Lá foram achados os restos de um menino – apelidado de Anzick-1 – com cerca de 12,6 mil anos. O DNA extraído de seus ossos está relacionado ao DNA dos esqueletos do povo de Lagoa Santa, um grupo de humanos antigos que habitou o Brasil central – mais especificamente as grutas no entorno de Lagoa Santa (MG) – entre 10 mil e 9 mil anos atrás. Em outras palavras, o povo de Lagoa Santa descende em parte dos migrantes da cultura Clóvis da América do Norte. 

"Do ponto de vista genético, o povo de Lagoa Santa descende dos primeiros ameríndios”, disse o arqueólogo André Menezes Strauss, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP, que coordenou a parte brasileira do trabalho. 
"Surpreendentemente, os membros daquela primeira linhagem de sul-americanos não deixaram descendência identificável entre os povos ameríndios atuais. Em torno de 9 mil anos atrás, seu DNA desapareceu completamente das amostras fósseis. Foi substituído pelo DNA da primeira leva migratória, anterior à cultura Clóvis, da qual descendem todos os ameríndios vivos. Ainda não sabemos os motivos que levaram ao desaparecimento do estoque genético do povo de Lagoa Santa", disse. 

Uma possibilidade para o sumiço do DNA da segunda migração, encontrado no DNA do povo de Lagoa Santa, é que tenha se diluído em meio ao DNA dos ameríndios descendentes dos integrantes da primeira leva populacional, tornando-se não identificável pelos métodos atuais da pesquisa genética. 

De acordo com a geneticista Tábita Hünemeier, do Instituto de Biociências (IB) da USP, que participou da pesquisa, "um dos principais resultados do trabalho foi a identificação do povo de Luzia como sendo uma população geneticamente relacionada à cultura Clóvis, o que desfaz a ideia dos dois componentes biológicos, da possibilidade de ter havido duas migrações para as Américas, uma com traços mais africanos e a outra com traços mais asiáticos”. 

"O povo de Luzia seria resultado de uma leva populacional originária da Beríngia", disse, referindo-se à ponte de terra hoje submersa que, durante a era do gelo, quando o nível dos mares era muito mais baixo, ligava a Sibéria ao Alasca.

"De 9 mil anos para cá, os dados moleculares sugerem que houve uma substituição populacional na América do Sul. Os membros do povo de Luzia desapareceram, sendo substituídos pelos ameríndios atuais, muito embora ambos tenham tido uma origem comum, na Beríngia", disse Hünemeier.

Contribuição brasileira

O trabalho dos pesquisadores brasileiros contribuiu de forma fundamental para o estudo. Entre 49 indivíduos dos quais se extraiu DNA fóssil, sete esqueletos com idades entre 10,1 mil e 9,1 mil anos são provenientes da Lapa do Santo, um abrigo rochoso em Lagoa Santa. 
Aqueles sete esqueletos, ao lado de dezenas de outros, foram achados e desenterrados em campanhas arqueológicas sucessivas no local, lideradas primeiramente pelo antropólogo físico Walter Alves Neves, do IB-USP, e desde 2011 por Strauss. As campanhas arqueológicas movidas por Neves entre 2002 e 2008 foram financiadas pela FAPESP.

Ao todo, o novo estudo investigou o DNA fóssil de 49 indivíduos, provenientes de 15 sítios arqueológicos situados na Argentina (2 sítios, 11 indivíduos com idades entre 8,9 mil e 6,6 mil anos), Belize (1 sítio, 3 indivíduos, idades entre 9,4 mil e 7,3 mil anos), Brasil (4 sítios, 15 indivíduos, idades entre 10,1 mil e 1 mil anos), Chile (3 sítios, 5 indivíduos, idades entre 11,1 mil e 540 anos) e Peru (7 sítios, 15 indivíduos, idades entre 10,1 mil e 730 anos).

Os esqueletos brasileiros são provenientes dos sítios arqueológicos Lapa do Santo (7 indivíduos com cerca de 9,6 mil anos), do sambaqui Jabuticabeira 2 (5 indivíduos com cerca de 2 mil anos), que fica em Santa Catarina, e de dois sambaquis fluviais do Vale do Ribeira, no estado de São Paulo: Laranjal (2 indivíduos com cerca de 6,7 mil anos) e Moraes (1 indivíduo com cerca de 5,8 mil anos).
O arqueólogo Paulo Antônio Dantas de Blasis, do MAE-USP, foi o responsável pelo trabalho arqueológico no sambaqui Jabuticabeira 2, que também teve apoio da FAPESP por meio de um Projeto Temático.

As pesquisas nos sambaquis fluviais paulistas ficaram sob a responsabilidade do arqueólogo Levy Figuti, do MAE-USP, também com apoio da FAPESP
“O esqueleto de Moraes (5,8 mil anos) e o de Laranjal (6,7 mil anos) estão entre os mais antigos do Sul-Sudeste brasileiros. Eles apresentam uma situação estrategicamente singular ao estar entre o planalto e a costa, contribuindo significativamente para a compreensão do processo de povoamento da região Sudeste do Brasil”, disse Figuti. 

Esses esqueletos foram encontrados entre 2000 e 2005. Desde o início, representavam uma questão complexa, com mistura de características culturais interioranas e costeiras, e com análises sobre os esqueletos geralmente com resultados variados, exceto em um esqueleto, que foi diagnosticado como paleoíndio (ele ainda não teve sua análise de DNA completada).

“O estudo agora publicado representa um grande avanço na pesquisa arqueológica, aumentando exponencialmente o que sabíamos há poucos anos sobre a arqueogenética do povoamento da América”, disse Figuti. Mais recentemente, destaca-se a contribuição para a reconstrução da história humana na América do Sul por meio da paleogenômica, realizada por Hünemeier.

Genética ameríndia

Nem todos os restos humanos fósseis achados em alguns dos mais antigos sítios arqueológicos das Américas Central e do Sul pertencem a indivíduos geneticamente descendentes da cultura Clóvis. Há diversos sítios cujos habitantes não tinham o DNA associado à Clóvis.
"Isso mostra que, além da contribuição genética, a segunda leva migratória para a América do Sul, e que era relacionada à Clóvis, possivelmente também trouxe consigo princípios tecnológicos que seriam expressos nas famosas pontas rabo de peixe que são encontradas em grande parte da América do Sul", disse Strauss.

Até agora não se sabia quantas correntes migratórias humanas originárias da Ásia teriam adentrado as Américas no final da era do gelo, há mais de 16 mil anos. A teoria tradicional, formulada nos anos 1980 por Walter Neves e outros pesquisadores, dava conta de que teria havido uma primeira leva de humanos, cujos membros possuíam características africanas ou semelhantes aos aborígenes da Austrália. 

Foi de acordo com essa hipótese que se modelou a famosa reconstrução facial de Luzia, nome dado ao crânio de uma mulher que viveu em Lagoa Santa há 12.500 anos e, por isso, carinhosamente chamada de “a primeira brasileira”. 

O busto de Luzia com feições africanas foi composto a partir da morfologia de seu crânio, em trabalho realizado pelo especialista britânico Richard Neave, na década de 1990.
"Entretanto, a forma do crânio não é um marcador confiável de ancestralidade ou de origem geográfica. A genética, por outro lado, é a técnica que se presta por excelência a esse tipo de inferência", disse Strauss.

"Os resultados genéticos do novo estudo mostram de forma categórica que não existiu nenhuma conexão significativa entre as populações de Lagoa Santa e grupos da África ou da Austrália. Portanto, a hipótese de que o povo de Luzia representaria uma leva migratória anterior aos ancestrais dos indígenas atuais não se confirma. Pelo contrário, o DNA mostra que o povo de Luzia tem genética totalmente ameríndia”, disse. 

Um novo busto substitui o de Luzia no panteão científico brasileiro. Caroline Wilkinson, da Liverpool John Moores University, na Inglaterra, especialista em reconstrução forense e discípula de Richard Neave, realizou a reconstrução facial de um dos indivíduos desenterrados na Lapa do Santo. O trabalho foi feito a partir do modelo digital retrodeformado do crânio.

"Por mais acostumados que estejamos com a tradicional reconstrução facial de Luzia, com traços fortemente africanos, essa nova reconstrução facial reflete de forma muito mais precisa a fisionomia dos primeiros habitantes do Brasil, apresentando traços generalizados e indistintos a partir dos quais, ao longo dos milhares de anos, a grande diversidade ameríndia se estabeleceu”, disse Strauss.
O arqueólogo explica que o estudo publicado na Cell também apresenta os primeiros dados genéticos para os sambaquis da costa brasileira. 

"Esses monumentais montes de conchas foram construídos há cerca de 2 mil anos por sociedades populosas que ocupavam a faixa costeira do Brasil. O estudo do DNA fóssil de esqueletos enterrados nos sambaquis de Santa Catarina e de São Paulo mostra que esses grupos têm uma relação de proximidade genética com os indígenas atuais do Sul do Brasil, especialmente os grupos Kaingang”, disse. 

Segundo Strauss, a extração do DNA fóssil encontra muitos desafios técnicos, especialmente para material encontrado em clima tropical. A fragmentação extrema e a alta incidência de contaminação fizeram com que durante quase duas décadas diferentes grupos de pesquisas tentassem sem sucesso extrair o material genético dos ossos de Lagoa Santa. 
Foi graças a avanços metodológicos desenvolvidos pelo Instituto Max Planck que agora foi possível realizar a extração de DNA do povo de Lagoa Santa. E a depender do entusiasmo com que Strauss fala de sua pesquisa, ainda há muito por descobrir. 

"A partir de 2019, terá início a construção do primeiro laboratório de Arqueogenética do Brasil, uma parceria na USP entre MAE e IB, com financiamento da FAPESP. Quando estiver pronto, dará novo impulso às pesquisas sobre o povoamento da América do Sul e do Brasil", disse Strauss.  

"De certo modo, este trabalho muda não somente o que sabíamos sobre o povoamento, mas também muda consideravelmente o modo como estudar os restos esqueletais humanos”, disse Figuti.
Os primeiros restos humanos de Lagoa Santa, cerca de 30 esqueletos, foram encontrados em 1844, no fundo de uma gruta inundada, pelo naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund (1801-1880). Quase todos esses fósseis se encontram hoje no Museu de História Natural de Copenhagen, na Dinamarca. Um único crânio ficou no Brasil, doado por Lund ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, no Rio de Janeiro.

Povoamento aos saltos

No mesmo dia em que foi publicado o artigo na Cell (08/11), outro trabalho foi divulgado na revista Science, igualmente versando sobre DNA fóssil e as primeiras migrações humanas pelo continente americano. André Strauss é um dos autores.

Entre os 15 esqueletos antigos dos quais foi coletado material genético, cinco pertencem à Coleção Lund, de Copenhagen. Suas idades situam-se entre 10,4 mil e 9,8 mil anos. São os mais antigos da amostra, ao lado de um indivíduo de Nevada, com 10,7 mil anos. 

A amostra reúne material fóssil de restos humanos antigos achados no Alasca, Canadá, Brasil, Chile e Argentina. O resultado da investigação molecular sugere que o povoamento das Américas pelos primeiros grupos humanos vindos do Alasca não foi simplesmente um movimento de ocupação gradual do território simultâneo à expansão populacional. 

Segundo os pesquisadores responsáveis pelo estudo, os dados moleculares sugerem que os primeiros humanos a invadir o Alasca, ou então o vizinho Yukon, dividiram-se em dois grupos. Isso ocorreu entre 17,5 mil e 14,6 mil anos atrás. Um grupo colonizaria a América do Norte e a América Central. O outro dominaria a América do Sul.

A seguir, a ocupação das Américas teria ocorrido de forma rápida e aos saltos, com pequenos bandos de caçadores-coletores percorrendo grandes distâncias para se fixarem em novos ambientes até atingirem a Terra do Fogo. Todo esse movimento durou um ou no máximo dois milênios.
Entre os 15 indivíduos que tiveram seu DNA analisado, três dos cinco de Lagoa Santa guardam em seu material genético traços de DNA da Australásia – como sugere a teoria da ocupação da América do Sul defendida por Walter Neves. Os pesquisadores não sabem explicar a origem daquele DNA australásio e como ele foi parar apenas e tão somente em alguns indivíduos de Lagoa Santa. 
"O fato de a assinatura genômica da Australásia estar presente há 10,4 mil anos no Brasil, mas ausente em todos os genomas testados até hoje, tão antigos ou mais antigos, e achados mais ao norte, apresenta um desafio ao considerar sua presença em Lagoa Santa”, disseram. 

Para Strauss, a existência desse traço de DNA australásio é difícil de explicar. "O componente australásio nos três indivíduos de Lagoa Santa é quase negligenciável. É menos de 2% do DNA amostrado. No momento, é muito difícil dizer qual a sua origem”, disse. 

Ao longo do século 20, outros fósseis foram coletados, entre eles o crânio de Luzia, nos anos 1970. Quase uma centena de crânios escavados por Neves e Strauss nos últimos 15 anos se encontram atualmente na USP. Outros tantos fósseis estão guardados na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. 

Mas a grande maioria dessas preciosidades osteológicas e arqueológicas, talvez mais de 100 indivíduos, estava depositada no Museu Nacional, e foi presumivelmente consumida no incêndio que devastou aquela instituição em 2 de setembro.
O crânio de Luzia estava exposto no Museu Nacional ao lado do busto com suas feições feito por Neave. Temia-se que o crânio tivesse sido destruído no incêndio, mas felizmente foi uma das primeiras peças do museu recuperadas dos escombros. Mesmo que fragmentado, o crânio de Luzia sobreviveu. Já o busto original (do qual há várias cópias), esse se perdeu no fogo.

O artigo Reconstructing the Deep Population History of Central and South America, de Cosimo Posth, André Strauss e outros, pode ser lido em: www.cell.com/cell/fulltext/S0092-8674(18)31380-1.

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terça-feira, 30 de abril de 2019

Ossada encontrada na Floresta Amazônica sugere povoamento da região há 10 mil anos

Postado em abr 29 2019 - 4:39pm por Jornal da Chapada
Para especialistas, os registros descobertos mudam a visão sobre os primórdios da agricultura no mundo | FOTO: Divulgação/Penn State University.

Uma ossada de 6,3 mil anos foi descoberta na Isla del Tesoro, na região boliviana de Llanos de Moxos, que faz parte da Floresta Amazônica. O achado sugere que a origem dos assentamentos no local pode ter cerca de 10 mil anos. “Até onde eu sei, esses são os restos mortais mais antigos documentados no sudoeste da Amazônia”, diz José Capriles, principal autor do estudo e professor assistente de antropologia na Pennsylvania State University, ao Smithsonian. A descoberta surpreendeu, já que é extremamente raro encontrar restos mortais do período anterior ao desenvolvimento da cerâmica na região. 

Isso porque o solo ácido e o clima tropical dificultam a preservação de corpos humanos ou artefatos. Particularmente nesse caso, a abundância de carbonato de cálcio das diversas conchas e cascas presentes na região ajudou na preservação da ossada. A descoberta sugere que caçadores ocuparam a área muito antes do que os especialistas acreditavam: “Esses locais podem representar algumas das primeiras formas de trabalho na terra na região”, afirma Bronwen Whitney, geógrafo da Northumbria University, que não participou do novo estudo.

Llanos de Moxos
 
A Llanos de Moxos, uma savana tropical no norte da Bolívia, atrai arqueólogos porque as sociedades agrícolas da região eram bem desenvolvidas há 2,5 mil anos: os habitantes desenvolveram campos elevados, estradas e até canais hídricos. O geógrafo e coautor do estudo, Umberto Lombardo, diz que ficou particularmente intrigado com as ilhas encontradas no meio da floresta: “Quando pesquisei pela primeira vez a Isla del Tesoro em 2007, fiquei completamente perdido. (…) Só depois da análise laboratorial comecei a perceber que essas ilhas não eram apenas antropogênicos, mas, na verdade, muito mais antigas do que qualquer outro vestígio arqueológico conhecido em toda a região”.

O local começou a ser pesquisado há cerca de uma década, mas as primeiras descobertas foram publicadas apenas em meados de 2013. Os especialistas já haviam encontrado outros túmulos, mas nenhum tão antigo quanto o da descoberta mais recente. 

A presença de sociedades na região também foi um achado inusitado, considerando suas condições climáticas. Por isso os cientistas acreditam que no período de chuvas, quando parte da floresta inundava, as pessoas acampavam nas ilhas da floresta, e sobreviviam com o consumo de caracóis, enguias, bagres e outras criaturas aquáticas.

Lombardo teoriza que, com o depósito de lixo orgânico e a ocupação da região, o nível do solo subiu e ele passou por um processo de terraplanagem: “Esses dois processos tornaram esse local coberto por florestas, fornecendo sombra e materiais de construção. Além disso, tornou-se elevado e permaneceu acima do nível da água durante a cheia sazonal. Basicamente, quanto mais o local estava ocupado, melhor se tornaria para ocupação adicional”, relata o geógrafo.
Para a equipe, alguns dos comportamentos observados nas ilhas florestais de Llanos de Moxos poderiam até ter criado as bases para a agricultura | FOTO: Divulgação/Penn State University |

Agricultura
 
Umberto Lombardo também defende que o estudo prova o desenvolvimento da agricultura em diversas partes do mundo ao mesmo tempo, não só no Crescente Fértil, no Oriente Médio. Ainda de acordo com o especialista, por conta de evidências genéticas, muitos estudiosos consideram que o sudoeste da Amazônia foi um dos primeiros centros de domesticação de plantas na América do Sul. A região seria um núcleo para culturas como mandioca, batata-doce, arroz selvagem, pimenta e amendoim.

Para a equipe, alguns dos comportamentos observados nas ilhas florestais de Llanos de Moxos poderiam até ter criado as bases para a agricultura. Por exemplo, o aumento do consumo de alimentos de baixo retorno, como os caracóis, sugere que alguns recursos alimentares tenham começado a acabar. Os enterros também podem ser um sinal de aumento da territorialidade e diminuição da mobilidade, levando ao início das experimentações com a agricultura. Extraído da Revista Galileu com informações de Smithsonian.

domingo, 21 de abril de 2019

Geneticista afirma: Povo de Luzia veio da América do Norte

O geneticista Nathan Nakatsuka conta como suas descobertas mudam o que sabemos sobre o povoamento da América do Sul e os ancestrais dos índios

Alana Sousa Publicado em 07/02/2019, às 17h00 - Atualizado às 17h13
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A descoberta utilizou também de análise de DNA para sua conclusão
Getty Images
A questão de como os seres humanos colonizaram a América gera controvérsias há décadas. Enquanto a teoria mais aceita é de que vieram há 14 mil anos pelo estreito de Bering, uma outra hipótese, defendida principalmente no Brasil, defende que os humanos já habitavam estas terras há 36 mil anos e a migração asiática, da qual descendem os índios atuais, veio depois.

Parte dessa hipótese é de que Luzia, fóssil humano mais antigo encontrado na América do Sul, com cerca 13 mil anos, é originada de migrações vindas da Austrália ou da África . Agora, um estudo que reuniu importantes estudiosos pretende mostrar que, na verdade, a origem dos povos da América Central e do Sul vem da “Civilização de Clóvis”, uma cultura que originou os índios nativos da América do Norte e que serve como principal prova da hipótese asiática.
Lapa do Santo Reprodução

Cultura Clóvis

A civilização de Clóvis foi chamada assim por causa de “pontas de lança” encontradas perto da cidade de Clóvis (Novo México). Esses artefatos eram usados para caçar mamutes. A tese tradicional é que o povo de Clóvis consistiu nos primeiros habitantes do Novo Mundo.

Um dos principais autores do estudo, Nathan Nakatsuka, aluno de doutorado no David Reich - Laboratório da Escola Médica de Harvard, conversou com a AH sobre as recentes descobertas. “Acreditava-se que a cultura de Clóvis fosse restrita apenas à América do Norte. Nosso estudo mostrou que a ancestralidade genética do povo chegou até a América do Sul”, conta o autor.

O estudo

O estudo usou de amostras do sítio da Lapa do Santo, um dos maiores do Brasil, para provar que os indivíduos vindos de lá não são geneticamente relacionados a qualquer grupo de fora da América. Sobre a possibilidade do sítio de Lagoa Santa, local onde o fóssil de Luzia foi encontrado, ter uma semelhança genética com a Lapa do Santo, Nakatsuka diz: “Os indivíduos da Lapa do Santo e, provavelmente, também os indivíduos de Lagoa Santa tinham afinidade genética com o indivíduo associado à cultura Clovis. Ainda não podemos ter certeza, pois não temos o DNA de Luzia. Se ela está relacionada com os indivíduos da Lapa do Santo, então seria verdade que ela tem uma relação genética mais próxima com o indivíduo Anzick-1 associado à cultura Clovis”.

Seria então Luzia uma descendente da cultura Clovis? Essa hipótese foi levantada e descartada por arqueólogos algumas vezes, há ainda muitas lacunas a serem preenchidas, para afirmar que Luzia está ligada ao grupo da Lapa do Santo, os arqueólogos precisariam saber a rota exata da chegada das primeiras pessoas ao Brasil.
Lagoa SantaReprodução
A pesquisa de Nathan Nakatsuka tem uma grande importância para o mundo arqueológico, como o autor nos conta, foi primeira vez que algumas das pessoas iniciais na América Central e na América do Sul tinham uma afinidade distinta com o indivíduo Anzick-1, da cultura Clóvis: “Fornecemos mais evidências de que as pessoas iniciais que entravam na América do Sul irradiavam rapidamente, elas eram caçadores-coletores, provavelmente se separando rapidamente em busca de novas fontes de alimento”. E complementa que foi possível observar que o povoamento da América do Sul foi muito complexo: “As pessoas provavelmente eram muito inovadoras, adaptando-se rapidamente a novos ambientes para conseguir comida e sobreviver em condições muito diferentes”.

Um grande aliado dos estudiosos nessa descoberta foi o avanço tecnológico, que em ambientes difíceis se torna essencial, permitindo analisar dados para determinar as mudanças biológicas que aconteceram ao longo do tempo e começar a colher melhores amostras de regiões com condições ambientais extremas.

“Estamos procurando amostras de novos lugares e diferentes períodos de tempo na América do Sul, como Caribe, Colômbia, outras partes e períodos de tempo do Brasil, Argentina, Equador, os maiores impérios no Peru e na Bolívia, Chile e muitas outras regiões”, finaliza em tom otimista o autor.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Cientistas reconstituem rota mais antiga para as Américas

DNA indica parentesco próximo entre tribos do norte e do sul

Carl Zimmer, The New York Times
03 Dezembro 2018 | 06h00

 
Há quase 11 mil anos, um homem morreu num lugar que atualmente chamamos de Nevada. Envolto num cobertor de pele de coelho e feixes de videiras, ele foi enterrado em Spirit Cave. Agora, os cientistas recuperaram e analisaram o DNA dele, bem como o de outras 70 pessoas descobertas nas Américas. As novas revelações trazem detalhes da história de como e quando os humanos se espalharam pelo Ocidente. 

Os primeiros a chegar da Ásia de que temos conhecimento já estavam se dividindo em grupos, de acordo com a pesquisa. Algumas populações prosperaram, tornando-se as ancestrais dos povos indígenas de todo o hemisfério. Mas outras se extinguiram. 

Estudos anteriores indicavam que os humanos vieram para as Américas no fim da última era glacial, viajando da Sibéria pra o Alasca atravessando uma ponte de terra que hoje fica sob o Mar de Bering.

Rumaram para o sul, até finalmente alcançarem o extremo da América do Sul. Até recentemente, os geneticistas não tinham muito a acrescentar ao que já sabíamos a respeito dessas vastas migrações.
Cada vez mais, os pesquisadores conseguem analisar fragmentos antigos de DNA. Escavação de um esqueleto de 9.600 anos no Brasil.
Cada vez mais, os pesquisadores conseguem analisar fragmentos antigos de DNA. Escavação de um esqueleto de 9.600 anos no Brasil. Foto: André Strauss
Nos cinco anos mais recentes, os genomas de 229 pessoas da pré-história foram recuperados nas Américas. 

Um deles é do segundo habitante antigo de Bering cujo DNA foi analisado. O primeiro, descrito em janeiro pelo geneticista Eske Willerslev, da Universidade de Copenhague, pertencia a uma menina morta há 11.500 encontrada no Alasca. O segundo foi descoberto a centenas de quilômetros do primeiro e morreu há 9.000 anos, de acordo com relatório recente da equipe de Willerslev.  

Os habitantes antigos de Bering foram separados dos ancestrais dos indígenas contemporâneos das Américas há cerca de 20 mil anos. As novas descobertas indicam que eles sobreviveram por milhares de anos, e então desapareceram, sem deixar nenhum traço genético nos humanos contemporâneos.
Outra leva de imigrantes continuou rumando para o sul. Estes se dividiram em dois grupos. Um deles voltou para o norte, instalando-se no Canadá e voltando para o Alasca. O outro continuou para o sul e, de acordo com os dados, espalhou-se rapidamente pelas Américas há 14 mil anos. 

O homem encontrado em Spirit Cave era do grupo sul. Tinha parentesco com um menino morto há 12.700 anos encontrado em Montana, de acordo com descobertas de Willerslev. David Reich, da Universidade Harvard, e sua equipe revelaram um elo entre o menino de Montana e um grupo de sul-americanos antigos. O parentesco indica que os imigrantes avançaram rapidamente da América do Norte para a América do Sul. 

As duas equipes descobriram que, a partir de cerca de 9 mil anos atrás, ondas adicionais de imigrantes rumaram para o sul. Willerslev acredita que os recém-chegados se misturaram às demais populações.  

Mas Reich enxerga evidências de duas ondas de imigrantes que substituíram completamente os povos que habitavam a América do Sul. 

A pesquisa revelou casos de uma continuidade notável. O grupo de Willerslev comparou o genoma do homem encontrado em Spirit Cave àquele dos quatro conjuntos de restos encontrados nos arredores, que morreram muito mais recentemente, há cerca de 600 anos. A equipe dele revelou que rodos apresentavam parentesco, apesar de separados por 10 mil anos. 

Um elo semelhante foi encontrado nos Andes. John Lindo, da Universidade Emory, e sua equipe analisaram o DNA de sete pessoas que viveram em grandes elevações entre 6.800 e 1.400 anos atrás. Os pesquisadores estimam que os habitantes de altitudes acima de 2.300 metros nas montanhas foram separados das populações de terras mais baixas entre 9.200 e 8.200 anos atrás. Hoje, os habitantes da montanha ainda apresentam um forte elo genético com os restos antigos. 

“Não é algo que observamos na maioria das demais regiões do mundo", disse Reich.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

A genômica antiga está reformulando a história dos primeiros residentes das Américas

Trove of DNA from prehistoric inhabitants reveals that the continents’ early settlers moved far and fast.
    An ancient arrowhead that belonged to people associated with the Clovis culture, an early group of settlers in the Americas.
    Uma ponta de flecha antiga que pertencia a pessoas associadas à cultura Clóvis, um grupo inicial de colonos nas Américas.Credit: Carolina Biological Supply Co/Visuals Unlimited/SPL

    A genômica antiga está finalmente começando a contar a história das Américas - e parece confusa. Uma análise de genomas de dezenas de antigos habitantes da América do Norte e do Sul, que viveu há 11 mil anos - um dos maiores trechos de DNA antigo da região estudada até agora - sugere que as populações se moviam com rapidez e frequência. Os resultados foram publicados em 8 de novembro em Cell1 e Science2.

    Os estudos sugerem que a América do Norte foi amplamente povoada ao longo de algumas centenas de anos e a América do Sul dentro de um ou dois mil anos por grupos relacionados. Migrações posteriores nos e entre os continentes conectaram populações tão distantes quanto a Califórnia e os Andes. "Essas populações primitivas estão realmente explodindo em todo o continente", diz David Meltzer, arqueólogo da Southern Methodist University, em Dallas, Texas, que liderou o estudo da Science. Os estudos também sugerem que a pré-história das Américas - a última grande massa de terra a ser colonizada - era tão complicada quanto a de outras partes do mundo. "Acho que esta série de artigos será lembrada como o primeiro vislumbre da real complexidade desses múltiplos eventos de ocupação", diz Ben Potter, um arqueólogo da Universidade do Alasca Fairbanks. "É incrivel."

    Conjecturas Arqueológicas


    Durante décadas, o povoamento das Américas foi pintado em pinceladas largas, usando dados de achados arqueológicos e DNA de humanos modernos. Os cientistas perceberam que os grupos atravessaram a ponte terrestre de Bering, da Sibéria, para o atual Alasca e, em seguida, avançaram para o sul, quando a última Era do Gelo terminou. Humanos carregando artefatos de uma cultura conhecida como Clovis, incluindo sofisticados pontos de projéteis, começaram a povoar o interior da América do Norte há 13 mil anos. Durante décadas, os pesquisadores pensaram que as pessoas associadas a essa cultura eram os primeiros habitantes dos continentes.


    But the discovery of ‘pre-Clovis’ settlements — including a nearly 15,000-year-old site at the southern tip of Chile — pointed to an even earlier wave of migration to the Americas, presumably also over the Bering land bridge.
    The first ancient-DNA studies from the region, the first of which were published in 2014, began to add detail to this picture. The genome of a baby boy buried roughly 12,700 years ago in Montana alongside Clovis artefacts3, and genomes from other ancient individuals4, hinted at two early populations of Native Americans.


    O bebê Montana, conhecido como o menino Anzick, pertencia a uma população conhecida como os nativos americanos do sul, que estão mais intimamente relacionados com as populações indígenas da América do Sul. Eles se separaram de nativos americanos do norte, que são geneticamente mais próximos de muitos grupos contemporâneos no leste da América do Norte, por volta de 14.600 a 17.500 anos atrás. 
     
    O ancestral comum desses dois grupos se separou dos asiáticos do leste há cerca de 25.000 anos, os cientistas estabeleceram este ano sequenciando o genoma de restos humanos de 11.500 anos do Alasca5.   Mas essa linha do tempo foi baseada em um pequeno número de antigos genomas das Américas, e os cientistas esperavam que outros dados pudessem pintar uma imagem muito mais detalhada e complexa do início da história dos continentes, bem como revelar migrações posteriores na região.

    Excavators at Jiskairumoko
    Excavators at a burial place in Jiskairumoko, an archaeological site in Peru.Credit: Mark Aldenderfer
    Mesmos genes, distantes
     
    Os dois últimos estudos incluem dados do genoma de 64 americanos antigos, incluindo mais de uma dúzia de espécimes com mais de 9.000 anos. Eles também fornecem o primeiro olhar detalhado sobre os antigos habitantes da América Central e do Sul e seus primeiros movimentos para a região.


    To chart these migrations, Meltzer and his colleague Eske Willerslev, a palaeogeneticist at the University of Copenhagen and the University of Cambridge, UK, compared genetic data from the 12,700-year-old Anzick boy with genome sequences from 10,700-year-old remains from a Nevada cave and 10,400-year-old remains from southeastern Brazil.

    Os genomas eram notavelmente semelhantes, apesar da grande distância entre eles, diz Willerslev, apontando para uma rápida expansão populacional do Alasca. "Assim que eles chegam ao sul das calotas de gelo continentais, eles estão explodindo e ocupando a terra", diz ele.

    Uma equipe independente liderada por David Reich, geneticista populacional da Harvard Medical School, em Boston, Massachusetts, também encontrou evidências de uma rápida expansão na América do Sul, analisando 49 genomas antigos da América Central e do Sul. Estes incluíam um indivíduo de 9.300 anos de idade de Belize, um de 9.600 anos de idade do sudeste do Brasil e 10.900 anos de idade permanece do Chile.

    Ambas as equipes documentaram várias migrações humanas posteriores para a América do Sul. Por exemplo, a equipe de Reich descobriu que o sinal genético dos primeiros habitantes, intimamente relacionado ao menino Anzick, havia desaparecido dos sul-americanos posteriores, sugerindo que grupos diferentes haviam se mudado do norte. Reich e seus colegas também encontraram uma conexão desconcertante entre um humano de 4.200 anos de idade nos Andes Centrais e antigos habitantes das Ilhas do Canal, na costa da Califórnia. A equipe não acha que os humanos migraram diretamente entre essas duas regiões - mas, ao invés disso, eles estão ligados por migrações por uma população que foi mais uma vez difundida.

    Gaps down under


    Potter diz que as principais conclusões dos dois artigos são amplamente consistentes, pintando um quadro nuançado que se tornará mais claro com mais dados. "Complexos e realistas são os dois adjetivos que eu usaria", diz ele. Mesmo com dezenas de novos genomas antigos recém-descobertos das Américas, os pesquisadores ainda estão provavelmente perdendo aspectos importantes da história da população da região, diz Reich. "Há muitos pontos que não são preenchidos", diz ele. "Eu acho que como esses estudos arranham a superfície, eles tornam as coisas mais, em vez de menos complicadas". Por exemplo, as migrações mais antigas deduzidas pelos pesquisadores parecem ter envolvido pessoas associadas à cultura Clóvis, mas Meltzer imagina o que aconteceu com os humanos associados aos sítios pré-Clóvis. "Se você está indo tão longe no espaço, provavelmente não havia mais ninguém no caminho."


    Outro mistério remanescente envolve uma descoberta de 2015, feita independentemente pelas equipes de Reich 6 e Willerslev7, de que alguns habitantes modernos da Amazônia parecem compartilhar ancestralidade genética com grupos Australasianos que incluem tanto os Papua-Nova Guiné quanto os Aborígenes australianos. Reich postulou que esta comunidade aponta para uma migração até então desconhecida para as Américas que desapareceu de todos, exceto dos grupos mais isolados da Amazônia.

    Mas Reich está agora questionando essa hipótese porque sua equipe não encontrou evidências significativas de ascendência Australasiana em nenhum dos genomas antigos do Sul e da América Central que analisou. Willerslev, no entanto, ligou o genoma do indivíduo de 10.400 anos de idade do sudeste do Brasil a uma linhagem Australásia. A descoberta fez com que ele se perguntasse se havia migrações para as Américas que antecederam mesmo aqueles por trás dos locais pré-Clovis. "Acho que estamos em grandes surpresas", diz ele. Jennifer Raff, geneticista antropológica da Universidade do Kansas, em Lawrence, diz que o quadro emergente das Américas é menos uma revisão dos modelos anteriores e mais uma elaboração. "Não é que tudo o que sabemos está sendo derrubado. Estamos apenas preenchendo detalhes ”, diz ela. “Agora estamos nos movendo para uma história muito mais detalhada, muito mais precisa e mais rica. É onde o campo estava sempre indo e é bom estar lá agora. ”


    Nature 563, 303-304 (2018)
    doi: 10.1038/d41586-018-07374-1