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domingo, 21 de agosto de 2022

 

A Amazônia foi densamente povoada no passado e a ação humana moldou a floresta existente hoje

19 de agosto de 2022

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – A arqueologia brasileira realizou, nas últimas décadas, uma “pequena revolução”. A expressão é do arqueólogo Eduardo Góes Neves, diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP). E a revolução a que ele refere se deu exatamente em seu campo de estudo: a Amazônia. Desmentindo a falácia transformada em slogan pela ditadura militar, de que a Amazônia seria uma terra sem gente para uma gente sem terra, sua linha de pesquisa revelou que a região já foi densamente povoada, por 8 a 10 milhões de pessoas, e que esse povoamento remonta há, no mínimo, 8 mil anos, talvez bem mais do que isso.

A Amazônia foi densamente povoada no passado e a ação humana moldou a floresta existente hoje 

Geoglifos, como estes no Acre, atestam a forte presença humana no passado da Amazônia (foto: Maurício de Paiva/Pesquisa FAPESP)


Frutos de uma pesquisa de mais de 15 anos, sempre conduzida com auxílios da FAPESP, as conclusões de Neves foram apresentadas agora em um livro acessível aos leitores não familiarizados com a linguagem técnica da arqueologia: Sob os tempos do equinócio: oito mil anos de história na Amazônia Central (Editora Ubu). O livro foi publicado com apoio da FAPESP.

“Ao contrário do que diz a cronologia oficial, que remonta o início da história do Brasil à chegada dos colonizadores europeus, em 1500, o território que compõe atualmente o país tem uma história muito antiga, de aproximadamente 12 mil anos. A arqueologia descobriu que, nesse longo período, a Amazônia sempre foi uma região densamente povoada. Fragmentos de artefatos encontrados sob florestas supostamente virgens, geoglifos e a chamada terra preta são sinais importantes dessa encorpada presença humana na região”, relata Neves à Agência FAPESP.

Os fragmentos de artefatos incluem peças de cerâmica bastante sofisticadas, que nada ficam a dever a outros produtos das culturas pré-colombianas. Os geoglifos, que são estruturas geométricas feitas no chão pela disposição organizada de sedimentos ou pela retirada de sedimentos superficiais, de modo a expor o terreno subjacente, foram identificados às centenas no Amazonas, Rondônia, Acre e Bolívia. E a terra preta, formada pela atividade humana nas áreas de seus antigos assentamentos, compõe hoje os terrenos mais férteis da Amazônia, cujo solo original é naturalmente pobre.

“Na Amazônia não existe abundância de pedras como em outras regiões da América do Sul. Então, é muito difícil encontrar estruturas arqueológicas de pedra. Mas esses outros indícios que mencionei nos permitem ter ideia de como foi o povoamento no passado, antes que a população original fosse destruída aos milhões pelas doenças trazidas por europeus, pelas tentativas de escravização ou pela matança pura e simples”, argumenta Neves.

Ação humana

Outro indício importantíssimo da presença humana é dado pela própria composição vegetal das matas amazônicas. Existem cerca de 16 mil espécies de árvores conhecidas nesse bioma. Desse conjunto, apenas 227 espécies, ou seja 1,4%, correspondem a quase a metade de todas as árvores existentes na região. Essa hiperdominância observada hoje foi, em grande parte, fruto do manejo humano no passado. “A ideia, ainda muito difundida, de uma formação florestal virgem, intocada, não corresponde à realidade. As florestas amazônicas são produtos da ação humana. O manejo criou a composição de árvores que existe hoje”, afirma Neves.

As árvores que se tornaram hiperdominantes devido ao manejo incluem espécies muito importantes do ponto vista econômico e social, como o açaí, o cacau, a castanha, a seringa e o cupuaçu.

A compreensão do papel desempenhado pelo manejo florestal não revolucionou apenas o entendimento da Amazônia: colocou em questão também o emprego rígido de categorias historiográficas, como paleolítico, mesolítico e neolítico. “Antes se dizia que as populações indígenas da Amazônia não haviam completado sua transição para o neolítico, devido à dependência que ainda mantinham em relação a espécies não domesticadas, como o açaí e a castanha. Mas hoje compreendemos que essas plantas não foram domesticadas porque não havia necessidade. A mandioca e o cacau foram domesticados. Mas o açaí e a castanha estavam logo ali, na mata, e não era preciso domesticar, bastava manejar para obter abundância”, sublinha Neves.

Por isso, o pesquisador afirma que arqueologia não é apenas sobre o passado, mas também sobre o futuro. O entendimento do que já foi lança luzes sobre o que ainda pode ser. “Há diferentes formas de viver e prosperar na Amazônia. O modelo atualmente dominante, que derruba árvores, queima a mata, esburaca a terra, contamina os rios e transforma a paisagem exuberante em uma terra desolada, não é o único possível. É possível viver na e da floresta sem destruí-la. E as populações que vivem desse jeito, indígenas, ribeirinhos, quilombolas, são os grandes guardiães não apenas da floresta viva, mas também dos tesouros arqueológicos que ela esconde”, enfatiza.

Neves acredita que esta é uma das grandes lições que podemos aprender com o estudo do povoamento original. Discordando da contagem oficial, que fala em 6 milhões de indígenas em todo o território brasileiro por ocasião da chegada dos colonizadores portugueses, ele afirma que apenas a região amazônica teria abrigado de 8 a 10 milhões de pessoas. “A estimativa de 6 milhões está claramente subestimada. E essa subestimação faz parte de uma tentativa de apagamento da presença indígena. Os estudos recentes indicam uma população muito maior. É claro que podem ter ocorrido avanços e recuos populacionais. Nossos registros mais antigos chegam a 8 mil anos. E encontramos hiatos nesse longo período. Mas temos evidências de uma ocupação contínua nos últimos 2.500 anos”, diz.

Segundo o pesquisador, é complicado pensar na existência de grandes cidades amazônicas, nos moldes das cidades antigas do Oriente Médio ou da América Central. Ele classifica os povoamentos mais populosos com a denominação técnica de “urbes tropicais de baixa densidade”. Mas informa que estas abrigariam alguns milhares de indivíduos e seriam conectadas por uma rede de estradas cujos vestígios têm sido descobertos. “Quando Santarém foi fundada, em 1661, havia nela 6 mil indígenas. Essa população era quatro vezes maior que a do Rio de Janeiro na época”, conta.

O enorme recuo populacional causado pela colonização só foi revertido nas últimas décadas, pela chegada de contingentes populacionais provenientes do Nordeste e do Sul e por um processo de urbanização acelerado, caótico e altamente impactante para o meio ambiente.

Mas, sob a epiderme dessas rupturas e traumas sociais, Neves percebe um fio de continuidade. “A arqueologia está muito perto da vida das pessoas”, diz. “Quem anda pelo interior da Amazônia e visita as comunidades indígenas, os locais de moradia de caboclos, percebe que é muito comum que as pessoas vivam sobre os sítios arqueológicos. Isso não é à toa. Geralmente são esses os terrenos de solos mais férteis, onde estão as castanheiras, os açaizeiros e outras plantas disseminadas pela atividade humana no passado.”

A pesquisa de Neves foi apoiada pela FAPESP por meio de cinco projetos (19/07794-905/60603-417/11817-999/02150-0 e 02/02953-0). E a FAPESP forneceu também outros apoios – entre eles, dezenas de bolsas de iniciação científica, mestrado, doutorado, pós-doutorado e estágio de pesquisa no exterior concedidas aos orientandos de Neves.

Com 224 páginas, o livro Sob os tempos do equinócio: oito mil anos de história na Amazônia Central pode ser adquirido pelo site: www.ubueditora.com.br/equinocio.html.

terça-feira, 30 de abril de 2019

Ossada encontrada na Floresta Amazônica sugere povoamento da região há 10 mil anos

Postado em abr 29 2019 - 4:39pm por Jornal da Chapada
Para especialistas, os registros descobertos mudam a visão sobre os primórdios da agricultura no mundo | FOTO: Divulgação/Penn State University.

Uma ossada de 6,3 mil anos foi descoberta na Isla del Tesoro, na região boliviana de Llanos de Moxos, que faz parte da Floresta Amazônica. O achado sugere que a origem dos assentamentos no local pode ter cerca de 10 mil anos. “Até onde eu sei, esses são os restos mortais mais antigos documentados no sudoeste da Amazônia”, diz José Capriles, principal autor do estudo e professor assistente de antropologia na Pennsylvania State University, ao Smithsonian. A descoberta surpreendeu, já que é extremamente raro encontrar restos mortais do período anterior ao desenvolvimento da cerâmica na região. 

Isso porque o solo ácido e o clima tropical dificultam a preservação de corpos humanos ou artefatos. Particularmente nesse caso, a abundância de carbonato de cálcio das diversas conchas e cascas presentes na região ajudou na preservação da ossada. A descoberta sugere que caçadores ocuparam a área muito antes do que os especialistas acreditavam: “Esses locais podem representar algumas das primeiras formas de trabalho na terra na região”, afirma Bronwen Whitney, geógrafo da Northumbria University, que não participou do novo estudo.

Llanos de Moxos
 
A Llanos de Moxos, uma savana tropical no norte da Bolívia, atrai arqueólogos porque as sociedades agrícolas da região eram bem desenvolvidas há 2,5 mil anos: os habitantes desenvolveram campos elevados, estradas e até canais hídricos. O geógrafo e coautor do estudo, Umberto Lombardo, diz que ficou particularmente intrigado com as ilhas encontradas no meio da floresta: “Quando pesquisei pela primeira vez a Isla del Tesoro em 2007, fiquei completamente perdido. (…) Só depois da análise laboratorial comecei a perceber que essas ilhas não eram apenas antropogênicos, mas, na verdade, muito mais antigas do que qualquer outro vestígio arqueológico conhecido em toda a região”.

O local começou a ser pesquisado há cerca de uma década, mas as primeiras descobertas foram publicadas apenas em meados de 2013. Os especialistas já haviam encontrado outros túmulos, mas nenhum tão antigo quanto o da descoberta mais recente. 

A presença de sociedades na região também foi um achado inusitado, considerando suas condições climáticas. Por isso os cientistas acreditam que no período de chuvas, quando parte da floresta inundava, as pessoas acampavam nas ilhas da floresta, e sobreviviam com o consumo de caracóis, enguias, bagres e outras criaturas aquáticas.

Lombardo teoriza que, com o depósito de lixo orgânico e a ocupação da região, o nível do solo subiu e ele passou por um processo de terraplanagem: “Esses dois processos tornaram esse local coberto por florestas, fornecendo sombra e materiais de construção. Além disso, tornou-se elevado e permaneceu acima do nível da água durante a cheia sazonal. Basicamente, quanto mais o local estava ocupado, melhor se tornaria para ocupação adicional”, relata o geógrafo.
Para a equipe, alguns dos comportamentos observados nas ilhas florestais de Llanos de Moxos poderiam até ter criado as bases para a agricultura | FOTO: Divulgação/Penn State University |

Agricultura
 
Umberto Lombardo também defende que o estudo prova o desenvolvimento da agricultura em diversas partes do mundo ao mesmo tempo, não só no Crescente Fértil, no Oriente Médio. Ainda de acordo com o especialista, por conta de evidências genéticas, muitos estudiosos consideram que o sudoeste da Amazônia foi um dos primeiros centros de domesticação de plantas na América do Sul. A região seria um núcleo para culturas como mandioca, batata-doce, arroz selvagem, pimenta e amendoim.

Para a equipe, alguns dos comportamentos observados nas ilhas florestais de Llanos de Moxos poderiam até ter criado as bases para a agricultura. Por exemplo, o aumento do consumo de alimentos de baixo retorno, como os caracóis, sugere que alguns recursos alimentares tenham começado a acabar. Os enterros também podem ser um sinal de aumento da territorialidade e diminuição da mobilidade, levando ao início das experimentações com a agricultura. Extraído da Revista Galileu com informações de Smithsonian.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

A genômica antiga está reformulando a história dos primeiros residentes das Américas

Trove of DNA from prehistoric inhabitants reveals that the continents’ early settlers moved far and fast.
    An ancient arrowhead that belonged to people associated with the Clovis culture, an early group of settlers in the Americas.
    Uma ponta de flecha antiga que pertencia a pessoas associadas à cultura Clóvis, um grupo inicial de colonos nas Américas.Credit: Carolina Biological Supply Co/Visuals Unlimited/SPL

    A genômica antiga está finalmente começando a contar a história das Américas - e parece confusa. Uma análise de genomas de dezenas de antigos habitantes da América do Norte e do Sul, que viveu há 11 mil anos - um dos maiores trechos de DNA antigo da região estudada até agora - sugere que as populações se moviam com rapidez e frequência. Os resultados foram publicados em 8 de novembro em Cell1 e Science2.

    Os estudos sugerem que a América do Norte foi amplamente povoada ao longo de algumas centenas de anos e a América do Sul dentro de um ou dois mil anos por grupos relacionados. Migrações posteriores nos e entre os continentes conectaram populações tão distantes quanto a Califórnia e os Andes. "Essas populações primitivas estão realmente explodindo em todo o continente", diz David Meltzer, arqueólogo da Southern Methodist University, em Dallas, Texas, que liderou o estudo da Science. Os estudos também sugerem que a pré-história das Américas - a última grande massa de terra a ser colonizada - era tão complicada quanto a de outras partes do mundo. "Acho que esta série de artigos será lembrada como o primeiro vislumbre da real complexidade desses múltiplos eventos de ocupação", diz Ben Potter, um arqueólogo da Universidade do Alasca Fairbanks. "É incrivel."

    Conjecturas Arqueológicas


    Durante décadas, o povoamento das Américas foi pintado em pinceladas largas, usando dados de achados arqueológicos e DNA de humanos modernos. Os cientistas perceberam que os grupos atravessaram a ponte terrestre de Bering, da Sibéria, para o atual Alasca e, em seguida, avançaram para o sul, quando a última Era do Gelo terminou. Humanos carregando artefatos de uma cultura conhecida como Clovis, incluindo sofisticados pontos de projéteis, começaram a povoar o interior da América do Norte há 13 mil anos. Durante décadas, os pesquisadores pensaram que as pessoas associadas a essa cultura eram os primeiros habitantes dos continentes.


    But the discovery of ‘pre-Clovis’ settlements — including a nearly 15,000-year-old site at the southern tip of Chile — pointed to an even earlier wave of migration to the Americas, presumably also over the Bering land bridge.
    The first ancient-DNA studies from the region, the first of which were published in 2014, began to add detail to this picture. The genome of a baby boy buried roughly 12,700 years ago in Montana alongside Clovis artefacts3, and genomes from other ancient individuals4, hinted at two early populations of Native Americans.


    O bebê Montana, conhecido como o menino Anzick, pertencia a uma população conhecida como os nativos americanos do sul, que estão mais intimamente relacionados com as populações indígenas da América do Sul. Eles se separaram de nativos americanos do norte, que são geneticamente mais próximos de muitos grupos contemporâneos no leste da América do Norte, por volta de 14.600 a 17.500 anos atrás. 
     
    O ancestral comum desses dois grupos se separou dos asiáticos do leste há cerca de 25.000 anos, os cientistas estabeleceram este ano sequenciando o genoma de restos humanos de 11.500 anos do Alasca5.   Mas essa linha do tempo foi baseada em um pequeno número de antigos genomas das Américas, e os cientistas esperavam que outros dados pudessem pintar uma imagem muito mais detalhada e complexa do início da história dos continentes, bem como revelar migrações posteriores na região.

    Excavators at Jiskairumoko
    Excavators at a burial place in Jiskairumoko, an archaeological site in Peru.Credit: Mark Aldenderfer
    Mesmos genes, distantes
     
    Os dois últimos estudos incluem dados do genoma de 64 americanos antigos, incluindo mais de uma dúzia de espécimes com mais de 9.000 anos. Eles também fornecem o primeiro olhar detalhado sobre os antigos habitantes da América Central e do Sul e seus primeiros movimentos para a região.


    To chart these migrations, Meltzer and his colleague Eske Willerslev, a palaeogeneticist at the University of Copenhagen and the University of Cambridge, UK, compared genetic data from the 12,700-year-old Anzick boy with genome sequences from 10,700-year-old remains from a Nevada cave and 10,400-year-old remains from southeastern Brazil.

    Os genomas eram notavelmente semelhantes, apesar da grande distância entre eles, diz Willerslev, apontando para uma rápida expansão populacional do Alasca. "Assim que eles chegam ao sul das calotas de gelo continentais, eles estão explodindo e ocupando a terra", diz ele.

    Uma equipe independente liderada por David Reich, geneticista populacional da Harvard Medical School, em Boston, Massachusetts, também encontrou evidências de uma rápida expansão na América do Sul, analisando 49 genomas antigos da América Central e do Sul. Estes incluíam um indivíduo de 9.300 anos de idade de Belize, um de 9.600 anos de idade do sudeste do Brasil e 10.900 anos de idade permanece do Chile.

    Ambas as equipes documentaram várias migrações humanas posteriores para a América do Sul. Por exemplo, a equipe de Reich descobriu que o sinal genético dos primeiros habitantes, intimamente relacionado ao menino Anzick, havia desaparecido dos sul-americanos posteriores, sugerindo que grupos diferentes haviam se mudado do norte. Reich e seus colegas também encontraram uma conexão desconcertante entre um humano de 4.200 anos de idade nos Andes Centrais e antigos habitantes das Ilhas do Canal, na costa da Califórnia. A equipe não acha que os humanos migraram diretamente entre essas duas regiões - mas, ao invés disso, eles estão ligados por migrações por uma população que foi mais uma vez difundida.

    Gaps down under


    Potter diz que as principais conclusões dos dois artigos são amplamente consistentes, pintando um quadro nuançado que se tornará mais claro com mais dados. "Complexos e realistas são os dois adjetivos que eu usaria", diz ele. Mesmo com dezenas de novos genomas antigos recém-descobertos das Américas, os pesquisadores ainda estão provavelmente perdendo aspectos importantes da história da população da região, diz Reich. "Há muitos pontos que não são preenchidos", diz ele. "Eu acho que como esses estudos arranham a superfície, eles tornam as coisas mais, em vez de menos complicadas". Por exemplo, as migrações mais antigas deduzidas pelos pesquisadores parecem ter envolvido pessoas associadas à cultura Clóvis, mas Meltzer imagina o que aconteceu com os humanos associados aos sítios pré-Clóvis. "Se você está indo tão longe no espaço, provavelmente não havia mais ninguém no caminho."


    Outro mistério remanescente envolve uma descoberta de 2015, feita independentemente pelas equipes de Reich 6 e Willerslev7, de que alguns habitantes modernos da Amazônia parecem compartilhar ancestralidade genética com grupos Australasianos que incluem tanto os Papua-Nova Guiné quanto os Aborígenes australianos. Reich postulou que esta comunidade aponta para uma migração até então desconhecida para as Américas que desapareceu de todos, exceto dos grupos mais isolados da Amazônia.

    Mas Reich está agora questionando essa hipótese porque sua equipe não encontrou evidências significativas de ascendência Australasiana em nenhum dos genomas antigos do Sul e da América Central que analisou. Willerslev, no entanto, ligou o genoma do indivíduo de 10.400 anos de idade do sudeste do Brasil a uma linhagem Australásia. A descoberta fez com que ele se perguntasse se havia migrações para as Américas que antecederam mesmo aqueles por trás dos locais pré-Clovis. "Acho que estamos em grandes surpresas", diz ele. Jennifer Raff, geneticista antropológica da Universidade do Kansas, em Lawrence, diz que o quadro emergente das Américas é menos uma revisão dos modelos anteriores e mais uma elaboração. "Não é que tudo o que sabemos está sendo derrubado. Estamos apenas preenchendo detalhes ”, diz ela. “Agora estamos nos movendo para uma história muito mais detalhada, muito mais precisa e mais rica. É onde o campo estava sempre indo e é bom estar lá agora. ”


    Nature 563, 303-304 (2018)
    doi: 10.1038/d41586-018-07374-1

sexta-feira, 9 de novembro de 2018



Os Suruí da Amazônia brasileira trazem vestígios de ancestrais da Australásia, agora confirmados como tendo chegado à América do Sul há mais de 10.400 anos atrás.
Craig Stennett/Alamy Stock Photo

DNA antigo confirma raízes profundas dos nativos americanos na América do Norte e do Sul

Por décadas, os cientistas puderam descrever o povoamento das Américas apenas em traços largos, deixando muitos mistérios sobre quando e como as pessoas se espalham pelos continentes. Agora, os métodos antigos de DNA de ponta, aplicados a dezenas de novas amostras das Américas, estão preenchendo o quadro. 

Dois estudos independentes, publicados na Cell e online na Science, descobriram que as populações antigas se expandiram rapidamente nas Américas há cerca de 13.000 anos. Eles também enfatizam que a história continuou nos milhares de anos desde então, revelando movimentos em grande escala anteriormente não documentados entre as Américas do Norte e do Sul.

Os dados incluem 64 amostras antigas de DNA sequenciadas do Alasca à Patagônia, abrangendo mais de 10.000 anos de história genética. "Os números [de amostras] são simplesmente extraordinários", diz Ben Potter, um arqueólogo da Universidade do Alasca em Fairbanks. Antes desses estudos, apenas seis genomas com mais de 6000 anos das Américas haviam sido sequenciados. Como resultado, diz Jennifer Raff, geneticista antropológico da Universidade do Kansas, em Lawrence, "os modelos [genéticos] que temos usado para explicar o povoamento das Américas sempre foram simplificados demais".

Eske Willerslev, um geneticista evolucionário da Universidade de Copenhague que liderou a equipe de Ciência, trabalhou em estreita colaboração com a Tribo Fallon Paiute-Shoshone em Nevada para obter acesso a algumas das novas amostras. A tribo estava lutando para repatriar restos de 10.700 anos encontrados na Caverna do Espírito de Nevada e resistiu a testes genéticos destrutivos. Mas quando Willerslev visitou a tribo pessoalmente e prometeu fazer o trabalho apenas com sua permissão, a tribo concordou, esperando que o resultado reforçasse seu caso de repatriação. Isso aconteceu. Willerslev descobriu que os restos da Caverna do Espírito estão mais relacionados aos nativos americanos vivos. Isso fortaleceu a alegação da tribo Fallon Paiute-Shoshone para os ossos, que foram devolvidos a eles em 2016 e re-enterrados. O estudo de Willerslev confirma que "esta é nossa terra natal, são nossos ancestrais", diz Rochanne Downs, coordenadora cultural da tribo.
Willerslev adicionou os dados da Spirit Cave a outros 14 novos genomas inteiros de sites espalhados do Alasca ao Chile e variando de 10.700 a 500 anos de idade. Seus dados juntam-se a uma pesquisa ainda maior publicada na Cell por uma equipe liderada pelo geneticista de populações David Reich, da Harvard Medical School, em Boston. Eles analisaram o DNA de 49 novas amostras da América Central e do Sul, com idades entre 10.900 e 700 anos, em mais de 1,2 milhão de posições em todo o genoma. Ao todo, os dados dissiparam decisivamente as sugestões, baseadas na forma característica do crânio de alguns restos antigos, de que as populações primitivas tinham um ancestral diferente dos nativos americanos de hoje. "Os americanos nativos realmente originaram-se nas Américas, como um grupo geneticamente e culturalmente distinto. Eles são absolutamente indígenas para este continente", diz Raff.

A trail of DNA

Dois novos documentos adicionam DNA de 64 indivíduos antigos ao escasso registro genético das Américas. Eles mostram que pessoas relacionadas à criança Anzick, parte da cultura Clovis, rapidamente se espalharam pela América do Norte e do Sul há cerca de 13.000 anos.
 
 


One Eight Team leader Previously published Eske Willerslev David Reich Upward Sun River11,500 years ago Ancient Beringian Spirit Cave10,700 years ago Lovelock Cave2000–600 years ago Anzick12,700 years ago Monte Verde14,500+ years ago Lapa do Santo9600 years ago Lagoa Santa10,400–9600 years agoAustralasian ancestry NorthernNative Americans SouthernNative Americans
(MAP) C. POSTH ET AL., CELL, 175 (2018) ADAPTED BY J. YOU/SCIENCE; (DATA) J. MORENO-MAYAR ET AL., SCIENCE 10.1126/SCIENCE.AAV2621 
Os dois estudos também fornecem uma visão sem precedentes de como os americanos antigos se mudaram pelo continente, começando há cerca de 13.000 anos. Trabalhos genéticos anteriores haviam sugerido que os ancestrais dos nativos americanos se separaram dos siberianos e dos orientais asiáticos há cerca de 25 mil anos, talvez quando entraram na terra de Beringia, na maior parte afogada, que ligava o extremo oriente da Rússia e a América do Norte. Algumas populações ficaram isoladas em Beringia, e Willerslev sequenciou um novo exemplo de um "antigo beringiano", restos de 9000 anos da península de Seward, no Alasca. Enquanto isso, outros grupos se dirigiram para o sul. Em algum momento, aqueles que viajaram para o sul dos lençóis de gelo se dividiram em dois grupos - "nativos americanos do sul" e "americanos nativos do norte" (também chamados de linhagens Ancestrais A e B), que passaram a povoar os continentes.
Ao procurar por similaridades genéticas entre amostras distantes, os dois documentos adicionam detalhes - alguns intrigantes - a esse padrão. A criança Anzick, de 12.700 anos, de Montana, que é associada à cultura Clovis, conhecida por seus pontos de lança distintos, forneceu um importante ponto de referência. Willerslev detectou a ancestralidade relacionada a Anzick tanto no indivíduo da Caverna do Espírito - que é associado com ferramentas de caules ocidentais, uma tradição provavelmente mais antiga que Clóvis - quanto em restos de 10.000 anos de idade de Lagoa Santa no Brasil. A equipe de Reich encontrou uma relação ainda mais próxima entre Anzick e amostras de 9300 a 10.900 anos de idade do Chile, Brasil e Belize.

Essas afinidades genéticas próximas em épocas semelhantes, mas em vastas distâncias, sugerem que as pessoas devem ter se movido rapidamente pelas Américas, com pouco tempo para evoluir para grupos genéticos distintos. A equipe de Reich argumenta que a tecnologia Clovis pode ter estimulado essa rápida expansão. Mas a geneticista antropológica Deborah Bolnick, da Universidade de Connecticut, em Storrs, observa que o grupo de ancestrais relacionados a Anzick pode ter sido mais amplo do que o povo de Clóvis e duvida que a cultura tenha sido um fator determinante. Willerslev também encontra vestígios dessa ancestralidade relacionada a Anzick em amostras posteriores da América do Sul e da Caverna Lovelock, em Nevada. Mas, nos dados de Reich, ela desaparece há cerca de 9 mil anos em boa parte da América do Sul, sugerindo "um grande substituto populacional", diz ele.
 Após a rotatividade populacional na América do Sul, ambas as equipes percebem uma continuidade genética marcante em muitas regiões. Mas isso não significa que ninguém tenha se movido. O grupo de Reich vê um novo sinal genético entrando nos Andes centrais há cerca de 4200 anos atrás, transportado por pessoas que estão mais relacionadas com os antigos habitantes das Ilhas do Canal, no sul da Califórnia. Enquanto isso, a equipe de Willerslev detecta ancestralidade relacionada ao atual Mixe, um grupo indígena de Oaxaca no México, espalhando-se pela América do Sul há cerca de 6000 anos e a América do Norte há cerca de 1000 anos. Nenhuma dessas migrações substituiu as comunidades locais, mas sim misturada com elas. Ambas as equipes dizem que podem estar vendo o mesmo sinal, mas "sem comparar os dados, é realmente difícil dizer", diz o arqueogeneticista Cosimo Posth, do Instituto Max Planck para a Ciência da História Humana em Jena, Alemanha, o primeiro autor do estudo. Papel de celular.

Tão misterioso é o traço de ascendência australasiana em alguns antigos sul-americanos. Reich e outros já haviam visto indícios disso em pessoas vivas na Amazônia brasileira. Agora, Willerslev forneceu mais evidências: revelador de DNA em uma pessoa de Lagoa Santa, no Brasil, que viveu há 10.400 anos. "Como chegou lá? Não temos idéia", diz o geneticista José Víctor Moreno-Mayar, da Universidade de Copenhague, primeiro autor do artigo de Willerslev.

O sinal não aparece em nenhuma outra amostra da equipe, "de alguma forma pulando por toda a América do Norte em uma única ligação", diz o co-autor e arqueólogo David Meltzer, da Southern Methodist University, em Dallas, Texas. Ele se pergunta se a ancestralidade australasiana estava confinada a uma pequena população de migrantes siberianos que permaneceram isolados de outros ancestrais nativos americanos durante toda a jornada através de Beringia e das Américas. Isso sugere que grupos individuais podem ter se mudado para os continentes sem se misturar. Encantados como estão com os dados dos novos estudos, os cientistas querem mais. Meltzer ressalta que nenhuma das novas amostras pode iluminar o que está acontecendo em locais pré-Clovis, como o Monte Verde, no Chile, que foi ocupado 14.500 anos atrás. E Potter observa que, "Nós temos um enorme buraco no registro norte-americano [de amostragem] central e oriental ... Esses papéis não são as palavras finais".
Posted in:
doi:10.1126/science.aav9990

Lizzie Wade

Lizzie is Science's Latin America correspondent, based in Mexico City.