Mostrando postagens com marcador Luzia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Luzia. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Descoberta arqueológica em Minas Gerais revela práticas funerárias pré-históricas no Brasil

17/12/2019
 
 
 
https://ichef.bbci.co.uk/news/624/cpsprodpb/9489/production/_102152083_tcnicolimpaesqueletoandrestrauss.jpg

Direito de imagem André Strauss
Image caption Os esqueletos encontrados na Lapa do Santo indicam que os povos que viviam ali eram muito mais complexos do que se imaginava
A descoberta de 39 esqueletos humanos, com idades entre 8 mil e 11 mil anos na região metropolitana de Belo Horizonte, está ajudando a redefinir o que se sabia sobre os primeiros brasileiros. O achado ocorreu na Lapa do Santo, uma pequena caverna no município de Matozinhos.
São os ossos mais antigos do Brasil e revelam que, ao contrário do que se pensava até agora, os povos que viviam no local naquela época eram complexos e tinham práticas funerárias altamente elaboradas.

A novidade é resultado do projeto Morte e vida na Lapa do Santo: uma biografia arqueológica dos povos de Luzia, coordenado pelos pesquisadores André Strauss, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE), e Rodrigo de Oliveira, do Instituto de Biociências (IB), ambos da Universidade de São Paulo (USP). 

É um trabalho de pesquisa interdisciplinar, que tem como objetivo caracterizar como viviam as populações que estavam no Brasil central durante o Holoceno Inicial (Holoceno é o período geológico que começou há 11.500 anos e se estende até o presente).

De acordo com Strauss, os esqueletos descobertos eram de idosos, crianças, homens e mulheres. "Todos tinham sinais de rituais mortuários", revela.

"Alguns estavam queimados, outros pintados de vermelho e alguns combinavam crânios de crianças com corpos de adultos, ou dentes de uma pessoa com a arcada de outra. O que chamou a atenção também é que esses sinais variavam dependendo da idade arqueológica dos ossos. Isso pode significar que os povos que habitavam a região alteraram sua forma de tratar os corpos dos mortos ao longo do tempo. Essa descoberta é inédita na arqueologia brasileira."

Os primeiros americanos

 
 
 https://ichef.bbci.co.uk/news/624/cpsprodpb/E2A9/production/_102152085_pesquisadoresemstioarqueolgico.jpg
 Direito de imagem André Strauss
Image caption A região tem dezenas de sítios arqueológicos que vêm sendo escavados e pesquisados desde 1843
A região onde trabalham os arqueólogos, Lagoa Santa, está entre as mais ricas em restos de culturas pré-históricas do Brasil. Ali, dezenas de sítios arqueológicos vêm sendo escavados e pesquisados desde 1843, quando o naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund (1801-1880), considerado o pai da paleontologia brasileira, descobriu ossadas humanas misturadas com as de animais já extintos. Desde então, centenas de crânios e outros ossos humanos foram desenterrados do local.

Entre eles, o mais antigo de que se tem registro no Brasil, com 11.300 anos, descoberto em 1974, pela arqueóloga francesa Annette Laming-Emperaire, no sítio chamado Lapa Vermelha 4, que fica no município de Pedro Leopoldo.

Como era de um indivíduo do sexo feminino, o esqueleto foi batizado de Luzia pelo bioantropólogo Walter Alves Neves, também da USP, que foi orientador de Strauss e Oliveira, que agora dão continuidade ao seu trabalho.

Em 1995, ele fez medidas antropométricas do crânio, que mostraram que Luzia tinha mais a ver com os africanos do que com os índios atuais.
Com base nisso e em outras descobertas, ele elaborou sua hipótese para a ocupação das Américas, apresentada no livro O povo de Luzia - em busca dos primeiros americanos, em coautoria com o geógrafo Luís Beethoven Piló.

A hipótese propõe que os primeiros americanos chegaram ao continente em duas levas migratórias, uma há 14 mil anos e a segunda há 11 mil, vindas da Ásia pelo estreito de Bering. A primeira seria composta por uma população com traços semelhante aos dos africanos e aborígenes australianos. A segunda era de indivíduos parecidos com asiáticos e índios americanos atuais.
Ao longo do tempo, os dois povos se miscigenaram no novo mundo.

Para outros estudiosos, no entanto, os indígenas atuais ou ameríndios e os primeiros que chegaram à região de Lagoa Santa fazem parte de um mesmo tipo, cujas diferenças morfológicas podem ser explicadas pela variabilidade natural que existe dentro de qualquer população. A pesquisas de Strauss e Oliveira poderão ajudar a elucidar a questão.
Segundo Strauss, o projeto segue em pleno andamento com a escavação da Lapa do Santo e a análise do material encontrado. "Isso inclui estudos morfológicos, de microvestígios, isótopos, datação, antropologia virtual, micromorfologia e DNA", conta.
"Até o momento, nossos estudos não dialogam diretamente com o tema dos primeiros americanos. Quando sair o resultado do DNA poderemos determinar se o modelo dos dois componentes está correto ou não."
Direito de imagem André Strauss
Image caption As escavações realizadas até agora já revelaram vários aspectos dos grupos, desconhecidos até agora

Práticas funerárias surpreendentes

As escavações realizadas até agora já revelaram, no entanto, vários aspectos dos grupos que eram desconhecidos até agora. "Apesar das centenas de esqueletos exumados em Lagoa Santa em quase dois séculos de pesquisa, muito pouco foi discutido em relação às práticas funerárias na região", diz Strauss.

"De acordo com as poucas descrições disponíveis na literatura, elas sempre foram caracterizadas como simples e homogêneas, incluindo apenas enterros primários de um único indivíduo e sem nenhum tipo de acompanhamento funerário."
As descobertas de Strauss e Oliveira mudam radicalmente esse quadro. De acordo com eles, os sepultamentos da Lapa do Santo tinham uma alta variabilidade, o que contradiz a visão tradicional sobre as práticas mortuárias na região.

"Além dessa retificação histórica, a diversidade delas no local ganha relevância, porque contraria a homogeneidade de outros componentes do sítio, tais como os artefatos de pedra, os remanescentes faunísticos, a morfologia craniana e a própria composição da matriz sedimentar."

Segundo Strauss, os sepultamentos também permitem inferir que ao longo do Holoceno Inicial grupos distintos que, possivelmente, não se reconheciam como parte de um mesmo povo habitaram a região. "Na ausência de mais datações diretas para os esqueletos, não é possível descartar a hipótese de que, em um mesmo momento, diferentes povos tenham ocupado a região", acrescenta.

Simplificando, ele diz que é possível que, durante o Holoceno Inicial, não tenha existido "um único 'povo de Luzia'", expressão cunhada por Walter Neves para se referir aos grupos humanos que habitaram a região de Lagoa Santa na época, "mas sim muitos 'povos' e muitas 'Luzias', cada um único em suas idiossincrasias simbólicas, culturais e, por que não, linguísticas".

"Assim, o registro funerário da Lapa do Santo contribui para retratar uma pré-história plural e dinâmica, onde a diversidade é a regra e elemento interpretativo fundamental", diz.

domingo, 28 de julho de 2019

Brasil ancestral: Quem foram os primeiros brasileiros?

A primeira certidão de nascimento do país é um crânio de 11 mil anos encontrado em 1975. Mas há quem diga que estamos por aqui há mais tempo
Rui Dantas Publicado em 23/07/2019, às 14h30 - Atualizado às 15h00
None
Martha Werneck
Durante quase 500 anos o Brasil praticamente ignorou uma parte do seu passado. A maior delas. Na escola, a primeira aula de história começa com o descobrimento do Brasil como se nada tivesse acontecido antes. No entanto, quando os portugueses chegaram, em 1500, civilizações avançadas e poderosas estavam no auge, outras já haviam desaparecido, mas deixado vestígios de passagem e de história no Brasil.

O naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund, em 1836, foi o primeiro a se interessar pelo Brasil pré-cabralino e tornou-se uma espécie de patrono da arqueologia e da paleontologia no país. Sua descoberta mais importante aconteceu na Gruta do Sumidouro, perto de Lagoa Santa, MG. Em meio aos ossos de grandes mamíferos, ele achou os primeiros fósseis humanos no Brasil.
Em busca do primeiro brasileiro, Peter encontrou mais perguntas que respostas (algumas ainda sem solução). A primeira – e talvez a mais controversa de todas – é como e quando o homem passou a ocupar o território americano e, por extensão, o brasileiro?

A teoria mais aceita é que os primeiros grupos humanos a chegar por aqui atravessaram da Ásia para a América pela Beríngia (região no extremo norte do continente, que há 15 mil anos, durante o fim da era glacial, ligava os dois continentes). A pé, os novos habitantes começaram a migrar para o sul, em busca de regiões mais quentes. Até a Patagônia, no limite sul da América, eles teriam levado algo em torno de 2 mil anos.

Mas há quem discorde. A arqueóloga brasileira Niède Guidon, que há mais de 40 anos estuda os vestígios da presença humana na região da Serra da Capivara, no Piauí, acredita que o homem americano já ocupava o Brasil há mais de 60 mil anos. Sua pesquisa, que tem base em vestígios humanos cujas datações indicaram ter 48 mil anos de idade, é fruto do documentário Niède, de Tiago Tambelli, que acaba de ser lançado no país.

Segundo a arqueóloga, a ocupação das Américas começou entre 80 e 100 mil anos atrás e o primeiro americano teria vindo da  região da Austrália em embarcações simples – uma tese questionada dentro e fora do Brasil. Para os críticos, esperar que um aborígine de mais de 50 mil anos atrás atravessasse o Pacífico seria como pedir a Cristóvão Colombo que, em vez de cruzar o Atlântico para vir ao Novo Mundo, fincasse a bandeira na Lua.

Mas Niède Guidon não está sozinha quando marca o início da presença humana no Brasil, além dos paradigmais 15 mil anos. O trabalho da arqueóloga Águeda Vilhena Vialou, entre o Museu de Arqueologia da USP e o Museu de História Natural de Paris, indicou a existência do homem no Mato Grosso, na Fazenda Santa Elina, há cerca de 23 mil anos. Lá, foram encontradas pinturas nas paredes e grande quantidade de pedras trabalhadas. “Fizemos três datações diferentes, em três materiais distintos: ossos, sedimentos e carvão. Todos à mesma data, entre 22 e 23 mil anos”, contou.

Homens da Lagoa Santa

A arqueóloga Adriana Schmidt Dias, da UFRGS, acredita que o primeiro brasileiro descende de uma das várias correntes migratórias vindas da Ásia, que ocorreram a partir de 15 mil anos atrás. A mais antiga dessas levas de humanos teria chegado ao Brasil há cerca de 12 mil anos e ficado conhecida como Os Homens da Lagoa Santa, nome dado em homenagem ao sítio arqueológico onde foram localizados – o mesmo pesquisado pelo dinamarquês Lund. Desse povo, faz parte o fóssil humano descoberto em 1975, que viveu por aqui há cerca de 11,5 mil anos e foi batizado pelos cientistas de Luzia, a mais antiga brasileira descoberta até hoje.
Mais antiga pintura rupestre da América, encontrada em Lagoa Santa / Crédito: Reprodução

Luzia era uma caçadora e coletora de vegetais, com traços bem distintos dos índios que Pero Vaz de Caminha descreveu em sua carta, em 1500. Em 1999, a Universidade de Manchester, na Inglaterra, reconstituiu o rosto de Luzia: ficaram óbvios os traços negroides, típicos de populações africanas e da Oceania.

Luzia e seus amigos viviam em pequenos grupos e eram nômades, sempre procurando encontrar vegetais e animais de pequeno porte, como o porco-do-mato e a paca, que eles caçavam com a ajuda de lanças e de flechas com pontas feitas de pedras lascadas. Não ficavam mais que duas semanas no mesmo lugar. Por isso, não costumavam enterrar seus mortos. O corpo de Luzia foi encontrado jogado no fundo de uma caverna.

Por volta de 6 mil anos atrás esse povo desapareceu. A explicação para isso é o surgimento de outro grupo de humanos, dessa vez, parecidos com os índios atuais. Eles chegaram em muito maior número e passaram a ocupar a região. As populações se misturaram, segundo Adriana, mas com o tempo as características dos Homens da Lagoa Santa submergiram. Essa nova leva de viajantes chegou a ocupar toda a costa brasileira e o Planalto Central até 2 mil anos atrás.
“Esses bandos chegavam a uma região, montavam acampamento, geralmente em grupos de cinco a dez famílias em pequenas faixas de terra”, diz a pesquisadora. De acordo com ela, eles retiravam da região tudo o que podiam: vegetais, peixes e animais. Assim que esgotavam esses recursos e que os acampamentos apresentavam problemas sanitários, como o aparecimento de insetos em grandes quantidades, iam embora.

Civilização das Conchas

Alguns dos descendentes desses novos habitantes criaram, no litoral do Brasil, uma das civilizações mais características e inusuais do período pré-cabralino. Eles ocuparam do Espírito Santo ao Rio Grande do Sul entre 6 mil e mil anos atrás, e ficaram conhecidos pelas edificações que erguiam para sepultar seus mortos: os sambaquis. São pilhas de sedimentos, principalmente conchas e ossos de animais, cuidadosamente empilhados e que chegavam a ter 40 metros de altura e mais de 500 metros de comprimento.

A princípio, os arqueólogos acreditavam tratar-se de grandes depósitos funerários, mas, com a descoberta sistemática de novos sítios, ficou provado que os sambaquis eram o centro da vida social desses povos, chamados sambaquieiros. Ali, eles sepultavam seus mortos, realizavam rituais e construíam suas casas.
Crédito: Martha Werneck

“Eles se alimentavam basicamente da pesca e da coleta de frutos do mar, feitas com o auxílio de canoas e redes”, explica o arqueólogo Paulo de Blasis, da USP. O sambaquieiro era baixo, no máximo 1,60 metro. A mortalidade infantil era altíssima, entre 30 e 40% dos corpos encontrados eram de crianças. Quem chegava à idade adulta também não ia muito longe: para os homens a perspectiva de vida era de 25 anos e as mulheres chegavam, no máximo, aos 35. Outro mito que as pesquisas vêm derrubando é que os sambaquieiros eram nômades, indo de um lugar para outro assim que se encerravam os recursos naturais.

“Era uma civilização com estabilidade territorial e populacional. Um conjunto de sambaquis como os do sul de Santa Catarina podia reunir até 3 ou 4 mil habitantes”, conta Paulo. Para ele, uma ocupação dessa montada, por tanto tempo, só seria viável com um alto grau de complexidade social, que deveria incluir a divisão de tarefas e instituição de chefias regionais.
Nos sambaquis foram encontrados também esculturas e ornamentos feitos de pedra polida, que eram colocados junto aos corpos sepultados. Representando animais como o tatu e a baleia, esses objetos demonstram um delicado senso estético, que exigia habilidade especial.

Segundo Dione Bandeira, do Museu Nacional do Sambaqui, em Joinville, SC, é possível que houvesse pessoas designadas para produzi-los, até como algum tipo de ritual. Os sambaquieiros desapareceram há cerca de mil anos, com a chegada de povos agricultores vindos do planalto. “Eles provavelmente foram se afastando cada vez mais de seu local de origem, esquecendo suas tradições e se misturando ao conquistador”, descreve o arqueólogo da USP.

Os povos da Amazônia

A Amazônia foi o berço de culturas avançadas, que viveram mais de mil anos antes de Cabral chegar ao Brasil. Os registros mais antigos da presença dos homens na região foram descobertos pela arqueóloga norte-americana Anna Roosevelt, em 1996. Ela encontrou pinturas rupestres datadas de 11 mil anos, na região de Monte Alegre, PA.

 Na região da Ilha de Marajó, uma importante civilização se desenvolveu entre os anos 400 e 1300 d.C. A civilização marajoara dominava a agricultura e possuía aldeias que chegaram a abrigar 5 ou 6 mil habitantes. Os marajoaras eram excelentes engenheiros e construíram aterros artificiais que se elevavam até 12 metros acima do solo.

“Esses aterros exigiam a mobilização de um grande contingente de mão de obra e uma liderança constituída e respeitada”, afirmou o arqueólogo Eduardo Neves, da USP. Tal requinte se refletia na criação de sua cerâmica. De caráter cerimonial, seus desenhos correspondem ao mundo simbólico e religioso dos marajoaras. Eles desapareceram misteriosamente por volta de 1300.
Crédito: Reprodução

Mas a superpotência da época era a civilização tapajônica, que ocupava a região da atual cidade de Santarém, PA. Mesmo depois do contato com os europeus, ainda era uma das maiores e mais poderosas nações indígenas da Amazônia. Objetos de sua cerâmica foram localizados em lugares distantes, o que indica que havia contato intenso entre os tapajós e tribos vizinhas, incluindo comércio. Segundo Eduardo, havia um poder central exercido por chefe tapajó, reunindo várias tribos vizinhas. E algumas aldeias eram tão populosas que seus caciques podiam mobilizar até 60 mil homens para o combate.

 A Amazônia também foi o ponto de partida para a migração de um povo tecnologicamente avançado e conquistador, que levou ao declínio os brasileiros coletores e caçadores, e que se espalhou de forma inédita pelo país: os tupi. Partindo de onde hoje ficam os estados de Rondônia e do Amazonas, eles deixaram a região em duas levas principais: os tupi-guarani desceram o Rio Paraná e chegaram à região sul; os tupinambá seguiram pelo Rio Amazonas até sua foz e, dali, rumo ao sul pela costa.

Eles viviam em grandes aldeias, cujas populações chegavam a ter milhares de pessoas. “Se organizavam em chefaturas, isto é, uma reunião de tribos em que algumas aldeias seriam mais importantes e teriam influência sobre outras”, explica o professor e historiador Paulo Jobim. Segundo ele, as aldeias funcionavam como cidades, com famílias inteiras, com tios, primos, pais, avós e filhos vivendo numa mesma casa.

“A hierarquia das tribos era baseada no parentesco”, diz. Os espaços comuns desses lugares, normalmente na área central, eram dedicados às práticas religiosas e sociais. Eles conheciam a agricultura, principalmente a de hortaliças, de mandioca e de milho, e produziam cerâmicas práticas, principalmente para cozinhar. A guerra, além de demarcar territórios, era tida como oportunidade para o desenvolvimento de lideranças, que se baseavam sobretudo na coragem, na oratória e nos laços familiares.

 A expectativa de vida era curta, não ultrapassando os 40 anos de idade em média. Por isso, os mais idosos eram muito respeitados, ocupando papel de destaque na sociedade. A divisão do trabalho também era feita por sexos: os homens caçavam, as mulheres coletavam, cuidavam das crianças e do preparo do solo para a agricultura. Além disso, eram as responsáveis pela produção da arte em cerâmica.

 “Os guarani eram um povo conquistador e exclusivista”, descreve o historiador Pedro Schmitz. “Seus parentes tornavam-se aliados, mas outros povos eram considerados inimigos e expulsos, dizimados ou incorporados, às vezes, literalmente, já que eram antropófagos.” Os nossos descendentes que estavam na praia, naquela manhã de 22 de abril de 1500.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

A nova face de Luzia e do povo de Lagoa Santa

08 de novembro de 2018


Peter Moon  |  Agência FAPESP – A história do povoamento das Américas acaba de ganhar uma nova interpretação. O maior e mais abrangente estudo já feito a partir de DNA fóssil, extraído dos mais antigos restos humanos achados no continente, confirmou a existência de um único contingente populacional ancestral de todas as etnias ameríndias, passadas e presentes. 

A nova face de Luzia e do povo de Lagoa Santa Trabalho de 72 pesquisadores de oito países conclui que o povo de Lagoa Santa descende dos migrantes da cultura Clóvis, da América do Norte. Fisionomia marcadamente africana atribuída à Luzia estava incorreta (imagens: André Strauss e Caroline Wilkinson)

Há mais de 17 mil anos, os membros daquele contingente original cruzaram o estreito de Bering, da Sibéria para o Alasca, para então povoar o Novo Mundo. O DNA fóssil indica que os integrantes daquela corrente migratória tinham afinidade com os povos da Sibéria e do norte da China, ou seja, não possuíam DNA africano ou da Australásia, como indicava a teoria tradicional.
Uma vez na América do Norte, é o que revela o novo estudo, os descendentes daquela corrente migratória ancestral se diversificaram em duas linhagens há cerca de 16 mil anos. Os membros de uma das linhagens cruzaram o istmo do Panamá e povoaram a América do Sul em três levas consecutivas e distintas. 

A primeira dessas levas ocorreu entre 15 mil e 11 mil anos atrás e a segunda se deu há no máximo 9 mil anos. Há registros do DNA fóssil de ambas as migrações em todo o continente sul-americano. Uma terceira leva é bem mais recente e de influência restrita, pois se deu há 4,2 mil anos, e seus membros se fixaram nos Andes centrais.

O estudo foi publicado na revista Cell por um grupo de 72 pesquisadores de oito países,  pertencentes a instituições como a Universidade de São Paulo (USP), a Harvard University, nos Estados Unidos, e o Instituto Max Planck, na Alemanha.
Os resultados da pesquisa sugerem que, na linhagem de humanos a executar o trajeto norte-sul entre 16 mil e 15 mil anos atrás, seus membros pertenciam à chamada cultura Clóvis, o nome dado a um conjunto de sítios arqueológicos que têm entre 13,5 mil e 11 mil anos, todos situados no oeste dos Estados Unidos. 
Clóvis é o nome da pequena cidade no Novo México onde foram descobertas, nos anos 1930, as primeiras pontas de flecha de pedra lascada cujo formato se tornou um identificador da cultura homônima. Na América do Norte, a cultura Clóvis está associada à caça da megafauna pleistocênica, como preguiças gigantes e mamutes. 
Com o declínio e a extinção da megafauna, há 11 mil anos, aquela cultura eventualmente desapareceu. Muito antes disso, entretanto, bandos de caçadores-coletores, ao explorar novas áreas de caça cada vez mais ao sul, eventualmente acabaram por ocupar a América Central, como comprova o DNA fóssil de 9,4 mil anos de um humano de Belize analisado no novo estudo. 

Posteriormente, talvez em perseguição a manadas de mastodontes, bandos de caçadores-coletores Clóvis cruzaram o istmo do Panamá para invadir e se espalhar pela América do Sul, como evidenciam os registros genéticos de enterramentos humanos no Brasil e no Chile agora revelados. Tal evidência genética vem corroborar evidências arqueológicas conhecidas, como o sítio Monte Verde, no sul do Chile, onde humanos esquartejavam mastodontes há 14,8 mil anos.
Entre os diversos sítios Clóvis conhecidos, o único enterramento humano associado às ferramentas da cultura fica no estado de Montana. Lá foram achados os restos de um menino – apelidado de Anzick-1 – com cerca de 12,6 mil anos. O DNA extraído de seus ossos está relacionado ao DNA dos esqueletos do povo de Lagoa Santa, um grupo de humanos antigos que habitou o Brasil central – mais especificamente as grutas no entorno de Lagoa Santa (MG) – entre 10 mil e 9 mil anos atrás. Em outras palavras, o povo de Lagoa Santa descende em parte dos migrantes da cultura Clóvis da América do Norte. 

"Do ponto de vista genético, o povo de Lagoa Santa descende dos primeiros ameríndios”, disse o arqueólogo André Menezes Strauss, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP, que coordenou a parte brasileira do trabalho. 
"Surpreendentemente, os membros daquela primeira linhagem de sul-americanos não deixaram descendência identificável entre os povos ameríndios atuais. Em torno de 9 mil anos atrás, seu DNA desapareceu completamente das amostras fósseis. Foi substituído pelo DNA da primeira leva migratória, anterior à cultura Clóvis, da qual descendem todos os ameríndios vivos. Ainda não sabemos os motivos que levaram ao desaparecimento do estoque genético do povo de Lagoa Santa", disse. 

Uma possibilidade para o sumiço do DNA da segunda migração, encontrado no DNA do povo de Lagoa Santa, é que tenha se diluído em meio ao DNA dos ameríndios descendentes dos integrantes da primeira leva populacional, tornando-se não identificável pelos métodos atuais da pesquisa genética. 

De acordo com a geneticista Tábita Hünemeier, do Instituto de Biociências (IB) da USP, que participou da pesquisa, "um dos principais resultados do trabalho foi a identificação do povo de Luzia como sendo uma população geneticamente relacionada à cultura Clóvis, o que desfaz a ideia dos dois componentes biológicos, da possibilidade de ter havido duas migrações para as Américas, uma com traços mais africanos e a outra com traços mais asiáticos”. 

"O povo de Luzia seria resultado de uma leva populacional originária da Beríngia", disse, referindo-se à ponte de terra hoje submersa que, durante a era do gelo, quando o nível dos mares era muito mais baixo, ligava a Sibéria ao Alasca.

"De 9 mil anos para cá, os dados moleculares sugerem que houve uma substituição populacional na América do Sul. Os membros do povo de Luzia desapareceram, sendo substituídos pelos ameríndios atuais, muito embora ambos tenham tido uma origem comum, na Beríngia", disse Hünemeier.

Contribuição brasileira

O trabalho dos pesquisadores brasileiros contribuiu de forma fundamental para o estudo. Entre 49 indivíduos dos quais se extraiu DNA fóssil, sete esqueletos com idades entre 10,1 mil e 9,1 mil anos são provenientes da Lapa do Santo, um abrigo rochoso em Lagoa Santa. 
Aqueles sete esqueletos, ao lado de dezenas de outros, foram achados e desenterrados em campanhas arqueológicas sucessivas no local, lideradas primeiramente pelo antropólogo físico Walter Alves Neves, do IB-USP, e desde 2011 por Strauss. As campanhas arqueológicas movidas por Neves entre 2002 e 2008 foram financiadas pela FAPESP.

Ao todo, o novo estudo investigou o DNA fóssil de 49 indivíduos, provenientes de 15 sítios arqueológicos situados na Argentina (2 sítios, 11 indivíduos com idades entre 8,9 mil e 6,6 mil anos), Belize (1 sítio, 3 indivíduos, idades entre 9,4 mil e 7,3 mil anos), Brasil (4 sítios, 15 indivíduos, idades entre 10,1 mil e 1 mil anos), Chile (3 sítios, 5 indivíduos, idades entre 11,1 mil e 540 anos) e Peru (7 sítios, 15 indivíduos, idades entre 10,1 mil e 730 anos).

Os esqueletos brasileiros são provenientes dos sítios arqueológicos Lapa do Santo (7 indivíduos com cerca de 9,6 mil anos), do sambaqui Jabuticabeira 2 (5 indivíduos com cerca de 2 mil anos), que fica em Santa Catarina, e de dois sambaquis fluviais do Vale do Ribeira, no estado de São Paulo: Laranjal (2 indivíduos com cerca de 6,7 mil anos) e Moraes (1 indivíduo com cerca de 5,8 mil anos).
O arqueólogo Paulo Antônio Dantas de Blasis, do MAE-USP, foi o responsável pelo trabalho arqueológico no sambaqui Jabuticabeira 2, que também teve apoio da FAPESP por meio de um Projeto Temático.

As pesquisas nos sambaquis fluviais paulistas ficaram sob a responsabilidade do arqueólogo Levy Figuti, do MAE-USP, também com apoio da FAPESP
“O esqueleto de Moraes (5,8 mil anos) e o de Laranjal (6,7 mil anos) estão entre os mais antigos do Sul-Sudeste brasileiros. Eles apresentam uma situação estrategicamente singular ao estar entre o planalto e a costa, contribuindo significativamente para a compreensão do processo de povoamento da região Sudeste do Brasil”, disse Figuti. 

Esses esqueletos foram encontrados entre 2000 e 2005. Desde o início, representavam uma questão complexa, com mistura de características culturais interioranas e costeiras, e com análises sobre os esqueletos geralmente com resultados variados, exceto em um esqueleto, que foi diagnosticado como paleoíndio (ele ainda não teve sua análise de DNA completada).

“O estudo agora publicado representa um grande avanço na pesquisa arqueológica, aumentando exponencialmente o que sabíamos há poucos anos sobre a arqueogenética do povoamento da América”, disse Figuti. Mais recentemente, destaca-se a contribuição para a reconstrução da história humana na América do Sul por meio da paleogenômica, realizada por Hünemeier.

Genética ameríndia

Nem todos os restos humanos fósseis achados em alguns dos mais antigos sítios arqueológicos das Américas Central e do Sul pertencem a indivíduos geneticamente descendentes da cultura Clóvis. Há diversos sítios cujos habitantes não tinham o DNA associado à Clóvis.
"Isso mostra que, além da contribuição genética, a segunda leva migratória para a América do Sul, e que era relacionada à Clóvis, possivelmente também trouxe consigo princípios tecnológicos que seriam expressos nas famosas pontas rabo de peixe que são encontradas em grande parte da América do Sul", disse Strauss.

Até agora não se sabia quantas correntes migratórias humanas originárias da Ásia teriam adentrado as Américas no final da era do gelo, há mais de 16 mil anos. A teoria tradicional, formulada nos anos 1980 por Walter Neves e outros pesquisadores, dava conta de que teria havido uma primeira leva de humanos, cujos membros possuíam características africanas ou semelhantes aos aborígenes da Austrália. 

Foi de acordo com essa hipótese que se modelou a famosa reconstrução facial de Luzia, nome dado ao crânio de uma mulher que viveu em Lagoa Santa há 12.500 anos e, por isso, carinhosamente chamada de “a primeira brasileira”. 

O busto de Luzia com feições africanas foi composto a partir da morfologia de seu crânio, em trabalho realizado pelo especialista britânico Richard Neave, na década de 1990.
"Entretanto, a forma do crânio não é um marcador confiável de ancestralidade ou de origem geográfica. A genética, por outro lado, é a técnica que se presta por excelência a esse tipo de inferência", disse Strauss.

"Os resultados genéticos do novo estudo mostram de forma categórica que não existiu nenhuma conexão significativa entre as populações de Lagoa Santa e grupos da África ou da Austrália. Portanto, a hipótese de que o povo de Luzia representaria uma leva migratória anterior aos ancestrais dos indígenas atuais não se confirma. Pelo contrário, o DNA mostra que o povo de Luzia tem genética totalmente ameríndia”, disse. 

Um novo busto substitui o de Luzia no panteão científico brasileiro. Caroline Wilkinson, da Liverpool John Moores University, na Inglaterra, especialista em reconstrução forense e discípula de Richard Neave, realizou a reconstrução facial de um dos indivíduos desenterrados na Lapa do Santo. O trabalho foi feito a partir do modelo digital retrodeformado do crânio.

"Por mais acostumados que estejamos com a tradicional reconstrução facial de Luzia, com traços fortemente africanos, essa nova reconstrução facial reflete de forma muito mais precisa a fisionomia dos primeiros habitantes do Brasil, apresentando traços generalizados e indistintos a partir dos quais, ao longo dos milhares de anos, a grande diversidade ameríndia se estabeleceu”, disse Strauss.
O arqueólogo explica que o estudo publicado na Cell também apresenta os primeiros dados genéticos para os sambaquis da costa brasileira. 

"Esses monumentais montes de conchas foram construídos há cerca de 2 mil anos por sociedades populosas que ocupavam a faixa costeira do Brasil. O estudo do DNA fóssil de esqueletos enterrados nos sambaquis de Santa Catarina e de São Paulo mostra que esses grupos têm uma relação de proximidade genética com os indígenas atuais do Sul do Brasil, especialmente os grupos Kaingang”, disse. 

Segundo Strauss, a extração do DNA fóssil encontra muitos desafios técnicos, especialmente para material encontrado em clima tropical. A fragmentação extrema e a alta incidência de contaminação fizeram com que durante quase duas décadas diferentes grupos de pesquisas tentassem sem sucesso extrair o material genético dos ossos de Lagoa Santa. 
Foi graças a avanços metodológicos desenvolvidos pelo Instituto Max Planck que agora foi possível realizar a extração de DNA do povo de Lagoa Santa. E a depender do entusiasmo com que Strauss fala de sua pesquisa, ainda há muito por descobrir. 

"A partir de 2019, terá início a construção do primeiro laboratório de Arqueogenética do Brasil, uma parceria na USP entre MAE e IB, com financiamento da FAPESP. Quando estiver pronto, dará novo impulso às pesquisas sobre o povoamento da América do Sul e do Brasil", disse Strauss.  

"De certo modo, este trabalho muda não somente o que sabíamos sobre o povoamento, mas também muda consideravelmente o modo como estudar os restos esqueletais humanos”, disse Figuti.
Os primeiros restos humanos de Lagoa Santa, cerca de 30 esqueletos, foram encontrados em 1844, no fundo de uma gruta inundada, pelo naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund (1801-1880). Quase todos esses fósseis se encontram hoje no Museu de História Natural de Copenhagen, na Dinamarca. Um único crânio ficou no Brasil, doado por Lund ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, no Rio de Janeiro.

Povoamento aos saltos

No mesmo dia em que foi publicado o artigo na Cell (08/11), outro trabalho foi divulgado na revista Science, igualmente versando sobre DNA fóssil e as primeiras migrações humanas pelo continente americano. André Strauss é um dos autores.

Entre os 15 esqueletos antigos dos quais foi coletado material genético, cinco pertencem à Coleção Lund, de Copenhagen. Suas idades situam-se entre 10,4 mil e 9,8 mil anos. São os mais antigos da amostra, ao lado de um indivíduo de Nevada, com 10,7 mil anos. 

A amostra reúne material fóssil de restos humanos antigos achados no Alasca, Canadá, Brasil, Chile e Argentina. O resultado da investigação molecular sugere que o povoamento das Américas pelos primeiros grupos humanos vindos do Alasca não foi simplesmente um movimento de ocupação gradual do território simultâneo à expansão populacional. 

Segundo os pesquisadores responsáveis pelo estudo, os dados moleculares sugerem que os primeiros humanos a invadir o Alasca, ou então o vizinho Yukon, dividiram-se em dois grupos. Isso ocorreu entre 17,5 mil e 14,6 mil anos atrás. Um grupo colonizaria a América do Norte e a América Central. O outro dominaria a América do Sul.

A seguir, a ocupação das Américas teria ocorrido de forma rápida e aos saltos, com pequenos bandos de caçadores-coletores percorrendo grandes distâncias para se fixarem em novos ambientes até atingirem a Terra do Fogo. Todo esse movimento durou um ou no máximo dois milênios.
Entre os 15 indivíduos que tiveram seu DNA analisado, três dos cinco de Lagoa Santa guardam em seu material genético traços de DNA da Australásia – como sugere a teoria da ocupação da América do Sul defendida por Walter Neves. Os pesquisadores não sabem explicar a origem daquele DNA australásio e como ele foi parar apenas e tão somente em alguns indivíduos de Lagoa Santa. 
"O fato de a assinatura genômica da Australásia estar presente há 10,4 mil anos no Brasil, mas ausente em todos os genomas testados até hoje, tão antigos ou mais antigos, e achados mais ao norte, apresenta um desafio ao considerar sua presença em Lagoa Santa”, disseram. 

Para Strauss, a existência desse traço de DNA australásio é difícil de explicar. "O componente australásio nos três indivíduos de Lagoa Santa é quase negligenciável. É menos de 2% do DNA amostrado. No momento, é muito difícil dizer qual a sua origem”, disse. 

Ao longo do século 20, outros fósseis foram coletados, entre eles o crânio de Luzia, nos anos 1970. Quase uma centena de crânios escavados por Neves e Strauss nos últimos 15 anos se encontram atualmente na USP. Outros tantos fósseis estão guardados na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. 

Mas a grande maioria dessas preciosidades osteológicas e arqueológicas, talvez mais de 100 indivíduos, estava depositada no Museu Nacional, e foi presumivelmente consumida no incêndio que devastou aquela instituição em 2 de setembro.
O crânio de Luzia estava exposto no Museu Nacional ao lado do busto com suas feições feito por Neave. Temia-se que o crânio tivesse sido destruído no incêndio, mas felizmente foi uma das primeiras peças do museu recuperadas dos escombros. Mesmo que fragmentado, o crânio de Luzia sobreviveu. Já o busto original (do qual há várias cópias), esse se perdeu no fogo.

O artigo Reconstructing the Deep Population History of Central and South America, de Cosimo Posth, André Strauss e outros, pode ser lido em: www.cell.com/cell/fulltext/S0092-8674(18)31380-1.

Veja mais fotos

domingo, 21 de abril de 2019

Geneticista afirma: Povo de Luzia veio da América do Norte

O geneticista Nathan Nakatsuka conta como suas descobertas mudam o que sabemos sobre o povoamento da América do Sul e os ancestrais dos índios

Alana Sousa Publicado em 07/02/2019, às 17h00 - Atualizado às 17h13
AddThis Sharing Buttons


A descoberta utilizou também de análise de DNA para sua conclusão
Getty Images
A questão de como os seres humanos colonizaram a América gera controvérsias há décadas. Enquanto a teoria mais aceita é de que vieram há 14 mil anos pelo estreito de Bering, uma outra hipótese, defendida principalmente no Brasil, defende que os humanos já habitavam estas terras há 36 mil anos e a migração asiática, da qual descendem os índios atuais, veio depois.

Parte dessa hipótese é de que Luzia, fóssil humano mais antigo encontrado na América do Sul, com cerca 13 mil anos, é originada de migrações vindas da Austrália ou da África . Agora, um estudo que reuniu importantes estudiosos pretende mostrar que, na verdade, a origem dos povos da América Central e do Sul vem da “Civilização de Clóvis”, uma cultura que originou os índios nativos da América do Norte e que serve como principal prova da hipótese asiática.
Lapa do Santo Reprodução

Cultura Clóvis

A civilização de Clóvis foi chamada assim por causa de “pontas de lança” encontradas perto da cidade de Clóvis (Novo México). Esses artefatos eram usados para caçar mamutes. A tese tradicional é que o povo de Clóvis consistiu nos primeiros habitantes do Novo Mundo.

Um dos principais autores do estudo, Nathan Nakatsuka, aluno de doutorado no David Reich - Laboratório da Escola Médica de Harvard, conversou com a AH sobre as recentes descobertas. “Acreditava-se que a cultura de Clóvis fosse restrita apenas à América do Norte. Nosso estudo mostrou que a ancestralidade genética do povo chegou até a América do Sul”, conta o autor.

O estudo

O estudo usou de amostras do sítio da Lapa do Santo, um dos maiores do Brasil, para provar que os indivíduos vindos de lá não são geneticamente relacionados a qualquer grupo de fora da América. Sobre a possibilidade do sítio de Lagoa Santa, local onde o fóssil de Luzia foi encontrado, ter uma semelhança genética com a Lapa do Santo, Nakatsuka diz: “Os indivíduos da Lapa do Santo e, provavelmente, também os indivíduos de Lagoa Santa tinham afinidade genética com o indivíduo associado à cultura Clovis. Ainda não podemos ter certeza, pois não temos o DNA de Luzia. Se ela está relacionada com os indivíduos da Lapa do Santo, então seria verdade que ela tem uma relação genética mais próxima com o indivíduo Anzick-1 associado à cultura Clovis”.

Seria então Luzia uma descendente da cultura Clovis? Essa hipótese foi levantada e descartada por arqueólogos algumas vezes, há ainda muitas lacunas a serem preenchidas, para afirmar que Luzia está ligada ao grupo da Lapa do Santo, os arqueólogos precisariam saber a rota exata da chegada das primeiras pessoas ao Brasil.
Lagoa SantaReprodução
A pesquisa de Nathan Nakatsuka tem uma grande importância para o mundo arqueológico, como o autor nos conta, foi primeira vez que algumas das pessoas iniciais na América Central e na América do Sul tinham uma afinidade distinta com o indivíduo Anzick-1, da cultura Clóvis: “Fornecemos mais evidências de que as pessoas iniciais que entravam na América do Sul irradiavam rapidamente, elas eram caçadores-coletores, provavelmente se separando rapidamente em busca de novas fontes de alimento”. E complementa que foi possível observar que o povoamento da América do Sul foi muito complexo: “As pessoas provavelmente eram muito inovadoras, adaptando-se rapidamente a novos ambientes para conseguir comida e sobreviver em condições muito diferentes”.

Um grande aliado dos estudiosos nessa descoberta foi o avanço tecnológico, que em ambientes difíceis se torna essencial, permitindo analisar dados para determinar as mudanças biológicas que aconteceram ao longo do tempo e começar a colher melhores amostras de regiões com condições ambientais extremas.

“Estamos procurando amostras de novos lugares e diferentes períodos de tempo na América do Sul, como Caribe, Colômbia, outras partes e períodos de tempo do Brasil, Argentina, Equador, os maiores impérios no Peru e na Bolívia, Chile e muitas outras regiões”, finaliza em tom otimista o autor.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Descoberta arqueológica em Minas Gerais revela práticas funerárias pré-históricas no Brasil

A descoberta de 39 esqueletos humanos na região de Lagoa Santa indica que os povos que viviam no território do país tinham hábitos mais complexos do que se imaginava.

Por BBC

  Os esqueletos encontrados na Lapa do Santo indicam que os povos que viviam ali eram muito mais complexos do que se imaginava — Foto: André Strauss/Divulgação 
Os esqueletos encontrados na Lapa do Santo indicam que os povos que viviam ali eram muito mais complexos do que se imaginava — Foto: André Strauss/Divulgação 

A descoberta de 39 esqueletos humanos, com idades entre 8 mil e 11 mil anos na região metropolitana de Belo Horizonte, está ajudando a redefinir o que se sabia sobre os primeiros brasileiros. O achado ocorreu na Lapa do Santo, uma pequena caverna no município de Lagoa Santa.
São os ossos mais antigos do Brasil e revelam que, ao contrário do que se pensava até agora, os povos que viviam no local naquela época eram complexos e tinham práticas funerárias altamente elaboradas. 

A novidade é resultado do projeto Morte e vida na Lapa do Santo: uma biografia arqueológica dos povos de Luzia, coordenado pelos pesquisadores André Strauss, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE), e Rodrigo de Oliveira, do Instituto de Biociências (IB), ambos da Universidade de São Paulo (USP). 

É um trabalho de pesquisa interdisciplinar, que tem como objetivo caracterizar como viviam as populações que estavam no Brasil central durante o Holoceno Inicial (Holoceno é o período geológico que começou há 11.500 anos e se estende até o presente).
De acordo com Strauss, os esqueletos desencavados eram de idosos, crianças, homens e mulheres. "Todos tinham sinais de rituais mortuários", revela. 

"Alguns estavam queimados, outros pintados de vermelho e alguns combinavam crânios de crianças com corpos de adultos, ou dentes de uma pessoa com a arcada de outra. O que chamou a atenção também é que esses sinais variavam dependendo da idade arqueológica dos ossos. Isso pode significar que os povos que habitavam a região alteraram sua forma de tratar os corpos dos mortos ao longo do tempo. Essa descoberta é inédita na arqueologia brasileira."

Os primeiros americanos

  A região tem dezenas de sítios arqueológicos que vêm sendo escavados e pesquisados desde 1843 — Foto: André Strauss/Divulgação 
A região tem dezenas de sítios arqueológicos que vêm sendo escavados e pesquisados desde 1843 — Foto: André Strauss/Divulgação 

A região onde trabalham os arqueólogos, Lagoa Santa, está entre as mais ricas em restos de culturas pré-históricas do Brasil. Ali, dezenas de sítios arqueológicos vêm sendo escavados e pesquisados desde 1843, quando o naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund (1801-1880), considerado o pai da paleontologia brasileira, descobriu ossadas humanas misturadas com as de animais já extintos. Desde então, centenas de crânios e outros ossos humanos foram desenterrados do local. 

Entre eles, o mais antigo de que se tem registro no Brasil, com 11.300 anos, descoberto em 1974, pela arqueóloga francesa Annette Laming-Emperaire, no sítio chamado Lapa Vermelha IV.
Como era de um indivíduo do sexo feminino, foi batizada de Luzia pelo bioantropólogo Walter Alves Neves, também da USP, que foi orientador de Strauss e Oliveira, que agora dão continuidade ao seu trabalho. 

Em 1995, ele fez medidas antropométricas do crânio, que mostraram que Luzia tinha mais a ver com os africanos do que com os índios atuais.
Com base nisso e em outras descobertas, ele elaborou sua hipótese para a ocupação das Américas, apresentada no livro O povo de Luzia - em busca dos primeiros americanos, em coautoria com o geógrafo Luís Beethoven Piló. 

A hipótese propõe que os primeiros americanos chegaram ao continente em duas levas migratórias, uma há 14 mil anos e a segunda há 11 mil, vindas da Ásia pelo estreito de Bering. A primeira seria composta por uma população com traços semelhante aos dos africanos e aborígines australianos. A segunda era de indivíduos parecidos com asiáticos e índios americanos atuais.
Ao longo do tempo, os dois povos se miscigenaram no novo mundo. 

Para outros estudiosos, no entanto, os indígenas atuais ou ameríndios e os primeiros que chegaram à região de Lagoa Santa fazem parte de um mesmo tipo, cujas diferenças morfológicas podem ser explicadas pela variabilidade natural que existe dentro de qualquer população. A pesquisas de Strauss e Oliveira poderão ajudar a elucidar a questão. 

Segundo Strauss, o projeto segue em pleno andamento com a escavação da Lapa do Santo e a análise do material encontrado. "Isso inclui estudos morfológicos, de microvestígios, isótopos, datação, antropologia virtual, micromorfologia e DNA", conta. 

"Até o momento, nossos estudos não dialogam diretamente com o tema dos primeiros americanos. Quando sair o resultado do DNA poderemos determinar se o modelo dos dois componentes está correto ou não."
  
As escavações realizadas até agora já revelaram vários aspectos dos grupos, desconhecidos até agora — Foto: André Strauss/Divulgação 
 
As escavações realizadas até agora já revelaram vários aspectos dos grupos, desconhecidos até agora — Foto: André Strauss/Divulgação

Práticas funerárias surpreendentes

As escavações realizadas até agora já revelaram, no entanto, vários aspectos dos grupos que eram desconhecidos até agora. "Apesar das centenas de esqueletos exumados em Lagoa Santa em quase dois séculos de pesquisa, muito pouco foi discutido em relação às práticas funerárias na região", diz Strauss. 

"De acordo com as poucas descrições disponíveis na literatura, elas sempre foram caracterizadas como simples e homogêneas, incluindo apenas enterros primários de um único indivíduo e sem nenhum tipo de acompanhamento funerário." 

As descobertas de Strauss e Oliveira mudam radicalmente esse quadro. De acordo com eles, os sepultamentos da Lapa do Santo tinham uma alta variabilidade, o que contradiz a visão tradicional sobre as práticas mortuárias na região. 

"Além dessa retificação histórica, a diversidade delas no local ganha relevância, porque contraria a homogeneidade de outros componentes do sítio, tais como os artefatos de pedra, os remanescentes faunísticos, a morfologia craniana e a própria composição da matriz sedimentar."
Segundo Strauss, os sepultamentos também permitem inferir que ao longo do Holoceno Inicial grupos distintos que, possivelmente, não se reconheciam como parte de um mesmo povo habitaram a região. "Na ausência de mais datações diretas para os esqueletos, não é possível descartar a hipótese de que, em um mesmo momento, diferentes povos tenham ocupado a região", acrescenta.
Simplificando, ele diz que é possível que, durante o Holoceno Inicial, não tenha existido "um único 'povo de Luzia'", expressão cunhada por Walter Neves para se referir aos grupos humanos que habitaram a região de Lagoa Santa na época, "mas sim muitos 'povos' e muitas 'Luzias', cada um único em suas idiossincrasias simbólicas, culturais e, por que não, linguísticas".
"Assim, o registro funerário da Lapa do Santo contribui para retratar uma pré-história plural e dinâmica, onde a diversidade é a regra e elemento interpretativo fundamental", diz.

'Estou em luto profundo', diz o 'pai' de Luzia após perda de fóssil em museu

Crânio mais antigo do Brasil estava no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, durante o incêndio




Karina Gomes - Paris 
 
Há 20 anos, o antropólogo e arqueólogo Walter Alves Neves revelava Luzia ao mundo. Foi esse o apelido que o pesquisador deu ao esqueleto humano mais antigo do Brasil e que revolucionou as teorias científicas sobre a ocupação do continente a partir de 1998.

crânio de Luzia, ícone da pré-história brasileira, estava no Museu Nacional do Rio de Janeiro durante o incêndio no último domingo (2). O fóssil estaria sob uma área com escombros, e técnicos do museu não conseguiram acessar o local. 

​ “É uma perda irreparável”, diz Neves ao ressaltar o impacto devastador da destruição do acervo nas pesquisas sobre a evolução humana nas Américas e no Brasil.
O crânio do fóssil Luzia e a imagem de sua face reconstituída
O crânio do fóssil Luzia e a imagem de sua face reconstituída - Associated Press
O fóssil de mais de 11.000 anos encontrado entre 1974 e 1975 na região de Lagoa Santa, em Minas Gerais, garantiu reconhecimento internacional à teoria de Neves de que o continente americano foi ocupado por duas levas migratórias de homo sapiens vindos do nordeste da Ásia –a primeira dos antepassados de Luzia, que tinham traços africanos e australianos, e a segunda, de ameríndios com morfologia mongoloide, semelhante a dos indígenas atuais.

Com o chamado ‘modelo dos dois componentes biológicos’, Neves desafiou o modelo hegemônico de ocupação única do continente pelo povo de Clóvis, a partir do Novo México, nos Estados Unidos. “A popularidade que a Luzia ganhou na mídia fez com que a comunidade científica levasse a sério a minha teoria sobre os primeiros americanos”, diz o professor aposentado do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP).

O nome dado à jovem paleoamericana, que morreu com cerca de 20 anos de idade, seria uma versão abrasileirada de Lucy, o fóssil de hominídeo mais antigo do mundo, com 3,2 milhões de anos. O “pai de Luzia” diz estar em luto profundo pela “tragédia anunciada” no Museu Nacional, que descreve como um “crime contra o Brasil e a humanidade”. 

Folha - Qual é o impacto da perda do crânio de Luzia para a ciência? 

Walter Alves Neves - Esse incêndio representa um crime contra o Brasil e contra a própria humanidade. Além da Luzia, o museu tinha a maior coleção de esqueletos dos primeiros americanos oriundos da região de Lagoa Santa. O estudo sobre esses povos precisa passar necessariamente por esse material, e a maior parte dele estava no museu. Isso vai afetar negativamente o trabalho de gerações de cientistas que queiram entender a evolução humana no continente.

Como a análise do fóssil de Luzia ajudou a confirmar a sua teoria sobre o povoamento das Américas, que já vinha sendo formulada desde a década de 1980? 

A Luzia deu visibilidade para as nossas pesquisas no Brasil e no exterior. Antes, acreditava-se que a América tinha sido povoada por apenas um tipo de população, sob o modelo da migração única. A partir dos meus estudos com os esqueletos de Lagoa Santa e também outros na América do Sul e Mesoamérica, ficou claro que a América foi ocupada por duas populações com morfologias completamente distintas e em momentos diferentes. Os antepassados de Luzia –com formato craniano semelhante ao de africanos e australianos– chegaram às Américas há 14.000 anos pelo nordeste da Ásia através do Estreito de Bering, que liga os oceanos Pacífico e Ártico, mas não deixaram descendentes. Dois milênios mais tarde, vieram os ameríndios com morfologia mongoloide, que é a da maior parte dos índios atuais.
O bioantropólogo Walter Neves
O bioantropólogo Walter Neves - Karime Xavier/Folhapress
O esqueleto de Luzia foi encontrado na gruta Lapa Vermelha 4, no município de Pedro Leopoldo (MG) a 12 metros de profundidade. Por que ele é tão singular? 

O esqueleto de Luzia não foi encontrado por mim, mas pela missão franco-brasileira liderada pela arqueológoga francesa Annette Laming-Emperaire, que morreu de forma repentina poucos anos depois da descoberta. O esqueleto de Luzia ficou guardado por duas décadas no acervo do Museu Nacional sem que houvesse estudos ou publicações relevantes. Em 1995, eu comecei a analisar a morfologia craniana de Luzia. Em Lagoa Santa, encontramos mais de 40 esqueletos datados entre 8.000 e 10.000 anos, que são raríssimos. O da Luzia, com mais de 11.000 anos, era singular. É uma perda irreparável.

outras pesquisas recentes com os fósseis de Lagoa Santa? 

Sim. Um ex-estudante do instituto está tentando extrair o DNA de fósseis encontrados no local. Se ele conseguir extrair bem esse material de DNA, poderá ou não –mas estou otimista– confirmar o meu modelo de ocupação das Américas. A Luzia e outros crânios que foram encontrados nas Américas confirmaram a minha hipótese. O sucesso midiático de Luzia permitiu que a minha teoria chegasse à comunidade científica internacional, que passou a levar a sério o que vinha sendo dito por mim desde a década de 1980.

Restou algum material relacionado ao crânio de Luzia? 

Tenho uma cópia da reconstituição facial e que está comigo na USP. A reconstituição feita pelo antropólogo britânico Richard Neave confirmou a minha análise de que Luzia tinha traços africanos e australianos com uma morfologia craniana muito diferente da dos indígenas atuais. Há três meses, o Museu Nacional doou uma réplica do crânio de Luzia feita com impressoras 3D à Prefeitura de Pedro Leopoldo. Houve uma solenidade para marcar o ‘Dia de Luzia’ [a homenagem instituída em 2016 é feita todos os anos no dia 14 de junho]. Mas é só uma réplica. Não dá para extrair DNA, por exemplo. Diante dessa catástrofe, o crânio de Luzia é só um pequeno exemplo do que perdemos.

 O incêndio no Museu Nacional era uma tragédia anunciada?

Foi uma negligência de décadas de ausência do poder público e, portanto, uma tragédia anunciada. Todos os que conheciam o museu por dentro sabiam que essa não era uma questão de se aconteceria, mas de quando iria ocorrer. O museu foi relegado às traças pelo poder público. Estou em luto profundo. Todos os que fizeram pesquisas no acervo sabiam que o museu não tinha condições de funcionar em termos de infraestrutura. O incêndio é resultado do acúmulo do descaso do poder público.